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EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 1

Dominar a interpretação do eletrocardiograma (ECG) exige conhecer o exame


em detalhes.

É um esforço que inclui desde a preparação para a sua realização, com o posicio-
namento dos eletrodos, até a análise e interpretação dos resultados, que resulta
no laudo que vai guiar as condutas médicas a partir dali.

O problema é quando o preparo do profissional fica restrito ao conhecimento do


dia a dia, observando colegas, sem se aprofundar nos detalhes do exame. Assim,
com poucas informações, ele já se considera suficientemente apto a praticar.
Só que, em saúde, não existe profissional meio preparado. Há um compromisso
com o bem-estar do paciente e com os resultados do exame, que precisam retra-
tar a realidade.

No caso do ECG, estamos falando sobre um importantíssimo teste que avalia a


saúde cardiovascular de um indivíduo. Serve, por exemplo, para identificar ar-
ritmias, doenças coronarianas, anomalias nas cavidades cardíacas e o infarto do

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miocárdio, condição que registra 300 mil casos por ano só no Brasil.

Perceba, então, o papel do eletrocardiograma na saúde pública, assim como o


seu compromisso, enquanto profissional de saúde, para que a sua realização,
análise e interpretação sejam as mais corretas.

É para ampliar seu conhecimento e aproximá-lo na excelência no ECG que cons-


truímos este material. Ele é um guia básico, porém completo, sobre a eletrocar-
diografia.

Trate como um documento que deve ser lido na íntegra e consultado sempre
que uma dúvida surgir. Não que ele substitua recomendações como as de socie-
dades médicas e conselhos de classe.

Mas a nossa proposta é oferecer a você um roteiro para acompanhar o ECG em


todas as suas fases, desde o preparo do paciente às conclusões do exame.

Então, vamos começar?


Espero que esta leitura seja proveitosa.

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O que é o Eletrocardiograma (ECG)
O eletrocardiograma (também conhecido como ECG) é um exame médico ro-
tineiro que analisa a presença de anomalias relacionadas à atividade elétrica do
músculo cardíaco.

Essa atividade elétrica é a responsável pelo funcionamento do músculo cardíaco


e consequentemente de suas válvulas.

O eletrocardiograma foi desenvolvido por Willem Einthoven, em 1903, rendendo


ao médico holandês o Prêmio Nobel de Medicina, em 1924.

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Por meio do registro do exame de ECG, são mostrados impulsos elétricos do co-
ração na forma de gráficos com ondas positivas e negativas dentro de um qua-
driculado específico.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, é considerado o exame


padrão ouro para o diagnóstico de diversas patologias cardíacas, como arritmias,
distúrbios de condução e isquemias.

Também é comum que o teste auxilie no diagnóstico de cardiopatias congênitas,


especialmente durante os primeiros anos de vida.

O APARELHO DE ECG ESTÁ CALIBRADO


E CONFIGURADO EM N?

Interessante observar ainda que o eletrocardiograma possui uma padronização.


Ou seja, um quadrado pequeno representado no exame sempre corresponde a 1
mm no traçado, enquanto que um quadrado grande é formado por 5 pequenos
de altura e outros 5 pequenos de largura.

Em linhas gerais, cada quadrado pequeno horizontal representa uma duração de


40 milissegundos (ms) de duração.

Dessa forma, um segundo equivale a 25 quadrados pequenos.


É por isso que a regra estabelecida para a velocidade do papel do ECG é de 25
quadrados pequenos por segundo. Ou, em outras palavras, 25 milímetros por
segundo.

Entendido esse ponto, vamos falar do padrão de amplitude, chamado de N.


Nesse caso, um quadrado pequeno corresponde a 0,1 milivolt (mV). Ou seja, 10
quadrados pequenos verticais representam 1 mV.

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Caso 1 mV indique o dobro
da amplitude normal (20
quadrados pequenos em vez
de 10), essa é uma amplitude
2N.

A confirmação da calibração exige localizar o retângulo posicionado junto às


laterais do papel do ECG. Ele precisa ter 10 pequenos quadrados de altura e 5 de
duração.

É importante seguir os padrões antes de passar à interpretação do exame.

Caso a configuração do ECG seja para 2N, por exemplo, a amplitude do segmen-
to QRS se tornará maior, talvez sugerindo equivocadamente o diagnóstico de
sobrecarga de ventrículo esquerdo.

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Outra possibilidade é a de configurar o exame para 50 mm/s, o que poderia indi-
car bradicardia ou distúrbio de condução intraventricular em paciente saudável.

COMO COLOCAR OS ELETRODOS NO PACIENTE

Configurado o eletrocardiógrafo que será utilizado para a realização do exame, é


preciso se dedicar ao preparo do paciente.

A forma padrão de eletrocardiograma, chamada ECG de 12 derivações, precisa de


10 eletrodos para ser realizada.

Derivações são as linhas que mostram a atividade elétrica do coração no ECG.


Os 10 eletrodos utilizados no exame são classificados em dois grupos: periféricos
e precordiais.

Eletrodos periféricos são quatro dispositivos usados para obter registros em plano
frontal.

Em geral, esses eletrodos possuem cores diferentes, de acordo com padrões da


International Electrotechnical Commission (IEC).

Os eletrodos periféricos devem ser fixados de modo a evitar que fiquem sobre os
ossos do pulso ou calcanhar.

Observe, então, como colocar eletrodos no paciente:

• Vermelho (R): no braço direito (Right)


• Amarelo (L): no braço esquerdo (Left)
• Verde (F): na perna esquerda (Foot)
• Preto (N): na perna direita (Neutro).

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Caso o paciente tenha algum dos membros amputado, o dispositivo deve ser co-
locado na extremidade mais próxima ao membro.

Por exemplo, se o braço direito foi amputado, um adesivo no lugar do eletrodo é


posicionado no ombro direito.

A posição correta para os seis eletrodos precordiais costuma gerar mais dúvidas,
pois nem sempre eles vêm em cores.
Sua fixação deve ocorrer no tórax do paciente.

Uma recomendação para encontrar os locais corretos é achar o ângulo de Louis.


Também conhecido como ângulo esternal, ele pode ser encontrado tateando a
parte central da base da garganta.

Se você mover os dedos um pouco para baixo, vai sentir um nódulo formado por
ossos: é o ângulo de Louis.

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A partir dele, mexa os dedos para a direita até localizar um vão entre as costelas -
é o 2º espaço intercostal.

O próximo espaço abaixo é o 3º espaço intercostal, e assim segue.

No caso dos precordiais, veja como colocar eletrodos no paciente:

1. O primeiro eletrodo torácico (V1), precisa ficar no 4º espa-


ço intercostal, à margem direita do esterno
2. O segundo (V2) fica no 4º espaço intercostal, à margem
esquerda do esterno
3. O terceiro (V3) deve ser inserido no espaço entre V2 e V4
4. O quarto (V4) fica no 5º espaço intercostal esquerdo, na
linha abaixo do ponto médio da clavícula (hemiclavicular)
5. O quinto eletrodo (V5) deve ser posicionado no mes-
mo nível que V4, mais para a esquerda, abaixo do início
da axila
6. O último dispositivo (V6) deve ficar no mesmo nível
que V4 e V5, pouco mais para a esquerda, na linha
axilar média.

Dica importante: Para termos segurança da posição de V1 e V2, basta utilizar a


linha imaginária no homem que passa nos mamilos. Eles estão no 4º espaço.
Pegando experiência no homem, ajuda a localizar depois nas mulheres.

Muito importante é tomar cuidado quanto ao uso em excesso de gel, especial-


mente ao fixar as derivações precordiais. O risco, nesses casos, é de dar origem a
um artefato que forma uma grande derivação com todos os complexos QRS de
V1 a V6, representando a somatória da atividade elétrica.

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Artefatos são condições externas que podem influenciar o resultado do ECG, pre-
judicando os registros do exame.

Eles têm origens diversas, como alterações biológicas, interferências ambientais e


técnicas.

Erros no posicionamento dos eletrodos ou a não utilização do gel condutor de


eletricidade são condições que podem resultar em artefatos, como a presença de
um ou mais quadros do ECG com uma linha reta.

Conhecer os fundamentos do exame é essencial para evitar artefatos na eletro-


cardiografia.

Veja esse vídeo onde comento da posição correta dos eletrodos.

Conheça as ondas do ECG


Ondas do eletrocardiograma são as deflexões positivas e negativas no traçado de
ECG gerado pelo exame.

Existem seis ondas registradas no resultado do ECG. São elas: P, Q, R, S, T e U.

Cada onda, intervalo ou complexo representa uma fase da passagem dos impul-

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sos elétricos responsáveis pela atividade elétrica cardíaca.

Os impulsos nascem no chamado nodo ou nó sinusal, que fica no ponto mais


alto do átrio direito.

Esse processo ocorre primeiro no átrio direito e, depois, vai para o átrio esquerdo.
Na sequência, o impulso elétrico chega ao nó atrioventricular (localizado entre os
átrios e os ventrículos) e segue para os dois ventrículos, causando sua despolari-
zação.

Assim, as câmaras se contraem, bombeando o sangue à frente, seja para o pul-


mão ou para a aorta.

Parece complicado? Pois saiba que todo o processo demora aproximadamente


0,19 segundo para se completar.

E são justamente as ondas elétricas oriundas do coração que vemos em um ECG.

AS ONDAS P, QRS, T E U NO TRAÇADO DO ECG

O traçado do eletrocardiograma é a representação gráfica da atividade cardíaca a


partir de diferentes ângulos.

Através dele, é possível identificar padrões e anomalias no funcionamento do co-


ração.

Muitos distúrbios e doenças cardíacas alteram o padrão e frequência. Por isso,


identificar essas variações é importante para o diagnóstico de qualquer condição
de saúde cardíaca.

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Embora possam existir pequenas diferenças, as ondas do eletrocardiograma se-
guem padrões na duração, na amplitude e na ordem em que aparecem.

A amplitude é medida em voltagem, a partir do eixo vertical do gráfico de eletro-


cardiograma.

A duração da onda é medida em segundos, observando o eixo horizontal.


Já os padrões das ondas dependem da derivação, ou seja, de que ângulo são ob-
servadas.

Uma mesma onda pode ser positiva (aparecer acima da linha média do traçado)
em uma derivação e negativa na outra.

Em um estímulo elétrico, cada batimento possui uma onda P, um complexo QRS


e, ainda, uma onda T.

Quando há ondas e intervalos normais, podemos dizer que o coração bate em


ritmo padrão, ou ritmo sinusal.

O ritmo do coração é definido pela frequência cardíaca, medida em batimentos


por minuto (bpm). Um adulto jovem e saudável tem uma frequência entre 50 e
100 bpm.

ONDA P

A onda P mostra a contração dos átrios.

Ela representa a despolarização atrial, enquanto o intervalo PR indica o período


existente entre a despolarização das células do nó sinusal e o início da despolari-
zação do miocárdio ventricular.

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Uma onda P normal é arredondada e suave, durando menos de 0,10 segundo
(2,5mm) e tem voltagem máxima de 0,25 mV.

No ritmo sinusal, o intervalo entre a onda P e a onda R dura entre 0,12 e 0,20 se-
gundo, evidenciando que o impulso elétrico está seguindo a trajetória normal.

COMPLEXO QRS

O complexo QRS registra a contração dos ventrículos, representando a despolari-


zação ventricular.

Composto por três ondas, uma positiva (R) e duas negativas (Q e S), ele dura de
0,06 a 0,10 segundo.

A onda Q costuma ter menos de 0,04 segundo de duração e 2 mm de profundi-


dade, já que é sempre negativa.

ONDA T

A onda T aparece após o complexo QRS, indicando a repolarização dos ventrícu-


los.

Assimétrica, a onda T normal tem amplitude máxima inferior a 15 mm nas deriva-


ções precordiais, e menor que 5 mm nas derivações periféricas.

ONDA U

Já a onda U pode aparecer depois da onda T, especialmente nas derivações pre-


cordiais V3 e V4, mas não há consenso sobre o que ela representa.

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Representada por uma deflexão pequena e arredondada, possui polaridade pare-
cida com a onda T.

Essa onda nem sempre aparece no traçado do ECG, mas pode estar relacionada
à repolarização dos músculos papilares, presentes na parte inferior do miocárdio.

INTERVALO QT

O intervalo QT indica a sístole elétrica ventricular, que corresponde ao tempo total


de despolarização e de repolarização dos ventrículos no eletrocardiograma.

SEGMENTO ST

Por fim, o segmento ST pode aparecer entre final do QRS e o início da onda T,
sugerindo doença coronariana aguda ou sobrecarga ventricular, entre outros
possíveis diagnósticos.

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Como entender os terríveis vetores do
ECG sem complicações
Você não precisa se preocupar excessivamente em decorar regras e parâmetros
para entender, de fato, como funciona um exame de ECG.

O principal ponto é compreender que grande parte dos dados oriundos do ele-
trocardiograma estão relacionados ao conceito de vetores. Ou seja, estamos fa-
lando sobre uma representação de amplitude, direção e sentido.

Vou propor uma analogia que vai ajudar você na compreensão desse conceito e
na sua relação com o ECG.

Pense em uma experiência com três pessoas, posicionadas em locais diferentes


de uma arquibancada de corrida de fórmula 1, com os olhos vendados, sem con-
seguirem enxergar nada.

Então, passa por elas uma máquina poderosa, como uma Ferrari, que tem um
motor com um som ensurdecedor e clássico.

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Nenhuma das pessoas vê o veículo, mas, ainda assim, todas sabem dizer o senti-
do no qual ele se desloca (por exemplo, da esquerda para a direita), a sua direção
(horizontal) e sua amplitude (que é proporcional ao volume do som do motor).

Ou seja, a amplitude fica maior conforme o veículo se aproxima de cada pessoa.


Há, ainda, outro componente aqui, que caracteriza o som que elas ouvem. Ao se
aproximar, o som é percebido de forma aguda (graficamente, representado por
uma onda positiva). Ao se afastar, ele se torna mais grave (uma onda negativa).

Na prática, a passagem do carro de corrida em questão produziria um gráfico


muito semelhante àquele que vemos em um ECG: horizontal, da esquerda para a
direita e com uma variação de amplitude manifestada em ondas positivas e ne-
gativas.

Observe, então, que o gráfico é construído não a partir do que se vê, mas do que
se escuta. O princípio do eletrocardiograma é exatamente o mesmo.

Ou seja, o exame é representado por vetores, que nada mais são do que uma for-
ma composta por amplitude, direção e sentido.

Só que, diferente do som do motor da fórmula 1, o ECG surge a partir dos impul-
sos elétricos do coração. É a energia que gera os traçados que vemos no exame.
O coração, então, seria como aquele carro que se movimenta enquanto produz
um som facilmente identificado.

Nós não o enxergamos, pois o órgão está dentro do tórax do paciente. Mas o ou-
vimos a partir da captação da energia elétrica que ele gera, a qual dá origem aos
mesmos vetores já citados.

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Todo o músculo cardíaco funciona como um bloco único, chamado de dipolo
elétrico. E a atividade elétrica gerada pela passagem do estímulo é como uma
onda única se deslocando da
parte de cima para a ponta
do coração.

São os eletrodos que indicam,


por exemplo, que a energia
elétrica no coração do paciente
se movimenta em direção hori-
zontal, no sentido da direita do
paciente para o lado contrala-
teral e em amplitude positiva e
negativa, conforme registrado
nas ondas gráficas.

Então, vale retomar o que é o


mais importante para entender
o ECG: sentido, direção e ampli-
tude. São esses os vetores representados graficamente em linha no exame.

A SEQUÊNCIA DA INTERPRETAÇÃO DO ECG

Posicionados os eletrodos corretamente, registre pelo menos dois traçados com


os dados do ECG.

Assim, a interpretação do eletrocardiograma deve atender a uma sequência pa-

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drão, o que qualifica o processo e evita algum esquecimento.
A partir daí, a sugestão é que divida a análise em 13 etapas

Esta é a sequência ideal para seguir:

1. Identificação do paciente, idade, peso e altura para pre-


venitroca de exames.
2. Checar calibração do registro de ECG se está em 1 Mv
3. Onda P - análise de ritmo, tem onda P é sinusal, não tem
é FA ou Flutter atrial
4. Onda P - análise de frequência cardíaca, afastando bradi
ou taquicardias.
5. Onda P - análise de sobrecargas atriais
6. Onda P - análise do intervalo PR para documentar os blo-
queios atrioventriculares
7. Complexo QRS - análise do eixo para documentar sobre-
cargas ou hipertrofias
8. Complexo QRS - análise da duração para afastar distúr-
bios de condução intra-ventricular
9. Complexo QRS - análise de sobrecargas ventriculares
10. Complexo QRS - análise de zonas inativas
11. Onda T - análise do segmento ST para documentar is-
quemia aguda ou crônica
12. Onda T - análise da morfologia de onda T para afastar
infarto agudo do miocárdio
13. Onda T - análise do intervalo QT e onda U para afastar
doenças canaliculares

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DICA DE OURO: NÃO PRECISA DECORAR TUDO ISSO!

Use o acrônimo FREBHI para lembrar de todos os passos:

• F - frequência cardíaca
• R - ritmo cardíaco, arritmias
• E - eixo elétrico
• B - bloqueios
• H - hipertrofias
• I - isquemia/infarto/intervalos

Definindo a frequência cardíaca


pelo ECG
Divida 1.500 pelo número de quadradinhos entre dois complexos QRS (intervalo
R-R).
Mas por que 1.500? Porque, na velocidade padrão do papel em um ECG de 25
mm/S, são percorridos 1.500 mm durante 1 minuto (ou 60 segundos).

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Essa medida vai agregar precisão, mas não se revela como algo prático para utili-
zar no dia a dia.

Por isso, uma alternativa que se mostra mais viável é aplicar uma forma prática
usada por todos os cardiologistas:

• Para cada quadrado maior de 5 milímetros dentro do in-


tervalo R-R contamos uma fração de 300.

Assim, use a regra


300/150/100/75/60/50/30/20/10
de acordo com o número de
quadrados existentes, come-
çando com 300 e reduzindo a
cada quadrado encontrado.

Vale destacar que as duas su-


gestões apresentadas para de-
finir a frequência cardíaca em
um ECG valem para casos em
que há ritmo regular.

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Arritmias supraventriculares
e ventriculares
Não preciso dizer que estamos entrando em um território sombrio, onde a maio-
ria dos médicos tem pavor de opinar.

São arritmias complexas e que sempre nos deixam em dúvida.

1. ARRITMIAS SUPRAVENTRICULARES

Começaremos pelo básico e, na sequência, vamos ao que há de


mais complicado.

As arritmias supraventriculares se apresentam com QRS estreito e, por isso, ficam


acima do nodo atrioventricular.

EXTRA-SÍSTOLE SUPRAVENTRICULAR

Seguindo o exemplo da extra-sístole ventricular, na supraventricular, o fenômeno


ocorre dentro dos átrios e se manifesta como um batimento de QRS estreito no
meio dos batimentos normais.

Também pode ocorrer na forma de bigeminismo, trigeminismo ou mais


de acordo com a frequência de batimentos normais e de extra-sístoles
supraventriculares.

ARRITMIA SINUSAL
Quando ele está presente, podemos dizer que há a presença de arritmia benigna,
que nada mais é do que uma variação acentuada no ritmo cardíaco em crianças
e jovens.

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Sua principal característica é a variação exacerbada do intervalo PP (entre o início
da onda P de dois batimentos consecutivos).

A interpretação em busca de arritmia sinusal deve considerar a diferença existen-


te entre os dois intervalos PP. Caso haja variação significativa do limite de 120-160
ms proposto nas diretrizes, ela está confirmada.

Agora não tem jeito, vamos entrando no território obscuro.

TAQUICARDIA SUPRAVENTRICULAR

A taquicardia supraventricular é o transtorno do ritmo que se origina acima da


bifurcação do feixe de His.

Pode-se originar no tecido atrial, na junção atrioventricular ou envolvendo vias


acessórias

Essa entidade se divide em três categorias:

1. TAQUICARDIA SINUSAL
Situação comum em quadros de ansiedade, estresse, doenças da tireoide, entre
outras. A frequência cardíaca se apresenta acima de 100 batimentos por minuto.

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Existe sempre uma onda P precedendo o complexo QRS e com intervalo PR que
diminui com o aumento da frequência cardíaca.

2. TAQUICARDIA ATRIAL PAROXÍSTICA

Pode ser também dividida em:

A. TAQUICARDIA ATRIAL

Apesar de ter ritmo regular, as ondas P são diferentes da P sinusal, ainda que con-
tinuem precedendo o complexo QRS.

Para diferenciar essa onda P não sinusal, devemos nos atentar para o intervalo
RP, que deve ser maior que 70 ms.

A frequência atrial pode variar de 110 a 180 batimentos por minuto.

B. TAQUICARDIA POR REENTRADA NODAL

Esta é a arritmia supraventricular mais comum nos laudos de ECG.

Observamos um ritmo regular, frequência cardíaca entre 120 e 180 batimentos


por minuto, porém, não visualizamos a onda P por ativação concomitante dos
átrios e ventrículos.

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C. TAQUICARDIA USANDO VIA ACESSÓRIA

Neste caso, me refiro à presença da Síndrome de Wolf-Parkinson-White, que de-


termina congenitamente a presença de um intervalo PR curto com onda delta.

A frequência cardíaca normalmente é mais elevada nessa situação, ficando entre


140 e 200 bpm.

Caracteriza-se por ritmo regular, porém as ondas P incidem dentro do segmento


ST e o intervalo RP > 90 ms.

3. FIBRILAÇÃO ATRIAL E FLUTTER ATRIAL

Na fibrilação atrial, patologias como valvulopatias e hipertensão arterial sistêmica


causam dilatação atrial esquerda e promovem um desarranjo estrutural das fi-
bras nervosas e musculares.

Com isso, surgem vários focos excitáveis que culminam numa frequência atrial
desordenada de até 600 disparos por minuto.

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Esse número absurdo de estímulos elétricos acaba neutralizando a onda P, sendo
a característica principal ao analisar o ECG.

Um filtro existente no nodo atrioventricular impede que ocorra a passagem de


todos esses batimentos, porém, uma fração deles atravessa para os ventrículos
de forma irregular.

FLUTTER ATRIAL

No flutter atrial temos igualmente uma formação agora ordenada de estímulos


elétricos dentro do átrio esquerdo, que passam de maneira também ordenada
para os ventrículos. Porém, com o filtro do nodo atrioventricular, somente a meta-
de desses estímulos chega aos ventrículos.
A aparência clássica no ECG é de uma onda P serrilhada e frequência ventricular
fixa da metade do batimento atrial.

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2. ARRITMIAS VENTRICULARES

Começo primeiro com o básico, ou seja, o que mais aparece no ECG do nosso dia.
A regra é que a maioria tenha QRS alargado, porém fica bem difícil de ver isso
quando a frequência cardíaca é bem elevada.

EXTRA-SÍSTOLE VENTRICULAR

Um foco excitável dentro do ventrículo direito ou esquerdo desencadeia batimen-


tos aleatórios e aberrantes que aparecem com QRS alargado seguido de uma
pausa compensatória.

BIGEMINISMO E TRIGEMINISMO VENTRICULAR

No bigeminismo ventricular, temos um batimento normal, seguido de uma extra-


-sístole ventricular.

No trigeminismo ventricular, veremos dois batimentos normais sempre seguidos


por uma extra-sístole ventricular.

Na sequência, temos a pedreira, situações que nos deixam apavorados em um


plantão.

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TAQUICARDIAS VENTRICULARES COM QRS ALARGADO

A. TV NÃO SUSTENTADA

Se apresenta com três ou mais complexos consecutivos ventriculares, com frequ-


ência superior a 100 bpm e duração espontânea de menos de 30 segundos.

B. TV SUSTENTADA

É uma taquicardia com complexos QRS alargados de duração superior a 30 se-


gundos, geralmente com repercussão hemodinâmica.

Pode ser mono ou polimórfica.

C. TV BIDIRECIONAL

É uma taquicardia com QRS alargado, com alternância a cada batimento.


Vista comumente na intoxicação digitálica.

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D. TORSADE DE POINTES

É também uma taquicardia de QRS largo, associada à Síndrome do QT longo.


A principal característica é a variação das amplitudes do QRS.

Pode ser iniciada de duas formas:

• Típica, quando é iniciada com ciclo curto-longo-curto de


intervalos R-R
• Inicia por uma ectopia simples, uma extra-sístole
ventricular.

E. FLUTTER VENTRICULAR

TV também de QRS largo, regular, com aproximadamente 300 bpm, monomórfi-


ca, sem intervalo isoelétrico entre os QRS sucessivos

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F. FIBRILAÇÃO VENTRICULAR

Ritmo ventricular muito rápido, usualmente com mais de 300 bpm, com aparên-
cia grosseiramente irregular, tanto em ciclo RR, quanto à morfologia e amplitude
dos complexos QRS.

G. RITMO IDIOVENTRICULAR ACELERADO

Se apresenta como uma TV de QRS alargado, porém, é lenta e com a presença


de 6 ou mais complexos ventriculares consecutivos monomórficos, com freqüên-
cia cardíaca que giram entre 40-120 bpm.

EIXO ELÉTRICO CARDÍACO DESCOMPLICADO

Para entender como calcular o eixo elétrico cardíaco, cabe recapitular que o exa-
me de eletrocardiograma conta com derivações periféricas e precordiais.

As derivações periféricas registram informações do plano frontal do coração e são


coletadas por quatro eletrodos colocados nas extremidades dos braços e pernas
do paciente.

Existem três derivações periféricas bipolares (D1, D2 e D3) e três derivações perifé-
ricas unipolares (aVR, aVL e aVF), as quais representam o plano horizontal.

Dados sobre o plano horizontal do coração são avaliados a partir das seis deriva-
ções precordiais: V1, V2, V3, V4, V5 e V6.

Essas informações são fundamentais ao definir o eixo normal do coração (átrio e


ventrículo) e seus desvios.

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Para calcular o eixo elétrico do complexo QRS, são usadas as derivações periféri-
cas do ECG.

É necessário lembrar que as seis derivações representam um mesmo estímulo


elétrico, visto de pontos de vista diferentes - da esquerda, direita, de cima e de
baixo.

A situação mais corriqueira é que o complexo QRS seja positivo nas derivações D1
e aVF. Nesse caso, o eixo estará entre 0º e 90º.

Assim, é preciso avaliar o traçado nas derivações D3 e aVL, que atravessam as


duas primeiras.

Caso o QRS seja negativo em D3, o eixo estará posicionado entre 0º e 30º.

Já se o QRS foi isoelétrico em D3, o eixo estará exatamente na linha de aVR, a 30º.
Por fim, se o complexo estiver positivo em D3, estará abaixo da linha de aVR, en-
tre 30º e 90º.

Os bloqueios cardíacos
PRIMEIRO O INTERVALO PR

O intervalo PR vai do início da onda P ao início do complexo QRS. Ele indica o


intervalo existente entre a despolarização das células do nó sinusal até o início da
despolarização do miocárdio ventricular.

Em números normais, o intervalo deve estar de 120 a 200 ms (3-5 mm). Ele é mais
curto em crianças e também assim se manifesta quando há aumento da frequ-
ência cardíaca.

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Nos casos de intervalo PR curto, pode haver ritmo ectópico atrial ou em pré-exci-
tação, como na chamada de síndrome de Wolff-Parkinson-White.

Porém, para que a síndrome seja caracterizada, deve trazer haver sintomas, sen-
do o intervalo PR curto apenas uma deles.

Outros indicativos incluem a onda delta, o complexo QRS alargado e, ainda, alte-
rações de repolarização.

Já quando há intervalo PR longo, deve ser cogitado o atraso na condução atrio-


ventricular do estímulo.

Quando maior que 200 ms, por exemplo, há um indicativo de bloqueio atrioven-
tricular de Iº grau.

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DIFERENCIANDO OS TIPOS DE BLOQUEIOS ATRIOVEN-
TRICULARES

Também considere que podemos dividir a origem desses distúrbios em 2 gran-


des grupos:

• Alterações no nó sinusal
• Alterações no nó atrioventricular.

As alterações no nó AV são a origem dos chamados bloqueios atrioventriculares


(BAV), com diferentes graus de BAV. São eles:
• BAV de 1º grau: é caracterizado pelo prolongamento do in-
tervalo PR. Ou seja, temos intervalo PR > 0,20 s no adulto.
Porém, as ondas P são conduzidas, com relação 1:1 (uma onda
P para cada QRS)
• BAV de 2º grau tipo 1: há a presença de progressivo aumen-
to do intervalo PR até que uma onda P é bloqueada. Também
o intervalo PR após a onda P não conduzida se mostra mais
curto do que o PR do intervalo que antecede a pausa
• BAV de 2º grau tipo 2: possui um intervalo PR constante, de
mesma duração, antes e depois da onda P bloqueada. Cos-
tuma ter localização infranodal e apresentar complexo QRS
largo. Prognóstico é do que o BAV de 2º grau tipo I, pois tem
maior probabilidade de progressão para BAV completo e
maior associação com síncope

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 32


• BAV de 3º grau ou BAV total: há ausência de P conduzidas,
sem relação entre as ondas P e o QRS (dissociação AV). Tam-
bém mostra frequência atrial maior do que a frequência ven-
tricular. Por fim, a frequência cardíaca é baixa, em geral entre
30 e 50 bpm.

Então, como prometido, uma forma mais simples de entender os diferentes graus
de BAV é com uma analogia. Nesse caso, vamos falar sobre o plantonista atrasa-
do.

Assim, temos o seguinte:

• BAV de 1º grau: profissional que nunca falta, mas chega com


atraso de até 30 minutos
• BAV de 2º grau tipo 1: tem atrasos maiores e que aumen-
tam com o passar dos dias até que o plantonista não aparece
mais
• BAV de 2º grau tipo 2: também desaparece do plantão, mas
o faz sem qualquer aviso prévio ou atraso anterior
• BAV de 3º grau ou BAV total: esse é o profissional que não
segue regras,

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 33


que falta no dia do plantão e que é pontual quando é dia de descanso.
Observe pela analogia que os caso de BAV mais preocupantes são os dois últi-
mos, pois geram um fator surpresa de difícil controle (no caso, a falta inesperada
do plantonista).

Trazendo para o aspecto clínico, temos no BAV de 1º grau ou no tipo de 2º grau


comportamentos mais próximos de serem considerados benignos, enquanto os
outros dois são instáveis e causam sintomas com maior frequência.

Bloqueios divisionais intracardíacos


O sistema de condução intraventricular compreende o feixe de His e as divisões
do ramo esquerdo (ântero-superior, póstero-inferior e ântero-medial).
Havendo um distúrbio de condução em qualquer um desses ramos, ocorre um
atraso na despolarização do ventrículo correspondente, o que leva a uma mudan-
ça no eixo elétrico do coração.

BLOQUEIO DIVISIONAL ÂNTERO-SUPERIOR ESQUERDO


DO FEIXE DE HIS

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 34


Eixo elétrico ventricular entre -40 e -110º.
Presença de onda S em D2<D3, AVF, V5 V6.

BLOQUEIO DA DIVISÃO PÓSTERO-INFERIOR DO RAMO


ESQUERDO DO FEIXE DE HIS

Eixo elétrico cardíaco entre +80 e +110º.


Morfologia QR de D3>D2, sendo R de D3 maior que 15 mm.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 35


BLOQUEIO ÂNTERO-MEDIAL DO RAMO ESQUERDO DO
FEIXE DE HIS

Ângulo normal
Morfologia QR em V2>V3, sendo R de V2 maior que 15 mm

Tabela comparativa dos critérios diagnósticos dos hemibloqueios

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 36


Bloqueios completos do feixe de His
BLOQUEIO DO RAMO DIREITO DO FEIXE DE HIS

Falando especificamente quanto à duração do QRS, ela é considerada normal


quando até 110 ms. Se há aumento na duração do QRS, ela pode indicar um dis-
túrbio de condução intraventricular, ou bloqueio de ramo direito.

Quando há um bloqueio do ramo direito, inicialmente, o estímulo percorre o


ramo esquerdo, despolarizando o septo esquerdo e a parede livre do VE. Só então
acaba por despolarizar o VD.

No registro do ECG, é possível ver o sinal característico de orelha de coelho em V!


e V2 com a manifestação de R e R´.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 37


O problema é que a maioria desses bloqueios são criados artificialmente no ECG
quando colocamos V! e V2 acima do 4º espaço.

BLOQUEIO DE RAMO ESQUERDO DO FEIXE DE HIS

Já no bloqueio do ramo esquerdo, a despolarização ventricular se mostra alterada


desde o início.

A despolarização ventricular é mais lenta e, assim, as primeiras porções despolari-


zadas (mais próximo do endocárdio) são as primeiras a repolarizar, o que inverte o
sentido normal da repolarização. Também vale registrar que, em consequência, a
onda T fica negativa em relação ao QRS.

O chamado QRS alargado também pode aparecer em outros cenários, a exem-


plo de batimento de escape ventricular ou extrassístole ventricular, batimento
de marcapasso, aberrância de condução e alterações metabólicas (hipercalemia,
intoxicação por digitálicos).

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 38


Definindo se existe hipertrofias ou
sobrecargas
OBSERVANDO A ORIENTAÇÃO DO QRS

Para começar, quanto à orientação, é preciso considerar que, em parâmetros nor-


mais, no plano frontal, se encontra entre -30º e +90º. Se além de -30º, é tido como
desviado à esquerda. Além de +90º, temos um desvio para direita.

IDENTIFICANDO OS CRITÉRIOS DAS SOBRECARGAS


VENTRICULARES

Passando às sobrecargas ventriculares, há alguns índices importantes a conhecer


antes de proceder à identificação.

Critérios para sobrecarga de ventrículo esquerdo (SVE):

• R em AVL maior que 11 mm


• R em AVL + S em V3 > 28 mm em homens, porém, > 20
mm mulheres - critério de CORNEL
• R em AVF maior que 20 mm
• R em D1 + S de D3 maior que 25 mm
• R em V5 ou V6 maior que 26 mm presentes na sobrecarga
sistólica de VE
• R de V5 ou V6 + S de V1 maior que 35 mm - critério de
SOKOLOW
• Em V1 e V2: Morfologia rS ou QS, com aumento da ampli-
tude da onda S
• Em V5 e V6: Morfologia qR ou R, com aumento da ampli-
tude da onda R
• Amplitude da onda S em V1 > 25 mm
• Soma das ondas RD1 + SD3 > 35 mm.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 39


Situações especiais que ocorrem
na sobrecarga ventricular esquerda
SOBRECARGA SISTÓLICA DE VENTRÍCULO ESQUERDO
Além dos critérios clássicos de Sokolow e Cornel, a presença de ondas R amplas
em V5 e V6 com ondas T invertidas assimétricas, características de padrão Strain.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 40


SOBRECARGA DIASTÓLICA DE VENTRÍCULO
ESQUERDO

Também se apresenta com os critérios de Sokolow e Cornel, porém as ondas R


amplas em V5 e V6 possuem uma pequena onda Q que as precedem e a onda T
não é invertida.

EM PRESENÇA DE BRE, UTILIZA-SE OS SEGUINTES ÍN-


DICES PARA O DIAGNÓSTICO DE SVE:
• R (aVL) > 11 mm
• S(V1) + R(V6) > 40 mm
• S(V2) > 30 mm ou S(V3) > 25 mm.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 41


EM PRESENÇA DE BDAS, UTILIZA-SE OS SEGUINTES
CRITÉRIOS PARA O DIAGNÓSTICO DE SVE:

• R(aVL) > 13 mm
• S(V1) + R(V6) > 25 mm
• S(D3) > 15 mm.

CRITÉRIOS DE SOBRECARGA DE VENTRÍCULO DIREITO


(SVD):

• Eixo acima de 110 º


• R em V1 maior ou igual a 7
• R/S em V1 maior que 1
• Qr em v1 e rS R´ em V1 com R´ maior que 10.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 42


Um ponto muito importante ao identificar sobrecargas ventriculares é que elas
podem estar presentes simultaneamente nos ventrículos direito e esquerdo.
Acontece, por exemplo, em um caso de cardiomiopatia restritiva com sobrecarga
biatrial e biventricular.

Identificando as sobrecargas atriais


Para a identificação da sobrecarga atrial, o primeiro passo é avaliar rapidamente
DII e VI.

O normal é que a duração seja de 80 a 110 ms (~2-3 mm), havendo amplitude de


até 2,5 mm em DII.

NA SOBRECARGA DE ÁTRIO ESQUERDO

Quando há sobrecarga de átrio esquerdo (SAE), é esperado encontrar a onda P


entalhada e bífida em DII, com duração ≥ 120 ms (3 mm), e componente final ne-
gativo em V1 > 1 mm de amplitude e 40 ms de duração (Morris).

Também pode ocorrer desvio do eixo da onda P para esquerda.

Outro detalhe a observar ao dar um zoom no ECG é o aumento na duração da


onda P, que fica mais prolongada quando há SAE.
É um cenário no qual podem haver derivações em aspecto bífido da onda P, se-
melhante a um camelo com duas corcovas.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 43


AVALIANDO A SOBRECARGA DE ÁTRIO DIREITO

Nessas situações, é esperada a formação de uma onda P mais pontiaguda em


DII, DIII e avF (amplitude > 2,5mm) com duração normal, e amplitude da P em V1
e V2 > 1,5mm.

Também pode ocorrer um desvio de eixo da P para direita (entre +60º e +90º).
Vale observar que um sinal indireto de SAD é o chamado sinal de Peñaloza-Tran-
chesi. Ocorre quando há um aumento significativo da amplitude do QRS em V2
com relação ao V1.

Ao utilizar o zoom no ECG, vale observar que, se há sobrecarga isolada do átrio


direito, podem constar derivações inferiores, como D2, onda P apiculada e de du-
ração normal.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 44


As zonas inativas e isquemias
PRIMEIRO, AS ZONAS INATIVAS

Deve observar se há onda Q patológica em combinações de derivações periféri-


cas.

Em resumo, a chamada onda Q patológica precisa ter pelo menos 40 ms de du-


ração (1 mm), além de apresentar ao menos 1/3 da amplitude do QRS, em 2 deri-
vações combinadas.

Uma possibilidade de divisão de fácil compreensão para o diagnóstico topográfi-


co é a seguinte:

• Septal: V1 e V2
• Parede anterior: V3 e V4
• Ântero-septal: V1,V2,V3 e V4

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 45


• Anterior extenso; V3, V6
• Lateral: DI e avL
• Lateral alta: V5 e V6
• Parede inferior: DII, DIII e avF
• Parede dorsal: V7 e V8
• Ventrículo direito: V3R, V4R (derivações direitas).

Entendidos os parâmetros, é bom prestar atenção: uma área eletricamente inati-


va não indica, necessariamente, se tratar de uma área infartada.

Em decorrência do infarto, por exemplo, é originada na região uma espécie de


fibrose, formada onde antes havia o miocárdio normal e, agora, há uma fibrose e
é eletricamente inativa.

Além do infarto, no entanto, a área eletricamente inativa pode ter outras causas,
como as doenças de depósito, a exemplo da amiloidose e da hemocromatose.

ANÁLISE DO SEGMENTO ST EM BUSCA DE ISQUEMIA E


INFARTO

Devemos observar se há infra ou supradesnivelamento - e o que isso significa em


termos diagnósticos.

Quando presente o infradesnivelamento de ST, podemos estar diante de uma is-


quemia miocárdica ou apenas alterações da repolarização ventricular secundárias
à sobrecarga ventricular.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 46


Os locais das isquemias e infartos são os mesmos das zonas inativas, descritos
acima.

No supradesnivelamento do segmento ST, temos o infarto agudo do miocárdio.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 47


Também há outras causas que alteram o
segmento ST
REPOLARIZAÇÃO PRECOCE VENTRICULAR

O ECG se apresenta com um supradesnivelamento com concavidade superior


em paredes septal ou anterior, às vezes, empastamento na porção descendente
da onda R e Q profundas e estreitas em V5 e V6.

PERICARDITE

Ocorre elevação difusa do segmento ST, com taquicardia sinusal e infradesnivela-


mento do segmento PR

SÍNDROME DE BRUGADA

Situação rara, mas grave, onde ocorre supradesnivelamento do segmento ST em


V1 e V2 com concavidade para baixo e inversão de onda T.

O aspecto visual é de uma cabeça de cachorro que opera as orelhas.

Análise da onda T no eletrocardiograma


em situações especiais
A onda T representa a chamada repolarização ventricular.
Seu registro costuma ocorrer a partir de uma deflexão arredondada e lenta, em
geral com uma polaridade igual à do complexo QRS.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 48


Ainda, a onda T é assimétrica, com ramo ascendente lento e descendente com
maior inclinação.

Quando há presença de onda T positiva, apiculada e simétrica ou a inversão de


onda T associada a um histórico de precordialgia no paciente, esse é um achado
que pode indicar a isquemia miocárdica.

A morfologia pode também ser alterada por distúrbios hidroeletrolíticos - e aí es-


tamos falando sobre quadros como a hipercalemia.

Em geral, nesses casos, a onda T assume um aspecto apiculado ou em tenda.


Mas não apenas isso, já que o diagnóstico de hipercalemia no ECG costuma mos-
trar o alargamento do complexo QRS e o achatamento da onda P.

São mudanças facilmente percebidas quando é realizada a comparação com um


eletrocardiograma anterior.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 49


Um ponto importante é que a hipercalemia pode ser considerada como uma
emergência médica, dependendo das alterações características de um ECG.

Nesses casos, é fundamental que o paciente seja monitorizado e receba o trata-


mento adequado para repor o potássio do meio extracelular para o intracelular.
Além da hipercalemia, alterações na onda T podem ser provocadas por lesão ce-
rebral aguda, o que pode levar à disfunção autonômica intensa.

Vale observar que as ondas T cerebrais são muito maiores, negativas e difusas,
costumando acompanhar o desnivelamento de ST e o aumento do intervalo QT.

É o que ocorre, por exemplo, quando o paciente apresenta um quadro de aciden-


te vascular cerebral hemorrágico extenso.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 50


Onda T invertida é sempre alteração
cardíaca?
As ondas T negativas podem aparecer no ECG de um indivíduo saudável. E isso
acontece quando a sua presença é identificada em aVR, DIII ou V1.

Também cabe observar que, nos pacientes jovens afrodescendentes saudáveis,


é possível que as ondas T negativas apareçam de V1 a V4, sendo precedidas por
um segmento ST convexo.

Ou seja, a onda T invertida está ali, mas não há qualquer anormalidade cardíaca
nisso.

Por outro lado, fique atento à presença de ondas T negativas nas paredes lateral
ou inferior, mesmo que seja no exame de pacientes jovens.

Quando isso acontece, sempre deve ser levado o caso para a investigação de pos-
sível cardiopatia estrutural, como é o caso de cardiomiopatias.

Descobrindo se uma onda T invertida


tem ou não etiologia isquêmica
Entre as principais patologias está a doença arterial coronária (DAC).

Também pode indicar doenças de origem não isquêmica, como nos casos de so-
brecarga de ventrículo esquerdo e de tromboembolismo pulmonar.

Então, a sua busca deve ser por saber diferenciar quando uma onda T invertida é
de origem isquêmica ou não.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 51


A principal dica nesse sentido aponta para o fato de a onda T invertida simétrica
ter as suas partes descendente e ascendente com duração similares, o que suge-
re o diagnóstico de coronariopatia como causa.

Já quando ela é assimétrica, a parte descendente é mais lenta do que a parte as-
cendente, o que aponta para outras etiologias.

Entendendo o intervalo QT
Para que o intervalo QT seja considerado normal, ele deve ir de 350 a 440 ms (~8
- 11mm).
Uma forma ágil de avaliar se o paciente apresenta o intervalo QT longo é traçan-
do uma linha na metade de dois complexos QRS.

Caso a onda T termine após a linha, o intervalo QT deve ser longo. Nesse caso, é
preciso realizar o cálculo para determinar o QT e o QT corrigido.

Neste caso, divida o intervalo QT pela


raiz quadrada de RR

O alargamento do intervalo QT tem


como agravante o fato de predispor
arritmias graves, como a chamada Tor-
sades de pointes, que pode tanto cessar
de forma espontânea quanto dar origem
a uma fibrilação ventricular.

Já quando há intervalo QT curto, os diag-


nósticos mais prováveis apontam para
hipertermia, hipercalcemia (excesso de
cálcio), hipercalemia (excesso de potás-
sio), acidose ou intoxicação digitálica.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 52


Alterações na onda T na hipercalemia
A hipercalemia já foi citada em outros trechos deste guia - e há uma razão para
isso. Esse é um diagnóstico relativamente comum na interpretação de um eletro-
cardiograma.

As alterações eletrocardiográficas surgem quando os níveis de potássio alcançam


de 6,0 a 6,5 mEq/L.

Em consequência da elevação nos níveis de potássio, há alterações sequenciais


na repolarização e despolarização.

Esse é um processo que deve ser observado em quatro fases. Veja quais são elas
:
• Primeira fase - Onda T: há uma elevação em amplitude e
perda em assimetria. É uma característica que a faz ser cha-
mada de onda T em tenda, tendo a base estreita e apiculada
• Segunda fase - Onda P e PR: na sequência, ocorre o alarga-
mento do intervalo PR e a onda P passa a diminuir de ampli-
tude até que se torne imperceptível. Muitas vezes, isso impos-
sibilita que ocorra a identificação da origem do estímulo no
ECG, ainda que o ritmo seja sinusal
• Terceira fase - Complexo QRS: com níveis mais elevados
de potássio, ocorre o alargamento progressivo do complexo
QRS, somada à redução da sua amplitude. É um momento
no qual se tem a sensação de que o ECG está sendo esticado
conforme o potássio aumenta
• Última fase - Arritmias letais: por fim, ocorrem aumentos
progressivos do potássio. Não havendo tratamento, tende a
induzir arritmias malignas, como a fibrilação ventricular.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 53


Exemplo de interpretação de ECG

Para concluir este guia e sedimentar o aprendizado, vale um exercício de inter-


pretação de eletrocardiograma, retomando os principais passos que acompanha-
mos ao longo da leitura.
Embora este conteúdo possa ser sempre consultado por você, como uma espé-
cie de manual, a ideia é que a observação do passo a passo ofereça as informa-
ções suficientes para colocar em prática a análise de um ECG no dia a dia.
Vamos seguir o acrônimo FREBHI, que não tem erro.

• Nome do paciente está correto, calibração e configuração em N ok


• F - Frequência cardíaca: 75 bpm
• R - Ritmo: onda P presente e precedendo sempre o QRS. O
ritmo é sinusal.
• E - Eixo - Entre 0 e 90 º - Normal
• B - Bloqueios - Eixo normal, sugere não ter hemibloqueios
• H - Hipertrofias ou Sobrecargas ventriculares: não há crité-
rios de sobrecarga ventricular.
• I - Isquemias/infartos/ áreas inativas/intervalos: Onda Q
normal, segmento St e onda T normais. Intervalos PR 0,12 se-
gundos e QT 0,380 segundos.
• Conclusão: Ritmo sinusal, FC 75 bpm, dentro dos limites da
normalidade para a faixa etária.

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Conhecendo a Telemedicina Cardiológica
Você viu neste guia um material completo sobre a interpretação do eletrocardio-
grama (ECG). Esse é um ato médico, restrito a especialistas em cardiologia.

Mas clínicas e hospitais também podem aderir à tecnologia para garantir a oferta
de exames e a sua correta interpretação.

Telemedicina cardiológica é uma especialidade médica que disponibiliza a in-


terpretação de testes cardiológicos a distância, resultando em laudos digitais, e
avaliação imediata de urgências via teleconferência.

Trata-se de um suporte da tecnologia que agrega valor à rotina de clínicas e hos-


pitais.

Através dela, é possível transmitir os dados de exames realizados, como o eletro-


cardiograma , de maneira remota.

EBOOK GUIA BÁSICO DE ELETROCARDIOGRAFIA 55


Eles serão analisados por um cardiologista e o laudo será emitido em minutos,
por meio de uma plataforma de telemedicina online, a qual o cardiologista aces-
sa de onde estiver.

Tudo isso com muita eficiência, possibilitando agilizar o diagnóstico e, conse-


quentemente, o início do tratamento.

Sobre a Telemedicina Morsch

A Telemedicina Morsch é uma das pioneiras no segmento cardiológico, traba-


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Brasil.
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sultados expressivos como economia de tempo e dinheiro, ampliação do portfólio
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de enfermagem para que realizem corretamente os exames.

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tação é feita totalmente online, podendo ser acessada a qualquer hora do dia ou
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grafia e senhas.

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Conclusão
Você aprendeu neste guia a dominar o eletrocardiograma (ECG), seus parâme-
tros, diretrizes e principais achados.

Agora, está mais bem preparado para colocar esse conhecimento em prática,
analisar e interpretar exames e, assim, contribuir com diagnósticos médicos mais
assertivos.

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