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VERDADES EM MEIO À LIQUIDEZ

Simone Moura Queiroz


Universidade Federal de Pernambuco
simonemq35@gmail.com

RESUMO:
Remetendo-nos a Foucault (2017), pode-se afirmar não existe verdade sem poder, seus
processos de subjetivações são variados, assim como não existe a verdade única
(universal). Com isso, temos que cada sociedade possui seu regime de verdade, sendo
este composto por discursos considerados verossímeis, reconhecidos por meio de
procedimentos variados, utilizando-se de mecanismos (instâncias) capazes de afastar os
discursos verdadeiros dos falsos. Este regime é vertical, criado e validado por um
específico grupo x, estendendo-se para outros grupos. Todavia, no final do século XX
início do XXI, em meio à proliferação e universalização do acesso aos meios de
comunicação, surgimento de aldeias globais, a irreversível globalização (BAUMAN,
1999), assim como a expansão do acesso ao espaço virtual, toda sociedade foi afetada,
sendo rompidas as barreiras representadas por fronteiras. O novo exige novos
instrumentos conceituais e novos fundamentos (FOUCAULT, 2012). O regime de
verdade teve sua formatação alterada devido à enxurrada de discursos observados e
acessíveis no atual mundo líquido (BAUMAN, 2001). O regime teria se horizontalizado
ou se expandido rizomaticamente? Naquilo que se tem hoje como verdade, ao deparar-se
com outra (divergente, ou não, à anterior), pode ocorrer uma permuta, ou seja, o discurso
anteriormente considerado verdadeiro perde seu efeito para o novo. Hoje temos uma
pulverização de discursos voláteis; o que antes era válido por toda uma vida agora passa
a ser efêmero, líquido, escorre (BAUMAN, 2011). Mediante o dinamismo exigido pela
modernidade, a pessoa que para desatualiza-se, torna-se obsoleto, com isso nos
defrontamos com um sujeito (sólido, como um barro que se transforma), afogando-se
numa liquidez caótica, diante da falta de experiência (LARROSA, 2000) consigo, sem
dispor de tempo para adentrar-se, cultivar-se, visando conhecer-se, escolher/lutar pelas
suas verdades (FOUCAULT, 2013, 2014), visando ao cuidado de si (FOUCAULT, 2009,
2011). Como pode governar-se sem conhecer-se?

PALAVRAS-CHAVE: regimes de verdade; subjetivação; Modernidade Líquido.

1. Dispositivo e regime de verdade


Discorreremos sobre os variados processos de subjetivações que vão compondo o
sujeito num procedimento singular e contínuo. Este sujeito está inserido numa sociedade,
a qual possui seus regimes de verdades, alimentados por curvas de enunciação e
visibilidade, que compõem o saber e dão suporte à relação de poder (e resistência), que o
retroalimentam com seus discursos. Discursos considerados verossímeis, reconhecidos
por meio de procedimentos variados, utilizam-se de mecanismos (instâncias) capazes de
afastar os discursos verdadeiros dos falsos, que transpassam a sociedade com intenções
algumas vezes implícitas, ocasionando as subjetivações.
De acordo com Foucault (2011a), toda e qualquer sociedade impõe limitações,
proibições e obrigações ao corpo do homem, com um conjunto de regras internas
implícitas ou não implícitas, por compor o não dito e não visível – ou seja, visa formas
de controles, podendo serem ser físicas como as prisões, fábricas, escolas, igreja, “[...]
lembrando que isto não é condição de existência, as coerções transcendem o físico.”
(SILVA et al, 2018, p. 18). Estão presentes em estruturas variadas, como família, grupo
de amigos, leis, alianças. Foucault (2010), Deleuze (1990) e Agamben (2009) denominam
este “instrumento” de controle de Dispositivo.
Pertencemos a dispositivos variados e neles agimos, subjetivando e sendo
subjetivados. Dispositivos são como máquinas de fazer ver, fazer falar, fazer pensar, fazer
sentir, fazer agir. É uma rede heterogênea, em que os elementos desta interagem,
influenciam-se, transformam-se, tendo como foco o controle. (FOUCAULT, 2010).1 Para
isto, o dispositivo, de acordo com Deleuze (1990), apresenta quatro dimensões: na
primeira dimensão, temos as curvas de visibilidade (máquinas de fazer ver); na segunda
dimensão, as curvas de enunciação (máquinas de fazer falar)2; na terceira dimensão, as
linhas de força, que constituem a dimensão do poder; a quarta dimensão é a da
subjetividade.
O dispositivo possui “[...] a capacidade de capturar, de orientar, de determinar, de
interceptar, de modelar, de controlar e de assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e
os discursos dos seres vivos”. (AGAMBEN, 2009, p. 12).

Com isso, temos que dentro do dispositivo a pessoa vê apenas aquilo que ele quer
que ela veja; as enunciações distribuem as posições diferenciais dos seus elementos
dentro deste, definindo as variáveis, derivações, transformações e mutações de cada
dispositivo. As linhas de forças perpassam o dispositivo permeando todas as outras,
mesclam-se ao conjunto emaranhando e multilinear, "[...] as diferentes linhas de um

1
Tem, de acordo com Foucault (2010), três características: 1ª) É uma espécie de rede composta por
elementos heterogêneos (discursos, leis, filosofia, instituições, edificações, ...); 2ª) Os elementos desta rede
relacionam-se entre si. Eles interagem, influenciam-se, podendo ocasionar rearticulações, reajustamentos
por meio “[...] de um perpétuo preenchimento estratégico.” (FOUCAULT, 2010, p. 139), ou seja, quando
um efeito é considerado negativo, isto ocasionará uma mutação, um repensar as relações estabelecidas entre
os elementos da rede do dispositivo; 3ª Na origem do dispositivo, há um imperativo estratégico de controle.

2
“[...] o dito e o não dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer
entre estes elementos.” (FOUCAULT, 2010, p. 138)
dispositivo repartem-se em dois grupos: linhas de estratificação ou de sedimentação,
linhas de atualização ou de criatividade." (DELEUZE, 1990, p. 8) linhas de fuga, de
visibilidade, de enunciação, de força etc. Por exemplo, a edificação sala de aula é um
dispositivo transpassado por uma diversidade de linhas, podendo estas serem de
enunciação, visibilidade, estratificação, sedimentação, subjetivação, de fuga, dentre
outras.

Aganbem (2009) considera que “O dispositivo tem sempre uma função estratégica
concreta e se inscreve sempre numa relação de poder.” (p. 29). Esta relação de poder,
mencionada por Foucault (2010), é algo dinâmico, por tratar de uma relação entre forças
(poder e resistência), não sendo propriedade de alguém específico, mas algo que circula.
Do cruzamento das relações de poder e das relações de saber (enunciação e visibilidade)
advêm as subjetivações e “[...] os dispositivos devem sempre implicar um processo de
subjetivação, isto é, devem produzir o seu sujeito. ” (AGAMBEN, 2009, p. 39). O sujeito
é produto das relações entre os sujeitos e os dispositivos, ou seja, das subjetivações
demandadas destas. Em relação à subjetivação, podemos observar quatro modos como
ela se dá: “- Não perceber que está sendo subjetivado. – Perceber, querer lutar contra as
forças, mas não conseguir. – Perceber e aceitar. – Perceber, lutar contra as forças que o
subjetivam e conseguir rejeitá-la”. (QUEIROZ, 2015, p. 137).

O sujeito está inserido numa variedade de dispositivo e quando um destes “[...]


não atende às funções pelas quais foi criado [...] ele é repensado, repaginado, readaptado,
surgindo uma nova versão do dispositivo, podendo haver novas articulações, sendo
inseridos novos elementos heterogêneos em sua rede, assim como incluir outros.”
(SILVA et al., 2018, p. 16). Ou seja, “[...] o sujeito pode permanecer no dispositivo, assim
como sair dele, consequentemente passando a existir em outro.” (SILVA et al., 2018, p.
16). E o desejo é o que nos impulsiona. De acordo com Rolnik (2011), é ele que nos faz
permanecer ou optar por rotas de fugas.

Nestes dispositivos que compõem a sociedade, lugar/não lugar em que o sujeito


transita, habita, desabita, existem as curvas de enunciação e visibilidades que compõem
o saber, as relações de forças (poder e resistência), processos de subjetivações, assim
como discursos de verdades.
O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder
[...]. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua "política geral" de
verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como
verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os
enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sancionam uns e outros;
as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade;
o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como
verdadeiro. (FOUCAULT, 2017, p. 51-52).

Como já mencionado, em toda sociedade existem limitações discursivas, nem tudo


pode ser dito, há um controle sobre isto, existindo um sistema de coerção e domínio que
não é explícito.
[...] toda a sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada,
selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que
têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento
aleatório, esquivar sua pesada, temível materialidade. (FOUCAULT, 2012, p.
8-9)

Os mecanismos de coerção estão em articulação com o saber-poder agindo nos


mais variados dispositivos, atuando na constituição do sujeito por meio da indução dos
seus comportamentos e práticas discursivas, na implantação do que seria verdade no
sujeito. É como “[...] se para nós a vontade de verdade e suas peripécias fossem
mascaradas pela própria verdade em seu desenrolar necessário.” (FOUCAULT, 2012, p.
19). Esta subjetivação que ocorre ao se utilizar o discurso como um saber verdadeiro
também exerce poder, um poder disciplinar. Temos em Foucault (2012) que “A disciplina
é um princípio de controle da produção do discurso.” (p. 34) e o objetivo do poder
disciplinar é de fabricar corpos dóceis. “É dócil um corpo que pode ser submetido, que
pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado.” (FOUCAULT, 2011a, p.
132). Nesta mecânica do poder, como o autor aqui referenciado afirma: “O corpo humano
entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe.”
(FOUCAULT, 2011a, p. 133).
Em suma, o dispositivo, como explicitado, é perpassado pela vontade da verdade,
verdade esta que não possui uma intenção explícita, sendo reforçada pelo poder
disciplinar.

O poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de


retirar, tem como função maior “adestrar”; ou sem dúvida adestrar para retirar
e se apropriar ainda mais e melhor. Ele não amarra as forças para reduzi-las;
procura ligá-las para multiplicá-las e utilizá-las num todo. Em vez de dobrar
uniformemente e por massa tudo o que lhe está submetido, separa, analisa,
diferencia, leva seus processos de decomposição até às singularidades
necessárias e suficientes. “Adestra” as multidões confusas, móveis, inúteis de
corpos e forças para uma multiplicidade de elementos individuais — pequenas
células separadas, autonomias orgânicas, identidades e continuidades
genéticas, segmentos combinatórios. (FOUCAULT, 2011a, p. 164)
Este regime de verdade é vertical, criado e validado por um grupo específico,
estendendo-se para outros grupos. São procedimentos de controle social que podam o
homem e toda sua singularidade, adestrando seu corpo, tornando-o uma força produtiva,
fazendo-o não apenas agir de acordo com a verdade imposta, mas fazendo-o acreditar
sem refletir e nem questionar esta verdade. O indivíduo torna-se, com isto, também
propagador desta verdade, defendendo-a como sendo sua.
A verdade, em vez de algo de abrangência universal estando ao alcance de quem
a procura, trata-se de um regimento, composto por um jogo de regras que visa excluir,
vigiar, normatizar, disciplinar (“adestrar”), articulada à correlação entre o saber e o poder,
subjetivando os sujeitos que pertencem a este regime de verdade. É muito difícil escapar
deste regime a que se está submetido, pois a verdade não é exterior ao seu regime, ela o
compõe.

2. Devir social

Nossa sociedade presenciou uma mudança drástica de paradigmas, causada pela


enxurrada de informações veiculadas pela internet. Um dos grandes efeitos foi a
integração e a quebra de fronteiras entre os países, denominado globalização. No
dicionário Aurélio, temos como sinônimo do verbo globalizar: integralizar e totalizar
(FERREIRA, 2004).
De acordo com Bauman (1999), “A globalização tanto divide como une; divide
enquanto une — e as causas da divisão são idênticas às que promovem a uniformidade
do globo.” (p. 5).
O que se observa é que cada tecnologia criada pelo ser humano, como a escrita,
por exemplo, permitiu-lhe estender suas habilidades, aprimorando seus conhecimentos,
ampliando seu modo de comunicar-se, levando-o a reorganizar a sociedade, recriando
novos ambientes, novas maneiras de agir, interagir, de ver o mundo etc.
No final do século XIX, tivemos o telefone, um dispositivo que vem modificando-
se tecnicamente e consequentemente altera o comportamento social, o relacionamento
entre os sujeitos. Um dispositivo de comunicação, que antes precisava de telefonista para
conectar um sujeito a outro, ao qual poucos tinham acesso, em seguida foi popularizando-
se e a função de telefonista passou a ser obsoleta até desaparecer. Podia-se ligar fora das
residências por meio de telefones públicos, bastando pagar para isto. No século XX, mais
precisamente na década de 1980, surge o telefone sem fio e, na década de 1990, o telefone
móvel, denominado celular, não tendo apenas a função de ligar para as pessoas ou receber
chamadas (como os primeiros celulares), mas com ele se podiam enviar mensagens de
texto, tirar fotos, armazenar músicas etc, ocasionando mudanças comportamentais
decorrentes da evolução deste dispositivo, que são perceptíveis em diversas esferas, tanto
na social, como na política e econômica.
No início do século XXI, mais precisamente nos anos 2000, o celular passou a
acoplar novas funções, sendo denominado smartphones (“telefone inteligente”), que
surgiu da convergência dos celulares com recursos computacionais. Nele, podia-se
assistir a programas de TV, fazer vídeos, utilizar como computador, além de se ter acesso
à internet e as suas mais variadas plataformas e aplicativos, podendo-se por meio dele ver
e fazer filmes, solicitar um carro (com ou sem motorista), reservar hotel, comprar
passagens (avião, ônibus), ingressos (show, teatro, ópera, cinema,...), roupas, comida,
remédios, pagar contas, ler e divulgar (livro, revista, jornal, artigos,...), localizar-se e a
outros lugares, marcar consultas, fazer curso de graduação e pós-graduação, fotografia
etc, contratar diversos profissionais, dentre outras atividades, que assim como estas
mencionadas, antes implicavam necessariamente uma interação com outro sujeito, sem a
mediação do aparelho.
Este dispositivo possibilitou que as pessoas pudessem trabalhar sem sair de casa,
contudo, em função disto, ocorreu uma sobrecarga de atividades, tendo o tempo de
trabalho expandido, já que carregam o escritório consigo. Como o dispositivo pode estar
conectado por 24 horas, isto torna difícil para alguns desconectarem-se (desligar o
dispositivo, ficar offline) para vivenciar momentos de folga, pois nestes momentos
costuma-se também fazer uso do mesmo para divertir-se, assim como relacionar-se nas
variadas redes sociais.
Cada uma destas alterações neste dispositivo popular de telefone (década de 1870)
para celular (década de 1990) e depois para smartphone (década 2000) resultou em
modificações na maneira de viver das pessoas, que, ao fazerem uso destas tecnologias de
comunicação, inseriam-na em seu dia a dia, transformando o que antes era desnecessário
em algo imprescindível. Surge então uma nova maneira de ver o mundo e as pessoas e de
interagir com eles. Rompem-se barreiras do tempo e espaço, as pessoas podem estar em
diversos lugares ao mesmo tempo sem sair de casa. “No mundo que habitamos, a distância
não parece importar muito [...] como se o espaço não passasse de um convite contínuo a
ser desrespeitado, refutado, negado. O espaço deixou de ser um obstáculo — basta uma
fração de segundo para conquistá-lo.” (BAUMAN, 1999, p. 75).
As novas tecnologias de comunicação fazem-nos ganhar consciência de alterações
significativas, por exemplo, nos conceitos de espaço (que está encurtado) e de tempo (que
está muito acelerado), de centro e de periferia (que se aproximam potencialmente), de
vizinhança (que já não se restringe apenas ao prédio, à rua, ao bairro ou à zona em que
habitamos ou trabalhamos), de público e de privado (que se perpassam cada vez mais nos
nossos quotidianos).
O dispositivo mencionado tornou-se cada vez mais atrativo e imprescindível ao
sujeito deste início de século XIX; sua gama de funções e acesso a informações, algumas
vezes síncronas, causou grande dependência, mantendo seus usuários voluntariamente
cada vez mais isolados e presos ao mesmo.
Por meio deste aparelho, as pessoas têm acesso a diversas informações
(verdadeiras ou não), assim como podem produzir informações e disponibilizá-las. De
Segundo Tucherman (2017), estamos com isto “[...] criando imageticamente um mundo
tão narcísico que tudo o que há, inclusive, o que de mais belo a natureza ou a cultura
produziram, tende a ser apenas pano de fundo para a própria imagem.” (p. 7), o que se
pretende com isto é “[...]mostrar que se estava no lugar no momento preciso, o estar lá
sendo, para quem faz a foto, mais importante do que o que está na foto”, fotografando a
si mesmo (self) neste ambiente em que algo surpreendente ocorre. Assim, com a self em
lugares grandiosos, festas etc., conforme Tucherman (2017) “[...] cria-se uma inversão:
em vez do corpo gerar uma imagem é a imagem que gera o corpo que vai ser exposto ao
escrutínio do olhar do outro. [...] O que marca um personagem é que ele é o que precisa
de testemunho - existe quando olhado.” (p. 10).
A mudança causada pela tecnologia é algo perceptível, assim como a dependência
exponencial causada num breve intervalo de tempo em menos de três décadas. “Todos
nós estamos, a contragosto, por desígnio ou à revelia, em movimento. Estamos em
movimento mesmo que fisicamente estejamos imóveis: a imobilidade não é uma opção
realista num mundo em permanente mudança.” (BAUMAN, 1999, p. 6) Estamos sendo
arrastados por esta enxurrada de novidades, nas mais diversas áreas, que surgem a cada
instante em lugares variados do mundo e são expostas a todo instante, bastando apenas
“entrarmos” no dispositivo. Algumas vezes nem precisamos procurar pela informação,
pois o próprio celular nos conduz a elas.
O que temos hoje é que a produção de um objeto qualquer precisa ser
constantemente modificada para que possa ser melhorada e assim atrair mais
consumidores ferrenhos por novidades, por ser o primeiro a ter acesso a este produto. De
acordo com Costa (2011), temos o fenômeno que ela chamou de Comprismo, que são
pessoas viciadas em comprar, em que o adquirir os objetos torna-se mais importante que
os utilizar. “Vive-se cada vez mais efemeramente. E o mercado está atento a isto. Para
esses colecionadores, os objetos adquiridos e ostentados não representam apenas o ter,
mas fazem parte de sua identidade, do “eu posso”, porque sou isso ou aquilo que você
não é.” (QUEIROZ, 2018, p. 143, grifo do autor).
Em meio aos exemplos apresentados relacionados às mudanças, que agora
ocorrem em intervalos de tempo cada vez menores, temos em Bauman (2001) a passagem
de uma sociedade sólida (mais lenta, consistente) para uma sociedade líquida (mais fluida,
efêmera, volátil). Esta liquidez permite que se adapte mais rapidamente aos ambientes,
pessoas, comportamentos, objetos, e com a mesma facilidade se esvai, muda a direção e
passa a preencher outros lugares, tomando outras formas, diferente da solidez que não
consegue assumir uma forma que não seja a sua. E esta mudança traz valores novos e
modelos novos para a sociedade. (BAUMAN, 2001).
Almeja-se esta liberdade disforme, que possibilita ao sujeito fluir, ocupar lugares
diversos e mudar constantemente; todavia esta rapidez causada pela fluidez líquida não
lhe permite refletir sobre o que lhe ocorre, fazendo-o aceitar tudo que lhe é oferecido,
pois o movimento é contínuo e constante.
O sujeito encontra-se submerso em um Hiperativismo Sociovirtual (QUEIROZ,
2015), onde em meio à liquidez, ele faz diversas tarefas ao mesmo tempo; é hiperativo
socialmente, não se concentrando inteiramente em nenhuma das atividades, por exemplo,
alimenta-se assistindo a programas de TV, trocando mensagem no celular, conversando
com alguém, ouvindo música e está sempre conectado, atento às mudanças por meios
virtuais para manter-se atualizado no que ocorre, não se permitindo tornar-se obsoleto.
E temos em Larrosa (2002) que “[...] a informação não deixa
lugar para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma
antiexperiência.” (p. 21), pois, para que se tenha uma experiência, é preciso de tempo para
refletir, maturar e, na modernidade líquida, este momento está cada vez mais em extinção.
E o sujeito precisa de tempo para si para adentrar-se, para se conhecer. Foucault
(2009, 2011b) nos traz Sócrates e a importância do Cuidado de Si, que “[...]implica numa
experiência de si, podendo ocorrer apenas ao ocupar-se consigo, tendo com isso que se
conhecer, experimentar-se, sem tornar-se um eremita, pois o Cuidado com o outro está
intrínseco no Cuidado de si.” (QUEIROZ, 2015, p. 176). Ou seja, ver a si mesmo e ao
outro como parte também de si.
Com isso, deparamos com um questionamento pertinente: Onde está o sujeito,
singular e múltiplo, mediante tanta mudança que visa torná-lo cada vez mais uno e igual
a todos? Agindo como os demais, adquirindo os mesmos gostos, posturas,
comportamentos etc.

3. Considerações finais

Temos que o novo exige novos instrumentos conceituais e novos fundamentos


(FOUCAULT, 2012), o dispositivo, como mencionado, procura adaptar-se para continuar
exercendo sua função de controle, possibilitando para isto alterações na formatação de
seu regime de verdade, devido à enxurrada de discursos observados e acessíveis à
modernidade líquida. (BAUMAN, 2001). Regime explicitamente vertical, todavia, na
atual liquidez, em que o sujeito depara com diversos regimes de verdades ao mesmo
tempo, graças à globalização, à quebra de barreiras, alguns destes se contradizem (o que
é considerado falso para um torna-se verdadeiro noutro). Será que poderíamos dizer com
isto que os regimes de verdades, que compõem a sociedade, teriam se horizontalizado,
expandindo-se rizomaticamente? Que assim como em um ambiente virtual, o sujeito pode
escolher que site deve seguir e o que deve ignorar, mas este mesmo sujeito poderia
escolher a que verdade acatar? Como seriam estas escolhas, se, em razão do seu
hiperativismo sociovirtual, não lhe sobra tempo para experienciar-se, conhecer-se? As
escolhas seriam dele?
A verdade que temos hoje, ao nos depararmos com outra (divergente, ou não, à
anterior), pode fazer ocorrer uma permuta, ou seja, o discurso anteriormente considerado
verdadeiro perde seu efeito para o novo. Hoje, diante desta pulverização de discursos
voláteis, o que antes era válido por toda uma vida agora pode tornar-se efêmero, líquido,
escorre. (BAUMAN, 2011).
Todavia somos seres sólidos, apesar de mutáveis, somos profundos, temos tantos
eus habitando em nós mesmos, que Deleuze e Guattari (2010) defendem que somos
múltiplos e singulares, ou seja, novos eus surgem a cada encontro, a cada experiência e
não existe outro igual a nós mesmos, por mais que queiramos copiar o outro (que já
existe), não será possível fazê-lo na íntegra. Somos diferentes. Sujeitos diferentes
inseridos numa modernidade líquida, que tenta moldá-los a cada instante, levando-os de
um lugar a outro, de um acontecimento a outro, tratando com superficialidade o que é
profundo e fazendo acreditar que são tão superficiais, tão fúteis, tão sem significado que
precisam agir de acordo com a enxurrada de informações que passam por eles.

4. Referências Bibliográficas

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