Você está na página 1de 3

Patrícia Pita Ferreira OM 66685

Interna de Formação Geral Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central

TUBERCULOSE
A tuberculose é uma doença infecciosa causada pelo Mycobacterium tuberculosis complex,
que pode atingir qualquer órgão, sendo mais frequente a forma pulmonar. Esta apresentação
da doença é também a que mais implicações tem em termos de saúde pública, pois um
individuo com tuberculose da via aérea liberta bacilos através, por exemplo, da tosse ou fala,
1
que poderão ser posteriormente inalados pelos seus contactos.
As pessoas expostas à tuberculose estão em risco de ficar infectadas mas apenas 10% destas
desenvolvem doença, sendo este risco superior nas populações imunocomprometidas,
nomeadamente crianças pequenas, pessoas infectadas com VIH ou sob terapêutica
imunossupressora. O rastreio de tuberculose consiste numa avaliação clínica, radiografia
pulmonar, teste tuberculínico e/ou teste IGRA. O tratamento preventivo consiste, por exemplo,
1
num esquema com isoniazida que pode durar 6/9 meses.
O diagnóstico de tuberculose doença assenta na identificação laboratorial de Mycobacterium
tuberculosis em produtos orgânicos (na maior parte dos casos – expectoração). A confirmação
da doença e do perfil de susceptibilidade aos antibacilares permite a correcta escolha
terapêutica. Hoje em dia são utilizados testes microbiológicos e de biologia molecular, que
permitem um diagnóstico célere da doença e das mutações que conferem resistência aos
1
antibacilares de primeira linha.
O tratamento da tuberculose susceptível aos fármacos de primeira linha dura cerca de 6 meses
e inclui 4 fármacos (isoniazida, rifampicina, pirazinamida e etambutol – esquema HRZE) na
fase inicial (2 meses), e 2 fármacos (isoniazida e rifampicina - HR) na fase de manutenção (4
meses). Este esquema terapêutico standard tem taxas de sucesso acima de 85%. O
tratamento das formas multirresistentes obriga à utilização de mais fármacos, durante mais
1
tempo, com piores resultados.
Em Junho de 2016, alterou-se a estratégia de vacinação da BCG em Portugal, passando a
vacinar-se apenas as crianças com factores de risco individuais ou comunitários para a
4
tuberculose. São considerados grupos de risco os seguintes:
4i
• crianças provenientes de países com elevada incidência de tuberculose;
• crianças que terminaram o processo de rastreio de contactos e/ou esquema de
4
profilaxia;
• crianças cujos pais, coabitantes ou conviventes apresentem história de infecção por
VIH/SIDA, dependência de drogas ou álcool, naturalidade de país com elevada
4i
incidência de tuberculose ou antecedentes de tuberculose;
4
• crianças pertencentes a comunidades com risco elevado de tuberculose;
4i
• crianças que viajam para países com elevada incidência de tuberculose.
A tuberculose (doença de notificação obrigatória, via SINAVE) é notificada sempre que um
caso é identificado (casos possíveis, prováveis ou confirmados) e inicia tratamento. O sistema
de vigilância da tuberculose (SVIG-TB) permite caracterizar o doente e o seu seguimento até
ao fim do tratamento, com várias actualizações da informação ao longo do processo de
tratamento.

NOTIFICAÇÃO DA TUBERCULOSE - SINAVE


5
1. Critérios clínicos
Pessoa que preenche um de dois critérios seguintes:
a) Sinais, sintomas e/ou imagens radiológicas compatíveis com tuberculose activa, qualquer
que seja a sua localização E Decisão tomada por um médico de administrar ao doente um
ciclo completo de terapia antituberculosa.

Estágio de Saúde Pública – ACES Estuário do Tejo USP Forte da Casa


1
Patrícia Pita Ferreira OM 66685
Interna de Formação Geral Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central

OU
b) Resultados anatomopatológicos necrópsicos compatíveis com tuberculose activa, que
tivessem exigido tratamento antibiótico antituberculoso, caso o diagnóstico tivesse sido
feito em vida.
5
2. Critérios laboratoriais
2.1 Confirmação do caso:
Pelo menos um de dois critérios seguintes:
a) Isolamento do complexo Mycobacterium tuberculosis (com exclusão de Mycobacterium
bovis-BCG) numa amostra biológica;
OU
b) Detecção de ácido nucleico do complexo Mycobacterium tuberculosis numa amostra
biológica E Baciloscopia positiva por microscopia óptica convencional ou fluorescente.
2.2 Caso provável:
Pelo menos um de três critérios seguintes:
a) Baciloscopia positiva por microscopia óptica convencional ou fluorescente;
b) Detecção de ácido nucleico do complexo Mycobacterium tuberculosis numa amostra
biológica;
c) Exame histológico revela lesões granulomatosas.
5
3. Critérios epidemiológicos
3.1 Não aplicável: Não preenche critérios de tuberculose
3.2. Definição de caso
3.2.1 Caso possível: Preenche os critérios clínicos.
3.2.2 Caso provável: Preenche os critérios clínicos e laboratoriais de caso
provável.
3.2.3 Caso confirmado: Preenche os critérios clínicos e laboratoriais de
confirmação de caso.

TUBERCULOSE EM PORTUGAL 2018 (dados provisórios SVIG-TB)


Em Portugal, a taxa de notificação da tuberculose continua a diminuir (a um ritmo de 5,4% ao
ano), sendo que em 2018 esta taxa foi de 16.6 casos por 100 mil habitantes. Os distritos de
Porto e Lisboa são os distritos com mais alta taxa de notificação (acima dos 20 casos por 100
2
mil habitantes).
Ao longo do tempo, tem-se assistido a um envelhecimento da população doente, sendo que em
2018 a idade mediana dos doentes foi de 49 anos. Foram notificados 34 casos de tuberculose
em crianças com menos de 6 anos de idade, 4 dos quais foram formas graves de tuberculose,
2
todas em crianças sem BCG e 3 com critérios individuais para vacinação.
A maior parte dos casos de tuberculose em Portugal ocorre em população nativa, ao contrário
do que ocorre na maioria dos restantes países da Europa Ocidental. A proporção de casos de
2
tuberculose em pessoas nascidas fora do país tem vindo a aumentar ao longo dos anos.
De entre as comorbilidades que configuram risco para tuberculose, realça-se a infecção por
vírus de imunodeficiência humana. É de extrema importância o rastreio de todos os doentes
com tuberculose para a infecção por VIH, dado o impacto desta no resultado do tratamento da

Estágio de Saúde Pública – ACES Estuário do Tejo USP Forte da Casa


2
Patrícia Pita Ferreira OM 66685
Interna de Formação Geral Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central

tuberculose. O rastreio de infecção VIH foi efetuado em 87,9% dos doentes com tuberculose e
2
verificou-se que 8,8% dos doentes com tuberculose eram também VIH positivo.
Em 2018, a demora mediana entre o início de sintomas e o diagnóstico foi de 80 dias. Este
valor tem vindo a aumentar na última década e poderá relacionar-se com o baixo índice de
suspeição de tuberculose por partes dos profissionais de saúde e da própria população, à
medida que diminuímos os casos de tuberculose na comunidade. Apesar de se assistir a uma
redução progressiva da percentagem de casos bacilíferos, com consequente menor grau de
infecciosidade, o atraso no diagnóstico condiciona maior tempo de exposição e assim de
2
infecção pelos familiares e conviventes de cada novo caso.

Gráfico 1 - Evolução taxa de notificação e taxa de incidência, Portugal 2000-2018 (dados


2
provisórios SVIG-TB)

METAS TUBERCULOSE 2020


➔ Que existam cada vez menos novos casos de infecção por tuberculose (15 por 100.000
3
habitantes);
3
➔ Que 90% das pessoas com tuberculose sejam tratadas com sucesso;
3
➔ Que 90% das pessoas com tuberculose saibam se estão infectadas com VIH ou não.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Direção-Geral da Saúde. Tuberculose em Portugal | Desafios e Estratégias 2018. Disponível em:
https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/tuberculose-em-portugal-desafios-e-estrategias-2018-
.aspx
2. Direção-Geral da Saúde. Tuberculose em Portugal 2018 (dados provisórios); Programa Nacional para a
Tuberculose. Disponível em: https://www.dgs.pt/portal-da-estatistica-da-saude/diretorio-de-
informacao/diretorio-de-informacao/por-serie-1104304-pdf.aspx?v=11736b14-73e6-4b34-a8e8-
d22502108547
3. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Infeção VIH, Sida e Tuberculose 2017. Disponível
em: https://www.dgs.pt/portal-da-estatistica-da-saude/diretorio-de-informacao/diretorio-de-
informacao/por-serie-845551-pdf.aspx?v=11736b14-73e6-4b34-a8e8-d22502108547
4. Direção-Geral da Saúde. Norma nº. 006/2016: Estratégia de vacinação contra a tuberculose com a
vacina BCG. Disponível em: https://www.dgs.pt/directrizes-da-dgs/normas-e-circulares-
normativas/norma-n-0062016-de-29062016.aspx
5. Despacho n.º 15385-A/2016 de 21 de Dezembro. Direção-Geral da Saúde. Disponível em:
https://dre.pt/application/file/a/105580101


i
Exemplos: África do Sul; Angola; Bangladesh; Cabo Verde; China; Guiné-Bissau; Índia; Macau; Moçambique; Nepal; Roménia; Rússia;
São Tomé e Príncipe; Sri Lanka; Timor-Leste; Ucrânia.

Estágio de Saúde Pública – ACES Estuário do Tejo USP Forte da Casa


3