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Resumo do texto:

“REVOLUÇÕES E DECLARAÇÕES: OS DIREITOS DOS HOMENS, DOS


CIDADÃOS E DE ALGUNS OUTROS”

Os direitos naturais proclamados pelas declarações do século XVIII


transformaram-se em direitos humanos, seu escopo e jurisdição expandiu-se da
França e dos Estados Unidos para toda a humanidade e seus legisladores
ampliaram-se das assembleias revolucionárias para a comunidade internacional e
seus plenipotenciários e diplomatas em Nova York, Genebra e Estrasburgo. Nesses
dois longos séculos, as ideias revolucionárias não apenas triunfaram no cenário
mundial, mas também foram violadas das formas mais atrozes e sem precedentes.
Os princípios das declarações foram tão revolucionários na história das
ideias quanto o foram as revoluções na história da política. Se a modernidade é a
época do sujeito, os direitos humanos coloriram o mundo à imagem e semelhança
do indivíduo.
O objetivo de cada associação política é preservar os direitos naturais e
inalienáveis do homem. Esses direitos são aqueles de liberdade, propriedade,
segurança e resistência à opressão.
Para a nação francesa a maior prioridade era “constituir e não
simplesmente declarar os direitos, uma que eles são uma parte integral da
Constituição”. As diferentes prioridades ditaram as diferentes formas para as duas
relações de direitos: a francesa prefaciava sua Constituição com a Declaração
tornando-a a base e a legitimação da reforma constitucional, ao passo que a
Declaração de Direitos foi introduzida como uma série de emendas à Constituição
norte-americana.
A garantia central da Declaração Francesa era o direito de resistência à
opressão, uma expressão do caráter profundamente político e social da revolução.
A natureza pública e política da Revolução é evidente em todos os níveis.
Os direitos pertencem ao “homem” e ao “cidadão”, ressaltando uma íntima relação
entre humanidade e política; a diferença entre os direitos naturais do homem e os
direitos políticos do cidadão não fica clara; o “Ser Supremo” testemunha apenas e
não legisla ou orienta a Declaração, que é o ato dos representantes do povo agindo
como o porta-voz da volonté générale de Rousseau. Finalmente, os direitos
proclamados não eram um fim em si mesmos, mas os meios usados pela
Assembleia para reconstruir o Estado.
Os direitos humanos são uma forma de política comprometida com um
senso moral de história e uma crença proativa de que a ação coletiva pode vencer a
dominação, a opressão e o sofrimento.
Após as revoluções, cada aspecto da vida fora reconstruído de acordo
com o princípio do livre-arbítrio. As declarações antigas foram a primeira expressão
pública desse princípio e, apesar de outras diferenças, as Revoluções norte-
americana e francesa estavam unidas em seu intento declaratório. Mas há um
paradoxo bem no coração das declarações: elas pronunciavam os direitos do
“homem” a fim de resgatá-los da ignorância e do “esquecimento”, porém, era o
próprio ato da declaração que estabelecia os direitos como a base da nova
república.
A lei da liberdade é, ao mesmo tempo, a lei da coerção; a legalidade pode
ter sido separada da moralidade, mas tem como companheira indispensável a
política, a prisão e a força.
As declarações clássicas afirmam que os direitos humanos pertencem ao
“homem”. Portanto, eles pressupõem logicamente um substratum ou subjectum,
“homem”, para quem são dados. Mas a única precondição ontológica ou
metodológica da filosofia moderna é a liberdade de vontade igualmente
compartilhada, que existe de forma imaculada, anterior a qualquer predicado ou
determinação. A natureza autofundadora do homem moderno significa que sua
realidade empírica é construída a partir de direitos proclamados sob a condição de
que são apresentados como suas prerrogativas eternas.
No ato da proclamação, o “homem” não apenas reconhece, mas também
afirma sua natureza como livre-arbítrio. A revolução é um ato de autofundação que,
simultaneamente, estabelece o postulador do direito e o poder do legislador como o
representante histórico de seu próprio construto para criar todo direito humano ex
nibilo.
Os direitos humanos são prospectivos e indeterminados; eles se tornam
reais quando o ato de enunciação performa seus efeitos em vários cenários, os
quais, legitimados pela declaração, põem em prática suas especificidades.
A força das declarações não deve ser buscada, portanto, em seus apelos
a pactos originais fictícios ou em fontes divinas, bem nos igualmente místicos
direitos institucionais do homem inglês que se autogoverna e se autotributa. As
declarações criam e exaurem a sua própria legitimidade em seu ato de enunciação.
Não há qualquer necessidade de oferecer nenhum argumento adicional, justificativa
ou razão para a sua gênese, além do ato proclamatório que confere aos legisladores
tanto o direito de legislar esses direitos quanto de alegar que eles já pertencem a
todos os “homens”.
Quando o “homem” substitui Deus como a base do significado e da ação,
a proteção dos seus direitos contra o poder do Estado tornou-se a essência jurídica
da modernidade. Mas há muitos problemas com este “homem”, visível desde o início
da tradição dos direitos humanos. O “homem” abstrato da filosofia é extremamente
vazio. Para fundamentar uma constituição histórica, ele deve ser complementado
por outras capacidades e características substanciais.

Direitos não são universais nem absolutos; eles não pertencem aos
homens abstratos, mas a pessoas determinadas em sociedades concretas com a
sua “infinita modificação” de circunstâncias, tradição e prerrogativa legal.
Os direitos das declarações, sob o disfarce da universalidade e da
abstração, celebram e entronizam o poder de um homem concreto, muito concreto:
o indivíduo possessivo individual, o homem burguês branco orientado ao mercado
cujo direito à propriedade é transformado no fundamento de todos os demais direitos
e embasa o poder econômico do capital e o poder político da classe capitalista.