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A Internacionalização da Problemática dos Direitos Humanos

A EVOLUÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

Os Direitos do Homem são um conjunto de Direitos de carácter inviolável


inerentes ao próprio Homem cuja origem é a dignidade, daí a condenação
generalizada pela pena de morte, torturas e prisão por motivos políticos ou
religiosos. A dignidade humana, na linguagem filosófica, “é o princípio moral de
que o ser humano deve ser tratado como um fim e nunca como um meio”. É,
portanto, um direito essencial. Ninguém – nenhum indivíduo, género, etnia,
classe social, grupo religioso ou nação – pode afirmar-se superior aos
restantes. Atualmente, não se discute, há o reconhecimento de que toda
pessoa tem direitos fundamentais, decorrendo daí a imprescindibilidade da sua
proteção para preservação da dignidade humana.
Apesar da falta de historicidade inerente a esses direitos, é com a história e
seus grandes pensadores que se observa a “evolução” da humanidade, no
sentido de ampliar o conhecimento da essência humana, a fim de assegurar a
cada pessoa seus direitos fundamentais.
Foi no período entre 600 e 480 a.C, que nasceu a ideia de igualdade entre os
seres humanos: “é a partir do período axial que o ser humano passa a ser
considerado, pela primeira vez na História, em sua igualdade essencial, como
ser dotado de liberdade e razão, não obstante as múltiplas diferenças de sexo,
raça, religião ou costumes sociais. Lançavam-se, assim, os fundamentos
intelectuais para a compreensão da pessoa humana e para a afirmação de
direitos universais, porque a ela inerentes”
Nesta sequência, podemos destacar o Cristianismo, que em muito contribuiu
para o estabelecimento da igualdade entre os homens. O Cristianismo, sem
dúvida, no plano divino, pregava a igualdade de todos os seres humanos,
considerando-os filhos de Deus, apesar de na prática, admitir desigualdades
em contradição com a mensagem evangélica (admitiu a legitimidade da
escravidão, a inferioridade da mulher em relação ao homem).
Na Idade Média havia a noção de que os homens estavam submetidos a uma
ordem superior, divina, e deviam obediência às suas regras. Contudo, nesse
período houve um avanço, à medida que se passou a reconhecer que o
indivíduo estava submetido a duas autoridades (secular e espiritual) e, com
esse reconhecimento, o homem passou a ser considerado “como um ser moral,
e não apenas como um ser social”, derivando daí que “enquanto seres morais,
ou seja, enquanto membros da civitas Dei, todos os homens eram iguais, sem
embargo das distinções de status circunstancialmente registradas na cidade
terrena”
A partir do século XIV, as transformações que ocorreram abalaram toda a
estrutura concebida e que dava sustentação à organização social e política da
época, culminando, tais mudanças, com o Iluminismo (período entre a
Revolução Inglesa de 1688 e a Revolução Francesa de 1789). Foi durante o
Iluminismo e o Jusnaturalismo desenvolvidos na Europa, entre os séculos XVII
e XVIII, que a ideia de direitos humanos se instalou, inclusive estendendo-se
aos ordenamentos jurídicos dos países.
Para a primeira, o homem foi criado “à imagem e semelhança de Deus”, sendo
a igualdade e liberdade características divinas presentes em todas as pessoas.
No Iluminismo, o princípio da igualdade essencial dos seres humanos foi
estabelecido sob o prisma de que todo homem tem direitos resultantes de sua
própria natureza, ou seja, “firmou-se a noção de que o homem possui certos
direitos inalienáveis e imprescritíveis, decorrentes da própria natureza humana
e existentes independentemente do Estado”.
A conceção, que espalhou-se pelos ordenamentos de vários países, era a de
que os direitos individuais eram preexistentes, portanto, não eram criações do
Estado e, assim sendo, deveriam ser respeitados, cabendo ao Estado zelar
pela sua observância.
Assim, o Contrato Social foi criado, como forma de garantir ao mesmo tempo a
igualdade e a liberdade por meio da soberania popular, pela qual os homens
cediam parte de sua liberdade para a realização do bem comum.
A contribuição de Kant foi muito valiosa para a construção do princípio dos
direitos universais da pessoa humana. Kant observa “que só o ser racional
possui a faculdade de agir segundo a representação de leis ou princípios; só
um ser racional tem vontade, que é uma espécie de razão denominada razão
prática, em que, todo o homem tem como fim natural a realização de sua
própria felicidade, daí resulta que todo homem tem dignidade. Isso implica, na
sua conceção, que não basta ao homem o dever negativo de não prejudicar
alguém, mas, também, e essencialmente, o dever positivo de trabalhar para a
felicidade alheia. Essa conceção foi fundamental para o reconhecimento dos
direitos necessários à formulação de políticas públicas de conteúdo económico
e social.

Pode-se falar em três fases da evolução dos direitos humanos: o Iluminismo, a


Revolução Francesa e o término da Segunda Guerra Mundial.
Com o primeiro foi ressaltada a razão, o espírito crítico e a fé na ciência. Esse
movimento procurou chegar às origens da humanidade, compreender a
essência das coisas e das pessoas, observar o homem natural.
A Revolução Francesa deu origem aos ideais representativos dos direitos
humanos, a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Estes inspiraram os
teóricos e transformaram todo o modo de pensar ocidental. Os homens tinham
plena liberdade (apesar de empecilhos de ordem económica, destacados,
posteriormente, pelo Socialismo), eram iguais, ao menos em relação à lei, e
deveriam ser fraternos, auxiliando-se uns aos outros.
Por fim, com a Segunda Grande Guerra, os homens tomaram consciência da
necessidade de não se permitir que aquelas monstruosidades ocorressem
novamente, de se prevenir os arbítrios dos Estados. Isto culminou na criação
da Organização das Nações Unidas e na declaração de inúmeros Tratados
Internacionais de Direitos Humanos, como “A Declaração Universal dos
Direitos do Homem”, como ideal comum de todos os povos.

Os documentos de proteção aos direitos humanos foram surgindo progressivamente.

O antecedente mais remoto pode ser a Magna Carta, (expressão em latim que
significa “Grande Carta”) foi o primeiro documento a colocar por escrito alguns
direitos do povo inglês. O rei João sem Terra, da Inglaterra, assinou-a a 15 de
junho de 1215. A Magna Carta estabeleceu que o rei devia seguir a lei e não
podia mais, reinar como bem entendesse. Foi um dos primeiros documentos a
conceder direitos aos cidadãos. Desse modo, é considerado um tipo
de constituição.
Os nobres ingleses (chamados barões), os líderes da Igreja e o povo não
gostavam do rei João. Ele exigia muito dinheiro ao seu povo. Os barões
redigiram a Magna Carta para limitar o poder do rei, e João não teve força
suficiente para se opor a eles.
A Magna Carta garantiu essencialmente os direitos dos barões e da Igreja
Católica. Contudo, também deu às mulheres e às crianças o direito de herdar
propriedades. Além disso, estabeleceu que ninguém podia ser punido por um
crime antes de ser legalmente julgado e condenado como culpado. A Magna
Carta também deu aos barões o direito de declarar guerra ao rei se este não
respeitasse o documento.
A Magna Carta foi o primeiro passo para a elaboração da constituição da
Inglaterra. Embora trate essencialmente de assuntos relevantes do século XIII,
quando foi redigida, e apesar de ter sido revista várias vezes para se adequar
às circunstâncias de cada época, algumas disposições da versão original ainda
integram as leis inglesas de hoje. Mais tarde, muitos outros países utilizaram as
ideias da Magna Carta para elaborar suas próprias constituições.

A Petition of Rights - A Petição do Direito é um importante documento


constitucional inglês que estabelece liberdades específicas do sujeito, que o rei
está proibido de infringir. Aprovada em 7 de junho de 1628, a petição contém
restrições sobre a tributação não parlamentar, a retirada forçada de soldados, a
prisão sem justa causa e o uso da lei marcial. Em resposta à recusa da
concessão de subsídios por parte do rei Charles, para apoiar o esforço de
Guerra dos Trinta anos e à recruta forçada de soldados dentro de suas casas,
a Câmara dos Comuns preparou um conjunto de quatro Resoluções ,
condenando essas ações e reafirmando a validade da Magna Carta e a
exigência legal de habeas corpus. A petição é vista como "um dos documentos
constitucionais mais famosos da Inglaterra", de igual valor para a Magna
Carta e Bill of Rights 1689 .  Assim, podemos afirmar que a Petition of Rights,
tentou incorporar novamente os direitos estabelecidos pela Magna Carta, por
meio da necessidade de consentimento do Parlamento para a realização de
inúmeros atos.

O Habeas Corpus Act, instituiu um dos mais importantes instrumentos de


garantia de direitos criados. Bastante utilizado até os nossos dias, destaca o
direito à liberdade de locomoção a todos os indivíduos. Quando alguém
interpõe um habeas corpus está a pedir para que lhe seja reposta a sua
garantia constitucional de liberdade. Em latim a expressão habeas corpus
significa, literalmente, “que tenhas o teu corpo” e este direito está consagrado
na Constituição da República Portuguesa de 1976, revista em 2001, no artigo
31º (habeas corpus em virtude de detenção ilegal).

Estipula este artigo, nos seus três pontos: 1. Haverá habeas corpus contra o


abuso de poder, por virtude de prisão ou detenção ilegal, a requerer perante o
tribunal competente; 2. A providência de habeas corpus pode ser requerida
pelo próprio ou por qualquer cidadão no gozo dos seus direitos políticos; 3. O
juiz decidirá no prazo de oito dias o pedido de habeas corpus em audiência
contraditória.

O habeas corpus está igualmente consagrado no Código de Processo Penal


Português no artigo 220º (na versão de 2003). Existem dois tipos de habeas
corpus: o preventivo e o liberatório. O primeiro acontece quando alguém que se
vê ameaçado de ser privado da sua liberdade e interpõe um habeas
corpus para que esse direito não lhe seja retirado. O segundo, acontece já
depois da detenção e o detido interpõe o habeas corpus pedindo que lhe seja
restituída a liberdade, uma vez que a situação de detenção, ofende o direito
que lhe é constitucionalmente garantido.

O habeas corpus pode ser invocado por quatro motivos. A saber:


a) Estar excedido o prazo para entrega ao poder judicial;
b) Manter-se a detenção fora dos locais legalmente permitidos;
c) Ter sido a detenção efetuada ou ordenada por entidade incompetente;
d) Ser a detenção motivada por facto pelo qual a lei a não permite.

A Bill of Rights – Declaração de Direitos - Um dos mais antigos parlamentos


bicamerais da história moderna é o britânico. Ele se desenvolveu a partir das
reuniões de nobres e outras pessoas da elite, ainda no século XIII. Com o
tempo, o poder do Parlamento britânico cresceu. Em 1689, ele aprovou a
Declaração de Direitos, que garante a superioridade da lei sobre a monarquia.
Essa declaração também definiu a liberdade de imprensa e individual e o
direito à propriedade privada.
Assim, podemos afirmar que Bill of Rights, veio para assegurar a supremacia
do Parlamento sobre a vontade do rei.
A Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, assim como
a Constituição Federal de 1787,  foi o documento no qual as chamadas Treze
Colónias, localizadas na América do Norte, declararam independência da Grã-
Bretanha. A Declaração enfatizava dois temas: os direitos individuais
nomeadamente a igualdade entre os homens, a vida, a liberdade, a
propriedade e o direito de revolução. Essas ideias foram fortemente
apoiadas pelos americanos e também expandiram internacionalmente,
influenciando particularmente a Revolução Francesa.

Desde que a constituição entrou em vigor em 1789, foi alterada vinte e sete
vezes. Em geral, as dez primeiras emendas, conhecidas coletivamente
como Bill of Rights ("Carta de Direitos"), oferecem proteções específicas de
liberdade individual inclusive a religiosa e a da justiça, além de restringir os
poderes do governo. A maioria das dezassete alterações posteriores visaram
expandir os direitos civis individuais. As dez Emendas Constitucionais
americanas permanecem em vigor até hoje, demonstrando o caráter atemporal
desses direitos fundamentais. Essas Emendas têm caráter apenas
exemplificativo, já que, constantemente, novos direitos fundamentais podem
ser declarados e incorporados à Lei Fundamental Americana.
A Declaração de Direitos do estado da Virgínia declara que “todos os homens
são por natureza igualmente livres e independentes e têm certos direitos inatos
de que, quando entram no estado de sociedade, não podem, de nenhuma
forma, privar ou despojar de sua posteridade, nomeadamente o gozo da vida e
da liberdade, com os meios de adquirir e possuir propriedade e procurar e obter
felicidade e segurança”. Assegura, também, todo poder ao povo e o devido
processo legal (julgamento justo para todos).

Com a Revolução Francesa de 1789, A DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO


HOMEM E DO CIDADÃO foi aprovada pela Assembleia Nacional, a 26 de
agosto de 1789, que decidiu que uma declaração dos direitos devia preceder a
Constituição. De 20 a 26 de agosto, o texto pré-selecionado pela Assembleia
foi discutido e aprovado.

A aprovação da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, veio


garantir os direitos referentes à liberdade, propriedade, segurança e resistência
à opressão. Destaca os princípios da legalidade e da igualdade de todos
perante a lei, e da soberania popular. Aqui, o pressuposto é o valor absoluto da
dignidade humana, a elaboração do conceito de pessoa abarcou a descoberta
do mundo dos valores, sob o prisma de que a pessoa dá preferência, em sua
vida, a valores que elege, que passam a ser fundamentais, daí porque os
direitos humanos hão de ser identificados como os valores mais importantes
eleitos pelos homens.
A partir do século XX, a regulação dos direitos económicos e sociais passaram
a incorporar as Constituições Nacionais.

A primeira Carta Magna, a revolucionar a positivação de tais direitos, foi a


Constituição Mexicana de 1917, que versava, inclusive, sobre a função social
da propriedade.
A Constituição de Weimar de 1919, que entrou em vigor no dia 31 de Julho de
1919, foi o documento que governou a curta república de Weimar, na
Alemanha. Formalmente, era a Constituição do estado alemão.

Nesta constituição, estavam consagrados os direitos económicos e sociais e foi


o grande modelo seguido pelas novas Constituições Ocidentais.
A partir da segunda metade do século XX, iniciou-se a real positivação dos
direitos humanos, que cresceram em importância e em número, devido,
principalmente, aos inúmeros acordos internacionais. O pensamento formulado
nesse período acentua o caráter único e singular da personalidade de cada
indivíduo, derivando daí que todo homem tem dignidade individual e, com isto,
a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu art. 6.º, afirma: “Todo
homem tem direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa
perante a lei”.
Pode-se constatar, por estes apontamentos, que a evolução dos direitos
humanos foi gradual; todavia, o pensamento moderno “é a convicção
generalizada de que o verdadeiro fundamento da validade – do Direito em geral
e dos direitos humanos em particular – já não deve ser procurado na esfera
sobrenatural da revelação religiosa. Se o direito é uma criação humana, o seu
valor deriva, justamente, daquele que o criou. O que significa que esse
fundamento não é outro, senão o próprio homem, considerado em sua
dignidade substancial de pessoa...”

INSTRUMENTOS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

Com o fim da Segunda Guerra Mundial começaram as grandes questões sobre


o Direito Humanitário, “foi a primeira expressão de que, no plano internacional,
há limites à liberdade e à autonomia dos Estados, ainda que na hipótese de
conflito armado”. Reforçando este ponto de vista, foi criada a Liga das Nações,
que apontava “a necessidade de relativização da soberania dos Estados”. A
seguir, foi introduzida a Organização Internacional do Trabalho que colaborou,
profundamente, a fim de tornar internacional os direitos humanos.
Quer em conjunto, quer em separado, esses institutos foram a base para a
internacionalização dos direitos humanos. O sistema internacional de proteção
dos direitos humanos é formado por documentos internacionais voltados à
garantia dos direitos humanos, tanto no âmbito global como no âmbito regional.
O sistema global de proteção é composto de instrumentos de alcance geral
(pactos) e instrumentos de alcance especial (convenções específicas), e sua
incidência não se limita a uma determinada região, podendo alcançar qualquer
Estado integrante da ordem internacional.
Os Estados têm total liberdade para aceitar ou não o documento, mas se
aderirem ao regulamento internacional, ficam obrigados a cumprir o seu
conteúdo, o que equivaleria dizer “terem abdicado de parte de sua soberania”.
Há, no entanto, a real consolidação do Direito Internacional dos Direitos
Humanos após a Segunda Guerra Mundial.
Diz o Prof. Buergenthal: “O moderno Direito Internacional dos Direitos
Humanos é um fenómeno do pós-guerra. Seu desenvolvimento pode ser
atribuído às monstruosas violações de direitos humanos da era Hitler e à
crença de que parte destas violações poderiam ser prevenidas se um efetivo
sistema de proteção internacional de direitos humanos existisse”.
De facto, a necessidade de uma ação internacional mais eficaz para a proteção
dos direitos humanos impulsionou o processo de internacionalização desses
direitos, culminando na criação da sistemática normativa de proteção
internacional, que faz possível a responsabilização do Estado no domínio
internacional, quando as instituições nacionais se mostram falhadas ou
omissas na tarefa de proteção dos direitos humanos.
Os direitos humanos tornam-se uma legítima preocupação internacional com o
fim da Segunda Guerra Mundial, com a criação das Nações Unidas, com a
adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembleia Geral
da ONU, em 1948 e, como consequência, passam a ocupar um espaço central
na agenda das instituições internacionais.
No período do pós-guerra, os indivíduos tornam-se um foco de atenção
internacional. A estrutura do contemporâneo Direito Internacional dos Direitos
Humanos começa a consolidar-se.
Agora, nenhum Estado pode tratar os seus cidadãos da forma que quiser, sem
sofrer qualquer responsabilização no campo internacional.
Ao lado do sistema global, surge o sistema regional de proteção, que busca
internacionalizar os direitos humanos no plano regional, particularmente na
Europa, América e África.
As consciências abriram-se, enfim, para o fato de que a sobrevivência da
humanidade exigia a colaboração de todos os povos na reorganização das
relações internacionais, com base no respeito incondicional à dignidade
humana.
Nota:
A norma do jus cogens é aquela norma imperativa de Direito Internacional geral, aceita e
reconhecida pela sociedade internacional em sua totalidade, como uma norma cuja abolição é
proibida e só pode sofrer modificação por meio de outra norma da mesma natureza. ”

Um exemplo reconhecido de "jus cogens" é a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU de
1948, que apesar de não ser uma norma formalmente necessária, já que não é um tratado, possui
obrigatoriedade material, uma vez que foi votada na assembleia geral das nações unidas
RELATIVISMO CULTURAL

Relativismo Cultural e Direitos Humanos


Será que existe conciliação?

Relativismo cultural e etnocentrismo

É a visão de que as crenças, costumes e ética são relativos ao indivíduo no


seu próprio contexto sócio – cultural. O “Certo" e o "errado" dependem de cada
cultura, o que é considerado moral em uma sociedade pode ser considerado
imoral em outra. Não existe um padrão universal de cultura, ninguém tem o
direito de julgar os costumes de uma outra sociedade.

Relativismo e diversidade cultural

Conhecer as culturas e sua diversidade permite superar expressões como


bárbaro, selvagem, exótico, civilizado. As culturas são complexas e devem ser
compreendidas na capacidade humana de criar, reinventar, adaptar-se e
inserir-se na natureza.
O relativismo cultural ensina-nos a entender cada cultura no universo em que é
produzida. O desconhecimento sobre uma cultura gera interpretações parciais
e desconhecimento sobre a sua relação com o meio em que vive. É necessário
mergulhar na cultura do outro para compreende-la.
A razão de ser do problema, é de que os direitos humanos são universais e as
diversas sociedades têm práticas e costumes particulares.
Existe uma imensa diversidade cultural.
Em certas culturas pratica – se o infanticídio - na nossa é proibido.
A mutilação genital feminina é tradição de certas culturas - na nossa é proibida.
Em certas culturas um homem pode casar com várias mulheres - na nossa é
proibido.
Quem está errado? Nós ou eles? Ou será que ninguém está errado?
No Relativismo Cultural ninguém está errado. O Relativismo Cultural identifica
o moralmente certo, com o que cada cultura aprova. Não há, por isso, valores
morais universais. A cada cultura corresponde a sua verdade. Nenhuma cultura
pode dar lições de moral a outra. Há diferentes maneiras de definir o que é
correto ou incorreto e nenhuma cultura está mais certa ou mais errada do que
outra.
Em 1948, após a 2ª Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas,
aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, na qual está
estipulado:
No artigo 1 - Todos os seres humanos nasceram livres e iguais em dignidade e
direitos. Dotados de razão e de consciência, devem relacionar-se uns com os
outros em espírito de fraternidade.
No artigo 2 - Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as
liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma,
nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião
política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de
qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada
no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da
naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela,
autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.
Falar de direitos universais implica reconhecer que há deveres morais que
todas as culturas devem respeitar.

O conflito
Para o relativista cultural não havendo valores morais universais só temos os
direitos atribuídos pela cultura a que pertencemos. Por outro lado, a
Declaração Universal dos Direitos Humanos defende que não temos só os
direitos que a cultura a que pertencemos, nos concede.
Reconhecer que há direitos humanos é negar que as práticas e tradições de
uma cultura sejam intocáveis, há valores que estão acima de qualquer tradição
cultural.
Logo, parece que defender os direitos humanos implica negar o Relativismo
Cultural, ou seja, afirmar que, em alguns casos, tem cabimento a ideia de que
“nós estamos certos e eles errados”.
O Relativismo afirma que ao defender a ideia que “nós estamos certos e eles
errados”, estamos a fomentar uma atitude intolerante e a negar o respeito
mútuo entre diversas culturas.
Se admitirmos a ideia de direitos humanos, assumimos que há direitos
universais e valores que não devem ser desrespeitados, mesmo que as várias
culturas discordem acerca do que é certo ou errado.
Razões para aceitar o Relativismo Cultural

O Relativismo Cultural promove a coesão social, que é fundamental para a


sobrevivência de uma sociedade. Uma vez que a aceitação das normas morais
determina a solidariedade social e consequentemente a unidade e coesão
sociais. O Relativismo promove a tolerância entre sociedades diferentes, pois
leva-nos a ver as outras culturas como diferentes e a uma atitude de não
violência para com os outros povos e culturas. O Relativismo Cultural, uma vez
que defende que devemos agir de acordo com as normas da nossa sociedade,
leva-nos ao conformismo. Muito embora a coesão social seja importante, é
necessária uma certa dose de inconformismo, pois este torna possível o
aperfeiçoamento social. Dado que o Relativismo não deixa espaço para o
inconformismo, aceitá-lo seria impedir qualquer sociedade de se aperfeiçoar.

Objeções ao Relativismo Cultural

O relativista defende que, seja qual for a maioria, ela está correta. Ora, muitas
vezes a maioria é ignorante, não está bem informada, e por isso as suas
opiniões podem não ser as melhores. A maioria pode estar enganada.
Segundo o Relativista Cultural, devemos aceitar mesmo as práticas das outras
sociedades que nos pareçam monstruosas, pois elas têm razão de existir no
seio da cultura em que foram geradas. Se aceitarmos o Relativismo, não
teremos razões para criticar, nem para tentar convencer os outros povos de
que estão errados. Não há dúvidas que a tolerância é um bem, mas isso não
significa que qualquer comportamento seja tolerável desde que beneficie de
aprovação social.

Atualmente, os direitos humanos posicionam-se acima dos demais direitos


previstos no ordenamento jurídico, em virtude de serem dotados de certas
características como a imprescritibilidade, inalienabilidade, irrenunciabilidade,
inviolabilidade, universalidade, efetividade, interdependência e
complementaridade.

Em contrapartida, todos os povos têm direito à autodeterminação. Em virtude


desse direito, determinam livremente seu estatuto político e asseguram
livremente seu desenvolvimento económico, social e cultural.

Assim, podemos compreender que se os direitos humanos são universais, ou


seja, se são estabelecidos a todos os indivíduos, independentemente de
qualquer condição, encontram um obstáculo diante do termo
“autodeterminação”, pois isso nos indica que cada País, por ser soberano, tem
o direito de decidir o seu destino económico, social e cultural. E é exatamente
nesse cenário, que se observa a divergência entre o universalismo e o
relativismo cultural.
Quando há incompatibilidade entre uma norma internacional de direitos
humanos e uma norma interna de um País, devem ser analisadas as condições
culturais do povo. “A lei é, realmente, um camaleão, ela se modifica, para
adaptar-se ao meio que a cerca”, portanto, fica complicado exigir que todos os
Países regulem o convívio social com base nos mesmos preceitos legais, isto
se torna claro ao analisar a prisão perpétua que é proibida em Portugal e aceite
em outros Países.

Neste contexto, o homem é um ser etnocentrista, pois compara a sua cultura


às demais, e geralmente por entender que a sua conduta é a correta, costuma
rejeitar a alheia.

O homem é um ser que utiliza o etnocentrismo, que não é mais do que uma
visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e
todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos
modelos, nossas definições do que é a existência. No plano intelectual, pode
ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença - no plano afetivo, como
sentimentos de estranheza, medo e hostilidade.

Nesse sentido, há quem defenda o universalismo, em que os direitos humanos


devem ser considerados e obedecidos por todos os indivíduos, seja qual for a
condição económica, social e/ou cultural, tal corrente afirma que o Relativismo
Cultural seria uma forma de violar os direitos humanos, por que a cultura pode
prejudicar e desprezar valores do homem, tais como a vida, a liberdade e
outros.

Por outro lado, os que defendem o Relativismo Cultural concluem que, se os


documentos internacionais de direitos humanos conferem aos Países o direito
ao livre desenvolvimento social, económico, político e cultural, bem como a
autodeterminação face à sua soberania, não se pode obrigar os Países à
obediência de todos os direitos humanos, quando houver incompatibilidade
cultural, pois eles passariam a ser instrumento violador dos próprios direitos
que protegem, entre eles, a liberdade.

De fato, o universalismo, mesmo sob proposta de objetivos considerados de


grande relevância para a humanidade, pode interferir nos aspetos específicos
de cada cultura, na medida em que a Declaração Universal dos Direitos
Humanos estabelece preceitos fundamentais que não conseguem ser inseridos
em todos os Países, em virtude das culturas diversificadas.
As Gerações do Direito

São considerados humanos, os direitos conferidos a todo e qualquer sujeito, no


intuito de se resguardar sua dignidade, direitos esses que “a sociedade política
tem o dever de consagrar e garantir”, todos decorrentes de alterações no
pensamento filosófico, jurídico e político da humanidade, e que, positivados,
convencionou-se designar por “direitos fundamentais”.
Como precedente histórico de processo de internacionalização dos direitos
humanos, assinala-se a Liga das Nações e a Organização Internacional do
Trabalho, convenções pelas quais foi possível, pela primeira vez, “redefinir o
status do indivíduo no cenário internacional, para que se tornasse verdadeiro
sujeito de direito internacional”. Em ambas as convenções, criadas antes da
Primeira Guerra Mundial, visou-se estabelecer limites à atuação estatal e
garantir a observância dos direitos fundamentais, assinalando a necessidade
de se relativizar a soberania dos Estados.
É fundamental referir que o advento da Organização Internacional do Trabalho,
da Liga das Nações e do Direito Humanitário registra o fim de uma época em
que o Direito Internacional era, salvo raras exceções, confinado a regular
relações entre Estados, no âmbito estritamente governamental. Através destes
institutos, não mais se visava proteger arranjos e concessões recíprocas entre
os Estados. Visava-se sim, ao alcance das obrigações internacionais a serem
garantidas ou implementadas
Na sequência, após a Segunda Grande Guerra, palco de massacres e
conhecido genocídio de várias etnias, efeito do fortalecimento do totalitarismo
estatal dos anos 30, a humanidade percebeu a urgência de resguardar,
mediante eficazes medidas, a dignidade da pessoa humana.
O moderno Direito Internacional dos Direitos Humanos é um fenómeno do pós-
guerra. O seu desenvolvimento pode ser atribuído às monstruosas violações de
direitos humanos da era Hitler e à crença de que parte destas violações
poderiam ser prevenidas, se um efetivo sistema de proteção internacional de
direitos humanos existisse. Assim, surgiu a necessidade de se reconstruir tais
direitos. O Tribunal de Nuremberg, no qual foram julgados os crimes cometidos
ao longo do Nazismo, ou por líderes nazistas, ou por oficiais militares, teve a
sua composição e procedimentos básicos fixados pelo acordo de Londres e
tinha, claramente como objetivo, reprimir futuras práticas de atos contrários aos
direitos humanos e demonstrar que para a comunidade internacional a força
normativa dos direitos humanos deixava de ser questão de direito doméstico,
para tornar-se matéria de cunho global.
Desse momento histórico, resultaram a Declaração Universal, aprovada pela
Assembleia Geral das Nações Unidas de 1948 e a Convenção Internacional
sobre a prevenção e punição do crime de genocídio, ambas marcos inaugurais
de “uma nova fase histórica, que se encontra em pleno desenvolvimento”.
Meio século após o término da 2ª Guerra Mundial, 21 convenções
internacionais, exclusivamente dedicadas à matéria, haviam sido celebradas no
âmbito da Organização das Nações Unidas ou das organizações regionais.
Entre 1945 e 1998, outras 114 convenções foram aprovadas no âmbito da
Organização Internacional do Trabalho. Não apenas direitos individuais, de
natureza civil e política, ou os direitos de conteúdo económico e social foram
assentados no plano internacional. Afirmou-se também a existência de novas
espécies de direitos humanos: direitos dos povos e direitos da humanidade.
Dessa maneira, os povos passaram a ter consciência de que o conjunto da
comunidade humana se interessava pelo seu destino.
Além disso, além de internacionalizar os direitos ali contidos, a Declaração
também teve a função de conjugar, harmonizar ou conciliar as gerações de
direitos civis e políticos (primeira geração de direitos) aos direitos económicos,
sociais e culturais (segunda geração), equalizando, desta forma, o discurso
liberal e o discurso social defensores da cidadania, juntando o valor da
liberdade ao da igualdade.

Direitos humanos de primeira geração

Os direitos humanos de primeira geração são resultantes, principalmente, da


Declaração Francesa dos direitos do Homem e do Cidadão e da Constituição
dos Estados Unidos da América de 1787, que surgiram após o confronto entre
governados e governantes, ou seja, da insatisfação daqueles com a realidade
política, económica e social de sua época, e que resultou nessas afirmações
dos direitos de indivíduos em face do poder soberano do Estado absolutista.
Tais documentos, representaram a emancipação histórica do indivíduo perante
os grupos sociais aos quais ele sempre se submeteu: a família, o clã, o grupo
social, as organizações religiosas. Mas em contrapartida, a perda da proteção
familiar e religiosa tornou o indivíduo muito mais vulnerável às vicissitudes da
vida. A sociedade liberal ofereceu-lhe, em troca, a segurança da legalidade,
com a garantia da igualdade de todos perante a lei. Esses direitos, visando a
proteção das liberdades individuais ao impor limites ao Estado, recebem a
denominação, por alguns autores de direitos humanos de primeira geração ou
primeira dimensão.
Os direitos humanos da Declaração de Virgínia e da Declaração Francesa de
1789 são neste sentido, direitos humanos de primeira geração, que se baseiam
numa clara demarcação entre Estado e não Estado, fundamentada no
contratualismo de inspiração individualista. São vistos como direitos inerentes
ao indivíduo e tidos como direitos naturais, uma vez que precedem o contrato
social. Por isso, são direitos individuais:
Quanto ao modo de exercício – é individualmente que se afirma, por exemplo,
a liberdade de opinião;
Quanto ao sujeito passivo do direito – pois o titular do direito individual pode
afirmá-lo em relação a todos os demais indivíduos, já que esses direitos têm
como limite o reconhecimento do direito de outro.
Há quem assinale, que as dimensões de direitos humanos foram separadas
conforme o lema da Revolução Francesa de 1789, liberté, igualité, fraternité, ao
qual a liberdade corresponderia à primeira, a igualdade à segunda e a
fraternidade à terceira geração de direitos, sobrevindo, somente anos depois,
as quarta e quinta gerações de direitos humanos.

Direitos humanos de segunda geração

Mais tarde, porém, com a consagração dos direitos de liberdade, ocorreu a


passagem das chamadas liberdades negativas, para os direitos políticos e
sociais, que exigiam uma intervenção direta do Estado, para verem-se
concretizados. Isto ocorreu, com a passagem da consideração do indivíduo
singular, primeiro sujeito a quem se atribuiu direitos naturais, para grupos de
sujeitos, sejam famílias, minorias étnicas ou até mesmo religiosas.
Os direitos sociais ou prestacionais, como o direito à saúde, configuram, assim,
um dos elementos que marcaram a transição do constitucionalismo liberal para
o constitucionalismo social, direitos que impõem, determinam ou exigem do
Estado enquanto propiciador da liberdade humana, não mais aquela atividade
negativa, de restrição de sua atuação, mas uma ação positiva, através de uma
efetiva garantia e eficácia do direito fundamental prestacional.
De segunda geração, são, pois, os direitos ao trabalho, à saúde, à educação,
entre outros, cujo sujeito passivo é o Estado, que tem o dever de realizar
prestações positivas aos seus titulares, os cidadãos, em oposição à posição
passiva que se reclamava quando da reivindicação dos direitos de primeira
geração. Foram positivados somente nas Constituições francesas liberais de
1791 e 1973, sendo ampliados e reafirmados pela Constituição francesa de
1948, carta política esta que correspondeu com a consciência da população,
verdadeira interessada na efetivação de tais direitos, devido aos problemas
resultantes da revolução industrial, bem como, a condição dos operários.
Direitos humanos de terceira geração

A par das dificuldades e das conquistas decorrentes da luta social pelo


reconhecimento e pela eficácia dos direitos civis e políticos - de primeira
geração, e dos direitos económicos, sociais e culturais - direitos de segunda
geração, outros valores, até então não tratados como prioridade na sociedade
ocidental, foram colocados em discussão no período posterior ao final da
Segunda Guerra Mundial, em 1945.
Os referidos valores, para serem efetivados, exigiam soluções inovadoras que
só o reconhecimento de direitos de estirpe diversa dos já positivados poderia
satisfazer. Estes novos direitos passaram, assim, a serem alcunhados de
direitos de terceira geração.
Tais direitos, também conhecidos como direitos da solidariedade ou
fraternidade, caracterizam-se, assim, pela sua titularidade coletiva ou difusa,
tendo coincidido o período de seu reconhecimento ou positivação com o
processo de internacionalização dos direitos humanos. Sobre esta geração de
direitos, destaca-se o fato de se desprenderem, em princípio, da figura do
homem como indivíduo titular, destinando-se à proteção de grupos humanos
(família, povo, nação), e caracterizando-se, consequentemente, como direitos
de titularidade coletiva ou difusa.
De entre os direitos fundamentais da terceira dimensão consensualmente mais
citados, cumpre referir os direitos à paz, à autodeterminação dos povos, ao
desenvolvimento, ao meio ambiente e qualidade de vida, bem como o direito à
conservação e utilização do património histórico e cultural e o direito de
comunicação. Isto é na verdade, resultado de novas reivindicações
fundamentais do ser humano, geradas, pelo impacto tecnológico, pelo estado
crónico do período de guerra, bem como pelo processo de descolonização do
segundo pós-guerra e suas consequências.

Direitos humanos de quarta geração

Ainda, há doutrinadores, que reconhecem a existência de uma quarta geração


ou dimensão de direitos humanos, que se identificariam com o direito contra a
manipulação genética, direito de morrer com dignidade e direito à mudança de
sexo, todos pensados para o solucionamento de conflitos jurídicos inéditos,
novos, frutos da sociedade contemporânea. Existem ainda outros, que
entendem que a quarta geração de direitos identificar-se-ia com a
universalização de direitos fundamentais já existentes, como os direitos à
democracia direta, à informação e ao pluralismo.

Direitos humanos de quinta geração

Finalmente, os direitos humanos da quinta geração, tal como os de quarta,


também não são pacificamente reconhecidos pela doutrina, como o são os das
três primeiras. No entanto, os direitos que por essa geração são reconhecidos,
tais como a honra, a imagem, enfim, os “direitos virtuais” que ressaltam o
princípio da dignidade da pessoa humana, decorrem de uma era deveras nova
e contemporânea, advinda com o exacerbado desenvolvimento da Internet nos
anos 90. Tais valores, portanto, são defendidos e protegidos por essa geração
de direitos, com a particularidade de protegê-los frente ao uso massivo dos
meios de comunicação eletrónica, merecendo, assim, proteção não só as
pessoas naturais, mas também as pessoas jurídicas

O Estado de Direito

Originariamente, o Estado de Direito era uma definição de Estados liberais,


cujas características mais marcantes se perfazem na submissão de todos à lei
e cuja elaboração era de competência do Legislativo, formado por
representantes do povo, na separação de poderes, que dividisse de maneira
independente e harmoniosa o Legislativo, Executivo e Judiciário, garantindo,
assim, a imparcialidade e justeza na elaboração e aplicação das normas e na
garantia dos direitos humanos e fundamentais. Tais exigências, que remontam
à origem dessa forma de Estado, ainda são a base principal do Estado
Democrático de Direito, configurando, assim, uma grande conquista da
civilização liberal.

O Estado Democrático

O Estado Democrático é, assim, aquele no qual há a soberania popular, isto é,


aquele que exige a participação efetiva e positiva do povo na republica, a
participação da população nas decisões importantes do Estado.
Entende-se, pois, que para a democracia subsistir e se realizar plenamente,
impõe-se a efetivação dos direitos fundamentais, pré-requisitos que são
necessários para uma sociedade justa e igualitária. É preciso que sejam
garantidos os direitos fundamentais dos indivíduos; é preciso também que
estes se sintam cidadãos e participem da construção da vida coletiva. Portanto,
é preciso que estes dois mundos – o Estado e a sociedade civil – que devem
permanecer separados, fiquem também ligados um ao outro pela
representatividade dos dirigentes políticos. Essas três dimensões da
democracia – respeito pelos direitos fundamentais, cidadania e
representatividade dos dirigentes – completam-se; aliás, é a sua
interdependência que constitui a democracia.

Relação entre as gerações de direitos humanos e o Estado Democrático de Direito

Ao analisar o trajeto percorrido para a internacionalização das gerações de


direitos humanos, desde o seu surgimento até à atualidade, nota-se que é o
mesmo caminho que se perseguiu até o alcance do Estado Democrático de
Direito, porquanto os fundamentos e do desenvolvimento histórico das
gerações de direitos e do Estado Democrático de Direito são exatamente os
mesmos. O Estado Democrático de Direito teve como consequência direta o
aumento de bens e direitos suscetíveis da tutela jurídica (princípio da
legalidade) que, por sua vez, torna a atividade jurídica do aplicador do direito
mais complexa, sempre em busca da maior efetivação possível dos direitos
humanos positivados na Carta Fundamental.

Em suma:
Os direitos de 1ª GERAÇÃO (direitos civis e políticos) – que compreendem as
liberdades clássicas, negativas ou formais – realçam o princípio da liberdade
Os direitos de 2ª GERAÇÃO (direitos económicos, sociais e culturais) – que se
identificam com as liberdades positivas, reais ou concretas – acentuam o
princípio da igualdade
Os direitos de 3ª GERAÇÃO, que materializam poderes de titularidade coletiva,
atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio
da solidariedade e constituem um momento importante no processo de
desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos.
Princípios a que obedecem cada uma das Gerações de Direito

Quando se falou de Direito pela 1ª vez em Portugal

Os estudos jurídicos remontam, em Portugal, à fundação da Universidade,


durante o reinado de D. Dinis. A data exata da sua criação situa-se, com
certeza, entre 1288 e 1290. É tradicional, embora não isento de controvérsia, o
ponto de vista que reconhece a instituição do Studium Generale (estudos
gerais) na carta dionisiana de 1 de março de 1290. De qualquer modo, a bula
do Papa Nicolau IV que o confirmou, em 9 de agosto de 1290, representa, sem
dúvida, o momento decisivo da legitimação aos olhos da Europa culta.

Assim, a bula De statu regni Portugaliae (o estado de Portugal), encerrava


uma referência expressa ao magistério do direito canónico e do direito romano.
Aqueles que se graduassem teriam ubique, sine alia examinatione, regendi
liberam potestatem (em todos os lugares, sem um exame mais aprofundado,
que regula o direito de). Tais diplomados, podiam assim, ensinar em qualquer
parte do mundo cristão. Uma vez deslocada, em 1308, da sua sede inicial em
Lisboa para Coimbra, foi outorgada à Universidade, ainda pelo monarca
Lavrador, uma carta de privilégios, com data de 15 de fevereiro de 1309, onde
se determinava que houvesse um doutor in Decretis (decisões) e um mestre in
Decretalibus (decretos), bem como um professor de Leis.
Aliás, a Universidade encontrava-se, a princípio, composta de simples
“cadeiras” e não de autênticas “Faculdades” no sentido moderno. Ao que se
julga, a metodologia adotada nas aulas de direito seguiria de perto o modelo
bolonhês, assente num discurso interpretativo que radicava em processos
explicativos de análise textual. Admite-se que se recorreria a três espécies de
exercícios: as lectiones (leituras), as repetitiones (repetições) e as
disputationes (debates).

A Universidade portuguesa continuou a viajar entre Lisboa e Coimbra até ao


século XVI. Mas o que cumpre destacar é que, desde o começo, os cursos
jurídicos ocuparam uma posição cimeira no nosso Estudo Geral.
Sintomaticamente, estes cursos eram os que reuniam maior número de alunos,
e as remunerações atribuídas aos respetivos professores, eram muito mais
elevadas do que as dos restantes. O domínio licenciado da ciência do direito,
além de conferir poder e prestígio social, abria as portas ao desempenho de
atividades rendosas, sobrepondo-se à medicina. 

Embora sem grande sucesso, D. João II e D. Manuel I tentaram valorizar os


nossos estudos superiores. Este último concedeu estatutos à Universidade,
que traduzem, essencialmente, uma simples reposição sistematizada de
preceitos em vigor nos fins do século XV. Consagram a existência de três
cátedras (cadeiras) remuneradas de Cânones (conjunto de regras) e outras
tantas de Leis. Por resolução do mesmo monarca, viria a ser criada uma nova
cátedra de Cânones (a de Sexto). 

Em 1431, aparecem já documentados os graus universitários de bacharel, de


licenciado e de doutor. A inspiração italiana continuava a vingar nos métodos
de ensino, servindo de pauta às poderosas exposições magistrais de teor
romanístico e canonístico.

1826 – Importância da Legislação de Mouzinho da Silveira – Limitação do Poder Real

Na época vigorava o Cartismo e o Vintismo. O Cartismo designava a tendência


mais conservadora do liberalismo, centrada em torno da Carta Constitucional
de 1826. O Vintismo era uma corrente democrática do liberalismo português.
Fiel aos princípios, defendidos pela constituição de 1822. Ao mesmo tempo
que os seus fiéis lutavam contra os absolutistas nas frentes militares, o primeiro
Ministério liberal promulgava as adequadas reformas económicas e sociais,
administrativas, judiciais e fiscais.
José Xavier Mouzinho da Silveira, coube-lhe a autoria das grandes reformas
legislativas que consolidaram o Liberalismo.
Mouzinho da Silveira (1790-1848), a quem se deve um conjunto de reformas
que, após a decisiva vitória dos liberais, modernizaram os velhos sistemas
administrativo e judicial, tais como:
- Abolição dos morgados e capelas cujo o rendimento líquido fosse inferior a
duzentos mil réis anuais;
- Extinção das sisas, exceto em vendas ou trocas de bens de raiz, no dízimo
eclesiástico e dos forais;
- Supressão do privilégio exclusivo da companhia dos vinhos do alto Douro, da
exportação do vinho e do fabrico de aguardentes;
- Nova decisão administrativa do território nacional em províncias, comarcas e
concelhos;
- Nova organização judicial do país, em círculos judiciais – que depois foram
chamados distritos de relação – subdivididos em comarcas, estas em julgados,
fracionados por sua vez em freguesias;
- Estabelecimento de um supremo tribunal, em Lisboa, com jurisdição sobre
todo o reino.
- Nova organização administrativa.
Mouzinho da Silveira impôs outras medidas que permitiram lançar as bases de
uma nova organização administrativa de índole centralizadora. O país ficou
dividido em províncias, comarcas e concelhos, chefiados, respetivamente, por
perfeitos, subperfeitos e provedores, todos eles funcionários de nomeação
régia. - Reformas judiciais
Prolongaram-se até 1835. Introduziu-se o princípio de júri. O país dividiu-se em
círculos judiciais, estes em comarcas, por sua vez divididas em julgados e
esses últimos em freguesias;
- Hierarquia de juízes, que exercia nestas circunstâncias, sendo os dos círculos
e das comarcas nomeados pelo rei e os restantes elegidos por eleição. No topo
da pirâmide judicial, erguia-se o supremo tribunal da justiça, imposto em
Lisboa, era composto por juízes-conselheiros e com jurisdição sobre todo o
reino.

A ação reformadora de Mouzinho da Silveira

Principais decretos
1832, março – Reduz os dízimos nos Açores aos cereais, laranjas e outras
frutas, extinguindo os demais.
abril - suprime os morgadios e capelas cujo rendimento líquido não chegasse a
dois mil réis;
- Aboliu o pagamento das sisas, exceto em vendas ou trocas de bens de raiz;
- Impõe 1% de direitos de exportação sobre o valor das mercadorias de
produção, indústria ou manufatura nacional.
maio - torna aplicáveis nos Açores os decretos sobre a abolição da
escravatura; - Introduz reformas na administração pública e na justiça.
julho - Extingue o privilégio exclusivo da companhia dos vinhos do Alto Douro
da venda de vinhos e de fabrico de aguardentes.
agosto – Extingue os forais e revoga os foros , pensões, censos e outros
tributos que sobrecarregavam a terra e o camponês.
1833, julho – Alterações na divisão do território.

Finanças

Mouzinho da Silveira teve atenção com a parte das finanças, ou não sobrasse
para ele, a pasta da Fazenda.
As suas reformas implicaram Eliminação do secular sistema de tributação local,
através do qual grande parte dos impostos revertia a favor do clero e da
nobreza. Criaram também o Tribunal do Tesouro Público, que substituiu o
antigo Erário Régio, para o efeito de arrecadação de impostos e contabilização
dos fundos do Estado.
Para centralizar as receitas e pagar as despesas, existia em cada província um
recebedor-geral, e na comarca, um delegado, prevendo-se a criação de
subdelegados onde fosse necessário.