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18/08/2015 Uma janela para o mundo divino ­ Ateliê de Iconografia Theotokos Pantanassa

Uma Janela para o Mundo Divino
 
“O  ícone,  visto  com  os  olhos  do
coração  iluminados  pela  fé,  nos
abre  para  a  realidade  invisível,
para  o  mundo  do  Espírito,  para  a
economia  divina,  para  o  mistério
cristão  na  sua  totalidade
ultraterrena.  È  lugar  teológico”
(Maria.  Donadeo,  em  Os  Ícones,
Imagens do Invisível, p. 20).
 
A palavra ícone deriva  do  grego  eikón que  significa  imagem.  São
representações  de  Jesus  Cristo,  cenas  de  sua  vida,  da  Virgem  e  dos
santos venerados pela Igreja.
O  ícone  pode  ser  realizado  de  várias  maneiras:  pintado  sobre
madeira com a técnica de tempera a ovo ou com a técnica da encáustica
(que usa cera de abelha); como afresco sobre paredes; com esmalte ou
mosaico  ou  ainda  em  ilustrações  de  pergaminhos  ou  livros.  Entretanto,
qualquer  que  seja  a  técnica  em  que  o  ícone  é  realizado,  não  podemos
nos referir a ele como sendo simplesmente uma obra de arte.
Na  arte  comum  os  artistas  representam  pessoas  e  eventos  que
pertencem  ao  mundo  material.  Mesmo  quando  o  tema  a  ser  pintado  é
algo  abstrato  como,  por  exemplo,  um  mito,  sua  representação  será  na
linguagem das imagens terrenas. Na busca de uma melhor expressão de
seus sentimentos interiores, pintores abstratos usam cores ou deformam
os objetos. Entretanto as experiências diante dessas obras não levam o
expectador  para  um  mundo  de  natureza  diferente  onde  o  espaço,  o
tempo e os valores são outros.
Esse  é  o  objetivo  dos  ícones:  transportar­nos  para  um  outro
mundo.  Os  ícones  não  representam  o  mundo  natural,  terreno,  mas  o
espiritual. E isso é feito através de técnicas artísticas especiais que foram
desenvolvidas no curso de vários séculos. Portanto,  não  podemos  olhar
para  os  ícones  como  se  eles  fossem  simplesmente  obras  de  arte.  Eles
não  representam  o  espaço  como  o  conhecemos,  nem  os  eventos  são
condicionados pelas relações comuns de causa e efeito.
O tratamento da perspectiva, as proporções do corpo e os planos
representados em um ícone não seguem as regras conhecidas no mundo
da  arte,  mas  sim  as  regras  de  uma  dimensão  divina,  diferentes  das
regras mundanas. A ausência de uma paisagem mais elaborada também
simboliza  esta  entrada  no  mundo  divino.  Não  existe  lugar  para  o
supérfluo na representação do mundo divino, somente cabe o essencial.
A  perspectiva  invertida  empregada  nos  ícones  é  especialmente
interessante. Ao contrário do que ocorre na pintura clássica, onde o ponto
de  fuga  está  na  linha  do  horizonte,  no  ícone  o  observador  é  situado  no
ponto de fuga das linhas, como se o ícone fosse uma janela aberta para
o  mundo  divino,  vislumbrado  a  partir  da  perspectiva  daquele  que  reza
diante dele.
A aparência dos objetos visíveis é alterada a fim de que uma outra
realidade  seja  discernida  e  que  a  lógica  da  percepção  sensorial  seja
suspensa, já que os elementos do sagrado não se encontram localizados
no espaço­tempo terrestre.
O  ícone  é  uma  janela  olhando  para  um  mundo  de  uma  outra
natureza,  mas  essa  janela  só  estará  aberta  para  aqueles  que  tiverem
uma  visão  espiritual.  A  cava  na  tábua  do  ícone  ou  a  borda  externa
pintada sobre a madeira simboliza essa janela por onde entraremos para
o mundo divino.
A  cor  tem  um  papel  muito  especial  na  iconografia  porque  é  uma
linguagem simbólica. Assim, as cores são usadas em função das virtudes
ou  características  que  representam  e  não  em  função  de  um  realismo
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terreno.
O ícone quer revelar a realidade espiritual que  está além  de toda
expressão  verbal.  As  técnicas  envolvidas  no  emprego  da  luz  e  da  cor
foram  criadas  para  gerar  a  sensação  de  estarmos  olhando  para  um
mundo  que  não  está  sendo  iluminado  por  uma  luz  externa  que  lança
sombras,  mas  pela  luz  da  graça  divina  que  transforma  edificações  e
paisagens  e  que  se  manifesta  principalmente  na  iluminação  interior
daqueles  que  testemunharam  a  fé  no  Todo­Poderoso.  O  sentido  mais
amplo  tem  de  ser  encontrado  na  alma  do  espectador.  Os  ícones  são,
assim,  um  meio  de  entrar  na  quietude  do  coração  onde  Deus  pode  ser
tudo em todos e todas.
A  luz  divina  que  está  dentro  de  cada  pessoa  não  está  no  mundo
visível. Nos ícones essa luz divina é representada por meio de linhas de
ouro ou linhas brancas. O fundo do ícone em ouro representa o espaço
“que  não  é  desse  mundo”.  Como  a  luz  é  do  mundo  divino,  ela  está  em
todas as partes e não existem sombras projetadas nos ícones, como na
arte  naturalista,  pois  no  mundo  de  Deus  tudo  está  permeado  por  essa
luz.
Aqueles  que  quiserem  compreender  os  ícones  terão  que  vê­los
com  os  olhos  da  fé,  para  quem  Deus  é  uma  realidade  indiscutível,
presente  em  todos  os  lugares,  uma  testemunha  e  um  juiz  invisível  de
nossos atos, pensamentos e emoções, de quem nada pode ser oculto. O
ícone atualiza­se como uma realidade viva quando o artista, pela oração
e compreensão espiritual realiza o Divino em si mesmo.
 
1. Uma Arte Espiritual por Excelência
 
A iconografia é uma arte sagrada, espiritual tanto em sua essência
quanto  em  seus  objetivos.  São  João  Damasceno,  em  sua  defesa  dos
santos ícones, chama a atenção para suas funções na vida espiritual dos
cristãos ortodoxos:
 
1)  Os  ícones  são  meios  de  honrar  a  Deus,  seus  Santos  e  os
santos anjos.
2) Eles servem como instrumentos para a instrução na Fé Cristã e
nos ensinamentos da Igreja.
3) Eles nos relembram desses ensinamentos.
4)  Eles  nos  elevam  aos  protótipos,  aos  personagens  ali
representados  e  a  um  nível  mais  elevado  de  pensamento  e
sentimento.
5)  Eles  promovem  a  virtude  e  nos  auxiliam  evitar  os  vícios,
despertando  em  nós  o  desejo  de  imitar  esses  personagens
sagrados.
6) Eles contribuem com a nossa santificação.
7) Eles aumentam a beleza de uma igreja.
 
Atualmente, a principal função dos ícones não é a didática, isto é,
oferecer um ensino religioso acessível a todos, ainda que analfabetos. O
ícone depois de abençoado é um sacramental, isto é, um sinal da graça,
eficaz em virtude dos poderes e da oração da Igreja. E nesse sentido é
um  poderoso  auxílio  na  vida  espiritual  do  cristão  que  o  utiliza  com
respeito e com fé.
“Aquilo  que  o  Evangelho  nos  diz  com  palavras,  o  ícone  anuncia
com  cores  e  no­lo  torna  presente.”  Representando  o  Cristo,  a  Mãe  de
Deus,  os  anjos  ou  os  santos,  ele  os  torna  misteriosamente  presentes  e
nesse  aspecto  ele  difere  de  um  quadro.  Diz a  resolução do  VII Concílio
Ecumênico:
 
“O ícone é para nós ocasião de um encontro pessoal, na graça do

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Espírito,  com  aquele  que  ele  representa...  Quanto  mais  o  fiel  olha  os
ícones,  mais  se  recorda  daqueles  que  estão  ali  representados  e  se
esforça  por  imitá­los.  Aos  ícones  ele  testemunha  respeito  e  veneração,
mas não adoração, que é devida unicamente a Deus.”.
 
O fiel reza diante do ícone de Cristo como se estivesse diante do
próprio  Cristo,  que  se  apresenta  no  ícone.  Porém  o  ícone  em  si,  lugar
dessa  presença,  permanece  um  objeto,  nunca  se  torna  um  ídolo.  A
exigência de ter o ícone advém da concretização do sentimento religioso,
que  não  se  contenta  com  uma  simples  contemplação  espiritual,  mas
procura também avizinhar­se de Deus diretamente, sensivelmente, como
é natural ao homem de corpo e alma.
O  iconógrafo  grego  Photius  Kontaglou  costumava  dizer  que  os
santos ícones estão repletos da luz de Cristo, e o cristão ortodoxo que os
admira  com  atenção  e  os  venera  com  fé  e  simplicidade  de  coração,  é
preenchido  por  essa  luz  abençoada.  Os  cristãos  que  já  passaram  pela
experiência  de  estar  em  frente  a  um  ícone,  fitando­o  intensamente  e
rezando  como  se  estivesse  diante  da  própria  pessoa  ali  representada,
sabem que a afirmação de Kontaglou é verdadeira.
Para os não cristãos, essa luz suave e plena de alegria silenciosa
não será perceptível. Tendo olhos, não poderão ver. O homem secular vê
no  ícone  apenas  cores,  formas,  arte  e  cultura.  Ele  pode  até  mesmo
apreciar  a  habilidade  artística  com  que  foi  executado,  mas  o  mundo
interno, oculto, não estará ao seu alcance. Para os cristãos os ícones são
como  um  banquete  espiritual,  um  deleite  para  os  olhos,  o  coração  e  a
alma.
Para  poder  expressar  o  ícone  em  toda  sua  plenitude espiritual, é
necessário  que  o  iconógrafo  procure  não  apenas  compreender,  mas  ter
uma vivência no mundo espiritual. O mundo espiritual pode ser conhecido
através  da  metafísica  e  da  filosofia,  mas  a  vivência  não  será  alcançada
por esses meios.
O  primeiro  sinal  da  vida  é  a  respiração.  Tudo  o  que  vive  respira.
No  âmbito  espiritual,  os  santos  Padres  testemunham  que  “A  respiração
da alma é a oração.” (Os Ícones da Mãe de Deus, p. 32). Sem a oração,
“o  iconógrafo  encontra­se  morto  para  o  mundo  espiritual  e  ainda  que
possuísse perfeitamente a técnica do ícone, sua obra sempre seria sem
alma.” (Os Ícones da Mãe de Deus, p. 35).
 
2. Arte e Cânone
 
No passado, o iconógrafo era, sobretudo, um monge acostumado
a obedecer, que seguia fielmente os cânones da pintura. A fidelidade dos
iconógrafos  à  Tradição  permite  que  qualquer  pessoa,  mesmo  as  mais
simples,  possa  logo  reconhecer  o  ícone  de  uma  festa,  apesar  de  sua
complexidade. Todavia, não existem dois ícones iguais, porque o artista,
embora fiel às regras, conserva sua liberdade. A tradição assegurou aos
ícones força e continuidade ao longo dos séculos.
Numerosas  são  as  advertências  e  ameaçadores  os  tormentos
eternos  a  quem  queira  pintar  um  ícone  não  segundo  a  Tradição,  mas
segundo  suas  próprias  concepções.  Os  historiadores  vêem  nisso  um
exemplo  de  conservadorismo  da  Igreja  e  consideram  essas  normas  um
obstáculo à renovação da arte sacra. Na verdade, esse ponto de vista é
uma falta total de compreensão do que é o ícone.
O  cânone  jamais  prejudicou  a  iconografia.  Elevando  o  artista  ao
nível espiritual já adquirido pela humanidade, tais cânones libertam a sua
energia  criadora  para  novas  aquisições,  livrando­o  da  necessidade  de
repetir  o  que  já  está  em  declínio.  A  exigência  de  ater­se  às  formas
canônicas é uma libertação, não um obstáculo.
A Igreja não busca formas antigas ou modernas, mas aquelas que

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sejam  verdadeiras;  se  elas  o  são,  a  Igreja  aprova  e  abençoa  a  obra.


Quando o cânone é respeitado, há uma garantia de que o ícone reproduz
uma  verdade  já  reconhecida.  Quando  o  cânone  não  é  respeitado  ou  a
obra está bem abaixo do admissível, ou constitui uma nova revelação, o
que deve ser verificado.
É  claro  que  não  esperamos  que  os  iconógrafos  modernos  se
preparem praticando ascetismo espiritual, mas é necessário pelo menos
conhecer os cânones da pintura antiga e dominar a linguagem da pintura
iconográfica,  pois  no  caminho  os  iconógrafos  encontrarão  as  tentações
das  estilizações  e  alterações.  A  pintura  não  pode  ser  apenas  uma
decoração, mas deve ser feita com compreensão de todo o seu profundo
significado, para que a luz do Monte Tabor possa sempre brilhar através
dos ícones.
 
 
Referências
 
Cavarnos,  C..  Guide  to  Byzantine  Iconography,  Vol.  1  e  2.  Holy
Transfiguration Monastery, Boston, MA, 1993.
Chibikova,  I.U.  Problems  on  Returning  to  the  Canon  in  Modern  Icon
Painting www.iconofile.com
Davidov,  F.  The  Responsibility  of  Modern  Icon  Painters
www.iconofile.com
Donadeo, M. Os Ícones, Imagens do Invisível. Ed. Paulinas, SP, 1996
Ouspensky,  L.A..  Theology  of  the  Icon.  Crestwood,  New  York,  St.
Vladimir's Seminary Press, 1992.—Ed.]
Prostov, Vladimir e Tatiana. The Icon as an Image. www.iconofile.com
Serfes, Archimandrite Nektarios Prayers To The Healer of Cancer,
http://www.serfes.org/orthodox/prayersforcancer.htm
   
 

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