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a beleza salvará o mundo? 
breve introdução à relação entre estética e teologia 
caderno de apontamentos para a academia de verão 
rui fernandes sj  

 
ESTÉTICA EM SENTIDO FILOSÓFICO E ARTÍSTICO 
1. PRIMEIRO CONTRIBUTO: SOBRE A UNIDADE ENTRE ESTÉTICA E ÉTICA 
 
A  palavra  ​estética  ​liga-se  a  duas  noções  importantes:  (1)  ​sensibilidade  (ou  seja,  aos 
sentidos e emoções) e (2) ​percepção (ou seja, à compreensão e inteligência). Portanto, a noção 
de  estética  interessa-se  tanto  pelas  emoções provocadas por um objecto/situação como pelas 
ideias que daí decorrem. 
 

  
 
A  relação  com  o  mundo  tem,  por  isso, uma ​dimensão estética​: ou seja, apercebemo-nos 
das  formas  das  coisas  (sejam  elas sons, cores, linhas, texturas, movimentos, sabores, cheiros), 
e  elas  deixam  marcas  em  nós.  Ora,  os  seres  humanos  também  são  construtores  de  objectos, 
nomeadamente objectos artísticos.  
No  mundo  grego,  as  artes  eram  valorizadas,  antes  de  mais,  pela  sua  capacidade  de 
imitar  o  mundo​.  Neste  sentido,  os  artistas  eram  vistos,  em  primeiro  lugar,  como  ​artesãos​: 
pessoas  que  dominavam uma técnica que permitia ​representar ​(ou imitar) ​as coisas como elas 
são. 
Porém,  os  artistas  também  são  capazes  de  inventar  novas  imagens.  Esta  capacidade 
não  está  isenta  de  riscos.  A  invenção  é  uma  mais-valia  para  a  tecnologia  e  ciência  (cria novos 
instrumentos,  novas  técnicas  de  produção,  resolve  problemas  práticos)  mas  também pode ser 
uma  problema  público.  Inventar  pode  ser  sinónimo  de  mentir  («estás  a  inventar...»)  ou  de  ir 
contra a ordem pública. 
Autores  como  Platão  e  Aristóteles  perceberam  bem  o  poder  da  estética:  a  arte  tem  um 
impacto  profundo  na  nossa  forma  de  pensar,  mas  também  na  forma  de  sentir  e  de  agir.  As 
obras  de  arte  (e,  portanto,  os artistas), são capazes de veicular ideias e suscitar sentimentos. O 
problema  é:  e  se  uma  obra  de  arte  nos  fizer  amar  uma  mentira?  Não  será  isso  um  perigo  para 
vida comum?1  

1
​Hoje em dia, com a questão das ​fake news​, esta questão dificilmente poderia ser mais actual. 
 
2 - 
Platão  e  Aristóteles  viram  bem  a  gravidade  da  questão,  mas  adoptaram  respostas  um 
tanto  diferentes.  Para  ambos,  o  problema  merecia  uma  resposta  política:  (1)  são  necessários 
bons políticos e legisladores para impôr limites aos artistas; (2) para o fazer, os políticos devem 
ser  pessoas  eruditas  e  virtuosas,  para  poderem  distinguir  entre  o  que  é  bom/belo  e  mau/feio. 
Mas,  enquanto,  para  Platão,  o  bem/belo  estão  inscritos  na  essência  das coisas (ou seja, existe 
um  ​bem/belo  único,  verdadeiro  e  universal​),  Aristóteles  percebe  que  há  uma  dimensão 
histórica  e  social  (ou  seja,  diferentes  comunidades  podem  ter  códigos  morais  e  estéticos 
próprios).  Em  qualquer  dos  casos,  ambos  concordam  nisto:  não  se pode separar a moral/ética 
da estética. 
Esta  ideia  de  unidade  entre  ética  e  estética  era  reforçada  pela  concepção  geral  que 
tinham  do  universo.  A  realidade  não  é  caótica: o universo rege-se por leis bem definidas. Existe 
uma  ordem  lógica  e  matemática  que  rege  o  cosmos.  Essa  ordem  garante  a  harmonia  e 
estabilidade  das  coisas.  Para  ser  estável,  essa  ordem  deverá  ser  constante/  imutável:  deverá 
ser  sempre  a  mesma  para todos os sítios e em todos os momentos. Ou seja, deverá ser eterna.
2
  É  daqui  que  resultam  os  princípios  seja  para  a  política,  seja  para  a  ética,  seja  para a estética: 
tudo deve estar ​bem ordenado​, respeitando as p ​ roporções das coisas​, com ​harmonia​.  
Esta  concepção  de  uma  harmonia  global  teve  várias  consequências  para  a  estética. 
Desde  logo,  a  noção  de  ​ser  artista​:  bom  artista  é  aquele  que  observa  esta  ordem  global  (uma 
ordem  metafísica,  física,  política  e  moral).  Em  seguida,  as  próprias  regras  de  como  fazer  «boa 
arte»:  proporção  entre  formas;  a  escolha  e  uso  das  cores;  o  significado  das  formas  (e  dos 
sons). 
 
 
2. SEGUNDO CONTRIBUTO: O DEBATE ENTRE RAZÃO E SENSIBILIDADE 
 
Os  séculos  XV-XIX  trouxeram  novos  ingredientes  a  esta  reflexão.  Numa  primeira  fase, 
houve  uma  preocupação  de  regressar  às  grandes  obras  do  passado  clássico.  Os  artistas  e 
intelectuais  procuraram  redescobrir  textos  e  obras-primas  do  passado.  Personagens,  temas, 
estilos  e  técnicas  foram  reapropriados  pelos  artistas.  Ao  mesmo  tempo,  no  campo  das 
ciências,  inaugurava-se  outro  método  de  investigação:  novos  instrumentos  de  observação, 
novas  formas  de  medição  dos  fenómenos,  uma  atitude  de  dúvida  (ou,  dir-se-ia,  de  sentido 
crítico)  que  obrigava  a  uma  constante  pesquisa  e  escrutínio  dos  resultados.  Tal  como  os 
antigos,  havia  a  convicção  de  que  o  cosmos  é  regido  por  leis  lógicas;  tal  como  os  antigos, 
crê-se  que  a  proporção  e  a  harmonia  garantem  beleza  às  formas.  Mas,  ao  contrário  dos 
antigos,  que  pensavam  que  as  elites  políticas  poderiam  fazer  esse  trabalho,  agora  percebe-se 
que  as  elites  por  vezes  erram  e  que,  por  isso,  é  necessário  encontrar  outras  maneiras  de 
descobrir  essas  ‘certezas  cósmicas’,  e  o  instrumento  fundamental para o fazer é a ​razão​. O ser 
humano  pode,  através  da  razão,  descobrir  as  leis  que  regem  o  cosmos.  Antes  havia  a 
autoridade  dos  sábios  a  ensinar;  agora  havia  o  ​rigor  do  método  a  guiar  a  pesquisa  (na ciência 
como na arte). 
A  filosofia  teve  um  papel  muito  importante  nesta  reflexão  e  viragem  de  paradigma. 
Bacon  e  Descartes  deram  o  pontapé  de  partida,  mas  foi  Kant  que  deu  a  estocada  final.  Kant 

2
​Simplificando imenso (para quem se interessar por estas coisas): também aqui se nota uma diferença de fundo entre Platão e 
Aristóteles.  O  primeiro  pensa  essa  ordem  em  termos  abstractos,  como  uma  ideia  eterna  e  universal  que  tudo  governa  - 
portanto,  uma  noção  antes  de  tudo  ​filosófica​.  Já  para  Aristóteles,  esse  ​ser  primordial  ​(o  motor  imóvel)  não  se  pode  desligar 
dos processos históricos e físicos. O s ​ er ​dá ‘vitalidade’ às coisas, mas elas têm que agir​ ​para realizarem o seu potencial. 
 
3 - 
tentou  mostrar  as  condições  que  nos  permitem  ​conhecer  as  coisas  sem  erro​,  de  forma 
racional.  Porém,  a  sua  explicação  mudou  radicalmente  a  nossa  forma  de  percebermos  o 
mundo.  Até  aí  pensava-se  que  o  conhecimento,  como  a  pintura,  ​imitava  a  realidade  (ou  seja, 
achávamos  que  conhecíamos  as  coisas ​como elas são, de facto​). Mas Kant dirá que não é bem 
assim.  A  nossa  inteligência  tem  ​limites​:  nós  conhecemos  o  mundo  segundo  os  limites  da 
nossa  razão.  Portanto,  nós  não  imitamos  o  mundo,  nós  ​representamo-lo  (ou  seja,  fazemos 
imagens  ​aproximadas​).  Por  isso,  há  uma  fronteira  entre  as  ideias  e  as  coisas.  É  por  isso  que 
nos enganamos; é por isso que precisamos de método. 
Kant  tentou  abrir  caminho  para  a  certeza,  através  da  razão,  mas  na  verdade  o  que  ele 
mostrou  foi  que  a  certeza  tem  um  limite  fundamental:  a  nossa  própria  razão!  Simplificando:  a 
razão permite-nos conhecer o mundo, mas não de forma perfeita/completa.  
A  pouco  e  pouco,  começa  a  acentuar-se  a  ruptura  entre  razão  e  emoção.  Ciência, 
indústria  e  economia  abraçam  a  razão  e  preconizam  a  construção  de  uma  sociedade  racional, 
próspera  e  ordeira  (e,  sem  dúvida,  o  crescimento  tecnológico  foi/é  uma  mais-valia).  A  arte  (e, 
por  vezes,  a  própria  religião)  ficou  conotada  com  o  sentimento.  Os  artistas  preocuparam-se 
cada  vez  mais  com  o  sofrimento,  à  medida  que  experimentam  outras  dimensões  (cores  e 
temas).  Com  os  antigos,  a  arte  era  avaliada  em  termos  de  perfeição  técnica  e  justiça  moral. 
Agora passava a ser avaliada (e desvalorizada pelo racionalismo) em termos de ​gosto pessoal​. 
 
 
 
3. TERCEIRO CONTRIBUTO: SEPARAÇÃO ENTRE ESTÉTICA E ÉTICA 
 
Com  a  separação  entre  razão  e  emoção,  deu-se  também  uma  separação  entre  ética  e 
estética.  Segundo  os  padrões  antigos  e  clássicos,  a  beleza  estava  associada  à  ideia  de 
proporção  e  simetria.  As  obras  (e  os  artistas)  visavam  o  ​eterno  e ​universal​. Embora não faltem 
exemplos  de  obras  subversivas  (desde  os  graffitis  pornográficos  de  Pompeia  até  às  canções 
de  escárnio  e  maldizer  -  com  figuras  e  termos  nem  sempre decorosos), a tendência geral era a 
moralização  pela  arte.  A  arte  deveria  elogiar  o  bem  e  condenar  o  mal.  O  ​bom  gosto  ​puritano 
continuava  a  associar  a  beleza  ao  respeito  pelos  bons  costumes.  Contudo,  foi  crescendo  um 
fascínio  pelos  aspectos  sombrios  da  existência  (o  ​locus  horrendus  dos  artistas românticos). O 
feio  e  o  mal  começaram  a  entrar  no  vocabulário  das  artes.  Com  Nietzsche,  esta  perspectiva 
encontrou um aliado de peso. 
Em  obras  como  ​Origem  da  Tragédia,  Anticristo  e,  sobretudo,  ​Para  além  do bem e do mal​, 
o  filósofo  alemão avançava com a ideia de que a moral religiosa (mas não só) teria pervertido o 
sentido  original  das  noções  de  bem  e  de  mal.  Segundo  ele,  a  religião  tem  ódio  à  vida.  Em 
estado  ‘normal’,  a  vida  é  feita  de pulsões - violentas e pacíficas. São elas que nos movem e nos 
fazem  lutar  por  objectivos  (comida;  terras;  carreiras;  relações).  Os  fortes  lutam  e  conquistam, 
ao  passo  que  os  fracos  encolhem-se,  lamentam-se  e perdem. O cristianismo teria fomentado a 
inveja  dos  fracos  contra  os  fortes,  em  vez de espicaçar nos fracos a vontade de lutar pela vida. 
Todos  os  desejos  de  força e de vontade de viver (prazer, ambição, competitividade) teriam sido 
condenados  pelo  cristianismo.  Ora,  Nietzsche  via  neste  ‘elogio  da  fraqueza’  uma  coisa 
antinatural  e  doentia.  Era  preciso  abandonar  esta  moral  cristã  para  regressar  a  uma moral que 
respeita  a  natureza  humana:  que  vive  e  morre,  que  ama  e  odeia,  que  sonha  e  se  desilude,  que 
luta  e  se  arrisca  a  perder.  Nietzsche  está  consciente  da  necessidade  de  regras,  para  haver 

 
4 - 
sociedade,  mas  frisa  que  estas  regras  são  apenas  fruto  de  uma  ​decisão  comunitária​:  não têm 
origem divina nem ontológica, são apenas funcionais. 
Para  ele,  esta  perversão  moral  (que  reprime  os  instintos  de  força e de poder) nota-se na 
forma  de  conceber  a  arte  e  a  estética.  A  estética  da  repressão  valoriza  a  ordem,  a  calma,  a 
racionalidade  (normalmente  debaixo  da  alçada  de  uma  hierarquia  que  quer  manter  o  controlo 
da  ​carneirada​),  enquanto  que  a  estética  da  pulsão  valoriza  as  paixões,  os  impulsos,  a 
espontaneidade.  Para  ele,  a  arte  vive  de  uma  tensão  entre  ​repressão  ​e  ​pulsão​,  na  medida  em 
que nos deixa ver as paixões garantindo porém uma certa ordem e protecção.3 
O  que  se  vai  tornando  claro,  em  muitos  artistas  e  pensadores,  é  um  desejo  de 
emancipação  em relação às tradições. O que antes era visto como ‘descido dos céus’ era agora 
tido  como ‘produto histórico de comunidades’. Se as tradições são feitas pelos homens, porque 
não  podem  ser  mudadas?  Por  razões  diferentes  (e  muitas  vezes  estando  em  desacordo), 
cientistas,  filósofos  e  artistas sentiram necessidade de se afastarem da religião (o cosmos não 
precisava  de  Deus;  a  moral  e  a  estética  também  não).  Estética  e  ética  tornam-se,  assim, 
campos autónomos.4 
 
 
4. QUARTO CONTRIBUTO: DO BELO ETERNO AO BELO BANAL (E COMERCIAL) 
 
O  século  XX  foi  palco  de  grandes  mudanças  ao  nível  da  reflexão sobre o que é a arte (e, 
por  arrastamento,  sobre  o  que é belo). Como vimos, para muitos artistas, a questão da boa arte 
e  do  belo  já  não  tinha  nada  que  ver  com  questões  éticas.  Ou  seja,  um  «estupor»  pode  ser  um 
grande  artista;  e  não  há  propriamente  temas  proibidos.  Ao  distanciar-se  da  ética,  a  arte  vai 
distanciar-se  também  dos  critérios  antigos.  Uma  obra  de  arte  não  precisa  de  ser  ‘bonita’.  Não 
precisa,  sequer,  de  almejar  a  eternidade  (como  as  estátuas  antigas,  que perduram). Mudam-se 
os materiais e procuram-se novas técnicas. 
As  experiências  traumáticas  das  grandes  guerras  mundiais  trouxeram  novas 
interrogações  aos  artistas:  pode  a  arte  ser  a  mesma  depois  de  tais  barbáries?  Por  outro  lado, 
também  a  mudança  das  paisagens  e  ritmos  urbanos  (grandes  cidades,  grande  agitação) 
questionaram o modo de fazer arte. Que mundo é este em que vivemos? 
Se  a  arte  vai  ganhando  uma  consciência  social  e  política  muito  forte  (quase  ​profética​), 
torna-se  também  claro  para  muitos  artistas  que  a  arte  não  é  uma  imitação  do  mundo.  A  arte 
não  serve para descrever o mundo ​como ele é​. Na verdade, o que a arte faz é mostrar ​quem nós 
somos​:  como  sentimos,  como  pensamos,  como  vivemos,  como  nos  relacionamos  com  o 
mundo.  Por  conseguinte,  os  artistas  precisam  de  aprender  técnicas  de  expressão  não  para 
copiar  o  mundo  (em  cores,  formas  ou  sons),  mas  para  mostrar  a  maneira  como  o  mundo  nos 
toca  por  dentro,  por  confuso  que  seja  esse  «mundo  humano».  Como  diria  o  pintor  Wassily 
Kandinsky,  a  arte  mostra  a  dimensão  ‘espiritual’  do  ser  humano,  isto  é,  a  ​arte  revela  o  nosso 
íntimo.​ As grandes obras são boas porque captam bem a nossa forma de viver, pensar e sentir. 
Com  a  multiplicação  de  meios  de expressão artística, por um lado, e com a facilidade de 
reprodução  das  obras,  por  outro,  hoje  torna-se  impossível  esquecer  a  dimensão  comercial que 
envolve  a  indústria  da  arte.  Quando  a  beleza  das  obras  passa  a  ser  publicitada  em  termos  do 

3
​Nietzsche  fala  destes  dois  tipos  de  estética  em  termos  de  proximidade  ao  deus  Apolo  (da  ordem  e  da  razão)  e  ao  deus 
Dionísio (do caos e das paixões). 
4
  A  título  de  exemplo,  seria interessante ler o ​Retrato de Dorian Gray​, de Oscar Wilde, que reflecte bem este conflito entre ética e 
estética. 
 
5 - 
seu  «valor  comercial»,  ou  quando  um  artista  é  reconhecido  pelos  milhões  que  fez,  estamos 
naturalmente  perante  um  problema.  Valor  monetário  e  factor  ‘viral’  não  podem  bastar  para 
avaliar uma obra.  
Alguns  dos  debates  entre  artistas  e  críticos  têm  girado  precisamente  em  torno  da 
questão  do  ‘valor  artístico’  e  do  ‘valor  comercial’.  Segundo  alguns  autores,  a  arte  deve  ser 
totalmente  independente:  o  bom  artista  não  se  preocupa  com  ​rankings  nem  com  vendas. Para 
outros,  a  arte  faz  parte  da  sociedade,  e  as  obras  de  arte  também  são  bens  de  consumo.  Para 
ser  bom,  o  artista  não  tem  que  fugir  da  fama  nem  tem  que  ser  ‘incompreensível’.  Nesta 
questão, como em muitas outras, o debate é difícil. 
De  qualquer  modo,  o  que  se  torna  cada  vez  mais  evidente  é  que  a  arte  contemporânea 
tem  um  interesse  crescente  pelo  banal  (seja  urbano  ou  doméstico;  seja  das relações afectivas 
ou  sociais;  seja feio ou bonito; seja exterior ou interior; seja organizado ou caótico), ao ponto de 
se  tornar  difícil  de  saber  onde  acaba  uma  obra  artística  e  onde  começa  a  vida.  Será  isto  uma 
forma  de  banalização  da  arte,  ou  antes  uma  forma  de  revalorização  da  vida?  Será  a  arte  a 
deixar  de  ser arte, ou a arte a convidar a vida a tornar-se artística? Porque estará a arte a descer 
dos  seus  pedestais  (de  beleza  e perfeição)? Será isso uma forma de destruição da arte ou uma 
forma  artística  de  ‘redenção’  do  quotidiano?  Será  a arte que se está a tornar feia, ou estaremos 
nós  com  medo  de  enfrentar  a  beleza  engelhada  da  vida?  Estará  a  arte  a  tornar-se  complicada, 
ou  será  que  fomos  nós  que  perdemos  a  capacidade  simples de apreciar cores, formas e sons? 
As  questões  são  imensas  e  nada lineares. Evidentemente, o mundo da arte não está isento dos 
seus  complexos  de  inferioridade  e/ou  superioridade.  No  entanto,  as  obras  de  arte,  como  as 
pessoas, requerem tempo para serem descobertas. 
 
 
5. QUATRO MOMENTOS DE PAUSA 

   

Max Richter// ​a beleza harmoniosa  Copying Beethoven// o


​ ​locus horrendus 

   

Sweeney Todd// ​a beleza subvertida  Andy Warhol// o


​ banal - o comercial 
 
NOTA 
Este  brevíssimo  percurso  pela  história  das  concepções  estéticas  está  feito  numa  óptica  de  ​acumulação​.  Cada  período tem 
contribuído  para  a  exploração  de  um  tema  rico  e  complexo.  A  dimensão  estética  da  nossa  relação  com  o  mundo  tem 
inúmeras  implicações:  éticas,  políticas,  religiosas,  sociais.  Cada  período  histórico  tem  permitido  perceber  o  quão  longe vão 
essas ramificações e interpenetrações. 
 
6 - 
ESTÉTICA EM SENTIDO TEOLÓGICO 
1. DEFINIÇÃO DE CONCEITOS E SUAS IMPLICAÇÕES 
 
A  questão  estética  entrou  no  vocabulário  da  teologia  ligada  sobretudo  à  noção  de 
revelação​, uma vez que a estética lida com o modo como as coisas aparecem (ou ​se revelam​) e 
são  recebidas/percebidas.  Aplicada  à  relação  com  Deus  (e  à  fé),  a  estética  adquire  contornos 
(e problemáticas) específicos. 
 

 
 
1. Deus revela-se d
​ e que modo​? Sob que f​ ormas​? (Como podemos ver o invisível?) 
2. Que relação existe entre a ​forma ​e o c
​ onteúdo​ da revelação? (O que é que a encarnação diz sobre Deus?) 
3. Podemos fazer imagens de Deus? (Podem as coisas finitas representar o infinito, sem o falsear?) 
4. Quem pode fazer essas imagens? (É preciso ser moralmente puro? É preciso ser crente?) 
5. Como podemos interpretá-las? (A interpretação está fechada/aberta? As imagens têm u ​ m ​significado?) 
6. Fazemos imagens para quê? (A arte religiosa é sempre funcional? Haverá a ​ rte pela arte​, no cristianismo?) 
7. As imagens mudam com as épocas históricas? (Como relacionar a tradição com a inovação artística? ) 
8. As imagens mudam com os lugares? (Como relacionar tradição com culturas e sensibilidades estéticas?)5 
 
 
2. A QUESTÃO DA BELEZA NA BÍBLIA6 
 
A  tendência  mais  comum  dos  textos  bíblicos,  no  que  toca  à  relação  com  a  beleza  (da 
criação,  das  pessoas,  dos  acontecimentos,  da  fé) é a do reconhecimento da grandeza de Deus. 
Dito  de  outro  modo:  na  Bíblia,  a  beleza  das  coisas  é  uma ocasião de reconhecer a presença de 
Deus. Isto nota-se, desde logo, no vocabulário bíblico para falar de beleza: 
 
tub  yapheh 
bom, belo, útil, verdadeiro  bom (​agathos​), belo (​kalos​), útil (​chrestos​) 
 
   
 

5
​Neste texto só temos espaço para mencionar algumas das questões (antigas e actuais). Além do mais, quando falamos de 
‘imagens’ estamos a pensar também em música, escultura, literatura, etc. 
6
Cf. A. MARTO; Marko I. RUPNIK; G. RAVASI, O
​ Evangelho da Beleza. Entre Bíblia e Teologia​, Lisboa, Paulinas, 2012. 
 
7 - 
Não  faltam  exemplos  de  textos  que  reflectem  esta  tendência  ​útil do belo (isto é, do belo 
que ​serve p
​ ara falar de Deus). Apenas alguns excertos: 
 
Salmo 8 
2​ 4​
Ó SENHOR, nosso Deus,  Quando contemplo os céus, obra das tuas mãos, 
como é admirável o teu nome em toda a terra!  a Lua e as estrelas que Tu criaste: 
Adorarei a tua majestade, mais alta que os céus. 
 
Job 38 
4​ ​ 6​
Onde estavas quando lancei os fundamentos da terra?  Sabes em que repousam as suas bases, 
Diz-mo, se a tua inteligência dá para tanto.  ou quem colocou nela a pedra angular, 
5​ 7​
Sabes quem determinou as suas dimensões?  entre as aclamações dos astros da manhã 
Quem estendeu a régua sobre ela?  e o aplauso de todos os filhos de Deus? 
 
Salmo 18A [19] 
2​ 3​
Os céus proclamam a glória de Deus;  Um dia passa ao outro esta mensagem 
o firmamento anuncia a obra das suas mãos. e uma noite dá conhecimento à outra noite. 
 
Salmo 148 
1​ 5​
Aleluia!  Louvem todos o nome do SENHOR,  
Louvai ao SENHOR do alto dos céus;  porque Ele deu uma ordem e tudo foi criado. 
louvai-o nas alturas!  (...) 
3​ 13 ​
Louvai-o, Sol e Lua;   Louvem todos o nome do SENHOR,  
louvai-o, estrelas luminosas!  pois só o seu nome é sublime  
4​
Louvai-o, alturas dos céus   e a sua glória está acima do céu e da terra! 
e águas que estais acima dos céus! 
 
O  que  ressalta  destes  textos  é  que,  ao  mesmo  tempo  que  descrevem,  com  encanto,  a 
criação,  fazem-no  como  expressão  do  reconhecimento  da  grandeza  (a  ​glória​)  de  Deus.  O 
biblista  Gianfranco  Ravasi  nota  que  esta  tendência  continua  no  Novo  Testamento.  Quando 
Jesus  fala  do  mundo,  nas  suas  parábolas  por  exemplo,  fá-lo  como  pretexto  para falar de ​outro 
mundo​.  O  elogio  dos  lírios,  o  espanto  com  as  pérolas,  a  admiração  pela  descoberta  da  moeda 
perdida,  a  alegria  comovente  do  reencontro  entre  pai  e  filho,  o  convite  dramático  para  o 
banquete  do  rei:  tudo  isto  fala-nos  de  um  mundo  ao  mesmo  tempo  próximo/familiar  e 
distante/por  realizar.  O  próprio  exercício  de  contar  histórias  é  um  meio  para  introduzir  numa 
outra  realidade.  Resumindo:  Jesus  fala  deste  mundo  para  nos  convidar  a  entrar  noutro.  No 
entanto,  há  momentos  em  que  o  texto  bíblico  nos  convida  a  contemplar  a  beleza  pela  beleza. 
Vejamos: 
 
Génesis 1 
3​ ​
Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. ​4 ​Deus  8​
Deus chamou céus ao firmamento. Assim, surgiu a 
viu que a luz era ​boa​ e separou a luz das trevas. 5​​ ​Deus  tarde e, em seguida, a manhã: foi o segundo dia. 
9​ ​
chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a  Deus disse: «Reúnam-se as águas que estão debaixo 
tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.  dos céus, num único lugar, a fim de aparecer a terra 
6​ ​
Deus disse: «Haja um firmamento entre as águas,  seca.» E assim aconteceu. 10 ​
​ Deus chamou terra à 
para as manter separadas umas das outras.» E assim  parte sólida, e mar, ao conjunto das águas. E ​Deus viu 
aconteceu. 7​ Deus

fez o firmamento e separou as  que isto era ​bom​. 
águas que estavam sob o firmamento das que 
estavam por cima do firmamento.  
 
8 - 
Cântico dos cânticos 
3​
4E ​ le  Como fita escarlate são teus lábios 
1​
Ah! Como és bela, minha amiga!  e o teu falar é encantador; 
Como estás linda! Teus olhos são pombas,  as tuas faces são metades de romã, 
por detrás do teu véu.  por detrás do teu véu. 
4​
O teu cabelo é como um rebanho de cabras  O teu pescoço é como a torre de David 
que descem do monte Guilead;  erguida para troféus: 
2​
os teus dentes são um rebanho de ovelhas,  dela pendem mil escudos, 
a subir do banho, tosquiadas:  tudo broquéis dos heróis. 
todas elas deram gémeos   
7​
e nenhuma ficou sem filhos.  Toda bela és tu, ó minha amada, 
  e em ti defeito não há. 
 
Habituámo-nos  a  traduzir  (sem  erro):  «Deus  viu  que  era  ​bom​».  No  entanto,  o  relato 
poético  do  livro  do  Génesis  parece  inclinar-se  mais  para  outra  tradução  (igualmente  possível): 
Deus  viu  que  era  ​belo​.  O  texto  coloca-nos  não  só  diante  de  um  Deus  que  cria,  mas  sobretudo 
diante  de  um  Deus  que  se  ​deleita com a beleza​: Deus aprecia a beleza ​pela beleza​. Este mesmo 
deslumbramento  com  a  beleza  está  presente  nos  versículos  apaixonados  do  ​Cântico  dos 
cânticos, ​onde os amantes trocam elogios e se derretem com a beleza de quem amam.  
Em  ambos  os  exemplos,  o  belo  não  é  «útil». Não se louva a beleza por causa do Criador, 
mas  simplesmente  por  ser  bela.  Ainda  assim,  em  geral  a beleza é vista no seio de uma relação 
entre  Deus  e  a  humanidade.  É  um  crente  que  reconhece  a  beleza  das  coisas,  e  essa  beleza 
fala-lhe  de  um  Deus  que  cria e que acompanha o povo ao longo de uma história de aliança e de 
salvação.  Essa  história,  vivida  e  celebrada,  alimenta  no  povo  o  desejo  de  ver  o  ​esplendor  de 
Deus​.  O templo e o culto traduzem esse mesmo desejo: é no templo que o povo celebra a glória 
(​kabod​ ou ​doxa​) do Deus que cria e salva. 
É  em  torno  desta  noção  de  glória  (ligada  à  grandeza  e  perfeição  divinas)  que  o 
evangelista  João  vai desenvolver o tema da revelação paradoxal de Jesus. Nos textos joaninos, 
a  ​hora  da  glória  é  o  momento  em  que Jesus revela quem é (Filho de Deus) e a vontade de Deus 
a  respeito  da  humanidade  (ou  seja,  dar-se  a  conhecer  e  introduzi-la  numa  relação de amor que 
salva).  Contudo,  Jesus  fá-lo  no lugar mais imprevisto: na cruz. Com «olho de teólogo», João faz 
coincidir  a  ​hora  da  cruz,  no  Calvário,  com  a  hora  do  sacrifício  expiatório,  no  templo  (único  dia 
do  ano em que o sumo sacerdote pronunciava o nome de Deus, junto da arca da aliança). Deste 
modo,  para  João,  Jesus  não  é  só  o  cordeiro  de  Deus,  mas  é  também  a  revelação  do  nome  de 
Deus.  Quem  vê  Jesus,  vê  o  Pai.  Estranhamente,  o  servo  desfigurado  mostra-nos  a  beleza  de 
Deus. 
 
 
3. A BELEZA EM STO. AGOSTINHO E S. TOMÁS 
 
O  tema  da  beleza  foi  abordado  por  diferentes  teólogos  ao  longo  da  história  da  Igreja. 
Duas  vozes  importantes  da  tradição  teológica  ocidental  são  os  santos  Agostinho  e  Tomás  de 
Aquino.7  Agostinho  parte  de  uma  intuição  fundamental:  a  beleza  atrai,  e  essa  atracção  é 
afectiva  e  gera  amor  (​eros​).  Contudo,  a  experiência  mostra que há uma «gradação» (ou ordem) 
na  beleza:  existem  muitas  belezas  (menores)  que  participam  de  algum  modo  numa  Beleza 

7
​O  bispo  e  teólogo  Bruno  Forte  resumiu  muito  bem  o  pensamento  destes  autores  num  artigo  importante.  Cf.  Bruno  FORTE, 
«Theology  of  Beauty:  a  Way  to  Unity?»  (Melbourne,  5  Julho  de  2012),  disponível  em  ​http://www.webdiocesi.chiesacattolica.it 
/cci_new/documenti_diocesi/55/2008-10/30-195/Beauty%20USA.pdf​.  
 
9 - 
maior,  na  qual  se  concentram  todas  as  qualidades.  Essa  Beleza  seria,  portanto,  uma  ​unidade 
harmoniosa​,  cheia  de  ​bondade  e verdade​, e com alcance ​universal​. De algum modo, as belezas 
gravitam e apontam para essa Beleza. 
 

 
 
Portanto, para Agostinho, a marca/traço/aspecto fundamental da beleza é a sua ​unidade 
entre  dimensão  exterior  e  interior,  entre  forma e conteúdo, emoção e razão, estética e ética. No 
limite,  esta  noção  de  beleza  aplica-se  não  só  às  obras  de  arte,  mas  principalmente  à  vida 
humana  e  à  própria  Igreja.  A  vida  ​é  bela ​na medida em que se for tornando íntegra, de tal modo 
que  as  convicções e as acções, o pensamento e a afectividade, a razão e a paixão coincidam. A 
Beleza por definição será, portanto, o próprio Deus. 
Estando  embora  de acordo com santo Agostinho, Tomás de Aquino aborda a questão da 
beleza  de  um  modo  particular.  Tal  como  Agostinho,  Tomás  percebe  que  o ser humano suspira 
pela  perfeição.  Ao  reflectirmos  sobre  a  vida  e  a  natureza,  apercebemo-nos  de  uma  presença 
que  governa  as  coisas  (dá-lhes  uma origem e uma finalidade). Essa intuição alimenta em nós o 
desejo  de  ​ver  o  Criador  (a  ​visão beatífica em que, finalmente, veremos Deus face a face). Mas a 
questão é esta: como podemos ver Deus? Onde/como é que Ele se revela? 
Tomás  avança  com  a  ideia  de  que Deus é a verdadeira Beleza; uma Beleza que se revela 
através do seu Filho. Jesus reúne os ingredientes da verdadeira beleza:  
 
(1) integridade de vida (​perfeição​)  
(2) proporção (​harmonia de formas​)  
(3) clareza (​luz que ilumina a razão​) 
 
A  encarnação  do  Verbo  de  Deus  põe  em  marcha  outro  tipo  de  revelação,  ​paradoxal​.  De 
facto,  a  encarnação  obriga-nos  a  colocar  diversas  questões:  como  pode  um  corpo  humano, 
limitado  no  espaço  e no tempo, conter Deus? Como pode o Senhor de todas as coisas aparecer 
como  servo?  Como  pode  a  fonte  da  vida  morrer  numa  cruz?  Com  toda  a  tradição  teológica, 
Tomás  de  Aquino  não  hesita  em  afirmar  que  Jesus  revela  o  Pai:  Jesus  é  o  ​verbo  abreviado  ​do 
verbo  eterno​.  Porém,  Tomás  não  esquece  a  intuição  do  evangelho segundo São João: a «hora» 
 
10 - 
da  revelação  é  uma  hora  paradoxal,  porque  a  beleza  revela-se  «sub  contraria  specie»  (​através 
de  sinais  contrários​).  Por  conseguinte,  a  cruz  reflecte  o  ​esplendor  ​de  Deus  mas,  para  que  o 
possamos  contemplar  e  apreciar,  temos  que  ​aprender  a  ver  o  infinito  no  finito,  a  grandeza  na 
pequenez, a beleza no sofrimento. 
 
 
4. AS IMAGENS NO CRISTIANISMO ORIENTAL 
 
«O  ícone  pretende  ser  imagem  do  invisível  e,  mais  ainda,  uma  presença  do  Invisível».8 A 
história  das  imagens,  no  cristianismo  (como  noutras  religiões),  é  complexa.  A  herança  judaica 
do  cristianismo  provocou  sempre  algumas  reservas  quanto  ao  uso  de  imagens.  No  Antigo 
Testamento encontramos alguns versículos contraditórios (pelo menos, à primeira vista). 
 
  O SENHOR disse a Moisés:  
Não farás para ti nenhuma imagem esculpida, seja do  «Faz para ti uma serpente abrasadora e coloca-a num 
que está no alto do céu, ou em baixo, sobre a terra, ou  poste. Sucederá que todo aquele que tiver sido 
nas águas, debaixo da terra.  mordido, se olhar para ela, ficará vivo.» 
(Dt 5, 8)  Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e fixou-a 
sobre um poste. Quando alguém era mordido por uma 
serpente e olhava para a serpente de bronze, vivia. 
(Num 21, 8-9) 
 

 
A  teologia  judaica  esteve  sempre  muito  consciente  da  diferença  radical que existe entre 
Deus  e  a  criação  (e,  nela,  o  ser  humano).  Deus  é  o  ​Totalmente  Outro​, o ​Totalmente Santo​: Deus 
nunca  se  confunde  nem  se  mistura com a criação, embora esteja presente e actuante. Ao fazer 
imagens,  a  humanidade  arrisca-se  a  diminuir  e  a  desfigurar  Deus.  Este  debate  continuou 
mesmo depois de Jesus, nos primeiros séculos do cristianismo.  
Vários  teólogos,  para  tentar  salvaguardar  a  noção  de  ​mistério  e  de  ​transcendência/ 
diferença  ​de  Deus  a  respeito  da  criação,  insistiram  na  ideia  de  que  Jesus  (a  sua  identidade 
profunda)  não  podia  ser  reduzido  a  imagens.  Começava  assim  a  ​crise  iconoclasta​,  isto  é,  a 
recusa  das  imagens  sobre  Jesus  (e  sobre  Deus).  Para  resolver  esta  polémica  foi  necessário 
desenvolver uma ​cristologia​.  
Quando  dizemos  que  Jesus  é «verdadeiro Deus e verdadeiro homem» estamos a afirmar 
um  paradoxo:  o  infinito  (divino  e  invisível)  pode  estar  todo  unido  ao finito (humano e visível). O 
mistério  invisível  de  Deus  está  unido  à  realidade  visível  da  humanidade.  Por  conseguinte,  a 
encarnação  torna possível a iconografia: podemos fazer imagens porque Deus se fez imagem e 
nos deu o seu Filho como modelo. 
Os  autores  posteriores  desenvolverão  uma  teologia  do  ícone  própria.  O  ícone  aparece 
como  um  ​duplo  espelho​:  por  um  lado,  o  ícone  expõe  a  nossa  própria  realidade  humana.  Por 
outro,  o  ícone  abre-nos  para  a  realidade  divina.  A  pouco  e  pouco,  o  observador  percebe  que 
está  a  ser  observado:  há  uma  presença  silenciosa.  Nesta  medida,  o  ícone  abre-nos  para  uma 
outra  realidade.  Ver  um  ícone  implica  paciência,  mas  também  disponibilidade  interior  para  se 
deixar transformar. 
 
 

8
Egon SENDLER, ​L’icône, Image de l’invisible. Éléments de théologie, esthétique et technique,​ Paris, Desclée de
Brouwer, 1981, ​p. 41. 
 
11 - 
 
5. DUAS VISÕES CONTRASTANTES: TEOLOGIA POSITIVA E TEOLOGIA NEGATIVA 
 
 
 
 
> I​ sto não é um cachimbo 
Este  quadro  famoso  de  Magritte  resume  uma 
polémica  ainda  não  resolvida  em  torno  ao 
valor  objectivo/subjectivo  ​das  imagens.  A 
razão  da  polémica  explica-se  em  poucas 
palavras:  a  ​imagem  ​de  um  cachimbo  não 
substitui  o  ​objecto  real​.  Ou  seja,  há  uma 
diferença entre ​imagem e ​ ​realidade​. 
 
 
 

   
 
o objecto  o olhar do artista  a imagem  o olhar do observador 

 
Os  filósofos  do  século  XVIII  (com  Kant  à  cabeça)  levantaram  a  questão:  será  que  nós 
conhecemos  as  coisas  tal  qual  elas  são?  O  facto  de  nos  enganarmos  tantas  vezes  e  de 
divergirmos  nas  nossas  concepções  do  mundo  (às  vezes  de  forma  violenta)  faz  pensar  que 
não: há uma diferença entre as nossas ​ideias​ ​sobre as coisas​ e as ​coisas em si​. 

 
 
12 - 
 
Esta  perspectiva  levanta  questões  sérias  à  teologia.  Que  valor  têm  as  nossas  ideias/ 
imagens  sobre  Deus?  Mais  ainda:  se  há  uma  fronteira  entre  nós  (a  nossa  razão)  e Deus, como 
podemos  conhecê-lo?  Haverá  espaço  para  a  ​revelação  ​(seja  de  Deus,  seja  das  coisas)? 
Estaremos  condenados  ao  subjectivismo?  A  questão  é,  obviamente,  complexa.  O  que  é 
importante reter: 
 
teologia positiva  teologia negativa 

- afirma que, apesar das nossas  - afirma que a realidade (de Deus e das 
limitações, podemos conhecer as  coisas) é sempre maior que as nossas 
coisas (se não totalmente, ao menos  ideias/ imagens. Deus é ​mistério 
parcialmente)   
  - tudo o que dizemos sobre Deus deve 
- afirma que as nossas imagens/ ideias  ser atravessado pela consciência de 
sobre Deus têm fundamento ​objectivo  que Deus é d​ iferente de nós​: a nossa 
(isto é, em dados concretos da história  forma de amar não é igual à de Deus, 
e da tradição)  etc. 
 
 
6. TRÊS MOMENTOS DE PAUSA E UMA SUGESTÃO 

   

Arnold Schönberg// ​Moses und Aron (​ ópera)  Olivier Messiaen// ​Quarteto para o Fim dos Tempos 
sobre o risco da idolatria - será possível falar de  escrita e estreada num campo de concentração, esta 
Deus sem O diminuir?  obra representa a procura de uma nova linguagem 
para Deus - como falar de Deus depois dos horrores?  

   

Maurice Duruflé// ​Ubi Caritas  SUGESTÃO - 


uma releitura do canto gregoriano  Andrei Tarkovsky// ​Andrei Rublev 
um filme extraordinário sobre Rublev, um dos grandes 
iconógrafos​ da tradição oriental, que termina com 
este poema visual e musical 
[a sugestão será a de ver o filme na íntegra] 
   

 
13 - 
ESTÉTICA E VIDA ESPIRITUAL 
1. ESTÉTICA, ESPIRITUALIDADE E VIDA 
 
Neste  terceiro  ‘capítulo’,  propomos  uma  abordagem  mais  prática,  que  passará  por  um 
contacto  directo  com  várias  obras  de  épocas,  disciplinas  e  estilos  artísticos  diversos.  Convém 
no entanto esclarecer alguns aspectos, desde logo a respeito da noção de «espiritualidade». 
 

 
 
O  «espiritual»  corresponde,  em linguagem bíblica, a uma dimensão do ser humano. O ser 
humano  que  pondera  as  situações,  avaliando-as  e  procurando  nelas  um  sentido  e  uma 
orientação;  o  ser  humano  que  reflecte  em  si  mesmo  para  distinguir  entre  bem  e  mal;  o  ser 
humano  que  tem  memória  e  desejos;  o  ser  humano  que  toma  decisões.  Resumindo,  a 
dimensão  espiritual  liga-se  à  procura  do  sentido  das  coisas  e  da  vida  e,  por  isso  mesmo,  à 
procura de Deus. 
Mas  os  textos  bíblicos  exploram  ainda  outro  significado.  O  «espírito»  corresponde, 
também,  a  um  princípio  vital,  a  um  sopro  de  vida.  No  poema  do  Génesis,  Deus  infunde  o  seu 
hálito  divino  para  que  o  ser  humano  viva.  Muito  mais  tarde,  Paulo  dirá que somos «templos do 
Espírito  Santo»  e  que  «é  pelo  Espírito  que  dizemos:  ​Abbá,  ​Pai».  Nesta  segunda  acepção,  o 
«espiritual»  corresponde  à  iniciativa  divina:  Deus  cria  e  acompanha-nos com o seu Espírito, por 
dentro  e  por  fora  de  nós.  O  «espiritual»  tem,  por  isso,  um  aspecto  biográfico:  é  expressão  de 
uma  vida  que  está  à  procura  de  um sentido (da nossa parte), e de um sentido que toca a nossa 
vida  (da  parte  de  Deus).  Ou  seja,  ​a  vida  é  o  terreno  da  espiritualidade​.  É  por  esse  motivo  que 
podemos falar de espiritualidade mesmo para lá dos limites da linguagem e gestos religiosos. 
 
14 - 
Também  a  estética  e,  especificamente,  as  artes,  vai  muito  para  lá  das  formas.  A  arte 
ocupa-se  da  vida,  nas  suas  diversas  dimensões.  Arte  e  espiritualidade  têm  a  vida  como  o  seu 
ponto  de  encontro  fundamental  e  fundante.  Os  exemplos  que  passamos  a  seguir  exploram 
estas afinidades. 
 

   

a vida como bênção e como trabalho//   o silêncio que mora por dentro das coisas//  
Steve Reich, ​The Four Sections - IV. Full Orchestra  Georg Philipp Handel, ​Messias (​ 1:00:43) 
   
Apresento este trecho sobretudo pelo diálogo entre  Dentre os muitos aspectos interessantes, destaco 
a música e a coreografia (como se pode ver na breve  o modo como os encenadores captaram a força 
apresentação, no início do vídeo). Nesta peça  comunicativa do silêncio e do gesto. Muda, 
coreográfica explora-se a ideia do quanto a vida é e  exprimindo-se apenas com linguagem gestual, a 
dá trabalho, e que esse trabalho corresponde, no  personagem como que resume a música. A música 
fundo, a um despir-se (dir-se-ia, a um descobrir a sua  continua​ mesmo no silêncio. O que nos sugere a 
própria identidade, ao mesmo tempo vulnerável e  pergunta: qual a relação entre a música e o 
esplêndida).  silêncio? Como pode o silêncio ​cantar tanto​? 
   
 
 

a vida artística como compromisso espiritual//   


Wolfgang Laib, ​Pollen from Hazelnut 
 
Aparentemente, esta peça é ‘apenas’ um rectângulo 
amarelo sobre o chão. No entanto, se olharmos 
também ao compromisso pessoal do artista, 
apercebemo-nos que esta obra é muito mais do que 
isso: ela é, antes de mais, uma f​ orma de vida​. Este 
rectângulo amarelo lança-nos então um repto: que 
olhos temos para as cores? de onde nos chegam? 
quem as (es)colhe? 
 
 
 
 
 
 
 

 
15 - 
2. O QUE AS ARTES PODEM TRAZER À VIDA ESPIRITUAL 
 

corpo// M
​ aya Plisetskaya, ​o lago dos cisnes  mesa// d
​ os homens e dos deuses 

   

peregrinação// ​Gavin Bryars, J


​ esus’ blood  outro olhar// ​Bill Viola, E
​ mergence 

   

bálsamo// ​Ralph Vaughan Williams, 5


​ th Symphony   afecto// M
​ artha Graham, D
​ iversion of Angels 

   
 

 
16 - 
   

ouvir o corpo// S
​ teve Reich, ​Clapping Music  ouvir o mundo// ​Paisagem sonora de uma cidade 

   

   

ouvir o tempo// L
​ opes-Graça, ​Os homens que vão  ouvir a natureza// J
​ ohn Luther Adams, I​ nuksuit 
para a guerra 

   

imaginação e realidade// Q
​ uentin Tarantino,   
Inglourious Basterds 
 

 
17 -