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De uma família feliz e bem estruturada, Luana Aguiar viu o

mundo à sua volta desmoronar quando perdeu a mãe. A garota então ficou
aos cuidados do pai, um homem que não soube superar a perda da esposa e
acabou se entregando a vícios que seriam a sua ruína. Vícios que o levaram a
colocá-la nas mãos de Gabriel Souto, um homem impiedoso e sem coração,
como muitos dizem. A fama de Daniel Souto o precede e, sem que tenha

escolha, a jovem se vê presa ao seu mundo sombrio, cercada de mistérios e


luxúria.

Gabriel Souto não pede, ele toma para si, esse é o seu lema de
vida. Não seria diferente quando o assunto é o seu desejo de arranjar uma
esposa para tornar-se um homem respeitado perante a alta sociedade, que não
enxerga além do que quer ver. A oportunidade surge quando o tolo Júlio
Aguiar faz a pior aposta da sua vida e entrega de bandeja exatamente o que

ele estava procurando, poupando-lhe o trabalho de ir à caça.

Uma relação nascida do ódio, um desejo que não pode ser


reprimido e um reencontro inesperado. Será que o amor conseguirá florescer
em corações tão inóspitos?
Revisão gramatical: Wânia Araújo

Capa: E.S Design


Diagramação: Joane Silva
1ª Edição

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens lugares e


acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer
semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera consciência.
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por
qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da autora.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº
9610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Para você que não desiste dos seus sonhos, que acredita que o
raiar de um novo dia trará novos sonhos e novas oportunidades.
Para aqueles que acreditam na força do amor e em segundas
chances.
Este livro é para vocês.
— Estou presa, é isso? — pergunta, irritada, encurralada entre o
meu corpo e a parede do espaçoso e luxuoso quarto da minha propriedade.
Para ela, aquele lugar significa o próprio inferno na terra, ou pelo menos o
que ela pensa ser o inferno.

Se soubesse que lá é muito pior do que as pessoas imaginam...


Estive no inferno e garanto que ter labaredas queimando a pele é brincadeira

de criança perto do que vi e vivi.

— Isso. Se este é o seu conceito de prisão; então, sim, você está


presa a mim e a essa casa. Acostume-se, meu bem...

— Não me chame de meu bem — diz, lançando-me um olhar de


desprezo, o que só a deixa mais linda. Aos meus olhos, parece uma ratinha
assustada e, de forma doentia, fico excitado por vê-la assim, nas minhas
mãos. Sei que posso fazer o que quiser com seu corpo e suas vontades. Posso
moldá-la da forma que eu quiser, como for conveniente para mim. — Não

sou o seu bem.

— Você é o que eu quiser que seja. Esqueceu que te comprei em


uma mesa de apostas? — Na verdade, não foi bem uma compra, está mais
para o pagamento de uma dívida, mas, na prática, isso não importa. Não

quando o resultado é o mesmo: a bela Luana Aguiar em minhas mãos. Toda


minha para fazer o que eu quiser. — Não aja como se tivesse poder de
decisão, pois não tem. E quanto antes você entender isso, melhor.

— Eu te odeio, Gabriel — afirma, fria.

Ao invés de me assustar, sua declaração me excita. Não posso


resistir a este jogo.

— Não quero o seu amor, garota. — Enquanto falo, me


aproximo do seu corpo colado à parede e seus olhos crescem de tamanho a

cada passo que dou. Como uma gatinha assustada, seu rosto não consegue
esconder o temor por causa da minha proximidade. — Sinta-se à vontade
para continuar me odiando, posso viver com isso.

— Não se aproxime de mim, Gabriel. Você me assusta. — Está


praticamente implorando, percebendo que foi uma péssima ideia trazer o seu
namorado para dentro da nossa casa.
Agora ela está encurralada entre mim e a parede do quarto que,
por enquanto, é só dela. Digo por enquanto, pois não sei quanto tempo irei

resistir ao tesão e ao desejo doentio que começo a nutrir por ela. No fundo,
sei que não serei capaz de me manter tão longe da gostosa, não quando a
quero como jamais quis alguém — mesmo detestando-a com a mesma
intensidade.

Raiva e desejo. A melhor e a pior decisão. Com ela, vou de um


extremo para outro, mas ainda assim não posso deixar de me sentir
estimulado ao seu lado. Considerando toda essa bagunça, talvez seja melhor
não sentir nada e ficar só com a insatisfação. Mas o perigo que ela traz
consigo bate de frente com tudo o que sou e preciso ser. E a atração que sinto
pelo perigo é mais forte do que eu, muito mais forte.

— Você está mesmo assustada? — Toco seus braços e sinto-os


arrepiados. Os pelinhos, que estão de pé, não são capazes de esconder seu

nervosismo. E o que, para ela, é medo; para mim, é excitação. — Por que
sinto a sua respiração ofegante? — Estou com o corpo levemente curvado
sobre o dela e as palavras são sussurradas no seu ouvido. — Se quer que eu te
beije novamente, é só pedir, bebê. Juro que não pensarei mal de você por
isso. Posso te dar o que quiser, desde que se comporte e faça tudo o que eu
quero.

— Então quer que eu seja sua escrava, que não tenha voz e faça
apenas o que você ordenar? — É sarcástica, mas se a intenção é me irritar, ela

certamente está fazendo isso da maneira errada.

— Vejo que estamos começando a nos entender, Luana.

Saboreio o seu nome nos meus lábios e imagino o momento em


que o chamarei, enquanto como a sua boceta. Com certeza, ela estará muito
molhada, pegando fogo de tesão e me receberá quando eu socar sem dó no

seu calor apertado. Um corpo que me deixou babando como um cachorro


louco por um pedaço de carne desde a primeira visão que tive da garota que
se apresentou com sete pedras nas mãos. Ali, soube que nada me faria desistir
de tê-la para mim. Mesmo se o seu pai não tivesse sido tão burro, eu faria
qualquer coisa para ter uma prova do corpo apetitoso e da boca carnuda feita
para envolver o meu pau até ter os lábios esticados pelo esforço de abarcar a
minha espessura.

— Prefiro morrer a ter essa boca suja sobre a minha ou essas

mãos imundas no meu corpo. Sinto nojo de você, Gabriel Souto. Pensar na
possibilidade de ser obrigada a fazer sexo com você me deixa doente. —
Cospe cheia de raiva, deixando transparecer o desprezo que vejo no rosto de
muita gente. Ela é apenas mais uma.

— Então, se prepare para morrer, sua vadiazinha.

Agora o meu corpo está colado ao dela, que se encolhe, e o


cheiro do seu medo é excitante. É isso que quero. Não quero amor ou
declarações de devoção. O importante é ela ser perfeita para os meus planos

e, se a boceta quente e os seios grandes vierem no pacote, não irei reclamar.


Luana será como todas as outras, somente uma boceta para aliviar a tensão
dos meus dias. A única diferença é que não precisarei ir tão longe para
encontrar alívio, pois o terei dentro da minha própria casa.

— Você vai dar para mim quantas vezes eu quiser te comer. Fará
sem reclamar e sabe por quê? — Suas mãos estão espalmadas no meu peito,
mas não como uma tentativa de apoio ou carinho. Luana quer me afastar para
longe dela, enquanto tudo o que quero é me afundar no seu sexo e descobrir
se é tão boa quanto parece. — Você deve estar com a calcinha gotejando de
desejo por baixo desse vestido. Apesar do que sua boca diz, seu corpo tem
reações contrárias e quer que eu te toque como você nunca foi tocada por
aquele moleque que se diz seu namorado. Aliás, ele é mais um que precisarei

tirar do meu caminho, se for necessário.

— Não abra essa boca para falar o nome do Gustavo. — A


defesa vem rápida e ferrenha, o que ameaça despertar o animal adormecido
que há dentro de mim. — Ele é o homem que você jamais será, é um cara
decente.

— Tão decente que está apaixonado por uma mulher que foi
vendida como uma prostituta — falo para machucá-la e consigo o intento,
pois a sua mão voa direto na direção do meu rosto e só não o atinge em cheio

porque sou rápido o suficiente para frear a ação dela.

— Atreva-se a fazer isso novamente e não gostará das


consequências — ameaço e a garota tem os olhos arregalados ao fitar-me, a
respiração errática e o rosto distorcido pela cólera e o ódio que não podem ser
disfarçados.

— Vai fazer o que, seu monstro? Me bater? — Furiosa, a


gostosa empina o narizinho arrebitado e tudo o que eu quero no momento é
rasgar suas roupas e fodê-la até que cale a porra da boca e pare de me
afrontar, ainda mais por causa de outro homem.

Será que ainda não percebe que agora é minha mulher? Que não
existirá outro homem que não seja eu na sua vida?

— Vou fazer isso.

Sem o controle que me orgulho de ter, puxo-a pela cintura e, sem

aviso, beijo sua boca. Um beijo que encontra resistência e acaba rápido
demais quando ela morde com força o meu lábio inferior.

Assustado por um segundo, dou dois passos para trás e toco a


minha boca com o dedo. Quando vejo o filete de segue, a fúria varre o meu
corpo e ela mal tem tempo de correr, pois eu já a tenho novamente contra a
parede. Desta vez, envolvo sua cintura com um braço, enquanto o outro
agarra a parte de trás dos seus cabelos, segurando com firmeza a sua cabeça
para que não tenha como fugir ou se esquivar.

Com a língua, invado a boca macia e, com o gosto metálico de


sangue, tomo o que é meu, exijo respostas e, sem que tenha qualquer chance,
a minha esposinha corresponde ao chupar a minha língua para dentro da sua
boca e permitir que eu imite o seu gesto. A garota está mole nos meus braços

e, se agisse movido pela fama que tenho e na qual ela parece acreditar,
poderia me aproveitar disso, arrancar as nossas roupas e realizar o desejo que
venho alimentando desde o momento em que coloquei os olhos nela. Mas
como nem tudo é o que parece, ajo diferente.

— Gostosa demais.

Aos poucos, vou diminuindo a intensidade e, com uma forte


mordida no seu lábio inferior, obrigo-me a parar.

— Gabriel...

Quando a minha esposa abre os olhos, eles estão anuviados pelo


desejo que não é capaz de refrear.

— Quando você quiser, minha esposa, é só pedir que eu virei e,


com prazer, darei o que você quer. Seu corpo e seus desejos me pertencem e
quanto antes aceitar isso, melhor será para nós dois.

— Isso nunca irá acontecer. Eu amo o meu namorado — insiste


em colocar outro homem entre nós dois, o que é extremamente irritante.
Luana não entende que quanto mais ela toca no nome do tal namorado, mais

irritado fico e quando isso acontece, todos os envolvidos sofrem as


consequências.

— Você não tem um namorado, querida, tem um marido. Sou o


seu dono e quando quiser apagar o seu fogo, já sabe onde me encontrar.

Com um ar espantado, ela encara o meu rosto. Eu abaixo


vagarosamente os meus olhos para frente da minha calça e, propositalmente,
manjo o meu pau muito duro e louco de vontade.

— Seu imbecil!

Agora, muito furiosa, Luana vira-se para trás, pega o abajur que
estava sobre a mesa de cabeceira e arremessa-o na minha direção. Se eu não
fosse um homem ágil e bem treinado, os estilhaços de vidro teriam acertado
minhas costas em vez da porta que consegui fechar a tempo.

Fora do quarto, ouço quando Luana começa a chorar. A mulher


chora e xinga como um homem. No meu rosto, um sorriso satisfeito se abre e,
sem que haja sombra de dúvidas, sei que esse arranjo será muito proveitoso e
que será um prazer domar essa fera.

Por quanto tempo? Isso só o meu corpo dirá. Se depender da


fome que tenho por ela, duvido que o meu desejo acabe logo. A garota é uma
bocuda, gosta de me desafiar, mas talvez essa seja a razão de tamanha
atração. Uma febre que explorarei até me sentir satisfeito. Quando acontecer,

ela permanecerá na minha vida, pois comer sua boceta não foi o principal
motivo para eu ter me casado com ela.

Luana Aguiar é uma ajuda providencial que veio na hora certa e


como não sou de perder as oportunidades que caem no meu colo, ela servirá

perfeitamente para meus intentos. Amor e todas as bobagens românticas


ficarão fora da equação. Se não tive isso com a minha família, certamente não
esperarei de uma mulher que me odeia e que, se pudesse, obrigaria seu corpo
a não querer o meu como demostrou desejar agora.
Duas semanas antes.

— Ela chegou, senhor.

Domênico, meu segurança, mais conhecido como capanga

particular, acaba de entrar na sala que fica no subsolo do cassino, escondido


em uma espécie de masmorra. Aqui, a entrada é restrita e, além do Domênico
— homem em quem confio piamente e é fiel como um cão de guarda —,
mais ninguém tem tamanha liberdade para entrar sem bater ou ser anunciado
como ele acabou de fazer. Tenho alguns inimigos poderosos e, por questão de
segurança, preciso mantê-los distantes dos segredos guardados aqui.

— Peça para que ela entre, Dom. Dê-me apenas cinco minutos e
traga a moça — digo, levantando-me da cadeira de couro e indo para a frente

do espelho que fica atrás da porta e cobre-a de cima a baixo.

Aqui é onde passo grande parte do tempo, é um tipo de refúgio


para mim, por isso não é de se estranhar que o lugar pareça mais um pequeno
quarto do que um escritório propriamente dito.

Os minutos passam lentamente e parece cada vez mais distante o

momento em que a garota entrará na cova do leão que ela deve imaginar que
eu sou. Para seu azar, Gabriel Souto é exatamente isso: um leão feroz que
toma para si tudo o que deseja. Hoje tomarei o que é meu por direito graças à
burrice de um homem que não soube controlar as próprias fraquezas — nem
mesmo em nome do afeto e cuidado que deveria ter por alguém tão próximo
a ele.

— Entre, senhorita.

A porta escura novamente é aberta e a voz de Dom é ouvida

cada vez mais próxima. De maneira inesperada, sinto o frio da ansiedade


corroer minhas entranhas, o que me deixa bastante surpreso, já que não sou
dado a esse tipo de fraqueza.

No fim, prefiro atribuir tais sentimentos ao alívio de ter


conseguido, sem o menor esforço, exatamente o que estava precisando. A
resposta para os meus problemas veio de bandeja e em uma bela embalagem.
— Já não era sem tempo, senhorita Luana. Pensei que teria que
ir buscá-la pessoalmente. — Minha voz soa sarcástica, assim como pretendia

que fosse e, no fundo, uso esse artifício para encobrir o impacto que a beleza
da beldade morena me causou.

Quando, em uma mesa de apostas, o pai inconsequente da garota


perdeu mais do que tinha condições de pagar, vi ali uma oportunidade de tirar

vantagem e, assim como faço sempre, me aproveitei da situação.

Vejam bem, não sou mau ou algo do tipo. As pessoas é que são
burras o suficiente para se colocarem nas minhas mãos sem antes pensarem
nas consequências dos seus atos. Foi assim com o meu futuro sogro e com a
grande maioria dos que são tolos o suficiente para frequentar o meu cassino,
um lugar onde os prazeres não se resumem às apostas.

Um antro de perdição, é como costumam chamar o Sensations, o


estabelecimento onde os sócios e seus convidados têm a liberdade de mostrar

o seu pior lado. Um lado que normalmente fica escondido, mas que aqui pode
ser liberado. No Sensations, eles podem extravasar e cometer pecados que
vão da ganância à luxúria, do mais simples ao mais perturbador.

— Como sabia que eu viria? — pergunta, num tom mordaz, sem


esconder sua irritação. — Por um acaso também é adivinho, além de
desprezível?
Com o narizinho arrebitado, a morena gostosa me enfrenta sem
um pingo de medo do perigo. Luana talvez não tenha noção de com quem

está lidando e, para mim, será um prazer mostrar-lhe os motivos pelos quais
ninguém, nem mesmo uma belezinha como ela, deve me enfrentar.

Eu, particularmente, não vejo a hora de ensiná-la como deve se


comportar e o que deve falar para me agradar. A garota é muito bonita, me

desperta um desejo inesperado apenas por estar tão próxima e olhando-me


com tamanha impaciência e raiva.

Para um homem de 30 anos e que já viu de tudo nesta vida, a


ideia do desafio parece tentadora e, como um animal, sinto a boca salivar
apenas pelo pensamento de domar essa delícia de queixo duro que me encara
com petulância quando não está em condições de fazê-lo. Pelo contrário,
considerando a situação, era de se esperar uma pessoa humilde e temerosa e
não uma garota com mãos na cintura, pé batendo contra o piso e unhas

afiadas, prontas para serem cravadas no meu pescoço.

— Sempre sei de tudo, morena — digo a verdade, mas, nesse


caso, vi pelas câmeras o momento em que a mesma mulher das fotos, a filha
do meu devedor, aproximou-se da entrada do Sensations. Além de ter sido
avisado por Dom.

Dois dias. Esse foi o tempo que ela demorou para vir até aqui,
depois da fatídica noite em que dei o ultimato para o seu pai, o homem que

tem o nome e a figura marcados no meu caderno de devedores. Caderno que

é conferido com bastante cuidado por Lucas, meu parceiro e contador — um


antigo cliente que acabou se tornando meu amigo e hoje é um dos sócios do
estabelecimento que se disfarça de casa de shows.

A sua demora em me procurar não deixou de ser uma surpresa

para mim. Não quando o pai — surpreendendo até mesmo a mim, que não
me impressiono fácil — concordou com o meu arranjo. Tudo bem que foi
com certa relutância, mas, porra! Que tipo de pai faria isso com uma filha?

Eu, certamente, teria mais respeito e benevolência pelo sujeito se


ele tivesse recusado a minha proposta. Como não o fez, minha consciência —
se é que ela existe — está tranquila com a decisão tomada. Uma deliciosa e
acertada decisão, considerando o que tenho aqui na minha frente.

— Meu nome é Luana, mas imagino que você já saiba.

Suas palavras são duras e as mãos apertam, com uma força


exagerada, a bolsa que está pendurada no ombro. Do ombro, meus olhos não
resistem ao desejo de descer mais um pouco e se deliciarem com a perfeição
que é o seu corpo cheio de curvas. Muitos diriam que ela está acima do peso,
mas, para mim, não é nada além de gostosa. Um corpo muito gostoso e que
tem a forma exata para satisfazer o meu desejo.
A obrigação, que antes parecia uma corda sendo apertada aos
poucos no meu pescoço, começa a se mostrar uma prazerosa mudança de

rumo na minha vida — uma existência atormentada que não consegue


melhorar nem mesmo com o quebrar de regras ou os escândalos em que meu
nome é constantemente envolvido. Tudo parece previsível demais e talvez eu
esteja criando muita expectativa para o jogo que pretendo começar com essa

mulher voluptuosa, mas o risco vale a pena.

— Não te dou e nem te darei intimidade para que me chame por


apelidinhos. Vim aqui por um único motivo e acho que você sabe qual é —
continua, severa, o que me excita além do que é confortável admitir.
Felizmente, estou sentado outra vez e ela não é capaz de ver o meu pau a
meio mastro por baixo da calça.

É difícil e até mesmo embaraçoso admitir que o meu corpo está


tendo reações tão intensas por causa de uma mulher como Luana. Tudo bem

que ela é deliciosa acima da média, mas mulher gostosa é o que não falta na
minha vida. Já tive um número expressivo delas na minha cama e que, no dia
seguinte, partiram sem fazer falta. Além do mais, não é como se eu estivesse
sem sexo há muito tempo. Ontem mesmo, eu transei com a minha amante
fixa, Sabrina, uma negra que sabe exatamente os termos da nossa relação. O
sexo já não é tão satisfatório, mas prefiro ficar com ela do que me dar ao
trabalho de ter que dispensá-la e explicar para outra mulher que não terá uma
próxima vez, que a noite não passou de uma troca mútua de prazeres.

Não posso negar que, vez ou outra, sou levado a me envolver

com alguma mulher que chama a minha atenção quando estou com paciência
para circular pelos salões de jogos e pelos cômodos onde os casais só querem
um sofá para sentar e lá mesmo começar o serviço — que acaba onde se
iniciou e à vista de quem quiser assistir, ou em um dos quartos criados para

tal finalidade.

— Não, morena — repito, apenas para irritá-la mais um pouco e


quem sabe tirar do seu rosto a petulância de quem não sabe dimensionar o
tamanho da enrascada em que se meteu, de quem não tem noção de com
quem está lidando. Se soubesse, não manteria a pose de dona do pedaço. Se
bem que em breve ela será mesmo a dona do pedaço. — Não sei a quem você
se refere. Pode ser mais clara, por favor? — continuo e, como pensei, a gata
está com as unhas afiadas, pronta para tirar sangue do meu belo rosto.

É o que dizem a respeito da minha aparência e não posso deixar


de concordar. Por ironia do destino, fui presenteado com uma bela carcaça,
perfeita para disfarçar a podridão que existe dentro de mim. Uma alma escura
e um coração que parece não pulsar — novamente, palavras de quem me
conhece de perto.

— Não aprecio meias palavras e você terá tempo para entender


isso — digo a mais pura verdade. Não tolero jogos de quem fala sim, quando

quer dizer não. Que nega, querendo aceitar.

— Não quero e nem tenho vontade de entender nada. Esta será a


única vez que nos falaremos e mal vejo a hora desse encontro indigesto
terminar.

As palavras seriam recebidas como cruéis se fossem ditas para

outra pessoa, mas não para mim. Com a convivência, minha futura mulher
entenderá que posso ser muito mais cruel do que sua predisposição para me
rejeitar e atacar.

— Se prefere pensar assim... — Olho-a descaradamente de cima


a baixo enquanto falo e, pela primeira vez, vejo uma pequena reação que não
é raiva. Seu rosto moreno enrubesce levemente e ela finca as unhas
vermelhas na palma de suas mãos. — Deixarei que descubra por si mesma o
quanto as suas certezas estão equivocadas.

Levanto-me e me encosto no tampo da mesa, ficando mais perto


dela, que permanece irritada e fingindo que não está afetada pela minha
repentina proximidade. Não tão perto quanto eu gostaria de estar, mas
certamente o suficiente para saber que a sua pose inabalável é notadamente
um disfarce.

A vida me ensinou a não errar nos meus julgamentos e nas


minhas percepções e com ela não será diferente. Estando mais perto e
percebendo que é mais linda e apetitosa do que imaginei, leio sua pose dura

com clareza e sou capaz de apostar um braço como garantia de que toda essa
coragem e arrogância são apenas fachada. Ela me teme, posso sentir e isso
me excita.

Costumo causar esse tipo de reação e, apesar do perigo que todas

veem, as mulheres não hesitam em tentar chamar a minha atenção ou se


aproximar com intenções libidinosas. Apesar do perigo, ou talvez por causa
dele, elas são atraídas como moscas. Tenho o bom senso de filtrar o que
resultará em uma foda qualquer e o que não passará de uma dor de cabeça.
Luana não é diferente das outras e se não a conversa que precisamos ter não
fosse importante, cederia à tentação de me aproximar e comprovar sua
capacidade de resistir a mim, levantando o vestido indecentemente colado ao
corpo e que deixa em evidência as curvas abundantes e os seios fartos.

— Não estou aqui para bater papo. De você, quero apenas que
libere o meu pai desta dívida ridícula — pede, achando que a dívida é
irrisória a ponto de apenas ser esquecida como acaba de sugerir.

— O que a leva a crer que uma dívida de 500 mil reais será
simplesmente perdoada? — Seus olhos expressivos aumentam de tamanho.
— Só por que você quer? — debocho para que veja o absurdo que está
falando.
Mais absurdo ainda é Luana não saber o que o cretino do pai
dela fez. Por mais que agora eu agradeça por ele ter aceitado nosso acordo,

penso que, para essa moça, seria melhor estar sozinha a ter um pai como o
dela.

— Você não pode estar falando sério! — Pela primeira vez, vejo
sua altivez sofrer um pequeno abalo e, por alguns segundos, ela demonstra

não ser a mulher forte que tenta aparentar. — Ele não disse que era isso tudo.

Finalmente, seu olhar para de fugir de mim, ela deixar de olhar


os próprios pés, os quadros na parede ou qualquer outra coisa no escritório e
me encara.

— Aqui está.

Volto-me para a mesa e pego o caderno de relatórios que


contém, de forma pormenorizada, cada aposta perdida pelo pai dela, cada
bebida comprada e até mesmo os quartos que ele ocupou quando estava

bêbado demais para voltar para casa. Estendo o pequeno objeto em sua
direção e quando ela o pega, vejo suas certezas caírem por terra. Ela encara o
livro ainda por alguns segundos antes de voltar toda a sua fúria para mim.

— Seu miserável!

Dá um passo à frente, mas algo na minha expressão faz com que


ela se detenha e desista da infeliz ideia de me atacar. Os punhos, todavia,
continuam fechados, mostrando o quanto ela luta para manter o controle. Não
posso deixar de admirá-la por isso, outro em seu lugar já teria sido tolo o

bastante para piorar a situação.

— Isso tudo é culpa sua e desse lugar! Meu pai estava muito
bem antes de começar a frequentar o que você chama de casa de shows, mas
que na verdade não passa de um antro de perdição — continua, acusando-me

sem parar para respirar ou mesmo pensar nos absurdos que está falando. —
Como consegue dormir à noite sabendo que usa a fraqueza de tolos como o
meu pai para seu próprio proveito? Será que não se deu conta de que ele não
tinha como pagar esse valor absurdo?

— Não que seja da sua conta, senhorita, mas durmo muito bem
quando coloco a cabeça no travesseiro — minto.

Meus olhos mais uma vez voam para as delícias que são os seus
peitos, mal contidos dentro do decote pouco discreto. Quer dizer, seria

discreto se ela não tivesse seios tão fartos, grandes e firmes. Olhar para eles é
esquecer das questões importantes tratadas aqui e sentir que, a qualquer
momento, posso assustá-la com uma inconveniente ereção. Luana achará que
sou um louco e realmente sou, mas este não é o momento para ela descobrir.
Essa parte deixarei para quando tudo entre nós estiver acertado.

— Então você não tem consciência — acusa.


— Talvez eu não tenha mesmo, mas como isso não lhe diz
respeito, creio que não precise gastar seu tempo precioso com assuntos tolos

como esse — corto, antes que ela se sinta motivada a ir além.

Tudo que eu não preciso é de uma mulher motivada por


sentimentos e desejos de ver o que existe por baixo da minha superfície.
Todas que tentaram isso descobriram que não fizeram nada além de perder

tempo, pois não há o que ser mostrado, pelo menos não para melhorar a visão
que todos têm de mim.

— Quanto ao que o seu pai e qualquer outro fazem ou deixam de


fazer dentro dessas paredes, a responsabilidade é inteiramente deles. Não me
importo se eles têm ou não como arcar com as dívidas, só quero que elas
sejam pagas e garanto que, de um jeito ou de outro, elas sempre são —
continuo, sério.

Se a intenção é assustá-la e limar pelo menos um pouco da sua

arrogância e da sua petulância, acredito que o meu intento é alcançado.

— Existe algum tipo de ameaça por trás das suas palavras,


Gabriel Souto?

A mulher mantém a pose e não sei se isso me enfurece ou me


excita ainda mais. Por causa de sua petulância, tenho a certeza de que o
tempo com ela será tudo, menos tedioso, e de repente me sinto ansioso para
vivermos sob o mesmo teto.

— Entenda como quiser, meu bem — provoco.

— Nós não podemos pagar essa dívida — afirma. — Se você


esperar mais uns dias, talvez eu possa encontrar um jeito de levantar pelo
menos um pouco dessa grana. — Pela primeira vez, vejo um traço de
fragilidade no seu rosto. É uma pena que isso não me comova nem um pouco.

Cobrar e receber fazem parte dos meus negócios, não sou de


fazer concessões e não será ela, com o seu rosto perfeito, peitos e bunda
grandes, que me fará agir diferente do habitual. Pelo contrário,
principalmente por causa desses atributos e por ser a oportunidade perfeita
para colocar em prática os meus planos, é com prazer que tomarei o que é
meu por direito.

— Não vou esperar, senhorita Luana — aviso. — Não posso e


não quero esperar.

— Então só lamento por você que não verá a cor desse dinheiro
— enfrenta-me, sem noção do que está fazendo. Se já não existia a
possibilidade de conseguir me convencer, ela fechou a tampa do caixão com
essa arrogância.

— Vou sim, minha linda — assevero, ao descruzar braços e


pernas. Até então, eu estava com o quadril apoiado na mesa, mas saio dessa
posição e me dirijo para parte de trás do móvel, abro a gaveta e tiro o
envelope que guardei ali antes de ela chegar. — Na verdade, Luana, existe

mais de uma maneira de se cobrar uma dívida.

— Eu não entendo.

Ela realmente não tem noção do que o pai fez e chego quase a
sentir pena dela. Eu sentiria mesmo pena se tivesse um coração e uma

consciência, mas como essas qualidades não fazem parte de quem eu sou, a
fraqueza logo passa. No seu lugar, fica o prazer de lhe mostrar o quanto ela
será minha.

— Foi feita uma proposta para o seu pai e, apesar de ter relutado
no início, ele acabou aceitando e assinou esse documento aqui. — Estendo o
envelope pardo na sua direção e ela rapidamente o pega. — A dívida do seu
pai foi paga, meu bem, mas não a sua. A sua dívida comigo está apenas
começando — afirmo e, nos seus olhos, vejo o conflito entre pensar no que

estou falando e abrir o envelope para entender a que me refiro.

Prática, Luana Aguiar abre o envelope e, no processo, percebo


que suas mãos estão levemente trêmulas. Com o documento em mãos, ela
passa rapidamente os olhos pela folha única e quando seu olhar congela em
um determinado ponto, suponho que esteja vendo a assinatura do seu querido
pai estampada no fim do documento.
— Isso só pode ser algum tipo de brincadeira — fala, negando-
se a acreditar no que seus olhos acabaram de ler. — O meu pai não teria

coragem de fazer uma coisa dessas comigo. Não teria — reafirma,


entregando-me novamente a folha de papel que contém um acordo que
mudará nossas vidas, principalmente a dela.

— Não sou um homem de brincadeira, meu bem.

— Não me chame de meu bem, porra! — esbraveja, furiosa e


finalmente fora de controle.

— Como eu ia dizendo, não sou de brincadeiras. As coisas


aconteceram exatamente da forma como vou falar e você vai ouvir sem
interrupções — falo, sem paciência e sério o suficiente para que ela se
mantenha em silêncio. — Seu pai está há meses frequentando a minha casa
de shows...

— Cassino. — Ela me interrompe.

— Cale a boca, mulher, já disse para não me interromper! Não


tenho o dia todo para ficar aqui dentro com você. A não ser, é claro, que
estivéssemos fazendo atividades mais prazerosas do que esse tipo
desnecessário de conversa.

— Prefiro perder um braço a deixar que me toque com essas


mãos imundas.
— Por enquanto, prefiro não discutir esta parte do nosso acordo.
No momento certo, entenderá que tenho tudo o que desejo e que não preciso

de permissão para que isso aconteça.

— Você é...

— Seu pai vem aqui todas as noites, joga pôquer e faz apostas
perigosas. Também compra bebidas caras sem nunca pagar por elas —

explico, tendo a sua total atenção. — Para mim e para o meu sócio, é
importante que os frequentadores extravasem e deixem à mostra todas as
fraquezas ao se entregarem aos vícios. Com o seu pai não foi diferente,
deixamos ele livre para desfrutar de tudo que o estabelecimento oferecia. Foi
assim até dois dias atrás, quando eu e Lucas percebemos que enfim havia
chegado o momento de cobrar a dívida.

— Você é um monstro! — Agora, ela parece uma gatinha


assustada e isso me causa um prazer quase doentio. — Usa as pessoas como

se elas fossem animais.

— Não, Luana, eu não uso as pessoas. Elas é que têm


personalidade e caráter fracos e se deixam manipular. Não se sinta ofendida,
seu pai é apenas mais um nome nesse livro. — Aponto para o objeto que está
sobre a mesa de tampo de vidro escuro. — Um número, para ser mais exato.

— Está querendo dizer que meu pai me vendeu para você? —


indaga, incrédula.

Não posso julgá-la por isso, afinal eu mesmo quase não acreditei

quando o homem citou que a filha daria um jeito de ajudá-lo. Quando o fato
chamou a minha atenção e ele revelou a idade dela e que não era casada, uma
ideia que parecia loucura me veio à mente. No fim, ele pouco relutou antes de
assinar o acordo, quitando a dívida em troca da garantia de que sua filha se

casaria comigo.

Quando propus, confesso que o fiz no calor do momento e sem


nem mesmo pensar na aparência dela. Só queria agarrar a oportunidade que
se apresentava e fazer o que era preciso sem empregar grandes esforços.
Investigar e descobrir que Luana era uma puta gostosa foi somente a cereja
do bolo, a garantia de que o negócio seria mais prazeroso do que imaginei.

— Foi mais como uma troca — revelo. — Entenda uma coisa,


meu bem, de uma forma ou de outra, essa dívida seria paga. Se o seu pai não

tem meios financeiros, ele tomou a decisão mais sábia e menos dolorosa
possível. Pelo menos para ele — emendo.

— Eu não aceito isso. — Ela chega muito perto e agora estamos


com os corpos e rostos a centímetros de distância um do outro. — Não vou
me casar com você. Esse pedaço de papel não tem o menor valor.

— Você é esperta, amor. — Estou irritado, mas na verdade meus


olhos não conseguem desviar da sua boca cheia e convidativa. — Sabe muito
bem o valor que ele tem. Não pense que pode fugir do seu destino. Tente e

seu pai se arrependerá do dia que pisou os pés no meu cassino — ameaço
para fazê-la entender que já é minha, mesmo que não queira ou lute contra
esse fato.

— Um ano — diz, dando-se por vencida. — Doze meses,

trezentos e sessenta e cinco dias e você lamentará ter me obrigado a isso. Sua
vida será um inferno — ela diz, firmemente, olhando dentro dos meus olhos,
e minha reação não pode ser outra a não ser ficar excitado pelo jogo de
vontades que ela me propõe sem perceber.

— A sua também será, Luana. — Involuntariamente, meu braço


envolve sua cintura marcada. Quando a puxo contra o meu corpo, seus olhos
se arregalam com o susto causado pelo movimento inesperado. — Te garanto
que será.

A minha boca toma a dela sem aviso. Não é um beijo casto e


muito menos carinhoso, apenas exijo resposta ao tentar colocar a língua
dentro de sua boca, que está firme no propósito de se manter fechada.

Nós dois estamos com os olhos abertos, em uma clara guerra de


vontades. Percebo que não conseguirei nada com o ataque direto, então mudo
a tática, lambendo vagarosamente os seus lábios com a ponta da língua. Sinto
seu corpo amolecer minimamente e ouço um leve ofegar. Quando tento tomar

a sua boca apetitosa novamente, a desgraçada morde meu lábio inferior com

o que imagino ser toda a força dos seus dentes. Além disso, ela aproveita a
minha surpresa para se soltar do meu abraço e desferir um tapa no lado
direito do meu rosto.

— Não toque em mim, filho da puta!

A mulher está tremendo de raiva, mas duvido que esteja mais


furiosa do que eu.

— Quem você pensa que é para me agredir dessa forma, garota?


Está louca ou perdeu a noção do perigo?

Volto a agarrá-la pelo braço, aproximando nossos rostos


novamente, e agora nos fitamos cheios de fúria.

— Você está me machucando — reclama e os olhos estão


brilhantes pelas lágrimas não derramadas.

Ouço seu pedido e afrouxo o meu aperto. Posso ser o pior dos
homens, mas bater em mulheres não entra na lista dos meus defeitos e não
será agora que isso irá mudar. Mesmo que ela me faça perder o controle
como nem uma outra conseguiu.

— Veja só o que você fez, porra! — Levo a mão livre ao lábio


ferido e, nos dedos, vejo o sangue que a louca conseguiu tirar com a sua
mordida. — Vou te beijar e você não me morderá novamente, Luana —
aviso, ameaçador. Ela precisa aprender que não terá a menor chance contra

Gabriel Souto. — Você precisa aprender as consequências dos seus atos.

Beijo-a mais uma vez e, com o gosto de sangue que torna tudo
ainda mais perigoso, ela permite ser tocada, embora o corpo permaneça
rígido. Minha língua varre sua boca por completo e quando ela começa a

amolecer nos meus braços e a gostar do nosso momento íntimo, interrompo


com brutalidade o beijo e me afasto para o mais longe que consigo dela.

Beijei-a com o propósito de puni-la e mostrar para ela quem


estava no comando, mas interrompi o beijo para me manter o mais longe
possível do seu corpo tentador. Luana, com a sua personalidade, me causa
efeitos desconhecidos e intensos demais, então a melhor coisa a fazer é tomar
o máximo de cuidado com ela. Relacionamentos amorosos não fazem parte
dos meus desejos imediatos e acredito que nem dos planos futuros. Vivo

muito bem com o que tenho, com o sexo descomplicado com a Sabrina, longe
de quaisquer dramas desnecessários.

O iminente casamento com essa garota não passará de um


acordo com prazo de validade, uma encenação para que as pessoas vejam que
Gabriel Souto é capaz de ter mais do que apenas relacionamentos sexuais. É
capaz de construir uma família nos moldes do que é socialmente aceitável.
Quando acabar, depois de um ano, todos terão a certeza de que simplesmente
não houve compatibilidade suficiente para seguirmos juntos.

Com uma única jogada, acabarei de vez com a irritante

curiosidade que as pessoas cultivam a respeito da minha vida amorosa — ou


a falta dela. As mulheres deixarão de nutrir a esperança de serem as felizardas
que fisgarão o misterioso e perigoso dono do cassino mais famoso da cidade.
Mais famoso, pois apesar da clandestinidade, ninguém é tolo de pensar que o

Sensations é o único cassino de Belo Horizonte.

— Você tem duas semanas e nada mais que isso para levar suas
coisas para a minha casa — aviso.

Deixo de fazer qualquer comentário a respeito do beijo e ajo


como se ele em nada tivesse me afetado, quando na verdade estou cheio de
tesão e fazendo um enorme esforço para não ir até ela. Quero levantar a porra
do vestido justo e socar até o fundo da sua boceta apertada, enquanto beijo-
lhe a boca e brinco com os seios grandes e tentadores. Seios que rapidamente

parecem ter se tornado a minha obsessão, evocando imagens de todo tipo de


sacanagem envolvendo as duas belezuras.

— Acho bom você esperar deitado para não cansar. — Enquanto


fala, Luana passa rudemente o dorso da mão sobre os lábios, como se com
isso fosse capaz de apagar todos os resquícios do beijo que terminamos de
trocar. A idiota pensa que engana quem, além de si mesma? Será que não se
deu conta de que esteve nos meus braços, que eu senti seu corpo amolecer e

percebi o momento em que começou a corresponder ao beijo?

— Acho bom você — coloco ênfase na última palavra — não me


desafiar, coração. Não perca energias tentando sair dessa situação, pois só
conseguirá isso: gastar energia à toa. Daqui a, no máximo, um mês estaremos
casados e não existe nada que você possa fazer quanto a isso.

— Eu tenho um namorado — revela, o que é uma surpresa para


mim, mas não é nada com que deva me preocupar.

— Termine com ele — exijo.

— Eu o amo — declara.

— Foda-se. Será a minha esposa e não preciso de mais esse


inconveniente.

— Eu jamais te perdoarei por isso, seu canalha — assevera,

agora com os olhos cheios de lágrimas que mal pode conter e o corpo tenso.
— Te odeio e juro por Deus que jamais permitirei que toque no meu corpo.
Pode dominar as minhas vontades, mas não o meu corpo e os meus
sentimentos.

— Por favor, mulher! Pare com este sentimentalismo barato.


Posso conviver com o seu ódio, desde que esteja usando o meu sobrenome e
deixe que todos saibam que é a senhora Luana Souto. — Novamente,
aproximo-me dela, que se arma toda e logo se coloca na defensiva. — E
quanto ao sexo entre nós dois, não vou negar que apreciaria se acontecesse

vez ou outra, mas se não acontecer, também conseguirei conviver com essa
escolha. — Minha fala, por algum motivo, a surpreende, mesmo que não seja
verdade. — Você não faz o meu tipo, garota. Para ser sincero com você,
garanto que não chega nem perto disso. Não precisa trancar a porta do seu

quarto, certamente não baterei na sua porta em busca de sexo, não quando
posso conseguir em qualquer lugar e como mulheres muito mais agradáveis
que você — digo, o que para mim é a maior mentira já saída da minha boca.
Uma inverdade que passa longe do que esse encontro se transformou.

Como não sei agir de modo diferente, falei para machucá-la e,


levando-se em conta as emoções que passam pelos seus olhos, creio que
consegui o que queria.

— É claro que não sou o seu tipo — diz, com a voz embargada,

ajeita a bolsa sobre o ombro e, sem dizer mais nada, ruma para a porta.

A Luana que aparentou ser uma mulher forte, que me enfrentou


— ou tentou — de igual para igual, tem os passos incertos, a cabeça baixa e
os ombros levemente caídos. A mulher parece derrotada e não imagino a
causa disso. Certamente não deve ser pela afirmação mentirosa de que não
vou procurá-la para o sexo depois de nos casarmos. Muito pelo contrário, era
para estar comemorando, já que abomina tanto o meu toque.
— Não esqueça, meu bem, você tem apenas duas semanas para
resolver a sua vida. Ao final desse prazo, quero você na minha casa.

Mal tenho tempo de concluir o aviso e o som alto da porta sendo


batida se espalha pelo ambiente.

— Caralho! O que foi que aconteceu aqui? — pergunto-me e


acredito que esteja com a boca seca e com a respiração levemente alterada.
— Preste atenção por onde anda — uma voz feminina, muito
irritada, esbraveja quando, desnorteada, caminho pelo recinto cheio e muito
barulhento em plena segunda-feira à noite, horário em que pessoas decentes
deveriam estar descansando para um novo dia de trabalho.

— Desculpe.

Ao levantar o rosto, deparo-me com uma negra linda, alta o


suficiente para que eu tenha que levantar a cabeça se quiser vê-la melhor.

Apenas pela postura e forma como olha para mim, percebo que
não é uma mulher para brincadeiras e que provavelmente é mais que uma
convidada nesse lugar pavoroso.
— Está vindo da sala do Gabriel? — indaga, fitando-me com
desconfiança e certa agressividade no olhar. — Fale, garota. Estava vindo da

sala do Gabriel? — Está muito perturbada e a desconfiança começa a rondar


a minha mente.

— Não que isso seja da sua conta, mas, sim, eu estava na sala de
Gabriel Souto, o dono de tudo isso aqui.

Meu dedo gira pelo ambiente e, apesar da forma como estou


falando com a mulher, não penso que exista orgulho em ser dono de um lugar
onde se explora a fraqueza de pessoas, que talvez não saibam ou não tenham
noção das implicações de se sentar em uma mesa de apostas.

Falar como falei agora é apenas uma nuance da minha


personalidade dando as caras. Não gosto que me olhem com superioridade e
muito menos usem o tom que ela e o louco da caverna usaram comigo.

— O que fazia dentro da sala dele? — Sim, ela chama o lugar

que mais parece uma caverna de sala. — Gabriel não gosta que ninguém,
além dele e os amigos, se aproxime de lá — diz, intrigada, olhando-me da
cabeça aos pés.

Percebo que a bonita está se corroendo de ciúme do loiro e com


isso não resta dúvidas de que é a amante dele. Não poderia ser de outra
forma, considerando o belo casal que fazem. Por belo casal, não estou
fazendo um elogio aos seus atributos físicos, está mais para uma crítica ao
caráter duvidoso de ambos. O dele eu já tenho certeza do quão péssimo é —

acabei de ter a prova — e o dela não vejo problema em julgar da mesma


forma, pois, para estar aqui, boa gente não deve ser.

— Eu estava lá porque ele assim o quis e se tem algum problema


com isso, vá falar com o seu namorado — provoco e o seu rosto reflete uma

fúria ainda maior.

Talvez eu esteja brincando com fogo ao tratar dessa maneira


uma mulher que não faço ideia do quão perigosa pode ser. Muito menos sei o
nível de convivência que serei obrigada a ter com ela, agora que há uma
corda em volta do meu pescoço.

— Vou mesmo. — Ela me dá as costas, mas não sai sem antes


avisar: — Não se atreva a atravessar o meu caminho, querida. Te garanto que
não será uma boa ideia.

— Adeus — falo para o nada, pois ela já está andando apressada


pelo mesmo caminho que acabei de percorrer. Também não me dei ao
trabalho de responder à sua ameaça. Isso eu deixarei para quando ela
perceber quem está atravessando o caminho de quem.

A verdade é que tudo sobre o dia de hoje parece um pesadelo,


uma realidade paralela em que, a qualquer minuto, acordarei e descobrirei
que tudo não passou de uma ilusão.

— Uma bebida, por favor? — peço, assim que alcanço o bar

luxuoso e bem servido, que atravessa o cassino de um canto a outro. — Não


pergunte qual, só preciso de algo que contenha álcool.

Tudo bem! Essa pessoa não sou eu. Estou sob pressão e, ao invés
de ir para casa, chorar na cama que é um lugar quente, estou pedindo uma

bebida no local que foi o responsável pela minha ruína e que abomino com
todas as minhas forças. Mas, com diz o ditado: se está no inferno, abrace o
capeta.

— Para os não sócios, o pagamento é antecipado, senhorita — o


moço das bebidas faz questão de avisar.

— E como você sabe que não sou uma sócia? Tenho cara ou
cheiro de pobre? — indago e ele me olha surpreso, abrindo algumas vezes a
boca, sem ter certeza do que deve responder para não ferir o meu orgulho.

Para mim, a resposta é bem simples. Não sei se pobre tem


cheiro, mas com certeza a cara denuncia. Desde a hora em que cheguei aqui,
tive a oportunidade de esbarrar com um bom número de clientes e eles com
certeza não se vestem ou se portam como eu e as pessoas que convivem
comigo. Sei que estou em um lugar em que jamais pisaria os pés, na presença
de pessoas que jamais teria a oportunidade de esbarrar se não fosse pelo meu
pai.

— Não tem a pulseira. — Aponta para o meu pulso. — Conheço

todos os sócios aqui do Sensations e os convidados usam uma pulseira no


pulso. Você, moça, não é nenhum dos dois.

E agora? Que desculpa vou usar para ficar mais um pouco e ver
se descubro algo que me ajude a não ser vendida para o demônio com cara de

modelo de cuecas?

— Sou a noiva do Gabriel. — É a única coisa que vem à minha


mente, uma decisão idiota, diga-se de passagem.

O garoto das bebidas obviamente não está acreditando, não


quando tenta inutilmente esconder o sorriso de incredulidade.

— Gabriel Souto? — pergunta. — Desculpe, moça, creio que


não estamos falando do mesmo homem. Você se refere a algum dos
convidados?

No seu rosto, vejo o sentimento de compaixão por uma pessoa


que, segundo o seu julgamento, mente descaradamente. Para mim, a
mentirosa, tornou-se uma questão de honra mudar a sua opinião ao meu
respeito.

— Não, falo do seu patrão — insisto.

— Perdão pela sinceridade, mas você não parece o tipo de


mulher que atrairia a atenção dele. — Suas palavras poderiam me machucar
se eu já não estivesse vacinada contra elas.

— Só porque sou gorda?

— Não foi isso que eu quis dizer, moça — justifica-se


tardiamente.

Não dá para entender de outra forma. Não quando tenho espelho


em casa, não quando vejo que estou 10kg acima do peso ideal para uma
pessoa da minha estatura.

Passou o tempo em que ouvir sobre o meu peso era algo que me
atingia. Hoje, eu entendo e me aceito como sou. Sinto-me linda com todas as
minhas curvas, que são naturalmente rechaçadas em uma cultura que prega a
magreza a todo custo, em que vestir manequim 40 é sinal de beleza — um
padrão imposto e em que certamente não me encaixo.

Já estive muito mais gorda do que apenas 10kg acima do peso

ideal. Sofri para perdê-los durante muitos anos e, somente quando entendi
que jamais alcançaria o padrão que a sociedade impõe, comecei a ser feliz
com o meu corpo. Por saúde, mantenho sempre o olho na balança, mas fora
isso sou feliz e me aceito como sou. Feliz por saber que tenho pessoas que
me amam com 10 ou 20kg a mais.

— Então, o que você quis dizer? Me explique. Acho que tenho


tempo — digo, olhando para o relógio redondo e prateado pregado na parede
atrás dele, perto das prateleiras recheadas de bebidas, e me assusto ao

perceber que está tão tarde.

Difícil mesmo vai ser descobrir uma forma de ir para casa, sem
correr o risco de ter a minha bolsa roubada no meio do caminho.

— Gabriel Souto tem um tipo, vamos assim dizer — revela,

debruçando-se sobre o balcão estilizado, falando baixinho, como quem teme


ser ouvido pelas paredes e garrafas de bebida. — Ele costuma ser visto por aí
com mulheres ricas e até mesmo casadas.

— Casadas? — Não sei o motivo da minha surpresa quando faço


a pergunta. O homem aparentemente não é nada diferente do que
precocemente julguei. Ser um destruidor de casamentos é apenas mais uma
canalhice na longa lista de defeitos que criei, baseando-me apenas no que a
mídia divulgava sobre ele.

Gabriel Souto é um nome recorrente na mídia local, tanto que


não é muito difícil ver a sua cara bonita estampada na capa dos jornais e
revistas de Belo Horizonte. Nunca tecem elogios sobre ele e seu nome é
frequentemente ligado a escândalos. Eu, como tenho mais o que fazer do que
ficar a par da vida dos ricos, não tenho ideia de quais os tipos de escândalos
em que ele se envolve. É do meu conhecimento somente o que todos sabem.
Gabriel não é um bom homem e sim um bad boy. Eu seria feliz se passasse a

vida sem conhecê-lo, pena que não tenho opção.

— Para ele, deve ser mais prático na hora de se livrar das


comprometidas. — Ele tem um bom ponto, não que isso seja menos errado,
mas é um excelente argumento para quem precisa dele.

— Ele vai ter que parar com isso, não é mesmo? Ainda mais

agora que é um homem comprometido — digo, adorando ver as reações do


barman.

Eu deveria estar apavorada com a situação e não fazendo


brincadeiras. Talvez eu esteja aterrorizada e brincar sobre algo tão sério seja
apenas uma forma de mascarar o medo do que está prestes a acontecer na
minha vida. Essa situação parece tão surreal que tenho a sensação de que
estamos falando de duas pessoas desconhecidas e distantes e não de mim e do
cara que me aceitou como pagamento de uma dívida.

— Eu não consigo acreditar em você.

— Vai arriscar? A escolha é sua — provoco. — Agora estou


aqui pedindo uma bebida e você tem apenas a minha palavra. Você pode
acreditar nela ou não. Depois, posso aparecer nesse mesmo lugar de braços
dados com o seu patrão, o que acha? Você pode ser, ou não, a pessoa que tem
a simpatia da esposa de Gabriel Souto.
Os olhos do garoto, que deve ser um pouco mais jovem do que
eu, aumentam de tamanho, o que me faz perceber que estou indo longe

demais. Aliás, não só agora, estou passando dos limites desde o momento em
que enfrentei o demônio sem pensar que bater de frente com ele só pioraria o
que já estava ruim.

— Aqui está sua bebida, moça.

Meus pensamentos me levaram para longe e quando o copo é


colocado na minha frente, viro-o de uma vez. A bebida desce queimando pela
minha garganta — uma sensação de quase morte para alguém que não tem
costume de beber.

— Se ele é mesmo o seu noivo, sugiro que fique de olho na


Sabrina — ele completa.

— Sabrina? — indago, curiosa.

— A mulher que acabou de esbarrar em você — revela e me

surpreendo ao saber que ele viu a tal cena. Ele deve ser o tipo de pessoa a
quem os frequentadores desse antro devem pedir informações. — Eu achava
que era a namorada do chefe. Ou algo perto disso.

Como imaginei, a antipática é amante dele. Não poderia ser


outra coisa, agindo da forma como agiu comigo. Estava armada como um
animal selvagem e pronta para defender sua presa.
Se ela soubesse...

— Não é mais — afirmo. — Pode ter certeza de que neste

momento ele está terminando tudo com ela. Gabriel sabe que eu não gosto de
dividir.

— Está certo!

— Mais uma, por favor?

Quando o segundo copo da noite é rapidamente esvaziado,


despeço-me do carinha e saio para dar uma circulada pelo antro de perdição,
como diria a minha avó. Um nome ideal para um cassino disfarçado de casa
de shows.

Após algumas voltas e paradas no bar para tomar mais algumas


taças de vinho servidas pelo meu mais novo amigo, estou decidindo se acho o
lugar tenebroso ou fascinante. É tenebroso por motivos óbvios, já que os
frequentadores são seduzidos por prazeres que os fazem perder a noção da

decência. E fascinante porque faz com que me sinta outra pessoa. Mesmo
sem querer, não posso negar que é um ambiente criado para seduzir. É
fascinante ver as mesas de jogo lotadas, o andar de cima cheio de casais aos
amassos, a música ambiente que faz os corpos se mexerem...

Só espero que amanhã — quando a minha mente não estiver


tomada pelo álcool — eu volte ao me juízo perfeito e veja esse cassino
exatamente como é: o responsável pelo futuro sombrio que me espera. Até lá,
acredito que não tenho nenhum problema em extravasar da forma como

nunca fiz. Beber como nunca bebi e esquecer que o amanhã existirá, que
daqui há duas semanas terei que me sacrificar em nome da única família que
me restou.

— Tem espaço para mais uma?

Com uma garrafa de vinho na mão esquerda e um pouco mais


alegre do que deveria, chego ao lado de uma mesa em que só tem mulheres.
Com idades entre 30 e 50 anos, elas parecem concentradas nas cartas que têm
nas mãos.

— Espere a próxima rodada, garota — a mais velha instrui, sem


tirar a atenção do seu jogo.

Noto que ao lado delas tem um sofá de couro e, para ficar de


olho no que elas fazem, sento-me com a minha companheira inseparável: a

garrafa de vinho.

Minha atenção não sai das mulheres e, como a filha de Júlio


Aguiar, o homem que já fez muita merda por causa de uma mesa de jogo,
percebo que não é nenhum bicho de sete cabeças entender a diversão das
mulheres. Desde pequena, eu e papai costumávamos jogar cartas, esse era o
nosso hobby até o dia em deixou de ser só uma diversão e tornou-se o
instrumento da fraqueza dele.

— Perdeu essa, Gertrudes. É a sua vez, querida — novamente, a

mais velha fala, dessa vez dirigindo-se a mim. Ela parece ser a líder do grupo,
que é íntimo demais para que eu acredite que não é comum encontrá-las onde
estão agora. — Preparada para perder?

— Vocês podem ser surpreendidas. — Fica na ponta da língua a

vontade de avisar que sou filha de um exímio jogador, tão bom que perdeu a
filha em uma mesa de apostas.

— Ela é ousada, meninas.

Todas riem e o espírito competitivo pica a minha bunda.

— Não é apostas em dinheiro, é? — pergunto com antecedência.


Não vi nada que denunciasse isso enquanto as observava, mas podia existir
um código que eu não consegui captar.

Tudo bem, você está ficando paranoica, Luana!

— Não, senhorita...?

— Luana Aguiar — apresento-me para a líder da matilha de


lobas.

O minuto seguinte usamos para fazer as devidas apresentações e


para que eu me sentasse onde estava Gertrudes, a perdedora.
— Como eu estava dizendo, não fazemos apostas, isso fica para
os nossos companheiros. O jogo aqui é só para nossa diversão. O que vale é o

prazer de pegar no pé da perdedora da noite.

— Gostei disso — digo, com o sorriso que não sai do meu rosto.
Não tenho motivos para estar sorrindo, mas não posso fazer nada se o vinho
caro faz parecer o contrário.

— Então, vamos começar — uma delas chama, cheia de


entusiasmo.

Antes de pegar minhas cartas, tomo mais um gole no gargalo da


garrafa, que está no canto da mesa, ao alcance do meu braço. Hoje decidi ser
imprudente como nunca fui antes. Imprudente ao permanecer ali após o
embate com o demônio gostoso, imprudente quando comecei a beber e me
sentei para jogar com desconhecidas e, principalmente, imprudente quando
desligo o celular após a terceira ligação que não quero atender do Gustavo,

meu namorado há mais de 3 anos, a pessoa que tem sido o meu apoio nos
momentos mais difíceis.

Não quero pensar no que aconteceu na sala do meu futuro dono,


no beijo perturbador e nem no que acontecerá daqui a duas semanas. Hoje só
quero esquecer, agir despreocupadamente e ser feliz com o que tenho no
momento.
E o que tenho no momento é uma perturbadora curiosidade sobre
o que a tal Sabrina está fazendo na sala do Gabriel, o meu dono. E mesmo

que eu o odeie por isso, também sou dona dele, já que de qualquer forma terei
de ficar presa a quem abomino com todas minhas forças. Também o acho
atraente de uma forma que não posso evitar, me deslumbro só de olhar para o
seu rosto e o seu corpo. É o homem mais lindo que existe na cidade e pelo

menos poderei me exibir...

Não, Luana! Não vá por esse caminho!

Não faça isso com você mesma.


Hoje definitivamente não está sendo um bom dia. Tudo parece
sair do controle e ter Sabrina fazendo cobranças só piora o que já não estava
bom.

— Estou trabalhando, Sabrina. Você pode, por favor, sair e bater

a porta? — Sou ríspido com a mulher que é minha amante há mais tempo do
que posso me lembrar. Tanto tempo que não sou mais capaz de enumerar um
único motivo para continuar com esse caso.

Sabrina é uma mulher linda e independente, eu a conheci aqui


mesmo no cassino, no dia em que ela veio com o ex-marido. Eles começaram
uma briga terrível e, para conter o escândalo iminente, acabei entrando no
meio e defendendo-a do esposo. Uma semana depois, ela voltou sozinha,
interpelou-me para agradecer por tê-la protegido e, depois disso e de uma boa

conversa em que percebemos alguns pontos em comum, acabamos na cama.


Uma transa com Sabrina foi o suficiente para fazer com que eu leve até hoje a
fama de sair com mulheres casadas, quando, na verdade, acho a ideia
abominável pelo simples fato de que já tenho problemas demais para ainda

ter que lidar com um corno inconformado.

Sabrina não ficou casada por muito tempo. Depois da primeira


vez e de nós dois termos decidido que foi um erro, considerando o seu status
de relacionamento, ela passou mais de um mês sem aparecer. Quando eu mal
lembrava a sua existência, a mulher voltou a me procurar e dessa vez estava
solteira. Desde então, depois de ela garantir que não fui a causa da sua
separação e de uma conversa na qual ficou claro todos os termos do nosso
caso, eu e ela nos tornamos amantes. Não exclusivos, pelo menos não da

minha parte. Sempre esteve evidente o caráter puramente sexual da nossa


relação, apesar de considerá-la quase uma amiga. Para um homem como eu,
que não tem muito tempo a perder com bobagens, Sabrina é um sexo fácil e
disponível. Quando a necessidade bate, ela me poupa de sair à caça.

Foi assim por muito tempo e sempre deu muito certo. Cada um
com sua vida, tendo o direito de sair com quem quisesse — coisa que faço
com certa frequência — e também terminar a qualquer momento a relação
utilitária.

Mas já tem um tempo que Sabrina vem agindo de maneira

estranha, de um jeito que não me agrada nem um pouco. Talvez seja o


momento de relembrá-la os termos do nosso caso ou, na pior das hipóteses,
terminá-lo. Continuar ou não fazendo sexo com Sabrina é um questionamento
que vem à minha mente com certa frequência nos últimos meses. Agora que

estou pensando em me casar, creio que ela tenha ilusões de desempenhar o


papel de minha esposa. Será uma pena acabar com suas expectativas, uma
vez que ela seria a última pessoa que eu escolheria.

Parece uma coisa muito cruel de se dizer de uma pessoa que tem
frequentado a minha cama há vários anos. No entanto, não tem como ser de
outra forma, pois se a minha intenção fosse desposá-la em algum momento,
eu teria me poupado do embate com a gostosa da Luana, a mulher que
provou, em poucos minutos, ser um verdadeiro pé no saco.

Por foto, cometi o engano de ligar a sua aparência a uma


personalidade doce e submissa, o oposto da predadora que Sabrina é. A
percepção errada tornou a ideia de quitar as dívidas de Júlio em troca da mão
da filha dele ainda mais tentadora. Mas não poderia estar mais errado no meu
julgamento que — mesmo por foto — jamais havia falhado. Luana Aguiar é
uma fera pronta para atacar quando se sente ameaçada e não teve pudor de
enfrentar o homem que pode acabar com a sua vidinha com um simples
estalar de dedos.

Se eu pensasse mais com o cérebro e menos com a cabeça do

pau, admitiria que Sabrina é a escolha perfeita para o cargo. A paixão já não
existe como antes, o sexo é apenas satisfatório e a conheço bem, sei que
saberia representar o papel e não passaria por cima da minha palavra. Mas o
controle não está com a cabeça de cima, essa parte da minha anatomia está

atraída demais por alguém que tem a palavra problema escrita bem no meio
da testa.

Eu sou Gabriel Souto, tenho tudo o que quero e, no momento,


quero Luana Aguiar. Não é só por causa de um casamento de fachada,
também tem a ver com os desejos carnais de submetê-la a mim, de domar a
fera que há dentro dela. Para o inferno com o que seria o caminho mais fácil!
Sempre segui o caminho mais fácil e talvez por isso a minha vida seja apenas
satisfatória. Não existe emoção além dos negócios.

Como um jogador nato, desta vez apostarei alto e para ganhar.


Luana é o caminho mais difícil para o fim almejado, mas também é o mais
instigante e o seguirei com a certeza da vitória. No meu vocabulário, não
existe outra palavra ou possibilidade.

— Então é isso, vai ficar me ignorando agora? — A voz gritante


interrompe meu raciocínio e percebo que estou com uma pilha de papéis na
mão esquerda e a mente em outro lugar, em assuntos mais urgentes do que

uma mulher precisando de atenção.

— Já falei que estou trabalhando. Será que você é capaz de


entender e respeitar isso, Sabrina?

— Acabei de esbarrar em uma abusada perto do bar, Gabriel.


Você precisa selecionar melhor quem frequenta esse lugar — sugere, com

sua irritante mania de se meter em coisas que não lhe dizem respeito.

Ela gosta de dar pitaco na administração do meu negócio. Esse é


— entre outros — um dos motivos que me fazem perguntar o porquê de
ainda não a ter chutado da minha vida.

Sei que não é pelo sexo, pois apesar de ser muito bonita e
bastante ativa na cama, não é de hoje que as nossas transas andam mornas,
quase mecânicas. Até tenho demonstrado a minha insatisfação, tudo na
esperança de ela cair em si e dar o ponto final. Mas como parece que o amor

próprio passou longe da bela mulher, acabarei tendo que fazer o papel do
vilão da história.

— Vai mesmo me ensinar como cuidar do meu cassino?

Sem paciência nem mesmo para ficar sentado, jogo os papéis


sobre a mesa, levanto-me da cadeira e vou para onde ela está com as duas
mãos na cintura e o nariz arrogante empinado.
— Me desculpe — pede, ao abraçar-me pelo pescoço. — A
sujeitinha vulgar me tirou do sério — justifica, irritando-me um pouco com

sua mania de competição feminina. Não importa se a mulher em questão não


fez nada, ou se ela a viu apenas uma única vez, como parece ter sido o caso.

Posso ser o pior filho da puta do mundo, mas essa mania


maldosa de competição e depreciação de outras mulheres me incomoda e faz

com que goste dela um pouquinho menos a cada dia.

— Por favor, Sabrina. — Tiro seus braços do meu pescoço e dou


um passo para trás, na intenção de me afastar do seu agarre.

— Desculpe — pede mais uma vez e até essa mania é chata.


Detesto pessoas que vivem pedindo desculpas, significa que vivem
cometendo erros. — Durma comigo hoje.

Por dormir, ela quer dizer fazer sexo. Os encontros geralmente


acontecem no seu apartamento ou em um quarto de hotel, já que a minha casa

é um lugar sagrado, onde poucas pessoas têm a chance de colocar os pés.


Sabrina, apesar de tudo, não chegou nem perto de receber o convite, algo de
que ela se ressente, mas é orgulhosa demais para insistir no assunto. Da
primeira vez, devo ter deixando claro o suficiente a minha falta de vontade de
vê-la bisbilhotando a minha intimidade, já basta ter que cortar as suas asas
aqui no Sensations.
— Desculpe, Sá, mas hoje não estou no clima — dou a melhor
desculpa que consigo, mas a verdade é que, nas últimas semanas, a

insatisfação tem batido à minha porta. E não tem a ver só com Sabrina e o seu
apetite sexual, que não tenho correspondido. Todas as áreas da minha vida
estão sendo afetadas por algo que não sei definir.

Sinto como se precisasse de mais. Já não basta ser o que sempre

fui, a pessoa toda errada de antes. Sinto falta de algo que não sei o que é, mas
que reconhecerei assim que o tiver.

— Você não tem estado no clima com bastante frequência nos


últimos meses, Gabriel — reclama, como não poderia deixar de fazer,
voltando a me abraçar pelo pescoço com o toque nada bem-vindo no
momento.

— Sabrina...

— Não queria interromper o casal do milênio, mas... — debocha

Lucas ao entrar sem avisar antes, um costume que antes era alvo das minhas
reclamações e agora é visto como uma benção.

Como administramos um cassino clandestino e lidamos com


todo tipo de gente, não dá para pensar em discrição e exigências bobas, como
o sócio ser anunciado antes de entrar. Lucas tem a sua própria sala, só vem
aqui quando algo sério está acontecendo e ele e Dom não podem solucionar
sozinhos.

— Não interrompeu, cara — digo, aproveitando-me para fugir

das garras afiadas da Sabrina.

— Tinha que ser você, não é mesmo? — A mulher joga a sua


fúria para cima dele, que não perde a oportunidade de provocá-la. Meu sócio
sabe que ela não é dada a brincadeiras, mas faz questão de mexer com fogo.

— Eu mesmo, Sasa.

Tento conter o sorriso quando ele a chama pelo apelido que


inventou e que ela detesta.

— Fale logo de uma vez, homem — peço, quando Sabrina está a


ponto de retribuir a alfinetada. — Tenho trabalho a fazer. — Aponto para a
mesa cheia de papéis.

Geralmente, fico no salão de jogos, acompanhando tudo o que

acontece até às 5h da manhã, horário em que a casa encerra suas atividades, e


a parte burocrática fica com o Lucas, mas às vezes revezamos as funções.
Logo hoje, quando não estou com saco para bêbados e apostadores
inconsequentes, ele aparece com algum problema que está acontecendo em
um dos salões de jogos. Disso eu sei, pois Lucas não estaria aqui por outra
razão.

— Tem uma moça podre de bêbada na mesa de carteado. Ela


bebeu uma garrafa inteira de vinho, entregue por um dos barmans.

— É sócia? — indago.

— Nunca a tinha visto por aqui. Acredite, se tivesse visto, com


certeza me lembraria da gostosa.

— Precisava vir até aqui para dizer isso? — questiono,

exasperado. — Você e o Dom não poderiam simplesmente colocar a mulher


para fora, como já fizeram tantas vezes?

O Sensations tem a política de tolerância zero com pessoas que


bebem além do limite ou apostam além do que podem pagar. Quer dizer, às
vezes é até bom que não tenham como honrar a aposta, pois é assim que
conseguimos bens que o dinheiro não pode comprar. Todavia, até para isso
existe um limite, como foi com o caso do Júlio Aguiar.

Ele estava extrapolando — e muito — o limite do tolerável e


quando fui conversar com ele, usando a persuasão que me deu uma reputação

mais suja que a do próprio diabo, descobri que além de não ter dinheiro, o
homem não tinha mais nem um bem que pudesse responder pela dívida.

Mas, mesmo sem ter nada a oferecer, ele não poderia sair livre
sem pagar ou pelo menos dar uma garantia de que a dívida seria quitada. Tive
que fazer algumas ameaças que só resultaram em pedidos de mais tempo para
levantar a grana e, no fim, na menção de uma filha que ele não queria
decepcionar.

Como sempre acontece, consegui o que queria. Não da forma

como imaginava, mas ainda assim consegui. Ele saiu com a dívida paga e ao
olhar em seus olhos e ver o seu temor, tive certeza de que a filha não
esperaria para me ver colocando em prática a influência que tenho na cidade,
apesar da má fama.

— Você tem que ir até lá. A moça está louca, gritando com o
garoto das bebidas, como ela o tem chamado.

— Quando falo que você tem que selecionar melhor os


frequentadores desse lugar...

— Cale a boca, porra, não se meta em assuntos que não te dizem


respeito!

— Essa doeu, Sasa — Lucas, que parece ter 18 e não 30 anos,


aproveita para irritar a Sabrina mais uma vez.

— Tem mais alguma coisa que preciso saber? — indago. —


Sim, imagino que deva ter mais alguma coisa que justifique você estar aqui e
não colocando a louca bêbada na rua.

— Enquanto pede mais uma garrafa de vinho para o garoto do


bar, a moça está gritando aos quatro ventos que é a sua futura esposa. Que é a
mulher de Gabriel Souto e não precisa implorar por uma garrafa de vinho.
Luana! Será possível que a morena está mesmo fazendo isso?

— Como é essa mulher, Lucas?

A minha pergunta o faz arquear uma sobrancelha. Sagaz, ele


certamente deduziu que existe alguém na minha vida, pois se não existisse,
eu estaria exigindo que a doida fosse colocada para fora e não pedindo as
características dela.

— Ela é morena e tem uma bunda muito boa. — Enquanto fala,


faz gestos com as mãos, como se moldasse o corpo da minha morena, se é
que realmente está falando dela. — A boca é carnuda e não posso esquecer os
peitos, são grandes assim...

— Cale a boca, caralho! — corto, inesperadamente furioso. —


Não fale assim dela.

— Você conhece a louca que está dando problema? — a outra se


mete, como sempre, onde não deve.

— Fale, Gabriel, você conhece a gostosa do bar? — Lucas talvez


imagine que este é um bom momento para fazer piada, mas ele não poderia
estar mais enganado.

Novamente, Luana está testando a minha paciência, só que agora


ela ultrapassou os limites aceitáveis. Com esse show, ela antecipou uma
situação que eu nem mesmo tinha planejado como trazer a público e isso me
enfurece. Luana está fazendo uma cena desnecessária e vai pagar muito caro
por isso. Logo ela entenderá que não pode brincar comigo dessa forma.

— Já que você perdeu a língua, posso resolver a situação do meu


jeito — sugere, o que causaria arrepios no próprio diabo, já que seus métodos
não são nada ortodoxos.

— Não, ela é problema meu. Deixe que eu sei lidar com a Luana

— aviso, convicto.

— Luana? Problema seu? — Sabrina puxa-me pelo braço


quando dou alguns passos na direção da porta. — O que está acontecendo
aqui?

Com sua carência fora de hora e as perguntas invasivas demais


para alguém que tem tão pouca importância na minha vida, explodo com ela
de um jeito incomum, pois o que norteia as minhas ações é a frieza e não a
cólera.

— Sim, Sabrina! Problema meu. Ela é a minha futura esposa —


digo, pouco me importando com os seus sentimentos. Ela pediu por isso
quando deixou de entender qual era o seu lugar na minha vida. — Não queria
uma resposta? Está aí a sua reposta!

— Está bem, pessoal. Vamos nos acalmar — Lucas intervém. —


Você precisa ir até o bar, Gabriel. Se a moça é a sua futura esposa, como
acabou de afirmar, tem que ir falar com ela antes que a situação saía
totalmente do controle.

— Ela é a minha namorada, Lucas — digo, com veemência,


apesar de não ser verdade.

Luana será a minha esposa, contra a sua vontade, mas será. Estar
embriagada e falando o que não devia para pessoas que por enquanto não

precisavam saber do nosso arranjo, talvez seja só uma maneira tola de lidar
com o futuro. A mulher decidiu agir da forma mais vexatória possível e agora
só me resta tentar conter os danos.

— Tudo bem. Se você diz, eu acredito.

— Você vem comigo? — dirijo-me ao meu sócio.

Quando abro a porta e avanço pelo corredor, sou seguido por


Lucas e por Sabrina que, mesmo baqueada, não consegue me deixar em paz.
Com o que acabou de acontecer, vejo que chegamos a um ponto sem volta.

Não dá para continuar com algo que não vai bem há muito tempo.

De longe, vejo uma aglomeração de pessoas perto do bar e, para


o meu desgosto, a maioria é composta por homens que aguardam a próxima
cena do show. A morena está em cima do balcão com uma garrafa de vinho
aparentemente vazia na mão, enquanto mexe o corpo vagarosamente, ao som
de uma música qualquer que não está alta o suficiente para que possa ser
ouvida com clareza.

Quando chego perto de onde Luana está, a doida abre um sorriso

bêbado e aponta para mim.

— Aí está, pessoas. — A fala é arrastada, porém audível. — Ele


é o demônio encarnado e eu tenho como provar — continua, apontando na
minha direção.

Olho para a multidão e percebo que enquanto uns tentam conter


o divertimento com o vexame, outros prestam atenção nas suas palavras mal
escolhidas, até mesmo para uma bêbada.

— Venha comigo, querida. Eu estava errado a respeito de tudo.


Por favor, vamos conversar — falo com carinho, mas minha vontade é
estrangular a idiota que, além de tudo, está usando um vestido que deixa à
mostra sua calcinha para qualquer um que queira ver. — Não faça isso com a
gente.

— Não acreditem nele, gente. Esse homem é mau, muito mau.


— Coloca uma ênfase exagerada na palavra muito, como só uma bêbada
faria. — Eu não o amo e mesmo assim terei que me casar com ele. Não tenho
escolha.

Agora ela está quase chorando e ninguém mais sorri. Pelo


contrário, olham para mim e para ela como se estivessem na dúvida entre
acreditar em algo que todos sabem que eu seria capaz de fazer ou descartar a
possibilidade apenas porque sai da boca de pessoa completamente

alcoolizada.

Para mim, o espetáculo já foi longe demais. Quando a chamo


mais uma vez e ela não desce do balcão de granito escuro, pego-a pelas
pernas e a jogo sobre meus ombros como um saco de batatas.

— Me solte, seu louco!

Luana bate nas minhas costas e, antes que vomite, coloco-a com
cuidado sobre os próprios pés.

— Você vai pagar muito caro por isso — ameaço para os olhos
amendoados que me fitam de perto.

— Não tenho medo de você!

— Deveria começar a ter — aviso.

— É surreal que isso esteja acontecendo — Lucas fala do nosso


lado, espantado por me ver tendo que lidar com essa situação.

— Tinha que ser essa idiota. — Do outro lado, Sabrina está


furiosa, vendo-me segurar a cintura da morena.

— Idiota é você que perdeu o homem para uma mulher como eu.

— Gorda?
— Também, mas eu ia dizer: para uma mulher que prefere
comer pimenta a casar com esse tipo.

— Já chega, pessoal, o espetáculo acabou. Voltem para suas


mesas, bebidas ou seja lá o que estavam fazendo. Eu e a minha namorada
estamos indo para casa.

— Não estamos, não!

— Estamos, morena — garanto. — Cuide de tudo por aqui,


Lucas. Tenho que resolver esse assunto.

Levo Luana praticamente arrastada pelo braço para o


estacionamento e ainda sou obrigado a enfrentar sua resistência e seus
xingamentos.

— Você vai me matar agora? — É a sua preocupação quando


abro a porta do carona e praticamente a jogo dentro do carro.

— Vou sim — confirmo ao entrar, ligar e rapidamente colocar o


conversível em movimento. — Quais serão as suas últimas palavras?

Ela não responde e, quando olho para o lado, percebo que a


morena dormiu tão rápido quanto só uma garrafa de vinho pode justificar.

No silêncio do meu carro, trafegando pela avenida tranquila,


noto o caminho que inconscientemente segui. Olho novamente para a mulher
perigosa que dorme como um anjo, questionando-me, não pela primeira vez,
se vale a pena trazê-la para a minha vida.
Sabe a sensação de estar perdida, sem fazer ideia de como voltar
para casa? De desconhecer até o próprio nome? Pois é assim que me sinto no
momento.

Meus olhos mal conseguem ficar abertos, minha boca tem um

gosto estranho e minha cabeça está prestes a explodir de tanta dor. Com um
esforço penoso, acabo de abrir os olhos e tenho certa dificuldade de me
adaptar à luz, o que faz minha cabeça doer ainda mais.

A claridade vem de uma janela muito diferente de todas que já


vi. E por uma janela diferente, sendo que até então eu achava que todas eram
parecidas, significa que estou em um lugar muito diferente do que costumo
frequentar. E por diferente, significa que estou em um quarto de hotel 5
estrelas, local que eu teria que poupar um ano inteiro do meu salário como

enfermeira para poder alugar.

Sem calcular a sensação de desmaio que isso causaria, levanto-


me da cama e tenho que me segurar na cabeceira por alguns segundos, até
que a tontura passe.

Meus olhos inspecionam o lugar por alguns instantes e meu


queixo cai por ver o quão luxuoso um simples quarto pode ser.

Sem aviso, ouço a minha própria voz dizer na noite anterior:

Você vai me matar agora?

A dor de cabeça não é suficiente para me fazer esquecer os


acontecimentos da noite passada. Quando as lembranças vêm como uma
enxurrada que arrasta tudo o que está pelo caminho, vou até a janela que
cobre a parede de uma ponta a outra, abro-a e só então percebo que não é

uma janela, mas sim uma porta que dá acesso à varanda.

Respire, Luana, você precisa respirar e pensar, coisa que não fez
ontem à noite.

Tudo bem, aqui não é um quarto de hotel, já que temos uma


varanda, uma bela piscina lá embaixo e um jardim bem cuidado e florido, que
deve ser muito difícil de manter. Estou em uma mansão e a pior parte é saber
exatamente a quem ela pertence, quem mora aqui.

Estou na toca do lobo e nem posso alegar que é contra a minha

vontade. Não quando eu mesma tornei tudo mais fácil para ele ao me entregar
de bandeja.

Tentando manter a calma — quando na verdade estou apavorada


—, começo a organizar minhas ideias para descobrir um jeito de sair desta

armadilha.

Armadilha? Será que não estou exagerando ou sendo paranoica


demais?

Após respirar um pouco de ar puro algumas vezes, volto para


dentro, puxo a coberta branca e, sobre a cama, vejo o vestido que usei ontem
à noite. Horrorizada, seguro-o entre meus dedos ao mesmo tempo em que
olho para o meu corpo.

Calcinha e sutiã. Estou vestindo somente calcinha e sutiã!

Para piorar, nem é o melhor conjunto que tenho na minha gaveta


de peças íntimas. Não é como se eu quisesse parecer sexy aos olhos do
demônio, mas também não preciso que me veja usando lingerie bege, cuja
calcinha lembra um coador de café.

Ainda bêbada, frustrada e louca para ir para minha casa, coloco


novamente o vestido, passo os dedos pelo cabelo castanho desalinhado e
estou prestes a sair do quarto quando meus olhos são atraídos para uma
mesinha redonda que fica em frente à cama. Ao me aproximar, vejo uma

bandeja com um copo de suco, dois comprimidos e um pedaço de papel.

Os comprimidos te ajudarão a curar a ressaca. Também


aliviará a dor de cabeça.

P.S: Você está muito fodida, garota!

Tremo com a ameaça escrita no bilhete. Não um tremor de


medo, mas sim de algo mais perigoso e que não faço ideia do que seja. Por
um momento, fico analisando o recado curto e direto, escrito de uma forma
que diz exatamente quem é Gabriel Souto. Um homem perigoso e que não
leva em consideração os sentimentos de ninguém, além dos dele. Isso, se ele
tiver algum.

Querendo confrontá-lo sem parecer patética, tomo o suco e os


comprimidos, depois vou até o banheiro, que é tão surpreendente quanto o

resto do quarto, e lá mexo em tudo até encontrar uma escova de dente


lacrada. Rapidamente, faço a minha higiene básica, olho-me de maneira
dramática no espelho e depois saio rumo à porta, pronta para enfrentar o
diabo loiro que deseja acabar com minha vida.

Mas, para minha surpresa, a porta está trancada.

— Filho da puta! Não acredito que fez isso! — Puxo a maçaneta


com mais força, mas a porta não abre.

Trancada! Gabriel me deixou presa como um bicho dentro da

sua gaiola de ouro. O homem não tem limites e cada vez mais tenho certeza
de que ele é apenas um rosto bonito. Tem uma bela casca, mas por dentro é
vazio, não tem nada de bom. O que leva um homem a agir dessa forma? Será
que existe alguma razão por trás das suas ações ou o caráter duvidoso veio de

berço?

Cansada de uma guerra que está apenas começando e frustrada


por estar trancada dentro de um quarto estranho, arrasto-me para a cama, tiro
as minhas sandálias e me aconchego entre os travesseiros brancos e macios.
Fico olhando para o teto e o lustre, que parece de cristal, enche meus olhos.
Enquanto o observo, minha cabeça — que deixou de doer depois do
analgésico — começa a trabalhar. Penso em tudo o que está para acontecer,
nas coisas de que terei que desistir e, principalmente, em como será a minha

vida daqui a duas semanas, o fim do prazo dado por ele.

Fantasio diversas formas de conseguir escapar do casamento,


viajo para o dia em que o homem que amo aparece montado em um cavalo
branco e me resgata no momento em que direi sim perante o padre e milhares
de convidados.

Sem saber quanto tempo passou, meus olhos começam a pesar,


meu corpo se ajeita melhor sobre o colchão convidativo e, sem que tenha

restado um único pensamento, volto a cair no sono. Um sono tranquilo, em

que a minha mente apagou os problemas e o fato de eu estar presa contra a


minha vontade nessa casa.

— Acorde, Luana. — Uma voz sussurrada ao meu ouvido teima


em me tirar do meu momento de paz. Só quero ficar para sempre sobre a
cama boa e os travesseiros de penas, longe de tudo e de todos os problemas.
— Acorde. — Agora o meu ombro está sendo balançado. — Vou contar até
três e se não abrir a porra dos olhos, te jogarei debaixo do chuveiro. A água

estará fria, se você quiser saber. — Essa voz irritada...

— Eu vou acabar com você!

Em um rompante, me sento de uma vez e, aproveitando que ele


está bem perto, tento agredi-lo com os punhos. Pena que o homem é rápido
como um tigre ao segurar meus braços no ar, antes que tenha a chance deixar
minha marca no seu belo rosto.
Que patética eu sou!

— Não, se eu acabar com você antes, sua idiota.

— Desgraçado! Que direito você tem de me trazer para sua casa


e me trancar dentro de um quarto como se eu fosse sua prisioneira?

Tento puxar os braços, mas é inútil. Gabriel os segura com

firmeza sobre as próprias pernas, sentado tão próximo ao meu corpo que sou
capaz de sentir o calor da sua respiração.

— Acho que não preciso te lembrar de quais são os meus


direitos sobre você, não é mesmo? — fala, com cinismo. — Mas já que você
insiste tanto, vou repetir.

— Não precisa! — digo, porém, ele não escuta. Talvez tenha


uma necessidade compulsória de ser cruel, como se isso lhe desse prazer.

— Você me pertence porque seu pai é um fracassado que não

soube superar a morte da sua mãe, coisa que aconteceu há mais de 10 anos.
Ele vive às custas do seu salário, que mal dá para sustentar o barraco em que
vocês dois vivem. Afundou-se no vício em jogo e bebidas alcoólicas. Seu pai
chegou ao fundo do poço quando aceitou trocar você pela dívida que eu não
deixaria passar, concordou em não fazer oposição ao nosso casamento e em
levar o meu recado a você.

— Você o ameaçou, seu miserável! — acuso.


— Ameacei e ele se entregou. Não haja como se não pudesse
enxergar, sua tola. Seu pai sabia que você não o deixaria na mão.

— O que está querendo dizer com isso?

— Você é facilmente manipulável, garota. Tem a pose de mulher


durona, mas não passa de uma tola.

— Se você acha que proteger quem amamos é tolice, então, sim,


sou uma tola. Saiba que prefiro ser tola a ser desprezível como você, que não
deve ter família ou alguém que te ama.

— Cale essa boca! — furioso, o homem grita, apertando os meus


braços com uma força capaz de me deixar marcada por dias. — Não fale do
que você não sabe — berra, a plenos pulmões.

— Solte o meu braço, Gabriel. Você está me machucando!

Com o rosto revestido de puro horror, ele olha para o local em

que as suas mãos me seguram e, tão rápido quanto consegue, afasta-se de


mim. A distância me traz alívio e de repente o cansaço cai sobre os meus
ombros, fazendo-me perguntar se sempre será assim, uma batalha a cada
encontro que tivermos.

Enfrentar Gabriel é um desgaste tanto físico quanto psicológico,


e já estou cansada antes mesmo do tal casamento acontecer. A minha vida
será um mar de tristeza e solidão. Por um ano, graças ao meu pai, terei que
suportar um homem que demostra não ter nem um sentimento bom e nem
empatia pelo seu semelhante.

A imprensa sempre pintou Gabriel Souto como o bad boy que,


dia sim e o outro também, está envolvido em polêmicas e a grande parte delas
envolve o nome do Sensations. Nada além de boatos sem fundamentos, é
assim que preferem classificar os rumores, já que não eles têm provas

concretas.

Eu, como uma pessoa que sempre criticou e olhou com


desconfiança para os disparates que a grande mídia lança, não acreditava em
tudo o que saía a respeito da vida de Gabriel. Pensava que um homem tão
bonito como ele não poderia ser tão mal quanto pintavam. Achava que
pegavam muito no pé dele apenas porque Gabriel era um empresário bem-
sucedido que não seguia todas as convenções sociais.

Obviamente, fiz um erro de julgamento. Gabriel Souto realmente

não é o que é mídia diz, ele é muito pior. Eles o veem de longe, encoberto
pelo fascínio e a curiosidade que seu cassino clandestino — disfarçado de
boate — desperta. O homem à minha frente parece não ter coração e, se tem,
foi endurecido a ponto de não restar nada de humano nele.

— Desculpe por ter falado da sua família — peço, olhando-o


com desconfiança.
— Você tem muito mais pelo que se desculpar, garota! Tem
noção da merda que fez ontem à noite?

— Bebi um pouquinho? — digo, fazendo-me de louca, pois


nesse caso ele tem motivos para se chatear.

Se já estava difícil enxergar uma saída quando só nós dois


sabíamos da futura união, piorou depois que tomei uma garrafa de vinho e

gritei em alto e bom tom que era a futura esposa de Gabriel. O vexame foi
gigantesco e talvez os danos tenham sido maiores do que imagino, uma vez
que estou presa nesse quarto desde ontem à noite e não faço ideia se houve
alguma repercussão do meu show e nem do tamanho do eventual estrago.

— Um pouquinho? Você acha que bebeu um pouquinho? — faz


a pergunta que não precisa de resposta. — Olhe só o que o você causou.

Gabriel tira o celular do bolso da calça, digita algo rapidamente,


vem para onde estou e joga o aparelho nas minhas mãos. Vejo que ele digitou

nossos nomes no campo de busca do Google e apareceram páginas e mais


páginas de links de reportagens noticiando o que aconteceu. Clico primeiro
no campo das imagens para sentir o quão ruim está a situação para o meu
lado e... merda! Está muito pior do que eu pensava.

Existem fotos de todos os tipos. Em algumas, estou sobre o


balcão com uma garrafa na mão, descabelada e visivelmente bêbada. Em
outras, sou carregada por Gabriel, que tem o rosto sério, como se estivesse
prestes a cometer um crime. Flagraram também o momento em que ele me

coloca dentro do seu carro e com isso o circo foi armado. Aparentemente,
virei uma espécie de Lindsay Lohan e certamente não foi pelos bons papéis
no cinema.

— Isso está muito ruim — digo para mim mesma, mas não baixo

o suficiente.

— Você não faz ideia do quanto. Abriu alguma das reportagens?

— Ainda não...

A forma como ele fala me deixa apreensiva com o que irei


encontrar, mas como sou a única culpada pelo escândalo, não há muito o que
possa fazer para fugir disso. Clico no primeiro link que, de cara, tem na sua
chamada todo o sensacionalismo do qual a imprensa vive.

“A surpreendente escolha do bad boy, Gabriel Souto.”

Por surpreendente, não preciso me dar ao trabalho de chegar ao


final da matéria para saber o que causa tanta surpresa na escolha da futura
esposa do belo e misterioso Gabriel. Belo e misterioso são palavras deles e
não minhas.

Das cinco reportagens que abri, todas tem o mesmo teor.


Nenhuma quis fugir do lugar-comum, foi mais cômodo levar para o lado da
maldade. Tratam a descoberta de uma noiva como algo grandioso, ainda que
mencionado brevemente, para em seguida focarem na escolhida. A minha

vida está exposta de uma forma que nunca imaginei ser possível e, em
nenhum dos casos, a menção é lisonjeira. Agora sou a enfermeira que vem de
uma família humilde e se formou em uma universidade pública. De alguma
forma, sabem que o meu pai frequenta o Sensations e, por ser um lugar de

acesso restrito a membros e convidados exclusivos, deduziram que foi lá que


nos conhecemos e nos apaixonamos.

Da minha história, passam para a minha aparência. Luana


Aguiar tornou-se a noiva fora dos padrões. É visto com bastante espanto o
fato de uma mulher acima do peso ter conquistado um homem como Gabriel
que, mesmo sendo mais discreto do que a maioria dos homens públicos, foi
algumas vezes flagrado com belíssimas mulheres, nenhuma que lembre sua
futura esposa. É a conclusão a que chega uma das matérias.

Uns mais discretos, outros menos, mas no fim todos os sites


decidiram que era mais importante analisar quão fora do padrão eu sou ao
invés de focar no iminente casamento de Gabriel — que nem ao menos tinha
uma namorada. Ver algo que já é um assunto superado para mim ser exibido
dessa maneira e por pessoas que não sabem o mal que a exposição e as
palavras podem causar, me faz duvidar do quão segura realmente sou a
respeito do meu corpo. E também me faz questionar o porquê do homem à
minha frente ter me escolhido.

Sei que meu pai tinha um débito e que Gabriel não parece um

homem capaz de perdoá-lo, mas também sei que ele poderia conseguir outra
forma de exigir a satisfação da dívida. Não precisa se casar comigo e mesmo
assim quer. Está claro para mim que não foi meu pai quem me ofereceu de
bandeja. Gabriel assim o quis e no momento percebo o quanto é importante

para mim entender o porquê de ele ter feito isso.

— Gabriel...

— Isso é culpa da sua burrice, Luana. As coisas fugiram


completamente do controle e isso nunca tinha acontecido até você aparecer
na minha vida — acusa, exasperado.

— Não apareci não sua vida, você me trouxe para ela — rebato,
no fundo torcendo para que ele caia na real e perceba que está cometendo um
erro com essa loucura em que pretende nos meter.

— Trouxe e vai continuar pelo prazo de um ano.

— Eu não gosto de você, Gabriel — afirmo, ao me levantar da


cama e me aproximar de onde ele está parado. — Eu não quero me casar com
você daqui a duas semanas e nem nunca. Se você quiser, nós pensamos em
um jeito de eu quitar a dívida do meu pai, só não faça isso comigo. — Numa
última tentativa, estou quase implorando por um momento de lucidez da sua
parte.

Com a sua impressionante beleza, até mesmo para uma pessoa

que o odeia — como é o meu caso —, ele chega bem perto de onde estou,
acaricia meu rosto, logo depois de colocar uma mecha de cabelo atrás da
minha orelha, e diz:

— Eu também não gosto de você, morena. Na verdade, seria a

última pessoa que eu escolheria como esposa, caso a situação fosse outra —
diz e a sua afirmação é recebida como um soco no meu estômago. Estar perto
dele traz à tona tudo de pior que há em mim, coisas que pareciam superadas.
— Não tenho tempo e nem paciência para ir em busca de outra pessoa, então
você servirá.

— Mas você não serve para mim — protesto, empurrando a mão


grande para longe do meu rosto.

— Sinto muito por você, Luana. Simplesmente não tem escolha,

vai ser minha, mesmo contra sua vontade.

— Tomara que você morra antes. — Arrependo-me assim que as


palavras saem da minha boca, pois mesmo odiando-o, jamais desejaria sua
morte. — Desculpe — emendo, antes que ele tenha chance de rebater.

— Torça para eu morrer, morena, porque só assim você


conseguirá se ver livre de mim.
— Gabriel...

— Você já testou demais a minha paciência por um único dia,

Luana. Vou voltar para o trabalho, pode ficar o quanto desejar e quando
quiser ir para casa, o motorista estará à disposição para te levar.

— Não preciso do seu motorista. — Meu lado orgulho fala.


Obviamente, preciso de uma carona, considerando que não sei exatamente

onde estou e que na minha bolsa tem dinheiro para, no máximo, uma
passagem de ônibus.

— Se quiser, pode ir a pé. Só não se mate no meio do caminho,


porque ainda preciso de você — diz, com crueldade, e me lança uma odiosa
piscadela. Começa a deixar o quarto; mas, antes de sair, fala: — Quanto ao
que você aprontou ontem à noite, não posso fazer nada para conter os danos e
talvez você tenha alguns problemas de privacidade. Boa sorte.

Quando ele sai, fico por alguns minutos parada, perguntando em

que momento fiz algo tão errado para merecer alguém como Gabriel Souto na
minha vida. Sim, tem que haver alguma explicação razoável para tudo isso.
Enquanto não descubro, resta esperar pelo inevitável, pelo dia em que estarei
aqui como a senhora dessa casa e não como uma visita. O dia em que me
tornarei a esposa do diabo loiro, Gabriel Souto.
Dias atuais

— Nem acredito que você está fazendo algo como isso, meu
amigo.

Lucas está do meu lado, em um palco improvisado no salão

principal do Sensations, lugar sugerido pela cerimonialista que cuidou de


cada detalhe dos preparativos para o casamento. Paguei muito caro pelos
serviços da mulher, já que a noiva não se sente particularmente entusiasmada
com o próprio casamento.

Na situação em que estamos, não posso cobrá-la pelo descaso,


que já virou motivo de fofocas. Mas também este não é o melhor momento da
minha vida e, mesmo assim, aqui estou, fazendo o que é necessário.
Infelizmente, para Luana, ela foi a escolhida para o papel, como uma atriz

que passou em um teste. Dessa forma, terá que usar seu talento de atuação

pelos próximos 12 meses.

Depois do que ela aprontou duas semanas atrás, não nos


encontramos uma única vez. Cada um ficou no seu canto, eu levando a minha

vida como sempre, acrescentando somente o drama de dar uma basta no meu
caso com a Sabrina; e ela, pelo que soube através dos meus homens, tentando
seguir com a rotina de antes e fugir do assédio da imprensa. Ter seu nome
associado ao meu dificultou a vida da morena e não fiz nem um esforço para
ajudá-la a lidar com os abutres. Poderia tê-la ajudado, mas não o fiz porque
ela provocou aquela situação com seu show desnecessário. Deixei que
aprendesse a lição para que entendesse que, ao meu lado, não poderia mais
cometer erros como aquele.

Dois dias atrás, pedi que o motorista fosse à sua casa e levasse o
vestido branco desenhado por uma estilista exclusiva. Ela o fez apenas com
as medidas que eu imaginei ao olhar para o corpo muito gostoso da minha
futura mulher. Não cheguei a ver o vestido e muito mesmo o resto dos
acessórios que o acompanhavam, apenas fui avisado de que Luana tinha
recebido a encomenda, mas não garantiu a presença no próprio casamento.

Se ela for mesmo tola como aparenta ser e me deixar plantado no


altar, pelo menos tenho o consolo de saber que o estrago será o menor

possível, considerando a quantidade ínfima de convidados. Não existe

amigos, parentes ou algo que chegue perto de um casamento comum, as


únicas pessoas mais próximas disso são Lucas e Dom, os caras que estão
comigo em tudo, até mesmo em um casamento que eles não compreendem a
razão de estar acontecendo.

Eu mesmo já não lembro porque estou me casando. Não é pela


bela noiva, que é insuportável demais para que sua beleza compense o
temperamento. Não é pela idade, já que ter 30 anos e ainda estar solteiro é
muito comum.

Sim, é pela opinião pública ao meu respeito. Esse foi o motivo


que me levou a pensar em algo tão extremo como um casamento forçado.
Uma fraqueza pautada pela necessidade de aceitação em pelo menos um
aspecto da minha vida. Sei que sou tudo o que dizem e até mesmo cultivo a

fama. Também sei que não seria diferente, mesmo se eu não fizesse nada de
errado. Do mundo onde vim, não é possível se esconder, o cheiro da sarjeta é
sentido de longe. Dei motivos para que eles falassem de mim antes que os
inventassem e agora quero cuspir em suas caras que nem tudo é como eles
pensam, que Gabriel Souto faz o que quer, até mesmo contrariar o que se
espera dele.

O momento é perfeito para me fazer recordar de todos os bons


motivos para essa loucura. Sim, há a fraqueza que não posso jamais admitir

em voz alta, mas existe também os negócios que pedem um homem casado e,

no momento, é tudo o que preciso ser. Homens se sentem compelidos a levar


esposas ao invés de amantes para o Sensations, esposas que se sentirão
seguras ao verem que o proprietário também tem uma mulher e por isso não
incentivaria seus maridos a praticarem outro tipo de entretenimento, além das

jogatinas.

Sim, o casamento é algo necessário e, passado o pânico de


segundos atrás, posso pensar em meia dúzia de motivos que o fazem
extremamente vantajoso para mim. Quanto a Luana, pouco me importa o que
pensa a respeito, desde que no fim esteja aqui. Seria até mesmo hipocrisia
pensar nos sentimentos dela, já que não teve escolha.

Dela, eu só preciso do sim para o juiz de paz e se não aparecer


por vontade própria, irei até a sua casa ou onde quer que esteja e a

convencerei — do meu jeito — a dizer a maldita palavra.

— Acredito que esteja nervoso, já que perdeu até mesmo a


capacidade de falar — Lucas caçoa.

— Ali vem o Dom — digo, sem saco para as brincadeiras do


meu amigo e, pelo corredor improvisado, vejo o gigante caminhar com
rapidez até onde estamos.
— A noiva chegou. Está dentro do carro com o pai e um outro
rapaz que não faço ideia de quem seja.

O namorado! Meu maxilar fica rígido e, na minha cabeça,


pairam ideias de como retaliar Luana pela ousadia de trazer o corno para o
próprio casamento. A cada ação, a minha querida quase esposa deixa claro o
quanto gosta de me desafiar. Só espero que ela e o namoradinho saibam arcar

com as consequências.

— Deve ser algum amigo — justifico.

Eles não sabem a natureza desse casamento e é melhor que


continue assim, para o bem deles e também para bem da minha reputação.
Antes pensarem que é um amigo a saberem que é um namorado e, se é
namorado dela, significa que sou corno.

— Boa pinta, ele — Dom comenta, querendo insinuar algo,


como imaginei que aconteceria. — Não deve jogar no mesmo time que a

gente. Se jogasse, seria no mínimo estranho outro homem que não fosse um
parente no carro da noiva, que por sinal...

— Veja bem o que você vai falar, Dom. Não esqueça que
estamos falando da minha garota — aviso, preferindo acreditar que estou
apenas interpretando o papel de homem apaixonado e não tendo arroubos de
possessividade por uma mulher de quem nem gosto. No máximo, acho muito
gostosa e me desperta desejos físicos que me fazem almejar o dia em que a
terei gemendo o meu nome, enquanto lhe mostro a única coisa boa no que

estamos fazendo.

Quanto à idiotice de trazer outro homem para esse circo de


casamento, Luana entenderá que, mais uma vez, cometeu um erro. O tipo de
erro que não pode ser perdoado.

— Desculpe!

— Estão prontos? — Vindo pelo corredor, a cerimonialista dá o


sinal e eu, os rapazes e também ao juiz de paz, que está há alguns minutos
esperando impacientemente o início da cerimônia, tomamos nossos lugares.
— A noiva já vai entrar.

Ela pressiona o dedo no ouvido, fala alguma coisa e um som


instrumental invade o ambiente, anunciando a entrada da noiva.

Eu estava preparado para tudo no dia de hoje. A longa espera, os

sorrisos falsos e até mesmo a encenação de um noivo apaixonado, só não


estava pronto para o impacto de vê-la desse jeito.

De braços dados com o pai, Luana está mais linda do que a


lembrança que eu tinha dela. Apesar da expressão mal disfarçada de
desgosto, ela é com certeza uma das mulheres mais lindas e desejáveis em
que já tive o prazer de colocar os olhos. Nela, não há nada que eu mudaria, o
corpo é perfeito em toda as proporções, é cheio nos lugares certos e minhas
mãos mal podem esperar o momento de tocá-la, de experimentar com a boca

cada parte dele. A estilista fez o vestido perfeito, um longo branco, justo e
que marca cada uma de suas curvas.

O rosto, esse deve ser o ponto fraco de muitos homens, é


perfeito. Meus olhos começam pelo cabelo longo e castanho, que está solto e

enfeitado por alguns grampos que lembram pequenas pérolas; passam pelos
olhos escuros e terminam na boca carnuda e macia. Uma boca que faz
promessas indecentes de noites e mais noites de prazer e que remete a
imagens nada puras para a ocasião.

Como não tivemos nenhum encontro que não fosse marcado por
discussões, Luana e eu não chegamos a falar verdadeiramente a respeito de
fazer sexo durante o período em que estaremos presos um ao outro. Para o
bem dela, espero que não esteja com a ilusão de que nada acontecerá, apenas

por não termos conversado sobre isso. Ela será a minha mulher e, como não
tenho mais Sabrina, cumprirá seu papel de esposa em todos os aspectos, o
que me poupará o trabalho de sair à procura de outra.

— Oi... — falo ao ouvido dela quando o pai a entrega para mim,


depois de dar um beijo na sua testa.

Júlio está com o rosto abatido, o que faz com que eu quase sinta
pena dele.

— Oi.

Ela mal olha no meu rosto e volta a atenção para o juiz de paz.

Da minha parte, fica apenas a expectativa de, em breve, domar a


tigresa de garras afiadas.

Nos próximos minutos, Luana e eu fazemos o que precisa ser


feito e nenhum dos dois demonstra o mínimo de entusiasmo com o desenrolar
da cerimônia. Não fazemos muita questão de olhar na direção do outro —
principalmente ela — e só nos encaramos quando somos declarados marido e
mulher.

O juiz sugere que eu beije a noiva e nós viramos um de frente


para o outro e olhamos de soslaio, vendo a expectativa no rosto dos poucos
convidados. Quando voltamos a nos fitar, entendemos que não há outra coisa
a fazer, além do que se espera do fim de uma cerimônia de casamento.

Puxo o seu corpo para perto do meu, circulo sua cintura com um
braço e, com o outro, seguro sua nuca. Trago o seu rosto para perto do meu,
toco seus lábios com calma até que, sentido seu corpo amolecer e vendo os
olhos confusos começarem a se fechar, beijo-a com o que deveria ser um
beijo casto. No entanto, o calor da sua respiração, seu cheiro e o fato do seu
corpo estar entregue nos meus braços, faz com que eu perca o controle e a
beije da forma como gosto de beijar. Como desejei fazer algumas vezes nas
últimas duas semanas quando, pela minha mente, passava a lembrança da

noite em que tentei tocá-la e fui recepcionado com uma mordida.

Saboreio seus lábios e chego à conclusão de que eles são mais


gostosos do que deveriam. Se fosse para experimentá-los outra vez,
suportaria quantas mordidas fossem necessárias. Com a ponta da língua, testo

sua disposição para me receber e, quando um gemido quase inaudível invade


os meus ouvidos, a abraço com mais força e a beijo de uma forma quase
indecente.

Luana recebe o meu beijo e o retribui em igual medida ao repetir


meus movimentos e explorar minha boca com a língua. Seu corpo está colado
ao meu, as mãos estão em volta do meu pescoço e tenho a sensação de que
não existe ninguém além de nós dois no salão. A mulher beija bem para
caralho e tudo o que penso no momento é em ter muito mais do que sua boca.

Preciso urgentemente aliviar o desejo que pouco a pouco começa a se tornar


uma necessidade.

Não sei se é pela tensão que paira entre nós ou pelo fato de não
gostarmos um do outro, mas a verdade é que, pela primeira vez em muitos
anos, sinto um desejo verdadeiro, uma atração física quase palpável e meu
membro endurece com um simples beijo. A última mulher que eu imaginaria
ser capaz de tal façanha está despertando tudo isso e eu não me chamo
Gabriel Souto se não a submeter a mim. Vou fazê-la sentir a mesma fome, a

necessidade de me pertencer sem que haja nada no mundo capaz de nos frear.

Não é amor, pois não acredito nesse sentimento. Também não


estou apaixonado, já que ela só me irrita quando abre a boca para me ofender.
O que temos aqui é tesão, puro e simples. Química e atração física, a emoção
que eu estava sentindo falta.

Ela é o desafio de que estava precisando. Luana Souto será


minha prioridade pelas próximas semanas e, de um jeito ou de outro,
entenderá que não pode se negar a ser minha. Este é o meu direito e vou
reivindicá-lo.

— Hummm — geme baixinho, aos poucos, diminuindo a


intensidade do beijo, quando um pigarro chama nossa atenção.

Quando nossas bocas se desgrudam, seu batom está borrado e


imagino que meus lábios agora estejam pintados de vermelho. Seus olhos

estão perdidos e a respiração rápida estufa a parte de cima do vestido sem


mangas, chamando minha atenção para o decote, que deixa uma pequena
porção de pele deliciosamente à mostra.

— Sei que é grande a emoção pelo casamento, mas acho que


vocês deveriam procurar um quarto se querem celebrar a união a sós.

Quando o juiz termina de dar a bronca, minha agora esposa


parece se dar conta do que estávamos fazendo e, como se eu tivesse uma
doença contagiosa, se afasta.

Luana está claramente constrangida, o que é perfeitamente


comum para quem não sabe em que circunstâncias nossa união aconteceu.
Mas, para mim, sua reação é uma afronta, pois sei que sua repentina timidez
tem a ver com ideias tolas de amor e com um namoro que já deveria ter

acabado.

— O que posso fazer, se não consigo manter as mãos longe


dessa mulher? — Com um sorriso falso estampado no rosto, puxo-a
novamente para meus braços, abraçando-a com firmeza pela cintura. —
Pessoal, muito obrigado pela presença. A partir deste momento, as portas da
nossa casa estão abertas para quem quiser brindar conosco — digo,
lembrando o quanto relutei para aceitar a ideia dada por Lucas e Dom.

Quando souberam do meu casamento tão repentino, eles ficaram

surpresos com a minha decisão e mais surpresos ainda quando descobriram,


na véspera, que eu não pretendia fazer nenhuma comemoração depois da
cerimônia. Os dois acharam estranho a noiva não ter exigido uma festa, mas
eu logo tirei as desconfianças dos seus rostos, afirmando que Luana era uma
pessoa muito discreta, que detestava grandes eventos como o que eles
estavam imaginando. Para assegurar que não restasse nenhuma dúvida dos
motivos para o meu casamento, convidei-os para uma reuniãozinha na minha
casa.

Uma decisão que não foi comunicada para a noiva, que no

momento me olha como se quisesse acabar com a minha vida.

— Nós não tínhamos falado sobre isso — reclama quando os


poucos presentes começam a se dispersar. — Uma recepção na sua casa, é
sério isso?

— Seríssimo. Se você não estivesse ignorando as minhas


ligações, com certeza saberia da mudança de planos. Entenda que agirei
assim toda vez que você se comportar como uma adolescente.

— Não queria falar com você. Isso é bem diferente de agir como
uma adolescente.

— Eu nem tinha certeza se você viria! — reclamo, vendo a


conversa ir para outro lado, como sempre acontece entre nós.

— Eu não tinha escolha, esqueceu? Se eu não te atendi nas


últimas semanas, é porque estava tentando arrumar um jeito de livrar o meu
pai das dívidas e, consequentemente, me livrar de você — revela.

— Deixe eu adivinhar: não conseguiu, certo?

— Se tivesse conseguido, eu não estaria aqui, tendo que olhar


para sua cara odiosa. — Tenta se soltar do meu agarre, o que faz com que eu
abrace sua cintura com mais firmeza.
— Uma pena que tenha sido obrigada a se casar comigo. Na
próxima vida, venha com um pai menos burro.

— Ora, seu...

Seguro mais uma vez o seu punho no ar e vendo que não tem
ninguém nos observando — além do namorado que sustenta um olhar
assassino —, levo seu braço para as costas e falo ao seu ouvido:

— Vamos para casa, minha esposa. Lá você pode demonstrar


toda a sua raiva por mim, assim como demostrou com o beijo que quase
arrancou minha língua.

— Eu não quis beijar você — nega, novamente com a respiração


ofegante, o que faz meus olhos voarem outra vez para os seios, que agora
querem pular do decote.

— E ainda assim beijou, gata — provoco, coisa que nunca fui de


fazer. Jogos desse tipo nunca fizeram parte de mim. Só agora, com a presença

dela na minha vida, comecei a agir como um moleque que não tem outra
preocupação a não ser entrar na calcinha da namorada.

Quero muito entrar na calcinha e em alguns orifícios dessa


mulher, só não sei se estou disposto a aturar o que vem junto: uma garota
chata, bocuda e que não tem ideia da posição em que se encontra. A minha
esposinha mostrou, já no primeiro encontro, que as aparências enganam e que
a mulher doce que eu tinha visto na foto não existia. Algo nela chamou minha
atenção logo de cara e hoje vejo que certamente não foi a sua personalidade

agradável.

— Espero que tenha aproveitado, pois não voltará a acontecer —


afirma.

— Se eu quiser, voltará a acontecer. Eu te garanto, amorzinho.

— Se você prefere pensar assim...

— Não estou a fim de discutir com você agora, então faça o


favor de me acompanhar até o carro, pois nós estamos indo para casa.

— O meu pai e o...

— Seu namorado? Achou mesmo que seria uma boa ideia trazer
outro homem para o seu casamento?

— Meu namorado.

— Você tem cinco minutos para conversar com o seu pai e, se


quiser convidá-lo para ir conosco, sinta-se à vontade. Só não se atreva a levar
o idiota que chama de namorado para dentro da minha casa, isso eu não vou
admitir — aviso. — Aliás, é melhor que aproveite esses poucos minutos para
dizer adeus a ele, pois essa será a última vez que o verá.

— Não vou fazer isso! — fala alto, solta-se do meu agarre e,


como das duas outras vezes, pensa que está em posição de me enfrentar. —
Você só pode ser louco se acha...

— Minha querida, não me obrigue a agir. Você vai se arrepender

de não pensar antes de fazer e falar tantas besteiras. Despeça-se dele e nunca
mais quero falar sobre isso. Enquanto estiver comigo, não terá espaço para
outro em sua vida.

— Eu odeio você!

Os bonitos olhos brilham quando ela fala e o rosto está vermelho


de raiva. Ver suas lágrimas faz com que me sinta incomodado e nem ao
menos sei a razão, já que é ela quem está errada. Ela trouxe o namorado para
dentro do meu cassino, um desconhecido que não deveria colocar os pés no
meu estabelecimento.

Diferente dela, eu não trouxe Sabrina, a minha declarada ex-


amante. Mantive-a longe para que não tivesse ideias erradas acerca de uma
possível reaproximação entre nós. Luana? Essa não teve a mesma

consideração, então, por que eu deveria me sentir incomodado com as


lágrimas não derramadas que enchem os seus olhos?

Se quisesse ser sincero comigo mesmo, a pergunta certa seria:


por que estou tão incomodado com a porra de um convidado que ninguém
sabe o papel que exerce na vida dela?

A resposta talvez não seja tão complexa assim. É até fácil, devo
reconhecer. O que não posso admitir é que os motivos da minha raiva vão
muito além do óbvio, eles advêm de sentimentos que não estou e talvez

nunca esteja disposto a assumir. Uma fraqueza que não faz parte de quem
sou. Aquele garoto era fraco, o homem de hoje não!

Gabriel Souto não tem fraquezas. Para que isso acontecesse, eu


teria que ter sentimentos e há muito tempo ficou claro que não tenho.

— Te aconselho a mudar o seu reportório de ofensas, bebê.


Adoro te ouvir declarar todo o seu ódio por mim, mas confesso que já está
ficando cansativo — desdenho do seu ataque e emendo com o outro aviso
que, pessoas como ela chamariam de ameaça: — Vá, vou te esperar no carro.
Cinco minutos, não esqueça, você tem apenas cinco minutos para fazer a
coisa certa para todos nós.

Louca de raiva, a minha esposa me vira as costas e, enquanto ela


vai ao encontro dos dois homens, permaneço onde estou, decidindo se presto

atenção na sua bunda deliciosa ou se me preocupo com a bagunça que esse


casamento fará na minha mente.

Tem alguma coisa nessa mulher que tira a minha tranquilidade,


coisa que aconteceu desde o momento em que o pai dela tirou uma foto 3×4
da carteira e me mostrou. Ela ainda era uma adolescente na fotografia e,
mesmo assim, chamou minha atenção a ponto de perguntar a idade da moça
para em seguida sugerir um acordo de casamento. Até hoje, usei desculpas

esfarrapadas como a sua aparência que remetia a uma pessoa dócil ou a

praticidade de não ter que ir muito longe para conseguir a esposa ideal para
os meus propósitos, mas essas justificativas são mentiras.

A verdade é que ver a foto de Luana me impactou fortemente,


não como um amor à primeira vista, pois não acredito nessa bobagem, mas

tive a sensação de estar reencontrando uma velha conhecida — o que é uma


loucura, considerando que jamais a vi antes.

Independente dos motivos que tenham nos trazido até aqui, não
posso perder meu tempo com ideias loucas que nem mesmo fazem sentido.
Por um motivo ou por outro, Luana Aguiar é a minha esposa e, se depender
de mim, como sei que dependerá, essa união não passará de um arranjo
vantajoso. Não há espaço para um casamento normal — ainda que
estivéssemos apaixonados — e com certeza não há lugar para ela na minha

vida. Não de forma permanente, ainda que ela quisesse ficar além do prazo
acordado entre nós dois.
— Minha filha?

Ouço a voz do meu pai às minhas costas, interrompendo o


momento que tirei para ficar sozinha, afinal foi para isso que fugi para o
jardim, o lugar mais bonito de toda a prioridade do Gabriel.

— Está tudo bem com você? — Mesmo sabendo a minha


resposta, ele faz a pergunta porque é isso que os pais fazem, cuidam dos seus
filhos. Pelo menos a relação entre a maioria dos pais e filhos é assim. Deveria
acontecer o mesmo comigo e meu pai, mas nossa realidade é diferente.

Lembro-me de quando meu pai era feliz, quando vivíamos bem


com os lucros da mercearia que ele e mamãe abriram quando eu ainda era
criança. Júlio era respeitado no bairro pela bela família e pela honestidade e
seu trabalho duro. Mas um dia tudo desmoronou como um castelo de areia

que se desfaz com o bater do vento.

Quando eu tinha 15 anos, minha mãe foi diagnosticada com uma


doença rara e autoimune no sangue. A princípio, reinou na família o
otimismo de que tudo correria bem e que, por algum milagre, ela lutaria e

venceria aquela batalha. Estávamos enganados, infelizmente, e fechávamos


os olhos para a triste realidade de que ela não daria conta da doença. Foi
rápido, sua luta durou poucos meses e ela enfim teve seu descanso. Olhando
para trás, vejo que ela não estava mais conseguindo e, aos poucos, nos
preparava para sua despedida, mas eu e o meu pai não queríamos enxergar e
nem aceitar que aquela luta apenas prolongava o sofrimento dela. Certa
madrugada, quando milagrosamente nenhum de nós dois estava ao lado da
sua cabeceira, ela se foi. Deixou uma filha de 15 anos e o marido que, de

certa forma, foi junto com ela.

Dez anos é tempo demais para carregar o peso de uma perda.


Ainda sonho com a minha mãe, sofro com sua ausência, mas, principalmente,
sinto saudades do meu pai, do homem que ele um dia foi. Do tempo em que
era o meu pai.

— Como posso estar bem, pai? — Viro-me de frente para ele e


vejo nos seus olhos e na sua expressão o peso dos anos mal vividos e da
culpa por ter me entregado nas mãos de um homem como Gabriel Souto. —

Olhe onde nós dois estamos!

— Me perdoe por isso, filha. — É só o que ele tem dito desde o


dia em que chegou em casa muito alterado e me contou o que tinha
acontecido.

Eu estava chegando de mais um dia exaustivo, porém,

gratificante de trabalho, quando o vi sentado no sofá antigo da sala. Estava


chorando, coisa que não vi acontecer em 10 anos. Chorava feito um bebê e
quando cheguei perto, ele simplesmente me abraçou.

Na hora seguinte, ele me contou o motivo da sua tristeza. Era


pior do que tudo o que eu poderia supor. O seu vício em bebidas e em jogos
de aposta sempre foi motivo de preocupação, fazendo-me acreditar que um
dia teríamos consequências maiores que o seu desleixo com a própria
aparência e descaso com a mercearia que mal sabe administrar e usa o lucro

para alimentar os seus excessos.

As consequências vieram e, naquele dia, Júlio me mostrou que


ele não seria o único afetado. Soube da dívida de 500 mil reais em um
cassino que ele só teve acesso porque um dos seguranças do lugar era seu
amigo de longa data. Segundo o meu pai, os funcionários têm certos
privilégios, entre eles o direito de levar convidados para o lugar. Ele não
frequentou o cassino tantas vezes, mas foi o suficiente para sair devendo o

que não podia pagar.

A pior parte foi descobrir as ameaças do dono do tal cassino e,


ainda mais, descobrir quem na verdade era o dono. Gabriel Souto é um nome
conhecido, por todos na cidade. Nunca achei que ele fosse tudo o que a mídia
dizia, mas rapidamente percebi meu engano. Um homem que propõe o que

ele propôs não passa nem perto do que se pode considerar uma pessoa
decente.

Ir confrontá-lo foi um erro e as duas semanas até o dia de hoje se


mostraram inúteis. Tentei, de todas as formas, encontrar uma solução e não
consegui.

Poderia ter deixado meu pai arcar com as consequências dos


seus próprios erros se o caso fosse diferente. Se não estivéssemos lidando
com um homem sem escrúpulos como eu pude comprovar que Gabriel é. Ele

ameaçou fazer com o que meu pai pagasse de qualquer jeito, caso eu não
aceitasse a ideia de me casar com ele. Como não quis pagar para ver, fiz a
única coisa que poderia fazer sem que colocasse a vida do meu pai em risco.

Agindo certo ou errado, Júlio é o meu pai, a única pessoa que me


restou e, de qualquer forma, eu faria tudo por ele.

— O senhor precisa se cuidar, pai. Faça isso por mim — peço,


fazendo carinho no seu rosto tão cansado e cheio de linhas de expressão para
alguém que tem só 48 anos.

— Espero que este ano passe voando, minha querida. Qualquer


coisa, você pode vir falar comigo. Gabriel não é o dono do mundo e muito
menos está acima da lei. Não deixe que ele te machuque — avisa e sei que
está falando no sentido literal da palavra machucar.

— Ele não faria isso, papai. Gabriel é um homem difícil, mas eu


creio que posso lidar com ele — digo, querendo acreditar nas minhas próprias
palavras.

Realmente, não acredito que ele seja capaz de me machucar


fisicamente. Apesar do pouco que pude conhecer dele, algo me diz que posso
confiar nesse julgamento. Nesse e em outros que não posso parar para
analisar no momento. Se parasse, teria que admitir coisas que — contra a
minha vontade — sinto quando sou tocada por ele. A sensação é de

reconhecimento, sempre que estou na sua presença, sinto como se algo


estivesse passando sem que eu percebesse.

— Tudo bem, Lulu — diz o apelido que minha mãe gostava de


usar. — Não esqueça, qualquer coisa, fale com o seu pai. Agora vou te deixar
sozinha porque sei que é disso que está precisando, considerando que está
aqui nesse jardim e não participando do circo montado na sala.
Sozinha novamente e sentindo o vento frio acariciar minha pele,
permito que o contato com a natureza me traga um pouco da paz que há

algumas semanas foi roubada de mim.

— Luana! — Braços circulam a minha cintura e uma voz


conhecida fala ao meu ouvido. — Achei que não conseguiria entrar aqui —
diz, fazendo com que note o seu ofegar.

— Você está louco? Como conseguiu passar pela segurança? —


Sim, Gabriel vive rodeado por seguranças, o que não seria necessário, se ele
não tivesse nada a temer.

— Isso não importa, eu só precisava estar com você, meu amor


— diz, ao beijar o meu pescoço, um carinho que não posso aproveitar porque
estou muito tensa.

— Nós dois já conversamos sobre isso, Gustavo — relembro. —


Foi um erro ter permitido que você fosse à cerimônia. Não ganhou nada com

isso e só o deixou com mais raiva de mim.

— Ele fez alguma coisa com você? — Como meu pai, Gustavo
já pensa o pior, o que me deixa profundamente irritada.

O que eles pensam que Gabriel poderia fazer comigo? Bater?


Matar? Mas que inferno!

Percebo que estou muito irritada e não sei e nem entendo as


razões para isso. Apenas fico incomodada por pensarem algo tão ruim dele.

— Não! Por que ele faria algum mal a mim no dia do nosso

casamento? — questiono, exasperada, ao soltar os seus braços da minha


cintura e me virar de frente para ele.

— Ei, calma! Não precisa ficar tão irritada. Só estou preocupado


com você vivendo aqui, com esse homem.

— Desculpe, mas estou uma pilha de nervos — justifico-me ao


beijar o rosto dele e Gustavo volta a abraçar minha cintura. — Está tudo
dando errado e não quero que respingue em você, por isso a conversa de
ontem está valendo.

— Não, Luana...

— Nós temos que terminar, Gustavo. Acredite em mim, será


melhor assim — digo o que jamais imaginei dizer. São anos de namoro e
tantos outros de amizade, sempre achei que acabaríamos casados, apesar de

ele nunca ter pedido e de não termos falado no assunto.

Gustavo é o namorado perfeito, faz com que eu me sinta segura


e protegida. É muito carinhoso e sempre tenta fazer o melhor para mim. Com
ele, a vida parecia seguir seu rumo natural, sem grandes surpresas e eu estava
contente assim. Não precisava de mais nada.

— Pare de falar bobagens! Nós não estamos terminando. Você e


eu... A não ser que esteja...

— Não! — corto, antes que ele diga uma grande besteira. — Eu

odeio Gabriel Souto com todas as minhas forças. Odeio!

— Eu vi vocês se beijando. Aliás, todos viram — acusa.

— Ele me beijou. Foi o que você e todos os que estavam

presentes viram — assevero, muito irritada só por lembrar da audácia dele e


do bendito beijo. Além de irritada, também estou mentindo, já que Gabriel
não beijou sozinho, eu também estava lá e correspondi.

Deus, e como correspondi!

Gostei do beijo dele e correspondi com gosto e com vontade de


passar mais tempo com aquela boca colada na minha. Um homem que eu
odeio, que não desperta nada de bom, mas também faz com que eu sinta
sensações inéditas que Gustavo, o homem que namoro há anos, nunca
despertou. Por Gustavo, sinto carinho, ternura quando sou beijada por ele. O

beijo do demônio loiro foi diferente, trouxe o desejo de nascer e morrer em


seus braços, de estarmos a sós e com bem menos roupas. Ele fez com que eu
me esquecesse de tudo, de onde estávamos, de quem nós somos e do que
significamos um para o outro.

Um momento de fraqueza que, para não correr o risco de sentir


novamente, prefiro que não se repita. Manter a distância é o que preciso
fazer. Não deixar que toque o meu corpo ou chegue perto da minha boca.

— Está bem, não está mais aqui quem falou, só não deixe que

isso se repita. Você é minha — afirma e não gosto nem um pouco do seu
tom.

Fala de uma forma que nunca o ouvi falar. Nunca foi ciumento,
apesar de ter alguns motivos para ser, não por minha causa, mas pela a

atenção que desperto em alguns garotos desrespeitosos do nosso bairro.


Gustavo sempre entendeu que nunca precisei que ele bancasse machão para
defender a minha honra. Foi por esse e por outros motivos que me apaixonei,
o que torna ainda mais estranha a frase possessiva.

— Eu não sou sua, Gustavo. Não sou um objeto para ser


propriedade de alguém.

— Nossa! Como minha namorada é brava...

— O que foi que acabei de dizer, Gustavo? — pergunto,

começando a ficar irritada de verdade com a sua incapacidade de entender o


meu lado e não querer me ouvir. Estou tentando protegê-lo do meu marido
para que siga a vida tranquilamente, sem o peso da ameaça sobre ele. — Nós
precisamos ficar afastados por um tempo, pelo menos até que tudo isso
termine. Imagine que não vá durar um ano porque vou infernizar tanto a vida
do Gabriel que ele acabará me mandando embora muito antes do prazo
estipulado por ele.

Esse plano idiota foi o melhor que pude pensar, mas pelo menos

é melhor do que esperar um ano inteiro para ter minha vida de volta. Minha
casa, meus amigos e meu namorado.

A verdade é que meu marido e eu não temos nada em comum,


além da raiva mútua que sentimos e é nisso que estou colocando minhas

esperanças nesse ódio para conseguir cair fora da sua casa o mais rápido
possível. Em poucos encontros, deu para perceber que nossas brigas são
pesadas e desgastantes, por isso não sei se poderei suportá-lo por muito
tempo e creio que ele também não conseguirá. Logo estará arrependido por
ter sugerido o casamento e, neste dia, minhas malas estarão arrumadas e eu,
pronta para dizer adeus. Para sempre.

— Não posso ficar longe de você, bela. Não me peça isso, por
favor — suplica ao pegar o meu rosto com as duas mãos e me beijar, calma e

pacientemente, como sempre beijou.

Deixo que me beije pela última vez, antes do iminente término.


Sei que esse é o nosso fim, talvez definitivo, pois não seria justo pedir que ele
esperasse por mim. Ele é um homem jovem, bonito, um advogado bem-
sucedido e que tem tudo para fazer uma mulher muito feliz. Gustavo merece
tudo de bom que a vida tem para lhe oferecer e não terá isso ao meu lado.
O peso dos meus pensamentos e decisões sobrecarregam meu
coração e não posso impedir que as lágrimas caiam. O beijo cheio de carinho

agora tem o gosto salgado de lágrimas e despedidas, de um história que será


interrompida e, talvez, nunca vivida.

— Que cena mais linda! — Palmas e a voz cínica do Gabriel nos


interrompe. — Sério, estou até emocionado com o que acabei de presenciar.

— Sai fora, cara!

— Você está me expulsando da minha própria casa?

Gabriel avança e eu corro até ele, na tentativa de segurá-lo. Ele


olha para as minhas mãos e, como se eu tivesse uma doença contagiosa, as
retira do seu peito.

— Não toque em mim, sua vadia. Achou mesmo que seria uma
boa ideia se encontrar com esse cara dentro da minha casa? Não ouviu a
minha ordem para que não o trouxesse?

— Não chame a minha namorada de vadia! — Dessa vez, é


Gustavo quem quer partir para a briga. Ela só não acontece porque fico na
frente do meu marido. — Saia da frente, Luana. Não vou permitir que esse
louco te desrespeite dessa forma.

— Deixe que me resolvo com ele, Gustavo — falo, pacificadora.

Para provocar, Gabriel passa o braço esquerdo em torno da


minha cintura, puxando-me levemente até que minhas costas estejam
escoradas no seu peito. Os olhos do Gustavo vão direto para as mãos do meu

marido e, com isso, sei que está na hora de acabar com a situação
constrangedora e até mesmo perigosa.

— Não, Luana!

— Vá para casa, nós dois já conversamos. Acho que será melhor

darmos um basta nessa relação sem futuro.

Com o coração aos pedaços e os olhos ardendo pela vontade de


chorar de frustração, cubro a mão de Gabriel com a minha. Os olhos do
homem, que por tanto tempo foi o meu parceiro e melhor amigo, vão até as
mãos unidas e quando retornam para o meu rosto, a mágoa que vejo me diz
que consegui o meu intento: afastar Gustavo de vez.

— Você está certa, essa conversa não vai dar em nada. — Ele
vira as costas para nós, mas, antes de sair, volta-se mais uma vez e diz: —

Sejam bastante infelizes, senhor e senhora Souto.

Com o coração a mil, fico observando-o até vê-lo sumir das


nossas vistas. Assim que isso acontece, Gabriel se afasta sem aviso, fazendo
com que eu quase perca o equilíbrio. Ele vira as costas para mim e como não
é a primeira vez que age assim, tenho vontade de gritar por pura frustração.

— Gabriel, eu...
— Cale a boca! Não quero ouvir a porra da sua voz.

— Por que está agindo como um homem ciumento? — indago,

sabendo que fiz a pior pergunta quando ele avança em minha direção.

— Acha mesmo que agi como um marido ciumento? Você não


se enxerga? — Segura o meu braço com força, visivelmente fora de si.

— Está me machucando, Gabriel.

Como quem cai em si, ele imediatamente solta o meu braço e


volta a me dar as costas.

— Posso ter a mulher que quiser, acha mesmo que teria motivos
para sentir ciúme de alguém como você?

— Alguém gorda como eu? — Não penso antes de falar e


mostrar para ele minha insegurança recém-despertada.

— Não fale besteiras, porra! Está querendo elogios? — diz como

se eu tivesse acabado de falar um grande absurdo, quando na verdade foi ele


quem acabou de me ofender. Esse homem é doido e também está me
deixando maluca. — Não terá elogios. Você me estressa, me faz ter ganas de
te matar. Acabamos de casar e já estou arrependido — dispara. — Foi a ideia
mais idiota que já tive em muito tempo.

— Desculpe, eu não sabia que ele viria — peço, sem saber


exatamente de onde veio a necessidade de fazer isso.
— Na minha própria casa, Luana, onde qualquer um poderia ter
visto você. Me fale só um motivo para não me divorciar de você amanhã

mesmo e voltar para o plano original. — Gabriel está novamente falando do


meu pai.

— Você não seria tão perverso a esse ponto. Já acabou com a


minha vida e não pode simplesmente voltar atrás.

— Na verdade, posso. — Volta-se para mim, chega muito perto,


como se quisesse me assustar e o que vejo nos seus olhos realmente me
assombra. — Posso tudo, ainda mais com você, que me pertence.

Ouvir essa frase idiota desperta o pior em mim e, desta vez, ele
não é rápido o suficiente para impedir que o tapa seco acerte o seu rosto.

Com uma mão sobre a face agredida, Gabriel volta a erguer o


rosto, que foi bruscamente para a esquerda com o impacto da batida, e sua
expressão diz que estou muito, mas muito fodida.
O calor e a ardência no meu rosto é igual ao fogo da raiva que
queima meu peito. Meus punhos estão cerrados e a respiração e o coração,
acelerados. No momento, preciso invocar todo o meu autocontrole para não
fazer uma besteira, algo de que me arrependeria pelo resto da vida. Jamais

seria capaz de agredir uma mulher, mesmo que no momento minha vontade
seja apertar o pescoço da minha esposa traidora.

Pedi para que não o trouxesse para dentro da minha casa e, como
se quisesse me desafiar, Luana fez o oposto. Não se deu ao trabalho de fingir
para os convidados, pessoas que julgo importantes, saberem o quão
comprometido estou com o casamento e com a minha linda esposa. Ao invés
disso, veio para o jardim se encontrar com outro homem, correndo o risco de
ser vista aos beijos por qualquer um. Foi tão descuidada que só posso

acreditar que tenha feito de propósito para, de alguma forma, me colocar em

maus lençóis.

Não posso negar que o que me incomodou mais foi que ver outro
homem tocando-a, beijando-a como se tivesse todo o direito de fazê-lo. Na

hora, vi tudo vermelho e faltou pouco para não dar um show que terminaria
com o meu rosto e meu nome estampados nas capas das revistas, jornais e
sites de fofocas amanhã cedo. Quis matar os dois, ele por ousar tocá-la e
Luana por deixar com que o idiota a beijasse.

É irracional e sei que não devo fechar os olhos para isso. Não
posso também negar que o homem era o namorado dela até eu aparecer na
sua vida e obrigá-la a casar comigo. Sei de todas essas coisas e nem por isso
posso controlar meus sentimentos. Sim, talvez eu tenha algum sentimento,

contrariando o que todos pensam a meu respeito. No entanto, o fato de saber


que posso sentir algo não é digno de comemorações, não quando não são
sentimentos saudáveis, nem quando posso me tornar um homem pior do que
julgo ser.

Tem algo nela que invoca o que há de pior em mim, o que me


faz questionar quão errado pode dar uma relação íntima entre mim e ela.
Talvez seja melhor que eu mantenha distância, que procure outros meios de
distrair minha mente do desejo que sinto por ela, principalmente, depois do

beijo que trocamos mais cedo.

— Não quero mais olhar para a sua cara hoje. Por favor, suba e
não apareça na minha frente — peço.

— Não quaro subir e não vou fazer isso só porque você está
mandando. Meu pai está lá dentro e quero conversar com ele antes de ele ir

embora. Além disso, o que os seus convidados iriam pensar se a noiva sumir
no meio da festa?

— Foda-se o que irão pensar! No momento, só preciso deixar de


olhar para sua cara. Suma da minha vista, agora! — falo, sem paciência,
envolvido em um sentimento de frustração. Parece que esse é único
sentimento que me preenche.

— Eu não quero...

— Mas você vai!

Cansado dela, de brigar e de tudo que essa noite significa, seguro


sua mão e, sem o menor cuidado, a levo para dentro de casa. Ao adentrar na
sala, tenho que driblar algumas pessoas que esperavam para nos dar parabéns.
Ela ainda se despede do pai, enquanto fico ao seu lado e não solto a sua mão.
Em dez minutos, estamos subindo as escadas que levam para a ala dos
quartos. Dez minutos que pareceram dez horas.
— Você é um animal — esbraveja assim que a enfio dentro do
quarto que pedi para que a diarista arrumasse para ela.

— E você é um pé no saco! — Vou para perto dela, que começa


a caminhar para trás, tentando fugir de mim. — Está com medo? O que acho
que eu farei?

— Não sei, você é louco! — diz, já encostada na parede que fica

na lateral da sua cama.

Como um ímã sendo atraído, mesmo em um momento de


discussão, chego muito perto dela, o mais próximo que consigo sem correr o
risco de levar outra bofetada.

— Sou louco e é por isso que você vai ficar aqui nesse quarto. Já
falei e vou repetir: não quero mais olhar para você e muito menos ouvir o
som da sua voz por hoje — aviso e ela, como da outra vez, não reage bem.
Seu instinto é me afrontar, mesmo sabendo que não está em condições de

fazê-lo. Não depois do que acabou de acontecer.

— Estou presa, é isso? — pergunta, irritada, encurralada entre o


meu corpo e a parede do espaçoso e luxuoso quarto da minha propriedade.
Para ela, aquele lugar significa o próprio inferno na terra, ou pelo menos o
que ela pensa ser o inferno.

Se soubesse que lá é muito pior do que as pessoas imaginam...


Estive no inferno e garanto que ter labaredas queimando a pele é brincadeira
de criança perto do que vi e vivi.

— Isso. Se este é o seu conceito de prisão; então, sim, você está


presa a mim e a essa casa. Acostume-se, meu bem...

— Não me chame de meu bem — diz, lançando-me um olhar de


desprezo, o que só a deixa mais linda. Aos meus olhos, parece uma ratinha

assustada e, de forma doentia, fico excitado por vê-la assim, nas minhas
mãos. Sei que posso fazer o que quiser com seu corpo e suas vontades. Posso
moldá-la da forma que eu quiser, como for conveniente para mim. — Não
sou o seu bem.

— Você é o que eu quiser que seja. Esqueceu que te comprei em


uma mesa de apostas? — Na verdade, não foi bem uma compra, está mais
para o pagamento de uma dívida, mas, na prática, isso não importa. Não
quando o resultado é o mesmo: a bela Luana Aguiar em minhas mãos. Toda

minha para fazer o que eu quiser. — Não aja como se tivesse poder de
decisão, pois não tem. E quanto antes você entender isso, melhor.

— Eu te odeio, Gabriel — afirma, fria.

Ao invés de me assustar, sua declaração me excita. Não posso


resistir a este jogo.

— Não quero o seu amor, garota. — Enquanto falo, me


aproximo do seu corpo colado à parede e seus olhos crescem de tamanho a
cada passo que dou. Como uma gatinha assustada, seu rosto não consegue

esconder o temor por causa da minha proximidade. — Sinta-se à vontade


para continuar me odiando, posso viver com isso.

— Não se aproxime de mim, Gabriel. Você me assusta. — Está


praticamente implorando, percebendo que foi uma péssima ideia trazer o seu

namorado para dentro da nossa casa.

Agora ela está encurralada entre mim e a parede do quarto que,


por enquanto, é só dela. Digo por enquanto, pois não sei quanto tempo irei
resistir ao tesão e ao desejo doentio que começo a nutrir por ela. No fundo,
sei que não serei capaz de me manter tão longe da gostosa, não quando a
quero como jamais quis alguém — mesmo detestando-a com a mesma
intensidade.

Raiva e desejo. A melhor e a pior decisão. Com ela, vou de um

extremo para outro, mas ainda assim não posso deixar de me sentir
estimulado ao seu lado. Considerando toda essa bagunça, talvez seja melhor
não sentir nada e ficar só com a insatisfação. Mas o perigo que ela traz
consigo bate de frente com tudo o que sou e preciso ser. E a atração que sinto
pelo perigo é mais forte do que eu, muito mais forte.

— Você está mesmo assustada? — Toco seus braços e sinto-os


arrepiados. Os pelinhos, que estão de pé, não são capazes de esconder seu

nervosismo. E o que, para ela, é medo; para mim, é excitação. — Por que

sinto a sua respiração ofegante? — Estou com o corpo levemente curvado


sobre o dela e as palavras são sussurradas no seu ouvido. — Se quer que eu te
beije novamente, é só pedir, bebê. Juro que não pensarei mal de você por
isso. Posso te dar o que quiser, desde que se comporte e faça tudo o que eu

quero.

— Então quer que eu seja sua escrava, que não tenha voz e faça
apenas o que você ordenar? — É sarcástica, mas se a intenção é me irritar, ela
certamente está fazendo isso da maneira errada.

— Vejo que estamos começando a nos entender, Luana.

Saboreio o seu nome nos meus lábios e imagino o momento em


que o chamarei, enquanto como a sua boceta. Com certeza, ela estará muito
molhada, pegando fogo de tesão e me receberá quando eu socar sem dó no

seu calor apertado. Um corpo que me deixou babando como um cachorro


louco por um pedaço de carne desde a primeira visão que tive da garota que
se apresentou com sete pedras nas mãos. Ali, soube que nada me faria desistir
de tê-la para mim. Mesmo se o seu pai não tivesse sido tão burro, eu faria
qualquer coisa para ter uma prova do corpo apetitoso e da boca carnuda feita
para envolver o meu pau até ter os lábios esticados pelo esforço de abarcar a
minha espessura.
— Prefiro morrer a ter essa boca suja sobre a minha ou essas
mãos imundas no meu corpo. Sinto nojo de você, Gabriel Souto. Pensar na

possibilidade de ser obrigada a fazer sexo com você me deixa doente. —


Cospe cheia de raiva, deixando transparecer o desprezo que vejo no rosto de
muita gente. Ela é apenas mais uma.

— Então, se prepare para morrer, sua vadiazinha.

Agora o meu corpo está colado ao dela, que se encolhe, e o


cheiro do seu medo é excitante. É isso que quero. Não quero amor ou
declarações de devoção. O importante é ela ser perfeita para os meus planos
e, se a boceta quente e os seios grandes vierem no pacote, não irei reclamar.
Luana será como todas as outras, somente uma boceta para aliviar a tensão
dos meus dias. A única diferença é que não precisarei ir tão longe para
encontrar alívio, pois o terei dentro da minha própria casa.

— Você vai dar para mim quantas vezes eu quiser te comer. Fará

sem reclamar e sabe por quê? — Suas mãos estão espalmadas no meu peito,
mas não como uma tentativa de apoio ou carinho. Luana quer me afastar para
longe dela, enquanto tudo o que quero é me afundar no seu sexo e descobrir
se é tão boa quanto parece. — Você deve estar com a calcinha gotejando de
desejo por baixo desse vestido. Apesar do que sua boca diz, seu corpo tem
reações contrárias e quer que eu a toque como você nunca foi tocada por
aquele moleque que se diz seu namorado. Aliás, ele é mais um que precisarei
tirar do meu caminho, se for necessário.

— Não abra essa boca para falar o nome do Gustavo. — A

defesa vem rápida e ferrenha, o que ameaça despertar o animal adormecido


que há dentro de mim. — Ele é o homem que você jamais será, é um cara
decente.

— Tão decente que está apaixonado por uma mulher que foi

vendida como uma prostituta — falo para machucá-la e consigo o intento,


pois a sua mão voa direto na direção do meu rosto e só não o atinge em cheio
porque sou rápido o suficiente para frear a ação dela.

— Atreva-se a fazer isso novamente e não gostará das


consequências — ameaço e a garota tem os olhos arregalados ao fitar-me, a
respiração errática e o rosto distorcido pela cólera e o ódio que não podem ser
disfarçados.

— Vai fazer o que, seu monstro? Me bater? — Furiosa, a

gostosa empina o narizinho arrebitado e tudo o que eu quero no momento é


rasgar suas roupas e fodê-la até que cale a porra da boca e pare de me
afrontar, ainda mais por causa de outro homem.

Será que ainda não percebe que agora é minha mulher? Que não
existirá outro homem que não seja eu na sua vida?

— Vou fazer isso.


Sem o controle que me orgulho de ter, puxo-a pela cintura e, sem
aviso, beijo sua boca. Um beijo que encontra resistência e acaba rápido

demais quando ela morde com força o meu lábio inferior.

Assustado por um segundo, dou dois passos para trás e toco a


minha boca com o dedo. Quando vejo o filete de sague, a fúria varre o meu
corpo e ela mal tem tempo de correr, pois eu já a tenho novamente contra a

parede. Desta vez, envolvo sua cintura com um braço, enquanto o outro
agarra a parte de trás dos seus cabelos, segurando com firmeza a sua cabeça
para que não tenha como fugir ou se esquivar.

Com a língua, invado a boca macia e, com o gosto metálico de


sangue, tomo o que é meu, exijo respostas e, sem que tenha qualquer chance,
a minha esposinha corresponde ao chupar a minha língua para dentro da sua
boca e permitir que eu imite o seu gesto. A garota está mole nos meus braços
e, se agisse movido pela fama que tenho e na qual ela parece acreditar,

poderia me aproveitar disso, arrancar as nossas roupas e realizar o desejo que


venho alimentando desde o momento em que coloquei os olhos nela. Mas
como nem tudo é o que parece, ajo diferente.

— Gostosa demais.

Aos poucos, vou diminuindo a intensidade e, com uma forte


mordida no seu lábio inferior, obrigo-me a parar.
— Gabriel...

Quando a minha esposa abre os olhos, eles estão anuviados pelo

desejo que não é capaz de refrear.

— Quando você quiser, minha esposa, é só pedir que eu virei e,


com prazer, darei o que você quer. Seu corpo e seus desejos me pertencem e
quanto antes aceitar isso, melhor será para nós dois.

— Isso nunca irá acontecer. Eu amo o meu namorado — insiste


em colocar outro homem entre nós dois, o que é extremamente irritante.
Luana não entende que quanto mais ela toca no nome do tal namorado, mais
irritado fico e quando isso acontece, todos os envolvidos sofrem as
consequências.

— Você não tem um namorado, querida, tem um marido. Sou o


seu dono e quando quiser apagar o seu fogo, já sabe onde me encontrar.

Com um ar espantado, ela encara o meu rosto. Eu abaixo

vagarosamente os meus olhos para frente da minha calça e, propositalmente,


manjo o meu pau muito duro e louco de vontade.

— Seu imbecil!

Agora, muito furiosa, Luana vira-se para trás, pega o abajur que
estava sobre a mesa de cabeceira e arremessa-o na minha direção. Se eu não
fosse um homem ágil e bem treinado, os estilhaços de vidro teriam acertado
minhas costas em vez da porta que consegui fechar a tempo.

Fora do quarto, ouço quando Luana começa a chorar. A mulher

chora e xinga como um homem. No meu rosto, um sorriso satisfeito se abre e,


sem que haja sombra de dúvidas, sei que esse arranjo será muito proveitoso e
que será um prazer domar essa fera.

Por quanto tempo? Isso só o meu corpo dirá. Se depender da

fome que tenho por ela, duvido que o meu desejo acabe logo. A garota é uma
bocuda, gosta de me desafiar, mas talvez essa seja a razão de tamanha
atração. Uma febre que explorarei até me sentir satisfeito. Quando acontecer,
ela permanecerá na minha vida, pois comer sua boceta não foi o principal
motivo para eu ter me casado com ela.

Luana Aguiar é uma ajuda providencial que veio na hora certa e


como não sou de perder as oportunidades que caem no meu colo, ela servirá
perfeitamente para meus intentos. Amor e todas as bobagens românticas

ficarão fora da equação. Se não tive isso com a minha família, certamente não
esperarei de uma mulher que me odeia e que, se pudesse, obrigaria seu corpo
a não querer o meu como demostrou desejar agora.

Cansado psicológica e fisicamente pelo dia e pelo embate com


minha bela esposa, tudo o que eu mais quero era tomar um banho gelado e
dormir. Preciso me recuperar para voltar a ser o Gabriel de sempre, o homem
que não se deixar levar por qualquer coisa, ainda mais por uma mulher tão

pequena e geniosa.

Felizmente, não demora muito para a casa se esvaziar e depois


de eu insinuar que a noiva ficou no quarto preparando-se para nossa noite de
núpcias, todos — menos o pai dela — saem com sorrisos maliciosos,
imaginando como a noite dos noivos será agitada.

Mal sabem o quanto estão enganados. O casal está longe de ser


os pombinhos apaixonados que talvez alguém tenha pensando. A noiva está
no quarto espumando de raiva, ao invés de estar se preparando para a noite de
núpcias. O noivo? Esse precisará de um tempo para colocar os pensamentos
em ordem, relembrar de onde veio e os motivos para não começar a querer o
que jamais poderá ter.
— Hoje eu trouxe um lanche diferente. Está com muita fome?

Com uma das mãos, tento afastar o capuz velho e cinza do seu
rosto, mesmo que a sujeira me impeça de ver como é a sua aparência
realmente. As únicas características dele que não estão escondidas são as

mechas loiras dos cabelos compridos, que escapam pelo colarinho da camisa
e os olhos azuis, que sempre parecem perdidos.

— É hambúrguer com bacon. Você gosta?

O garoto apenas acena e não diz nada.

Na verdade, ele não nunca diz nada. Tantos meses trazendo o


seu lanche neste beco e o garoto mal abre a boca para falar comigo. Essa
atitude deveria me deixar irritada o bastante para nunca mais olhar na cara

dele, já que meus pais e professores me ensinam todos os dias a agir com
educação. Ele é muito mal-educado, mas, ao invés disso me afastar, só
aumenta a minha vontade de ajudar a pessoa que uma vez também me

ajudou.

Pena e gratidão, é o que sinto pelo garoto que julgo ter bem mais
do que os meus 12 anos de idade. É muito mais velho, a vida não deve ser
muito boa para ele porque está sempre nesse beco e, na maioria das vezes,
com um cigarro na mão. Quando percebe minha presença, trata logo de
apagá-lo e finjo não ter visto o que ele estava fazendo. Fico ao seu lado
enquanto come e sempre em silêncio. Nós nos sentamos no chão e ele devora
o seu lanche, enquanto fico apenas observando-o com curiosidade. O silêncio
nunca é ruim, pois já me acostumei e até gosto do seu jeito.

— Obrigado — agradece com a única palavra que parece ter


aprendido a falar.

— Não precisa agradecer, garoto do capuz. Estarei aqui todos os


dias. Você nunca sentirá fome ou frio, pois nunca te deixarei sozinho.

Você nunca sentirá fome ou frio, pois nunca te deixarei sozinho.

Fome ou frio.
Nunca te deixarei sozinho.

Essas palavras se repetem na minha mente de maneira


insuportável até que, no meio da noite, acabo despertando do que parecia ser
um sono perturbador por causa de uma lembrança antiga de algo que
aconteceu quando eu tinha 12 anos. Algo que o tempo não foi capaz de
apagar da minha memória.

Sentada com as costas confortavelmente apoiadas na luxuosa


cabeceira da minha nova cama, tento colocar os meus pensamentos em
ordem, mas a minha mente insiste em me levar para o passado. Para ele, o
meu garoto de capuz cinza.

Eu tinha 12 anos e já sofria bullying por causa do meu peso.


Estudava em uma escola pública muito perto de casa, onde o esporte favorito
dos garotos da minha sala era zombar da minha aparência. Um dia, ao voltar
da escola, fui cercada por um grupo de cinco meninos que tinham quase a

mesma a idade que eu. Eles eram os mesmos que me atormentavam na sala e,
naquele dia, pegaram minha bolsa e começaram a jogá-la de um para o outro.
Eles disseram que eu só a teria de volta quando conseguisse pegar deles. Por
cinco minutos, fiquei correndo como uma boba, de um lado para o outro e
eles não paravam de sorrir, o som das risadas me fazendo ter vontade de
chorar.
Já estava cansada, suada, com as pernas doendo e os olhos
ardendo pela vontade de chorar, quando, de repente, a brincadeira acabou.

Surgindo do nadar, um rapaz muito magro e alto, usando o capuz do moletom


cobrindo quase todo seu rosto, exigiu que os meninos devolvessem a minha
bolsa. Não só isso, ele também os ameaçou para que não fizessem mais
brincadeiras de mau gosto comigo. Naquele dia, nasceu a amizade que durou

meses e foi a mais importante para mim. Alguém de quem não posso me
esquecer. Alguém de quem sinto saudade e com quem me preocupo desde o
dia em que sumiu sem deixar rastros.

Lembro-me com clareza de quando ele me devolveu a bolsa e


simplesmente virou as costas, indo embora sem esperar pelo meu
agradecimento. Para a minha sorte, não era a primeira vez que eu o via pelos
arredores e, com certeza, não foi a última. O garoto, cuja idade e o nome eu
nunca soube — ele nunca quis dizer —, parecia ter no máximo 16 anos, mas

hoje, me lembrando melhor da sua voz que mal era ouvida, suponho que ele
era bem mais velho do que imaginei no início.

Viver em um bairro como o que eu morava até ontem é ter a


certeza de que, em um beco qualquer, sempre haverá alguém como o meu
antigo amigo. Eu já o tinha visto com o seu inconfundível moletom antes e o
vi depois de ter me salvado dos garotos do colégio.
Depois de dias de trocas de cumprimentos tímidos, em que eu
passava pela esquina em que ele estava somente para vê-lo, encontrei-o

mexendo em uma lixeira. A cena partiu meu inocente coração de menina que
mal tinha entrado na fase da pré-adolescência. Após o flagra, passei a pedir
para que minha mãe fizesse um lanche a mais, com a desculpa de que tinha
uma colega carente na sala.

O rapaz se tornou meu amigo sem que tivesse percebido ou


concordado com a relação e começou a, todos os dias, ganhar os lanches
deliciosos que minha mãe preparava. Em horários diferentes e me
esgueirando pelos cantos para não ser vista por ninguém, encaminhava-me
até o beco sujo e mal iluminado em que ele ficava.

Com meus 12 anos, achava estranho encontrá-lo sempre muito


sujo, no mesmo lugar e com fome. Imaginava até que era um mendigo, mas
logo a ideia passava, pois preferia não pensar em um destino tão triste para

alguém tão bom, que foi capaz de me defender quando nem sabia quem eu
era.

Sentar no chão enquanto o garoto comia passou a ser parte do


meu dia a dia. Falávamos poucos e, mesmo assim, o silêncio não era
desconfortável, pois eu sentia que éramos amigos. Quando seus olhos azuis
se levantavam para me fitar — o que era uma raridade —, havia carinho
neles. De vez em quando, ele deixava escapar um sorriso também.

Lembro da última vez que o vi, de como parecia diferente, mais


fechado perdido do que nunca. Como em todas as outras vezes, ele comeu o
sanduíche de queijo que a minha mãe preparou para nós e, na hora da
despedida, quando me agradeceu e dei a mesma resposta de sempre, meu
amigo misterioso falou mais do que as suas costumeiras duas palavras.

Nunca te deixarei sozinha.

Foram as últimas palavras que ouvi e também a última vez que o


vi. Ele repetiu a promessa que fiz para ele todos os dias, durante os meses em
que o considerei meu melhor amigo. Uma amizade estranha na qual pouco
era falado e, ainda assim, o silêncio não deixava de ser significativo.

Eu prometi e cumpri. Ele prometeu e desapareceu para sempre.

Treze anos se passaram desde a última vez que o vi, treze anos

da época em que fiquei doente de saudade do único amigo que tive. Sim,
ninguém queria ser amigo de uma menina acima do peso e por isso me
apeguei tanto a ele. Em pouco tempo, o garoto de capuz cinza se tornou meu
melhor amigo, alguém com quem eu me sentia bem, apesar de ele ser quem
era e de onde nos encontrávamos para lanchar.

Fiquei doente por semanas depois que perdi as esperanças de


encontrá-lo novamente. Ninguém conseguia descobrir a causa da minha
febre, dos choros repentinos e da visível tristeza. Nunca contei para ninguém
a respeito do meu amigo de capuz cinza e, durante os primeiros anos, segui

com sua frase em mente e com a ideia de que ele sempre estaria comigo, o
que me trazia a esperança de revê-lo para, pelo menos, ver com meus
próprios olhos se ele estava bem. Se estava se alimentando e dormindo,
coisas que parecia não fazer nos meses em que ainda éramos companheiros

de lanche.

Mesmo depois que a esperança se foi, que fiquei adulta e entendi


perfeitamente o que se passava com ele e também o risco que corri por ter me
aproximado tanto, sua lembrança não deixou de me perseguir. Tornar-me
adulta trouxe o senso de responsabilidade, o entendimento de que aquela
amizade era perigosa, mesmo eu acreditando que ele seria incapaz de me
fazer mal, já que teve centenas de oportunidades. Também trouxe o medo de
pensar que algo de ruim pudesse ter acontecido com alguém tão jovem e que

poderia ter uma longa vida pela frente. Junto com a maturidade, veio o medo
de pensar que ele podia não estar mais vivo.

Viver no mesmo lugar, passar pelo mesmo beco onde eu o


encontrava tornou mais difícil a missão de esquecer o que aconteceu. Em
algumas noites, ainda sonho com ele e sempre sou acordada com a minha
frase martelando na minha mente:
Você nunca sentirá fome ou frio, pois nunca te deixarei sozinho.

Com ela, vem a ansiedade, a culpa, a preocupação e,


principalmente, o desejo de saber algo sobre ele, nem que seja para descobrir
se está vivo ou morto. Se conseguiu se recuperar ou se entregou-se de vez...

— Chega de pensar, Luana. Você vai enlouquecer! — em voz


alta, digo a mim mesma.

Não posso ficar pensando no meu amigo desaparecido, pois


tenho coisas muito mais urgentes com o que me preocupar como, por
exemplo, ter chorado até dormir. E tudo por causa do Gabriel! Eu, que não
sou de chorar tão fácil, me derramei em lágrimas até dormir depois de ser
sido tratada como uma mercadoria e do meu odioso marido ter feito questão
de relembrar os direitos que tem sobre mim e me garantir que serei sua
prostituta de luxo até que esteja cansado de mim.

— Só preciso respirar um pouco de ar fresco — digo, baixinho,

quando ajeito o roupão de cetim sobre minha camisola e amarro com firmeza
a faixa que fica na cintura.

Pé ante pé, desço os degraus da escada, mas logo noto que ainda
tem alguém acordado. Mal tenho tempo de dar meia volta quando,
percebendo a minha presença, Gabriel vira-se para trás e diz:

— Eu disse que não queria mais ver sua cara hoje, não disse?
Será que é tão difícil fazer o que eu pedi? Foi algo tão simples.

— Estou com calor.

Enquanto desço as escadas, penso no quanto é estranho ele estar


sentado com um copo de bebida em uma mão e um cigarro em outra em
plenas 2h da madrugada e tendo somente uma luminária acesa.

— No seu quarto, tem uma varanda e também um ar


condicionado — avisa, não escondendo o quão cético é com minha mentira.
Eu também seria, considerando os dois bons motivos que ele me deu e o fato
de estarmos no inverno.

— Esqueci que estou com sede também — tento uma desculpa


melhor que a anterior, já estranhando não estarmos gritando um com o outro.

— Tudo bem, morena. Beba sua água e me deixe em paz —


pede, dessa vez, menos autoritário.

Ele está estranho, como se ali houvesse uma fragilidade que em


nada combina com a imagem que tenho dele. A imagem que todos têm da sua
pessoa.

Sem que ele precise pedir duas vezes, obedeço-o e vou até a
cozinha, que é tão impressionante quanto o resto da casa. Bebo minha água,
mas, ao invés de subir e deixá-lo sozinho como pediu, volto para a sala e me
acomodo no puff posicionado na frente do sofá em que está sentado.
Gabriel me olha com irritação e, sem dizer nada, volta para a
bebida e o cigarro, fingindo que não estou ali. Na sala mal iluminada, o

silêncio se faz presente e, para o meu espanto, não é um silêncio


desconfortável ou constrangedor, como deveria ser depois da briga feia que
tivemos e das coisas horríveis que falamos um para o outro. É um silêncio
bem-vindo e acolhedor, assim como era quando eu ficava com o meu amigo

do capuz cinza.

Pela primeira vez depois que o conheci, permito-me olhá-lo sem


que a raiva esteja presente, vê-lo como uma pessoa de carne e osso e não de
ferro, como às vezes parece ser. Gabriel Souto é definitivamente um homem
lindo, tudo nele é perfeito, fisicamente falando. Começando pelo porte físico
de homem forte e bem cuidado, Gabriel tem um corpo que faria muitas
mulheres agradecerem a Deus pelo privilégio de receber um segundo olhar
dele. O rosto, não posso negar, é muito atraente. Os cabelos são de um tom de

loiro mais escuro e cortados ao estilo militar, o que o deixa com a aparência
de homem mau, exatamente como a fama de bad boy que cultiva. O que mais
me atrai são os olhos azuis e a boca que quase nunca se abre em um sorriso.
Nas poucas vezes em isso que acontece, geralmente é uma risada cruel ou
debochada, mas seus dentes bem alinhados são lindos e não passam
despercebidos.

Ele tem um tipo de sorriso que faria as mulheres jogarem


calcinhas em sua direção, caso fosse um astro da televisão, e desejo
secretamente ver esse sorriso sem que ele esteja despejando ódio ou

debochando de mim.

— Vai passar a noite inteira olhando para mim com essa cara de
idiota? — Ai está, o sorriso debochado. — Se quer dizer alguma coisa, é só
falar de uma vez, meu bem — avisa, aproveitando para me chamar pelo

apelido que já disse que detesto.

— Estava pensando no quanto você é bonito — revelo, pois


simplesmente não posso manter minha língua dentro da boca.

— Também já estive pensando no quanto você é linda e gostosa


— rebate, deixando-me sem jeito, considerando que não esperava um elogio
e sim uma resposta cruel. Talvez ele esteja sendo cruel e eu tenha entendido
errado, como só uma pessoa insegura com o próprio corpo faria. A maldita
insegurança que ele trouxe à tona, um sentimento que remete a uma infância

e uma adolescência nada agradáveis.

— Se você gosta de mulheres acima do peso...

— Por que você faz isso, garota? — Mal tenho tempo para uma
segunda respiração quando vejo o demônio loiro sair de onde estava e vir
para perto de mim. Ele se ajoelha na minha frente, com o corpo muito
próximo ao meu e, olhado dentro dos meus olhos, afirma: — Na primeira vez
que você falou algo desse tipo, achei que estivesse em busca de elogios, mas
agora percebo que estava enganado.

— Não queria te chatear com isso, desculpe — peço, sem ter


realmente motivos para pedir perdão. Mas se essa for a única forma de fazê-
lo esquecer esse assunto constrangedor, eu peço desculpas quantas vezes
forem necessárias.

— Não sei por que você está pedindo desculpas, morena, o que
sei é que você tem que parar de falar do seu peso, pelo menos na minha
frente. Posso ser o pior dos homens, mas não a ponto de escutar calado ou até
mesmo incentivar esse tipo de coisa. Não se menospreze dessa forma — pede
e, mais uma vez, Gabriel me surpreende ao levar uma mão até o meu rosto e,
com delicadeza, acariciá-lo. — Se eu disse que você é linda, é porque te vejo
assim. Se digo que é gostosa é porque seu corpo é perfeito aos meus olhos e
deveria ser aos seus também.

— Você só está...

O que está acontecendo comigo?

— Estou falando a verdade, meu bem. Não conto mentiras para


agradar as pessoas, mesmo que essa pessoa seja a minha esposa.

— O que está acontecendo aqui? Por que estamos conversando


ao invés de gritar como fizemos todas as outras vezes?
— Me diga você.

— Eu não sei. Você é tudo o que eu não gosto em uma pessoa e,


ainda assim, estou aqui, tendo o tipo de conversa que não tenho com
ninguém.

— Esse dia parece interminável — afirma, aproximando o rosto


do meu, ainda de joelhos e com o corpo entre as minhas pernas que, em

algum momento, sem que eu tenha percebido, abriram-se para receber a parte
superior do seu corpo entre elas. — Você deveria estar dormindo.

— Você também — devolvo.

— Eu raramente durmo — afirma um fato curioso, fazendo com


que eu o conheça um pouco mais.

— Acho que eu tenho que ir deitar... — A minha frase é uma


tentativa de fugir da tentação dos seus olhos, do hálito que mistura o cheiro

do cigarro e de alguma bebida que não sei dizer qual é. Da boca que torna a
missão quase impossível.

— Sim, você precisa ir... — Gabriel não tem tempo de terminar


a frase, pois sua boca está ocupada com outras atividades.

O beijo não é carinhoso, calmo ou delicado. Gabriel não segura a


minha cintura com carinho e sim com firmeza. Nossas bocas se devoram com
voracidade e as línguas se procuram com loucura. As respirações estão fora
do compasso e, para mim, não importa quem sou e nem quem ele é. O mundo

poderia acabar agora que eu não teria me dado conta, não quando meu corpo

e meu coração experimentam reações nunca antes sentidas. Não com a


mesma intensidade e nem com a mesma urgência.

— É melhor... — fala ainda dentro da minha boca, enquanto


tenta, aos poucos, encerrar o beijo — você subir...

Passa a beijar meu pescoço e sinto sua língua lambê-lo,


despertando sensações que atingem todas as minhas terminações nervosas,
acabando no ponto entre as pernas, onde minha calcinha está úmida pelo
desejo que um único beijo trouxe à tona.

— Suba, morena, antes que faça alguma coisa da qual se


arrependerá amanhã — fala baixinho ao meu ouvido e sua voz rouca pelo
tesão faz com que um arrepio de desejo suba como brasa pelo meu corpo. —
Você me odeia, lembra? Disse que não suportaria a ideia de fazer sexo

comigo. Não é isso que você quer.

Eu quero! É o que grita uma voz na minha mente e, mesmo


assim, decido recuperar a lucidez para me afastar do seu toque sedutor. Com
as pernas bambas e o sangue pegando fogo, vou na direção das escadas.

— Boa noite, Gabriel — digo e não fico para ouvir a resposta.

Quando entro ofegante e tranco a porta com chave, apoio as


minhas costas contra ela, enquanto me pergunto o que acabou de acontecer na
sala. Gabriel e eu nos beijando e conversando civilizadamente. Foram tantas

coisas que só posso chegar a uma única conclusão: estou ferrada, muito
ferrada!

Era mais confortável quando eu somente desprezava Gabriel


Souto, quando não o desejava e, pior, quando não o via como um homem

capaz de gestos e palavras carinhosas como as que ele falou antes de nos
beijarmos.

Quem é, na verdade, Gabriel Souto?

É o questionamento que aquele encontro me deixou. Beijos e


toques que trouxeram o desejo de descobrir a resposta para tal pergunta. Sei
quem Gabriel é agora, ficou claro quando fez ameaças a meu pai e me impôs
um casamento sem amor. O que eu não sei e tenho desejo de descobrir é
quem foi Gabriel no passado, o que o trouxe até aqui e o transformou no

homem que é hoje.

O dia, que parece ter durado semanas, terminou de uma forma


inesperada para nós dois. Não tenho ideia de como será amanhã, só tenho
certeza de que nada será como eu imaginei, considerando que antes não
contava com o beijo apaixonado que acabamos de trocar e menos ainda com
o fato de estar odiando-o menos do que quando desci as escadas minutos
atrás.
— Bom dia.

Bem cedo, entro na cozinha e, sem que estivesse esperando,


encontro Luana sentada à mesa, tomando o que parecer ser café preto puro e

comendo uma torrada com queijo. Minha mulher está arrumada para sair, fato
que me deixa bastante curioso, já que não imagino para onde ela irá a essa
hora.

— Bom dia, tudo bem? — cumprimenta, acanhada, como se


fôssemos desconhecidos.

De certa forma, nós somos, apesar de estarmos casados agora,


mas o problema é que sei que a única razão do seu desconforto é o que
aconteceu entre a gente ontem de madrugada.

O beijo que eu não estava esperando, que não foi planejado e, no


fim, acabou acontecendo. Estava tendo um momento comigo mesmo, na
companhia do meu copo de bebida e do cigarro, quando ela apareceu.

Mesmo depois de eu ter dito que não queria vê-la na minha


frente, Luana foi corajosa e se sentou, fazendo-me companhia. Não brigamos

como sempre acontece, pelo contrário, conversamos e nos beijamos. Um


beijo que me obrigou a resolver meu problema embaixo do chuveiro.

Gozei na minha mão, como há muito tempo não fazia e enquanto


me masturbava, sua imagem apareceu na minha mente. Cenas de quando a
tive em meus braços e até mesmo cenas imaginadas de nós dois sobre a
minha cama, transando da maneira como desejo comê-la.

Se sua aparência — que por algum motivo teima em


menosprezar — já tinha despertado meu interesse, beijá-la sem ser mordido

aumentou em níveis altíssimos o desejo e a atração física que sinto por ela.
Diferente do que aconteceu em algum momento ontem à noite, agora sei que
já não tenho o poder de escolher se vou ou não me envolver fisicamente com
minha esposa, pois sinto que não é mais algo que eu possa controlar.

Sei que, se a oportunidade aparecer — como aconteceu ontem à


noite — , não poderei fugir do seu fascínio, do seu cheiro e nem da boca que
parece ter sido feita para os meus beijos.

Não acredito que isso seja mais do que atração física, até porque
somos diferentes em vários níveis e mal conseguimos ficar próximos sem
querer voar no pescoço um do outro. Acredito no poder da atração física, no
tesão, no sexo e se trouxe Luana para meu mundo pelo prazo de um ano, por
que não tornar a experiência mais prazerosa para nós dois?

As nossas brigas e guerras de palavras são instigantes, mas usar


o tempo em que estaríamos brigando para fazermos sexo suado e duro será
ainda mais prazeroso.

Ontem, na hora em que estávamos discutindo no seu quarto, eu


disse que ela era minha e felizmente sua entrega me mostrou que acontecerá
do jeito mais fácil. Não precisarei persuadi-la com jogos de sedução ou
presentes caros, ela virá até mim por livre e espontânea vontade e estarei
esperando de braços abertos, literalmente.

— Fazia tempo que eu não conseguia dormir como aconteceu


ontem à noite. Nunca estivesse tão relaxado — insinuo, ao arquear a
sobrancelha, crendo que ela entenderá bem o motivo do meu alívio.

— Que bom para você e sobre ontem à noite...

— Ontem à noite? — incentivo, já que ela parece tímida para


falar.
— É melhor esquecermos, não vai mais se repetir — afirma, sem
a menor convicção na voz.

— Tem razão, não vai mais acontecer. Você sabe que eu


adoraria, mas já que não quer, vou respeitar suas vontades — minto ao
perceber que será melhor se mudar minha forma de abordagem.

Para que dê certo, ela precisa pensar que está no controle e, sem

fazer qualquer pressão, conseguirei com que venha para os meus braços, sem
que precise implorar.

— Sério?

No seu rosto, existe a desconfiança e ela tem razão em não


acreditar em mim, considerando que ontem à noite eu não estava lhe dando
qualquer escolha. Ainda não estou, ela só não sabe e nem perceberá isso até
que seja tarde demais e esteja na minha cama, sendo minha.

— Seríssimo! Depois de ontem e do nosso beijo, percebi que não


quero passar um ano inteiro gastando energia com as nossas discussões e já
que estamos casados, vamos tentar fazer com que estes meses sejam os mais
agradáveis possíveis. Não digo que serei um príncipe encantado, pois as
circunstâncias que nos trouxeram até aqui mostram exatamente o contrário,
mas prometo que pelo menos tentarei ser seu amigo.

— Não sei se acredito em você, não depois de tudo que fez e


disse, mas se estiver sendo sincero, agradeço.

No seu rosto, há um misto de desconfiança e outro sentimento


que não está claro para mim. Seria insatisfação? Decepção?

Talvez seja decepção, ou talvez seja só a minha vontade falando


mais alto e ela realmente esteja contente com minha proposta de trégua. De
qualquer forma, sou eu quem está dando as cartas, apostei em uma tática e só

espero ter feito a aposta certeira.

Se não tiver feito, recomeçarei tudo outra vez e farei isso quantas
vezes for necessário, pois se há alguns dias eu estava me ressentindo com a
previsibilidade e o vazio em minha vida estava mergulhada, no momento
acredito que ela seja a resposta. É a pitada que faltava aos meus dias, o
desafio que eu estava esperando e o jogo que precisa ser vencido.

Em Luana, existe alguma coisa que me incomoda muito, que


remete a alguém que eu fui um dia e hoje desejo esquecer. Tenho a sensação

de que existe algo que a puxa e ao mesmo tempo a repele para longe de mim.
Uma batalha entre o que eu quero ser e o que eu realmente sou, do desejo de
possui-la e da vontade de protegê-la de mim.

— Está tudo bem com você?

— Oi?

— De repente, você ficou calado, olhando para mim de um jeito


estranho...

— Eu sou estranho, morena. Para o bem da nossa amizade, é


bom que entenda isso. Nem sempre estarei em um bom dia e quando isso
acontecer, eu...

— Eu entendo — corta, ao colocar sua mão sobre a minha que,


sem perceber, coloquei sobre a mesa. Também como não me dei conta do

momento em que puxei a cadeira mais próxima e me sentei ao seu lado, com
o corpo e o rosto tão próximos aos seus. — Acho que saberei lidar com esses
dias, afinal tenho conseguido até agora, não é mesmo?

— Soube mesmo — confesso, pois não tenho como me esquecer


de como ela me responde de igual para igual nas nossas discussões. — Está
pronta para sair? Está tão cedo.

— Tenho que ir para o hospital, sou enfermeira, lembra? Tenho


certeza de que você mandou investigarem a minha vida e já sabe disso — fala

e não sinto um tom acusatório na sua voz.

— Acho que será melhor para nós dois se você deixar de


trabalhar, Luana. Não será bom para a minha imagem, que já não é das
melhores, ter uma esposa que trabalha fora quando posso perfeitamente
sustentá-la.

— Não preciso te lembrar que esse casamento tem prazo de


validade, não é mesmo? E que, mesmo estando aqui nessa mansão, tenho um
pai que precisa de mim?

— Você não está...

— Nós acabamos de conversar sobre sermos amigos, Gabriel, e


para que isso seja viável, te peço para não insistir mais nesse assunto. Não
vou deixar o meu trabalho. Sinto muito se isso frustra os seus planos para

esse casamento, mas isso não está em negociação.

— Está bem — digo a contragosto, pois realmente não lembrava


que ela era enfermeira e muito menos esperava que fosse bater o pé para
continuar trabalhando. — Só tenho uma condição.

— Condição? — indaga, desconfiada.

— Você não sai sem o meu motorista. Ele vai te levar para onde
for e, como bem falou, esse assunto também não está em negociação.

— Eu não vou fazer isso, esquece!

— Você vai sim!

— Não vou!

Mais uma vez, estamos com os narizes praticamente colados e


esta certamente não é a cena romântica que antecede um beijo. Na verdade,
estamos os dois com as narinas infladas, como se estivéssemos prontos para
iniciar uma guerra. Uma guerra de vontades.

— Não tem como isso dar certo! — Irritado, bato com o punho
fechado no tampo da mesa e em seguida levanto-me, na intenção de me
afastar dela. Ir para o mais longe possível é o melhor a se fazer para evitar um
confronto. Foi o que, com muito custo, aprendi na pior fase na minha vida. —
Você não pode ceder nunca, porra?

— Pare de xingar, não suporto isso!

— Acostume-se, pois sou assim e não será por você que mudarei
— digo sem pensar, arrependendo-me ao ver o cansaço e a tristeza nos seus
olhos.

— Não pedi e nem espero que faça isso — afirma.

— Não queria ter dito isso — justifico-me, mesmo que não seja
verdade. — Desculpe. Agora, dá para ser só um pouquinho menos cabeça

dura? O que custa fazer o que estou dizendo? Cedi ao seu desejo de continuar
trabalhando, por que não pode fazer o mesmo por mim?

— Você está certo, lindo. — Respiro aliviado quando ela enfim


recolhe as garras e também fico surpreso com o tratamento carinhoso, embora
ela, aparentemente, não tenha se dado conta do que acabou de fazer. — Eu
exagerei.

— Temos que aprender a controlar nossos gênios para não


ficarmos o tempo todo batendo de frente — sugiro ao me aproximar dela, que

já está se levantando da cadeira.

— Mais uma vez, concordo com você. Que estranho! — brinca.


— Agora tenho que ir, não posso me atrasar.

— Também tenho que ir para o Sensations. Espere só um


segundo, vou pegar minha pasta e a gente sai junto.

— Olhe, Dom, veja se não é o recém-casado. — Mal terminei de


chegar e os dois patetas já estão na minha sala sem qualquer motivo, apenas
pelo prazer de atrapalhar meu trabalho. — Pensei que você passaria pelo

menos dois dias em casa, curtindo sua mulherzinha.

— Eu disse isso? — Sou seco no meu questionamento, na


esperança de eles me deixarem quieto para trabalhar.

— E precisava? — Dom indaga, surpreso. — Com uma mulher


gostosa como a sua, eu pediria licença do trabalho por uma semana. Sete dias
perdido naquelas curvas...
— Olhe como fala da minha mulher, caralho! — esbravejo,
irritado como nunca.

Na verdade, essa é a forma que sempre trataram as mulheres


com quem me envolvi. Eu dava liberdade e não ficava nem um pouco
incomodado com as brincadeiras, mas dessa vez estou mais do que
perturbado, devo admitir, e tudo por culpa da morena bocuda que só me dá

trabalho. Desde o primeiro olhar que trocamos, não tive um segundo de paz

Luana é um caos estimulante, mas, ainda assim, um caos.

— Vejo que temos alguém possessivo aqui? — Lucas incita,


como sempre.

— Você também seriam, se estivessem falando da sua mulher —


pondero.

— Ninguém é cego e não temos culpa de ela ser deliciosa.

— Fora daqui os dois! — ordeno já em pé, empurrando ambos


pelas costas, rumo à porta.

— Eu tenho algo para tratar com você, Gab, mas acho que pode
esperar até que esteja com a cabeça no trabalho e não na gostosa.

— Fora! — Termino de colocar os dois para fora e enfim posso


voltar para o que estava fazendo, quer dizer, tentando fazer.
Talvez os dois tenham razão em suas brincadeiras e eu realmente
esteja com a cabeça na minha mulher e não no trabalho, o vício mais

saudável que tenho cultivado nos últimos 10 anos.

Há 10 anos vivo para este cassino e nem por um segundo me


arrependo de ter dedicado cada minuto dos meus dias para tornar esse espaço
um negócio de sucesso. Hoje, posso dizer que atingi o meu objetivo. Por

meios que nem sempre foram honestos e cultivando uma fama nada lisonjeira
na cidade, consegui o que tanto queria.

Nunca mais passei necessidade e, principalmente, nunca mais


estivesse com a cabeça vazia pelo tempo necessário para pensar em fazer
alguma besteira.

O sucesso teve o seu preço — como tudo na vida tem — e o que


me consola é saber que o preço nunca foi maior do que o que eu poderia
pagar.

As horas parecem se arrastar, sinto vontade de dar o expediente


por encerrado e, pela primeira vez, me ressinto por não ter uma rotina
saudável de trabalho, por ter que ficar até às 3h da madrugada andando pelos
salões de jogos, de olho em tudo que acontece ao meu redor. Uma rotina
desregrada que nenhuma outra pessoa suportaria. Na verdade, a intenção foi
nunca ter alguém com quem dividir a minha casa ou o meu tempo.
Com a mídia passando dos limites com as insinuações ao meu
respeito e o secreto desejo de ter alguém para compartilhar nem que fosse

algumas conversas superficiais, a ideia de me casar surgiu de repente e, assim


que surgiu, não parei para pensar nos detalhes.

Não imaginei que a oportunidade apareceria tão rápido e nem


que seria com alguém como Luana, uma mulher que talvez precise de

companhia até se adaptar à minha vida, assim como não imaginei que eu
mesmo ficaria louco para ir para casa ver pessoalmente se ela está bem.

Já passa da meia-noite quando dou o expediente por encerrado,


deixando o fim da noite nas mãos dos meus dois homens de confiança, e
parto para casa.

Ao adentrar na sala, percebo que está tudo escuro, o que


significa que Luana provavelmente está dormindo há um bom tempo, tendo
em vista o avançado da hora.

Depois de ir até a cozinha e tomar um copo de água bem gelada,


estou prestes a subir para minha suíte, quando um pequeno barulho chama a
minha atenção. Paro de subir os degraus, espero para me certificar de que o
som não foi coisa da minha cabeça e mais uma vez o ouço.

O som vem de um dos sofás e, quando me aproximo, encontro


minha esposa dormindo no maior deles. Luana está encolhida, obviamente
pelo frio que deve estar sentindo, afinal estamos em pleno inverno e ela não
jogou sequer uma manta sobre o corpo. Um corpo tentador que não deveria

estar usando uma camisolinha tão sexy, não para dormir sozinha.

— Acorde, morena — chamo baixinho perto do seu ouvido,


enquanto sacudo seu ombro com cuidado para não a assustar. — Vamos para
a cama.

— Hummm — geme baixinho, tendo dificuldade para acordar.

— Por que não está dormindo na sua cama?

— Estava... — começa a responder, demorando para concluir o


raciocínio — esperando você chegar.

Enquanto fala, minha mulher continuar com os olhos fechados e


não tenho certeza se ela está totalmente desperta.

— Me esperando?

— Sua casa é muito grande — explica e imagino que deve ter se


sentido solitária, o que não é muito difícil, pois, mesmo com meus fantasmas,
também me sinto solitário algumas vezes.

Não existem nem mesmo funcionários para tornar a casa menos


vazia. A solidão era o que queria quando comprei uma residência tão
espaçosa e por isso não tenho sequer um trabalhador fixo. Tenho somente o
motorista, a diarista que vem três vezes por semana e, por fim, o jardineiro

que mantém a área externa da casa bem cuidada.

— Vamos para o quarto? — chamo e, como resposta, ela solta


outro gemidinho e vira as costas para mim, o que é um grave erro da sua
parte.

A bunda grande fica quase toda descoberta e deixando-me

excitado de maneira instantânea, o que prova que essa mulher precisa de bem
pouco para despertar o meu interesse. Basta a visão da bunda — muito boa
— que nem veste nada sensual, como outras mulheres fazem quando querem
seduzir seus homens. Pelo contrário, ela veste uma calcinha comum, eu diria
até broxante, se a ereção não estivesse a ponto de rasgar minha cueca.

— Venha, morena, aqui está muito frio. Você vai congelar.

Pego-a nos meus braços e ouço o seu protesto.

— Sou muito pesada...

— O peso de uma pluma. — Sinto certa dificuldade para


concluir o pensamento quando Luana encaixa o rosto no espaço entre o meu
pescoço e ombro. O calor da sua respiração contra a minha pele requer toda
minha concentração para conseguir subir para o seu quarto sem nos levar ao
chão.

Depois que a tenho deitada e coberta por uma manta quentinha


na sua própria cama, fico um tempo sentado, observando o quão serenamente

ela dorme. Bem diferente do que acontece comigo, que só consigo dormir

bem quando estou caindo de exaustão.

Ignorando o bom senso, decido ficar mais um tempo velando o


sono da minha esposa. Deito do seu lado, tomando cuidado para não tocar seu
corpo e incomodá-la.

Só mais um pouquinho, foi o que disse a mim mesmo todas as


vezes em que percebi que estava na hora de ir para o meu próprio quarto e,
depois de um tempo que não pude calcular quanto foi, acabei caindo em um
sono tranquilo, longe de qualquer sonho ruim.

Um sono tão bom que não parei para pensar em qual seria a
reação de Luana pela manhã ao me encontrar dormindo do seu lado. Tudo
depois de ter mentido ao dizer que seremos somente amigos, algo que se
depender apenas de mim, jamais acontecerá. Não quero e não posso ter

apenas uma relação platônica com Luana, não quando meu corpo queima de
desejo pelo dela.
Algum tempo depois.

— Oi, garoto das bebidas, tudo bem por aqui? — cumprimento,


vendo seu rosto ficar surpreso pela minha presença inesperada.

Entendo seu choque, afinal não venho ao Sensations desde o dia


em que tomei um porre, passei vergonha e deixei Gabriel furioso. Se bem que
não é tão difícil assim deixar meu marido furioso. O homem tem o pavio
curtíssimo e fico me perguntando que tipo de problemas ele teve na infância
por conta da sua personalidade difícil.

— Sim, senhora Souto — responde com a formalidade que não


teve da primeira vez, o que é muito irritante. Sou apenas a esposa temporária
do dono da boate ou cassino, não sei bem especificar, e não a rainha da
Inglaterra.

— Me chame de Luana, tudo bem? — Ele assente com a cabeça.


— Pode trazer uma cerveja, por favor? — peço, deixando de lado os vinhos.
A última vez provou que não sou muito resistente a eles, então é melhor
evitar problemas quando tudo está indo tão bem entre Gabriel e mim.

Já se passaram três semanas desde o nosso casamento. Três


semanas que passaram rápidas e tranquilas demais, tendo em vista a forma
como eu imaginava que seria a minha convivência com o demônio loiro. A
realidade é tão diferente que chega a me assustar quando paro para pensar.

Depois que tivemos a conversa em que ele, surpreendentemente,


pediu uma trégua e afirmou que queria ser meu amigo, as coisas aconteceram
diferentes do que eu esperava, a começar pela minha reação à sua proposta de
amizade. Percebi que não senti o alívio que deveria, muito pelo contrário,

fiquei incomodada com sua facilidade em propor tal amizade, quando eu


ainda estava sem fôlego pelo beijo apaixonado que tínhamos trocado.

Eu, a pessoa que supostamente deveria estar sofrendo com o


término de um namoro de anos e também odiando o responsável pelo
rompimento, estava mais preocupada em descobrir os motivos da sua
rejeição. Sim, de maneira irracional, foi o que acabei sentido quando voltou
atrás nas suas ameaças de me fazer sua.

Porra! Eu queria ser dele naquele momento. De maneira patética,


depois de um único beijo, me vi completamente rendida a uma atração física
inesperada.

— Aqui está sua bebida.

O garoto coloca a caneca sobre o balcão e já viro um grande


gole, o que não foi uma boa decisão, pois a bebida está muito gelada.

Enquanto observo com atenção o gás borbulhar dentro da caneca


de cerveja, meus pensamentos me levam para a manhã em que acordei com
sua presença ao meu lado.

Lembro-me de ter chegado em casa às 18h, depois de ter saído


do hospital e passado para ver meu pai. Em seguida, fui tomar banho e depois
desci para assistir alguma coisa na TV, que mais parece a tela de um cinema.

Nada prendia a minha atenção e meus pensamentos insistiam em ir para


Gabriel, a nossa última conversa e o desejo de confrontá-lo mais uma vez
para ver se havia mudado de ideia ou ainda queria ser meu amigo. Quando
deu meia-noite, minha ficha caiu para o fato de que ele é dono de um cassino
e que, provavelmente, não tem o costume de chegar em casa cedo. A
madrugada deve ser o horário mais lucrativo do Sensations e ele certamente
fica lá, acompanhando tudo.
Ao ser vencida pelo sono, decidi subir para meu quarto, mas foi
somente para me convencer de que não aguentaria ficar na cama, sozinha.

Desci novamente para a sala, deitei no sofá e acabei dormindo. Quando


acordei, estava no quarto e não estava sozinha.

Com o braço em volta da minha cintura, deitado de frente para


mim e com o rosto muito próximo ao meu, Gabriel dormia sereno como um

anjo. Tão lindo que cheguei a sentir um frio na boca do estômago só de


pensar nisso. Um homem que jamais pensei conhecer pessoalmente, que via
apenas pelos escândalos em que vivia envolvido e não posso negar que
sempre o achei muito bonito, o tipo que não daria um segundo olhar na minha
direção.

Hoje, não só estou casada com ele, mas também descobri que
sua beleza é apenas uma capa. Gabriel é um homem complexo, talvez mais
do que quero perceber. Está envolvido em um negócio perigoso e eu gostaria

de continuar detestando-o, assim pelo menos não me preocuparia tanto com


ele.

Depois que o peguei na minha cama e vergonhosamente beijei os


seus lábios enquanto ele dormia, voltei a fingir que estava dormindo quando
ele se mexeu e acordou. Moveu-se algumas vezes sobre a cama e, antes de
sair, Gabriel fez o mesmo e beijou minha boca, achando que eu não estava
consciente.

Depois desse dia, as semanas passaram da forma como ele


planejou: nos dois tentando manter a boa convivência, apesar dos poucos
encontros por causa da incompatibilidade de horários e, em algumas
ocasiões, soltamos pequenas faíscas por discordarmos de algumas coisas.
Existe também a fagulha de desejo, da lembrança de um beijo que não sai da

minha cabeça. Sinto o perigo que ele representa me rondar e, ao invés de


querer fugir, desejo mergulhar nesse perigo, jogar-me de cabeça nas águas
profundas do desconhecido.

Hoje, em plena noite de sexta, aqui no seu maravilhoso bar, me


dou conta de que estou trilhando um caminho sem volta na fixação por um
homem que não permanecerá na minha vida e que entrou nela de uma forma
que deveria ser o suficiente para me manter afastar dele.

Quanto às suas reações ao nosso arranjo, não tenho como saber o

que se passa na sua cabeça ou se é tão difícil para ele quanto é para mim. Às
vezes, penso que Gabriel realmente esqueceu a ideia de me fazer dele, como
ameaçou mais de uma vez. Em outras ocasiões, penso o contrário e suspeito
que ele esteja fingindo algo que não sente e sendo quem não é, apenas para
me obrigar a ir até ele e pedir com todas as letras para que me leve para sua
cama.
Imagino que deve ter percebido que, da forma como estava
fazendo, só aumentaria minha resistência aos seus avanços. São teorias

criadas depois de horas pensando e que podem ser verdadeiras, mas também
podem ser apenas fruto da minha mente iludida e fantasiosa.

Em algum momento nos últimos dias, principalmente depois do


beijo, deixei de odiar o diabo loiro para nutrir um incômodo desejo e também

uma insegurança ao pensar que ele tão facilmente desistiu de me fazer sua
mulher. Essa ameaça costumava ser algo que me apavorava e agora ao pensar
que ela não irá se cumprir, minha frustração cresce.

— Finalmente deu as caras, senhora Souto. Decidiu sair da toca?


— Ouço a voz assim que a dona senta na banqueta que está ao lado da minha.

Aqui está! A mesma negra linda, porém antipática, que esbarrou


em mim há algumas semanas e me tratou com o mesmo carinho de agora.

— Conheço você? — Sou esnobe, mostrando que sei responder

à altura do que ela merece por me tratar tão mal sem ao menos me conhecer.

Lembro de ter suspeitado que ela era namorada do Gabriel na


época e por isso estava sendo tal mal-educada comigo. Nesse momento, ainda
tenho a mesma suspeita e o ciúme começa a, lentamente, corroer minhas
entranhas. Não gosto de vê-la aqui e muito menos das ideias que começam a
surgir na minha mente.
É difícil não ficar paranoica quando vejo uma mulher tão bonita
na minha frente e sei que já passou tempo demais desde o nosso casamento e

que um homem como ele não ficaria sem sexo por um período tão longo.
Percebo que ele ainda não tentou nada comigo porque está se satisfazendo
fora da casa. Se não é com essa antipática, é com outra qualquer.

Que idiota você é, Luana, tendo fantasias românticas e bobas

com um cara que já mostrou não ter um pingo de decência e, pior, que jamais
olharia para você como deve olhar para mulheres como a beldade à sua
frente. Ela sim faz o estilo de homens como ele e não mulheres como você,
que está acima do peso, tem celulites, estrias e, de quebra, um emprego que
demanda o tempo que elas devem ter para ficar à toa, cuidando da aparência.

Em momentos como esse, eu só queria estar em casa — como


tenho feito ultimamente —, mal vendo a hora que ele chega, depois de uma
madrugada de trabalho ou, quem sabe, vindo dos braços de uma amante.

Em momentos como esse, eu só queria estar bêbada!

— Você não deve me conhecer, mas o seu marido me conhece


muito bem, se é que te interessa saber — ela faz insinuações, querendo me
envenenar. Talvez ache que sou burra a ponto de não ter percebido isso
sozinha.

— Não interessa, na verdade — tento cortá-la, mas ela está


disposta a continuar.

— Mesmo assim, vou contar — afirma. — Se estou aqui, é


porque o seu maridinho mandou me chamar. Disse algo sobre estar carente
desde a última vez que nos vimos.

Vejo nos seus olhos o prazer em contar para a esposa do amante


os detalhes do seu affair.

— Poxa, sinto muito por você ter dado viagem perdida, querida,
só que hoje eu estou aqui e você não vai se encontrar com meu marido. Sabe
por quê? — pergunto, sem deixar que ela tenha chance de responder. — Eu
não vou deixar.

— Você é muito idiota, garota.

—Posso até ser idiota, mas sou a mulher do Gabriel e você não
passa de uma amante.

— Você vai me pagar por isso, sua gorda idiota — ofende-me


antes de virar as costas e sair batendo os saltos furiosos contra o piso.

Quando estou sozinha, termino de virar o copo de cerveja,


esperando que a bebida gelada esfrie o sangue que corre quente nas minhas
veias. Estou tão furiosa que minhas mãos chegam a suar. Tento respirar
fundo, contar até três, mas de nada adianta. Quando dou por mim, já estou
indo para o subsolo atrás do traidor.
Nunca fui tão humilhada e a culpa é toda dele por ser tão safado,
por não ter dito com clareza que estava dormindo com outra quando exigiu

que eu deixasse o Gustavo. Culpo-o por não saber controlar as suas amigas e,
principalmente, culpo a mim mesma por ter deixado que isso acontecesse, por
estar cega de ciúme quando não tenho esse direito.

— Preciso falar com você!

Entro sem bater e três pares de olhos me encaram cheios de


surpresa. Gabriel está acompanhado e imagino que estes dois sejam os seus
comparsas em tudo, principalmente na safadeza.

— Luana? O que está fazendo aqui tão tarde da noite?

— Não posso?

— É claro que pode, não foi isso que eu...

— Já disse, preciso falar com você a sós! — Olho para os dois

homens e eles parecem se divertir com a cena que não é nada engraçada.

— Estamos de saída, gata. Terá o seu marido só para você — o


mais jovem fala e a vontade que tenho é de tirar o sorrisinho do seu rosto
com um tapa.

Assim que eles deixam a sala, Gabriel sai de trás da mesa e vem
para onde estou.
— Morena, o que você...

O tapa que acerta seu rosto não o deixa concluir a fala e me sinto
particularmente aliviada por voltar a ver sua verdadeira face, nada do Gabriel
cheio de tato das últimas semanas. Aquele não era ele e preciso descobrir que
jogo está fazendo comigo. Mas antes, eu tenho que dizer algumas verdades e
controlar o meu ciúme sem propósito.

— Você enlouqueceu, caralho! — Segura os meus ombros e me


sacode, mas não com força suficiente para me machucar. Parece mais que ele
pensa que estou sob o efeito de alguma substância que me tira a capacidade
de raciocínio e quer me puxar para a realidade. — Qual é o meu problema,
porra? Me fale! — Ao invés de furioso, agora Gabriel parece desesperado.

— Me solte!

Desvencilho-me das suas mãos e fujo para longe, mais


especificamente para junto da parede que fica ao lado da porta.

— O que você usou, morena? Preciso que me fale.

— Bebi uma cerveja, só isso. E enquanto bebia, fui humilhada


por uma das suas amantes, que não perdeu a chance de falar o quanto você
sentiu a falta dela nos dias em que ficaram sem se ver.

Quando termino de relatar o ocorrido, sua expressão muda da


água para o vinho e ele começa a sorrir. Como o idiota que já provou ser, ele
simplesmente ri da minha cara!

— Me recuso a perder tempo com você, seu idiota! Aliás, não


sei o que estou fazendo aqui.

Viro-me para ir embora, mas ele chega antes e me impede, ao


segurar meu braço e me puxar para o seu corpo.

— Não vá embora, morena — pede. — Por que não ligou


avisando que viria?

— Avisar para quê? Para você pedir para a sua amante não vir
hoje?

Tento me afastar, mas ele torna a missão impossível ao me


abraçar mais apertado pela cintura.

— Percebeu que está agindo como uma esposa ciumenta? — Seu


sorriso é tão bobo que tenho vontade de gritar. — Pensei que tínhamos

combinado de sermos somente amigos.

— Nós somos amigos, ou pelo menos achei que fôssemos,


porque se essa amizade fosse verdadeira, você não estaria mentindo para mim
— afirmo.

— Não menti para você, meu bem. Não precisa ficar com ciúme.

— Eu não estou!
— Está sim. Não negue o sentimento que está estampado na sua
cara. Você está louca para ser minha mulher em todos os sentidos da palavra,

assim como estou louco de vontade de ser o seu homem. Fale, morena, diga
que estou enganado e nos continuamos como estávamos até um minuto atrás.
Se disser o contrário, vou fazer com você o que venho desejando há muito
tempo. — Nos seus olhos, existe a intensidade e a crueza de quem não faz

promessas que não pode cumprir. — Me fale o que você quer de mim: o
homem ou a amizade? — A sua pergunta revela que eu não estava iludida ao
pensar que ele quer mais do que minha amizade.

— Quero o homem, o meu marido pelo tempo que isso durar. —


Sou direta, entendendo que não posso passar mais tempo fingindo.

— Serei só seu e você será minha — afirma, cheio de convicção.

Espero sentir o mesmo incômodo que as palavras de Gustavo me


causaram, mas a irritação não vem e, no seu lugar, sinto um prazer quase

obsceno ao ouvi-lo dizer algo que tanto me incomodava.

— Só quero te levar para casa agora — continua, começando os


beijos pelo meu pescoço. — Faz tanto tempo...

— Não quero atrapalhar o seu trabalho. — Tento fugir dos seus


beijos, não por não os querer, mas sim para não começar algo que não
poderemos continuar agora.
— Estou muito feliz que tenha vindo, apesar de achar que aqui
não é lugar para você — diz, dando beijos leves nos meus lábios.

— Estava doida para te ver — confesso. — Os nossos horários


são tão incompatíveis que eu só queria estar perto de você por mais de 20
minutos.

— Talvez as coisas mudem a partir de agora, já que temos coisas

mais interessantes para fazer e que demandam mais tempo e dedicação de nós
dois. — Gabriel refere-se ao sexo e prefiro não pensar na cena de agora há
pouco. Prefiro conversar sobre isso depois, quando deixarei bem claro os
termos do nosso novo arranjo.

— Vou deixar você trabalhar. Em casa, a gente conversa melhor.

— Espero que não esteja pensando em mudar de ideia — diz e


eu nego a possibilidade com a cabeça. — Ao invés de ficar em casa sozinha,
o que acha de ficar aqui, me esperando? Juro não demorar mais que o

necessário. Você pode sentar ou deitar naquele sofá, te garanto que não será
nenhum sacrifício trabalhar sabendo que tenho você à minha espera. Fica,
morena?

Ele beija meus lábios, com leveza e superficialidade, fazendo-me


acreditar que ele não quer começar algo que não podemos levar adiante no
momento, pois, se for como da última vez, estaremos indo do beijo ao sexo
em um piscar de olhos.

— Claro que espero. Não queria ficar sozinha mesmo. — Dou


de ombros, mas na verdade fico contente por estar no escritório dele, sem que
estejamos brigando como da última vez.

Por umas duas horas, fiquei no meu canto, ora mexendo no


celular, ora observando-o trabalhar. Às vezes, o via observando algumas

câmeras pela tela de uma enorme TV que fica na parede à frente da sua mesa.
As imagens mostram todo o espaço do cassino e, mesmo com elas, Gabriel
ainda saiu algumas vezes para resolver problemas. Ele, apesar de
aparentemente gostar de trabalhar, não esteve totalmente concentrado no que
fazia, já que vez ou outra eu o flagrava olhando para mim. Flagrava porque
eu também estava olhando para ele. Gabriel não conseguiu esconder as
promessas e nem a expectativa do que espera da nossa relação a partir de
agora e suponho que eu também não tenha conseguido.

Quando estava prestes a cochilar sobre o sofá tão macio quanto o


da sua casa, ele me acordou para irmos embora. No banco traseiro, enquanto
seu motorista dirigia em silêncio e com um fone no ouvido, nós dois também
seguimos calados, num silêncio confortável, em que olhares eram trocados,
mãos se esbarravam e dedos se entrelaçavam.

Não estamos voltando para casa da mesma forma que saímos,


uma decisão foi tomada e, no fundo do meu coração, só espero ter feito a
melhor escolha ao decidir viver sem medo e explorar os sentimentos confusos

que nutro pelo meu marido. Quando acabar — como eu sei que vai acontecer
— não levarei o arrependimento de não ter feito o que desejei. Certo ou
errado, hoje Gabriel é a pessoa que me atrai como um ímã e não viver essa
história até onde pudermos ir deixou de ser uma opção a partir do momento

em que ele disse que queria o mesmo que eu.


— Posso ficar aqui com você? — pergunto, ao deitá-la sobre sua
cama.

— É claro que pode — responde com a voz grogue de sono.

Passa das 3h da madrugada e a Luana veio cochilando no carro, algo que


seria um soco no meu ego senão fosse tão tarde e ela não estivesse cansada
do dia de trabalho no hospital.

Agora que as coisas irão mudar entre a gente, a ideia de levá-la


para o meu quarto parece muito atraente. Só espero que ela não pense que
estou indo longe demais quando fizer o convite e saia correndo. Sei que estou
indo com muita sede para algo que pode não dar certo. Sim, até para coisas
mais simples, como a decisão de transar com a minha própria esposa, existe a
possibilidade de dar errado.

Pode acontecer de não sermos compatíveis na cama — o que eu


duvido muito —, ela pode se arrepender e querer voltar para a amizade —
que da minha parte nunca existiu — e, por fim, existe a chance de eu estragar
tudo, o que não seria nenhuma surpresa, pois, querendo ou não, eu sempre

afasto as pessoas que, de alguma forma, são ou correm o risco de se tornarem


importantes para mim.

Há muitos anos, quando deixei para atrás alguém que estava se


tornando uma amiga muito querida, a decisão abriu uma ferida que nunca foi
fechada por completo. Deixei para trás alguém de coração tão puro, que só de
estar com ela, minha alma escurecida ganhava um pouco de luz. Nunca mais
cheguei perto do local em que nos encontrávamos, nunca tive coragem de
procurar por ela, mesmo sabendo que conseguiria encontrá-la com facilidade.

Minha presença não faria nenhum bem a ela — como não fazia
antes —, por isso prefiro não a trazer para meu mundo, nem quero que ela se
lembre de alguém que não merece um único pensamento.

Mas eu nunca a esqueci e, onde quer que eu vá, carrego na pele a


marca da sua presença na minha vida, a lembrança de quem fui um dia e do
que me tornei por sua causa.
A mulher que dorme como um anjo faz com que eu me sinta
bem, quase como acontecia anos atrás com a garota que, sem nada perguntar,

me fazia um bem que ela nem podia imaginar.

Com Luana, vivi as três semanas mais atípicas dos últimos anos.
Tive o gostinho de ter companhia, de saber que quando chegasse em casa ela
estaria à minha espera, mesmo que fosse dormindo no sofá. Ter alguém para

conversar — ainda que brevemente — era algo que me fazia falta e eu não
percebia.

Luana tornou-se a amiga que eu sugeri que fosse, isso sendo um


grande erro da minha parte. Nunca quis ser amigo dela e ter que fingir o
contrário foi uma provação. Ficamos mais ligados e, com a proximidade, o
desejo aumentou. Já não posso estar perto sem desejar beijar sua boca e todas
as partes do seu corpo, sem querer transar com ela quando — não por culpa
sua — estou vivendo como um celibatário.

Estou sem sexo desde antes de casar com a garota e a culpa é


minha por preferir me aliviar sozinho ao invés de ir atrás de alguém que me
satisfaça, coisa que nunca gostei de fazer e por isso mantinha um caso de
anos com Sabrina. Fora ela, ainda transava com outras mulheres, mas era só
quando a oportunidade ideal aparecia e a atração era grande demais para que
eu pudesse resistir.
Agora, além de não ter tempo ou vontade de sair à procura de
sexo fácil, também não quero qualquer uma. Meu corpo deseja Luana e

somente ela, a minha esposa gostosa demais para minha sanidade e que, se eu
não estiver enganado, também estava lutando bravamente para disfarçar a
atração que sentia por mim.

Hoje, a sua cena de ciúme trouxe a oportunidade perfeita que

não pude desperdiçar. Coloquei todas as cartas na mesa e saí vencedor, quer
dizer, nós dois saímos, tendo em vista que finalmente estamos na mesma
página dessa relação que começou de uma forma, no mínimo, equivocada.
Não que ela tenha responsabilidade por alguma coisa, pois, se não a tivesse
arrastado para a minha vida, talvez jamais chegássemos a nos conhecer.

Pela segunda vez em pouco tempo e sob as mesmas


circunstâncias, tive uma excelente noite de sono. Consegui dormir por
algumas horas e, como aconteceu da outra vez, não precisei fumar ou beber

algo para entorpecer meus sentidos. Foi necessária somente a sua presença ao
meu lado, o calor do seu corpo e sua respiração contra o meu pescoço.

Em algum momento durante a noite, puxei seu corpo para perto


do meu, ou talvez ela tenha vindo por conta própria, só sei que agora que a
luz do sol ainda tímido tenta invadir o quarto pelas cortina da janela, estamos
tão juntos que é difícil de saber onde ela começa e eu termino.
Sua cabeça descansa no meu peito, as pernas estão entrelaçadas
nas minhas e seus braços estão envolvendo a minha cintura, assim como

minha mão está em cima da sua bunda. É claro que eu estaria segurando essa
bunda macia após passar dias me coçando para tocar o que considero a oitava
maravilha do mundo. Além da minha mão, existe uma parte específica do
meu corpo que está louco para entrar na festa.

A proximidade entre nossos sexos tem tornado difícil a missão


de ser um cavalheiro quando a minha vontade é acordá-la neste instante e
fazer o que já deveríamos ter feito. Quero rasgar minha camisa que coloquei
no seu corpo antes de ela cair em um sono mais profundo.

— Merda! — esbravejo em um tom de voz quase inaudível


quando tento cuidadosamente levantar da cama sem acordá-la.

Hoje é sábado e ainda é muito cedo para alguém sensato estar


acordado. Mas não me encaixo no time dos sensatos e deveria agradecer por

ter conseguido dormir bem ontem à noite. De qualquer forma, suspeito que
todas as noites ao lado de Luana serão assim.

Depois de escovar os dentes, lavar o rosto e dar um jeito na


incômoda ereção, desço para ver se tem algo minimamente decente para o
café da manhã. No caminho, penso nas mudanças que necessariamente serão
feitas a partir do nosso arranjo. Um é exemplo disso é o número reduzido de
funcionários.

Precisarei contratar alguém para cozinhar para nós dois,


considerando que ela provavelmente não comerá as comidas nada saborosas
que gosto de preparar. Uma alimentação regrada e que garante a manutenção
da minha boa forma, já que minha rotina pesada não me permite frequentar
regularmente a academia já que existia na casa antes de eu comprá-la.

Alguém fixo para limpeza também é indispensável e eu já devia


ter providenciado isso desde o dia em que ela se mudou para cá. De todas as
mudanças, não posso negar que a contratação de pelo menos dois seguranças
é algo que não pode ser adiado. Na verdade, eu já estava providenciando isso,
mas não com a urgência que, de repente, comecei a sentir.

Mesmo que não a esteja deixando completamente desprotegida


enquanto estou no Sensations, vejo o quão arriscado é confiar apenas no
motorista, instruído para me ligar caso presencie alguma movimentação

estranha nos arredores da propriedade. Só não me ocorreu questionar quem


ficaria protegendo minha esposa, quando, no meio da madrugada, ele sai para
me buscar no cassino.

De várias formas, fui tão negligente com o bem-estar da morena


que sinto até vergonha de me preocupar só agora, depois que ela decidiu
fazer sexo comigo. Para qualquer pessoa que visse de fora, certamente ficaria
a impressão de que só o corpo de Luana tem valor para mim, que apenas me
importo com o prazer que ela pode me proporcionar. Eu, mesmo sendo o pior

filho da puta da história, não pensaria em algo assim. Infelizmente, as


intenções por trás das minhas atitudes — ou falta delas — escondem coisas
que acontecem de maneira espontânea. Se fosse de caso pensado, pelo menos
eu teria o consolo de saber que tenho controle de quem sou e de quem quero

ser.

Negligenciar o bem-estar da pessoa que passaria a morar sob o


mesmo teto que eu foi uma forma inconsciente de puni-la pela rejeição, por
ter me enfrentado e por ter ousado falar verdades que ninguém jamais tentou.
Sou ainda pior do que todos pensam; em mim, já não existe bondade e
compaixão, que são as características mínimas exigidas de um ser humano.
Querer tomar uma atitude só agora, depois de três semanas de uma boa
convivência e, consequentemente, uma proximidade maior com ela, mostra

com exatidão a pessoa que sou.

— Bom dia! — Sua voz me assusta, fazendo com que eu quase


derrube a garrafa de café no chão.

Linda como ninguém deveria ter o direito de ser ao acordar,


minha morena está altamente comestível, vestindo somente minha camisa e
uma ínfima lingerie. Tirar sua roupa ontem à noite e me deparar com aquela
visão foi o teste cardíaco mais eficiente que já fiz.

Peças tão sensuais também foram a prova de que ontem à noite


ela foi ao Sensations pronta para o crime, para deixar muito claro o que
queria para nós dois. Posso estar sendo muito convencido chegando a tal
conclusão, mas, pelo pouco que a conheço, Luana parece ser o tipo de pessoa
simples, que preza pelo conforto, ao invés de fazer coisas ou se vestir apenas

para agradar a terceiros. A mulher é cheia de personalidade e, de uma


maneira muito perigosa que não deveria estar acontecendo, me vejo cada vez
mais fascinado por ela, querendo conhecer cada nuance da sua personalidade.

— Bom dia, morena. Dormiu bem? — Pisco de forma maliciosa,


agindo como uma adolescente, e minha mulher abaixa o olhar, querendo
esconder o sorrisinho tímido, enquanto ajeita uma mecha do seu cabelo
castanho atrás da orelha. — Não é muito cedo para estar acordada em pleno
sábado?

— Você também está — rebate, pois isso faz parte da sua


natureza, pelo que já pude perceber. Se pensa algo, ela diz, sem fazer rodeios.

— Touché!

— Que cheiro bom! O que está cozinhando? — Aproxima-se do


fogão e espia. — Parece delicioso.

— É a minha especialidade, considerando que omelete é a única


coisa que sei fazer — confesso. — Sua sorte é que, em breve, deixaremos de
comer omelete em todas as refeições.

Ela se posiciona ao meu lado na bancada de mármore sobre a


qual termino de preparar o café. Também poderia ter feito um suco, mas
como a cafeteira é muito mais prática e rápida, escolhi a opção mais cômoda.
Também não posso negar o meu vício em café — mais um. Só torço para que

ela goste do que preparei.

— Contratarei uma cozinheira, a diarista passará a vir mais


vezes e você terá dois seguranças — aviso e ela me olha assustada.

— Gabriel, não precisa fazer isso por mim — afirma, mal


conseguindo esconder o incômodo. — Não preciso de nenhum segurança.

— Morena, por favor, nós já superamos essa fase. Sou eu quem


sabe se você precisa ou não de um segurança — digo, tentado manter a calma
e evitar o início de uma discussão que não levará a nada. Simplesmente não

existe a possibilidade de ela me convencer do contrário. — Estamos falando


do meu trabalho e sei os riscos que alguém que está ao meu lado pode correr.
Só tente me entender, por favor.

— Está bem, se isso faz você se sentir melhor...

— Não tem ideia do quanto. — Abraço sua cintura, contente por


termos resolvido a situação. — Quanto aos outros funcionários, acho que é
necessário. Quero que tenha uma vida perfeita enquanto estiver aqui.

Pensar na ideia de ela ir embora no futuro traz um sabor amargo


à minha boca e uma expressão indecifrável ao seu rosto.

— Obrigada por isso. Apesar da forma como tudo isso começou


e de eu ter todos os motivos para te odiar, você deu um jeito de me atingir
com seu charme e beleza loira — brinca. — Já não estou aqui contra a minha

vontade. Se você me liberasse agora, não sei se teria vontade de ir embora e,


se fosse, não sei se partiria feliz — Luana fala, abrindo o coração de uma
forma que me deixa momentaneamente sem fala e com o coração acelerado.

— Você é demais para alguém como eu, minha linda — digo,


segurando carinhosamente seu rosto com as duas mãos. — Jamais se esqueça
disso! O que existe entre nós tem prazo para acabar e ainda que eu fique
louco de amor por você, não poderemos continuar casados. Entenda que não
mereço ser feliz, ainda mais com uma mulher como você.

— Não diga isso, Gabriel, todo mundo merece ser feliz nessa
vida, inclusive você — afirma com uma tristeza que eu coloquei em seu
rosto.

— Já estou satisfeito por ter sua companhia por todos esses


meses. Eu te trouxe para a minha vida da pior forma possível, mas se se
alguém um dia me perguntar se me arrependo, a resposta será não. Não
existirá o dia em que lamentarei ter conhecido alguém como você, que
ilumina minha escuridão e me despertou um sentimento que julgava extinto.

Você me fez perceber o quanto é ruim estar só.

— Me beije, Gabriel. Beije-me até que o aperto no meu peito vá


embora, até que o desejo de brigar com você para que mude de ideia diminua.

— Sim, mas não só pelos motivos que listou, mas também

porque é o que eu mais desejei fazer nos últimos dias. Quero você, morena.

Beijo como se esta fosse minha única oportunidade de amá-la e


quero aproveitar cada segundo ao seu lado. Toco-a porque ela sempre será a
minha escolha, não importa os caminhos que eu percorra.

Os toques, o sexo que faremos, nossas peles batendo-se, tudo


será uma lembrança do que não pude ter, assim como aconteceu no passado.
A menina e a mulher. A amiga e a amante. Duas pessoas que apareceram em
épocas diferentes na minha vida, com alguns pontos em comuns, e o principal

deles é que nenhuma delas poderá permanecer comigo.

— Gabriel... — Sua voz sai abafada por estar com os lábios


colados aos meus.

— Não é o momento para conversarmos, gata — afirmo, muito


satisfeito por ter uma mão na sua bunda e o outra nos cabelos macios e
cheirosos. A porra da mulher, além linda, também tem um beijo delicioso.
Ela é o vício mais saudável que eu poderia desenvolver e com certeza o que
traz o maior prazer e entorpecimento.

— Estou sentido um cheiro de queimado.

Quando ela fala, nós dois olhamos alarmados para trás e a


panela, que era vermelha, está preta e fumaçando.

— Queimei nosso café da manhã, linda, mas vale lembrar que a


culpa é inteiramente sua — falo ao abraçá-la novamente, depois de
rapidamente apagar o fogo e esperar que a fumaça se dissipasse.

— Minha? Por que a culpa é minha?

— Entenda uma coisa, bebê, a culpa sempre será sua quando


esse tipo de incidente acontecer nas ocasiões em que estivermos juntos. É sua
culpa por ser gostosa, por beijar como se quisesse roubar minha boca com
esses lábios carnudos e suculentos. É culpada por ser a razão da minha

distração.

— Poxa, acho que posso conviver bem com esse tipo de culpa
— afirma, aos risos. — Posso até mesmo aceitar.

— Boa garota! — Beijo o pescoço que cheira a óleo queimado,


assim como o meu deve estar cheirando. — Vamos providenciar outra coisa
para comermos, pois quero você cheia de disposição para o dia de hoje.
Amo ver a expectativa no seu rosto e a resposta involuntária do
seu corpo. Luana, apesar de já ser uma mulher, é totalmente transparente nas

suas emoções, característica mais fácil de ser associada às crianças que ainda
não aprenderam a mascarar os sentimentos.

— Não vai trabalhar?

— Depende. Se você quiser que fique o dia todo com você, eu

fico. Se preferir ficar sozinha ou fazer outra coisa na rua...

— Quero passar o dia com você — responde com rapidez, antes


que eu conclua.

— Eu não esperava menos de você. Deve saber também que mal


posso esperar pelo momento em que tirarei essa camisa do seu corpo. Será
como ter a visão do paraíso na terra, o meu paraíso particular.

O corpo dela de repente fica tenso entre os meus braços. Luana

não recebeu bem o elogio e, para mim, fica cada vez mais claro que tem
problemas com o peso, algo que acho completamente irracional da sua parte,
considerando o quão perfeita ela é.

Por outro lado, sei que não devo julgá-la por sentir-se assim. Ela
é linda aos meus olhos, mas pode perfeitamente não se enxergar da mesma
forma. Eu, mais do que ninguém, sei o que é chegar ao fundo do posso, sentir
pavor de ver a própria imagem refletida no espelho e depois ter que, dia após
dia, tentar reconstruir o que há muito se perdeu.

Ter baixa autoestima é um problema que só quem enfrenta sabe


como é. Quem apenas assiste, só pode oferecer amor, carinho e palavras de
incentivo.

São lições que aprendi às custas de muitos anos de terapia.


Ensinamentos que levarei para a vida inteira. Voltar a se admirar é um

exercício diário e se depender de mim, minha esposa entenderá e verá que


não é nada menos do que perfeita. Perfeita para si mesma, para mim e para
quem mais ela quiser ser.

— Talvez você se decepcione — diz, olhando por cima dos


meus ombros e não para o meu rosto.

— Talvez eu me apaixone. — A frase faz com que eu tenha sua


atenção novamente e continuo: — Não esqueça que te vi ontem a noite
quanto te ajudei a trocar a roupa desconfortável para essa camisa. Você

estava tão sonolenta que nem se preocupou com essas questões. O mais
importante de tudo é que te achei ainda mais linda e continuo aqui, louco por
você e por cada curva do seu corpo que me deixa tonto de desejo.

— Pensei que tinha superado essa fase da minha vida. Na


verdade, eu tinha superado, mas aí você apareceu...

— Você superou, morena. Não pode deixar que ninguém te faça


pensar coisas ruins ou se sentir diferente. Se for por mim, não desperdice seus
pensamentos com essa questão. Mais uma vez, vou repetir: você é o meu

ideal de beleza. O rosto, o corpo, tudo na medida certa. Se sinta bem com
você mesma, só com você!

— Gosto muito de você, Gabriel — declara-se. — Nunca


imaginei que chegaria a dizer isso, ainda mais em tão pouco tempo.

— E o ódio? — brinco com o fato de ela ter declaro seu ódio em


mais de uma ocasião.

— Transformou-se, pois você é mesmo um diabo loiro e me


enfeitiçou.

— Diabo loiro? — indago, curioso.

— Era assim que eu te chamava secretamente — confessa, aos


risos.

— Pode continuar chamando, bebê. Sou mesmo o diabo e mais


tarde te farei arder, mas com um outro tipo de fogo. Será do tipo que você
não encontra no andar de baixo.

— É uma ameaça, senhor diabo? — pergunta, maliciosa,


apertando-se melhor dentro dos meus braços.

— É uma promessa, senhora esposa do diabo — digo e o


barulho do seu estômago roncando coloca fim à conversa.

A panela torrada ficou inutilizável. Para poupar o nosso tempo,


peguei uma panela maior e recomeçamos o preparo do nosso desjejum. Sem
deixar nada queimar dessa vez, Luana e eu fazemos a nossa refeição sentados
no sofá, dividindo o mesmo prato, entre risos e assuntos leves. Agimos como
verdadeiros recém-casados, contentes pelas pequenas descobertas da vida a

dois e sem preocupações, além de decidir o que fazer durante o resto do dia.

Tenho a convicção de que estou pisando em terreno perigoso,


mas nem um outdoor com um alerta gigante me impediria de seguir adiante
com ela, com o nosso casamento e o sentimento que começa surgir.
— Não sei por que deixei você me convencer a fazer uma coisa
dessas — digo.

— Deixou porque hoje é sábado e finalmente está saindo um

solzinho — rebate, com os braços em volta da minha cintura enquanto nos


encaminhamos para a área da piscina. Com as minhas costas apoiadas no seu
peito, nosso caminhar é desajeitado, porém excitante. Sim, um simples
caminhar pode se tornar algo nada inocente quando a ereção do seu marido
roça a todo instante na sua bunda e quando ela provavelmente é a causa de tal
assanhamento. — Dia de diversão!

— Sempre achei que essa palavra não fazia parte do vocabulário


de um grande empresário — provoco, assim que chegamos à beira da piscina.

Sentindo o sol de há dias não aparecia, permanecemos abraçados


e aparentemente sem vontade de nos afastarmos.

Nem em sonho eu imaginaria que um dia estaria assim com ele,


agindo como um casal normal e curtindo o dia de folga juntos. Jamais
conceberia esta realidade, ainda mais quando passei as duas semanas que

antecederam o casamento tentando achar uma maneira de impedi-lo e


cultivando um misto de raiva e mágoa pelo meu até então futuro marido.

A vida tratou de mostrar que nem tudo está no nosso controle e


agora eu estou aqui, mais feliz do que um dia fui. Um tipo diferente de
felicidade, maior do que um simples contentamento. Era assim que eu me
sentia e só agora percebi. Estar contente e satisfeito são sentimentos
próximos ao comodismo, de quem não almeja mais do que tem.

Hoje vejo que meu namoro com Gustavo era apenas satisfatório,

que as palavras paixão e amor nunca passaram pela minha cabeça ou saíram
da minha boca. Depois do Gabriel, que em tão pouco tempo me fez
experimentar emoções e sentimentos que me tiraram completamente da zona
de conforto, já não sei se conseguirei manter os mesmos padrões de antes.
Estou certa de que vou querer mais, mesmo que não encontre. Procurarei pelo
menos pela pequena fagulha do fogo que agora incendeia meu coração.
Sempre pensei em Gabriel como o próprio demônio, loiro e
gostoso, mas, ainda assim, um demônio. Agora, tenho certeza de que ele tem

uma faceta diabólica, pois só isso explica o feitiço que lançou em mim, o
fascínio que sinto mesmo quando tenho todos os motivos para odiá-lo.

Há pouco tempo, cheguei a pensar que Gabriel era tudo o que a


mídia pintava, só que pior. Muito rápido, observando pequenas atitudes e a

forma que passou a me tratar, passei a suspeitar que aquele homem é muito
mais do que aparenta. Pior, suspeito que ele queira cultivar a imagem que a
mídia tem dele. É triste pensar que é capaz de algo assim. Triste, pois não
existe algo que justifique sua atitude, se for realmente como penso. Na
cozinha, Gabriel me disse que não pode ficar com ninguém e me pergunto o
que o levou a ter ideias tão extremistas e tristes.

Sei que, por algum motivo, meu homem teve uma vida difícil e
talvez ainda tenha e sei também que não ficarei de braços cruzados nos

próximos meses. Farei de tudo para descobrir o que aconteceu no seu passado
e quem é o verdadeiro Gabriel Souto. Sim, sei que existe outro.

— Realmente, diversão nunca fez parte da minha vida, pelo


menos não até você aparecer — confessa, tirando mechas de cabelos do meu
pescoço, deixando-o livre para suas mordidas. De maneira excitante, Gabriel
morde ao invés de beijar, como os homens normais costumam fazer. — Mas
saiba que minha ideia de diversão talvez seja um pouco diferente da sua. Na
minha versão, você estaria sem essa coisa por cima do biquíni e eu estaria só

com a sunga. Talvez pelado, já que estamos em casa e essa coisa está
apertando meu pau duro.

— Ele está duro mesmo, cutucando minha bunda a todo o


momento.

— É porque ele está apaixonado por ela e quer um pouco de


atenção.

— Ele terá, mas não agora. Você me chamou para tomarmos


banho de piscina e agora estou morrendo de calor com esse sol batendo no
meu rosto.

— Então tire esse blusão que eu quero ver o que tem por baixo
dele — pede ao me soltar.

Desde a hora que terminamos de tomar café e ele sugeriu que


viéssemos para a piscina, Gabriel não escondeu seu desejo em me ver usando
roupa de banho. Faz isso porque é homem e como um membro dessa espécie,
não perde a oportunidade de ver uma mulher com pouca roupa, mas também
o faz por causa da conversa que tivemos. Não pude esconder minha
insegurança com meu peso, algo que até então eu achei que estava sob
controle e ele foi surpreendentemente consciente e amigo com suas palavras.
Gabriel entendeu que o fato de eu estar muito a fim de um
homem como ele desencadeou tal insegurança, falou o que eu precisava ouvir

e entender. Agora, de maneira descontraída e sem forçar a barra, meu esposo


também quer assegurar que eu tenha superado a questão, pelo menos no que
diz respeito a ele.

— Se é isso que você quer...

Dando alguns passos para trás, começo a abrir os botões da


minha florida saída de praia. Ele se demora um pouco no meu rosto e, a cada
pedaço de pele revelado, seus olhos vão descendo. Gabriel parece
hipnotizado e não tem como me sentir menos do que bela.

Não quando os seus olhos me devoram e a chama do desejo


estampa seu rosto.

Quando fui picada novamente pelo bichinho da insegurança,


depois de ter sofrido bullying durante toda infância e adolescência, ficou

claro para mim que talvez não tivesse superado aquele trauma como eu
imaginava. Se o complexo com o meu peso fosse realmente águas passada,
eu não teria me abalado tanto com a chegada de alguém como Gabriel na
minha vida.

Ele não é como o Gustavo, que não me tirava da zona de


conforto, e também não é como meus amigos de trabalho que me conheceram
assim. Com Gabriel, foi diferente pelo simples fato de ser alguém perfeito
fisicamente e que, aos olhos de qualquer um, merece estar com alguém tão

bonito quanto ele.

Uma grande bobagem, admito. Além de eu ter que estar bem


para mim mesma e não para os outros, Gabriel tem sido um perfeito
cavalheiro. Lúcido, sincero e parceiro. Entende o que senti como só alguém

que passou pela mesma situação poderia compreender.

— Porra, morena! Você é muito linda. Nunca me cansarei de


dizer isso. É tão gostosa — afirma, aproximando-se novamente, fazendo com
que minhas carnes fiquem trêmulas e não é por causa do frio. — Esses peitos
são um pecado, tão grandes e redondos. — Com a ponta do indicador, ele vai
descendo entre o vale que os separa, até alcançar a barra da parte de cima do
biquíni. — A pele morena e livre de mácula...

Beija o meu ombro e, onde seus lábios tocam, fica uma sensação

de formigamento que se espalha pelo meu corpo, concentrando-se no meu


sexo.

— Sua bunda é a coisa mais linda em que eu já coloquei meus


olhos. — Ao falar, meu marido leva as duas mãos para o meu quadril,
apalpando-o com gosto e deixando os nossos corpos tão colados quanto é
possível. — Você está sentindo? Meu corpo deseja o seu com uma
intensidade que não me lembro de ter sentido antes. Você é maravilhosa,
amor, não tente mudar isso, não por mim e nem por ninguém. Só faça por

você, se assim preferir.

— Eu adoro você — declaro, percebendo que o gostar mudou


para adorar de uma conversa para outra, mas, no fundo, sei que nenhuma das
duas palavras expressa o que realmente começo a sentir e tenho medo de

admitir até para mim mesma. É intenso, é rápido, assustador.

E também é inevitável.

— Eu sei — diz ao levar uma das mãos até a minha nuca,


colando as nossas bocas em um beijo que imprime toda a vontade que
sentimos pelo outro.

Ele começa já intenso, querendo roubar respostas que estou


disposta a dar de bom grado, pois estou entregue. Nossas línguas se buscam,
as mãos se tocam sem nunca parecer o suficiente. Por fim, terminamos com

ele sentado em uma das espreguiçadeiras que ficam em volta da piscina e eu,
sobre o seu colo. Nossos peitos estão colados, assim como nossos sexos estão
em constante contato, o que torna a tortura ainda maior.

— Gabriel... — De dentro da sua boca, gemo o seu nome como


uma prece.

— Quero transar com você neste exato momento, se não entrar


em você agora sou capaz de enlouquecer.

— Eu também quero. Quero muito, mas tenho que te pedir uma


coisa.

— Peça, linda. Vou fazer o que você quiser!

— Tire a roupa.

— O quê?

A surpresa faz com que Gabriel interrompa o beijo que já se


encaminhava para o início dos meus seios.

— Quero que você tire essa camisa e a bermuda. Também quero


apreciar seu corpo, assim como fez como o meu — exijo, nem um pouco
constrangida em fazer tal pedido.

— Não precisa pedir duas vezes, gata. Vou tirar e você pode se
sentir à vontade para olhar, principalmente, para a parte que está mais carente

da sua atenção — provoca ao se levantar comigo nos seus braços, para em


seguida me colocar sentada sobre a espreguiçadeira.

Parado na minha frente, ele passa a fazer o que pedi. Fazendo


charme, o loiro primeiro abre o botão, desce o zíper da bermuda e, sem tirar
os olhos dos meus, desce a peça por suas pernas bem torneadas. Quando
estou quase sem ar e a ponto de entrar em combustão, Gabriel me imita e,
botão após botão, vai abrindo a camisa, deixando os gomos do seu abdômen

definido livres para mim. Salivo, querendo lamber cada parte da sua barriga

sarada.

— Está bom para você, gostosa? — pergunta, querendo me levar


à loucura, pois sabe muito bem que não é o suficiente.

— Tire a camisa, Gabriel! — exijo, levantando-me para que eu

mesma possa fazer o serviço.

Coloco as mãos nos seus ombros e, prendendo os nossos olhares


como ele fez comigo, tiro a camisa até vê-lo somente de sunga e do jeito que
eu queria.

Dou alguns passos para trás e minha viagem apreciativa faz o


caminho inverso. Começo pelas coxas poderosas, subo para o seu sexo e...
puta que pariu! Ele parece cultivar uma anaconda no meio das pernas.
Aparentemente, terei que ser muito guerreira para comportar toda essa

potência dentro de mim.

— Dará tudo certo, gata. — Seu sorriso é malicioso e posso


apostar que estou com o rosto mais vermelho do que a sua sunga. — Ele está
aqui para te servir.

— Sinto-me lisonjeada! — debocho, logo esquecendo da


conversa íntima, pois meus olhos têm outros planos como, por exemplo,
admirar o abdômen sarado e o peito onde até os mamilos são perfeitos.

Antes de apreciar a beleza do seu rosto, que eu seria capaz de


dedicar horas inteiras do meu dia somente para admirar a perfeição do
conjunto formado pelo seu bonito sorriso e os olhos muito azuis, algo do lado
esquerdo do seu peito chama minha atenção.

Uma tatuagem, exatamente onde fica o coração. Gabriel tem

uma tatuagem preta, contrastando com o tom claro da sua pele. Curiosa,
chego mais perto, passo o dedo sobre o local e leio a frase em voz alta:

Nunca te deixarei sozinha.

De repente, as minhas pernas parecem perder as forças e


rapidamente afasto a mão do seu peito, com a sensação de que posso me
queimar, caso continue tocando-o.

Ele também parece tenso pela minha reação, mas não tem tempo

de falar nada quando eu repito o que está gravado na minha mente:

— Você nunca sentirá fome ou frio, pois nunca te deixarei


sozinho.

Ele então entende o que está acontecendo e o seu rosto se


transforma em puro horror. Minha garganta começa a fechar, como se um
bolo se formasse, meus olhos estão ardendo e simplesmente não posso crer
no que está acontecendo aqui.
— Garoto do capuz cinza — enfim constato quando uma única e
solitária lágrima escorre pelo canto do meu olho.

Ele não responde nada, apenas se vira e praticamente corre para


a casa.

Sem saber como agir, tremendo demais até para entrar e me


esconder no meu quarto, ainda encontro forças para me sentar na borda da

piscina e colocar meus pés dentro da água, que tem uma temperatura
agradável.

O meu garoto do capuz. O amigo que, sem mais nem menos,


sumiu sem deixar rastros.

“Eu o encontrei!”, penso, deixando as lágrimas escorrerem


livremente, agora que estou sozinha.

Ele sempre esteve nos meus sonhos e nos meus pensamentos. A

saudade, a curiosidade e, principalmente, a preocupação de saber notícias


dele me acompanharam por todos esses anos, assim como ele carrega a minha
lembrança através da tatuagem que marca seu peito. Gabriel é o meu amigo
sem nome e sem rosto.

Alegro-me em saber que está bem, que conseguiu sair daquela


situação e se transformou em um homem bonito e saudável. Estar tão perto
dele não diminui em nada a saudade que nunca deixou de existir, pelo
contrário, traz um enorme aperto ao meu peito, como se a distância estivesse
ainda maior. Tudo foi tão rápido que minha ficha ainda não caiu. Estou

confusa, sem saber como devo agir, o que sentir e no que devo acreditar a
partir de agora.

Já não sei quem ele é para mim, se o marido ou o amigo que


meus olhos de criança veneravam, apesar da estranheza da nossa relação

sempre muito silenciosa. Não sei se o nosso encontro foi coincidência ou algo
planejado por ele que, infelizmente, já provou ser capaz de tudo.

A dúvida me consome e a sede de explicações me impele a


entrar na casa. Existem muitas coisas para conversarmos e esclarecermos e,
se eu não estiver muito enganada, essa conversa será a mais difícil que já tive
em minha vida.

Sei por que estou falando do Gabriel, o garoto que desapareceu


da minha vida sem deixar rastros, mas ele também é o homem que usou o

meu pai para conseguir se casar comigo. Sei que se ele quiser, pode destruir a
imagem que eu tinha dele e também a que venho construindo nas últimas
semanas, principalmente, de ontem para hoje. No entanto, sei que não posso
me esconder ou fugir do confronto, pois além disso não fazer parte de quem
eu sou, é também a única forma de descobrir exatamente o que está
acontecendo com minha vida.
— Vamos conversar, garoto do capuz! — É o que digo para mim
mesma em voz alta quando me levanto para ir atrás dele.
Sentada de costas para mim, ainda à beira da piscina, vejo
Luana, a mulher e a menina. A pessoa de quem eu fiz questão de me afastar
quando percebi que não era digno de sequer respirar o mesmo ar que ela. Um
anjo de bondade que me enxergou quando ninguém mais o fez, que por quase

um ano foi o fio de esperança que me puxou para a superfície.

O aperto no meu peito é quase sufocante, pois, pela primeira vez,


não sei como agir, não imagino o que virá a seguir e nem se ainda
conseguirei voltar a olhar para ela do mesmo jeito. Como não associar sua
imagem a da criança que foi tola o bastante para chegar tão perto de um
jovem como eu? Ela cresceu e mesmo assim é aquela garota que na época
preferi não saber o nome, tão boa e ingênua. E ainda não posso deixá-la se

aproximar porque eu sou alguém pior do que fui há 13 anos.

Sem ter ideia do que estava fazendo, acabei trazendo para minha
vida a única pessoa que eu não queria ver perto de mim. Não perto o
suficiente para se contaminar com a podridão que paira em volta de mim, do
homem que, apesar dos bens conquistados, continua tão vazio quanto o

garoto viciado que ela alimentava.

Jamais fui digno da bondade de alguém, ainda mais da criança


que um dia Luana foi e da adulta que se tornou. Como posso me permitir ter a
ilusão de fazê-la minha mulher se não sou digno de tocar sua pele?

Sempre soube que não poderia manter Luana permanentemente


na minha vida, mesmo que ela quisesse muito ficar. Agora sabendo quem é a
mulher que tomei como esposa, não tenho certeza se conseguirei olhar para o
seu rosto sem sentir vergonha.

Sem conseguir parar de olhar para onde ela está, vejo o momento
em que Luana se levanta e caminha na direção de casa. Pelo pouco que a
conheço, tenha certeza de que está vindo atrás de mim em busca de
explicações que não posso dar.

Sou responsável por trazer para minha vida a mulher que ela se
tornou, mas não a amiga de uma época que prefiro esquecer, mesmo que isso
não seja possível. Ela nunca saiu da minha mente, prova disse foi o momento
de loucura em que marquei sua memória em meu peito, mais especificamente

onde bate meu coração. Eu jamais pensei que a encontraria, muito menos que
me casaria com aquela criança que tinha no máximo 12 anos.

— Gabriel, nós precisamos conversar. — Leva menos de dez


minutos e, como eu imaginava, Luana já está invadindo o meu quarto. — Eu

preciso de explicações! Quero que me conte a verdade. Por que me obrigou a


casar com você?

— Não tenho nenhuma explicação para te dar, garota! O que foi?


Acha que arquitetei o nosso reencontro? — falo, irritado. Está certo que fiz
por merecer qualquer desconfiança, mas, ainda assim, não deixa de ser
incômodo.

— Não fez? — indaga e, em seguida, exige: — Por favor, fique


de frente para mim. Eu não tenho o costume de conversar sem olhar nos

olhos das pessoas.

— Diga, menina, o que você quer saber? Pergunte e depois saia


do meu quarto e nunca mais entre aqui sem minha permissão — digo,
propositalmente agindo como o babaca de antes. Eu preciso que ela fique
longe, que não idealize um homem que não existe, assim como deve ter
idealizado anos atrás.
— Então voltamos ao que era, é isso? — indaga, irritada e com
os braços cruzados. Para estar em posição de briga, só falta apenas bater o

pezinho contra o piso.

— Entenda como quiser! — digo.

— Por que você fez isso comigo? É algum tipo de jogo? Uma
piada?

— Não se dê tanta importância, meu bem. — Sou irônico e seus


olhos começam a brilhar de raiva. — A sua presença aqui hoje não tem nada
a ver com nosso passado em comum. Eu não tinha ideia que você era aquela
garota, assim como você provavelmente não fazia ideia de que eu era o rapaz
para quem fazia caridade — afirmo e ela ainda parece incrédula.

— Como você pode não ter me reconhecido? É difícil de


acreditar. Eu pelo menos tenho a desculpa de nunca ter visto seu rosto com
exatidão, não com aquele capuz te cobrindo e com toda a sujeira que só me

deixava ver os seus olhos.

— Não te reconheci porque eu não passava de um viciado em


heroína, Luana! Vai me dizer que não percebeu isso e nem se deu conta do
perigo que corria ao meu lado? Eu mal me lembro daquela época e, se tivesse
te reconhecido, não teria te trazido para minha vida porque eu nunca te quis
perto de mim.
— Eu sei que não queria — afirma, mal escondendo o
ressentimento. — Você sumiu sem deixar rastros.

— Eu não queria ser encontrado e muito menos por você.

— Tenho tantas perguntas para fazer... — fala, apreensiva. —


Será que a gente pode conversar? Senti tanto a sua falta. — Tenta se
aproximar e eu dou dois passos para trás, fugindo do seu toque, do calor da

sua respiração, de tudo que me puxe para ela.

Existem duas dela na minha cabeça e eu estou confuso demais


para lidar com essas imagens. Sei que deveria pelo menos conversar, explicar
o motivo de ter me afastado e o porquê de fazer o mesmo agora. O problema
é que simplesmente não tenho condições de conversar, não quando minhas
mãos começam a suar e o meu corpo fica trêmulo. Sinto a crise de ansiedade
chegando e tudo do que preciso no momento é ficar sozinho com minha
solidão, meu cigarro e talvez meio copo de whisky.

— Eu não posso conversar agora, bebê. — Sou carinhoso,


mesmo que a ideia seja mantê-la distante e irritada comigo até que esqueça
qualquer ideia romântica que possa ter a nosso respeito. Não posso
correspondê-la, pelo menos não agora quando estou completamente sem
rumo, de uma forma como há tempos não me sentia. — Preciso que você me
deixe sozinho.
— Não faça isso, Gabriel! Nós estávamos começando a nos
entender.

— Não estamos mais. Esqueça o que aconteceu ontem e hoje.

— Se é isso que você quer, não vou insistir. Só espero que seja
muito feliz com sua consciência e sua solidão — fala antes de se afastar, indo
na direção da porta aberta. — Não espere que eu esteja sempre à sua

disposição, pois nem mesmo pelo meu pai serei capaz de suportar mais das
suas merdas. Arrumo as minhas malas e desapareço de uma vez.

— Você não se atreveria! Se pelo menos tentar, juro que...

— Mais ameaças? Você não passa de um louco, Gabriel Souto.


Está morto em vida e ainda não percebeu. Tenho pena de você. — Quando
diz a última frase, seus olhos estão cheios de lágrimas e, antes que elas caiam,
minha morena deixa o quarto.

Mais uma vez, estou sozinho, do jeito que pedi e na minha mente
suas últimas palavras se reproduzem repetidas vezes.

Está morto em vida e ainda não percebeu. Tenho pena de você.

Você não passa de um louco.

Em um momento de raiva e pura frustração, Luana foi assertiva


a respeito de tudo o que falou sobre mim. Talvez eu esteja mesmo louco e
com certeza sou uma pessoa que está morta em vida. Simplesmente não tem

como ser diferente, não depois de tudo o que vi e vivi desde muito jovem.

Não que exista alguma justificativa para os rumos que dei para minha vida,
mas pelo menos fiz o melhor que consegui.

Mal lembro da época em que fui verdadeiramente feliz. Dez


anos, essa era a idade que eu tinha da minha última lembrança feliz. Eu era

um menino que vivia modestamente com os pais comerciantes que


proporcionavam o melhor que podiam para o filho único.

Tenho a lembrança do bar que meu pai um dia comprou e passou


a administrar, um lugar que em pouco tempo passou a reunir o pior tipo de
gente. Beberrões, inúteis e apostadores, eles não passavam disso. A promessa
de uma grana extra transformou-se na destruição da minha família, na minha
perdição.

Aos 12 anos, a situação já era insustentável e meu pai tinha se

transformado em outro homem, um bêbado que pegou gosto por jogos a


ponto de começar a tirar o sustento da família para bancar o próprio vício. Ele
e a minha mãe tinham brigas cada vez mais sérias e eu também não era o
mesmo. Me afastei dos meus amigos do bairro pela fama que o meu pai tinha
adquirido e me tornei muito solitário.

O pior aconteceu quando complementarmente bêbado, meu pai


começou uma discussão terrível com minha mãe. Como em todas as vezes,
eu estava escondido atrás da porta, tentando ser forte e não chorar, com raiva

do meu pai e muita pena da minha mãe. Tinha dó, mas também era covarde
em não a defender por medo do meu pai, um homem que um dia tinha sido
meu herói.

Lembro que, em algum momento durante a briga, meu pai

perdeu de vez o controle, tentou agarrar minha mãe pelo braço e quando ela
tentou fugir, acabou escorregando. Em consequência disso, bateu a parte de
trás da cabeça na quina de uma maldita mesa de centro que tinha na casa. A
ambulância logo foi chamada, mas minha mãe não resistiu à viagem até o
hospital. Aos 33 anos, morreu a única pessoa boa que tinha me restado. O
culpado pela morte não foi responsabilizado, pois a polícia, tendo como
principal prova o meu testemunho, concluiu que foi apenas uma fatalidade.

A fatalidade, como todos disseram, foi o começo do meu

inferno. O homem que era para ser meu pai ficou cada vez mais viciado em
bebidas, jogos de azar que ele mesmo realizava no maldito bar e drogas —
sim, ele também ficou viciado em drogas.

Rapidamente, fui levado pelo conselho tutelar para viver com


minha tia e sua família quando perceberam que meu pai não tinha condições
de cuidar de uma criança de 12 anos. Lembro de ter ficado alguns meses com
eles e logo fui devolvido. Depois, vieram mais quatro famílias e nenhuma
delas ficou comigo por mais de dois meses.

Não os julgo por isso, pois era simplesmente impossível amar o


garoto que eu tinha me tornado. Eu era rebelde, indisciplinado e brigava no
colégio. Na minha última fuga, creio que até mesmo o serviço de proteção à
criança e ao adolescente desistiu de mim, considerando que nunca mais tive

que morar na casa de alguma família desconhecida.

Como não tinha para onde ir e também não queria ficar na rua,
acabei voltando para casa, para o inferno de onde eu não conseguia me
libertar. Passei a viver com o velho bêbado como se fossemos dois estranhos
dentro do mesmo chiqueiro que chamávamos de casa. Como um sádico,
passei a frequentar e me envolver com tudo que a criança que havia em mim
abominava.

Aos 13 anos, comecei a jogar, tornando-me, inclusive, o melhor

apostador em todos os tipos de jogos que o velho inventava. Como não era
bobo, ele passou a me explorar para conseguir arrancar dinheiro dos sujeitos
que frequentavam a espelunca. Não demorou e comecei a fumar maconha;
pois, para mim, era a única coisa que ainda me dava prazer. Sim, aos 13 anos,
tinha plena ciência de que minha vida era uma merda e que não tinha forças e
nem vontade de fazer algo por mim mesmo.
Parei de ir ao colégio e os becos passaram a ser um ponto de
encontro entre mim e os moleques com as vidas tão fodidas quanto a minha.

Aos 15, muito mais esperto do que o velho pensava, comecei a faturar cada
vez mais alto em cima de homens idiotas o suficiente para não perceber que
eu estava tirando dinheiro deles. Já não deixava o velho me explorar e, por
algum motivo, não gastava toda a grana com maconha. Pelo contrário,

escondia grande parte do dinheiro dentro de um tijolo destacado na parede da


casa que já estava caindo aos pedaços.

Acreditava que tinha controle sobre o vício, mas a verdade é


que, pouco a pouco, ele estava me consumindo. Comecei a perder peso, a não
tomar banho todos os dias e a não me importar com minha aparência.

Aos 17, já estava envolvido até o pescoço em tudo de ruim que


um garoto da minha idade poderia fazer. Tinha abandonado a escola há anos,
tomava cada vez mais de conta da espelunca que o velho, que deveria ser

meu pai, chamava de bar. Faturava cada vez mais com as apostas perdidas
nas mesas de jogos improvisadas por mim, muitos deles até inventados para
lucrar mais.

Passei a consumir outras drogas, além da maconha, e a ganhar


ainda mais dinheiro com os jogos de aposta falidos. Sabia que era bom
naquilo e explorava ao máximo o que eu chamava de talento nato.
Certo dia, três ruas abaixo da que eu morava, vi o momento em
que alguns moleques começaram a brincar com uma garota que visivelmente

não estava gostando do que eles faziam com sua mochila. Meu primeiro
instinto foi seguir em frente e ignorar a cena, porém mais forte do que o
primeiro instinto foi o desejo de proteger a garota fofinha. Bom, eu protegi e
foi naquele dia que minha vida mudou, que ganhou um sentido.

Dois dias depois do acontecido, eu estava em uma tarde como


outra qualquer, na mesma esquina de sempre quando a menina novamente
apareceu. Ela estava toda arrumadinha, com os cabelos castanhos trançados e
uma vasilha de plástico na mão. Sem muito dizer, ela apenas me entregou o
objeto e logo entendi o que estava acontecendo: a criança estava pensando
que eu era um mendigo e tinha trazido comida para mim.

Eu deveria tê-la mandado embora, pois apesar de ser um fodido,


sabia que ali era perigoso, um lugar onde uma criança da idade dela não

deveria estar. Sabia o que fazer, mas não fiz e não só aceitei seu lanche da
primeira vez como em todos os outros momentos que me alimentou por
quase um ano. Propositalmente, sempre estava no beco onde ela sabia que me
encontraria. Nós fazíamos o nosso lanche do meio da tarde juntos e isso
acabou sendo o início de uma estranha amizade.

Lembro que algumas vezes estava meio chapado, mas ainda


assim, não deixava de ir me encontrar com ela. Achava que poderia protegê-
la caso alguém quisesse lhe fazer algum mal e por isso continuei por vários

meses aquela improvável amizade. Nós falávamos pouco, mas sabíamos que
estávamos ali pela companhia um do outro. Não era um silêncio
desconfortável, pelo contrário, era agradável por talvez sermos duas pessoas
solitárias buscando refúgio uma na outra.

Do pouco que falou, a frase mais marcante foi dita na primeira


vez em que foi me encontrar e está até hoje marcada na minha mente e na
pele. Eu era um cara com a mente tomada pelas drogas, mas nem isso foi
capaz de apagar a promessa tão marcante.

Na última vez que a vi, não tinha a intenção de que aquele fosse
o nosso último encontro, pois àquela altura já tinha outro tipo de
dependência: a fome da sua amizade, de estar na companhia da única pessoa
que não tinha desistido de mim. Como a vida é cruel demais até para quem

não tem mais nada que ela possa tirar, naquele dia meu pai foi acusado de ter
se envolvido em uma briga e assassinado um homem a facadas. Foi preso em
flagrante e nunca mais saiu da cadeia. Soube que foi condenado e recebeu
uma pena de 16 anos em regime fechado.

Não demorou e a assistência à criança e ao adolescente do bairro


voltou novamente as atenções para mim, o garoto problema da cidade. Dois
dias depois da prisão do meu pai, lá estava eu sendo internado em uma clínica
de reabilitação contra minha vontade. Não tive tempo de me despedir da

minha garota e não creio que teria feito diferente, caso tivesse tido a chance.

Ver meu pai sendo preso me mostrou exatamente o tipo de


pessoa que eu era, em quem eu poderia me transformar no futuro. Naquele
momento, entendi o erro que estava cometendo ao trazer a garota sem nome

para perto de mim, ao fantasiar que poderia ter pelo menos uma fresta de luz
no túnel escuro onde me encontrava. Eu não tinha o direito de fazer isso com
ela e nem comigo mesmo.

Sentia que não tinha direito à sua amizade, que a minha


existência era suja e pesada demais para uma pessoa tão boa e inocente
quanto ela.

Ver a situação extrema a que o meu pai chegou fez com que,
dias depois, eu entendesse que a internação foi a melhor coisa que poderia ter

acontecido na minha vida. Sabia que tinha ido longe demais, vivido tragédias
o suficiente para deixar de sonhar com uma nova vida sem a sombra do
passado perseguindo-me. Mesmo assim, uma certa menininha fez com que
em mim nascesse a esperança de um dia ter uma vida minimamente decente.
Ela foi a força que me fez seguir em frente.

Foram seis meses de pura restrição dentro da clínica e quando se


tornaram mais flexíveis e acreditaram que eu estava bem para seguir sem
medo, ainda assim quis ficar mais um pouco.

Um ano se passou e eu saí em definitivo, acreditando que estava


livre do vício em substâncias entorpecentes. Sai da clínica, voltei à minha
antiga casa, mas foi única e exclusivamente para colocá-la à venda e
recuperar o dinheiro que eu tinha escondido.

A grana, que não era uma quantia considerável, foi usada para
pagar meses de aluguel adiantado de um apartamento pequeno e o dinheiro
da casa, que não era pouco, considerando a boa localização no bairro e o fato
de ter uma loja, guardei para talvez investir em algum negócio que garantisse
o meu sustento e uma vida minimamente confortável.

As coisas foram acontecendo naturalmente nos dois anos que se


seguiram depois da minha saída da clínica de reabilitação. Primeiro, me
instalei no apartamento novo — o mais longe que consegui do meu antigo

bairro — e depois fui atrás de um colégio onde pudesse concluir os meus


estudos. Em paralelo a isso, sai em busca de um negócio para investir e a
oportunidade apareceu quando encontrei um cara que estava fechando as
portas de uma simples boate, pois, segundo ele, o negócio andava mal das
pernas, dando mais prejuízo do que lucro.

Acreditando na capacidade que eu tinha para os negócios, investi


toda a grana da casa na boate que dei o nome de Sensations. Rapidamente, a
casa de shows passou a operar no azul e, como não poderia deixar de ser,

descobri que ainda existia um vício que eu não havia superado: os jogos de
azar. Mas do que os jogos, o vício por dinheiro, poder e, principalmente, a
ambição de mostrar que, apesar dos pesares, eu poderia vencer na vida.

Em poucos meses, o Sensations estava da forma que eu queria e,

ao invés de uma simples boate, passou a ser um cassino clandestino. Ano


após ano, os negócios foram se expandindo, um único salão transformou-se
em vários ambientes com jogos para todos os gostos, bebida à vontade e,
principalmente, um lugar que só quem merece tem acesso.

A fama de bad boy, de homem sem escrúpulos e destruidor de


casamentos foi construída junto com o império. Em todos esses anos, não
dediquei um único pensamento ao meu pai e não estive nenhuma vez na
cadeia, onde, até onde sei, continua preso. Tento todos os dias exorcizar da

minha mente o inferno em que vivi, o que não é cem por cento eficaz quando
a noite chega — trazendo pesadelos ou insônias — e, no auge da minha
solidão, relembro com detalhe tudo o que passei até chegar aos meus 30 anos
e quem eu realmente sou.

Do passado, só existia uma única coisa que me fazia falta a cada


maldito dia e que fiz questão de não saber nada a respeito para não correr o
risco de tentar trazê-la para a minha vida, como passei anos imaginando.
Fantasiei como ela estaria depois de adulta, se já havia casado, tido filhos...

Não a queria em minha vida, aquela menina tão boa não merecia
ter qualquer relação com o garoto e nem com o homem que não está muito
diferente do que eu fui no passado. A diferença é que antes eu era a vítima, às
vezes nem tinha plena ciência do que estava fazendo, mas hoje eu sou o

algoz. Eu prejudico as pessoas porque quero e foi o que fiz quando, sem
qualquer remorso, a obriguei a casar comigo, um homem que ela desprezava
— talvez ainda despreze. Aprendi a não ter consideração e nem clemência
pelas pessoas, assim como a vida não teve por mim.

Como poderemos seguir a mesma estrada se continuo o mesmo e


ela... bem, Luana também ainda é a mesma garota de 13 anos atrás — só que
muito gostosa agora. Tem aparentemente a mesma bondade de antes, de
quem acredita que pode trazer um pouco de luz para onde só existe escuridão.

De tudo o que passei, acredito que nada será tão difícil quanto o
que vem pela frente. Sei que não posso tê-la como desejo, mas que também
não posso deixá-la ir embora da minha vida. Sei que é muito egoísmo da
minha parte fazer isso com ela, porém, maior que o pequeno lampejo de
consciência é o meu desejo de estar pelo menos perto o suficiente para olhar
nos seus olhos todos os dias. Para tentar descobrir qual imagem ficará: a da
minha pequena amiga ou de Luana, a minha deliciosa esposa que estive
muito perto de possuir.

De qualquer forma, ainda não permitirei que ela se vá, mesmo


que aqui dentro comece uma guerra. Sei que prefiro ter o seu desprezo do que
a solidão que a sua ausência deixaria.
— Pensei que você não fosse mais aparecer, minha querida —
Trude assevera assim que tomo o meu lugar na mesa de jogos. Dessa vez, o
jogo é truco e mal vejo a hora de começá-lo e esquecer todos os meus
problemas, esvaziar minha mente do que não deve ser lembrado.

Depois de muito criticar um lugar como esse, finalmente entendo

que muitos dos que estão aqui vêm em busca de um escape. Quem sabe se,
assim como eu, eles não estão em busca de algo que os distraia de uma vida
de merda?

— É claro que eu viria. Não me esqueci que da última vez dei


uma surra em todas vocês. — Apontei para as oito que batem o ponto no
mesmo lugar desde a primeira vez que fizemos isso.
— Isso foi antes de você ficar bêbada demais para formar uma
frase completa, não é mesmo? — Mirtes acusa, divertida.

— Não estava em um bom dia — revelo.

— Nós percebemos, querida — diz Juceline, ao tocar na minha


mão, com uma expressão compadecida no olhar. — Percebemos que tinha
brigado com o namorado. — Ela traz à tona justamente quem eu não queria

lembrar.

— Gabriel Souto, que homem! — Trude, a mais velha e líder do


nosso grupo de jogatina, sim, eu já me considero membro do grupo, só falta
fazer a inscrição, abana o rosto com as mãos de maneira teatral. — Por que
não nos disse que ele era o seu namorado, sua malandrinha? — questiona,
enquanto distribui as nossas cartas.

— Era, não é mais? — Marta se mete no assunto e já sei que não


foi uma boa ideia achar que, com elas, poderia passar um bom tempo e

distrair minha mente.

— Em que mundo você vive, Marta? Ela não é mais namorada


porque tornou-se esposa — revela.

— Poxa, você fisgou o maior peixão da cidade, Luana — Marta


parece se lamentar, mesmo que a aliança de ouro grossa denuncie a sua classe
social.
— Fisgar. Peixão. Quem ainda usa essas expressões? Assim
você entrega a sua idade, minha querida — Juceline implica.

— Meninas, vamos ao que interessa? Não estou a fim de falar do


meu peixão — digo, ao cortar esse assunto incômodo. — Será que estão com
medo de perder?

— Diz a esposa do dono do cassino — Cássia fala, debochada.

— Dá uma aliviada aí, garota, Gabriel já tira dinheiro demais dos nossos
maridos.

— Tira? — pergunto, achando estranha a sua afirmação.

— É claro que tira — outra corrobora a afirmação e fica claro


que esse é só mais um assunto obscuro na vida daquele que não pode ser
nomeado e que preciso dar um jeito de descobrir, afinal, nosso casamento de
fachada tem tudo a ver com o assunto.

— Tudo bem, vamos jogar porque hoje eu vim pronta para


ganhar! — afirmo e então o jogo se inicia.

Devo ter jogado umas dez partidas e não venci nenhuma. O fato
foi visto com curiosidade pelas meninas, considerando que meu marido era o
dono do lugar. Na maior parte do tempo, realmente não sou tão ruim nos
jogos de cartas e nem poderia ser, já que tenho um pai viciado a ponto de ter
praticamente me vendido por conta de meia dúzia de fichas perdidas no
pôquer.

O que roubou minha atenção foi o maldito Gabriel — que eu não


queria ouvir o nome nem em pensamento, mas já vi que será algo impossível.
Ele é o culpado pelas péssimas últimas cinco semanas que passei desejando
não ter casado, beijado sua boca e muito menos me deixado afetar pelo seu
charme.

Ele simplesmente voltou a ser o mesmo de antes. Não o Gabriel


dos primeiros dias que gostava de gritar e brigar comigo, antes fosse esse. O
que ficou foi o das semanas em que fingiu querer ser apenas meu amigo, a
diferença é que, dessa vez, ele está muito pior. A nossa convivência está
insustentável, pelo menos para mim. Para Gabriel não parece nada difícil, já
que ele age como se nada tivesse acontecido, quando a verdade não poderia
estar mais distante.

Diferente da outra vez, quando ele pelo menos parecia apreciar a

tentativa de mantermos uma amizade verdadeira, dessa vez o homem está


irritantemente gentil e extremamente distante. Sua gentileza é irritante porque
é forçada. Gabriel até provou ser um homem carinhoso quando quer,
demonstrando o quão bem sabe tratar uma mulher, mas se o carinho vem
acompanhado de um iceberg, prefiro ficar com a versão original mesmo.

Pouco nos vemos e, quando isso acontece, sou tratada com a


mesma cordialidade com que se trata qualquer pessoa que acabamos de
conhecer.

Em todas essas semanas, não posso dizer que não tentei, pois
seria mentira. Até a semana passada, deixei o meu orgulho de lado e tentei
uma reaproximação, mesmo sabendo que ele provocou o afastamento.
Esperei-o várias vezes, pegando no sono no sofá e quando sua chegada me

acordava, tentava puxar assunto, mas nada funcionava.

Era solidão, mas também era o desejo de vê-lo chegar do


Sensations, de tentar pegá-lo em um momento de vulnerabilidade para furar a
armadura que ele tinha vestido. Também fiz de tudo para me aproximar em
dois dos sábados que ele ficou trabalhando à beira da piscina e em todos os
domingos que permanecemos juntos em casa.

Tivemos a oportunidade de tomar café da manhã, almoçar e até


mesmo jantar juntos, mas, mesmo com esses encontros, nada adiantou. Meu

marido foi gentil ao responder minhas perguntas, mas não se sentia


compelido a esticar o assunto, pelo contrário, sempre dava um jeito de fugir o
quanto antes da minha presença.

Na quinta semana, finalmente cansei e percebi que não fazia


sentido ficar me fazendo de idiota para um cara que claramente já tinha
tomado sua decisão. Escolhi ser tão fria quanto ele, me colocar no meu lugar
e esquecer o desejo e a curiosidade de saber tudo sobre a vida do meu garoto
do capuz nos anos em que ficamos afastados. Tanto um quanto o outro são

inatingíveis e quanto mais rápido eu me conformar com isso, melhor será.

Estou por um triz de jogar tudo para o alto, sem me importar


com os motivos que me trouxeram para perto dele. Simplesmente não tenho
como viver com tantas perturbações, sentimentos aflorados que já existiam

antes e somente se potencializaram com a descoberta de quem ele foi na


minha vida. Para Gabriel, posso até não ser nada, mas ele com certeza é
muito especial para mim. Aquele garoto foi muito importante e fingir o
contrário está cada dia me sufocando mais.

— Onde você está com a cabeça, Luana? — A voz de uma das


meninas me chama para a realidade e só então percebo que estava divagando
em pensamentos. Isso tem acontecido muito nos últimos dias, mesmo que me
force a fazer exatamente o contrário. — Aposto que pensando no seu homem

— Juceline sugere, com o sorriso cúmplice.

Se ela soubesse... Se todas soubessem, não estariam agindo


como se eu fosse a criatura mais sortuda do planeta.

— Não te julgo, sabe, eu também ficaria assim — afirma Cássia.


De repente olha por cima das minhas costas e vejo sua expressão quase
sonhadora mudar para uma careta de desgosto.
Seja o que for que tenha prendido sua atenção, ela parece não ter
gostado muito. Olho então para cada uma das outras mulheres e suas

expressões não estão muito diferentes da careta de Cássia.

— Se fosse você, não olhava agora, minha querida — Trude diz


e como não poderia deixar de ser, faço exatamente o contrário. Olho para trás
e, no mesmo segundo, me arrependo, imaginando que minha vida seria mais

fácil se eu não fosse tão curiosa.

Meu marido está encostado no balcão do bar, com um copo em


uma das mãos e à sua frente está a mesma mulher que parece me odiar sem
nem mesmo me conhecer. A mulher que se diz amante dele.

Pelo visto, ela não estava mentindo.

Eles estão tão perto que não resta a menor dúvida do que são. A
situação é tão humilhante que o fôlego me falta como se tivesse levado um
soco no estômago e viro para a frente novamente. As meninas me olham com

pena e elas gostam de mim, então imagino o que as outras pessoas que nem
me conhecem estão pensando.

Todos sabem que o filho da puta é recém-casado e, pior, sabem


que eu sou a esposa. A mulher que não deveria estar aqui. Ele não sabe que
estou aqui e talvez por isso se sinta à vontade para ser tão estúpido. É
estupidez, pois todos podem testemunhar seu mau-caráter, vê-lo entreter a
amante, enquanto a esposa traída o espera em casa. Isso é um prato cheio

para a mídia, que não perderá a oportunidade de estampá-lo na primeira

página de um tabloide de fofoca amanhã bem cedo.

Dessa forma, Gabriel está mostrando o que eu ainda relutava em


enxergar. Ele não sente nada por mim, está pouco se importando com meus
sentimentos, muito pelo contrário, parece que faz isso justamente para tentar

me humilhar, para deixar claro de uma vez por todas qual o meu lugar na sua
vida. Quer dizer, a falta de lugar.

Gabriel finalmente conseguiu o que ele queria, pois, depois


dessa humilhação, nada me segurará ao seu lado.

Nada! Não importam mais os motivos que me fizeram casar com


ele. Vou tentar com mais afinco achar uma solução, caso ele insista em foder
com a vida do meu pai e a minha. O que não posso é suportar uma coisa com
essa bem diante dos meus olhos ardidos pela vontade de chorar.

— Talvez não seja o que você está imaginando, querida —


Raiza, a mais jovem e tímida das mulheres, ainda tenta me consolar, mas é
inútil quando em seus rostos está a prova de que pensam a mesma coisa que
eu: o meu marido está em um papo bem íntimo com a amante, sem se
importar com quem possa vê-los.

— Ele não sabia que você viria? — Sem papas na língua, Trude
indaga, como se isso fizesse alguma diferença.

Será que um marido saber ou não que a esposa está no mesmo


lugar que ele deveria interferir em alguma coisa? Será que no mundo delas é
normal esse tipo de pensamento? Que o que os olhos não veem, coração não
sente?

— Meninas, realmente preciso ir — falo, catando minha bolsa.

— Foi um prazer estar novamente com vocês, nos esbarraremos por aí. —
Viro-lhes as costas, rumando para a saída e sentindo seus olhos me
acompanharem.

Parece que jogaram uma mão de areia seca nos meus olhos.
Quero apenas deitar na minha cama e chorar, me lamentar pela minha vida e
pelas mulheres que não verei mais. Elas são legais, um grupo que tem o
costume se reunir apenas para celebrar a amizade. Despedi-me delas já
sentindo saudades do bom tempo que passei ao lado de mulheres tão

animadas e amigas. Energias boas que senti em apenas dois encontros.

Apesar de ressentida em saber que não poderei aprofundar


amizade com as oito, o que mais dói é perceber que me apaixonei pelo
Gabriel.

No momento em que o vi tão próximo de outra mulher, percebi


que estou apaixonada por ele, ou pelo menos pelo que idealizei. O homem
jamais fez nada para que eu sequer gostasse dele quando nos conhecemos e,
mesmo assim, não demorou para que me sentisse atraída.

Deu-me migalhas de atenção e eu o pintei como um homem


melhor do que realmente era e, por fim, descobri que Gabriel era o mesmo
garoto que foi o meu amigo quando ninguém mais quis ser. Tudo contribuiu
para um sentimento que até agora não me fez nenhum bem, uma ilusão que,

de uma vez por todas, tenho que esquecer. É isso ou acabar como uma pessoa
amargurada e presa em uma história que jamais poderia ter dado certo.

— Senhora Souto. — Formal, o homem de meio idade ajeita a


postura, assim que me aproximo de onde o carro está estacionado.

Não sei onde Gabriel o encontrou, mas a verdade é que nunca vi


alguém tão competente e dedicado ao trabalho como esse motorista. Um
exemplo disso é ele ter ficado à minha espera quando eu disse que poderia ir
dar uma volta e que, quando estivesse com vontade de ir embora, ligaria para

que viesse me buscar.

A intenção não foi me demorar por aqui, só queria distrair minha


mente. Tentei me animar visitando meu pai e algumas amigas. Fui
interpelada por Gustavo no meio do caminho, o que não melhorou meu
humor, porque ele ainda acredita que, quando tudo acabar, ficaremos juntos,
mas eu logo tratei de tirar as suas esperanças, pois, apesar da montanha-russa
que é a minha relação com o Gabriel, ela me fez enxergar que eu e Gustavo
não daríamos certo de qualquer forma.

Talvez eu percebesse isso em algum momento ou até mesmo


depois do casamento. Relacionar-me, ainda que de maneira platônica com
outro homem, elucidou minha mente para o fato de que nunca estive
apaixonada por Gustavo. Senti afeto e um carinho profundo, mas nada que

chegasse perto da paixão que só alguns beijos e toques do meu futuro ex-
marido despertaram.

— Boa noite, José — cumprimento, vendo-o rapidamente abrir a


porta do carro.

— Indo para casa?

— Leve-me para a casa do meu pai, no caminho te passo as


coordenadas. Agora eu só preciso sair daqui. — Entro rapidamente e sem
olhar para trás, embora tenha a nítida sensação de que fugir não será tão fácil.

No caminho, fico imaginando como será a minha vida ao voltar


novamente para casa, depois de ter saído da forma como saí. Como será a
minha vida, tendo a corda no meu pescoço e a ameaça que o Gabriel pode
representar? Sim, estou na mesma situação em que estive há dois meses, a
diferença é que dessa vez vou pagar para ver, diferente de como agi
anteriormente. Além de tristeza, também sinto medo, mas nenhum receio me
fará voltar para a vida que estou levando há cinco semanas.

Gabriel que vá para o inferno com as suas ameaças e suas


amantes perfeitas e antipáticas. Comigo ele não brinca mais! É mais fácil o
inferno congelar antes que eu volte para sua gaiola de ouro.

Alguns minutos antes.

Hoje, a noite está tranquila — felizmente — e posso pelo menos


me dar ao luxo de não ter que inspecionar todo o salão, trabalho que não
compete a mim, mas que vez ou outra gosto de fazê-lo. Estar em um sábado
mais tranquilo me dá o prazer de me sentar ao balcão, como um cliente
qualquer, e tomar um bom e velho copo de cerveja.

Curtir a paz que há muito não sinto, principalmente, nas últimas

semanas em que o conflito de pensamentos e sentimentos têm me levando


quase às raias da loucura.

Existe um conflito que eu sabia que existiria, mas não imaginava


que seria tão difícil vivenciá-lo. Há mais de um mês, decidi abrir mão da vida
que estava começando a ter com minha mulher, somente para protegê-la de
quem eu sou.
Sei de todos os meus defeitos, enumero-os dia após dia ao
relembrar com detalhes quem eu fui e quem me tornei. Escolhi manter

distância por imaginar que deveria afastá-la de mim. Mas não é fácil porque
desejo tocar sua pele, beijar sua boca, alinhá-la entre os meus braços por
horas a fio, apenas pelo prazer de tê-la comigo. Tudo o que senti intensificou-
se em um nível insuportável e agora os motivos parecem pequenos demais.

Eles não são pequenos, mas também não são maiores que a enormidade dos
meus desejos e dos meus sentimentos por ela. Sentimentos que tenho medo
de classificar e imaginava não ter a capacidade de sentir por ninguém.

Mas eu não sofro sozinho. Percebi as tentativas de aproximação


da minha morena, estive ciente da mágoa nos seus olhos quando eu, pronta e
propositalmente rechaçava, cada uma delas. Neguei quando queria aceitar,
afastei quando queria eliminar o espaço entre nossos corpos, tão próximos e
ao mesmo tempo tão distantes.

No fim, acabei vendo o momento em que ela desistiu. Minha


mulher simplesmente cansou de tentar e isso foi o que mais me afetou. Luana
passou a me tratar do jeito que eu a tratava e então eu a compreendi, vi como
é se sentir rejeitado e ignorado. Faz exatos sete dias que ela está diferente e
esse com certeza é o limite do que posso suportar. As razões parecem cada
dia mais pálidas perto do que meu desejo, do que sinto por Luana.
Foda-se que ela é um anjo e eu, o demônio!

Já não importa mais nada, não quando o preço a pagar é mais


alto do que estou disposto a aceitar. A morena ameaçou me deixar uma vez e
só de pensar nisso, sinto um aperto desconfortável no meu coração. Ameacei-
a uma vez e ela cedeu, dessa vez, na situação em que estamos e sendo
geniosa como é, estou certo de que não pensará duas vezes antes de me

abandonar.

Ela não pode fazer isso! Minha mulher não pode me deixar. Não
agora que eu... Eu o quê? Resolvi deixar de lado meus fantasmas e decidi que
está na hora de termos nossa chance?

— Agora não, por favor! — peço, sem precisar tirar a atenção do


meu copo para saber de quem se trata.

— Poxa, Gabriel, o que tem acontecido com você? Está tão


distante ultimamente, nunca mais me procurou — reclama, irritantemente

perto, quase invadindo meu espaço pessoal.

O cheiro do seu perfume forte me deixa com dor de cabeça, o


que me faz perguntar como posso não ter reparado nele antes.

— Agora sou um homem casado, Sabrina. Entenda de um vez


por todas que não vou mais te procurar — digo com firmeza, ainda
controlado o suficiente para não causar um escândalo.
Sei que sua postura íntima e próxima demais é uma prato cheio
para possíveis fofocas e isso não me causa nenhuma preocupação, pois tenho

tudo sob controle. Conheço cada uma das pessoas que estão aqui, seus nomes
e suas fraquezas e, como se não fosse o suficiente, tenho seus aparelhos
celulares em meu poder, uma arma poderosa que certamente levaria meu
nome para as primeiras páginas dos sites de fofocas.

— Gabriel.

— Não faça com que eu proíba a sua entrada.

— Você faria isso por causa dela? Será que perdeu a razão? A
mulher nem mesmo combina com você, é somente uma ridícula que está
acima do peso. Será que ela pensa que pode te entreter por muito tempo?

— Não abra essa boca para falar da minha mulher! Esse é o


último aviso que eu te dou. Se insistir, sua presença será terminantemente
proibida aqui, você está entendendo, Sabrina? — falo baixinho, tentando

conter meu temperamento.

— Como pode me tratar dessa forma? — questiona, chateada e


tentando tocar o meu braço, mas prontamente me afasto. — Fiquei do seu
lado todo esse tempo.

— Ficou porque quis, sempre esteve livre para terminar o caso


que tínhamos. Agora decidi que acabou e você terá que respeitar minha
mulher.

— Você gosta mesmo dela, não é? — indaga e dessa vez tenta


tocar o meu rosto ao curvar o corpo para perto do meu.

— Eu gos... — Não termino de falar, pois sou interrompido


quando vejo um líquido ser jogado sobre a cabeça da Sabrina.

Olho para a mulher que se aproximou e jogou a bebida e a sua


expressão de raiva chega a ser cômica, considerando que existem mais sete
mulheres com a mesma expressão. Elas são um grupo conhecido aqui no
Sensations. Algumas são esposas, outras são filhas de sócios do cassino e,
assim como estão agora, elas costumam andar em bando. Um grupo fechado
e peculiar, do qual dificilmente alguém consegue se aproximar.

— O que você fez, mulher? Está louca?

Furiosa, Sabrina, que parece um pinto molhado, se levanta,

passando a mão pelo cabelo encharcado e o líquido começa a escorrer pelo


seu rosto.

— Perdão, foi um acidente — a mais velha diz. Ela é


dissimulada, pois está claro que fez de propósito. Agora só falta saber por que
ela agiu assim e a razão de tantas expressões furiosas.

— Sua louca! — Sabrina esbraveja mais uma vez e logo sai,


esbarrando no ombro de duas das outras mulheres.
— Isso é para você aprender a não se meter com uma de nós.

— Uma de vocês? — indago para a mais jovem que pensou ter


falado baixo, mas não foi o suficiente.

— Não se envergonha de trair sua esposa na cara dela? A pobre


saiu daqui...

— Trair minha esposa. Espere! Luana estava aqui? — Agora


estou completamente desconcertado e sem entender nada. — Vocês
conhecem minha mulher?

— É claro que conhecemos, aquela intrometida um dia quis


jogar com a gente e nós deixamos. Ela é tão fofinha, é o mascote da turma. —
A mais velha, que parece falar em nome de todas, assevera, deixando-me
ainda mais confuso.

Luana, amiga delas?

Fofinha? Ela chamou a minha fera de fofinha?

— Não estava traindo a minha esposa. — Acho importante


esclarecer.

— Bom, se fosse você, eu iria atrás dela. Do jeito que fugiu, a


essa altura deve estar te chamando de ex-marido e guardando a aliança no
fundo da gaveta.
— Eu não estava traindo a Luana — repito para em seguida me
levantar, na intenção de ir atrás da morena.

— Imagino que não, você não seria tão louco — a mulher fala de
uma forma que não sei se realmente acredita no que digo ou se está sendo
irônica.

— Tenho que ir, meninas. Obrigado por me alertarem —

agradeço antes de sair, sem, contudo, ter certeza se que a intenção delas era
me ajudar ou defender a amiga que imagina ter visto algo que não é real.

— Merda! — esbravejo com os punhos fechados, enquanto me


dirijo para a saída.

Rapidamente, chego à garagem e aciono meu carro. Como ainda


não é meia-noite e José não está à disposição, suponho que esteja levando
minha mulher para a nossa casa.

Enquanto dirijo a mais rápido que posso sem provocar um


acidente, tento não pensar no quão fodido estou. Luana já estava no seu
limite, sei que estava. Ter visto Sabrina comigo, depois de ela já ter insinuado
que ainda éramos amantes, pode ter sido a gota d'água para a morena. Deve
estar pensando as piores coisas e com certeza o ciúme dela não ajudará em
nada a minha situação.

Sei exatamente o que falar para tentar remediar a situação e


explicar o que ela viu no Sensations, o que não sei é o que direi depois. Como

abrir o meu coração? Essa é uma coisa que jamais fiz, mas é um risco que
terei que correr por ela.
— Fale com o pai, Luana — ele diz, passando a mão pelo meu
cabelo como fazia quando eu era criança. Estou deitada com a cabeça nas
suas pernas, num sofá em que mal cabe nós dois. — O que aquele demônio
fez com você, minha filha? Se ele foi capaz de... — Bruscamente, seu Júlio

ergue minha cabeça da sua perna e está prestes a se levantar, quando o


impeço, segurando a sua mão.

— Gabriel não fez nada comigo, pai — afirmo, secando as


lágrimas que por tempo demais segurei. Foram dias e mais dias de pura
frustração. Agora que elas romperam, deixo que corram, quem sabe assim
levam embora metade do turbilhão de sentimentos que tiram a minha paz.
— Se ele não fez nada, então me fale por que você está assim,
meu amor?

Seu olhar é tão preocupado quanto aflito e penso que não é justo
esconder dele o que venho sentindo, o rumo que o casamento forçado tomou
ou poderia ter tomado, caso ele não tivesse acabado antes mesmo de
começar.

Tínhamos o prazo de um ano e durou somente dois meses...

— Ele não gosta de mim, pai. — revelo e isso faz com que chore
ainda mais.

— Você está chorando por causa disso, filha? Mas já não sabia
que ele não gostava de você? — As suas palavras são duras, mas não são
nada além de verdades.

Nós três sabemos que Gabriel se casou comigo por diversos


motivos que não faço mais questão de saber quais eram, a única certeza que

tenho é de que não foi por gostar de mim.

— Sabia — digo, aos soluços.

— Como pode ter se apaixonado por ele, Luana? Gabriel Souto


não presta e você, mais do que ninguém, sabe disso. Não vê que te seduziu,
usou até cansar e depois descartou como um pedaço de papel velho?

— Gabriel não me seduziu. Você não entendeu quando disse que


ele não gosta de mim?

— Deveria agradecer por essa bênção e não chorar da forma

como está fazendo.

— Não quero mais ficar casada com ele, pai — revelo, tentado
acalmar o meu choro para conseguir ter uma conversa decente. — Perdão,
tentei ajudar o senhor, mas falhei. Mas não se preocupe, vou achar uma outra

solução, caso ele insista em nos cobrar.

— Não precisa se desculpar, amor. Eu é que passarei a vida


pedindo perdão por ter te colocado nas mãos dele. Fique tranquila e descanse,
esqueça esse assunto. Promete?

— Mas pai...

— Nada de mas! Vou resolver esse assunto do meu jeito — fala


com convicção e tenho medo de pensar em qual é seu jeito de resolver os
problemas.

Agora, por minha culpa, ele se sentirá compelido a me afastar de


Gabriel e, para isso, pensará em alguma besteira maior do que ficar devendo
500 mil reais em uma casa de apostas.

— Só tome cuidado, por favor — peço, cansada, sentindo o peso


do mundo em minhas costas.

— Prometo tentar. Agora vá para o seu quarto descansar —


ordena, como fazia quando eu era criança.

Júlio, apesar do que se tornou após a morte da minha mãe, ainda

é o meu pai e o amo muito. Certamente, é a pessoa mais importante do meu


mundo. Sinto-me feliz e esperançosa quando o vejo sóbrio como está hoje e
como tem estado em todas as vezes em que vim vê-lo nas últimas semanas.

Creio que perceber a consequência das suas ações o tenha feito

repensar o rumo que estava dando à sua vida e notar sua melhora me traz a
esperança de que volte a ser pelo menos metade do homem que um dia foi.
Ele já sofreu demais e merece ser feliz novamente.

— Preciso mesmo dormir e pensar na minha nova realidade —


afirmo ao levantar e dar um beijo no rosto de meu pai.

Mal dou dois passos na direção do quarto e um forte barulho é


ouvido. Alguém toca a campainha e bate palmas sem parar.

— Céus! Quem pode ser a uma hora dessas? — meu pai

questiona e com razão. Já passa da meia-noite, um horário nada propício para


visitas. — Vá deitar, deixe que eu atendo.

— Tudo bem. Só veja quem é, antes de se aproximar — digo e


vou me deitar.

Com cuidado e estranhando o meu próprio quarto, arrumo


rapidamente a cama e troco a roupa desconfortável por um blusão folgado
que termina na altura das minhas coxas, mal cobrindo minha bunda.

Assim que me visto, ouço vozes e uma dela é a do meu pai.

Alarmada, saio do quarto tão rápido que chego a perder o rumo. A outra voz
parece muito com a do Gabriel!

Mas o que ele está fazendo aqui? Não era para estar no seu
maldito cassino, curtindo a idiota da amante?

Devagar, caminho até a janela, abro apenas uma pequena fresta e


espio o que acontece no portão. Meu pai e o meu ex-marido discutem na
calçada, ambos alterados.

— Não saio daqui enquanto não falar com a minha mulher. Eu


avisei e não voltarei atrás.

Ouço Gabriel esbravejar e brota em mim a curiosidade de saber


o que ele pretende.

— Deixe de ser ridículo, homem! Esse casamento não existe,


nunca existiu.

— Esse assunto diz respeito somente a mim e a sua filha,


portanto, vá chamá-la, porque quero levá-la para casa — afirma.

— Ela chegou aqui chorando e falou que não quer mais


permanecer casada com você. Fora! — papai expulsa, bastante empenhado
em não deixar que Gabriel fale comigo.
— Sua filha não está se separando de mim, Júlio Aguiar. Isso
não acontecerá, é melhor que se acostume. Esqueça a porra da dívida e o

prazo de um ano que eu estipulei para o casamento chegar ao fim.

— Você está bêbado ou enlouqueceu? — É meu velho quem


pergunta, mas poderia muito bem ser eu.

— Talvez eu tenha enlouquecido, mas no momento não tenho

tempo para discutir o assunto. Só quero falar com a minha mulher.

Não deveria ser assim, mas sinto um prazer enorme ao ouvi-lo


me chamar de sua mulher. É tão possessivo e definitivo que eu podaria até
me derreter aos seus pés, caso não tivesse visto o que vi mais cedo e nem
vivido um inferno nas últimas semanas.

— Ela está dormindo.

— Não está. Estou te vendo aí na janela, Luana. — Levo um


susto e fecho-a novamente. Fui flagrada espiando e meu pai saiu como

mentiroso. — Saia ou entrarei para te pegar.

— Só falta agora você virar um invasor, não é mesmo? — meu


pai alfineta. — Se tentar entrar aqui, chamo a polícia. Eles devem estar
loucos para colocar as mãos em você — meu pai ameaça e isso faz com que
eu perceba que as coisas estão fugindo rapidamente do controle.

Posso até estar magoada e disposta a sair da vida do Gabriel,


mas não o quero encrencado com a polícia e muito menos preso. Não! O meu
amor não pode ser preso, quer dizer, meu ex-esposo não pode ser preso.

Decidida a acabar com o circo que certamente já chamou a


atenção dos vizinhos curiosos, calço o meu chinelo de dedo e ainda o ouço
dizer antes de sair:

— Foda-se a polícia! Não saio daqui sem a morena.

Leva poucos segundos até eu atravessar a estradinha de grama


que separa a porta de entrada e portão de grades pesadas. A tensão entre os
dois é palpável, alguns vizinhos estão na porta em plena madrugada, fingindo
conversarem, quando na verdade estão de olho na discussão.

Gabriel abre um sorrisinho de canto ao me ver. Ele sabe que


venceu e tenho vontade de socar sua cara bonita até que o sorriso vitorioso
suma do seu rosto. Se bem que é melhor deixá-lo aproveitar o gostinho da
vitória, pois depois de ouvir o que pretendo lhe dizer, não tenho certeza se

ainda estará tão satisfeito.

— Meu bem!

O sorriso e a satisfação morrem no momento em que paro ao


lado do meu pai e ele se dá conta do que estou vestindo. Mede o meu corpo
da cabeça aos pés e rapidamente tira o blazer que está usando e o coloca
sobre os meus ombros.
— Me deixe conversar com ele, pai — peço, e sem fazer
protesto nenhum, seu Júlio entra.

— Com a bunda de fora. É assim que costuma sair para atender


quem chama no seu portão?

O homem já começa falando besteira e tenho uma vontade quase


irresistível de virar as costas e deixar que grite sozinho, pouco me importando

se vai ou não ver o sol nascer quadrado.

— A bunda é minha e eu faço o que quiser com ela. Aliás, você


não tem nada a ver com o meu modo de agir.

— Está enganada. Sou seu marido e só eu tenho o direito de ver


e tocar na sua bunda. A forma como você age também é do meu interesse e
deveria ser do seu, já que é uma mulher casada.

— Você pode pegar esse seu machismo e socar no seu rabo. —


Tento virar as costas e entrar para a casa, mas ele é rápido e me segura pelo

pulso com firmeza.

— Não vire as costas para mim. — Com brutalidade, ele puxa o


meu corpo para junto do seu, fazendo com que nós dois quase ocupemos o
mesmo lugar no espaço, contrariando a física. — Nós precisamos conversar.

— Tá aí uma frase que eu não suporto mais! Não, nós dois não
temos mais nada para conversar. Vá para sua casa e me deixe viver a minha
vida.

— Sei que você esteve lá no Sensations e já adianto que

entendeu tudo errado — afirma com seriedade, olhando nos meus olhos. —
Se não tivesse ficado tão cega pelo ciúme, veria que, mais uma vez, eu estava
dispensando aquela mulher.

— Não precisa se explicar para mim, Gabriel. Você pode fazer o

que quiser da sua vida, afinal, é um homem livre — minto, pois ele tem sim
que me dar explicações.

— Nem você acredita no que está dizendo, morena — afirma,


envolvendo-me com braços que parecem não ter fim. Eu, como não tenho a
menor vergonha na cara, pouco luto para me afastar dele. Senti falta desta
proximidade nas últimas semanas, depois que experimentei o seu toque. —
Quero saber se acredita na minha palavra quando digo que não estava
fazendo nada que a magoasse.

— Talvez acredite, mas isso não muda em nada a nossa situação,


Gabriel. Estamos vivendo uma mentira e não estou mais disposta a continuar.

— Não! Não fale algo assim, meu bem. — Ele sobe as mãos
para o meu rosto e o acaricia. Contrariando minhas palavras, eu deito a
cabeça sobre a palma da sua mão, recebendo o carinho que não deveria, mas
sinto falta. — Nós vamos para casa e lá resolveremos nossa vida.
— Não! Eu estou falando sério, Gabriel. Você não entende que
não posso continuar? Não como passamos o último mês. Não quero sua

amizade. Eu não preciso da sua amizade, que nada mais é do que uma forma
de me machucar.

Repentinamente, quando eu mal termino de falar, o homem


simplesmente me beija. Toma minha boca com urgência, penetrando-a com a

língua e não me resta outra saída a não ser aceitar e correspondê-lo.


Aproveito para matar a saudade de algo que desejei e não chegou a ser
concretizado. Seu toque é desesperado e a forma como me aperta contra si me
deixa sem fôlego.

— Venha comigo para a nossa casa, amor — pede depois de nos


beijarmos como se não tivesse nenhum curioso nos observando com total
atenção.

— Para quê? — pergunto, torcendo fervorosamente para que a

resposta seja a que desejo ouvir.

— Porque você é minha mulher e prometo não fugir mais disso.


Que se exploda o fato de eu não te merecer! Sou um egoísta e agora só quero
pensar na minha felicidade e percebi tardiamente, Luana, que minha
felicidade é você. Não sei como isso aconteceu, mas tudo o que importa é te
fazer minha mulher em todos os sentidos.
— Eu... eu...

— Não me deixe, morena. Não agora quando finalmente entendi

que não adianta te afastar, não adianta fugir de nós dois. Isso só te traz para
mais perto de mim, dos meus pensamentos e do meu coração.

Enquanto fala o que imagino ser difícil para ele admitir, Gabriel
vai distribuindo beijos pelo meu rosto, pescoço e colo, fazendo com que seja

difícil negar o que me pede. Sou tão vendida por esse homem — literalmente
vendida — que chega a ser vergonhoso!

— Quero ficar com você, mas não me machuque outra vez —


peço e ele para o que estava fazendo para me olhar enquanto fala.

— Não posso prometer que nunca irá acontecer porque sou


apenas humano, um homem que tem mais defeitos do que qualidades, mas,
prometo fazer tudo para não errar mais do que já errei com você. Quero tentar
essa coisa de relacionamento ao seu lado, morena.

— Eu também quero, diabo loiro — brinco. — E sobre o que


você disse ao meu pai...

— Não mudo uma palavra sequer. Não tem mais dívida a ser
cobrada e nem prazo. Nosso casamento, a partir de hoje, é um matrimônio
como outro qualquer, somente um casamento sem data para acabar.

— Era tudo o que eu mais queria ouvir — confesso.


— Falo mais quando você sentar no meu pau e esfregar esses
peitos na minha cara mais tarde, bebê.

A mão já está rumando para o meu seio, quando meto um tapa


estalado nela e digo:

— Aqui, não! Os vizinhos são fofoqueiros e eles queriam assistir


a uma briga e não a um show de pornô ao vivo.

— Você está certa, vamos produzir o nosso próprio filme pornô


na intimidade da nossa casa.

— Está tão assanhado que nem parece o homem que há pouco


estava de papinho com outra. — Não resisto a fazer a acusação, ainda
chateada e ciumenta com o que vi. Não suporto aquela mulher ou qualquer
outra perto dele.

— O que você viu, meu bem, foi seu marido dizendo para ela
que o que tínhamos acabou, pois agora sou um homem casado e fiel à minha

mulher.

— Fiel, não venha me dizer que...

— Bati o meu próprio recorde de dias sem sexo. Agora estou


apostando comigo mesmo quantos dias demorará até que minha mão caia
podre de tanto me masturbar, imaginando que estou te comendo.

— Poxa, que pena, se você não fosse tão galinha, não estaria
sentindo tanta falta.

— Ainda bem que agora eu tenho minha gostosa para compensar

o tempo perdido. Vou te comer tanto, mas tanto, que você ficará até
desidratada de tanto gozar.

— É uma ameaça?

— Não, é uma promessa.

Ele morde meu lábio inferior e o puxa para dentro da sua boca,
fazendo com que eu o olhe nos olhos, que estão faiscando de desejo. Sinto
seu pau ficar muito duro entre nossos corpos e o quase contato com o meu
sexo nu me faz umedecer com vergonhosa rapidez.

— Acho melhor a gente ir de uma vez, morena. Você deve ter


percebido que as coisas estão um pouco duras por aqui.

— Antes tenho que falar com o meu pai, cheguei em casa

falando que o nosso casamento tinha acabado — revelo e vejo uma sombra
passar pelos seus olhos. — Você vem? — chamo.

Gabriel nos afasta e leva os nossos olhares até a sua barraca


armada por baixo da calça jeans.

— Acho melhor você ir sozinha, não quero chocar o sogrão


desta forma — brinca e tem razão. A situação não seria nada engraçada,
tendo em vista que fui eu que provoquei tal assanhamento. — Te espero no
carro, gostosa.

— Não demoro.

Beijo de leve a sua boca e em seguida, viro-lhe as costas.

— Ei, baby — Ouço sua voz me chamar antes que eu termine de


empurrar a grade do portão. — Vista uma calcinha, por favor. Não quero

causar um acidente. Não posso dirigir sabendo que tenho fácil acesso à sua
bocetinha, que tem sido a causa dos meus sonhos eróticos quando estou
dormindo ou acordado.

— Safado!

— E louco por você.

É a última coisa que ouço sair da sua boca pelos próximos 20


minutos, tempo que usei para falar e me despedir do meu pai.

Seu Júlio não ficou muito contente no início, nem mesmo

quando eu disse que a dívida já não existe, independentemente do tempo que


o casamento entre mim e Gabriel durar. Com paciência, expliquei que gosto
de verdade dele e que estou disposta a tentar ser feliz no nosso casamento. No
fim, papai entendeu que estou apenas me dando uma chance e prometeu
mudar de vida, tentar deixar o passado de lado e ir em busca da sua
felicidade.

Sei que não é tão simples mudar velhos hábitos e, menos ainda,
superar um luto que já dura tempo demais para que seja considerado
saudável. Se depender de mim, ele vai se reerguer e encontrará o caminho de

volta para a felicidade que há tanto tempo foi esquecida.

Na estrada, estamos em silêncio, vez ou outra trocando olhares


quentes e cheios de promessas. Para provocá-lo, fiz questão de não trocar de
roupa e sai com o mesmo blusão que pretendia dormir, ainda sem calcinha e
sutiã. Assim que entramos no carro, me arrependi da decisão tomada, pois
minhas pernas ficaram quase completamente à mostra e ele não para de
desviar a atenção da estrada para elas. Tento puxar a barra da camisa para

baixo, mas não adianta.

— O que te falei sobre vestir uma calcinha? Será que, se te tocar


agora, encontrarei um pedaço de pano por baixo dessa blusa?

— Não sei... Por que não descobre você mesmo?

Ousada de uma maneira que jamais fui, abro sutilmente as


pernas e o olho, desafiando-o a fazer alguma coisa. Gabriel gosta de usar a
máscara de homem impassível e fico doida para testar o quão controlado ele
pode ser quando é provocado tão abertamente.

Sem dizer uma palavra, meu marido para o carro no


acostamento, em uma pista bem iluminada e com um fluxo de carros intenso
para o horário.

— Você é uma garota muito safada, não é mesmo? Está

adorando me provocar.

— Mas não estou fazendo nada.

— Abra mais essas pernas. Sou eu quem dirá se está ou não


sendo uma garota perversa.

Excitada só de ouvir o som da sua voz me dando ordens, abro


amplamente as pernas, o que faz com que a blusa suba um pouco mais por
minhas pernas, deixando-as completamente expostas ao olhar faminto do
meu homem.

Seus dedos começam a subir pela minha coxa e, além do toque e


do olhar que parece querer me comer viva, o vento frio da madrugada faz
com que eu me arrepie por inteiro e meus mamilos ficam intumescido, o que
chama a atenção de Gabriel para os meus seios.

— Está louca para que eu te toque onde minha ausência causa a


agonizante dor do vazio, não é, morena? Você está louca para esfregar uma
perna na outra, para aliviar o tesão que te consome?

— Gabriel...

— Você está muito úmida. — É o que constata quando a ponta


dos seus dedos toca minha boceta. — Sem calcinha e lisinha. Você vai me
levar à loucura, bebê.

Ele colocou dois dedos sutilmente no meu sexo para provocar,


fazendo questão de não aprofundar o toque, enfiando apenas as pontas, para
em seguida retirá-las.

— Quer gozar? — Apenas balanço a cabeça e, ao invés de dar o


que quero, Gabriel tira os dedos por completo e os leva até a boca, chupando-
os, enquanto me encara. — Sente aqui no meu colo, gostosa. Apesar de você
não merecer, por ser uma provocadora do caralho, vou fazer você se sentir
bem. Farei, pois agora sou o seu homem e tenho esse direito.

Gabriel nem precisa insistir, eu logo tiro o cinto de segurança e

parto para cima dele. Sento-me de pernas abertas sobre seu corpo, com as
costas apoiadas no volante de maneira desconfortável.

— Quero a sua boca, ela é tão apetitosa quanto o resto deve ser.
— Enquanto fala, Gabriel desenha o contorno dos meus lábios com o dedo —
Vê-la e beijá-la faz com que eu crie imagens pervertidas na mente. — Seu
braço está envolvendo minha cintura com firmeza, fazendo com que nossos
sexos estejam em contato, sua calça sendo a única barreira entre eles. — Se
quiser, e não for chocar sua mente inocente, posso te contar.

— Eu quero — confesso, adorando essa preliminar e a tensão


sexual que promete uma noite quente, algo que adiamos por tempo demais.
Com isso o desejo foi se acumulando, dia após dia, resultando em uma
urgência e uma tensão sexual quase palpáveis.

— Só consigo pensar nela tomando o meu pau incansavelmente,


você me chupando até sugar cada gota de energia do meu corpo. Sua boca, a
boceta, a bunda; quero te comer toda, Luana Aguiar Souto.

Enquanto fala, ele aproveita para dar leves mordidas, seguidas


de chupadas na minha boca e, mais embaixo, faz movimentos lentos e
circulares, promovendo uma torturante fricção entre nossos sexos. Seu pau
está muito duro e, sobre ele, minha boceta está melada de desejo.

— Diga que me quer tanto quanto eu te quero e nós iremos agora

mesmo para casa, acabar com essa espera torturante.

— Quero ir para sua casa.

— Você quer ir para nossa casa, morena — corrige, fazendo


com que eu me dê conta, pela primeira vez, do quanto isso é real. — Não é a
minha casa, é a nossa casa.

Gabriel e eu estamos mesmo dispostos a viver nosso casamento


e, se depender de mim, nada impedirá que ele, enfim, seja consumado.
Foi extremamente difícil, uma árdua luta interna, mas, no fim,
consegui. O surto de coragem começou a correr pelas minhas veias quando
cheguei em casa, com medo da sua reação pelo que achou ter visto no bar do
Sensations e não a encontrei.

Procurei-a por toda a propriedade e rapidamente me dei conta de


que Luana não tinha voltado para casa. José não demorou a chegar sozinho e
fui até ele, que me disse onde minha mulher estava. Muito discreto, ele não
fez nenhum questionamento a respeito do que havia presenciado e, ainda
assim, senti necessidade de me justifica para ele e para mim mesmo. Um
desentendimento comum entre marido e mulher, mas eu já estou indo buscá-
la. Foi o que eu disse.

Enquanto me dirigia para perto demais do meu passado, um

lugar onde jurei nunca mais colocar os pés, fiz sem ter ideia do que dizer e
agora creio que foi melhor assim, sem planejamento. Abri meu coração
depois de ter entendido que não conseguiria mais ficar longe dela e o
resultado é mais doce do que poderia ter sonhado durante as várias semanas

em que fantasiei tê-la, como a tive dentro do espaço apertado e


desconfortável do carro.

Foi difícil resistir ao louco tesão e vontade de descer minha calça


juntamente com a cueca e comê-la ali mesmo. Ficamos aos amassos nada
inocentes por um bom tempo, nenhum de nós dois abria a boca para fazer
outra coisa que não fosse morder, beijar, gemer ou chupar. Já estava quase
melando a cueca com um gozo de perder o fôlego, enquanto ela rebolava a
boceta quente e úmida no meu cacete, quando um carro jogou a luz forte do

farol sobre os nossos rostos e o motorista gritou para que fôssemos transar em
um quarto.

No momento que me dei conta do que estávamos fazendo, com


muito custo, tirei a gostosa de cima de mim. Não que eu seja tímido ou algo
que chegue perto disso, mas se consegui frear os nossos instintos, foi somente
por não querer que nossa primeira transa acontecesse dentro de um carro e no
meio da estrada. Hoje quero que tenhamos o que por muito tempo foi adiado.
A foda no carro ficará para uma outra oportunidade. Sou um homem que

prioriza os desejos e a sede por aventura. Pela forma que a morena estava

sentada no meu pau, sem o menor receio por estarmos no meio de uma
estrada em plena madrugada, creio que nossa vida sexual será muito agitada e
o tédio passará longe da nossa cama.

— Não gosto quando você faz isso, seu doido. — Minha gata,

com metade da bunda de fora, reclama por estar sendo carregada. — Sou
pesada, e se você me derrubar no chão, talvez a noite não acabe como você
deseja.

— Cale a boca, mulher! — brinco, mordendo seu queixo,


segurando suas coxas que estão em volta da minha cintura. — Você não pesa
mais do que uma pena para mim e se não parar de reclamar, vai tirar minha
concentração e aí sim, correremos o risco de cair como duas jacas moles —
digo, enquanto atravessamos o jardim.

— A noite está tão fresca, o que acha de ficarmos ali? — O dedo


fino aponta para a piscina e tenho a confirmação do quão aventureira ela pode
ser. A minha gata claramente está a fim de transar aqui fora, ao ar livre.

— Você tem certeza de que quer fazer isso aqui? Lá em cima


nós temos um quarto aconchegante nos esperando, uma cama enorme e o ar
condicionado, posso deixar o lugar na mesma temperatura que está aqui fora
— dou-lhe uma opção, mas, na verdade, quero o que ela quiser. Se quiser

transar ao ar livre, ao ar livre transaremos.

— Estava pensando em continuarmos onde paramos da última


vez, o que acha? — sugere e entendo aonde quer chegar.

Quando tentamos da outra vez e acabamos descobrindo quem na


verdade fomos no passado um do outro, também estávamos aqui, na piscina.

Para exorcizar o que não deu certo, nada melhor do que nos amarmos aqui,
como se entre aquele dia e hoje não existisse um espaço de semanas em que
estivemos distantes um do outro.

— Acho que você tem toda razão, minha gostosa. — Sabendo


que suas pernas e braços estão enroladas bem firmes em volta da minha
cintura, desço as duas mãos para a sua bunda e a esfrego com gosto no meu
pau, que está para sair correndo do meu corpo para entrar na sua boceta. —
Acho que eu não aguentaria mesmo chegar até o quarto.

Com ela levando-me à loucura ao beijar a minha orelha e


provocar meu pescoço com a língua, sento na primeira espreguiçadeira que
aparece à nossa frente, com ela esparramada sobre as minhas pernas.

— Não aguentava mais te querer e não poder tê-la, linda. Estou


louco por você, só penso em você, dia e noite.

— Eu também, Gabriel — retribui.


— Quero que traga essa boquinha gostosa e carnuda até aqui e
me beije.

Safada de um jeito que a cara não denuncia, a gostosa toma a


iniciativa ao colocar a ponta da língua entre os meus lábios, para em seguida
tirá-la e contornar minha boca com ela. Estou a ponto de implorar por mais
quando Luana simplesmente resolve acabar com a brincadeira e então

começa a dar o seu melhor. A garota segura os cabelos curtos da minha nuca,
deixa as nossas cabeças em um ângulo perfeito e me dá um beijo que seria
um atentando violento ao pudor, caso estivéssemos em público.

Com as bocas simulamos o ato sexual, sua língua varre o interior


da minha boca e eu faço o mesmo com a sua. Na noite quieta, o único som
que se ouve é o do nosso beijo molhado e dos gemidos que escapam. Os
únicos movimentos são os das nossas línguas buscando-se, do seu corpo se
esfregando no meu e do farfalhar das nossas roupas, barreiras desnecessárias

para o estado de excitação em que nos encontramos.

— Luana, linda... — Ainda tento falar, em meio a névoa de


paixão na qual estamos envoltos. Nossas bocas não querem se largar e se
estou tentando fazer o contrário, é somente para avançar para um outro nível
de intimidade que me levará ao paraíso particular que tanto desejo alcançar.
Quero estar socado até o talo dentro dessa mulher gostosa demais para o bem
da minha sanidade mental e só sairei quando meu pau e sua boceta estiverem
em carne viva. — Quero que você... saia... de cima... de mim. — Estamos há

tanto tempo nos devorando que é quase impossível formar uma frase

coerente.

Tão difícil que acabei escolhendo as palavras erradas e a prova é


que o seu corpo de repente fica tenso.

— Sou pesada, não é? — questiona, mas ela parece já ter

respondido à pergunta na sua cabeça, considerando sua tentativa de se


levantar do meu colo.

Contrariado, eu a seguro com mais firmeza, aperto os cabelos


próximos a sua nuca e, com o rosto muito próximo ao seu, olhando nos seus
olhos e falando quase dentro da sua boca, digo:

— Já não tínhamos superado esse assunto, porra? Quantas vezes


teremos que ter essa conversa para que entenda, de uma vez por todas, que
você é perfeita? Você se enxerga assim, morena?

— Sim, mas...

A minha mulher tenta abaixar a cabeça, mas eu a impeço ao


segurar o seu queixo e mantenho-a erguida, olhando diretamente para mim.

— Não existe mas, você é a coisinha mais linda e gostosa da


minha vida e não importa quantas vezes eu tenha que te comer, entenderá que
na minha frente só vejo você, eu só quero você!
— Acho que estou me apaixonando por você — fala, deixando-
me surpreso, pois não estava esperando ouvir tal confissão. Surpreso, mas

não a ponto de sair correndo.

— Não sei o que é amar e muito menos estar apaixonado, linda,


mas, se a necessidade de estar com alguém, o fato de não desejar fisicamente
outra pessoa for um indício, talvez tenha que confessar que também estou me

apaixonando por você.

— Eu tenho medo — revela e, nos seus olhos, vejo toda a


sinceridade que sai da sua boca.

— Estou apavorado, mas a gente pode descobrir juntos, não é?

— É o que mais quero, amor. Posso te chamar de amor? — faz a


pergunta e é a coisa mais fofa do mundo, o que é algo estranho e inusitado,
pois essa palavra nunca foi atrelada a nada que tivesse relação com a minha
vida.

— Pode chamar do que quiser, amor. Sou seu homem e você é


minha morena, minha gata e, principalmente, minha mulher.

— Estamos tão românticos hoje, nem parecemos os mesmos que


não podiam se ver e já estavam aos gritos, sempre discutindo.

— Pois é, agora o único grito que se ouvirá nessa casa são os


seus: Vai, amor, soca com mais força! Sim, eu deixarei você comer a minha
bunda! Você tem o pau mais lindo do planeta!

Faço uma imitação patética da sua voz e ela cai na risada. O que

era para ser uma foda bem safada, está se tornando um papo romântico e
descontraído — coisa que jamais me vi fazendo — e imagino que, ao lado da
minha esposa, experiências inéditas não faltarão.

— Mas você é muito safado, homem. Como assim está pensado

em bunda se nem passamos da primeira base.

— Primeira base?

— A boceta — diz, como se fosse óbvio.

— Da primeira base passaremos agora, porém, não posso deixar


de sonhar com a segunda. — Levo as mãos o seu bumbum, passando o dedo
perigosamente perto do orifício apertado. Ela fica tensa e também arrepiada,
o que é muito excitante, pois demostra que apesar do temor que possa sentir,
ela também tem curiosidade. — Tenho uma verdadeira tara por essa bunda

grande e perfeita. Ela é o meu sonho molhado desde a primeira vez que você
entrou na minha sala e começou a gritar comigo.

— Você queria me matar — diz.

— Queria sim, mas também queria te jogar de quatro sobre a


minha mesa e de comer todinha.

Ao invés de ficar chocada com a minha revelação, a morena


parece mais fogosa do que já estava antes.

— Por que não faz agora? Eu estou aqui, a sua mercê — a

descarada fala ao meu ouvido, voltando a rebolar em cima do meu pau de


maneira torturante. — O que pretende fazer comigo, será que vai ser um
homem mal?

— Muito mal, minha putinha. — Aperto seu peito fortemente

por cima da camisa e ela dá um pequeno salto nas minhas pernas. — Quando
eu acabar com você, estará com a boceta toda vermelha e gasta, mas saberá
quem foi que te fodeu. Não saberá o seu nome, mas lembrará que é minha e
que só eu posso te dar prazer, apagar o fogo que você tem.

— Porra! Estou tão sensível aqui.

Ela ameaça se tocar, mas eu a impeço.

— Quero que você levante das minhas pernas, agora! — peço


mais uma vez e, agora a minha safada não questiona, apenas se levanta,

deixando a marca da sua excitação na frente da calça clara, que agora tem
uma mancha mais escura no ponto em que seu sexo estava encostado. — Tire
a porra desse pedaço de pano que mal cobre a sua bunda e fique nua para o
seu homem. Quero te ver por inteiro.

— Gabriel, não...

— Agora, minha linda! — Não aceito a sua recusa e muito


menos a chama da insegurança que quer reacender.

Ela, de repente, talvez convencida pelo meu olhar esfomeado e a

volumosa ereção marcando a frente da minha calça, volta a ser a safada de


segundos atrás e, como uma feiticeira, leva as mãos delicadas até a barra da
camisa que mal alcança as suas coxas grossas. Como uma stripper, começa
lentamente a subir a camisa e, pouco a pouco, vai revelando os atributos que

são responsáveis pelas minhas masturbações solitárias e os banhos frios.

As últimas semanas foram o tormento da minha vida, pois, se na


sua frente eu mantinha a pose, tratando-a com uma fria gentileza que a
mantinha a uma distância segura, no meu íntimo as fantasias corriam soltas.
Se quando descobri ela era a minha garota da juventude, não consegui
desassociá-la da mulher que eu queria como amante, o problema não durou
por muito tempo. Não sei se passou dois dias até que eu me recuperasse do
baque da descoberta, mas lá estava eu, desejando a mulher novamente e,

diferente do que imaginei que aconteceria, pensar que ela foi a única pessoa
com quem me importei de verdade, além da minha mãe, e ver a mulher que
ela se transformou, só serviu para torná-la ainda mais atraente aos meus
olhos.

De maneira assustadora, a atração — não só a física — triplicou


de intensidade e, em cinco semanas, creio que não houve um dia sequer em
que eu não a desejei com ardor. Se Luana estava padecendo com o novo
afastamento, creio que eu estava sofrendo o dobro. O castigo pelas minhas

escolhas foi muito maior do que o medo e perceber isso me impulsionou a

seguir em frente.

Sei que problemas virão, mas também sei que sou Gabriel Souto,
minha fama não é à toa e de maneira alguma deixarei que minha mulher
sofra. Decidi me permitir e farei o que estiver ao meu alcance para manter o

mal longe da minha linda e fazê-la feliz como nunca. Essa será a minha
prioridade a partir de agora.

Não menti quando disse que estava me apaixonando por ela e


também não pretendo fazer nada para evitar que o sentimento entre nós dois
se aprofunde. A garota é tudo o que eu, com a minha vida toda errada, jamais
imaginei encontrar. O fim não poderia ser outro que não fosse eu
mergulhando de cabeça em uma paixão que aparentemente desconhece
limites. Eu também não quero que haja limites, só quero viver e respirar pela

primeira vez algo que me traga um pouco de luz.

A mulher está toda linda e nua na minha frente. O vento fresco


da noite espalha alguns fios dos longos cabelos para frente do seu rosto e só
posso pensar que está tão perfeita que nem parece real. Parece uma pintura, a
mais cara e valiosa obra de arte, que deve ser cuidada e venerada, o que eu
farei com muito prazer.
— Você quer me matar, mulher? — digo, com o coração prestes
a sair pela boca e, mais embaixo, o pau está prestes a explodir.

Precisando de alívio, para que a brincadeira não termine antes


mesmo de começar, levo a mão até a frente da calça, abro o botão e,
juntamente com a cueca, desço a roupa pelas minhas pernas, jogando-a no
chão. Meu membro pula duro e orgulhoso, quase alcançando meu umbigo.

Olho para a minha mulher e seus olhos parecem prestes a saltar do rosto.

— É todo seu.

Pisco para minha mulher, que está muda, levo a mão ao meu pau
e começo a manuseá-lo com movimentos lentos, subindo e descendo. Como a
cabeça rosada e robusta está completamente molhada do líquido pré-gozo,
derivado das nossas preliminares, minha mão desliza com facilidade. Vendo
o espanto no olhar dela, digo:

— Pode parecer assustador, mas nós vamos dar um jeito.

Garanto que ele vai caber direitinho dentro da sua boceta e, depois da
primeira vez, sentirá como se ele tivesse sido feito para estar dentro de você.

Sei que tenho um belo instrumento, de um tamanho respeitável


e, principalmente, grosso e veiudo. Sei como usá-lo e ninguém nunca
reclamou, pelo contrário, elas sempre vieram em busca de mais.

Felizmente, agora eu tenho uma mulher muito excitada na minha


frente e, se depender de mim, ela só dormirá hoje quando estivermos sem
forças para mexer um membro sequer, acabados de tanto transar. São mais de

dois meses de seca e frustração sexual entre nós dois, então nada mais justo
do que recuperarmos o tempo perdido com muito sexo quente e suado.

— A camisa, Gabriel. — Aponta e vejo que seu braço está um


pouco trêmulo.

Com rapidez, tiro a última peça de roupa e agora estamos os dois


pelados. Ela, em pé na minha frente; e eu, sentado de pernas abertas, na
tentativa de aliviar um pouco a pressão no meu saco e a agonia do tesão que
corre alto nas minhas veias.

— A sua tatuagem, ela é linda — elogia.

— Fiz para você, morena. Só para você. A vida é tão louca que
agora eu te tenho aqui na minha frente, tão minha, pronta para se entregar da
forma mais íntima. Vem aqui mais perto, vem!

Estendo o braço e, incerta, ela dá apenas alguns passos até estar


em pé, entre as minhas pernas, com a boceta muito perto do meu rosto.
Bastaria apenas que eu baixasse um pouco a cabeça para que minha boca a
tocasse.

— Você está molhada, não está? — Luana apenas confirma com


a cabeça e continuo: — Acha que se eu te tocar agora, estará preparada para
me receber, amor? Foram tantos dias, semanas, meses! Só quero entrar em
você agora. Dessa vez, vai ser rápido, mas nós temos a madrugada inteira

para fazer isso direito. É o que você quer?

— Quero agora, Gabriel. Não estou aguentando mais.

Seu tom é de súplica e isso me basta. Levo a mão até o seu sexo,
toca-o superficialmente e, quando ela abre as pernas pedindo por mais, levo

dois dedos para dentro — como pensei, ela está muito molhada, preparada
para mim. Faço pequenos movimentos de vai-e-vem e massageio o seu
clitóris com o dedão, mas quando percebo que ela está prestes a gozar, afasto
a minha mão e levo os dedos úmidos até a boca.

Minha mulher parece um pouco encabulada e imagino que não


esteja acostumada a esse tipo de gesto íntimo, algo pequeno que não chega
nem perto de tudo o que pretendo fazer com ela. Creio que entre nós dois não
existirá pudores ou limites e se ela está sem jeito, creio que é somente pela

novidade, já que deu provas suficientes de que é tão livre quanto eu para
experimentar os prazeres sexuais que proporcionaremos um ao outro.

— Quer sentar aqui, morena?

Bato nas minhas coxas e ela não se faz de rogada. De pernas


abertas, ela vem para cima de mim e, cheio das más intenções, deixo seu
corpo levemente suspenso, seguro a base do meu pau em riste e passo
levemente a pincelar a cabeça melada no seu sexo úmido.

Nós estamos suando antes mesmo de fazer alguma atividade que

exija mais do nosso físico e o que se ouve são os nossos gemidos incontidos.
Pincelo a sua entrada, coloco só a cabeça para dentro e logo tiro. Ela não fica
para trás e, como uma deusa do sexo, começa a rebolar a bunda gostosa no
meu cacete.

Quando a tortura é demais para suportar, penso em algo de que


meu tesão quase me fez esquecer.

— Amor, nós precisamos de camisinha e aqui fora não tem —


aviso.

— Eu tomo anticoncepcional— revela. — Se você quiser...

— Estou limpo, nunca transei sem camisinha com ninguém, quer


dizer, nunca mais transei. — Me atrapalho na explicação, fazendo um esforço
para focar na conversa. — Confia em mim?

— Confio! — É enfática e, aparentemente, o tempo de espera a


afetou tanto quanto a mim. Assim como eu, ela também só quer transar.

— Tudo bem, então. Você está no comado hoje — aviso, ao


descer o tronco na espreguiçadeira.

Deitado, com a cabeça apoiada em uma almofada confortável,


tenho a visão do meu paraíso particular. Aprecio seus peitos deliciosamente
grandes e cheios, prontos para serem mamados por horas a fio.

Por esse par de seios, sou capaz de esquecer até mesmo o meu

nome. Vejo sua barriga plana, o quadril largo e as coxas bem torneadas, tudo
nela remete ao pecado, ao vício — o maior e mais perigoso que já tive.

Sem tirar os olhos dos meus, Luana segura meu pau com força
suficiente para me fazer desmanchar em sua mão e o leva para dentro de si.

Ela deixa só a pontinha na sua entrada lisa e eu instruo:

— Agora você pode sentar, gostosa. Tome pouco a pouco o pau


do seu homem, fique cheia de mim até não suportar mais, assim como eu
quero me fartar de você.

Mal termino de falar e ela começa a rebolar em cima do meu


cacete. Tenho que me segurar para não urrar para a lua porque minha mulher
tem a boceta muito apertada e pequena para meu tamanho e espessura.

— Porra! Você é muito grande, Gabriel.

Ela se esforça, apoia as duas mãos no meu peito e eu, querendo


ajudá-la e também evitar que eu goze antes de estar inteiro dentro dela, levo
dois dedos até o seu clitóris e o massageio, deixando-a mais excitada e
consequentemente, mais molhada, o que tornará a penetração mais fácil.

— Você é muito deliciosa, morena. Estou prestes a ter um


infarto aqui, porra! — berro quando ela termina de sentar sem aviso. Estou
vendo estrelas e não é no sentido literal. O seu grito faz com que eu tenha que
morder a lateral da minha mão para não gozar antes do tempo.

Ela está completamente empalada e chora, sim, a minha mulher


está choramingando.

— Merda! Machuquei você? — Tento levantar meu tronco, mas


ela nega veementemente com a cabeça e volta a me empurrar para a

espreguiçadeira.

— É muito bom, estou tão cheia de você. É meu, Gabriel, só


meu e não imaginei que poderia ser assim — declara e começa a se mexer
levemente, fazendo movimentos circulares até que minhas bolas estejam
atoladas na sua boceta, que paga fogo.

— Sou o seu homem, morena. Faça o que quiser de mim, só não


me culpe se tudo terminar rápido demais. Você está me matando e te encher
com a minha porra é o que eu mais quero no momento.

A mulher não tem pena de mim e começa a subir e descer com


uma torturante lentidão. Eu, em contrapartida, deixo que o faça apenas para
que se familiarize com seu novo brinquedo. Quando já está com o rosto
retorcido de prazer e não aparenta sentir nenhum desconforto com a
penetração, levanto minhas costas e sentado, cara a cara com a gostosa,
decido que chegou a minha hora de entrar na brincadeira.
— Está se divertindo, amor? — Mordo seu lábio inferior com
força e quando ouço seu gemido de protesto, alivio com uma passada de

língua pelo local magoado. — Agora quero que você se segure firme em mim
— instruo, segurando as bochechas da sua bunda e tomando o controle das
arremetidas.

Sentindo-a apertar o meu pau de uma maneira deliciosa, passo a

meter com mais força e velocidade. Minha morena apenas geme, implora por
mais e segura meu pescoço, já que meu cabelo é curto demais para que
alguém consiga puxá-lo.

— Mais forte, Gabriel — ela pede e eu faço, mas além disso,


abocanho um dos seus seios. Primeiro mordisco o mamilo marronzinho e
depois mamo o quanto posso da delícia que eles são. — Porra, eu preciso
gozar!

— É você quem manda, minha safada.

Estapeio aquela bunda boa para bater e com a outra mão


estimulo o seu ponto de prazer. Em seguida, meto com tanta força que sinto o
colo do seu útero. Uma, duas, três. Não sei quantas vezes foram, mas sinto o
corpo da minha gostosa trêmulo, sua respiração ofegante e ouço-a gritar meu
nome. Ela está no meio de um intenso orgasmo, mas eu não dou trégua.
Mudo as nossas posições, fico de joelho sobre a grana e deito seu corpo
suado sobre a espreguiçadeira.

— Me deixe te provar, quero sentir o seu sabor na minha língua.

Abro suas pernas e percebo que o seu olhar está anuviado pelo
orgasmo que fez seu corpo tremular. Quando saio ainda duro da sua boceta já
sensível, quase sinto uma vertigem pelo tesão da cena à minha frente.

Ter essa mulher toda entregue, aberta para mim, é quase demais
para um pobre mortal. A boceta está brilhando e minha boca está salivando.
Como não sou de ferro e muito menos louco, passo os dedos por cima do
sexo cheirando à tesão e espalho a umidade pela boceta depilada por
completo. Com fome, tomo o seu sexo, usando de toda a minha experiência
para lhe dar o melhor oral que ela já teve na vida. O melhor e único, a partir
de agora, pois não deixarei que outro toque no que é meu, estarei perto o
suficiente para garantir isso.

— Que delícia, marido!

Ela levanta o tronco e segura minha cabeça, enquanto lambo o


sexo de fora para dentro. Faço movimentos de sucção, mexo no seu clitóris
durinho e quando enfio um único dedo até o fundo, ela está sensível demais
para evitar um segundo orgasmo.

— Filho da puta! — ela xinga, mal sustentando as pernas


trêmulas. — Você aprendeu isso onde? — Dou um sorriso descarado e ela
trata de emendar: — Esqueça, não quero saber! — avisa, voltando a cair de
costas na espreguiçadeira.

Luana é tão ciumenta e nem sei se deveria me sentir tão


satisfeito com esse seu lado possessivo, mas a verdade é que eu fico louco de
tesão só de saber que minha mulher se importa comigo o suficiente para
sentir ciúme.

— Toda minha experiência serviu para chegar até aqui e te fazer


gozar com a boca, meu amor — afirmo, ajeitando suas pernas sobre os meus
ombros e colocando o pau novamente na sua entrada. Estou a ponto de bala e,
dessa vez, quero gozar muito.

— Ah... — ela geme e rebola.

— E para fazer isso! — Entro com tudo e seu corpo solavanca


para cima. — Você é uma puta gostosa!

Agarrado aos seus seios, penetro-a por incontestáveis vezes e o

som dos seus gemidos e a súplica pelo meu nome são música para os meus
ouvidos.

— E você gosta! — provoca, levantando o quadril e, sem


pudores, encontrando-me no meio do caminho, cada vez que soco no seu
calor molhado e apertado.

— Adoro mesmo. É até bom que seja assim, pois eu não vou
mais sair de cima de você — falo aos trancos, ao mesmo tempo em que
mando ver na foda do ano. — Vou te comer todinha, bebê, e você vai gostar.

— Safado!

— Gostosona! — Estapeio a parte de fora da sua coxa. — Quer


gozar novamente?

— Sim.

— Estão toma, minha gostosinha! — Estoco com brutalidade,


ouvindo o som dos nossos corpos se batendo e sentindo o suor escorrendo
pela nossa pele. — Porra, Luana!

Explodo e a levo junto comigo. Desço suas pernas, meu corpo


cai quase desfalecido sobre o seu e tenho que fazer força para não a sufocar
com meu peso.

Estou delirando enquanto sinto meu pau despejar jatos de sêmen

dentro dela e tudo o que eu penso é em beijar sua boca. Com olhos presos aos
dela, beijo-a na boca, sentindo o prazer do gozo varrer cada pedaço do meu
corpo, enquanto ainda a fodo lentamente. Minha porra enche sua boceta e
sinto que agora não tem mais volta, tornando-me irracionalmente possessivo.
Ela é minha e nada vai nos separar.

— Não quero mais sair daqui, morena. Morrerei nos seus braços.

— Com o pau enterrado em mim?


— E te alagando com a minha porra, marcando-a para que todos
saibam que é minha — falo, mais calmo, ainda sem vontade de quebrar a

íntima conexão.

Ela, aparentemente desejando o mesmo que eu, circula a minha


cintura com as pernas, agindo como se não estivéssemos em um lugar
desconfortável e que mal cabe nós dois.

— Eu costumava detestar essa frase possessiva — diz.

— Não detesta mais? — indago, curioso.

— Não, porque eu sinto que sou sua — diz e talvez a sinceridade


seja uma das coisas que eu mais gosto na sua personalidade.

— É muito minha. Desde quando era apenas uma menina, a vida


já estava avisando que terminaríamos juntos outra vez. Serei seu pelo tempo
que me quiser, amor.

— Não vou me acostumar tão cedo a te ouvir me chamando


assim, meu garoto do capuz.

— Você gosta, não é? — Ela afirma com a cabeça. — Então,


amor, o que acha de irmos para nosso quarto, terminar essa festinha em um
lugar mais confortável? — sugiro. — A menos, é claro, que você esteja a fim
de dormir.

— Não vou dormir tão cedo. O fogo ainda está alto aqui.
— Conte comigo para apagar esse incêndio e depois reacendê-lo
novamente, minha gostosa. — Ainda dou mais três bombadas e, com o pau

semiereto, saio do seu interior.

Levo a mão até seu sexo e, com os dedos, sinto a mistura do


nosso prazer escorrer pelas suas coxas. Pego um pouco com os dedos e, sob o
seu olhar avaliativo, espalho por sua barriga e seios. Ver o resultado faz com

que meu pau sacuda e volte a enfurecer como se não tivesse acabado de gozar
como um louco.

— Deliciosa e marcada por mim — falo, possessivo.

— Você não pode falar essas coisas com tamanha naturalidade


porque eu fico parecendo uma tarada por já querer transar novamente.

— Somos dois tarados então, minha insaciável. Sente? Ele está


duro novamente, doido para te comer — afirmo, ao me esfregar entre suas
coxas. — Venha, vamos para o quarto, pois nossa noite está apenas

começando.
— Você está dormindo? Porque, se estiver, posso te levar para
cama agora mesmo e dar a noite por encerrada. Talvez eu tenha abusado
demais do seu corpinho gostoso, minha linda — Gabriel fala baixinho, perto
do meu ouvido, mas as mãos não saem dos meus seios.

Ele está assim há vários minutos e não os larga nem por decreto.
Belisca o mamilo, puxa e massageia — meu homem faz de tudo, só não
consegue os largar.

Posso apostar que estamos a mais de uma hora dentro da


banheira confortável e cheia de espuma por todos os lados e nenhum de nós
parece ter vontade de arredar o pé dali.
— Não abusou nada. É mais fácil eu ter abusado do seu —
afirmo, pois estou agindo como uma perfeita sedutora, uma mulher

insaciável, algo que jamais imaginei ser. — Não estou com sono coisa
nenhuma — nego, mesmo que imagine já ser umas 3h da madrugada, horário
em que costumo estar no 13º sono. Hoje, se pudesse, não pregaria os olhos.
Vararia a noite somente para ter certeza de que estou mesmo dentro de uma

banheira com o homem mais bonito e delicioso do planeta. — E você


cansou?

— De você? Não creio que isso seja possível — revela e me


encho de orgulho da minha própria proeza sexual, nada que seja digna de um
Oscar, mas boa o suficiente para manter meu marido duro desde nosso
amasso dentro do carro. — Posso passar a vida inteira em cima de você.
Foram quantas? Quatro ou cinco?

— Não lembro, parei de contar quando você mentiu, dizendo

que iríamos apenas tomar banho.

Relembro o momento em que nós deixamos a área da piscina e


ele, com a mania de me carregar nos braços, dizendo que tenho o peso de
uma pena, levou-me para o seu maravilhoso quarto. Deitou-me na cama para
que eu recuperasse pelo menos o fôlego e foi encher a banheira que eu nem
sabia que existia.
Enquanto a bendita enchia, Gabriel, mais uma vez, me carregou
nos braços para o banheiro e, no chuveiro, ele carinhosamente me deu um

banho. Primeiro, passou o sabonete líquido e aromatizado por todas as


minhas partes e depois lavou o meu cabelo com todo o cuidado. Também me
aproveitei para lavar suas costas e tocar em certas partes sensíveis do seu
corpo.

Gabriel e eu fizemos amor embaixo da ducha morna, lenta e


intensamente, de uma forma totalmente diferente do que aconteceu na
piscina. No chuveiro, nos tocamos e exploramos nossos corpos com as mãos
e a boca, descobrindo as partes sensíveis um do outro. Como um casal de
namorados, ficamos embaixo da água, beijando-nos. Quando estávamos
lânguidos demais e, ainda assim, sem vontade de nos desgrudar e dar a noite
por encerrada, corremos para a banheira de água morna, com sais de banhos
cheirosos e estamos aqui até agora, só curtindo a companhia um do outro,

sem nunca deixar a chama que acendemos se apagar.

— Como prometido, nós tomamos banho, mas como você é uma


provocadora gostosa, acabamos transando.

Gabriel morde a ponta da minha orelha e um comichão começa a


subir pelo meu corpo. É incrível como já fiz uma quantidade obscena de sexo
e ainda assim consigo ficar excitada.
— Os bicos dos seus seios estão duros, linda. — É óbvio que ele
iria perceber. — Será que tem alguém excitada aqui? — ele fala a última

parte quase sussurrado e só o som da sua voz e o calor da sua respiração são
capazes de fazer com que eu perca o rumo.

— Talvez eu esteja, e você? — provoco, pois estando sentada no


meio das suas pernas, claramente sinto sua excitação.

— Talvez esteja animado com a proximidade da sua bunda, mas


já pode começar a tirar qualquer ideia pervertida que tenha na cabeça. Nós já
fizemos sexo demais para uma única noite e eu não quero esgotar minha
mulherzinha linda e deliciosa.

— Pare de bobagem, Gabriel! — protesto.

— Não é bobagem, esposa.

Para provar seu ponto, Gabriel leva a mão até meu sexo e tenho
um pequeno sobressalto. Ele tem razão, estou mesmo sensível e também

ardida, mas sei que foi por uma boa causa. Para ter esse homem que fode
como um deus do sexo, não reclamaria de ficar assada por alguns dias e
andando com as pernas meio abertas.

— Está vendo? Sua boceta está sensível pelo excesso que cometi
com você e por isso nós viemos para a banheira. A minha intenção era aliviar
um pouco e não transarmos outra vez — fala com calma e paciência, quase
como se fosse um pai explicando algo para filha, a diferença é que a nossa
relação não tem nada de paterna. — Agora vou te tirar daqui e a senhora irá

para a cama descansar.

Fazendo como planejou, Gabriel nos levantou, vestiu um roupão


com todo o cuidado no meu corpo e, como se eu não pudesse andar,
carregou-me para o nosso quarto. Chegando ao lado da cama, ele sentou-me

na ponta, em seguida se sentou atrás de mim e, muito calmamente, começou


a pentear o meu cabelo. É tão cuidadoso que começo a cochilar contra o seu
peito.

— Amor, me deixe cuidar de você. Prometo que será rápido e


depois te deixarei dormir. — Sacode meu ombro e, com muito custo, acabo
concordando com a cabeça.

Depois de pentear meu cabelo, meu marido tira meu roupão e me


deita de costas sobre a cama convidativa. Em seguida, observo-o sair do

quarto e voltar com meu hidratante. Derrama um pouco na palma da mão e


passa por todo meu corpo, tomando cuidado para não tocar o meu sexo. Seus
atos são tão cuidadosos que me esforço para permanecer desperta, apenas
para vê-lo cuidando de mim, depois de toda a intimidade que tivemos.

Gabriel volta a se afastar, dessa vez para o banheiro. Quando


retorna, tem algo na mão. Aproximando-se do meu corpo nu, ele abre minhas
pernas e olha diretamente para o meu sexo. Estou tão sonolenta que não

tenho tempo nem de ficar envergonhada. Vejo-o derramar algo que parece

óleo corporal na mão e depois espalhar pelo meu sexo. Ele o massageia com
extrema delicadeza, espalha o líquido por toda a parte e termina com dois
dedos enfiados no meu sexo. Gabriel faz movimentos de vai-e-vem algumas
vezes e, mesmo estando sensível e ardida, meu corpo não deixa de estremecer

ante o seu toque. Depois de tirar o dedo, meu loiro deixa um beijo sobre a
minha vagina e volta a se movimentar pelo quarto. Viro a cabeça e o vejo
tirar uma camiseta do closet.

— Vamos apenas vesti-la e você finalmente poderá descansar,


minha linda.

Sento-me, desajeitada, tendo somente o trabalho de levantar os


braços, já que Gabriel faz o restante. A camisa tem o seu cheiro
inconfundível e estou certa de que a noite não poderia ter terminado melhor.

Antes de deitar, ainda o observo tirar a toalha e vestir um short, estilo


moletom. Depois, ele regula a temperatura do ar condicionado e pergunta:

— Quer a luz completamente apagada?

— Pode apagar, prefiro dormir na completa escuridão. Quer


dizer, não consigo dormir se não for assim.

— Tudo bem, é você quem manda, morena.


Quando o quarto já está na penumbra, enrolo a minha juba em
um coque frouxo mesmo sabendo que amanhã estará incontrolável e, enfim,

me deito. A cama é espaçosa e muito macia, o travesseiro embaixo da minha


cabeça traz a sensação de estar deitada em uma nuvem de tão bom que é.
Ajeito-me de lado e resisto bravamente a fechar os olhos, não querendo
dormir, antes de ter a certeza de que Gabriel estará comigo na cama.

Não demora e sinto o colchão afundar no lado vazio da cama,


quando o corpo pesado do loiro cai sobre ele. Meu amor permanece afastado
e tudo o que eu desejo é que ele encurte a distância e venha me abraçar para
dormirmos agarradinhos, da forma como venho, secretamente, fantasiando
durante semanas.

Um pouco meloso? Com certeza, mas é o que tenho desejado por


madrugadas a fio, enquanto virava de um lado para o outro, sem nunca
encontrar uma posição confortável, sentindo falta de algo que não tinha

chegado a se concretizar.

— Foi bom para você? — Surpreendo-me com a pergunta em


que a voz deixa transparecer certa insegurança, algo que não imaginei vindo
dele.

— Foi mais do que bom, foi perfeito de um jeito que superou


todas as minhas fantasias para o momento. Você não tem ideia de como
desejei que essa noite acontecesse. Eu não suportava mais te querer e não ter.

Essa foi uma das causas de eu ter decidido ir embora, além do ciúme —

confesso, de costas para ele.

— Me perdoe, vou te recompensar pelo tempo perdido, amor. Eu


prometo, se você quiser, é claro.

— Quero você e mais nada. Estou apaixonada — confesso,

quase vencida pelo cansaço.

— E eu também estou. — Finalmente, ouço o seu corpo se


arrastar para perto do meu, o peito colado às minhas costas e o braço em
volta da minha cintura puxando-me levemente para junto de si. — Louco e
irremediavelmente apaixonado por você. — A última coisa que tenho ciência
é do seu beijo no meu pescoço e, em seguida, caio no feliz e merecido sono,
um em que estou nos braços do homem que eu amo.

Mesmo que existam razões que me digam para fazer o contrário,

ainda assim é inevitável, pois ele é Gabriel Souto, o meu algoz e também o
meu salvador, o meu amante e também o meu amigo de infância.

Acordar em uma manhã de sábado nunca foi tão prazeroso.


Saber que não tenho que ir para o Sensations traz uma alegria e um alívio
nunca antes sentidos, pelo contrário, mesmo tendo imposto a mim mesmo
dois sábados de folga no mês, ainda assim, eu dava um jeito de trazer
trabalho para casa e controlar os negócios através do computador. Depois de

ontem e de acordar todo envolvido no corpo da minha gata, inclusive com


uma mão agarrada ao seu seio, agradeço pelo dia de folga.

A verdade é que, depois que eu deixei de negar os meus desejos


e meus sentimentos e de um peso ter saído das minhas costas, não desejo

mais nada além de curtir o meu dia com a gostosa, conhecer mais sobre o seu
passado e permitir que conheça partes de mim que não a façam sentir vontade
de sair correndo. Quero fazer o máximo para merecê-la e espero que, para
ela, seja o suficiente, já que se dependesse do meu passado sombrio, eu não
seria digno de nem ao menos respirar o mesmo ar que a minha esposa.

— Hummm — Ouço-a gemer baixinho, aconchegando-se


melhor ao meu peito.

Estamos muito agarrados um no outro e eu não poderia estar de

outra forma que não fosse muito duro — uma dolorosa excitação que em
nada se relaciona com a comum ereção matinal masculina. Estar duro é
responsabilidade única e exclusivamente da sua bunda apertando-se contra o
meu pau, enquanto geme de satisfação durante o sono. Sem pudor e excitado,
agindo como um homem que se deixa levar pelos impulsos sexuais — algo
que nunca fui, pelo menos não em demasia — esfrego-me contra a bunda que
a minha blusa enrolada na sua cintura deixou nua. Levo a mão aberta até a
sua barriga, a boca até o seu ouvido e, da maneira mais sacana que posso

pensar, sussurro no seu ouvido:

— Está na hora de acordar, sua deliciosa. — Assim que termino


de falar, dou uma mordida no lóbulo da sua orelha, o máximo que escuto é
um gemido, ainda durante o sono, e percebo que ela não dá nenhum sinal de
que está a fim de acordar. — Eu estou morrendo aqui, gostosa, nem parece

que transamos como dois fodidos ontem à noite — digo, mesmo sabendo que
ela não pode me ouvir e talvez seja melhor assim, pois já me entreguei
demais a essa mulher.

Luana já sabe que tenho sentimentos fortes por ela, e será melhor
que não ouça sair da minha boca a confirmação do quanto estou viciado no
seu corpo, no seu sexo gostoso e, principalmente, no que os nossos corpos
são capazes de fazer quando estão juntos sobre uma cama ou qualquer
superfície capaz de dar conta de todo o nosso ardor.

Na minha cabeça, existe uma mistura da mulher e da menina de


13 anos atrás e, de uma maneira inesperada para mim, percebo que estou
enfeitiçado tanto por uma quanto pela outra. A menina e a mulher, ela é as
duas e estou louco pelo que ela se tornou.

Passei os anos me esforçando — inutilmente — para não ficar o


tempo todo me perguntando como ela estava, se estava feliz e, no fim, Luana
acabou vindo parar nos meus braços. Braços relutantes em abraçá-la no

início. Braços que a repeliram, mas não para longe o suficiente. Eles não

foram fortes a ponto de mantê-la a uma distância segura, não quando a cada
respiração eu a desejava ao alcance das minhas mãos, não quando nada na
minha fodida vida tem sido mais forte do que o fascínio quase obsessivo que
passei a nutrir por ela.

Mesmo quando neguei, eu a queria.

Quando me afastei, a queria com mais intensidade.

Quando decidi me afastar mais um pouco, o meu corpo e meu


coração imploraram por ela.

Quando ela me virou as costas e estive a ponto de perdê-la,


tomei uma decisão. Decidi que nenhum medo ou risco me impediria de tê-la
entre os meus braços. Esses que queriam apertá-la e não a queriam um
centímetro sequer de distância deles.

Eu posso ser o próprio diabo encarnado, como ela confessou ter


me chamado e como todos os outros têm certeza de que sou, porém, diferente
do que todos pensam, o diabo também é capaz de ter sentimentos e pode
sentir amor. Nada que o torne um anjo, nada que possa ser dedicado a
qualquer um. É capaz de dedicar tudo de bom que tem somente a uma pessoa,
a garota que agora se tornou minha mulher. A garota e a mulher que sempre
me pertenceram de alguma forma.

A amiga e agora a amante. Se existe humanidade dentro de mim,

ela pertence a Luana Souto, a quem eu amo de uma forma que nunca fui
capaz de amar ninguém, depois da minha mãe. Foi rápido como um furacão e
assustador. É irresistível, é incontrolável.

É Gabriel amando Luana intensamente como nunca imaginou ser

capaz de amar. Por ela, é capaz de matar e de morrer, afinal, é a forma como
ele sabe amar.

Certo ou errado, é a forma que ele sabe amar.

Saudável ou doentia, é a forma como ele sabe amar.

— Me perdoe — sussurro baixinho no seu ouvido, pois sinto que


preciso dizer isso, quase como se fosse inevitável que as palavras saíssem da
minha boca.

Preciso que ela entenda que o meu amor não é um prêmio, mas
sim um castigo para ela, que já deu provas de ser um ser humano bem melhor
do que eu um dia sonharia ser. Se fosse minimamente decente, a deixaria
livre para viver a vida dela, para ser feliz com alguém que realmente a
merecesse. Mas eu não sou esse cara, sei que não a deixarei ir nunca, não
serei altruísta a esse ponto, não com alguém que trouxe tudo a quem nunca
teve nada.
Sentidos e sensações.

O calor para espantar o frio.

O bem para amenizar o mal.

— Você é o coração que bate dentro do meu peito, sempre foi —


sussurro ao seu ouvido.

Ela finalmente se remexe e suponho que, de maneira


inconsciente, aperta ainda mais a bunda no meu pau. Nessa hora, eu sinto
como se ele fosse capaz de sair correndo para dentro das suas pernas para
encontrar o calor quente, escorregadio e apertado que ele tanto deseja.

— Você nunca estará sozinho. Eu sempre estarei aqui — fala a


nossa frase bem baixinho e com a voz abafada pelo colchão.

Nesse momento, o meu peito se comprime de uma emoção que


nunca soube como sentir e nem ao menos sei se ela ouviu as coisas que

sussurrei ao seu ouvido ou se está apenas falando durante o sono.

Em meio a um casamento que teve um início conturbado e


controverso, ainda não acredito que a vida quis me presentear com uma
pessoa feito a linda morena. O que sei é que seja lá o que o destino tenha
planejado para esse inesperado reencontro, não deixarei de lutar por ela, pois
algo me diz que, em algum momento, terei de fazer isso.

Usando de todas as armas que tenho, nem sempre as moralmente


corretas, garantirei que ninguém tire a minha mulher de mim e, enquanto ela
mesma não me mandar embora, ficarei aqui, preenchendo o meu coração com

a pureza da sua alma e do seu toque, afinal, até para o mais miserável dos
demônios existe uma fuga e o momento de redenção.

— Acho que te amo muito — fala com a voz mais firme e


percebo que ela não estava dormindo e talvez tenha ouvido o que eu disse e

até o que não disse.

— Eu tenho certeza de que te amo muito.

Parece rápido demais.

Louco demais.

Perigoso, muito perigoso.

— Eu amo você, morena! — A voz ressoa dentro do meu peito,


martelando na minha cabeça, não posso e não quero calá-la.
Eu tenho certeza que te amo muito.

A declaração repete-se sem parar na minha cabeça e não sei se


deveria ter ficado quieta para ouvi-lo falar mais um pouco, pois acho que só
dessa forma ele se sente confortável para falar mais abertamente o que sente,

ou se deveria já ter pulado em cima do seu corpo e entregado para ele o meu
coração e todo o meu tesão.

Sei que Gabriel é um homem marcado e que tem questões em


sua vida que é melhor ficarem encobertas, mas sei também que nada do que
ele foi, ou é, será capaz de frear o amor que rapidamente brotou dentro do
meu peito.
O que Gabriel é hoje.

O que Gabriel foi no passado.

Perspectivas diferentes, como se fossem duas pessoas, mas,


olhando de maneira superficial e considerando o pouco que o conheci antes e
o conheço agora, creio que o passado determinou o presente. As
circunstâncias o moldaram assim e, apaixonada como estou agora, tudo o que

eu quero é mergulhar, me jogar de cabeça nas profundas e perigosas águas de


um relacionamento que requer cada gama de coragem que há em mim.

Coragem para experimentar o novo.

Coragem para amar sem medo.

Coragem para amar um homem como Gabriel Souto.

— Você sempre acorda assim ou eu posso me sentir especial por


isso? — Sem pudor, me esfrego em sua ereção e ele aperta o seu agarre ao

pressionar a mão aberta na minha barriga.

— Com você, ele fica especialmente animado. Te assusta, meu


bem? — Morde a minha orelha, depois de me provocar ao meu ouvido, e
sinto os dedos dos pés se encolherem.

— Me excita, quero acordar assim todos os dias — revelo,


deixando evidente para ele o que espero da nossa relação.

Sei que falamos sobre os nossos sentimentos e ontem tivemos


uma noite para lá de quente, mas, ainda assim, quero tudo esclarecido para
que não criar expectativas de receber além do que ele está disposto a me dar.

Não posso negar que eu quero tudo. Desse homem, eu não aceito
migalhas, não com o fogo da paixão que corre pelas minhas veias.

— Você vai, Luana. Todos os dias, a partir de hoje, me acordará


com essa bunda maravilhosa apertando o meu cacete, tornando difícil a

minha respiração e terei de resistir ao desejo de te acordar e te comer como a


minha primeira refeição do dia — fala tudo o que eu queria escutar e sinto
que o dia começou bem, o final de semana em que não agiremos como dois
estranhos sendo obrigados a conviver sob o mesmo teto.

— O que você vai fazer em relação a isso? — provoco e meu


marido morde o meu ombro, onde ficariam as marcas dos seus dentes se ele
não começasse a passar a língua pelo lugar, revezando entre lamber e chupar.

Com a parte superior dos nossos corpos muito juntos, ele desce a

mão pela minha barriga até achar o meu sexo, que já estava muito feliz por
sentir a sua dureza, imagine como se sentirá com o toque dos seus dedos
experientes e habilidosos?

— Você é uma mulher muito safada, senhora Souto, isso me


deixa mais excitado e doido para passar o fim de semana inteiro te comendo e
recuperando o tempo perdido e satisfazendo o desejo reprimido. — Enquanto
fala, os dedos encontram caminho para o meu sexo e eu já estou em chamas.
— Você quer? Poderemos dispensar os funcionários e ficaremos sozinhos,

namorando sem interrupções e sem que eu precise amordaçar a sua boca para
que os seus gritos de satisfação não assustem os pobres trabalhadores.

— Você está sendo presunçoso agora, amor — aviso, mas, na


verdade, amo o seu jeito confiante de homem forte, de quem se acha capaz de

tudo.

— Repita isso que você falou. — Sua cabeça se inclina na


direção do meu pescoço e Gabriel passa a atacá-lo com beijos e pequenas
mordidas.

— O quê? Que você está sendo convencido?

— Não, tente outra vez!

— Amor?

— Isso! Mais uma vez, faça isso por mim.

— Amor, meu amor. O meu homem mau — digo muito mais do


que é pedido e fico surpresa, mas não sei se é pela tranquilidade e liberdade
que começo a ter em dizer a Gabriel como me sinto em relação a nós dois ou
se é por me dar conta de que ele talvez estivesse carente e precisando do meu
afeto.

Carinho por carinho, sem esperar nada em troca, a intensidade


do meu marido, depois de enfim se abrir para os seus sentimentos, me mostra
um lado seu que jamais imaginei que ele tivesse e, principalmente, evidencia

que não é algo que ele esteja acostumado a revelar.

A cada descoberta, mais apertado o meu coração fica, e uma dor,


aos poucos, se intensifica e ameaça comprimir o meu peito. Sinto ganas de
desnudar a sua alma, de saber o que viveu em todos esses anos e nos

anteriores ao dia em que nos conhecemos. Gabriel acredita ser um monstro,


como eu também pensei um dia, e agora cabe a mim mostrar que ele merece,
tanto quanto qualquer outra pessoa, alcançar a felicidade.

Quero estar ao seu lado nessa caminhada, até que juntos


cheguemos a um lugar aonde olharemos na mesma direção. No momento, sei
que não é o que acontece, pois existem fatos desconhecidos para mim e até
que eu saiba de tudo, terei medo de perdê-lo a qualquer momento, de ver o
meu casamento chegar ao fim sem antes ter tido a chance de lutar por ele.

Amo Gabriel com tudo o ele mostra e o que não parece disposto
a revelar. Amo-o com uma intensidade que não deixa brecha para dúvidas,
sei que enquanto for possível, estarei do seu lado, assim como a criança que
um dia eu fui esteve ao lado do adolescente que ele foi.

— Com você, eu não quero e nem vou ser mau, só na cama,


porque eu sei que adora quando eu sou mau, não é mesmo? — pergunta.
Quando dois dos seus dedos adentram o meu sexo, dou um leve
sobressalto e Gabriel vagarosamente os retira.

— Não faça isso — reclamo, segurando a sua mão no lugar,


ainda que não esteja mais com os dedos no meu interior.

— Lembrei que ontem à noite nós passamos dos limites, agora


preciso que você colabore para que eu faça o meu serviço de cavalheiro aqui.

— Onde fica a parte em que passaríamos o fim de semana inteiro


namorando? — questiono, certa de que estou parecendo uma tarada e não
sinto o menor constrangimento por isso. Passei tempo demais desejando esse
homem para me saciar com facilidade.

— Podemos namorar sem necessariamente envolver penetração.


Temos mãos com dedos mágicos, bocas, e você pode se surpreender com o
quanto o seu marido pode ser criativo quando quer.

— Já me convenceu. — Com facilidade aceito o que me propõe,

imaginando que, para estar com ele, qualquer coisa é válida.

— Agora, você fica aqui que vou preparar algo para comermos
— pede levantando-se e indo para o banheiro.

— Se importa de eu ir lá no meu antigo quarto? Preciso trocar de


roupa — digo, completamente envergonhada, coisas que acontecem com
recém-casados, eu suponho. Não é como se eu fosse ter coragem de falar que
estou indo para escovar os dentes, checar se o desodorante está em dia depois
da suadeira de ontem e, principalmente, conferir o estado da minha juba de

leão.

— Fique à vontade, morena. Eu vou encher a banheira de


hidromassagem para a gente. Quer? Depois poderemos descer e tomar café,
se você concordar, é claro. — É fofo perceber o quanto esse homem está se

esforçando para me agradar e fazer com que eu me sinta bem.

Está claro que Gabriel é um homem de palavra e se ontem foi até


a minha casa me buscar, prometendo que vamos tentar fazer com que a
relação dê certo, agora tem mostrado que fará de tudo para assegurar o
sucesso disso.

— Não vou demorar.

Levanto-me, vou até ele, que está parado ao lado da cama,


gloriosamente nu e excitado, dou um beijinho nos seus lábios, mas não saio

sem antes olhar, preocupada, para o seu pênis.

— Pode deixar que eu mesmo cuido disso, amor — diz e um


arrepio gostoso sobe pelo meu corpo só de imaginar como ele cuidará de si
mesmo. — E quanto a você, não faça nada, te satisfazer é o meu serviço e o
faço com prazer, gostosa.

Quando lhe viro as costas, Gabriel não perde a chance de apertar


uma das bochechas da minha bunda. Saio com um sorriso no rosto, pensando
em como me sinto à vontade estando tão exposta ao seu lado. Felizmente, a

ameaça da insegurança com o meu peso, coisa que eu achava que tinha
superado havia muito tempo, não foi adiante e agora, talvez por causa da
intimidade que o sexo trouxe, me sinto bem em me mostrar para ele.

Além do sexo, todas as vezes em que ele achou um absurdo eu

falar sobre o meu peso ou mesmo quando falou diretamente sobre o assunto,
eu me senti bem, como se refletisse se valeria ou não a pena trazer à tona uma
pauta que já estava superada na minha vida.

Além de tudo, a forma como Gabriel me olha desde a primeira


vez em que nos vimos faz com me sinta sexy. A boca pode até negar, assim
como ele conseguiu negar o que queríamos por 2 meses, pode até mentir, mas
os olhos, esses não mentem, são transparentes e falam pelo meu marido. Os
olhos intensamente azuis falavam sobre desejo, mesmo em meio às

discussões mais sérias que tivemos e sobre sentimentos que ele tentava
mascarar.

Desde ontem, estou em êxtase por não precisar mais me


perguntar se tudo o que eu vejo quando olho nos seus olhos é uma ilusão,
uma invenção da minha cabeça que reflete todos os meus desejos. Agora,
depois de ouvir suas palavras, de sentir o toque das mãos possessivas, tive a
certeza de que nada era ilusão. Gabriel, em seu estado de negação, depois de
descobrir fatos do nosso passado em comum, também estava sofrendo por

acreditar que desejava o que não poderia ter.

Abandono meus pensamentos e, apressada como não lembro de


ter sido antes, tomo um rápido banho, escovo os dentes e cuido do cabelo ao
prender a juba em um coque frouxo. Não coloco nada além de uma toalha em
volta do meu corpo e me dirijo apressada para o quarto do Gabriel. Eu o

encontro dentro do banheiro luxuoso, olhando para a banheira que pode,


tranquilamente, comportar duas pessoas. Ela já está cheia e a espuma branca
e cheirosa chama a minha atenção.

— Venha, morena, deixe eu fazer com que você se sinta bem.

Ele me deixa nua ao puxar a toalha, estende a mão para mim e,


quando a pego, Gabriel nos leva para dentro da banheira de água morna. Por
pelo menos 1h, ficamos relaxando, falando de assuntos triviais e
aproveitando para nos tocar.

Com o coração leve, aproveito para curtir cada segundo de


felicidade, cada fato novo descoberto a seu respeito, ainda que ele esteja
sempre tomando cuidado para não falar nada revelador sobre o seu passado,
em um silêncio que, por enquanto, estou disposta a respeitar, pois sei que
chegará o momento em que ele se sentirá a vontade e então falará.

— Está com fome? — questiona quando já estamos ficando com


a pele enrugada.

— Sim, afinal, um certo alguém não me deu descanso ontem e

roubou toda a minha energia. — Faço charme, olhando para trás e ele beija
minha boca.

Com as minhas costas apoiadas no seu peito, Gabriel não


conseguiu tirar as mãos dos meus seios que, por muito tempo achei que eram

grandes demais para o padrão imposto pela sociedade. Com o tempo, percebi
que eles são uma vantagem para os meus atributos e ver o quanto Gabriel é
louco por eles apenas corrobora a certeza que eu já tinha.

— Que pena, bebê. Eu até pediria desculpas, mas não posso, não
quando tenho a intenção de fazer novamente. — Termina mordendo o meu
pescoço, fazendo com que eu deseje cada segundo dos dois dias que
passaremos juntos e sozinhos. Os nossos primeiros dias como um casal de
verdade, amando-se e descobrindo-se.
— Os dotes culinários do seu marido estão aprovados? —
Sentados à mesa, em uma cozinha que antes era esporadicamente usada por
mim para fazer as minhas próprias e solitárias refeições, pergunto para a
minha morena, que come com um prazer que dá gosto de ver.

Não é daquelas que fingem gostar, quando, na verdade, estão


comendo na marra, alimentando-se apenas de folhas e vento. Parece que ela
parou com a neura sobre o próprio peso e isso muito me agrada. Luana tem o
corpo voluptuoso que desperta inveja em qualquer mulher e deixa os homens
rastejando aos seus pés. A morena, nesse caso, está me dando o trabalho de
convencê-la a não mexer no que já é perfeito.
— A panqueca está uma delícia, Gabriel. Onde você aprendeu a
cozinhar tão bem? — pergunta e sei que, além da curiosidade pela comida, a

minha gata também quer saber mais sobre mim, fatos que ainda não sei se
devo lhe contar, pois temo que ela me olhe com outros olhos. Um olhar de
julgamento.

Sei que estou sendo injusto e até mesmo colocando em xeque o

nosso amor e a confiança necessária para que uma relação seja minimamente
saudável, mas, mesmo sabendo de tudo isso, não me sinto preparado para
arriscar, não sem antes ter certeza de que ela estará tão apaixonada por mim
que não conseguirá ficar longe, não conseguirá me deixar, mesmo que seja o
seu desejo.

Amarei essa mulher de uma maneira que nunca fui capaz de


amar ninguém, de tal modo que não restará dúvidas dos meus sentimentos,
mesmo quando as circunstâncias disserem o contrário, mesmo se chegar o dia

em que ela passará a repudiar o meu amor. Luana saberá que foi amada da
única maneira que sei fazer tudo na minha vida: sem reservas.

— Eu jamais me cansarei de admirar o seu sorriso, Gabriel, e


nem de insistir para que faça isso com mais frequência.

— Tenho certeza de que agora você o verá muitas vezes, pois é a


razão de todos eles. — Pego a mão pequena e beijo as juntas de cada um dos
seus dedos.

— Você deve me amar mesmo, pois não parece o mesmo

Gabriel que conheci algumas semanas atrás.

— Só para você, amor. A vida não foi exatamente generosa


comigo. Mas vamos falar de coisas boas. Me fale, o que quer fazer depois do
café da manhã?

— Bom, eu tinha um compromisso. Se você quiser, nós


poderemos ir até lá ou ficar aqui mesmo, posso deixar para ir outro dia — ela
fala sem revelar muito do tal compromisso, o que me deixa bastante curioso,
ainda mais agora que estou disposto a conhecê-la e entendê-la melhor.

— Não precisa adiar nada por mim e, se puder, quero ir com


você.

— Não vai nem mesmo perguntar para onde iremos? — Quando


balanço a cabeça, negativamente, ela continua: — Você não é nem um pouco

curioso?

— É claro que sou, neste momento, por exemplo, estou curioso


para saber a cor da calcinha por baixo dessa saia. Você me mostra se eu for
um bom menino? — provoco e, transparente como é desde a época em que
era menina, a vejo ficar toda desconcertada.

— Você não vale nada, Gabriel Souto. Vamos nos apressar


porque o nosso dia será longo e, se for chato demais para você, peço que me
perdoe, prometo te recompensar quando voltarmos para casa.

— A recompensa, com certeza, vou querer e quanto a se


desculpar, não precisa fazer isso, bebê. Entenda que eu sempre quero dizer
exatamente o que sai da minha boca. Não existe meias palavras, entrelinhas,
nada disso — digo, e ela fica confusa, mas tenho certeza de que, no futuro,

essa frase fará sentido.

— Estou satisfeita e acho que terei que tomar muito cuidado


para não engordar ao seu lado. A minha sorte é que temos uma cozinheira e
você ficará longe dessas panelas durante a semana.

— Aos finais de semana, farei questão de cozinhar para a minha


morena gostosa.

— A sua morena gostosa agradece a gentileza — Enquanto fala,


a minha esposa começa a recolher a louça, mal conseguindo disfarçar a

ansiedade, o que também me deixa um pouco nervoso.

Depois de arrumarmos a cozinha, vamos para o carro e, dentro


do veículo, Luana e eu não podemos deixar de nos tocar. Fico com uma mão
no volante e a outra entrelaçada à dela e repousada sobre o seu colo.
Distraída, ela acaricia a palma da minha mão e o gesto me enche de
satisfação.
A essa altura, fazendo tudo o que jamais pensei em fazer com
alguém, já deixei de me perguntar como algo tão grandioso assim aconteceu

tão rápido. Creio que seja melhor assim, pois, embora eu sempre tente achar
explicações para tudo, agindo da forma mais prática possível, acredito que
para o amor não existe explicações.

É como saltar no escuro e não temer pela queda.

É como perder a segurança sobre as próprias pernas e, ainda


assim, querer continuar flutuando.

Jamais fui um homem cheio de escrúpulos e que sente remorso


pela vida que leva, mas, nos últimos meses, depois de ter trazido Luana para
a minha vida, passei a sentir um incômodo que comprime o meu peito. Sinto
vontade de ser alguém melhor por ela — não por mim, que nunca fui
diferente do que sou agora. Queria ser diferente para merecer tê-la ao meu
lado. Fazer jus ao seu amor por mim e ao meu por ela, um sentimento que a

cada dia ultrapassa barreiras e desconhece limites.

Não sei por onde começar e nem como ser alguém melhor, mas,
se tem algo de que tenho plena convicção, é que irei descobrir uma saída,
principalmente, no que diz respeito aos negócios. Antes eu não tinha nada a
perder e, inclusive, achava divertido o juízo — nem sempre errado — que
faziam de mim, mas Luana está em minha vida e não posso arrastá-la para
minha sujeira.

Tenho que proteger a minha mulher de qualquer ameaça que

possa se aproximar dela e para isso, infelizmente, não posso usar os meios
convencionais para garantir a sua segurança.

— Aconteceu alguma coisa? Você parece preocupado, meu


amor.

Rapidamente, desvio a minha atenção para ela, que tem o cenho


franzido e os cabelos sendo jogados no seu rosto por causa do vento. A meu
pedido, Luana os deixou soltos e o cheiro deles, trazido pelo vento, inebria os
meus sentidos.

— Nada, estou apenas pensando em algumas coisas relacionadas


ao trabalho, não se preocupe — peço. — E esse tanto de comida? Estamos
indo visitar uma escola? — indago, ainda sem saber para onde ela nos levará.

Luana deu as coordenadas de como fazer para chegar ao nosso

destino, e eu não quis perguntar, pois, se ela quisesse falar, já teria dito. Senti
que está meio incerta e não tenho certeza se ela acredita que vou detestar o
lugar para onde estamos indo ou se é outra coisa que talvez que eu não tenha
notado.

— Não exatamente — fala, misteriosa.

Antes de pegarmos a estrada para uma viagem que já dura 15


minutos e ainda tem mais 15 pela frente, minha mulher passou no
supermercado perto da nossa casa, abasteceu um carrinho grande com todos

os tipos de alimentos, desde o essencial ao mais supérfluo, e os levou para


dentro do carro. Quando me ofereci para pagar, Luana não aceitou e até
mesmo demonstrou certo incômodo com a iniciativa. Quando perguntei, ela
apenas disse que é algo que vai além de dinheiro, que faz questão de fazer

isso por eles.

Não sei a quem ela se refere e mal vejo a hora de descobrir.

— Aqui estamos nós! — Mal termino de estacionar e uma Luana

muito animada já está destravando o cinto de segurança.

— Tem certeza de que...

— Pare de perguntar, amor. Vamos de uma vez — Luana não


tem medo de abrir a porta do carro e sair. Como não me resta alternativa, eu a
imito, deixando meu conversível na calçada e sem qualquer segurança.

O lugar é relativamente perto de onde eu e ela morávamos e, tal


qual no antigo nosso bairro, nota-se que é um lugar onde vivem pessoas com
poucas condições financeiras e onde a falta de segurança é gritante. Como eu

mesmo fui um dia, logo de cara, é possível encontrar garotos com cigarros
nos dedos, despreocupadamente conversando em grupos, agindo como se não
esperassem mais nada da vida.

— Pode ficar tranquilo, Gabriel, os garotos não vão fazer nada

com você e nem mexer no seu caríssimo brinquedo. Eles me conhecem e me


respeitam — avisa, segurando a minha mão e puxando-me para o outro lado
da calçada.

Seguimos em frente, ao lado de um muro que, em algum


momento, foi branco, mas é coberto de sujeira e pichações. Seguimos até
alcançarmos o portão de ferro azul e o local tem toda a aparência de uma
escola pública, lugar de onde fugi muitas vezes na adolescência.

Minha esposa bate algumas vezes, um homem barrigudo de meia

idade logo vem abrir e nos dá passagem.

— Bom dia, dona Luana — o moço a cumprimenta e emenda


com rapidez: — Eles estão ansiosos à sua espera, não falam de outra coisa
desde que ligou avisando que viria hoje.

— Bom dia, Cristóvão. Esse aqui é o Gabriel, meu marido —


Luana me apresenta com um belo sorriso e um orgulho incontido na voz.
Parece não perceber que sou eu quem tem motivos para me sentir sortudo por
poder chamá-la de minha mulher.

— Marido? A senhora não namorava com o doutor Gustavo?

Quando o nome do outro homem é mencionado, de maneira


involuntária, aperto com força a sua mão dentro da minha.

Não deveria ficar incomodando com o fato de ela não ter falado
de mim para esse homem e imagino que nem para qualquer uma das pessoas
que ainda encontraremos pelo caminho, mas eu fico. Até ontem, não éramos
de fato um casal, não no verdadeiro sentido da palavra, mas, mesmo assim,
não gosto de saber que ela rejeitou esse título, ainda mais quando eu mesmo
deixei bem claro para todos à minha volta que não estava mais livre, que
havia me casado. É óbvio que o fiz por motivos totalmente egoístas, já que
inicialmente quis usar o status de homem casado para limpar a minha
imagem, mas, ainda assim, eu disse.

O ciúme sem propósito é apenas uma das nuances de estar


apaixonado e, mesmo tendo reações tão idiotas como essa, eu as aceito, pois
elas fazem parte do pacote. Felizmente, não cheguei a externar o que sinto,
porque, aí sim, teria com o que me preocupar.

— Namorei com o Gustavo no passado, Cris — explica. —


Estou casada há dois meses com Gabriel e hoje o trouxe para que vocês o
conheçam.

— Prazer, senhor. Já te vi em algum lugar, mas não consigo me

recordar onde — afirma, olhando-me com curiosidade, e imagino que esteja


se referindo às vezes em que meu nome e meu rosto apareceram nos veículos
de comunicação. — Espero que saiba da sorte que tem por ter dona Luana ao
seu lado.

— Cris!

— E melhor vocês entrarem de uma vez, antes que alguém


venha pela décima vez me perguntar se a tia Lu já chegou.

De mãos dadas, seguimos até chegarmos ao pátio espaçoso,


aberto e colorido. O que vejo me deixa tão surpreso quanto assustado, não sei
explicar o porquê, mas fico abismado com a forma como eles abandonam o
que estavam fazendo, assim que nos avistam. Olho deles para a minha
mulher, vejo o seu rosto se iluminar e, se possível, a amo neste momento

mais do que a amava um minuto atrás.


— Tia Lu, que saudade que eu estava da senhora. — Assim que
a menininha me vê, ela sai imediatamente da roda em que estava com as
outras amiguinhas e vem correndo se jogar nos meus braços. No ato, solto a
mão de Gabriel e abro os braços pera recebê-la.

— Eu também, meu amor. Como você cresceu desde a última


vez em que estive aqui. — Passo a inspecionar o seu rosto e o que vejo é uma
criança de 6 anos de idade, aparentemente saudável e feliz, distante da vida
que poderia levar se estivesse com os pais.

Faz pouco mais de 2 anos que Carla tinha chegado no abrigo


mantido por voluntários e que tem pouco atenção do governo, que fez vista
grossa para as necessidades das pessoas deste lugar. Pessoas como essa linda
menininha com os olhos escuros, pele cor de âmbar e cabelos crespos,

penteado em um perfeito black. Carla foi deixada pela mãe, uma garota de 17
anos na época e que, certamente, não tinha condições financeiras e muito

menos psicológicas para criar uma filha.

Foi constatado que a mãe era usuária de drogas e, em

determinado momento, ela revelou que o pai da menina havia sido


assassinado em uma briga de gangues no bairro. Realidade que poderia muito
bem ser a minha, se não tivesse tido pais presentes e amorosos e que, por um
tempo, o meu marido viveu, mas que, felizmente, conseguiu sair antes que
fosse tarde demais.

Depois que passei a entender perfeitamente o que ele fazia


naqueles becos, a causa da sua apatia e desnutrição, fiquei anos da minha
vida me perguntando que fim ele teria levado. Era mais do que preocupação,

era medo de sequer pensar na ideia de que o meu amigo do capuz tivesse
perdido a vida ou se afundado ainda mais no vício.

Quando descobri em Gabriel era o garoto que por um tempo foi


o mais próximo de amigo que tive, foi como se o peso de mil anos estivesse
saindo das minhas costas. Fiquei feliz e não pude demostrar, não depois da
reação que o meu marido teve e do seu consequente afastamento.
Gabriel foi a razão principal de ter me envolvido com esse
abrigo de menores e, se eu quero fazer com que a nossa relação dê certo,

preciso que saiba dessa informação. Se me levou marcado na sua pele em


forma de tatuagem, também o levei na minha mente e coração, fazendo por
outras crianças e adolescentes o que não tive a chance de fazer por ele.

O que começou como forma de aliviar a culpa e sentimento de

impotência tornou-se umas das coisas mais importantes da minha vida. Vir ao
obrigo pelo menos uma vez por semana é algo que faz parte da minha rotina
desde os meus 17 anos, quando já não acreditava mais da possibilidade de
reencontrar o garoto do capuz. Vim pela primeira vez em uma visita proposta
pelo colégio e me apaixonei.

— E ele, tia Lu, é seu namorado? Sabia que o Cris gosta do Bob
que cuida dos jardins? — Carla, com a sua vivacidade, começa a tagarelar
sem parar e, ao olhar para Gabriel, vejo que ele nem pisca. Permanece mudo,

apenas observando a nossa interação, parecendo mesmo impactado com a


visão das várias crianças correndo pelo pátio. — Você gosta da Tia Lu,
moço?

— Gosto muito da tia Lu, mocinha. — Gabriel é gentil, ainda


que pareça sem jeito.

— Ele é bonito, Lu. Parece o príncipe encantado da Branca de


Neve.

— Vem brincar, Car. — Pedro corre até onde estamos e, antes

de puxar a sua perna, a criança, um pouco mais velha do que Carla, fala:—
Solta ela, tia Lu, o time está desfalcado, estávamos esperando só a senhora
chegar para continuar. — Ele parece um homenzinho, mas é apenas um
garoto de sete anos, achando que precisa cuidar das crianças menores.

— Avise a todas que estou indo, vou só falar com a senhora


Maria e avisar que estou aqui, tudo bem?

— Tá bom, tia Lu. Vamos, Carlinha — chama mais uma vez, eu


a coloco no chão e eles saem correndo de mãos dadas.

— E com você, amor, está tudo bem? — pergunto, ao me


posicionar na sua frente e enlaçar os braços no seu pescoço. — Está calado
desde cedo. Não me diga que as crianças te assustaram? — brinco e, ao sorrir
para mim, ele parece mais relaxado.

Quando pensei em trazê-lo comigo, não fazia ideia de qual seria


a sua reação, mas vejo que está sendo melhor do que imaginei. Não faço ideia
se ele já se deu conta das razões que trazem grande parte dessas crianças para
cá e tenho esperança de que o confronto com algo que tinha relação com o
seu passado seja feito da melhor maneira possível.

— Estou bem, gata. Com você, tudo fica bem. — Olhando


rapidamente para onde as crianças estão, Gabriel apenas constata que eles não
estão de olho em nós dois, e os beijos começam do pescoço, vão subindo para

o maxilar até alcançar a boca. — Você promete que depois vai me contar
direitinho a sua história com esse lugar?

— Eu quero contar e também posso mostrar — provoco ao


morder o canto do seu lábio inferior. Quando ele acena positivamente,

aproveito para pedir: — Amor, eu esqueci as compras dentro do carro, você


pode trazê-las para mim, enquanto eu falo com a Maria? Chame o Cris para
te ajudar.

— Só se você me der um beijo para me convencer.

— Aqui tem crianças, Gabriel. Tente se comportar na frente


delas — repreendo-o, sem estar realmente falando sério. Meu marido tem
bom senso, acho, e deve ter noção de que aqui não é exatamente um lugar
propício para o tipo de carinho que ele está a fim de receber.

— Vou esperar para te cobrar quando estivermos em casa, lá


estaremos a sós e desejo te comer até que tenha esquecido os nossos nomes.
— Ele me beija levemente nos lábios e vira as costas, indo na direção do
portão.

Quando me vejo sozinha, não tenho tempo de dar muitos passos,


pois sou interrompida por Gustavo, que me aborda no meio do caminho entre
o pátio e a sala da Maria. Depois que começamos a namorar, ele acabou se
interessando pelo abrigo e, como eu, nunca mais deixou de ajudar da maneira

que pode. Aqui fazemos doações, recreações com as crianças e até mesmo
eventos, na tentativa de levantarmos fundos e conseguirmos patrocinadores e
voluntários para ajudarem no que for preciso.

Como sou enfermeira, faço o que posso para ajudar no

acompanhamento básico da saúde deles, considerando que o único médico


voluntário é ocupado demais e não pode comparecer mais do que 2 vezes ao
mês. Gustavo é advogado, cuida da parte burocrática e presta algumas
consultorias jurídicas, quando necessário.

Vendo-o na minha frente, não tenho como negar que havia


esquecido completamente a sua existência nos últimos dias, o que é algo
inadmissível da minha parte, uma vez que Gustavo está há muito tempo na
minha vida e, antes de qualquer coisa e apesar de não o ter amado como

deveria, ele é meu amigo.

— Oi, Lu. Faz tempo que não nos vemos.

Ele vem para me beijar e, se não tivesse sido rápida, teria sido na
boca, algo que meu marido gato não gostaria nadinha, considerando o seu
jeito possessivo e a forma como repete sem se cansar que sou dele. Uma frase
que sempre considerei problemática, mas que, quando vem dele, não consigo
receber de outra forma que não seja com satisfação.

— Oi, Gustavo, não esperava te encontrar aqui hoje. — Sou

sincera, imaginando que se soubesse, não teria vindo com o meu marido,
evitando assim, qualquer tipo de constrangimento que possa vir a acontecer.
— Estava indo falar com a Maria, se me der licença. — Tento seguir em
frente, mas sou impedida pelo seu agarre no meu pulso.

— Lu, nós precisamos conversar. Sinto tanto a sua falta.

— Não vamos voltar novamente a esse assunto, Gustavo, eu sou


uma mulher casada e você precisa respeitar isso.

— Casada contra a sua vontade, esquece que sei de toda a


história por trás do seu casamento com o playboy?

— Estou casada porque quero.

— Mas como...

— Amor, Cristóvão encontrou um carrinho e está levando os


mantimentos para a cozinha — Gabriel fala e, ignorando a presença de
Gustavo, me puxa pela cintura e me traz para junto do seu corpo. —
Desculpe a inconveniência, algum problema aqui? — pergunta e, apesar do
que parece, sinto a tensão de Gabriel e Gustavo.

— Problema nenhum. Gustavo veio me cumprimentar e eu


estava dizendo que preciso falar com a senhora Maria, vamos? — chamo,
apressada, para acabar com a cena constrangedora e sem propósito, pois não
importa como o meu casamento começou e sim como seguirá.

Gabriel é o meu marido e Gustavo não tem motivos para se


meter na história, ainda que eu estivesse com ódio do Gabriel, como tive no
início. Naquela época, já tinha deixado isso esclarecido com Gustavo, ao
terminar o nosso namoro, e não será agora que permitirei alguma

interferência.

— Nos falamos depois.

Puxo Gabriel pela mão e ele permanece em silêncio somente até


sairmos das vistas do meu ex-namorado. Quando estamos longe dos olhos de
qualquer pessoa, ele para de caminhar, puxa-me para os seus braços e, com o
rosto quase colado ao meu, pergunta:

— Como assim nos falamos depois? — Gabriel está com ciúme


e não deveria gostar disso, mas gosto.

— Só falei aquilo para não parecer mal-educada, não esqueça


que Gustavo é meu amigo de muitos anos.

— O que eu não esqueço, esposa — coloca uma ênfase


desnecessária na última palavra e prossegue —, é que ele foi seu namorado
por muitos anos. O que eu não esqueço é que o encontrei com você na nossa
casa no dia do nosso casamento. O que eu sei, Luana, é que ele não quer ser
apenas seu amigo, Gustavo gosta de você e não tente negar esse fato, pois
está estampado nas fuças dele.

— Você está sendo injusto em lembrar do episódio do dia do


casamento — acuso. — Sabe muito bem em que circunstâncias ele
aconteceu. E se o Gustavo gosta ou não de mim, estou pouco me importando,
deixou de ser relevante a partir do dia em que eu me apaixonei por você,

idiota! — Desvencilho-me do seu abraço e saio pisando duro. Quando ouço


seus passos vindo atrás de mim, aviso: — Não se atreva a me seguir, não
estou podendo olhar na sua cara no momento. Respeite isso, por favor.

Sei que talvez a minha reação seja desproporcional, mas não


consigo controlar o meu gênio, não quando Gabriel fala de assuntos que me
deixam exasperada e lembram como o nosso casamento começou. Ele não
tem o direito de jogar na cara o que aconteceu naquela noite.

Não têm!

Você precisa se acalmar, Luana.

Você precisa ficar calma!

É o que aconselho a mim mesma, enquanto bato na porta da


diretoria do Amor Compartilhado.
— Eu gostei muito do trabalho que vocês fazem no abrigo.
Gostei mesmo — afirmo, puxando assunto e sendo levemente ignorado.

Depois de um dia surpreendente e divertido, estamos indo


embora e ela continua azeda comigo. Minha gata tem certa razão para querer

me matar, só não sei se a atitude de fingir que eu não estou no carro é a mais
madura. Pisei na bola feio ao não ter conseguido controlar o meu ciúme e, em
nome dele, ter falado sobre a bendita noite do casamento.

Lembro-me de tudo que fiz para me casar com ela e nem posso
dizer que me arrependo, pois se não tivesse feito, não teria tido a chance de
reencontrá-la. Por ter consciência dos meus atos e do quanto foi difícil para
ela se ver naquela posição, errei em atacá-la com algo que aconteceu quando

eu nem mesmo sentia algo por ela.

Encontrar a minha esposa no jardim com outro homem me


incomodou por motivos nada nobres e que passam longe do ciúme que senti
quando hoje vi o tal Gustavo falando e olhando-a como se ela como fosse sua
propriedade, nada muito diferente da forma como eu agi. Em minha própria

defesa, sinto que estou pisando em um campo minado com essa coisa de
casal e de estar apaixonado. Sei que preciso aprender a lidar com certas
situações e só espero fazer isso antes que minha mulher me deixe.

— Obrigada — agradece, sem contudo me olhar.

Estou a ponto de parar o carro no meio de estrada e não seguir


em frente até que deixe de birra e fale comigo. Sim, eu posso até ter admitido
que errei com ela, mas isso não quer dizer que pode ficar agindo como uma
criança emburrada, ao invés de conversar, xingar ou até mesmo gritar. Luana

disse que não queria conversar naquele momento e foi o que fiz durante todo
o dia, respeitei o seu espaço, não falando mais que necessário e somente
sobre assuntos relacionados ao abrigo.

Creio que o tempo para remoer a sua irritação pela minha burrice
já passou e não estou disposto a aturar tamanha idiotice dessa mulher.

— Vai ficar assim até quando? — pergunto, sem tirar a atenção


da direção do carro, pois, além de não querer nos matar, sei que se olhar para
ela, Luana estará olhando pela janela como uma estátua.

A atitude dela não influenciou seu comportamento com as


pessoas do abrigo, considerando que passou o dia entretida com as crianças.
Luana demonstrou, durante as horas em que ficamos por lá, que ama o lugar
e todos que ali estão. Ela realizou exames clínicos e brincou de corrida com

as crianças. Ajudou na cozinha e eu não pude esconder o meu orgulho e


encanto por ver que o tempo não mudou em nada a garota cheia de
compaixão que me estendeu a mão quando ninguém mais o fez.

Se, no início, me senti desconfortável, no decorrer do dia fui


ficando cada vez mais à vontade e sai de lá entendendo a importância deste
trabalho na vida de crianças que poderiam ter um destino trágico e até mesmo
incerto, caso não existissem pessoas como Luana, Maria, o bundão do
Gustavo e dezenas de outros voluntários que tiram parte do seu tempo para se

preocupar com quem tem menos do que eles. Um trabalho ignorado pelas
autoridades públicas, mas que, mesmo assim, sobrevive.

Fiquei conhecido como tio Gabriel pelos pequenos que vão de 3


a 12 anos e sai com a promessa de que voltaria para jogar futebol com os
meninos e brincar de casamento com as meninas. Sim, eu acabei me casando
pela segunda vez com a bicudinha da Luana. A noiva não parecia nada feliz e
eu tive que conter o sorriso quando fui beijar o seu rosto e ela virou a cara.
Foi engraçado, mas agora não é mais. Quero a minha mulher de
volta!

— Até quando eu achar que devo – diz, ao cruzar os braços, em


claro sinal de birra.

— Você tem quantos anos, porra? Cinco? — Freio o carro de


uma vez e nós dois sofremos um pequeno baque quando eu o jogo no

acostamento.

— Quer nos matar? — questiona, enfurecida, com a voz três


tons acima do normal.

— Se eu quisesse, não teria parado o carro — rebato. — Muito


interessante saber que você reaprendeu a falar.

— Você tem um dom que ninguém mais tem: me irrita a ponto


de quase me tornar uma criminosa.

— Me sinto lisonjeado — brinco, desligando o carro e testando o


seu humor. — Eu posso saber por que ainda está brava comigo?

— Ainda pergunta? Agiu como um homem das cavernas e ainda


fez questão de lembrar que encontrou Gustavo comigo no jardim. —
Enquanto ela fala, tenho que me esforçar para disfarçar a minha cara de
desgosto.

O homem passou o dia cheio de atenção e gentilezas para o lado


dela e a minha mulher não foi menos do que simpática com ele. Eu tive que
me controlar para não ir até eles e piorar ainda mais a minha situação com a

morena. Estou certo de que ela o tratou da forma como trataria qualquer outra
pessoa e o cara se aproveitou da situação, o que só serviu para piorar o meu
estado.

Amar Luana me torna mais forte.

Amar Luana também me torna fraco.

Antes eu não tinha um calcanhar de Aquiles, hoje tenho ela, o


meu ponto fraco e meu ponto de equilíbrio.

— Não devia ter mencionado, já que nós dois sabemos muito


bem o quão feliz eu estava naquele dia por estar me casando com você. —
Luana é irônica e acredito que não está sendo nada fácil conter o seu gênio no
momento.

— Sei que errei e que o meu ciúme não é justificativa, mas você

não pode me virar as costas e passar o dia sem olhar na minha cara. Sou novo
nessa coisa de relacionamento, pelo menos o tipo de relacionamento em que
eu me importo com a pessoa, mas tenho certeza de que conversar é
importante para que os conflitos sejam resolvidos.

— Por que estou deixando você virar o jogo dessa forma? —


indaga, pela primeira vez, olhando para o meu rosto enquanto faz isso. —
Você é bom com as palavras.

— Eu só não quero te perder — falo com sinceridade, pois, para

a reação que tive, não existe outra forma de resolver a questão.

— Você não vai, amor. — Não pela primeira vez, minha mulher
arrasta o corpo para perto do meu e eu a abraço pela cintura, sentindo falta de
tocá-la. — Você errou e talvez eu tenha exagerado.

— Eu só não quero que você fique lembrando, a cada


desentendimento, os motivos pelos quais nos casamos. — Para ela, meu ato
demonstrou o quanto isso me afeta, ainda que não seja nenhuma mentira e o
quanto essa lembrança constante torna questionável a nossa união e a nossa
felicidade tão recente.

Questionei-me várias vezes, querendo saber se realmente era


digno de viver esse amor com ela, ainda mais depois que vi, ao seu lado, o
homem que seria perfeito para ela.

Gustavo, o cara que por anos foi namorado da minha esposa e


que, por mais que seja inconveniente e tenha passado o dia inteiro querendo
chamar a sua atenção, mostra que é um homem bom, honesto, que nunca teve
que sujar as mãos na vida, como eu tive que fazer, sem jamais me importar
com o fato.

Não me importei porque não sou bom.


O advogado, por outro lado, é amado por todos no abrigo, as
crianças quase o veem como uma figura paterna e, talvez, o meu incômodo

em vê-lo tão perto da minha mulher seja por perceber o quão melhor para ela
seria se eu nunca tivesse cruzado o seu caminho.

Não. Não são pensamentos depreciativos de alguém propenso à


autossabotagem, são certezas de quem sabe como a vida pode ser cruel

quando quer cobrar uma dívida e como de cobrar dívidas eu entendo, tenho
certeza de que um dia Luana acordará, perceberá que ficar comigo não é uma
boa escolha, olhará para trás e ele estará esperando-a.

O dia em que isso acontecer certamente será o mesmo em que


terminarei de morrer por dentro, pois ela levará consigo o pouco de
humanidade que ainda resta em mim.

— Gabriel, olhe para mim, Gabriel. — Por um momento, saio da


realidade, perdido nos meus próprios pensamentos e em constatações que

chegaram mais rápidas do que eu esperava.

Vivo desde ontem em um estado puro de felicidade e até cheguei


a me iludir, mas como continuar assim se passo os meus dias e noites em
claro, relembrando um passado tão vívido na minha mente?

— Por que o seu rosto está molhado? — Sua voz doce chama a
minha atenção e demoro um pouco para entender o que fala. Seus dedos finos
passam pela minha bochecha, amparando duas grossas lágrimas que
começam rolam. — Meu amor... — Minha mulher não diz mais nada,

somente me abraça.

No meio da estrada, não falamos mais nada, só nos abraçamos


com força. Sinto-me desmontar e me reconstruir a cada minuto que passo do
seu lado. A cada beijo, cada toque. Eu me torno outro homem, a pessoa que

nunca fui, mas desejo ser para ela.

— Desculpe, eu amo você. — Beija os lados do meu rosto no


ponto que as lágrimas molharam. — Amo muito.

— Eu amo você, meu amor. No dia em que não estivermos mais


juntos, você se lembrará disso, não é? — Seguro o seu rosto com as duas
mãos e, olhando nos seus olhos, espero pela resposta.

— Não existirá esse dia, Gabriel. Por que você está falando isso,
por que estava chorando?

— São apenas bobagens, morena, não fique pensando nisso. Mas


lembre-se de que não tem como controlar o destino, não podemos garantir
nada, pois coisas que estão fora do nosso alcance acontecem. Apenas saiba
que, enquanto eu puder, estarei como você te fazendo feliz como você
merece. Te amando do jeito que você me ensinou a amar — Suas mãos
descem pelos meus braços, eu também desço as minhas, até que estejamos
com os dedos entrelaçados — Enquanto puder — repito —, estarei com você.

— Eu só quero ir para a nossa casa e ficar sozinha com você,

conversar como não fizemos durante o dia. Deixar que me ame até que essa
sensação estranha que as suas palavras me trouxeram passe. Sequer consigo
conceber a ideia de que um dia possamos não estar perto um do outro.
Entenda que não é só porque ficamos juntos como marido e mulher ou por ter

me apaixonado rápido demais e ter passado 2 meses querendo essa


proximidade que...

— Amor...

Tento falar sem saber exatamente o que, mas ela me silencia ao


colocar um dedo sobre os meus lábios e continua:

— Eu esperei você durante anos, tudo o que eu fiz foi imaginar


onde você estava, se estava bem e vivo. Me voluntariar no abrigo anos atrás
foi uma forma de me sentir mais próxima de você, ou quem sabe, descobrir o

seu paradeiro. Se você me levou marcada no seu corpo, eu te levei marcada


no meu coração, na minha mente. Sonho com você desde aquela época, até o
dia em que te descobri como o meu marido. De qualquer forma, não me fale
nunca mais em afastamento, Gabriel, pois eu não consigo sequer pensar na
ideia de ficar longe de você por tantos anos novamente — diz.

É ela quem tem os olhos marejados agora e, sabendo o quão


fodido estou por essa mulher, puxo-a para cima das minhas pernas, e ela vem
de bom grado. Como da outra vez, já sabemos que essa posição não é nada

confortável, mas ela não parece se incomodar e eu adoro tê-la no meu colo,
uma perna em cada lado da minha cintura e as costas contra o volante.

— Fiquei muito feliz em saber que pensou em mim. Eu sempre


fiz de tudo para esquecer a única amiga que tive e não consegui, tanto é que,

em uma noite de bebedeira solitária, peguei o carro e fui parar em um estúdio


de tatuagem. A sua promessa ficou rondando a minha mente e acabei com ela
tatuada. Poderia ter descoberto algo sobre você com facilidade, mas não me
pareceu justo te trazer para vida que eu estava levando. Espero que entenda.

— Não entendo, mas sei que teve os seus motivos. Além do


mais, não adiantou tentar se esconder, te achei e aqui estamos, mais uma vez
juntos, como nos velhos tempos — diz, já deixando de lado possíveis
lágrimas e pensamentos ruins ao balançar sensualmente sobre o meu colo, o

que faz com que o meu pau se anime de maneira instantânea.

— Não exatamente como nos velhos tempos, bebê — Enquanto


falo, minhas mãos começam a se aventurar pela barra da sua blusa que deixa
um pedacinho de pele à mostra e que teve a minha atenção durante grande
parte do dia. — Naquela época, você era uma criança fofinha e eu um
adolescente que estava chapado demais até mesmo para te reconhecer —
confesso, temendo pelo julgamento no seu rosto.
— Na época, eu não entendia.

— Sei que não, se entendesse não voltaria todos os dias para

aquele beco sujo, correndo riscos que nem gosto de imaginar — afirmo,
enquanto, despreocupadamente, acaricio sua barriga por baixo da blusa
vermelha que faz conjunto com a saia curta que deixa suas belas pernas à
mostra.

— Hoje, você... Como...

— Estou limpo há muitos anos, amor. Depois do nosso último


encontro, fui internado em uma clínica de reabilitação — confesso, minha
mente voltando para o passado. — Mas eu não quero falar sobre isso agora,
prometo que qualquer dia desses eu te conto como foram os últimos 10 anos
da minha vida, tudo bem?

— O que quiser, meu diabo loiro. E já que eu também não estou


mais a fim de falar de assuntos sérios, tenho uma confissão para te fazer —

assevera e a expressão no seu rosto não nega que está pensado em


sacanagem.

— É claro que tem — Com duas mãos segurando a sua cintura,


firmo-a melhor nas minhas pernas, tendo os dentes trincados na tentativa de
me conter, quando a tenho novamente rebolando vagarosa e
provocativamente, a bunda boa em cima da minha ereção.
— Eu nunca transei dentro de um carro.
O gato do meu marido me olha com uma cara que fica difícil
decifrar se ele está assustado ou com tesão pelo que acabo de confessar. Não
que algo bobo como a minha confissão devesse causar tamanha reação, mas
como estamos falando de homens, tudo é possível, até mesmo o seu pau

parecer mais duro por baixo da minha bunda.

— Bebê, não tem ideia do quanto fico contente em ouvir isso de


você, mas qual a relevância de tal informação quando estamos no meio da
estrada?

— É muito importante, você não faz ideia do quanto — provoco.

Sinto sua pele começando a arrepiar quando, fazendo o mesmo


que ele fazia antes, subo as minhas mãos por dentro da sua camiseta e, com a
ponta das unhas que estão ligeiramente compridas, arranho levemente do seu

peitoral ao abdômen.

— Quero que faça sexo comigo dentro desse carro, no meio da


estrada, como você bem lembrou — peço.

Logo que o pedido ousado sai da minha boca, sinto um calor

subir pelo meu pescoço e se espalhar por todo o rosto, principalmente, na


área da bochecha. Se jamais fui uma pessoa tímida, também não sou ousada,
como acabei de ser com o meu pedido.

Sendo o dia estranho como foi hoje — muito por minha culpa,
tenho ciência —, algumas coisas ditas por ele aqui no carro foram mais ainda
inusitadas e não passaram despercebidas. Gabriel tocou em pontos sensíveis
para mim ao insinuar que, em algum momento, algo poderá impedir que
estejamos juntos e, de repente, um sinal de alerta foi ligado na minha mente.

Desejei e desejo abraçá-lo tão apertado que será impossível saber onde eu
começo e ele termina. Desejo viver intensamente ao seu lado tudo o que nos
fará feliz.

Uma onda de emoções e sentimentos que não podem ser


reprimidos atravessa o meu corpo, e sofro ainda que eu queira acreditar que
nada irá acontecer. Nada e ninguém poderá nos separar outra vez, sei que
Gabriel não deixará isso acontecer, pois me ama, assim como eu o amo. Se

ele não me pedir com todas as letras, não serão coisas externas que acabarão

com o nosso casamento.

Se um dia precisar — torço para que não precise —, lutarei até


onde as minhas forças permitirem, pois, de todas as grandes mudanças que
aconteceram na minha vida, nada me assusta mais do que voltar a existência

monótona de antes. A vida sem Gabriel que, mesmo antes de nos acertamos,
já era melhor do que a que tinha. Pelo menos, ele estava por perto.

Não tão perto quanto eu gostaria, mas, ainda assim, perto.

Gabriel tem um passado nebuloso e ainda não teve coragem de


me contar do que se trata. Ele não leva a vida mais honesta de todas,
considerando que mantém uma casa de jogos clandestinos e, principalmente,
a forma como ele coagiu o meu pai até conseguir se casar comigo. Ele fez
isso sem o menor escrúpulo, fato que me assustou e enfureceu na época.

Agora, amando-o tão intensamente, nada do que aconteceu parece ter


importância. É como se aquele Gabriel nunca tivesse existido, porque só vejo
o homem que me faz feliz a cada segundo do meu dia.

De tudo o que sei sobre o seu passado — que não é muita coisa
— e o seu presente, nada diminui o meu amor. Nada me amedronta
minimamente para que sequer cogite deixá-lo. Essas reações provavelmente
dizem muito mais sobre mim do que sobre ele.

Gabriel quer parecer forte, mais é um homem atormentado e

cheio de temores.

Gabriel tem medo de se abrir para mim e assustar-me.

O que ele não sabe é que eu o amo demais para pensar ou agir

com sensatez, caso seja exigido que eu o faça em algum momento.

— Eu acho que você não sabe o que está me pedindo, amor —


Gabriel fala, mas os olhos azuis já estão escurecidos só pela hipótese de
transarmos dentro do carro, no meio da estrada e correndo o risco de sermos
vistos pelo fluxo intenso de carros nas pistas.

Obviamente que seria somente um risco, já que os vidros no seu


carro são escurecidos e não seríamos vistos por quem está de fora, mas é um
ingrediente a mais para aumentar o prazer do nosso sexo. Pelo menos, é o que
eu acho.

— Podem nos ver lá fora? — indago para confirmar.

— Isso eu não vou falar, sua gata fogosa. No caso, terá que
pagar para ver. O quanto você estaria disposta a arriscar para ter a sua foda
fantasia, senhora Souto? — Ao falar no meu ouvido, meu marido já deu um
jeito de enfiar as mãos na minha blusa por trás e abrir o fecho do meu sutiã.

— Tudo, não posso me importar menos com o fato de alguém


poder nos ver, até porque eu tenho que fazer jus ao título de esposa de
Gabriel Souto, o bad boy amado pela mídia. Ou seria odiado?

— Nem brinque com isso, morena, não quero que você seja
exposta por um bando de filhos da puta.

— Mas eu quero.

— E você terá, mas ninguém saberá que estou comendo a minha


mulherzinha dentro do carro.

— Você vai, não é? — provoco, remexendo-me para garantir


que ele não vai resistir a fazer o que eu quero.

— Eu vou, mas quero que você saia de cima de mim e tire essa
saia que deixou o imbecil do Gustavo de olho na sua bunda o tempo todo.
Quando partimos, tive que conferir se os olhos dele não tinham ficado
pregados na sua bunda — fala, empurrando-me gentilmente para o banco do
carona.

De olho nele, tiro rapidamente a peça e observo quando abre o


botão e o zíper da calça, em seguida, descendo-a até os joelhos. Como
Gabriel, tiro apenas a saia e deixo a blusa, pois sei que ficarmos
completamente nus não é a escolha mais acertada, considerando onde
estamos.

— Venha aqui, gostosa. — Gabriel segura a minha mão e me


leva para cima dele outra vez. — Deixe-me ver o quanto quer o seu homem
dentro de você.

Ele leva dois dedos até o meu sexo. Sei que ele está escorregadio
e úmido pelo desejo que estar em cima da sua dureza me causou. Quando
toca meu sexo, já não o sinto tão sensível quanto estava pela manhã, quando
ele tão gentilmente cuidou de mim.

— Tem certeza de que está bem para fazer isso hoje? Lembro
que, pela manhã, você estava sensível e eu disse que não faríamos sexo hoje
— diz e, apesar de achar fofo o seu jeito todo cuidadoso, confesso que o seu
lado responsável me irrita um pouco quando estou cheia de vontade, como
acontece no momento.

— Está tudo bem aqui embaixo, gato. Mas não continuará assim
se você não parar de perguntar isso e transar comigo agora — digo o que nem
em sonho imaginei falar e, enquanto falo, seguro seu rosto e me insinuo

contra os seus dedos.

— Me beije, morena, e me mostre o quão louca pelo pau do seu


homem você está.

Apesar do que fala, é ele quem toma a iniciativa ao puxar o meu


lábio inferior com o dente, para dentro da sua boca. Gabriel começa o beijo
cheio de intensidade, já colocando a língua perita na jogada. Ele explora e
exige a mesma resposta de mim. O beijo perdura e fica cada vez mais quente,
estamos ofegantes e com dificuldade de respirar quando chega a vez de ele

implorar:

— Porra, gata! Você é muito boa, eu quero te comer todinha,


agora — fala contra os meus lábios, que chegam a latejar pela possessividade
dos seus beijos. — Levante só um pouquinho — pede, segurando o membro

pela base e pincelando-o no meu sexo. — Sente, meu amor. Sou seu hoje e
sempre, tome tudo que quiser. — Sei que tudo o que Gabriel fala não é algo
dito apenas no calor do momento.

Ele é meu, hoje. Amanhã e sempre.

Ao seu comando, começo com cuidado a abaixar-me sobre ele e,


a cada centímetro, sinto meu corpo todo corresponder a nossa íntima conexão
e ele me preencher até a sensação ser demais para mim. Quando estou com
ele todo dentro de mim, fico parada por um instante, apenas sentindo-o.

Sentido a ligação que vai muito além da parte física.

— Me perdoe por hoje. Sei que exagerei e não quero perder


tempo com brigar bobas quando temos coisas muito mais interessantes e
prazerosas para fazer. — Para corroborar minhas palavras, faço um pequeno
movimento circular e ele chega a ofegar, enquanto aperta minha cintura com
mais força do que o necessário. — Eu amo você.
Dando um tempo, enquanto me encara com os olhos escurecidos
pelo desejo, ele respira algumas vezes para depois falar:

— Só se me perdoar também — pede e eu apenas confirmo com


a cabeça, começando a me remexer contra o seu sexo.

— Devagar, amor, ou então nós terminaremos antes da hora.

Com a sua experiência e sempre sabendo como tocar o meu


corpo, Gabriel toma o controle das arremetidas, ao mesmo tempo em que
abocanha o meu seio por cima da blusa, a mordida é dolorosa e prazerosa na
mesma medida. Minhas mãos estão no seu cabelo curto e o cheiro de sexo
dentro do carro é excitante. O aroma do amor intenso que fazemos, pois é
assim que sabemos nos amar e sentir: sem barreiras ou limites.

Por vários minutos, o som das rodas dos carros correndo pelas
pistas é a trilha sonora que parece longínqua. Dentro do carro, os nossos
gemidos altos e os nossos corpos se batendo falam por nós, sem que nada

mais precise ser dito por um bom tempo. Gabriel retarda o nosso alívio pelo
máximo de tempo que pode e, quando enfim se cansa, nós dois já estamos
completamente exaustos; e os vidros do carro, embaçados. Cansados, porém
felizes.

— Já tinha ouvido falar do sexo depois da briga, mas, morena,


dessa vez, você se superou. Acho que estou em carne viva aqui — brinca, ao
colocar o carro novamente em movimento e o seu sorriso já se encontra
eternizado no meu coração.

No caminho para casa, o vestígio de qualquer estresse entre nós


já é apagado da minha lembrança. Quando chegamos, o cansaço pelo dia
agitado cobra o seu preço, e meu marido e eu nos deitamos na nossa cama.
Ele fica atrás de mim, com o braço em volta da minha cintura e eu estou

aconchegada no seu corpo, que quase cobre o meu pelo tamanho.

Quando o sono chega e caio na inconsciência, durmo com um


sorriso no rosto. Estou feliz pelo dia, por ter compartilhado mais da minha
vida, um lado que tem relação com quem fomos no passado e,
principalmente, contente por perceber que, a cada passo dado na mesma
direção, mais sólida fica a nossa relação e o nosso amor.
Três meses depois

— Ela está com as amigas, nada diferente de todas as outras


milhares de vezes que você a trouxe ao cassino. — Dom volta do salão,
interrompendo a análise do relatório mensal, trabalho que já não faço com

tanta paixão, agora que tenho coisas mais interessantes para ocupar os dias,
as horas e cada pensamento meu.

— Obrigado, Dom — agradeço, não pela primeira vez, assim


como não é a primeira vez que peço a ele para checar se está tudo bem com a
minha mulher. Novamente, Dom me deixa sozinho, e fica quase impossível
voltar a me concentrar sabendo que a minha morena está lá fora.
Três meses se passaram desde o final de semana em que parei de
negar a mim mesmo o que queria e fui buscá-la na casa do pai, lugar para

onde fugiu quando decidiu que não queria mais estar casada comigo.
Felizmente, fui abençoado com a sorte de ela ser tão apaixonada por mim
quanto eu sou por ela e acabou voltando para casa. Nas primeiras semanas,
nós só pensávamos em sexo. Era estarmos juntos e as roupas deixavam de

existir nos nossos corpos. Hoje, creio que não existe um único pedaço de pele
do seu corpo que eu não tenha tocado e me deliciado em fazê-lo.

Luana e eu descobrimos que somos mais do que compatíveis na


parte sexual da relação e se isso não é o que mais importa em um casamento,
devo confessar que é, no mínimo, gratificante saber que eu e a mulher por
quem sou louco somos tão parecidos quando o assunto é saciar os desejos do
corpo. Como eu, minha morena não tem inibições, porque o pouco que tinha
foi embora quando ficamos mais íntimos.

Depois do primeiro mês — mas não menos insaciáveis —,


Luana e eu conseguimos estreitar os nossos laços emocionais, além dos
físicos. A convivência evidencia dia após dia que não é só sexo sendo
confundido com amor. É amor.

Não dá para dizer que não tivemos as nossas pequenas


discussões, quase sempre pelos motivos mais bobos, o que não é de se
estranhar, considerando que nós dois temos personalidades fortes, o que às
vezes causa choque. Fazendo jus ao quão bobas são algumas das nossas

brigas, a reconciliação é rápida e ainda não existiu um dia em que fomos

dormir brigados ou em camas separadas. Mesmo sendo cabeças-duras, um de


nós sempre dá o braço a torcer e vai atrás para pedir desculpas. O que vem
depois da reconciliação nem é bom ser citado, pois o momento não é ideal
para tais pensamentos. Não quando estou com outro homem na sala.

Quanto mais o tempo passa, mais à vontade fico com ela e com a
confiança que passei a nutrir na minha morena e na nossa relação. Até chegar
ao dia de hoje, dia após dia, as barreiras que por anos fiz questão de criar a
minha volta foram desmoronando. Elas ficaram baixas a ponto de eu
conseguir falar sobre o passado.

Desde a minha infância até a criação do cassino, hoje Luana sabe


de tudo. Sabe como eu fui uma criança feliz quando a minha mãe ainda era
viva, sabe da morte dela e do maldito bar. Do meu pai e da minha internação

em uma clínica de recuperação para dependentes químicos. Contei como


surgiu o cassino e como nunca tive a menor culpa em usar as pessoas em meu
próprio benefício. Uma informação que, mesmo se não fosse dada por mim,
ela saberia de qualquer forma. Saberia, pois esses foram os métodos que eu
usei para tê-la como esposa.

Não foi fácil falar, desnudar a minha alma e mostrar o que eu


preferia deixar escondido dela. Foi um processo em que, pouco a pouco, dia
após dia, fui falando e me sentindo à vontade para falar mais, para ir além.

Luana me ouviu com atenção em cada oportunidade. No seu

rosto, eu não vi o julgamento e a decepção que eu sei que mereço e temia


encontrar. Não me interrompeu quase nem uma vez, apenas ouviu. Ela sabia
que eu precisava falar, sempre soube que era algo importante para a nossa
relação deixá-la entrar por completo na minha vida, assim como ela deixou

que eu entrasse na sua.

Quando cheguei ao fim do que julguei ser algo que jamais faria,
ainda pude ver meu amor na minha frente, olhando-me com o mesmo olhar
de sempre. Da sua boca, saiu uma única frase, repetida a cada nova revelação
do meu passado.

Eu te amo.

Apenas três palavras e, de repente, passei a sentir que não


preciso de mais nada, desde que possa ouvi-la todos os dias pelo resto da

minha vida.

A minha vida foi uma sucessão de erros. Um atrás do outro.


Muitos deles cometidos de maneira consciente e sem nenhuma culpa. Essa
foi a vida que escolhi, foi a única opção que tive e, quando pude mudar de
rumo, ainda assim, escolhi essa vida. O caminho do dinheiro fácil, de me
sentir poderoso. Um manipulador.
Sempre foi fácil para mim. Errar só não é fácil para quem é bom,
quem tem valores enraizados dentro de si. Só está sendo difícil agora que

tenho algo a perder, a única coisa que me importa. A única família que eu
tenho.

As consequências dos erros um dia apareceriam, eu sempre


soube e até esperei por elas, afinal, nada permanece para sempre encoberto.

Hoje, tenho medo do que pode acontecer comigo por causa da minha mulher.
Hoje, sinto a necessidade de me proteger por todos os lados para que nada a
atinja, pois eu até posso viver longe dela, mas nunca em um mundo em que
ela não esteja presente.

O passado ainda não foi totalmente enterrado e eu só terei paz


quando tiver certeza de que ele não pode voltar para atormentar as nossas
vidas.

Disco o número do meu segurança, que fica atento todo tempo, e

digo:

— Oi, Dom. Sou eu outra vez. Peça para a minha mulher vir
aqui, por favor. — Desligo. No momento, o que mais preciso é estar com ela,
segurá-la entre os meus braços e sentir o seu cheiro.

Sem qualquer razão, pensamentos ruins veem à minha mente


quase como se fosse um aviso de que algo está prestes a acontecer. Sei que
não tem nada realmente acontecendo, o que sinto é a consciência pesada de
um homem que conhece todos os seus erros e que se nenhum deles

existissem, não haveria por que temer. Luana e eu temos vivido como
qualquer outro casal, tendo dias bons e outros nem tanto, todavia, a
normalidade é só nas aparências. No íntimo, só eu sei o medo que venho
sentindo.

— Não acredito que você já está com saudade, Gabriel! — Antes


mesmo de ela terminar de fechar a porta, o perfume doce da minha mulher se
espalha por toda a sala. Meus olhos, que nunca se cansam de admirá-la, não
perdem tempo em apreciar a beleza do seu rosto, que não precisa de
maquiagem, pois ela é linda de todas as formas. O seu longo cabelo castanho
está preso, coisa que eu muito aprecio, já que assim deixa o seu pescoço livre
para a minha boca que não cansa de beijá-lo, mordê-lo e chupá-lo. Quando
olho para o seu corpo e vejo a calça jeans moldando-o com perfeição, não

fica difícil compreender o meu constante estado de excitação quanto fico na


sua presença. — Logo agora que eu estava dando uma surra nas meninas.

Enquanto Luana fala, afasto a cadeira um pouco para trás e então


ela entende o que eu quero. Minha mulher se aproxima e, ao se sentar no meu
colo, os pensamentos desagradáveis vão para o fundo da minha mente. No
momento, tocá-la é sentir que tudo está certo, que nada pode me atingir, não
quando a tenho ao meu lado.
— Você está bem? — pergunta, enquanto acaricia a minha barba
por fazer, que eu passei a usar depois de ela ter dito que era sexy.

— Eu estou, por quê?

— Não sei, você parece tenso.

— Talvez fosse mesmo saudade da minha gostosa — bajulo e

ela sorri, satisfeita.

— Que bom que me chamou até aqui, confesso que estava


ficando cansativo vencer as meninas.

Nas muitas noites em que esteve aqui no Sensations, Luana


jamais abriu mão de estar com o mesmo grupo de mulheres, ela parece ter
estreitado um laço de amizade com todas elas e para mim isso é algo muito
bom, pois, por alguma razão, minha esposa parecia não ter muitas amigas.
Talvez colegas de trabalho, que vez ou outra ela cita, mas não o tipo de
amizade que tem com o grupo. Pelo que tive oportunidade de presenciar,

todas a tratam muito bem e parecem realmente tê-la integrado ao grupo que,
por anos, existe aqui no cassino.

Parecem ser boas mulheres e, assim como Luana, creio que


jamais estariam em um ambiente como esse, se não fosse através de terceiros.
Entre esposas e filhas, elas se viram inseridas em um mundo ao qual não
pertencem realmente. Não pertencem, mas ainda assim usufruem do que ele
pode proporcionar. Luana não é diferente, eu sei disso, apesar de ela não
falar. Foi seduzida rapidamente pelo ambiente e não é difícil vê-la aqui nas

noites de sábado e domingo.

A diversão chama e ela não resiste, mas, quando coloca a cabeça


no travesseiro, tenho certeza de que preocupações a perturbam. Ela sabe que
não ajo dentro da lei e que, apesar de todo o esquema montado, sempre existe

a chance de alguma coisa dar muito errado e então ela me verá com sérios
problemas com a justiça.

Há anos tudo tem dado certo e até mesmo quando existiu


pequenas ameaças, eu dei um jeito de eliminá-las. Só porque os problemas
não foram mais graves, não significa que não posso me complicar e hoje,
mais do que nunca, estou ciente disso. Luana também sabe e talvez por isso
viva o nosso amor com tamanha intensidade, fazendo de tudo para que
tenhamos o máximo de tempo juntos. Eu também tenho feito o mesmo e

embora nossos horários sejam incompatíveis, posso dizer que passamos


muito tempo juntos.

Abri mão dos fins de semana no Sensations, pois eles são todos
dedicados a ficarmos juntos, seja em casa ou em algum passeio que minha
mulher tem prazer em planejar. Às vezes, saio para buscá-la no hospital e, em
outras, ela vem com o motorista direto para o cassino. Seu tempo aqui é
dividido entre jogar com as amigas, que ela chama de lobas, e ficar me vendo
trabalhar aqui no escritório. Não posso afirmar que me ver trabalhando e

jogar seja sua única atividade por aqui, considerando que, nos últimos meses,

nós dois batizamos grande parte do lugar. Transamos aqui na sala, nos
pegamos na ala dos sofás, perto das mesas de jogo quando já estava fechando
e, por fim, como dois adolescentes, demos alguns amassos em cada corredor
pelo qual passamos.

Em três meses, a mídia e os frequentadores deixaram de ver com


curiosidade a nossa relação, pois estamos sempre nos tocando, o que não
deixa qualquer dúvida de que somos, de fato, um casal.

— Eu não vejo a hora de te levar para casa e arrancar a sua


calcinha com o dente — digo ao seu ouvido. — Aí sim, você poderá se
queixar de cansaço.

— Todos esses relatórios não te cansam? — Olhando para a


mesa, Luana aponta para os diversos papéis espalhados por ela.

— Às vezes, cansam muito, e a única forma de aliviar o meu


estresse é comendo a minha esposinha gostosa — digo, ao seu ouvido,
amando olhar no seu rosto e perceber que nele não existe o menor
constrangimento.

Luana não é uma pessoa tímida e, com a intimidade que temos,


posso falar qualquer tipo de sacanagem que ela apenas me lançará um olhar
malicioso ou então rebaterá com algo mais sacana ainda.

— Fico feliz em poder ajudar — garante, com a boca mordendo

o lóbulo da minha orelha.

Um arrepio de excitação sobe pelo meu corpo e, ainda tendo a


sua bunda em contato com o meu sexo, é impossível não ficar excitado, tanto
é que agora estou duro feito pedra.

— Não comece o que não podemos terminar agora, amor.

— Por que não podemos? Esqueceu o que já fizemos aqui outras


vezes?

— Não tem como esquecer, meu bem. Assim como não posso
esquecer que ainda não é meia-noite e o movimento está grande. Eu não
quero ter que matar Lucas ou Dom por entrarem aqui e verem a minha
mulher sem roupa.

— Ciumento!

— Gostosa!

— Desculpe interromper os pombinhos nesse momento pré-foda,


mas eu preciso que você venha até a entrada, Gabriel.

Quando fala, o que vejo na sua expressão desperta novamente


todos os pensamentos errados que me perturbavam antes de a minha gata vir
me fazer companhia. Pelo seu rosto, que há anos conheço, não tem como
esconder que algo muito sério está acontecendo.

— De quem se trata? — questiono. Pela minha cabeça pesam

algumas suspeitas e uma hipótese é pior que a outra. Existe uma pessoa de
quem há muitos anos sequer tenho notícia e se as minhas suspeitas estiverem
corretas, talvez eu esteja, pela primeira vez, correndo o risco de me dar muito
mal.

— Venha de uma vez e logo saberá. — Com uma sobrancelha


arqueada, Lucas responde, passando a mensagem de que não é um assunto
para ser tratado na frente da minha mulher.

— Eu tenho que ir, meu bem — aviso, beijando os lábios


carnudos e vendo a preocupação no seu rosto. Luana é uma mulher
inteligente, certamente entendeu a troca de olhares e acabou estranhando o
comportamento de Lucas.

— Eu quero ir com você, Gabriel. Deixe-me ir — pede, quando

nos coloco de pé.

— Não, você fica aqui dentro me esperando. Prometo não


demorar, tudo bem?

Acaricio seu rosto e, vendo que não vai adiantar discutir — não
quando o que está em jogo é a sua segurança —, ela simplesmente balança a
cabeça em concordância.
Enquanto caminho para porta, meu coração começa a doer, o
peso dos meus erros e do passado ameaçam se abater sobre os meus ombros

e, ao invés de sair de uma vez, como Lucas acabou de fazer, cometo o erro de
parar e olhar para trás. Vejo Luana com os olhos anuviados e sei que ela
também está com medo. Mesmo sendo a mulher forte, a ideal para estar ao
meu lado, Luana permitir-se fraquejar, como qualquer outra no seu lugar

faria.

Quando dou por mim, já fui até ela e a prendi entre os meus
braços. Abraço o seu corpo, mente, coração e me deixo ser abraçado com a
mesma intensidade. Assim que, com cuidado, tiro seu rosto do espaço entre
meu pescoço e meu ombro, digo as palavras que não necessitam de
complementos, por si só bastam.

— Eu te amo. Nunca se esqueça disso, promete?

— Eu amo você — diz, ainda afirmando com a cabeça que

jamais duvidará dos meus sentimentos. Sendo todo errado, os meus


sentimentos por ela são o que de mais sincero carrego comigo. — Não
demore — pede.

— Não demorarei, linda. Fique despreocupada porque não deve


ser nada demais, não é a primeira e nem será a última vez que Lucas invadirá
a sala pedindo para que eu resolva algum problema que ele não consegue —
digo para tranquilizá-la, mesmo sabendo que pela forma como Lucas agiu, é

algo mais grave e ele não quis falar na frente dela. — Em um minuto, estarei

de volta e, se você quiser, podemos dar a noite por encerrada e irmos para
casa.

— Eu quero — afirma, ainda sem conseguir me soltar.

— Então me deixe ir.

Beijo seus lábios de leve e, sem olhar para trás, dessa vez para
não fraquejar, saio da sala.

Enquanto atravesso o corredor e subo alguns degraus que me


levarão ao salão de jogos e então à saída do casino, na minha mente, martela
a certeza de que uma merda muito grande está para me atingir e eu não posso
ao menos me preparar.
— Eu imagino que alguma coisa muito séria esteja acontecendo
aqui, Lucas. Não acredito que você seria louco a ponto de entrar na minha
sala enquanto eu estava com a minha gata, se não fosse importante — digo,
ao encontrá-lo no meio do caminho, próximo ao bar.

— Eu não queria falar da frente da Luana, cara.

— Falar o que, porra?!

— Tem um homem na entrada insistindo para falar com você,


ele não aceita um não como resposta e ameaça fazer um escândalo, caso não
converse com você. Dom poderia ter cuidado dele, mas achei melhor te
consultar primeiro.
— Quem é esse homem, algum cliente?

— Não. Ele disse que é o seu pai — revela antes que eu esteja

preparado, e então vejo que tinha razão de estar preocupado.

O passado, que eu prefiro manter enterrado, acaba de cruzar o


meu caminho. Não qualquer pessoa, mas sim o homem que foi o responsável
pela morte da minha mãe e por eu ter chegado bem próximo ao fundo do

poço, quando ainda era jovem demais para carregar no ombro cargas tão
pesadas. O homem que estava preso por ter matado alguém e que, durante
todos esses anos, preferi me esquecer da existência, assim como ele se
esqueceu de ser meu pai.

Por anos, escolhi viver a vida sem dedicar um único pensamento


a Leônidas Souto, agia como se ele não existisse e agora, como um fantasma,
ele volta a aparecer.

— Eu vou lá ver o que esse homem quer comigo — digo.

— Precisa que eu ou o Dom vá com você? — indaga,


evidenciando a sua preocupação. Como meu amigo mais próximo, Lucas
sabe apenas que minha única família é um pai que estava preso. Mesmo
sabendo pouco, ele me conhece muito mais do que a maioria das pessoas.

— Eu não sou um bebê, Lucas, portanto, fique na sua que isso é


assunto meu — esbravejo, virando-lhe as costas.
Quando meus pés pisam na calçada — onde se vê uma fileira de
carros estacionados, já que o estacionamento é reservado apenas para os

sócios VIPs e não comporta todos os frequentadores em dias mais


movimentados, como acontece aos finais de semana —, mais a frente vejo
um homem discutir com três dos seguranças do Sensations.

— Algum problema por aqui? — pergunto, assim que chego

mais perto e coloco os olhos no homem que não vejo há mais de 12 anos.

— Esse homem insiste em entrar, senhor. Se diz seu pai, mas


não apresentou nenhum documento provando o que afirma — explica um dos
rapazes.

— Podem deixar que, a partir daqui, eu assumo. Podem ir e


fiquem atentos ao movimento — digo e, sem que seja preciso falar mais, eles
atendem ao meu pedido, uma vez que trabalham comigo desde o início e são
os meus homens de confiança.

— O que faz aqui? Não tinha sido condenado a 16 anos em


regime fechado?

De maneira impressionante, percebo que o homem parece


melhor do que esteve quando foi preso, a diferença é notada, ainda que
tenham passado tantos anos. Obviamente está mais velho em aparência, mas
bem menos judiado. Não é de surpreender, considerando que na cadeia não
tem — ou tem menos — acesso a drogas e bebidas alcoólicas.

— Sabe como são as leis no Brasil, bom comportamento,

trabalho e estudos.

— Eu não tenho tempo para ouvir o que o senhor fez enquanto


esteve preso, o que eu quero saber é o que está fazendo aqui. Nós não temos
nada a falar, deixou de ser o meu pai antes mesmo de ter matado a minha

mãe.

— Aquilo foi um acidente — diz e me irrita de verdade.

— Eu realmente não quero falar sobre esse assunto e se veio


apenas para dizer que foi liberto, já pode ir embora. Não quero que apareça
mais por aqui ou se aproxime de mim e da minha mulher — esbravejo, me
arrependendo em seguida, por saber que foi um erro lhe dar tal informação.

— Se casou, Gabriel? Isso, sim, é uma surpresa. Achei que se


acabaria naquele beco, mas casado ainda tão jovem eu confesso que jamais

imaginaria — diz e os olhos estão vivos de interesse.

Apesar dos seus 58 anos, o homem ainda é vivaz e, por mais que
esteja fingindo simpatia, só eu sei o que ele pode esconder por trás do olhar, o
quão astuto é. Sei porque várias dessas nuances eu herdei dele, características
que passei a repudiar depois de me apaixonar por Luana.

— Fale o que você realmente quer comigo, depois vá embora e


não me procure mais. — Sou duro e não tenho o menor remorso pelo fato de
estar falando com o meu pai, ou quem deveria ter sido. Ainda lembro o quão

dissimulado ele pode ser e não dá para confiar que alguns anos atrás das
grades o tenham transformado em alguém melhor.

— Preciso de dinheiro, acabei de sair e estou zerado — diz e não


fico surpreso.

— Não tenho dinheiro para te dar — minto. — E se tivesse, não


daria. Você foi o pior pai que um adolescente poderia ter e se estou bem hoje,
com certeza não foi graças a você, que não fez nada além de destruir a nossa
família.

— Para cima de mim garoto? Sei que é proprietário de tudo isso


aqui, não venha me dizer que não tem grana.

— Tudo bem, vou corrigir a minha frase: eu não quero dar


dinheiro para você, ficou claro?

— Não quer, mas terá que me dar a grana, seu moleque — diz.
Estava demorando, mas, enfim, ele mostra a sua verdadeira face, não que
tenha me enganado em algum momento, mas dou um desconto pela tentativa.

— Me dê licença que tenho mais o que fazer — digo e viro-lhe


as costas, completamente exasperado por ter que ouvir exigências de alguém
que foi negligente a ponto de deixar-me passar fome.
— Imagino que a polícia achará interessante saber que Gabriel
Souto mantém um cassino clandestino onde deveria ser apenas uma casa de

shows.

— Bom, finalmente estamos falando sem máscaras, não é


mesmo? — Volto-me novamente para o homem que pouco parece comigo,
pois, felizmente, nasci muito parecido fisicamente com a minha querida mãe.

— É você quem quer assim, Gabriel. Vamos conversar e tentar


chegar a um acordo. Eu posso te ajudar a expandir os negócios.

— Não continue com isso! Como se atreve?

— Vai mesmo me desafiar, garoto? Você lembra que eu não sou


o tipo de homem que blefa? — Infelizmente, eu lembro. — Sabe que posso
acabar com a sua vida e esse castelo de mentiras que construiu, não é
mesmo?

— Tipos muito parecidos com você já tentaram antes e, no

entanto, aqui estou eu, melhor do que nunca. Volte para o buraco de onde
saiu e esqueça que eu existo, pois eu há muito tempo me esqueci de você.

Viro novamente e, dessa vez, realmente vou embora, mas, antes


de entrar, ainda o ouço me ameaçar:

— Você ainda vai ouvir falar de mim, moleque idiota.

Dentro do salão, caminho apressado para o bar, precisando


desesperadamente de uma bebida. Estou completamente exasperado, a minha
mente não para, o temor — apesar das minhas palavras para o meu pai — me

consome de uma forma que jamais aconteceu. Medo semelhante senti apenas
quando cheguei perto de perder a minha mulher.

— Vodca, por favor. Duas — peço ao garoto do bar que acabou


se tornando amigo da Luana, depois de tê-la ouvido desabafar sobre mim.

— Está tudo bem, cara? — Dom indaga, preocupado. — Parece


cansado.

— Estou bem, nada que mereça um segundo do meu tempo —


afirmo, sentindo necessidade de não demonstrar fraqueza, não é dessa forma
que eles estão acostumados a me ver. — Sabe se a minha morena está por
aqui? — Meus olhos varrem o local, mas certamente não vão longe o
suficiente, já que o Sensations é um lugar muito grande.

— Por aqui ela não passou, deve estar te esperando na sala.

— Tudo bem, me deixe ir até lá que ela já deve estar agoniada


por ficar tanto tempo sozinha — digo, sabendo que ele não deixará isso
passar batido sem zombar das minhas palavras e ações.

É assim que ele e Lucas têm agido à minha volta e da Luana.


Agem como dois adolescentes que, pela primeira vez, veem o amigo com
uma mulher. Sendo eu o homem que nunca acreditou em relacionamentos e
amor, é ainda mais interessante para eles zombar da minha cara.

Eles fazem isso na presença da minha esposa e, como não

poderia deixar de ser, ela entra na onda deles e os ajuda na missão de tentar
acabar com a minha paciência. Com a convivência, minha esposa e meus
amigos acabaram tornando-se próximos e tal fato é mais uma prova de que
ela está envolvida em tudo que diz respeito à minha vida, muito mais do que

deveria, um erro que eu não poderia ter cometido, já que Luana é boa demais
para o meu mundo. Se fosse um homem melhor e pensasse menos em mim,
teria tido o cuidado de não a colocar em situações que ela talvez não saiba
lidar.

— Quem te viu e quem te ver, Gabriel Souto. Todo bobo por


causa de uma mulher.

— A minha mulher — rebato.

— Nunca te vi dessa forma com a Sabrina — diz.

— Vai mesmo comparar o caso eu que tinha com Sabrina com o


meu casamento com Luana?

— Realmente, não tem como comparar. Uma você usava, a outra


você lambe o chão que ela pisa. Espero um dia beber até ficar dessa forma —
brinca.

Dom citar Sabrina lembra um assunto que muito tem me


incomodado, mas, até então, eu não fiz nada por achar que o meu incômodo
era apenas paranoia da minha parte. Ela tem aparecido no Sensations com

mais frequência, até mais do que quando estávamos juntos. Quando me vê ao


lado da Luana, faz questão de me cumprimentar e, mesmo que não faça mais
do que isso, fico com a sensação de que ela está sempre à espreita, tramando
algo.

Por consideração à amizade que tivemos, não agi para afastá-la


de vez do cassino, mas se ao menos ousar se aproximar da Luana, não haverá
consideração que me faça impedi-la de entrar nesse lugar.

— Apaixone-se e você ficará dessa forma, meu caro.

Dou duas batidinhas no seu ombro, pego os copos com vodca


que o garoto já tinha colocado sobre o balcão e vou em busca da minha linda.
Preciso dela, tenho que estar nos seus braços e então sentirei que essa noite
de merda não aconteceu.

Minha mulher trará a lucidez e a calma necessárias para que eu


encontre a melhor saída para as ameaças que Leônidas fez. Algo tem que ser
feito, pois, apesar de ter blefado, ele não é como os outros idiotas que já
ousaram tentar me ameaçar, ele é muito pior. É mais esperto e, contra mim,
caso ele decidida cumprir as ameaças, depõe o fato de ele ser o meu próprio
pai. Escândalos nunca me assustaram, pelo contrário, até me divertiam, mas
hoje tudo o que eu que não quero é prejudicar a minha esposa e chamar o tipo

errado de atenção para ela.

Luana merece mais, muito mais do que ter seu nome atrelado a
escândalos.

Ao levar a mão à porta de madeira, o som de vozes dentro da


sala chama a minha atenção, impedindo que eu entre de imediato. Decido

esperar mais um pouco para pelo menos entender o que está acontecendo,
aproximo o meu ouvido da porta e reconheço as vozes. Não posso acreditar
no que está acontecendo, que ela teve a audácia de fazer isso com a minha
mulher.
— Você é uma tola, não é mesmo? — Com a mão na maçaneta,
ouço uma voz feminina e não é a da minha esposa. — Eu poderia até sentir
pena de você, mas acho que não merece.

Sabrina, filha da puta!

É inacreditável como agora mesmo eu estava pensando nela, na


sua disposição em estar constantemente por aqui e o fato de não acreditar
cem por cento na sua aparente aceitação do fim do nosso caso e muito menos
do meu casamento com Luana. Apesar do caráter puramente sexual do
envolvimento que tínhamos, nunca estive enganado quanto ao seu carácter e
sempre soube que era uma mulher prática e até mesmo fria, capaz de passar
por cima de quem fosse para chegar a um objetivo.

Sendo muito parecido com ela e nunca tendo pensando em levar

o relacionamento a outro nível, jamais me incomodei com esses aspectos da


sua personalidade. Agora, presenciando-a se voltar contra a minha mulher,
sinto vontade de matá-la.

— Saia daqui, você está na sala do meu marido e não é bem-

vinda — Luana diz e sei que não vai abaixar a cabeça para os venenos da
outra mulher.

Com a convivência, aprendi a conhecer muito bem a minha


esposa e tenho muito orgulho da mulher forte que ela é, Luana não abaixa a
cabeça quando se vê diante de problemas, ela os enfrenta de peito aberto.
Quando acaba, ela pode até desabar, mas enquanto precisar ser forte, ela será.
Lembro-me sempre de como ela me encarou de frente, de como não abaixou
a cabeça para minha grosseira e arrogância. Foi sua personalidade que

primeiro me encantou, mas com certeza foi o seu coração que me fez amá-la
com loucura e de maneira irreversível.

Não poderia ser de outra forma, não quando ela me olhou


quando ninguém mais o fez.

— Acha mesmo que não sou bem-vinda, senhora Souto? — Da


voz da mulher, pinga sarcasmo e imagino que esteja sendo difícil para minha
fera manter a calma. — Te garanto que já estive aqui diversas vezes e sei
muito bem o caminho. Tá vendo aquele sofá? Se ele falasse...

— Saia daqui antes que eu mesma a tire, sua idiota pedante —


Luana esbraveja e seu tom de voz está alterado.

Sabrina insinuou algo que não é verdade, pois, apesar de — em


raríssimas vezes — ela ter entrado na minha sala, só o fez para encher o meu

saco. Nunca por convite meu e muito menos para fazer sexo. A minha
escolha de não levar mulher alguma à minha casa também se estendia ao meu
escritório e, ao dizer o contrário, Sabrina apenas demonstra o quanto pode ser
dissimulada e perigosa.

— Acha mesmo que o Gabriel terminou tudo comigo? — indaga


e eu fico na dúvida se entro ou não para acabar com o show de horrores e as
mentiras que Sabrina consegue contar por minuto. Rapidamente, decido que
o melhor é esperar, pois o meu amor sabe se defender e não precisa que eu

interfira. Acredito até que ela ficaria irritada se eu entrasse, agindo como o
salvador da pátria.

— Acho que essa pergunta idiota não precisa de resposta.

— Vou falar porque você merece saber. — Até o tom de voz da


mulher está diferente e se fosse outra no lugar da Luana, poderia até acreditar
que ela só quer abrir os olhos de quem está sendo traída. — Gabriel não me
deixou. Ficamos juntos todos os dias em que você não aparece por aqui. É ele
mesmo quem liga avisando que a pobre esposa ficou em casa descansando,

esperando-o como uma boba apaixonada.

Apesar da minha decisão de poucos minutos atrás, é difícil me


segurar para não entrar e colocar Sabrina no seu devido lugar.

— Acha mesmo que eu vou acreditar em alguma palavra que sai

da sua boca? Por que não supera o fato de ter perdido Gabriel? Se ele
quisesse, ele estaria com você e não comigo — Luana rebate.

— É claro que está com você, Gabriel é um homem movido a


desafios e se cansa fácil de tudo. Deve ter visto em você, uma mulher vulgar,
o desafio de que estava precisando, mas acredite, ele logo se cansará de
brincar de casinha e voltará a ficar apenas comigo — afirma e suas palavras
evidenciam que não faz ideia dos reais motivos para o nosso casamento.

Para mim está claro que a mulher inventou uma teoria na sua

mente e acredita piamente nela.

— Cale a boca! Você não sabe nada sobre as nossas vidas e


fica...

— Mas é claro que sei, não precisa ser muito inteligente para
saber que esse casamento de vocês não tem futuro. Vocês não têm nada a ver
um com o outro. Tenho certeza que você tem um espelho em casa.
A cada palavra saída da boca da mulher, mais irritado me torno,
pois sei das inseguranças da minha morena e isso deve estar afetando-a mais

ainda. A minha vontade é de entrar e acabar com todas as mentiras das


Sabrina, mas me seguro, porque sei que Luana sabe se defender e não
gostaria que eu fizesse isso por ela. Não nesse momento.

— Aceite que ele está te enganando. Para você, deve fazer juras

de amor, mas, se te amasse tanto assim, não me chamaria para um hotel a


cada oportunidade que surge. Quando estamos juntos, ele sempre é muito
fogoso e não cansa de falar o quanto gosta de estar comigo, como nunca irá
se cansar de mim, mesmo que esteja casado com você.

— E por que você veio até aqui me contar todas essas coisas se
está tão satisfeita em ser a outra? Uma simples amante. — Aparentando uma
calma que sei que não está sentindo, a morena pergunta e não posso crer que
esteja acreditando em todas as mentiras que Sabrina conta.

De repente, já não tenho certeza de como será a reação de Luana


com tudo isso e então sinto medo do futuro. Sinto porque, apesar do nosso
amor e de tudo que estamos vivendo, o nosso casamento começou da pior
forma possível.

— Gabriel me ama — Luana insiste, mas já não fala com tanta


firmeza.
Eu só não entendo por que ela está dando ouvidos à outra mulher
e ainda não a colocou para fora. Parece sentir a necessidade de ouvir tudo o

que Sabrina tem a dizer e assim me dou conta de que talvez a nossa relação
não seja tão sólida quanto parece ser e que, entre nós, não existe a confiança
que se exige dos casais.

— Pobre tola, você se olha no espelho? Acha mesmo que um

homem como Gabriel levaria a sério uma mulher como você? Se enxergue,
garota! Você pode até ser bonita, mas está acima do peso e é apenas por esse
motivo que ele se interessou por você. É diferente de todas as outras e
Gabriel viu a oportunidade de casar com uma garota comum.

— Como você...

— Gabriel já havia me confidenciado, após uma de nossas


transas, que estava pensando em se casar.

— Deixa-me adivinhar: você não era uma opção? — Mesmo

aparentando cansaço na voz, minha linda ainda ataca.

Entristeço-me por ela ter sido obrigada ouvir a última parte e que
seja verdade. Eu disse mesmo que estava pensando e me casar e que ela não
era uma opção. Só está errada em acreditar que busquei em Luana uma garota
simples e menos bela.

A sua vaidade só não a fez enxergar que era com ela que eu não
queria casar, que se precisasse mesmo de uma pessoa simples e menos
bonita, minha Luana não preencheria tais requisitos, porque, aos meus olhos,

ela é uma das mulheres mais lindas e deslumbrante que já conheci. Linda,
gostosa e nada comum.

— Bom, vim aqui como uma amiga, mas já vi que você prefere
viver na ilusão. Acreditando em uma mentira.

— Saia daqui, sua imbecil!

Acredito que ouvir Sabrina falar em amizade tenha sido o


bastante para a minha fera terminar de perder a paciência e, de fora, ouço o
barulho de coisas sendo quebradas e gritos e reclamações da outra. Em
seguida, ouço passos apressados de uma pessoa que está quase correndo.

Assim que Sabrina abre a porta e, ofegante, a fecha atrás de si,


ela se assusta ao me ver na sua frente. Olho para o seu braço e nele existem
algumas manchas de sangue salpicando a pele. Luana claramente é melhor de

mira do que pensei e nem mesmo posso dizer que estou com pena da mulher
totalmente apavorada. Quando quer, minha morena consegue ser assustadora
e isso me excita como o inferno. Eu amo uma mulher forte e que sabe se
defender sem precisar da minha interferência.

— Gabriel eu... — De repente, ela parece ter perdido a


capacidade de formar frases completas, diferente do que fez dentro da minha
sala ao despejar o seu ódio sobre a minha Luana. Agora parece assustada,
pois não esperava e não queria me ver agora. — Há quanto tempo você...

— Tempo suficiente para ouvir você falar um monte de mentiras


para a minha mulher.

— Gabriel, eu não...

Sem paciência para ouvir a sua voz, sentir o cheiro do seu


perfume enjoativo e estar na sua presença, deixo que os copos que estavam
nas minhas mãos caiam sobre o piso acarpetado, que amortece a queda, puxo-
a pelo braço e a conduzo para o corredor que leva até as escadas. O mais
longe possível da porta para que Luana não nos ouça.

— Escute muito bem, porque eu só vou falar uma vez, Sabrina.

— Solte o meu braço, Gabriel, você está me machucando! — A


seu pedido, solto-a de uma vez, e ela chega a perder o equilíbrio.

— Em nome do que tivemos e da nossa amizade, eu não te


proibi de frequentar o Sensations, mesmo não confiando no seu bom senso,
mas hoje você passou de todos os limites ao pensar que poderia inventar um
monte de mentiras e tratar a minha mulher da forma como tratou.

— Gabriel, pare de agir como se fosse diferente de mim — diz


ao seu aproximar e colocar as mãos em cima do meu peito, sendo
imediatamente repelida. — Nós somos iguais e por isso sempre nos demos
tão bem. Ela é uma boa mulher, tola, mas de coração puro. Se realmente a
ama como parece amar, a deixe livre para viver a vida com alguém que a

mereça de verdade.

Quando termina de falar, preciso de todo o meu controle para


não colocar as mãos em volta do seu pescoço e esganá-la, porque Sabrina
sabe que amo Luana e falou o contrário só para tentar envenenar a nossa

relação.

Suas palavras também são como um soco no meu estômago e,


apesar não acreditar nas suas intenções e muito menos que ela se preocupa
com os sentimentos da minha morena, sei que de certa forma tem razão em
tudo que acaba de falar para mim, quer dizer, tem total razão.

Luana é boa. Eu não sou.

Luana merece o melhor que a vida tem para oferecer e esse


melhor não sou eu.

Eu poderia fazer o que ela propôs, mas sou egoísta e a amo


demais para deixá-la ir embora. Sou egoísta quando penso que já não posso
viver sem a minha mulher ao meu lado. Não me vejo sem a sua presença, sem
a sua bagunça de roupas e sapatos no nosso quarto e sem a sua comida muito
ruim. Não sei mais existir sem os seus beijos, sem as suas mãos sobre o meu
corpo e nem posso dormir sem que esteja ouvindo o som e sentindo o calor
da sua respiração.

Pensar que poderá chegar o dia em que terei de tomar essa

decisão me deixa doente e de coração partido. São momentos como esses que
me fazem pensar que era bem melhor quando eu acreditava que nem mesmo
tinha um coração para ser quebrado.

Luana é a minha fraqueza.

Luana é a minha força.

Ela é o coração batendo dentro do meu peito.

— A sua presença dentro desse cassino está terminantemente


proibida e jamais volte a sequer ousar olhar na direção da Luana, pois eu sou
capaz de acabar com a sua vida. Não pague para ver, Sabrina, você sabe do
que eu sou capaz.

— Gabriel, não faça assim.

— Não temos mais nada para falar, foi você quem quis assim,
adeus! — Viro as costas e saio sem paciência para ouvir qualquer coisa que
deixe a sua boca, quando a minha mulher está sozinha dentro da sala e não
sei o que se passa pela sua cabeça depois de tudo que ouviu.

Ao abrir a porta, a encontro de costas, com o corpo levemente


curvado, as mãos apoiadas sobre a mesa e a cabeça abaixada. Ela não se me
mexe e fico com medo até mesmo de me aproximar. Luana ouviu demais,
escutou coisas que nenhuma mulher mereceria ouvir, ainda mais da ex-
amante do seu marido.

— Amor — começo, diminuindo a distância entre os nossos


corpos. — Eu sinto muito — emendo e, ao tocar o seu ombro, ela o afasta da
minha mão, deixando claro que não quer ser tocada por mim.

Apesar de entender a sua reação diante de tudo o que ouviu e da

preocupação que já estava sentido antes, fico magoado por ser privado do seu
corpo, ainda que seja somente o seu ombro. Há meses, eu tenho acesso e total
liberdade de tocá-la onde e quando eu quiser, assim como ela faz com o meu
corpo. Estar nessa situação me faz ter ganas de matar a maldita Sabrina.

— Não me toque, Gabriel, não agora.

— Amor, vamos conversar, por favor?

— Eu quero ir para a casa. Peça para o José me levar — fala e,


em seguida, afasta-se para o mais longe possível de mim.

— Eu mesmo te levo, se você não se incomodar, é claro — digo,


detestando o fato de falarmos como se fossemos dois estranhos.

Somos marido e mulher, porra!

— De forma nenhuma — diz.

— Cinco minutinhos, darei apenas algumas coordenadas para o


Lucas e em seguida iremos — aviso, não gostando nada de ter que sair tão
cedo em pleno sábado, mas sabendo que o meu casamento e a minha mulher
são muito mais importantes do que tudo isso aqui. Luana vem em primeiro

lugar em tudo e se um dia tiver que provar isso, farei sem pensar duas vezes.

Atravessamos o salão de jogos que hoje funciona a todo vapor.


Observo as mesas cheias de apostadores, o bar sendo obrigado a fazer
abastecimento extra de bebidas. Hoje eu deveria estar satisfeito por saber que

o faturamento será alto, mas nada disso tem sentido se não estou bem com a
pessoa que mais amo nesse mundo.

Lado a lado, algumas pessoas se viram para nos observar passar


e me pergunto se elas percebem que há algo errado conosco, já que sempre
estamos de mãos dadas ou abraçados quando circulamos pelos salões.
Durante a viagem, até chegarmos em casa, Luana prefere permanecer
olhando pelo vidro do carro e não vira em nenhum momento o rosto para
olhar-me.

Coloco-me no seu lugar e posso entender perfeitamente o que


está sentindo, só espero que Luana saiba que minha paciência tem limite. Não
permitirei que fiquemos brigamos por falta de comunicação, não quando sei
que, às vezes, ela deixa o mau gênio lhe dominar e começa a ter atitudes
infantis somente por birra. É orgulhosa como o diabo e, ainda assim, a amo.
Amo todos os defeitos e qualidades, o que não é muito difícil, já que ela tem
que suportar e amar meus defeitos, que são muitos e piores.
— Vou subir e tomar um banho, se puder dormir no outro
quarto... — ela diz, quando adentramos a sala, sem olhar na minha cara.

Ela sobe as escadas, tornando cada vez mais difícil entender que
está magoada e muito insegura com tudo o que aquela infeliz disse e que, na
sua cabeça, pode estar fazendo todo sentido neste exato momento.

Mas, porra! Nós temos que conversar e esclarecer. Vou deixar

que tome o seu banho e esfrie a cabeça, que pense em tudo que vivemos e os
motivos pelos quais não deve acreditar em nada do que saiu da boca da
Sabrina.

— Tudo bem, vá. Vou beber alguma coisa e depois subo para
tomar banho — aviso, para o caso de ela querer fugir para o seu antigo
quarto.

Aviso por saber que, independentemente de qualquer coisa, nós


não vamos dormir separados. Isso nunca aconteceu desde o dia em que

decidimos dar uma chance ao nosso casamento e não será Sabrina, com o seu
veneno, quem irá fazer algo assim conosco.

Hoje eu só preciso ter a minha mulher. Depois de tudo o que


ouvi do homem que deveria ser o meu pai, só preciso conversar com a minha
morena e não gritar e ouvir gritos. Sinto uma pontada de dor na têmpora só
de imaginar isso, enquanto me dirijo para a ilha da cozinha. Há tempos estou
precisando de uma bebida mais forte e até isso aquela mulher conseguiu
estragar.

Depois de 30 minutos, tempo suficiente para que minha morena


tome o seu banho, decido subir para o nosso quarto. Como imaginei, ele está
no mais completo silêncio e vazio. Rapidamente, tomo o meu banho e então
vou para o antigo quarto da Luana.

Felizmente a porta do quarto está destrancada, o que me poupa


de descer e ir atrás da chave reserva. Ao entrar, encontro o quarto quase na
completa escuridão. A pouca iluminação vem das luzes da área externa que
entram pela janela, lugar onde ela está parada, observando o jardim, que a
noite oferece uma bela visão, mesmo para alguém que já está acostumado,
como é o seu caso.

Sem que ela se dê conta, fecho a porta sem fazer qualquer


barulho e, da mesma forma, vou até ela. Paro às suas costas e os meus braços

não resistem a abraçar a sua cintura. Como se estivesse me esperando, Luana


não demonstra susto quando a toco e apenas fica em silêncio quando digo:

— Amor, precisamos conversar.


Seus braços em volta da minha cintura trazem a sensação de
pertencimento. Sinto que ao seu lado é onde devo sempre estar, ainda que
pareça tão difícil conseguir tal feito sem a sensação de estar com a felicidade
por um fio.

Três meses de pura felicidade e de repostas. Dia após dia, mês


após mês, Gabriel e eu vimos na nossa relação a certeza de que foi a escolha
mais acertada darmos uma chance ao que começou de uma forma muito
errada. Não há arrependimentos quando se vive os melhores dias de toda uma
existência. Não houve monotonia e as brigas bobas, pautadas por
personalidade fortes e muitas vezes divergentes, não foram sérias o suficiente
para nos fazer passar mais do que alguns minutos sem nos falarmos. Nos seus
braços, eu dormi todas as noites e, dentro deles, fui acordada todas as manhãs

com seus beijos nada inocentes e o costumeiro sexo matinal.

Felicidade que também traz medo, pois, apesar de tudo sempre


estar bem entre nós dois, não posso negar o temor infundado e a sensação de
que, em um dia qualquer, meu marido simplesmente sumirá da minha vida e

eu nunca mais o verei, assim como ele fez por 13 anos seguidos. Hoje, tudo o
que eu não precisava era ouvir uma ex-amante tentando envenenar a minha
mente, trazendo à tona o medo e todas as minhas inseguranças.

A tal mulher falou de forma tão convicta que trouxe à tona


assuntos que pareciam superados na minha mente. Por mais que ame o meu
marido, as palavras da sua ex-amante me fazem questionar os sentimentos do
meu marido por mim. Questionar a veracidade do seu amor, dia após dia,
declarado de forma tão sincera.

Não acredito que faça por mal, talvez ele esteja mesmo
acreditando que me ama, quando, na verdade, assim como afirmou Sabrina,
está confundindo paixão e desejo carnal com amor. Talvez eu seja mesmo
apenas uma novidade na sua vida e quando ele se cansar, volte a sair com a
Sabrina ou qualquer outra mulher, deixando-me com o coração aos pedaços
por ter acreditado em uma ilusão.
Me sinto mal por ter deixado que ela me afetasse dessa forma,
por estar duvidando do amor do meu marido. Por estar chorando por causa de

uma cobra que não fez nada além de tentar me humilhar desde o nosso
primeiro encontro.

Avisei para Gabriel nas entrelinhas que precisava de um tempo


para pensar e, como o esperado, ele não fez o que eu indiretamente pedi. Por

essa atitude, apenas o amo mais um pouquinho, isso mostra que ele se
importa comigo, mesmo que depois descubra que não é amor.

Mesmo que depois descubra que não valia a pena lutar por esse
casamento e pela felicidade que estávamos vivendo até o dia de hoje.

— Eu queria que você me desse um tempo, Gabriel — digo,


sentindo o seu corpo ficar tenso atrás de mim e sei exatamente o porquê.

— Gabriel? Voltei a ser o Gabriel para você? — indaga,


virando-me de frente para ele, para que assim não possa fugir dos seus olhos,
pois eles parecem ter o poder de desnudar minha alma. — Por que você está
chorando?

— Não é o seu nome? — tento debochar e então sei que fui


longe demais nas provocações.
Gabriel me solta de supetão e, sendo grosseiro, esbraveja:

— Você pensa que está lidando com algum palhaço, porra? —

Tendo uma reação desproporcional para as minhas ações, meu marido grita,
enquanto de um lado a outro, vejo-o caminhar pelo quarto, para longe de
mim.

Tão pavio curto quanto ele e tendo os acontecimentos da noite

pesando nos meus ombros, não tenho forças para agir diferente e então
devolvo na mesma moeda:

— Não, quem pensa que faz alguém de palhaço aqui é você! —


acuso, dominada pela raiva, sabendo que falarei coisas que realmente não
penso ou sinto, mas, no meio da briga, os pensamentos corretos ficam em
segundo plano.

— Você apareceu na minha vida somente para me irritar, Luana,


porra! Não dá para calar o caralho da boca e me ouvir? Há quanto tempo está

agindo como uma criança mimada? Quando vai crescer e se comportar uma
mulher adulta?

— Não seja por isso, querido — digo e do meu tratamento pinga


sarcasmo. — Você pode muito bem sair por essa porta e ir se encontrar com a
sua amante. Não é isso que você costuma fazer enquanto a idiota aqui fica em
casa? — acuso, arrependendo-me em seguida, basta olhá-lo para perceber o
quanto as minhas acusações o feriram.

Falei coisas nas quais não acredito, porque mesmo estando

insegura, depois de tudo que aconteceu, não acredito que ele tenha sido capaz
de me trair, que tenha estado com a Sabrina ou com qualquer outra mulher.
Gabriel pode até ter cometido uma série de erros, pode um dia descobrir que
nunca me amou, mas hoje eu sei que ele me quer, que é sincero e fiel.

— Quer saber? Eu cansei de você. Fique aí com a sua raiva, com


as suas acusações e me deixe paz — diz, andando na direção da porta e, neste
momento, passo a chorar copiosamente, é impossível não desabar. — Não
ouse descer as escadas, Luana, pois eu não quero ter que olhar na sua cara.
Não hoje, não suportaria te ver. Não pensei que esse dia chegaria e nem que
seria eu a dizer essa palavras, mas eu preciso de um tempo. Parabéns, Luana
Souto, você conseguiu.

Sem que eu tenha a chance de dizer uma única palavra, Gabriel

sai e me deixa sozinha na escuridão. Literalmente na escuridão.

Sozinha como antes eu queria estar, dou vazão a toda a minha


tristeza, raiva, frustração e, dividida entre chorar e me enfurecer, permito-me
perder completamente o controle, descontando nos objetos do meu antigo
quarto. Pego um por um e os jogo contra a porta, enquanto, aos gritos, deixo
escapar os piores xingamentos.
Quando já não tem mais nada para ser quebrado e nem lágrimas
a serem derramadas, com a respiração aos trancos, volto para a nossa cama e

então pego o seu travesseiro e o levo até o nariz. Sei que preciso pensar e me
acalmar, tudo que aconteceu hoje foi demais para mim e, mesmo assim, não
tinha o direito de tratar o homem que eu amo da forma como tratei. Sei que,
se ele chegou a ponto de falar todas aquelas coisas, foi porque o magoei

quando ultrapassei todos os limites.

Fiz acusações na hora da raiva, nada que eu realmente acredite


ser verdade e agora, depois de destruir o quarto, percebo minha tolice.

Apesar do impacto das palavras daquela mulher, de ter ficado


confusa e realmente ter precisado de um tempo para pensar, fui injusta ao
desconfiar dos sentimentos do Gabriel mim. O homem que tem mudado por
minha causa. O homem que que não faz nada além de me amar e me fazer
uma mulher plenamente feliz e realizada de todas as formas.

Dias após dia, Gabriel tem se mostrado um homem diferente do


que conheci, já não parece tão duro, frio ou mesmo cínico. É apenas Gabriel
Souto, o meu marido. O homem com um passado sofrido e tortuoso, mas,
ainda assim, o amor da minha vida. Gabriel simplesmente não merece o que
fiz e nem deveria precisar lidar com uma mulher agindo como uma criança
quando, provavelmente, no momento está precisando de mim muito mais do
que eu necessito dele.
O que importa como será daqui a 1, 2 ou 10 anos? Não temos
como ter garantia de nada nessa vida. Apenas o hoje nos pertence e eu sei que

Gabriel me ama. Da forma como ele aprendeu a amar, me ama e mostra isso
todos os dias, em cada gesto seu.

Estou ciente de que pisei feio na bola e agora que me descabelei


e descontei em objetos que me farão falta em breve, minha mente entende o

que precisa ser feito e então começa a trabalhar em uma forma de me


desculpar com o meu amor.

Tenho que pensar em uma maneira infalível de fazê-lo me ouvir


e tem que ser ainda hoje. Não será nada fácil, já que ele falou que não quer
ver a minha cara nem pintada de ouro, algo com o qual devo me preocupar,
pois, ainda que vez ou outra Gabriel tenha necessidade de ficar sozinho com
os seus pensamentos, isso nunca aconteceu por minha causa e nem o fez
porque estava chateado comigo.

Já fora da cama e andando de um lado para o outro, a minha


mente pipoca de ideias e é difícil decidir qual será mais eficaz para conquistar
o seu perdão e impedir que ele, pela primeira vez, deixe de dormir comigo.
Nunca fizemos isso em meses de casamento e eu não permitirei que aconteça
hoje.
Termino de virar a garrafinha de cerveja, de fumar o segundo
cigarro e nem isso é capaz de entorpecer a minha mente, como costumava
fazer e ter sucesso quando os meus pensamentos ficavam perturbadores
demais. Decepcionado, além de enfurecido, deixei o antigo quarto da minha

mulher e foi uma das coisas mais difíceis que já tive que fazer. Por mais que
a minha vontade fosse ficar, preferi sair, antes que falássemos coisas graves
demais e sem volta.

Luana falou e me magoou a ponto de não suportar mais ouvir o


som da sua voz, pelo menos não agora. Não quando estou precisando colocar
a minha cabeça no lugar e entender tudo o que aconteceu nessa noite, em
como tudo estava bem e, de uma hora a outra, desandou a ponto de ela me
acusar de ter uma amante. Como pode pensar que eu seria capaz de fazer isso

com ela?

O pior de tudo é ver que duvida do meu amor, mesmo que não
tenha dito com todas as letras, nos seus olhos vi a desconfiança. Não importa
o que eu tenha lhe dado desde o dia em que nos acertamos. O quanto tenha

me aberto para os sentimentos que surgiram entre nós de maneira tão rápida e
espontânea.

Talvez eu seja aquele a quem ela sempre verá com olhos de


desconfiança. Sei que também tem as suas inseguranças, que não justificam
as desconfianças, mas nada que justifique a cegueira que a impede de ver o
que está estampado na minha cara.

Eu a amo, caralho! Amo de uma forma que achava impossível de


acontecer, não com alguém como eu, que do amor pouco sei e pouco recebi.

O que tenho com Luana é transformador, sentimentos que, dia após dia, me
tornam alguém muito diferente do que sempre fui. São mudanças que sinto e
não tento controlar, pois o meu amor por essa mulher, forte e às vezes louca,
é uma benção e não um fardo. Tem o poder de me fazer bem, nunca mal.

Assim que saí, ainda das escadas pude ouvir seus gritos e
xingamentos. Em seguida, ouvi o som de coisas sendo quebradas em meio ao
choro copioso que veio depois dos gritos. Minha vontade foi de entrar

novamente e tentar acalmá-la, mas, ao pensar bem, decidi que o melhor para

nós dois seria ficarmos cada um no seu canto. Apesar de amá-la muito,
também estou muito chateado com a sua falta de confiança, então, sim, no
momento é melhor ficarmos longe um do outro.

Amanhã, quando estivermos mais calmos, talvez possamos

conversar e nos entendermos. Saiu de mim o pedido indireto para dormirmos


separados hoje e, como acontecia antes dela, sei que ficarei em claro, vendo a
noite virar dia.

Ao esvaziar a terceira garrafa de cerveja, abro todos os botões da


minha camisa e depois a tiro. Cansado, permito-me apoiar as costas e a
cabeça no encosto do sofá e, quando os meus olhos se fecham, deixo que os
meus pensamentos voem longe, para uma realidade em que o mundo não
pareça desmoronar sobre a minha cabeça.

A cerveja, que provavelmente me deixou levemente embriagado,


não me permite saber quanto tempo passou, se estou dormindo ou acordado,
quando sinto mãos quentes e macias sobre o meu abdômen que, ao leve
toque, tensiona. Lentamente e com medo de estar sonhando com mãos cujo
toque conheço e aprecio demais, abro os olhos e então ela rapidamente se
afasta.
Sonho. Obviamente estou no meio de um sonho. Posso apostar
que, do toque inocente no meu abdômen, o sonho rapidamente se

transformará em erótico e nós dois estaremos fodendo como dois


condenados. Se fosse realidade, a minha morena estaria a alguns passos de
distância do sofá, usando somente um dos seus roupões de cetim preto. Eu
amo quando ela os usa quase tanto quanto amo abri-los e descobri o que

escondem.

— Gabriel. — Sua voz, que parece muito real, me chama,


fazendo com que eu endireite o meu corpo sobre o sofá e fique
completamente desperto.

— Eu disse que não queria te ver hoje, não falei? — questiono,


pois, apesar de estar inebriado com a sua beleza e com o quão gostosa parece
com o roupão curto de cetim e com os cabelos longos e cor de chocolate
soltos, ainda não é o suficiente para que eu esqueça os motivos de estarmos

aqui, tendo essa conversa, e não no nosso quarto, dormindo ou fazendo coisas
mais prazerosas, que todos os casais costumam fazer. — O que está fazendo
aqui?

— Eu vim pedir perdão — diz, aparentemente receosa se fez ou


não a coisa certa ao descer quando pedi para que fizesse o contrário. —
Gabriel...
— Hoje não, Luana — falo e seus olhos não escondem a dor, a
mesma que ela me fez sentir.

— Amor...

— Hoje não! — Cansado, sou irredutível.

— Não vou sair, você vai fazer o quê? — indaga, claramente a

fim de me desafiar. — Não precisa responder, deixe que eu mesma faço por
você. Não vai fazer nada, pode até fugir para qualquer lugar dessa casa, mas
eu vou atrás de você para onde quer que você vá. Não vai se livrar de mim,
não sem antes deixar que eu fale.

— Tem ideia do quão infantil você está sendo? Infantil e louca.

— O nosso quarto que o diga — brinca.

— Luana...

— Será que pode me perdoar? — humildemente pergunta e, no

momento, estou me segurando para não sorrir, pois sei que a sua vontade é
me atormentar até ser ouvida e perdoada.

— Hoje não, talvez amanhã pela manhã, se eu acordar de bom


humor — afirmo da boca para fora, considerando que a minha raiva caiu pela
metade. É praticamente impossível ficar chateado com ela, mesmo quando
me dá motivos para isso. Com Luana acontece a mesma coisa e por isso
raramente brigamos. Quando acontece, não demoramos a fazer as pazes.
Dessa vez, obviamente, foi uma discussão mais séria, em que
foram feitas acusações que colocaram os meus sentimentos e a nossa relação

em dúvida e, ainda assim, me custa resistir e não a agarrar agora mesmo, sem
antes termos a conversa que precisamos ter.

— Você tem certeza, loiro?

Diante dos meus olhos e de uma boca aberta da qual só falta

escorrer a baba, vejo a gostosa morena, de uma forma muito sensual, desatar
o nó do roupão negro e, quando ele cai embolado aos seus pés, tenho a nítida
sensação de que a minha alma está saindo do corpo.

Meus olhos aumentam de tamanho, a minha pulsação fica


acelerada e como se respira já não lembro mais. A minha gata geniosa está
sexy para caralho com uma lingerie preta de renda, um conjunto em que a
calcinha é pequena e transparente na frente e o sutiã deixa os seus seios
deliciosamente empinados. Esse conjunto foi criado para enlouquecer um

homem, ainda mais se esse homem acredita que jamais deixará de ficar
surpreso por ver o quão linda é a sua esposa.

— A sua ideia é me enlouquecer? Porque se for, tenho que dar


os parabéns, está fazendo muito bem o seu trabalho — digo, fascinado com a
visão à minha frente.

— Só quero que me perdoe por ter sido tão idiota com você —
afirma, vindo para perto, perigosamente perto. — Você me ama, eu sei disso.

Perto demais.

Perto a ponto da minha visão estar turva de tanto encarar os seus


seios, delícias as quais não sou capaz de resistir.

Tão perto que agora a tenho sentada em cima do meu colo, de

frente para mim, uma perna de cada lado do meu quadril, e os seios, esses
estão praticamente colocados na minha cara. Meu corpo rapidamente se sente
estimulado e acredito que será difícil usar a boca para conversar.

— A sua ideia de perdão é me seduzir até que eu esqueça o meu


próprio nome? — pergunto, mas as minhas mãos já estão agarradas às carnes
da sua cintura.

— Está dando certo?

— Estou duro e puto com você, um feito e tanto — revelo e não

consigo deixar de admirar o seu rosto.

Porra! Como eu sou louco por essa mulher!

— Acho que preciso me esforçar mais, pois eu quero você


apenas duro e não chateado — fala, levando as mãos para a minha nuca e
tocando a parte de trás do meu cabelo curto. Luana conhece o meu corpo
como ninguém, por isso, suas mãos estão aí. Ela sabe que não resisto ao seu
toque na minha nuca, quando passa as unhas afiadas na minha pele.
Um arrepio gostoso passa pelo meu corpo agora e em todas as
outras vezes em que ela usou o mesmo truque de sedução. Quando faz isso,

não penso em nada que não seja jogá-la em cima de qualquer superfície e
fodê-la por horas a fio.

— Você me ofendeu e colocou dúvida sobre o nosso amor. Tem


ideia do que fez?

— Eu não penso nada daquilo, Gabriel. Só estava estressada com


tudo o que aquela víbora me falou. Confio em você, sei que me ama e que
não seria capaz de manter uma amante.

— Quando eu escolhi ir atrás de você na casa do seu pai, fiz para


valer, morena. Ali, passou a existir somente você e eu. Suas palavras foram
para ferir.

— Será que pode me perdoar por ter sido tão idiota? O amor que
nós sentimos tem de ser mais forte do que as provocações de uma mulher

desalmada, que não aceitou perder o homem, ainda mais para alguém que ela
considera...

— Não precisa repetir, bebê, ouvi tudo o que ela falou e te


garanto que, tirando o que você já sabia, nada do que falou é verdade. O meu
erro foi ter acreditado que ela havia aceitado o rompimento e não ter proibido
o seu acesso ao Sensations. O erro foi reparado e Sabrina não voltará a se
aproximar de você, ela não se atreveria.

— Eu amo você e acredito no seu amor por mim, isso é tudo o

que importa, o resto sempre se ajeita.

— Te amo — devolvo. — Também quero que me perdoe por ter


sido grosseiro e ter me afastado de você.

— Não há o que perdoar.

— Obrigado por ter vindo conversar, eu realmente não


conseguiria passar essa noite longe de você — confesso.

— Sei que não conseguiria, por isso vim preparada para a guerra
— insinua-se e, com certeza, também estou pronto. Muito pronto.

— Não pense que está tudo bem entre nós dois. Você ainda tem
que me convencer a te perdoar por ser ciumenta e louca.

— Destruí o meu antigo quarto — revela, com os olhos cheios

de culpa, e minha risada é incontrolável. — Não tem graça, amor!

— Tem muita graça — afirmo, abrindo o fecho do seu sutiã, um


gesto que, de tanto praticar, faço até com os olhos fechados. — Agora é a sua
vez de me convencer a te aceitar novamente como a minha senhora Souto.
Finja que estamos separados e que você terá somente uma chance de me
convencer a mudar de ideia — sugiro, sabendo de antemão que ela vai me
fazer implorar.
— Tudo bem, só não esqueça que foi você quem pediu —
afirma, com o sorriso malicioso de quem sabe o poder que exerce sobre mim.

Quando está para sair das minhas pernas, ainda tento impedir,
mas ela apenas estapeia a minha mão e segue com os seus planos.

Com os olhos presos aos meus e os seios a ponto de pular no


meu rosto, a minha morena gostosa se curva sobre mim, deixa um beijo leve

na minha boca e, em seguida, as mãos vão direto para o botão da minha calça
escura. Sem olhar para o que está fazendo, Luana desce a calça com a cueca
junto e, alegre, meu pau pula para fora. Quando tenho a calça embolada nos
tornozelos, a mão habilidosa segura o meu membro e, sem nada dizer,
começa a me masturbar. Lentos e torturantes movimentos que suscitam em
mim a vontade de ranger os dentes.

— Vejo que alguém aqui está animado! Será que está carente de
atenção? — provoca, ajoelhando-se diante de mim, enquanto termina de tirar

o sutiã.

A imagem é enlouquecedora e extremamente excitante. A


fantasia de 11 em cada 10 homens. Vê-la com os seios de fora e de joelhos
enquanto brinca com o meu pau é uma imagem que ficará marcada na minha
mente e, certamente, entrará no top 10 dos melhores momentos que já
vivemos juntos.
— Ele está literalmente babando por você, morre para estar entre
esses seios deliciosos e para sentir a sua boca quente em volta dele, tomando-

o até que leve com você cada gota da saudade que tem sentido dela e da sua
boceta.

— Mas nós estivemos juntos ontem mesmo — afirma, fazendo


charme com a boca carnuda e viciante.

— Fale isso para o meu pau — provoco e a gata não deixa por
menos.

Minha mulher leva o meu membro até a boca e então começa a


minha tortura. Calmamente, para garantir que está conseguindo o seu intento,
mantém os olhos presos aos meus quando começa pela cabeça rosada e
robusta e, com auxílio da mão, vai centímetro a centímetro, tomando-me na
boca aveludada. Luana engole até onde consegue e acaricia o que falta com
movimentos firmes e circulares.

Quando as chupadas se tornam mais rápidas e vigorosas, eu já


estou completamente perdido, gemendo, as minhas mãos estão agarradas ao
seu cabelo e, no desespero, não sabem se empurram a sua cabeça contra o
meu pau ou a afasta.

— Caralho! Você está me matando — falo, enquanto começo a


investir contra a sua boca, que está ávida e experiente. — Eu vou gozar,
amor, assim... porra! — Após o meu aviso, ela se empenha ainda mais em me
enlouquecer. É ela quem está de joelhos, mas sou eu quem está aos seus pés.

— Voltei a ser a sua senhora Souto? — Ela tira o meu pau da


boca quando já estou na borda, apenas para fazer a pergunta provocativa.

— Você, Luana... — Seguro a sua cabeça com as duas mãos,


curvo meu corpo para frente e, ao ter os nossos olhos presos e nossos rostos

muito próximos, afirmo: — Você pode ser tudo o que quiser. É a minha
enfermeira competente e sexy para caralho. É a minha mulher e, mesmo que
tenha sido praticamente vendida em troca de uma dívida, eu não sou o seu
dono, é você quem exerce controle sobre mim, sobre meus pensamentos e
meus sentimentos. Sou seu, Luana Souto, apenas seu. Para mim, não existe
ninguém, apenas você, hoje e sempre. Só você — afirmo com convicção e,
aos invés de voltar ao que fazia antes, minha gata se levanta, se joga
novamente sobre o meu colo e então finalizo: — Um dia, se tudo parecer

muito difícil, você vai se lembrar de tudo o que estou dizendo aqui e agora.
Ajudará a lembrar as minhas palavras e a veracidade delas — Sinto uma
estranha necessidade de dizer isso.

— Eu não gosto de te ouvir falando dessa forma.

— Venha aqui, me deixa te amar.

Antes que eu tenha tempo para um segundo pensamento, minha


morena apenas afasta a calcinha para o lado e se senta com tudo no meu pau.
Eu, que estava por um fio, consigo aguentar duas reboladas dela e então gozo

dentro do seu corpo. Jorro a minha semente que um dia encontrará destino
certo.

Neste dia será gerado o fruto do nosso amor. Um filho, um


desejo que jamais tive, pelo contrário, sempre fui paranoico na hora de me

prevenir, justamente por não querer no mundo alguém com os meus genes
ruins. Por saber que não seria um bom pai para qualquer criança. Com a
minha linda, essa ideia deixa de ser assustadora, sei que, quando acontecer,
serei um bom pai, não tem como ser diferente quando a criança terá uma mãe
tão boa e amorosa quanto Luana Souto.

Luana se mostra extremamente carinhosa com as crianças do


abrigo, pessoas que ela poderia simplesmente ignorar a existência, mas faz o
oposto. As visitas ao lugar tornaram-se o nosso principal programa aos finais

de semana e, com cada criança e adolescente, aprendi um pouco. A cada


aprendizado, me vejo mais distante do Gabriel Souto de meses atrás.

— Você é uma feiticeira judiadora de pau, senhora Souto.


Agora, como oferta de paz, te farei se sentir bem — digo e, com agilidade, a
jogo deitada de costas sobre o sofá, abrindo amplamente as suas pernas em
seguida.
Meus olhos caem sobre a sua calcinha pequena, e as mãos
passam pelo espaço entre as nádegas, apenas para encontrar a peça socada

dentro da bunda, fato que me deixa em vias de babar sobre a pele da sua
barriga. Com o dedo indicador e o médio, aliso sua boceta por cima do
pedaço de tecido e depois, tendo os seus olhos vidrados, observando todos os
meus movimentos, tiro a peça, descendo-a cuidadosamente pelas suas pernas.

— Amor, eu preciso de você — pede, enquanto toca os próprios


seios, deixando-os mais estimulados do que já estavam.

A cena por si só é sexy e minha ereção recomeça a ganhar vida,


desconsiderando que acabei de gozar. Com ela, não é nenhuma surpresa que
algo assim aconteça e creio que jamais chegará o dia em que me estarei pelo
menos perto de me sentir satisfeito.

— Eu sei, bebê. Seu corpo fala por você e no momento ele diz
que necessita ser preenchido por seu homem.

Antes de acabar com a sua agonia, escolho dar o mesmo tipo de


atenção que ela deu a mim e abaixo até a altura do seu sexo, encontrando-o
úmido de desejo, dou apenas duas lambidas superficiais, mas suficientes para
tê-la se contorcendo e tentando puxar-me pelos ombros para ficar em cima
dela. Percebendo que ainda tenho a calça embolada nos meus pés, sou ligeiro
em pular para longe dela para terminar de me despir e tirar o sapato.
Volto a abrir sua perna mais amplamente, bebo da visão da
deusa à minha espera e então deito-me sobre ela. No ato, suas mãos vão para

as minhas costas e já sei que elas sofrerão as consequências do seu tesão. No


auge do prazer sexual, a minha esposa vira uma tigresa feroz e fica difícil
decidir quem devora quem.

— Está pronta, bebê? — bajulo, pois conheço seu corpo, seus

desejos e suas vontades como ninguém e sei o quão sedenta por mim ela está.

Passo a cabeça da minha ereção na sua entrada úmida, somente


para provocá-la e, ao tê-la com as pernas emboladas na minha cintura,
forçando a minha invasão, percebo como é difícil ir com calma. — Pelo
visto, está mais do que pronta, mas só vou te comer do jeito que nós dois
gostamos quando você disser que é minha. Que ninguém nunca tocará nessa
bunda arredondada, nesses seios deliciosamente firmes e grandes, mas,
principalmente, que ninguém tocará na sua boca que é minha, somente para

os meus beijos e para o meu corpo. Promete, bebê? — Outra vez, a


necessidade de promessas vem e suspeito que a conversa com meu pai seja a
causa disso.

Só sinto que é algo importante para ser garantido e que, uma


hora ou outra, as promessas feitas em momentos puramente sexuais valerão a
meu favor.
— Eu sou sua, Gabriel Souto. Não por força de uma troca, mas
pelo amor e pela paixão que, desde o início, se fez presente, mesmo que na

época não tenhamos enxergado isso — afirma, ainda tentando me puxar para
dentro.

— Fale por você, pois eu, apesar de ter te achando chata pra
caralho, quis te comer no momento que coloquei os olhos na sua bunda, nos

peitos que só faltavam pular para fora da roupa e essa boca? Porra! Visualizei
ela em torno do meu pau.

— Safado!

— Linda. — Mordo seu lábio inferior. — Gostosa da porra!

— Me foda!

— Agora.

Estoco de uma vez, preenchendo-a até o limite. Luana me sente

à medida que começo a me mover e as suas unhas passam a afundar na minha


pele. Entro e saio 1, 3, 4, 7, 15 vezes e já estamos os dois pingando de suor,
sendo extremamente barulhentos, mas sem coragem de se entregar. Os dois
querendo prolongar o momento ao máximo, ainda que os corpos clamem por
alívio.

— Mais forte, Gabriel — ela implora, insaciável, e não posso ir


mais forte, pois já o faço e não quero, de forma alguma, machucá-la.
Depois de vários minutos fodendo como loucos, já posso ver
marcas nos seios, feitas pela minha boca que os chupou com fome e avidez.

Marcas que não se restringem apenas aos seios, pois a minha boca também se
aventurou pelo pescoço, em que o vermelho do chupão a obrigará a andar
com os cabelos soltos. Elas também estão espalhadas por sua barriga e em
lugares onde somente eu poderei ver.

A boca levemente inchada não é novidade, pois ela fica assim


quando os nossos lábios e as nossas línguas decidem, com suas incansáveis
danças, fazer um tipo diferente de sexo.

— Você vai gozar para o seu marido, não vai? — pergunto, ao


levar os meus dedos ao seu clitóris, de antemão sabendo que bastará apenas
um toque e a terei se desmanchando nos meus braços. Trêmula e saciada.

— Eu preciso disso, amor.

Combinando uma última bombada com o leve estimular, tenho a

morena gozando e gemendo no meu ouvido, enquanto minha cabeça está


enterrada no seu pescoço. O som da sua liberação é música para os meus
ouvidos e um estimulante quando, com ela, volto a esporrar dentro do seu
sexo, sentindo-a me apertar sem nenhuma barreira entre nós.

Ficamos vários minutos, após o momento de liberação, em


silêncio. Eu em cima dela, apenas tomando cuidado para não a machucar com
o meu peso e Luana ainda agarrada a mim com braços e pernas. Quando as
respirações estão quase normalizadas, ela indaga:

— Gabriel, amor, será que estamos sozinhos em casa? — Só


agora, depois de ter xingado, gritado, gemido e se descabelado enquanto se
acabava de foder, é que ela se preocupa.

— Um pouco tarde, não acha? — brinco, aproveitando para,

com cuidado, sair de dentro e de cima do seu corpo. Em seguida, deito-me de


costas e puxo seu corpo suado e lambuzado da bagunça que nós mesmos
produzimos. Logo sua cabeça se encaixa no meu ombro, as mãos se apoiam
no meu peito e as pernas se entrelaçam nas minhas. Assim, no sofá
confortável e espaçoso o suficiente para nos comportar, estamos bem.

Assim tem sido entre nós. Não importa o que aconteça, no fim,
sempre estamos bem e espero que continue desse jeito.

— Eu estou falando sério aqui — afirma, envergonhada de uma

forma que não lhe é característica.

— Relaxe, morena. Não é como se eles não nos vissem aos


amassos pela casa dia sim e no outro também. Também tem a piscina, né? Ali
a senhora fica toda fogosa e até o jardineiro já deve ter percebido que nós
dois transamos dentro da água.

— Você acha que ele ou os seguranças...


— Querida, isso realmente não importa, todos esses funcionários
são pagos para trabalhar e se manter de boca fechada.

— Não fale assim deles, está sendo arrogante — defende as


pessoas a quem ela acabou se apegando, mas se não fosse por isso, estaria da
mesma forma chamando a minha atenção.

Em poucos meses, aprendi a ser uma pessoa melhor ao seu lado,

a sua bondade e espontaneidade me contagiam e, quando acha que estou


sendo grosseiro ou arrogante, ela não perde a oportunidade de me chamar a
atenção.

— Está tudo bem, linda. Não se preocupe, todos foram para suas
casas, menos os seguranças, mas acho que, de onde estão, não tem como eles
ouvirem os seus gritos.

— Estou louca por um banho e, depois, cama. — Depois de um


minuto de silêncio, ela fala: — Estou tão envergonhada por ter quebrado tudo

no meu antigo quarto...

—Ei, está tudo certo, bebê. Ouvi o mesmo que você ouviu e sei
o quanto deve ter sido difícil. O importante é que ela não conseguiu nos
atingir, e nós estamos bem — Tendo levantado o seu rosto para que olhe
dentro dos meus olhos enquanto falo, termino com um beijinho na ponta do
seu nariz arrebitado.
— Sim, estamos bem.

— E saiba que você é a mulher mais linda que eu já tive o prazer

de ver na minha frente. Volto a afirmar que não há nada em você que não seja
perfeito. Espero que se veja como eu a vejo e nunca deixe ninguém te
convencer do contrário.

— Te amo.

— Eu te amo mais — devolvo, beijando de leve os seus lábios e


sabendo que temos que nos levantar, tomar banho e dormir um pouco antes
de o dia amanhecer, mas não tenho coragem de fazê-lo e, ao invés disso,
aconchego-a melhor nos meus braços e contra o meu corpo.

Em silêncio, ouvindo somente o som calmo da sua respiração,


estamos quase cochilando, quando ela, com a voz arrastada pelo sono, ainda
consegue perguntar:

— O que aconteceu mais cedo no Sensations, Gabriel?


— Amo acordar aos domingos e encontrar um homem gostoso
na minha cozinha, com o tanquinho à mostra, é excitante. Às vezes me
pergunto o que de tão bom fiz para merecer essa benção — Vestindo apenas
uma das minhas camisetas e com os pés descalços, como tem mania de ficar e

não importa o quanto eu reclame com ela, minha morena aparece e me


encontra preparando omeletes para o nosso café da manhã.

Antes que deixe a omelete queimar, coisa que sempre acontece


quando ela e sua bunda gostosa descem do quarto, desligo o fogo e no prato
coloco a única coisa que sei fazer na cozinha. Já perguntei algumas vezes se
ela ainda não abusou de comer a mesma coisa quando invento de cozinhar
para ela e a reposta é sempre a mesma. Não sei se é sincera ao responder ou

se o faz apenas para me agradar e me ver cozinhando.

De alguma maneira, a ideia a excita e quem sou eu para negar


um fetiche à minha morena?

— Você é uma menina muito boa, gata. Boa de verdade —


afirmo, olhando o seu corpo da cabeça aos pés, enfatizando as minhas

palavras para que ela entenda o duplo sentido delas.

— Isso parece uma delícia — diz ao se sentar na banqueta


próxima à bancada estilo americana da nossa cozinha. Coloco o prato e uma
xícara de café puro diante dela. Em seguida, me sento à sua frente e, tendo
me servido, parto para a primeira e mais prazerosa atividade dos meus dias:
observá-la se alimentar.

Minha esposa tem um apetite voraz pela manhã e, nas noites


movimentadas como a de ontem à noite, ela come como se não se

alimentasse há semanas. É fascinante observá-la fazer as suas refeições,


perceber que não tem frescuras com comida.

— O que foi? Estou com a boca suja? — indaga ao pegar um


guardanapo e passá-lo em volta da boca.

— Gosto de te ver comendo. Estranho, não é?

— Não, quando a gente ama tem dessas coisas. Eu, por exemplo,
sinto um prazer indescritível ao ver você cozinhando para mim. É excitante
— diz, abocanhando mais um pedaço da omelete. — Fico com vontade de me

oferecer para ser a sua comida.

— Você é tão safada, senhora Souto. Não veja isso como uma
reclamação, amo que seja assim.

— Assim?

— Safada! — brinco e ela joga as migalhas que sobraram no seu


prato em mim.

Em uma rotina que antes não pensei que poderia um dia estar,
sinto-me satisfeito com as pequenas coisas dentro de uma relação que não
teve as fases normais para um casal. Não tivemos a fase do namoro ou do
noivado, nos casamos antes de saber qualquer coisa sobre o outro e, ainda
assim, Luana e eu agimos como se todas essas fases tivessem sido vividas.
Nós nos damos bem quase sempre e nos conhecemos como se a relação já

durasse anos e não apenas alguns meses.

Se um dia me orgulhei de ser um homem livre e dono das


minhas próprias vontades, com uma vida em que o cuidado e preocupação
com os sentimentos de alguém não faziam parte de quem eu era, hoje sei que
faria qualquer coisa para proteger uma pessoa, pelo sexo ao amanhecer, pelas
brigas bobas e as manhãs pautadas por conversas amenas.
Depois de ontem, ainda que acredite que não devo me preocupar
com as ameaças de um fracassado como o meu pai, um sinal de alerta foi

aceso na minha cabeça e então me pego dando mais valor às pequenas coisas.
Situações que o dia a dia corrido não permite que a maioria das pessoas deem
importância e, quando não podem mais vivenciá-las, talvez a dor da saudade
passe a ser sufocante.

Poder e dinheiro, a vida me ensinou a amar os dois e a colocá-los


como prioridade em todas as decisões erradas que tomei no decorrer da vida.
Não posso dizer que deixei de ser quem sou e não dou mais importância a
eles, pois estaria sendo desonesto comigo mesmo e com o que escolhi ser. A
diferença é que, além do poder e do dinheiro, também amo uma mulher, amo
e, se preciso for, a escolherei em detrimento de tudo que fui e que já não tem
tanta importância, não sem ela. Nunca sem ela.

O homem que se diz meu pai fez ameaças, escolhi não ceder à

chantagem e se a vida é feita de escolhas, espero ter feito a melhor delas. As


escolhas nos norteiam, trazem consequências e, para mim, qualquer uma
delas é suportável, desde que não atinja a minha mulher e não a tire de mim.

— Amor. — Ao longe, ouço a voz de Luana carinhosamente me


chamando e me tirando das divagações e pensamentos que não cabem aqui,
não quando é o nosso momento, um domingo como outro qualquer e, ao
mesmo tempo, diferente de qualquer outro, pois nós dois sempre
encontramos uma forma do hoje ser melhor do que ontem. — Algum

problema? Estava tão perdido em pensamento?

— Estava apostando quanto tempo levará até que eu consiga


tirar essa blusa do seu corpo e te comer à beira da piscina, tendo a luz do sol
beijando a sua pele morena — minto, mas não deixa de ser uma meia
verdade, pois, se não era o que eu pensava segundos atrás, certamente é o que

imagino e desejo neste exato momento.

— E depois sou eu a safada — fala.

— Nunca neguei e, mesmo assim, você é safada, amor. Só não


sei ainda por que não me deixou tocar no seu paraíso proibido.

— Você ainda não fez por merecer e para que eu aceite passar
pelo constrangimento de andar de pernas abertas por uma semana, terá que
me convencer de que merece tal prêmio. Imagino que seja um prêmio, não é
mesmo? — provoca. — Nunca vi você querendo tanto algo como deseja o

sexo anal. É algum tipo de fetiche?

— Eu poderia passar o dia enumerando os motivos — digo,


como se estivéssemos falando sobre um assunto muito sério e não sobre o
quanto desejo comer a sua bunda, local parcialmente proibido, pois eu já
coloquei um dedo e, com o tempo, passaram a ser dois.

Quando acontece, ela fica louca de tesão e goza com mais


intensidade. Fora isso, nada mais. Meu pau, por enquanto, está longe da
equação, nem mesmo a cabeça ela permitiu que tocasse o seu cuzinho. Não

sei se é por medo do sexo anal ou se é para me provocar, só sei que não posso
ver a hora em que poderei sentir que a tive de todas as formas possíveis.

— Estou ansiosa para ouvir — continua e nem parece que


estamos discutindo a possibilidade de fazermos sexo anal, enquanto

limpamos a bagunça que fiz na cozinha para preparar o nosso desjejum.

— Eu amo você e, em seguida, a sua bunda, isso não é novidade


para ninguém. Todos já devem ter notado o quanto a aprecio, já que não
posso deixar de olhá-la cada vez que você passa com os seus vestidos e
calças justas. Então, amor — não resisto a puxá-la pela cintura e, no meio da
lavagem de um prato, esfrego o meu pau na sua bunda —, não pode me
culpar por ser louco para comer o seu cuzinho.

— Boca suja!

— Gostosona!

Depois de termos dado um jeito na cozinha, Luana e eu


decidimos dar uma passada no abrigo para menores e por lá ficamos por
cerca de 2h, ela prestando alguns cuidados básicos que a sua profissão
permite com a saúde das crianças e eu jogando futebol com os garotos, a
única contribuição que posso dar, além da ajuda financeira. Não é como se eu
fosse o advogado almofadinha chamado Gustavo. Ele sim é o tio Gusta das
crianças, o homem que a diretora ama elogiar dizendo o quanto ele ajuda na

administração do lugar.

Ele, felizmente, se colocou no devido lugar e nunca mais se


atreveu a abordar a minha mulher com assuntos que extrapolem os limites da
amizade e os temas referentes ao abrigo. Apesar disso, sei que ele é, sim, um

bom homem e que ainda nutre sentimentos pela morena. Ele seria o par ideal
para ela, caso eu não estivesse na sua vida. Para o seu azar, estou e Luana me
ama.

Do centro, Luana foi visitar o pai, coisa que não deixa de fazer,
pois, apesar de ter feito o que fez a ela, a morena não é de guardar
ressentimentos e ama o velho de uma forma que faria qualquer um acreditar
que ele sempre foi um bom pai, o que passa longe de ser verdade, se
pararmos para lembrar em que circunstâncias nos casamos. Ela está feliz por

vê-lo se reerguendo, depois de tantos anos sofrendo pela morte da esposa.


Júlio tem, aos poucos, retomado o controle e reerguido o pequeno negócio
que por anos manteve a família e, segundo Luana, tem até se encontrado com
uma amiga.

As circunstâncias não permitem que eu e Júlio sejamos


exatamente amigos, mas entre nós prevalece o respeito, ele por saber que sou
o marido da sua filha e eu por entender que ele é o seu pai, fato que jamais
mudará.

Chegamos à nossa casa já no meio da tarde, cansados e felizes

por estarmos juntos. Minha gata sempre fica exultante quando vai ao centro e
à casa do pai, o que para mim é muito bom, pois da sua mente tira quaisquer
preocupações que não valem um único pensamento seu. Ontem quando,
quase dormindo, perguntou o que de tão sério acontecera para o Lucas ter ido

me chamar, menti ao dizer que não era nada demais, apenas uma briga em
uma das mesas de pôquer. Sobre a minha afirmação, não fez nenhum
comentário, apenas deixou que o sono a levasse e, se acreditou nas minhas
palavras, não sei dizer, já que ela não tocou mais no assunto.

Creio que seja melhor assim, não quero que encha a cabeça,
preocupando-se com algo que não vale a pena.

— Feliz? — indago, trazendo as suas pernas para cima do meu


colo.

— Muito, eu adoro ir ao abrigo e visitar o meu velho pai,


constatar que ele está bem. Obrigada por me fazer companhia.

— Não tem que agradecer, eu sou o seu marido, lembra? É um


prazer para mim te acompanhar a esses lugares.

— Nem parece que alguns meses atrás não sabia nada sobre ser
um marido.
— Estou me saindo bem, eu sei. Pode dizer, esposa.

— Está sendo um excelente marido, aposto que também será um

ótimo pai — Luana toca em um assunto que nunca falamos abertamente,


apesar de a ideia ter passado pela minha cabeça com certa frequência nos
últimos dias.

Pensamentos que acredito serem naturais de ocorrerem a certa

altura da vida de qualquer homem ou mulher, ainda mais se eles estiverem


em uma relação sólida como a que Luana e eu estamos construindo. Como
nunca tocou no assunto, não sabia o que ela pensava sobre termos filhos um
dia e, já que o fez agora, aproveito a oportunidade para descobrir.

— Você pensa em ter filhos comigo? — pergunto, enquanto


livro os seus pés dos sapatos.

— Eu quero, mas não imediatamente, e você? Não sente vontade


de ser pai? — Vejo no seu rosto a expectativa pela minha resposta e, apesar

da forma como falou, sei que quer muito ser mãe um dia.

Minha mulher tem o instinto maternal latente e basta vê-la com


as crianças do abrigo para compreender o fato.

— Algo que jamais passou pela minha cabeça, mas com você eu
quero tudo, inclusive ser pai de um filho que te tenha como mãe, mas, como
você mesma disse, não precisar ser agora. Antes de colocar um bebê aqui —
minha mão vai para o seu ventre —, quero ter você só para mim por um
tempo. Inclusive, convencê-la a liberar o cuzinho.

— Só pensa nisso?

— Ultimamente, com mais frequência, ainda mais com você


ficando cada dia mais gostosa.

— Preciso relaxar na banheira — fala, toda dengosa. — Se fizer


uma massagem em mim, prometo pensar com carinho nas suas reivindicações
— diz.

— Faço a massagem se você disser que me deixará comer a sua


boceta depois.

— Negócio fechado.

Trocando olhares cheios de promessas, sou puxado com tudo


para cima do seu corpo e demora um pouco até subirmos para o nosso quarto,

onde ela tem a sua desejada massagem e eu, o meu sexo.

O nosso domingo termina como todos os outros nos últimos


meses. Os nossos dias e, principalmente, os finais de semana, momentos em
que podemos ficar juntos em tempo integral, são muito bem aproveitados.
Cada hora do tempo que passamos juntos serve para solidificar o nosso amor
e a nossa relação, são momentos em que somos apenas um casal se curtindo,
em que os problemas ficam do lado de fora da porta e não podem nos
alcançar.

Se dependesse única e exclusivamente de mim, Luana não

conheceria o sofrimento e nem saberia o quanto a vida pode ser dura, mesmo
com as pessoas que não merecem. Como não está nas minhas mãos o
controle de tudo, torço para que Luana seja forte e resista, pois algo me diz
que em breve ela precisará ser.
— Mais rápido, amor. — De cima dela, tendo a melhor visão
que poderia existir, ouço a voz da minha mulher suada, ofegante e
implorando por mais. Quanto mais ela pede, mais rápido meto dentro da sua
boceta, que se tornou o meu maior vicio.

Não me canso de estar com essa mulher, seja transando como


fazemos agora em plena tarde de domingo, fodendo em pleno jardim, seja
fazendo qualquer outra coisa. O pensamento faz com que o tesão chegue a
níveis insuportáveis e não preciso de nem um outro estímulo para dar
exatamente o que ela me pede.

O entra e sai fica mais frenético. O seu corpo, deitado de costas


sobre a manta que cobre a grama, solavanca para cima, fazendo com que os
seus peitos mais do que deliciosos flertem com a minha boca, que no

momento está cheia d’água, com vontade de chupá-los até deixá-los sensíveis
a ponto de ela se excitar sempre que o tecido da peça de roupa entrar em

contato com os seus mamilos.

— É desse jeito que você gosta, não é mesmo, sua safada? —

Cada palavra foi dita em conjunto com penetração rápidas e profundas e os


seus gemidos, que são músicas para os meus ouvidos, me respondem sem que
palavras sejam necessárias.

— Gabriel...

— Me fale o que você quer, minha gostosa. — A minha voz sai


abafada, pois as palavras são ditas enquanto começo a trilhar o caminho que
me levará ao paraíso.

Primeiro mordo o seu pescoço, depois alivio com uma chupada

demorada e que, provavelmente, deixará marca, sentido o gosto salgado e


excitante do seu suor. É excitante porque sou eu quem está fazendo-a suar
porque, nos últimos dias, a nossa vida sexual se tornou ainda mais ativa e
também mais intensa.

Do pescoço, desço para os seus seios, abocanho o esquerdo,


enquanto belisco o direito, e Luana dá um gritinho de prazer, esquecendo-se
das suas preocupações de que alguém pudesse estar nos ouvindo, mesmo
sabendo que não tem ninguém, além de nós dois, aqui em casa.

Tão ávido quanto a minha boca no seu seio, é o seu tesão e então
ela enrola as pernas na minha cintura, na tentativa de nos deixar mais
próximos. Luana consegue o que quer, pois estou tão profundamente dentro
dela que nada passa entre os nossos corpos, nem mesmo vento.

— Você é linda e eu te amo mais do que a própria vida. —


Olhando dentro dos seus olhos, declaro, porque de repente surgiu a
necessidade de fazê-lo, assim como vem acontecendo com mais frequência
nas últimas duas semanas.

— Te amo desde sempre — devolve e ouvi-la faz com que o


meu coração se acalme e leva embora pensamentos que não cabem nesse
momento.

Quando os movimentos recomeçam, faço-os com bem menos

intensidade, porque as necessidades mudaram. Começamos fodendo, era tudo


sobre sexo e a paixão carnal que sentimos, agora eu preciso amá-la, venerar
cada pedacinho do seu corpo para gravá-la em minha memória como uma
tatuagem.

São sentimentos que chegam e não posso reprimir, pois sei que,
qualquer dia, talvez eu não tenha mais a chance de fodê-la com paixão ou
amá-la com carinho.

— Amor, tem alguma coisa acontecendo? — Após alguns

minutos, estando os nossos corpos relaxados e bem satisfeitos, depois do sexo


que a cada dia fica melhor, a tenho com a cabeça deitada do meu peito,
enquanto a sua mão o acaricia.

— Por que diz isso?

— Não sei, você tem estado mais calado nos últimos dias.
Parece bastante pensativo e preocupado com algo. Por que não se abre
comigo?

Minha mulher está certa, eu realmente ando preocupado, mesmo


que não tenha acontecido nada de diferente. O meu temor é justamente por
isso, porque duas semanas se passaram depois da ameaça do Leônidas e ele
não fez nada. Está em silêncio e sei que não é um homem de fazer ameaças
vazias.

— Alguns problemas no cassino, meu amor, mas não é nada


com que deva se preocupar — minto por acreditar que ela não precisa saber
da volta do meu pai e nem da sua tentativa de me extorquir, até porque,
apesar do meu temor, ele não fez nada para nos prejudicar.

— Você tem certeza?

Ela levanta a cabeça para que eu responda olhando dentro dos


seus olhos.

— Absoluta — minto e o faço com tranquilidade, até porque,

mentir nunca foi difícil para um homem como eu. — Agora, vamos parar de
conversa e entrar porque essa grama está dura demais e pode prejudicar as
costas da minha gostosa. — Mudo o foco da conversa com o convite e uma
mordiscada no seu lábio inferior.

— Você bem que poderia encher a banheira e depois me fazer


uma massagem — provoca, passando o calcanhar na minha perna.

— O que eu ganharia em troca?

— O que você quiser — afirma, cheia de malícia, porque sabe


exatamente o que ando querendo desde o dia em que a vi pela primeira vez,
depois de adulta.

— Quero a sua bunda — sussurro no seu ouvido, mas a morena


gostosa e pelada já está se desvencilhando do meu abraço.

— Ela é sua, mas antes terá que me pegar.

A mulher sai em disparada, sabendo que a alcançarei antes que


chegue à porta de entrada, assim como estou certo de que não conquistarei
tão facilmente o meu paraíso particular.
— Você viu isso aqui, amor?

Minha mulher, que até então estava sentada no sofá de couro,

mexendo no celular, enquanto eu trabalhava em alguns relatórios, se


aproxima e me mostra o seu celular.

Na tela, vejo a notícia que, apesar de ser mentirosa, não


consegue me surpreender, porque eu sabia que Leônidas faria alguma coisa,
que não aceitaria tão facilmente a minha recusa em lhe dar dinheiro. Para a
imprensa, ele se apresentou como Leônidas Souto, pai de Gabriel Souto e
isso não é nada bom.

O olhar que a morena me lança agora também não é nada

amistoso. Ela me conhece e deve ter notado a minha falta de surpresa com a
aparição do meu pai na mídia.

— Estava me escondendo isso aqui, Gabriel? Eu não acredito!


— Vira-me as costas, eu coloco o seu celular sobre a mesa, saio de trás dela e
vou para perto da minha mulher. — Perguntei se alguma coisa estava
acontecendo e você mentiu!
— Não queria te preocupar, até porque ele tinha me ameaçado e
sumido.

— Ameaçado?

Ela se vira de frente para mim com tamanha rapidez que preciso
dar um passo para trás para evitar o choque dos nossos corpos.

— Era ele quem estava à minha procura no dia em que Lucas


entrou aqui e nos interrompeu— explico e vejo a decepção tomar o seu rosto.

— Como pode querer que eu confie em você, se não confia em


mim e sempre me deixa de fora das suas coisas? Não tem como um
relacionamento dar certo dessa forma, Gabriel.

— Amor, eu confio em você. Se não contei, foi porque queria te


proteger. Por favor, entenda.

— É você quem precisa entender que não pode esconder as

coisas apenas para me poupar de problemas que me atingem diretamente e


afetam o nosso relacionamento. Eu não quero viver a ilusão de uma vida
perfeita quando existem coisas acontecendo e você está enfrentando os
problemas sozinho. Casamento é compartilhar, Gabriel Souto.

Quando ela termina, os meus braços já estão em volta da sua


cintura, mas o seu corpo permanece tenso e os braços estendidos. Está
chateada — com razão — e por isso não consegue reagir de forma diferente.
— Me perdoa?

— Promete que não vai mais fazer isso? — pergunta, olhando-

me com desconfiança, com certeza procurando no meu rosto indícios de que


serei sincero na minha resposta.

— Eu prometo, senhora Souto — digo com toda convicção, até


porque não tem mais o que esconder dela. A merda foi jogada no ventilador e

suspeito que seja só o início.

A minha promessa não transmite toda a verdade, pois eu seria


capaz de fazer qualquer coisa para proteger a minha mulher, para mantê-la o
mais longe possível das minhas merdas, até mesmo mentir e esconder coisas.

— Tudo bem, mas você está de castigo.

Tenta se desvencilhar, com a intenção de voltar para o seu sofá,


mas eu a agarro com mais firmeza, impedindo que dê um passo sequer para
longe de mim.

Apesar de estar conversando com aparente tranquilidade, ver a


concretização do que eu já esperava mexeu muito comigo, porque reacendeu
o medo que não gosto de sentir. Muito mais do que o medo de ver o meu
nome na lama, a queda de um patrimônio, é o medo de perder a minha
mulher. A melhor coisa que aconteceu na minha vida. Agora tudo o que
preciso é senti-la entre os meus braços. Amá-la até que a sensação de que a
minha felicidade está escorrendo pelos meus dedos passe.

— Nada de castigo, eu quero você. Agora!

— Mas eu não.

— Agora, Luana! — corto o seu protesto ao carregá-la para cima


da minha mesa.

Com a mão, varro todos os documentos e objetos, deixando a


mesa limpa, antes de sentá-la com as pernas abertas.

— Gabriel, você está louco? Nós não vamos... — A frase morre


quando subo a sua saia até a cintura e em seguida arrebento a lateral da sua
calcinha.

— Nós vamos, sim — aviso contra a sua boca, segurando com


firmeza os cabelos próximos à sua nuca para que não fuja do meu olhar, para
que entenda a minha urgência. — Eu preciso de você.

Talvez por querer o mesmo que eu, ela não diz mais nada,
apenas deixa que eu a tome da forma como preciso, em cima da mesa, dentro
do meu escritório e corresponde à altura, porque ela sabe que a notícia da
volta do meu pai me afetou.

A transa sobre a mesa trata-se de sexo, puro, simples e suado.


Não nos importamos com o barulho que estamos fazendo, o que pode chocar
algum desavisado que porventura passe perto da porta do meu escritório. No
sofá, tudo é diferente, fazemos amor, ao invés de sexo.

A cada arremetida, a cada toque, os meus olhos buscam os seus.

Eu tento, mas não consigo afastar a sensação de que pode ser a última vez,
uma despedida de tudo de bom que a vida me presenteou, ainda que eu não
mereça.

De alguma forma, a minha morena parece conhecer os meus

pensamentos mais íntimos, fraquezas e temores e, por isso, quando estamos


deitados no sofá, nós recuperando do terceiro orgasmo, ela diz:

— Vai ficar tudo bem, meu amor. Nós dois vamos enfrentar
juntos seja lá o que esse homem estiver planejando.

Mesmo que saiba que tenho razões para temer, Luana quer me
fazer acreditar que tudo dará certo, mesmo que no fundo não seja no que de
fato acredita e tenha tanto medo quanto eu do que pode acontecer no futuro.

Dia após dia, ainda que esteja tentado levar a vida com
normalidade ao lado da minha mulher e no cassino, as coisas começam a dar
errado. De repente, as motivações para nosso casamento voltam a ser assunto
na mídia. As suspeitas acerca das atividades que acontecem no Sensations

tomam mais força.

Em uma noite como outra qualquer, a minha morena revelou que


havia sido abordada por um inspetor de polícia no seu trabalho e que ele fez
algumas perguntas a meu respeito. Esperta como é, ela me falou sobre como

mentiu de forma tão convincente que o policial nunca mais lhe abordou.

Para mim, a informação veio como um soco no estômago e foi


naquela noite que me dei conta de que não teria como ter tudo. Que não
poderia tentar arrumar a bagunça e também manter Luana ao meu lado.
Chegar a essa conclusão me fez puxá-la para cima do meu corpo e amá-la
com todo o amor que tinha para oferecer.

Como se fosse a última vez.

Talvez fosse a última vez.


— Inferno! — Furioso, jogo o celular contra a parede e varro
todos os objetos que estavam sobre a minha mesa. — Será que esse
desgraçado não tem mais nada para fazer?

— Já é o terceiro celular que você destrói em uma semana,

Gabriel. Não é perdendo o controle que irá resolver os seus problemas — diz
Lucas.

— Ele quer acabar com a minha vida, meu amigo. Com a minha
e a da minha mulher, porque não é só comigo que estou preocupado, é com
ela também. Principalmente com ela.

— Não tem nenhum meio de dar um basta nisso? — indaga e eu


o olho com estranheza. Ele e eu sabemos que só existe uma maneira de frear

Leônidas Souto, uma que não trará nada além de desgraça para todos.

— Só se eu o matar — ouso externar o que passa pela minha


cabeça.

Dois meses se passaram desde o dia em que, pela primeira vez, o


homem veio à minha procura em busca de dinheiro. Erroneamente, achei que

ele não faria nada, pelo menos nada que eu não pudesse combater. Durante
duas semanas não se ouviu falar em Leônidas Souto, até porque, para todos,
eu não tinha nenhum parente vivo ou próximo. Do nada, ele deu um jeito de
se apresentar como pai de Gabriel Souto, o bad boy da cidade e dono de
badalada e exclusiva casa de shows, Sensations.

A notícia caiu como uma bomba na minha cabeça e desde então


nunca mais tive paz. Dia sim e outro não, o rosto do homem tem estampado
capas de revistas de fofocas e sites com a mesma finalidade. De repente,

tornou-se o pobre homem renegado pelo filho, que é maldoso o suficiente


para negar ajuda para um ex-presidiário, mas, ainda assim, um pai.

Para quem vê de fora, não conhece a minha história e nem tem


vontade de conhecer, não importa os motivos pelos quais ele estava preso,
tudo o que querem é me atacar, como sempre fizeram e como eu mesmo
alimentei por certo período. Depois que me casei com Luana e me afastei dos
escândalos, deixei de ser interessante para a grande mídia e então pude ter

paz ao lado da minha morena.

A chegada de Leônidas mostrou que não haviam desistido de


expor a minha vida, estavam apenas sem munições. Há várias semanas, eu e
Luana deixamos de ter paz, eles têm seguido a minha mulher, exposto cada
pequeno fato da sua vida e o meu passado, esse está à mostra para quem

quiser ver.

O que de pior escondo ainda não foi descoberto, mas sinto que
isso está a um passo de acontecer. Quando o dia chegar, não restará nada da
minha vida que não sejam escombros e destruição. Se não é pela minha vida,
é pela da minha morena, me preocupo com o que possa acontecer mais por
causa dela, que não merece sofrer, apenas deu o azar de se casar e se
apaixonar por um homem com a vida tortuosa feito a minha.

Além do velho ter dado um jeito de voltar toda a mídia contra

mim, Leônidas conseguiu com que respingasse no Sensations. O cuidado que


tive por todos esses anos para manter tudo por debaixo dos panos foi inútil,
tudo está a um passo de ser descoberto e um escândalo tão grande tornará a
vida da Luana um inferno. Já está sendo, mas ela é forte e tenta agir como se
não se importasse com a invasão repentina da sua privacidade. Sei que está
morrendo de preocupação comigo e com o que pode acontecer, caso
Leônidas consiga o que quer. Ela sabe que ajo contra a lei e disso não poderei
sair impune.

Depois dela e dos planos futuros que fizemos nos últimos dois

meses, eu já tinha feito a escolha de mudar o rumo dos meus negócios. Havia
me reunido com Lucas e o feito entender que somos bons o suficiente para
manter uma casa de shows, continuar sendo a melhor da cidade, sem que, por
baixo dos panos, existam negócios clandestinos.

Aos poucos, estamos trabalhando para essa mudança, mas nada


fará sentido se tudo se deteriorar antes.

— Calma, cara, não faça nenhuma besteira. Pense na sua mulher


— De todas as táticas que ele poderia usar para conter o meu gênio, Lucas
usa a infalível. — Temos que agir rápido — diz, olhando para o jornal, que
traz insinuações sobre as atividades que acontecem nas noites do Sensations,
indagações do porquê o lugar ter acesso tão restrito, já que seria um
estabelecimento como outro qualquer.

Agora já não cola mais a justificativa de que nem todos têm


cacife para um lugar como esse e por isso temos essa restrição. Não foi vista
com naturalidade a informação de que somos nós mesmos que selecionamos
a dedo os frequentadores, surgindo a pergunta de que tipo de critério seria
usado. Obviamente, a polícia já está envolvida, de olho em mim e no meu
estabelecimento. Ainda não chegaram a entrar no lugar, mas para isso falta
pouco.

Notas como as que saíram em todos os portais do estado, não só

os de fofocas, apenas pioram a situação, que já está ruim para mim. Estamos
sendo obrigados a correr contra o relógio e em pleno sábado, quando poderia
estar em casa com a minha esposa, vivendo a nossa vida, como fazíamos
antes do mundo começar a cair sobre as nossas cabeças.

— A Luana é tudo em que eu tenho pensando, meu caro. Nada


disso daqui importa se não for para protegê-la do escândalo que a descoberta
de um cassino poderá causar.

— É inevitável, Gabriel. É uma questão de tempo até a polícia


vasculhar tudo isso aqui e será o fim do Sensations.

— Não se eu estiver um passo à frente — digo, uma ideia


formando-se na minha cabeça. É arriscada, mas não tem como ser de outra
forma. — Vou abrir tudo para a mídia, antes que eles descubram.

— Não faça isso, Gabriel. O que você ganharia?

— Paz! Como você mesmo disse, é questão de tempo para que


sejamos descobertos, melhor que seja agora e que parta de mim. Calculo que
a história será bem menos interessante se for feito dessa forma.

— E a Luana, como ela ficará no meio de tudo isso?

— Não ficará — digo e talvez seja essa a parte mais difícil do


que pretendo fazer.

Sempre acreditei em ação e reação. Em atitudes e consequências

para cada uma delas, sejam boas ou ruins. No pior momento, quando descobri
a possibilidade de ser feliz, diferente do ideal raso em que o sucesso nos
negócios me fazia bem, estou sendo alvo da lei do retorno e, por amor, terei
de fazer uma escolha, pois posso até não conseguir evitar as consequências

dos meus atos, mas a minha mulher com certeza ficará de fora.

— O que você está pensando? Ela é a sua esposa, já está


envolvida até o pescoço nos seus problemas.

— Não será mais — Quando falo, é como se um punhal


estivesse dilacerando o meu peito. — Eu vou me separar da Luana, Lucas, só
assim ela poderá viver a sua vida em paz, sem a sombra de um escândalo
pairando ao seu redor — verbalizo o que vinha pensando há algum tempo.
Uma decisão de relutava em colocar em prática, mas que agora não tem mais

como adiar.

— Ela te ama e você venera o chão que aquela mulher pisa.


Pense bem no que vai fazer para não perder a melhor coisa que aconteceu na
sua vida. Se até eu percebi isso, significa que vocês realmente são feitos um
para o outro.

— Luana merece ser feliz, Lucas e, no momento, ela não será se


ficar ao meu lado. Você, tanto quanto eu, sabe o quanto a imprensa e as
pessoas podem ser cruéis quando se propõem a isso. Se ficarmos juntos nesse

momento, ela correrá o risco de perder o emprego que tanto ama no hospital,
de ser proibida de ir ao abrigo e de ser hostilizada pelas ruas. Me diga, Lucas:
quem irá querer ter qualquer tipo de ligação com a esposa de alguém como
eu?

— Tem certeza? Por que não dá a ela o direito de escolha? Seria


mais honesto da sua parte, já que diz ser tão apaixonado.

— O que você sabe sobre estar apaixonado? — indago, irritado,


mesmo sabendo que está apenas tentando me ajudar. — Eu sei o que estou
prestes a fazer, meu amigo, e posso te garantir que sofrerei tanto ou mais do
que ela.

— É definitivo? — Lucas faz a pergunta mais importante, para


qual não tenho resposta. Não quando não está nas minhas mãos.

Estou ciente de que posso perder para sempre a mulher que eu


amo, mas, ainda assim, tenho esperança que, quando tudo estiver resolvido,
ela consiga me entender e me perdoe pelo que terei de fazer.

— Prefiro não pensar nisso por enquanto — revelo, incomodado.

— Tudo isso porque você não quis ceder ao seu pai, talvez, se
tivesse molhado a mão do velho...
— Nem cogite uma coisa dessas, Lucas. De qualquer forma, não
iríamos passar a vida inteira mantendo esse cassino. Lembra já que

estávamos agindo nesse sentido?

— Eu sei, meu amigo. E saiba que estou ao seu lado para o que
der e vier. O Dom também está, ele só não tem jeito com as palavras.

— É isso, vamos escancarar as portas do maior cassino

clandestino do Estado, esperar que a polícia venha até nós e então estarei
livre para sempre do Leônidas Souto e de qualquer sombra do passado.
Depois estaremos prontos para começarmos tudo outra vez — falo, tentando
ser otimista.

— Isso se você e eu não passarmos uns dias na cadeia —


debocha.

— Isso não vai acontecer, meu caro. Não com as leis desse país.

— Se você acredita nisso, pode ir em frente. Depois de anos, o

cassino Sensations estará fechando as suas portas e a saída será triunfal, mas,
certamente, não no bom sentido — debocha e até consigo abrir um sorriso,
completamente sem humor, para a piada de gosto questionável.

Não tem como ficar bem-humorado pela sensação de liberdade e


por uma das poucas escolhas acertadas que já fiz durante a vida inteira. A
minha outra melhor escolha se chama Luana Souto, é uma pena que, para
fazer o que já deveria ter feito, corro do risco de perdê-la para sempre.

Não posso sentir que estou me livrando do fardo dos erros que

por anos venho carregando sobre os meus ombros, se também for perder o
coração que pulsa dentro do meu peito. Amar e ser amado pela morena me
fez uma pessoa melhor do que jamais fui, despertou a humanidade que não
sabia existir em mim. Se eu a perder para sempre, como sei que acontecerá se

eu tiver coragem de fazer o que planejo, o que restará de mim?


— Lury, esse cheiro está embrulhando o meu estômago —
revelo para a cozinheira, que normalmente cozinha os melhores pratos e me
faz esquecer que não posso me descuidar da minha alimentação. Depois de
ter pegado gosto por me alimentar, Gabriel a dispensa aos finais de semana e

cuida ele mesmo das nossas refeições, o que tem sido uma evolução e tanto,
já que até pouco tempo atrás, omelete era o único prato que meu marido sabia
cozinhar.

Estar juntos nos finais de semana ganhou um divertimento a


mais depois que ele inventou de bancar o chef. Para mim, tem um toque todo
especial, pois eu sei que ele faz muito para me agradar. Passou a querer
aprender a cozinhar — mesmo sendo os pratos mais simples — depois de eu
ter dito que o acho sexy quando faz isso. A cena realmente é excitante,

acredito que é o sonho de muitas mulheres, pelo menos as que têm um deus

grego como marido mais do que disposto a agradá-las.

— Eu não entendo, senhora, filé de peixe é um dos pratos que


mais gosta de comer. Aliás, faz um tempinho que eu não o faço para os

senhores — assevera.

— Sei que é, mas dessa vez o cheiro está me deixando enjoada.


Colocou alguma coisa diferente no tempero? — pergunto, escorada na
bancada da ilha da cozinha.

— Nada, o cheiro é o mesmo de todas as outras vezes, cheiro


esse que te faz salivar, segundo diz. Está acontecendo alguma coisa, jovem?
— Lury indaga e, no mesmo instante, desliga o fogo, aproximando-se de
onde estou. — Parece meio pálida.

— Não é nada, acho que peguei pesado no hospital, fiz muitos


plantões e não estou acostumada a eles. Na verdade, meus horários são bem
flexíveis — afirmo. — Meu corpo só está cansado — digo a Lury, que não
parece satisfeita com a minha justificativa.

Realmente estou cansada, física e psicologicamente. Ontem,


quando enfim dei por encerrado o expediente, depois de um plantão em que a
correria e o fluxo de pacientes não diminuíram antes do dia amanhecer, entrei
no carro de Gabriel já me sentindo mal. Não creio que o trabalho exaustivo

tenha sido o único motivo, até porque amo o que faço, mesmo quando o
trabalho exige mais de mim. Foi apenas a gota que faltava para transbordar o
copo cheio.

Os últimos dias não tem sido fácies para Gabriel e,

consequentemente, para mim. De repente, a paz e a bolha de felicidade em


que vivíamos deixou de existir e tudo que restou foi o caos. O pai, que nunca
foi pai, saiu das profundezas do inferno para atormentar o filho, o Sensations
virou alvo de especulações maldosas, o que não seria nada demais, se nele
não existisse um cassino. O pior de tudo foi a nossa vida ter se tornado mais
badalada do que a de uma celebridade, e não foi no bom sentido.

— Suba e descansa um pouco, senhora — sugere, gentil.

Lury trabalha há pouco tempo conosco e tem se mostrado uma

pessoa muito competente e gentil. Hoje ela nem deveria ter vindo e, ainda
assim, veio quando, preocupada, ligou para ver se estava tudo bem comigo
depois de ter percebido que ontem eu já não estava muito bem.

— Eu não consigo, Lury, Gabriel saiu e está demorando —


afirmo, deixando de lado o embrulho no meu estômago, pois tenho coisas
mais importantes com o que me preocupar.
— Ele disse que viria para o almoço e a comida acabou de ficar
pronta, então, não se preocupe, o seu Gabriel deve estar para chegar. — De

todas as formas, Lury tenta fazer com que eu me sinta bem e a admiro por
isso. Poderia muito bem ser apenas a cozinheira, fazer o seu trabalho e não se
preocupar se a patroa está bem, mas age de maneira oposta. — Se não quer
subir, descanse um pouco no sofá. Seu rosto está sem vida e o seu Gabriel

não gostará nadinha de vê-la dessa forma.

— Está bem, vou fazer isso — digo e, antes de sair pela porta,
aviso: — Não se preocupe quanto ao almoço, não estou podendo sentir o
cheiro, mas tenho certeza de que o Gabriel vai chegar cheio de fome e
devorará a panela inteira.

Quando meu corpo cai deitado no sofá, primeiro sinto o teto


girando, sou obrigada a fechar os olhos, respirar com calma e, só então, me
sinto melhor.

Hoje deveria ser um sábado como outro qualquer, assim como


ontem, quinta, quarta e todos os dias das últimas semanas. Deveriam ser
como eram os dias em que tínhamos paz. Simplesmente não posso entender
como um homem que deveria ser um pai tem coragem de tramar algo tão
sórdido contra o próprio filho por causa de dinheiro. Gabriel poderia ter
evitado isso, se tivesse cedido ao homem que apareceu para o ameaçar e só
agora ele me contou.
Por orgulho e nem posso julgá-lo por isso, meu marido preferiu
não ceder e agora estamos sofrendo as consequências. Tudo está contra ele, a

imprensa não demorou a comprar a história do pai injustiçado, sem se


preocupar com a realidade dos fatos, e agora os olhos de todos estão voltados
para cassino, inclusive os da polícia.

Ao meu lado e tentando ser o Gabriel forte de sempre, meu amor

tem suportado tudo que tem acontecido, mas, diferente do que quer que eu
acredite, não o faz com facilidade. Ele é o meu marido e o conheço bem,
tanto que sei que está sofrendo. Do seu jeito Gabriel Souto de ser, tenta
passar para mim a força que dele se esvai. Pouco a pouco, ele perde a batalha,
mas não se permite fraquejar. Fraqueza não existe no seu dicionário e, em
nome disso, sei que tenta, por todos os meios, conter os danos de um
escândalo, mesmo que esteja óbvio que não existe uma saída.

A mim cabe o papel de ficar ao seu lado, amando-o da forma que

sempre fiz, dando o apoio que consigo e fazendo-o entender que não importa
o que aconteça, sempre estarei aqui para ele. Quando casei e aceitei o amor
que passei a nutrir e recebi o seu amor de volta, sabia exatamente o tipo de
homem que era Gabriel, dos negócios escusos e ainda assim o quis. Com toda
a bagagem, o quis de maneira consciente, simplesmente porque o amo e,
apesar de tudo pelo qual estamos passando, faria tudo de novo se fosse me
dada uma nova chance de escolha.
Uma, duas, três e quantas vezes forem necessárias, Gabriel é e
sempre será a minha escolha, pois nenhuma tribulação será pior do que viver

uma vida sem tê-lo ao meu lado. Nenhum sofrimento será maior do que
nunca mais vê-lo, tocar e amar o seu corpo e o seu coração.

Quando meu corpo relaxa sobre o sofá e o entorpecimento me


chama para inconsciência, na minha mente passava os piores pensamentos,

mas, durante o sono, acontece o oposto. Minha mente projeta imagens de


uma realidade feliz, em que Gabriel e eu estamos em uma ilha deserta, só nós
dois, nos amando sem interrupção. O mundo fora do paraíso não existe. Eu e
ele sem roupas, nos amando no mar, sobre a areia e nos alimentando das
frutas que as árvores do lugar nos oferece.

Tão bom sentir as suas mãos no meu corpo. Mãos experientes e


que sabem exatamente onde tocar para que eu esteja mole nos seus braços e
ofegante de desejo. A boca, como sempre, está brincando com os meus

seios...

Luana. Amo a forma como chama pelo meu nome e, quanto


mais o chama, mais cheia de desejo me torno.

— Luana, gata, acorde. — Sou sacudida levemente e,


novamente, ele chama. — Você precisa almoçar.

Aos poucos, abro os meus olhos e não sei se me ressinto por


perceber que estava apenas sonhando, ou se fico feliz por ver que apesar de
todos os problemas, ele está aqui, na minha frente. Afinal, não é isso que

importa?

— Quando tempo eu dormi? — indago, ao me sentar rápido


demais, e o ato faz com que eu sinta uma leve tontura.

— Tempo demais — diz, acariciando o meu rosto. Ao olhar no

seu rosto, principalmente nos olhos, vejo algo que não estava lá antes. Não
sei explicar o que é, só sei que ele está diferente. — Você precisa se
alimentar, venha. — Gabriel segura a minha mão e me encaminha para a
bancada da cozinha, onde um prato de comida me espera e,
surpreendentemente, percebo que não é o filé de peixe que a cozinheira havia
feito antes. — Lury esquentou o seu almoço antes de ir embora. Ela está
preocupada e não saiu sem antes me fazer prometer que cuidaria de você.

— Lury é um amor de pessoa, você foi muito feliz na escolha

dela como cozinheira — digo, pois não tem como pensar de outra forma,
quando ela teve a gentileza de preparar outro prato, depois de ter percebido
que o cheiro do anterior estava fazendo com que eu me sentisse mal.

— Você gosta dela, não é? — questiona ao sentar-se à minha


frente do outro lado da bancada.

— Gosto muito dela e de todos, da Vanda, que faz a limpeza, do


José, que me leva para todos os lugares e dos seguranças — afirmo, notando
que estamos falando de assuntos amenos, apenas para não adentrarmos nos

problemas, enquanto estamos almoçando.

Não demora muito até que o assunto morra e então Gabriel


parece não sentir mais vontade de conversar. O resto da refeição é feito no
mais completo silêncio, e ele pouco me olha.

A cabeça está quase sempre voltada para o prato e concentrada


na atividade de cortar o bife em pedaços tão pequenos que só posso supor que
o faz para não ter que levantar o rosto e olhar para mim. Além do silêncio,
meu marido também permanece sério, da sua boca não sai o sorriso sedutor
que ele gosta de lançar, mesmo em meio às refeições, e então começo a me
preocupar.

Gabriel simplesmente não está sendo ele mesmo. O corpo está


presente, mas a mente certamente está em outro lugar.

Assim que terminamos, ele pede para subirmos para o quarto e,


ao vê-lo se encostar a porta, sinto como se o meu coração estivesse prestes a
sair pela boca, além de tudo, ele também está apertado dentro do meu peito e
tenho a sensação de que minha vida está prestes a mudar para sempre. E não,
não é uma mudança boa.

— Amor, está tudo bem? — começo quando estamos parados no


centro do nosso quarto, a alguns metros de distância um do outro. Distância
que agora parece grande demais. — Você parece diferente. Aconteceu

alguma coisa lá no Sensations?

Aproximo-me, abraço-o pelo pescoço e ele coloca as suas mãos


na minha cintura. Apenas a segura, diferente dos abraços cheios de
possessividade que costuma me dar. Parece até que está com medo de me

tocar.

— Você sabe que estou aqui, não é? Sempre estarei do seu lado,
independente de qual seja a situação, eu quero estar aqui — digo, antes de
beijá-lo.

Por alguns segundos, o loiro parece incerto sobre corresponder


ou não ao beijo, mas não demora para ele ser o ganancioso de sempre. Com
uma das mãos, me puxa para o seu corpo e a outra leva para a minha nuca,
empurrando a minha cabeça de encontro à sua, como se as nossas bocas não

estivessem juntas o suficiente.

O seu beijo é quente, esfomeado e fala de necessidade. A língua


varre a minha boca por inteiro, ora exigindo que eu corresponda à altura, ora
querendo que minha língua fique parada, oportunidade em que ele a chupa
para si de uma maneira muito possessiva, sensual e que me deixa molhada de
tesão. Doido por contato, ele envolve as minhas pernas em volta do seu
quadril e em seguida me leva para a nossa cama. De qualquer jeito,

aparentemente fora da sua razão, Gabriel me joga de costas sobre a cama e,

como estamos atracados ao outro, ele acaba caindo com tudo por cima de
mim.

Estou tão excitada e necessitada de mais do que meu marido tem


para oferecer que não tive tempo de me assustar com o impacto, pelo

contrário, somente me agarro ainda mais ao seu corpo com braços e pernas e
deixo que ele faça o que quiser com a minha boca. Que seus beijos façam as
promessas do prazer absoluto que virá a seguir, quando os nossos corpos se
encontrarem.

— Não, Luana, nós não podemos mais fazer isso.

De repente, ele já não está mais em cima de mim, mas sim em


pé, parado ao lado da cama, olhando-me deitada, e parece horrorizado, como
se tivesse acabado de cometer um crime.

Como ele, levanto-me em seguida, ajeitando o meu vestido, que


já estava fora do lugar, e passando as mãos pelo cabelo assanhado.

— Você enlouqueceu? O que você não pode fazer? Nós somos


marido e mulher, fazemos sexo, muito, por sinal. O que há de errado nisso,
Gabriel?

— Nós precisamos conversar, Luana — diz e meu coração fica


apertado dentro do peito por perceber que não sou mais amor, e sim Luana.

— Sobre o Sensations? — indago, temerosa com o que vou

ouvir.

Nunca fui o tipo de pessoa que faz drama por tudo, pelo
contrário, praticidade sempre foi o meu segundo nome, mas agora, vendo o
seu rosto de uma maneira que nunca vi, nem mesmo nas brigas que tivemos

quando nos conhecemos, simplesmente não tenho como não sentir medo.

Gabriel está sendo pressionado por todos os lados e só eu sei o


quanto isso tem lhe custado. Às vezes, acho que, na tentativa de não se
mostrar abatido, nem ele percebe o quanto já está.

— Sobre nós dois — revela e eu aceno com a cabeça para que


continue. — Você acabou de dizer que sempre estará do meu lado.

— Disse, porque é a verdade — afirmo, dando um passo na sua


direção, logo freando-me ao vê-lo dar outro para trás, o que evidencia que

não quer a minha proximidade ou o meu toque.

— Acontece que eu não quero você do meu lado, Luana. Não


preciso de você do meu lado.

— O que você está falando, Gabriel?

— Eu quero o divórcio, é isso.

— Você não pode estar falando sério. Que tipo de brincadeira


idiota é essa? — digo, sentindo como se tudo estivesse acontecendo em
câmera lenta, bem diante dos meus olhos, como em um filme triste.

— Brincadeira nenhuma, é isso mesmo que você está ouvido, eu


não quero mais continuar casado com você, cansei dessa brincadeira. Foi até
bom e extremamente prazeroso enquanto durou, mas uma hora cansa. Eu
cansei.

— Cale essa boca, seu babaca! — Sem conseguir controlar a


minha irritação com ele, vou até onde está e começo a esmurrar o seu peito.
Não que o machuque de alguma forma, mas eu preciso fazer isso. — Como
ousa rebaixar a nossa relação dessa forma? Para de falar besteiras. —
Olhando para o seu rosto frio, tenho os meus pulsos presos pelas suas mãos e
nossos corpos quase se tocam.

— Que relação? — pergunta, com desdém e crueldade. —


Nunca existiu relação, sua idiota.

— Eu realmente não sei o que está acontecendo com você para


que nos rebaixe dessa forma, mas eu sugiro que tente outra tática, porque
nessa eu não vou acreditar. Eu sei tudo o que vivemos em todos esses meses
e você também sabe, então, não venha despejar esse monte de mentiras e
esperar que eu acredite, não vai acontecer, diabo loiro — digo bem perto do
seu rosto duro, em seguida livrando as minhas mãos do seu agarre.
— Vou falar mais uma vez: essa relação é uma mentira. Eu
menti para você em todas as vezes que disse te amar, que fiz promessas de

um futuro que nunca esteve nos meus planos, pelo menos, não com você.
Tudo o que fiz foi para que você colaborasse e não causasse problemas. Foi
tão fácil, Luana, muito mais do que eu imaginei que seria. Você não passa de
uma pobre garota tola e romântica.

Suas palavras me ferem mortalmente e então parece impossível


conter as lágrimas que querem escorrer, sufocar a dor que toma meu coração
e todo o meu corpo. É uma dor tão forte que chega a ser física.

— Você está mentindo, Gabriel — ainda insisto, mesmo olhando


dentro dos seus olhos e vendo-os vazios.

Seu rosto não tem expressão, como se nele não existisse um


único traço de humanidade. Um Gabriel que só agora é apresentado a mim e,
nessa situação, ouvindo tudo o que ouvi, começo a duvidar das minhas

certezas.

Talvez essa seja a sua verdadeira face e eu, sendo a tola, como
ele mesmo disse, fui apenas um joguete nas suas mãos. Nada diferente do que
ele já está acostumado a fazer, considerando que é um jogador nato.

— Fale a verdade. — Agarrada a um fio de esperança, faço uma


última tentativa.
— Essa é a verdade — afirma, sem ao menos titubear. —
Lembra do dia em que a Sabrina falou todas aquelas coisas na sua cara?

Já chorando e sem sentir a menor vergonha, considerando que


sou apenas humana, afirmo ao balançar a cabeça. Nem para falar tenho
forças, agora quero apenas ouvir e ver até onde Gabriel irá, o quão fundo irá
apunhalar o meu coração, até que não exista nada do imenso amor que sinto

por ele. Até que reste apenas a mágoa e o arrependimento pelo dia em que o
conheci vários anos atrás e também quando o reencontrei e me permiti entrar
no seu jogo sórdido.

— Nada do que ela disse era mentira. Eu sempre estive com ela,
não a deixei, apenas porque estava fazendo sexo com você. — O nome amor
agora virou sexo, constato. — Ela estava certa quando disse que eu estava tão
louco por você apenas pela novidade você representava. Uma mulher tão
diferente das modelos com que eu costumava sair. Não nego que você seja

uma baita de uma gostosa, mas é só isso mesmo. Não estou disposto a ficar
casado com alguém como você.

— Alguém como eu? — A minha voz sai fraca e embargada. De


repente, tudo parece demais para mim, como se não fosse capaz de suportar
muito mais do que já ouvi.

— Uma mulher carente e muito sentimental. Entenda que eu


estou passando por uma fase muito complicada na minha vida e não tenho

tempo e nem paciência para carregar um peso como você. Os seus choros me

irritam e não vou mais te tolerar ao meu lado, apenas porque transa bem.

— Não fale mais — peço, quase sem voz, vendo o quarto


começar a girar à minha volta. As paredes começam a se fechar.

— Saiba que tive amantes esse tempo todo. Foram várias, não só

a Sabrina. Você foi boa, mas não o suficiente para suprir as minhas
necessidades. Nunca houve amor, nunca houve uma relação de verdade. Tudo
foi uma mentira e você é tão tola que eu chego a sentir pena.

A última frase cruel saída da boca do homem que acreditei me


amar é ouvida à distância, apenas um eco distorcido que a minha mente ainda
consegue registrar. Sem aviso e sem que eu tenha tempo de me agarrar a
qualquer superfície, sinto a escuridão se fechar sobre mim.

A bem-vinda escuridão que me faz fechar os olhos para o lado

feio da vida. Para o mundo que pode ser cruel demais para quem não está
preparado para habitá-lo. Cruel para quem ousa ter fé nas pessoas, crer na
bondade e na força do amor. Ao cair no inconsciência, desejo não mais
acordar, dormir para sempre e não ter mais que pensar ou lembrar de tudo
que saiu da boca de Gabriel Souto, o homem que me fez amá-lo sem medidas
e, como um demônio sádico, arrancou e levou embora não só o amor que
nutri por ele, mas também a minha essência.

De uma forma que não lembro de ter feito antes, permito-me


chorar, de joelhos ao lado da cama sobre a qual repousa o corpo inerte do

amor da minha vida, depois de ter suportado toda a maldade que fiz com ela.

Choro por todos os erros que cometi por uma vida inteira e pelo
pior de todos eles. Na sua frente, coloquei uma máscara e representei um
papel, o fiz com maestria e não sinto o menor orgulho disso. Tendo na cabeça
a ideia de protegê-la do que a sua vida poderia se tornar, caso escolhesse ficar
com ela, independentemente de qualquer circunstância, sei que a feri muito
mais do que ela será capaz de suportar e além de qualquer possibilidade de
perdão.

Onde pulsava um coração, agora existe somente o vazio que

jamais voltará a ser preenchido, não quando estou mandando embora para
longe a razão de ele pulsar, não quando a minha existência voltará a ser como
era antes de eu conhecê-la a amá-la. Estava satisfeito, nunca feliz. Tinha uma
vida que muitos poderiam desejar, mas, no fundo, só existia tédio, vazio e
frustração.

Voltar ao passado não será fácil de maneira alguma, mas, pelo


menos, existirá o alento de saber que a minha mulher estará bem. Não bem
como eu gostaria que estivesse, pois cálculo que no início sofrerá pela

desilusão de um coração partido e pelo amor que pensará que perdeu. Com o
tempo, sei que a ferida cicatrizará e, ao olhar em volta e ver que não tem
ninguém lhe atormentando a vida — algo que a imprensa faria —, que ainda
tem o seu amado emprego e o abrigo que tanto ama, entenderá que foi melhor

assim.

Sei que a minha decisão trará consequências, principalmente


para mim, mas, pela primeira vez, sofro por acreditar ter feito a escolha certa.
Hoje, me sacrifico por amor e, todas as vezes que o peso da minha escolha
vier cobrar o seu preço, lembrarei que Luana estará bem, de volta ao seu
mundo e longe do meu, que é tão sujo quanto tudo que diz respeito à minha
vida.

Luana não terá que carregar nos ombros o peso de ser a mulher

de um criminoso, não terá a polícia na sua cola, não será julgada. Sei que
para ela será melhor assim, terá a vida que levava antes, como uma pessoa
comum, e poderá ter um relacionamento com um homem que não trará
problemas para a sua vida.

Os muitos meses de casamento e intimidade me permitiram


conhecer não só o seu corpo por inteiro, mas também todas as pequenas
mudanças no seu comportamento e, definitivamente, ela tem estado diferente
nos últimos dias.

Senti que está mais sensível, a aparência mais abatida do que no

início e sei que, por mais que seja uma mulher forte e esteja fazendo de tudo
para estar ao meu lado e me dando apoio, tudo tem sido demais para ela. Não
tem suportado o que vem acontecendo, não com a força que quer deixar
transparecer. Sei que não chega a ponto de fazê-la querer me deixar. Não é

isso o que quer, eu sei, mas é do que está precisando.

Além de tudo o que vem acontecendo, o seu sofrimento vinha


acabando comigo, mas nada me assustou tanto quanto o que acaba de
acontecer. Vê-la inerte sobre essa cama, parecendo tão pequena e indefesa,
me causa uma dor que parece insuportável. Ver a minha morena sofrendo por
minha causa mostra para mim que, por mais que esteja doendo, essa é a
melhor coisa que poderia fazer por nós dois. Um dia, talvez não demore
tanto, ela irá me agradecer por estar sendo poupada.

Só preciso que a minha Luana fique bem, nada mais importa,


não os meus sentimentos. Os dela não tenho por que pensar, pois, depois do
que eu fiz, eles com certeza já não existem, talvez a mágoa e o ódio sim, mais
nunca o amor.

Quando, aos poucos, ela começa a se mexer, aproveito para


aproximar a minha boca da sua e, pela última vez, beijá-la.
Ao despertar por completo, Luana já não me tem curvado sobre
o seu corpo, agora ela me ver em pé, ao lado da cama e apenas olhando-a,

sem nada dizer. Com cuidado, ela se senta com as costas apoiadas na
cabeceira da cama, sobre a qual muitas vezes fizemos amor, e então diz:

— Você pode, por favor, sair? — Seus olhos ainda estão


inchados pelo choro recente e, se conseguisse olhar para mim, perceberia que

eu também estive chorando por ela e por tudo que perderei. — Não vou
demorar, só preciso arrumar as minhas coisas e depois deixarei sua casa.

— Não precisa ter pressa — digo.

— Saia! — Aponta para a porta, ainda sem conseguir olhar para


mim. Meu peito dói e é apenas uma amostra de como será a minha vida daqui
por diante.

— Te mandarei em breve os papéis do divórcio — digo,


pensando que prefiro morrer, antes de ter que fazer isso. Papéis assinados

tornariam ainda mais definitiva a nossa separação e não sei se um dia estarei
preparado para isso.

— Gabriel — chama, quando já abri a porta para sair —, sei que


não deve querer isso, mesmo assim, gostaria de te pedir algo.

— Pode falar — digo, e agora sim, ela olha diretamente para


mim.
— Não me procure nunca mais. A partir de agora, aja como se
eu tivesse morrido, pois eu farei o mesmo. Por favor, jamais me dê o

desprazer de ter que estar no mesmo lugar que você, acho que eu não
suportaria.
Gabriel Souto, que ultimamente estava sendo alvo de duras
críticas por parte da imprensa por ter virando as costas ao pai, Leônidas
Souto, que, segundo fontes, havia acabado de deixar a prisão, e pelas
atividades no seu estabelecimento que sempre foi alvo de especulações,

acabou de confessar em entrevista ao jornal local, Bom dia cidadão, que a


casa de show Sensations era na verdade uma casa de jogos clandestina.

Recém-separado da enfermeira Luana Aguiar, o nosso bad boy


não quis falar da sua vida pessoal e nem os motivos da separação. O que se
sabe é que, há semanas, ele tem circulado sem aliança. Especula-se ainda
uma possível volta com Sabrina Sanches, a mulher que já foi vista em sua
companhia por diversas ocasiões, antes do repentino casamento.

Estamos diante da queda de um império?

O quão comprometido com a justiça Gabriel Souto está?

Continuem de olho no nosso programa, em breve traremos mais


detalhes sobre os negócios e a vida amorosa de Gabriel Souto, o homem que

teve a proeza de transformar a própria vida em um reality show muito


interessante de ser acompanhado.

— Chega de ficar vendo isso, minha filha. — Seu Júlio toma o


controle da minha mão e desliga a TV, assim que entra na sala e me pega
assistindo mais um sensacionalista programa de fofoca. Não que as notícias
estejam apenas neles, elas também saem em jornais sérios e de circulação
nacional.

A vida do homem que foi o meu marido e que um dia acreditei


amar está sendo escancarada para qualquer um que queira saber. Descobriram

tudo, desde a infância, a adolescência de um viciado em drogas e sua


posterior internação em uma clínica de reabilitação. Todos já sabem como o
Sensations começou e o porquê de o acesso ao local sempre ter sido tão
restrito e sigiloso.

Duas semanas depois do dia mais difícil da minha vida e de ter


deixado a sua casa para nunca mais voltar, Gabriel teve coragem de ir a
público e revelar que mantinha um cassino clandestino onde deveria
funcionar uma casa de shows como outra qualquer. Ao contrário do que eu

pensava que aconteceria no dia em que ele fosse descoberto, o julgamento de


alguns foi brando. Indo além do escândalo pela prática de uma atividade
ilícita, a visão interna do Sensations encheu os olhos de muitos e aguçou a
curiosidade. Segundo li em algumas reportagens, algo tão impressionante só

seria visto em Las Vegas.

Hoje, mais de quatro meses da minha volta para a casa do meu


pai, ainda não fui capaz de virar a página, os dias passam e continuo deitada
nesse sofá, procurando notícias do meu ex-marido. Não consegui ser forte
como achei que seria e todas as vezes em que o vejo pela TV, bem mais
magro, com a barba por fazer e aparentemente sempre cansado, a saudade
aperta o meu peito. A dor que passou a ser minha fiel companheira não me
deixa dormir bem à noite, trabalhar com a concentração necessária e muito

menos que lembrar como se faz para sorrir.

Por mais que Gabriel tenha dito todas aquelas crueldades, que
dificilmente serão apagadas da minha memória algum dia, não posso deixar
de sentir o seu sofrimento. Além da minha dor, ainda sofro de longe ao vê-lo
sofrer. É nítido que Gabriel não está bem e é por tudo que está passando, toda
a perseguição e sua vida sendo exposta. Às vezes me pergunto como eu
estaria no meio dessa bagunça, se ele não tivesse pedido o divórcio e
admitido não me amava pouco antes da bomba estourar.

Será que eu teria lidado bem?

Teria aguentado firme todas as provações das escolhas erradas


que sempre tem suas consequências, mas que não deixam de ser
desproporcionais?

Em momentos de fraqueza, chego a pensar que a melhor coisa


que Gabriel fez foi ter pedido o divórcio, mesmo que tivesse dito todas
aquelas coisas. Penso que, no meu estado, não seria bom para mim e nem
para o bebê passarmos pela provação que o pai dele está enfrentando. Já
estava sendo ruim, antes de ele me expulsar da sua vida.

Como tem de ser, os momentos de fraquezas logo são superados


e então eu mudo de ideia, pois sei que por amor passaria por qualquer
situação difícil, desde que estivesse ao seu lado. Nada do que está
acontecendo me importa, só queria que tudo fosse diferente, que ele me

amasse como eu o amei.

Gabriel, com bastante frieza e crueldade, tirou de mim o direito


de escolha no dia em que me humilhou e me expulsou da sua vida. Hoje, eu e
o filho, que ele não sabe existir, estamos bem. Longe dele e de toda a
bagunça à sua volta. Se o fato de ele ter sido casado é notório e público, a
forma como o casamento aconteceu foi uma das únicas informações que se
manteve sigilosa na sua vida escancarada. Felizmente, a sede por desvendar o
homem também deixou de lado o tema de separação e, como consequência,

fui esquecida pela imprensa sempre ávida por uma fofoca.

Fora um fotógrafo ou outro, posso ir e vir sem grandes


problemas do abrigo, que ainda é uma das poucas coisas que me dão
satisfação, além do meu bebê. Quando chego, todos os adultos fazem um

esforço para não tocar no nome do meu ex-marido. As crianças são as mais
difíceis de entender, pois elas sentem muita falta do tio Gabriel —
principalmente os meninos por conta do futebol — e até hoje, mesmo tendo
passado mais de quatro meses sem que ele comparecesse ao lugar, eles ainda
não o esqueceram. Fora isso, a diretora confidenciou que a ajuda financeira
continua, informação que me deixa contente, pois ela significa que pelo
menos um impacto positivo eu tive na sua vida.

O fato de eu ostentar uma barriguinha bastante saliente de quase

cinco meses de gestação tem chamado a atenção por onde quer que eu passe.
No abrigo, as crianças estão felizes e ansiosas para a chegada do bebê. Em
outros lugares, o fato não causa alarde, até porque não tem nada de estranho
em ser uma mãe solteira, não é nada que fuja da normalidade.

Também para me preservar, tenho saído pouco de casa e


preferido usar roupas que disfarcem a minha barriga e talvez por isso Gabriel
ainda não tenha descoberto a gravidez através da imprensa, que também não
sabe de nada — felizmente.

No hospital, nada mudou e nunca mais fui abordada por nenhum

policial. Obviamente, alguns olham torto por eu ser a ex do homem que tem
dominado toda a atenção da mídia — e não o tipo certo de atenção —, mas
ninguém teve coragem de me atacar diferentemente. São apenas fuxicos que
eu finjo não ouvir e não me sentir incomodada.

No fundo, eu sei que nada na minha vida mudou, mas, Gabriel


pelo menos escolheu a melhor hora para revelar sua verdadeira face. Se não
fosse por isso, eu não estaria tendo a paz e a tranquilidade necessárias para
cuidar da minha gravidez. Um filho que o pai não sabe da existência e,
provavelmente, jamais saberá.

Quando descobri a gravidez, poucos dias depois de ter voltado


para a minha antiga casa, primeiramente fiquei assustada e chorei muito, pois
aquele era o pior momento e eu não queria um filho do Gabriel, o homem que

me usou e depois me descartou como um pedaço de lixo. Depois que as


lágrimas secaram, não demorou para o meu coração se encher de amor.
Naquele momento, eu pensei que o bebê seria o meu bote salva-vidas, quem
manteria meu coração pulsando dentro do peito.

Com quase 20 semanas de gestação, já amo o pequeno com


todas as minhas forças, mesmo quase não as tendo neste momento. A pouca
força que tenho é por causa do meu filho, ele é a razão de não ter pirado

quando perdi a vida que pensei ter construído ao lado do homem que amava.

Ele tirou tudo de mim, mas, em contrapartida, deu-me o meu bem mais
precioso.

— Luana, filha. — Ouço meu pai chamando e sinto-o sacudindo


o meu ombro. — Você tem que reagir e se levantar desse sofá — diz, não

escondendo a grande preocupação no olhar. — Se deu conta de que eu


desliguei a TV, fui à mercearia, voltei e você continua apática, deitada nesse
sofá e olhando para o teto?

— Desculpe, pai — peço, sentindo-me culpada por fazer algo


que não consigo controlar. — Estou tentando, mas não consigo.

É neste momento que os meus olhos se enchem de água e


começo a chorar silenciosamente. Venho tentando apagar Gabriel e tudo
relacionado a ele da minha mente, mas simplesmente não consigo. Ainda não

posso superar e nem frear os impulsos que me levam a procurar notícias suas
em tudo quanto é canto.

Gostaria de não me preocupar, de não procurar pelo seu rosto em


todos os lugares possíveis.

Queria que tivesse arrancado todos os sentimentos bons e


deixado só o ódio. Não foi o que aconteceu, pois, além da raiva e tristeza
profundas, ele também deixou resquícios de um amor que era grande demais
para morrer tão facilmente. Por mais que as palavras tenham me machucado,

não consigo acreditar por completo que tudo que vivemos foi uma grande
mentira. Alguma coisa foi real, sinto que foi. Se não tivesse sido, não doeria
tanto.

— Não tem do que se desculpar, minha menina. Só quero que

você fique bem — fala, acariciando o meu rosto e choro ainda mais ao deitar
a cabeça contra o seu peito.

Hoje os papéis estão invertidos. Se passei anos preocupada e


cuidando do meu querido pai, que também não foi capaz de suportar a morte
da esposa, agora é ele quem cuida de mim e, assim como ele, sofro por amor.

Talvez seja a sina dos Aguiar: sofrer por amor e ter dificuldade
em superar situações.

— Na maior parte do tempo, eu tento ser forte, mas, em dias

como hoje, quando não tenho trabalho ou algo para ocupar a minha mente,
esqueço que ele me enganou e só resta a saudade — confesso, soluçando e
encharcando a sua camisa com as minhas lágrimas. — Sou muito idiota,
aquele porco não merece um terço das minhas lágrimas e preocupações.

— Ei, Lu, olhe para o pai — pede e, com cuidado, tira meu rosto
do seu peito, segurando-o com as duas mãos. — Não tem que ser forte o
tempo todo, minha filha. Não se martirize, pois você é apenas humana. Sofra
o que tiver de sofrer. Só não fique apática e jogada nesse sofá velho, não fará

bem para você e nem para o meu neto.

— O que me sugere, senhor conselheiro? — indago, quando suas


mãos deixam o meu rosto e eu o seco, decidida a não chorar mais por
Gabriel. Não hoje, já foi o suficiente.

— Por que não sai para dar uma volta no bairro? A noite está tão
linda. Vá, se arrume e saia para caminhar, tenho certeza de que voltará com
as energias renovadas. Também fará bem para o meu neto.

Creio que tudo na vida tem um propósito e esse bebê certamente


virá ao mundo para trazer muitas alegrias e reacender a esperança que há
muito tinha se perdido. Júlio, apesar dos erros, merece toda a felicidade que a
vida tem a lhe oferecer. Mas, além de todos os outros milhares de motivos, o
pequeno anjinho será o meu presente para alguém que, de uma forma ou de

outra, sempre esteve comigo, ficou do meu lado quando, ainda muito jovem,
perdi a minha querida mãe e ele, a sua amada esposa. Cuidei do meu pai e
agora estou sendo cuidada. É assim que as pessoas fazem quando amam.

Beijo e seu rosto e então me levanto.

— Vou tomar um banho rápido e fazer o que o senhor sugeriu,


talvez seja disso que eu esteja precisando.
Não demoro no banho e, depois de sair do banheiro, preocupo-
me apenas em colocar um vestido soltinho de verão e prender o meu cabelo

no alto da cabeça. Calço uma sandália de dedos e depois saio para a rua, a
mesma que não mudou desde a minha infância.

No bairro onde moram pessoas humildes, a violência nunca


chegou a ser um problema mais sério. Obviamente, existe a ocorrência de um

caso ou outro, mas nada diferente de qualquer outro lugar ou que cause
algum alarde. A prova disso é o fato de a rua está bem movimentada em
plena noite de sexta-feira, onde crianças correm para todos os lados e os pais
estão sentados nas calçadas, conversando entre si.

Alguns quarteirões depois, existe outro bairro onde a realidade é


o oposto do cotidiano da minha vizinhança. Lugar que no passado frequentei
por quase um ano e para onde — de maneira imprudente — estou indo neste
exato momento. Apreensiva, caminho com as duas mãos protegendo a minha

barriga.

Mesmo que a minha cabeça esteja dizendo para não fazer isso,
os meus pés não me obedecem. Eles continuam a me guiar para o destino
certo. O lugar que há anos deixou de ter alguma importância para mim e que
hoje parece ser o extremo oposto. Voltou a ser importante porque, de alguma
forma, me deixa mais próxima a ele. Não do seu eu adulto que negou e jogou
fora tudo que vivemos, mas o lado dele que eu sei ter sido sincero quanto a se
importar comigo e com a amizade que tínhamos.

Esta parte da nossa relação Gabriel não pode tirar de mim. Não o

meu garoto do capuz cinza, o melhor amigo que a garota estranha que eu fui
poderia ter.

Já na entrada do beco pouco iluminado e quase deserto, de


repente, sinto o medo tomar conta do meu corpo e um arrepio, que nada tem

relação com o vento da noite fresca. Mesmo com medo, sigo caminhando. A
cada passo, lembranças começam a passar na minha frente, memórias de um
tempo em que os problemas não existiam, que a minha única preocupação era
arrumar uma maneira de sair para encontrar Gabriel no lugar em que a minha
mãe jamais permitiria que eu colocasse os pés.

— Olhe só para essa garota, Boca — diz um dos carinhas que


está ao lado de outro, dividindo um baseado, presumo. Não tive coragem de
virar o rosto para olhá-los. Na verdade, estou tensa, o corpo duro como um

pedaço de madeira.

Certamente enlouqueci, pois não existe outra explicação para


seguir caminhando e colocando em risco a minha vida e a do meu filho.
Apenas sinto que devo ir até o final do beco, até onde Gabriel e eu
costumávamos nos sentar em silêncio, enquanto comíamos os nossos lanches.

Você nunca sentirá fome ou frio, pois eu nunca te deixarei


sozinho.

Fome ou frio.

Nunca te deixarei sozinho.

Não te deixarei sozinho.

No final das contas, foi ele quem me deixou sozinha.

Então por que tenho a sensação de que estou descumprindo uma


promessa?

Mesmo com a dor e a imensa raiva, não posso deixar de me


preocupar com a sua situação e nem controlar a vontade de ir atrás dele e
abraçá-lo apertado. Dividir os problemas. É algo tão irracional, uma ideia tão
burra de se ter depois de tudo que ele disse que às vezes me pergunto
seriamente se não estou ficando louca.

Como posso sentir outra coisa que não seja raiva de Gabriel?

Como o meu corpo trai a minha mente ao sentir falta dos seus
beijos e do toque das suas mãos por cada recanto dele?

Como acreditar que tudo o que vivi foi uma grande mentira?

Perdida em pensamentos, chego muito perto do ponto exato onde


costumávamos nos sentar e percebo que não estou sozinha. Quase encoberta
pela escuridão, vejo uma pessoa de costas. Ela usa uma calça jeans escura e
uma blusa moletom cinza. Sua cabeça está coberta com o capuz e, neste

momento, o meu coração dispara.

Muitos anos se passaram, mas parece que estou vivenciando a


mesma cena de quando tinha 12 anos de idade. O moletom, o capuz, o
mesmo lugar e a mesma escuridão. Se eu tivesse marcado um encontro com o
passado, ainda assim, ele não estaria tão nítido a poucos metros de distância

de onde estou.

Mesmo sabendo que estou sendo imprudente, os meus desejos


me traem. Tomam a frente dos meus pensamentos sensatos, que me dizem
para virar as costas e ir embora o mais rápido possível, que não é nesse beco
escuro e mal frequentado que encontrarei o que busco. Encurtando a distância
e com o coração disparado pelo medo e pela esperança, levo a mão até o
ombro do desconhecido, mas talvez meu toque tenha sido leve demais, já que
ele não se mexe.

Coragem, Luana!

Algo em mim não pode simplesmente virar as costas e ir


embora, não sem antes provar para mim mesma que não estou indo longe
demais, surtando e colocando a vida do meu filho em risco por causa de
alguém que não nos merece. Que foi embora sem se importar com o que
estava abandonando.
Quando a minha mão enfim sacode o ombro da pessoa e,
assustada, ela vira de frente para mim, a imagem à minha frente traz a

sensação de um soco no estômago. De repente, sinto como se tivesse voltado


no tempo.

Esse garoto, que tem os olhos completamente perdidos, tem a


mesma idade que o Gabriel tinha quando nos encontrávamos aqui, tem a

mesma expressão e sei que, assim como o pai do meu filho, ele só precisa de
uma chance.

— O-oi — O cumprimento é dito com dificuldade, a mesma que


estou tendo para respirar. — Tudo bem com você? — De maneira
imprudente, tento me aproximar, mas o garoto se afasta.

— Dê o fora daqui, tia. Isso aqui não é lugar para você —


grosseiro, ele avisa e, por alguma razão, a sua hostilidade me ofende.

Luana, caia na realidade. Esse garoto não é o seu Gabriel.

Apenas dê as costas e vá para casa! Na minha cabeça, uma voz sensata diz e
então me dou conta do meu estado e de onde estou.

— Tudo bem. — Viro-lhe as costas, mas ainda não consigo ir


embora e me volto novamente para o garoto, que me puxa para as lembranças
do passado. — Qual o seu nome?

— Todos daqui da quebrada me chamam de Black. Agora, dê


logo o fora daqui, tia. — Na sua voz, ouço urgência e uma certa preocupação
quando olha por cima da minha cabeça.

— Está bem, Black, mas fique com este cartão. — Abro a bolsa
na sua frente, porque sei que, se fosse a sua intenção, já a teria tomado e pego
o cartão de visitas do abrigo.

Entrego na sua mão, satisfeita e esperançosa de que ele irá até lá.

Quando vou seguir o meu caminho, dou de cara com os dois garotos que vi
na entrada do beco. Com os olhos arregalados, imediatamente me
arrependendo de ter vindo até aqui. De perto eles parecem ainda mais
ameaçadores, mesmo que pareçam ser tão jovens quanto o Black.

— Trazendo amigas para a boca, pequeno Black? — um deles


pergunta ao me cercar, enquanto o outro me encurrala pelo outro lado.

— Deixem a moça ir embora, caras — o garoto do capuz


intercede por mim e eu só consigo assentir a cabeça, tremendo da cabeça ao

pés.

Da última vez que me vi cercada desta forma, fui defendida pelo


homem que se tornou o amor da minha vida e pai do meu filho. O problema é
que, dessa vez, ele não está aqui. Pelo contrário, por sua culpa fui imprudente
a ponto de me colocar em perigo, constato, amargurada.

— Passe a bolsa, tia. Entregue e você poderá ir embora — o


outro avisa, e eu a seguro mais firme na frente da minha barriga, como se ela
fosse um escudo.

Sem paciência, o que está na frente avança e, com toda a força,


toma a bolsa da minha mão.

— Vocês já têm o que queriam, agora caiam fora e deixem a


mulher em paz — O garoto do capuz entra na minha frente e os outros dois

sorriem com deboche.

— Mas agora que estava começando a ficar divertido! — o mais


alto diz, sem levar em conta o pedido do Black.

Se eu já sabia que estava enrascada, agora eu tenho certeza de


que a minha vida e a do meu bebê estão correndo risco. O meu corpo treme,
os meus olhos começam a arder, mas me esforço para não chorar, porque sei
que isso pioraria a minha situação.

— Sabe, você é velha, mas é bem bonita. — Ele me olha dos pés

à cabeça e, pelo vestido que disfarça bem e por estar muito chapado, não se
dá conta de que está assediando uma mulher grávida. — Acho que
passaremos um bom tempo com esse mulherão.

Os meus olhos, com horror, acompanham o momento em que


um deles empurra o garoto do capuz da minha frente, enquanto o outro agarra
com força os cabelos da minha nuca.
De repente, vejo toda a minha vida passar bem diante dos meus
olhos, da forma como dizem que acontece quando uma pessoa se vê diante da

morte.

— Larguem a minha mulher agora! Seus desgraçados! — Ao


longe, uma voz conhecida e furiosa é ouvida e então já não estou mais sendo
cercada e a mão pesada deixa os meus cabelos.

— Gabriel.
O clima fica tenso no lugar mal iluminado. Como se Gabriel
tivesse um dom, eu e os garotos ficamos presos no seu magnetismo, na aura
de perigo que traz consigo a cada passo dado na nossa direção.

O meu coração está ainda mais disparado. Agora já não sinto

medo. Ele está acelerado pela visão que tenho, pela saudade, depois de tantos
meses afastada, sem um único vislumbre do homem que não posso deixar de
amar. O homem que me deu o melhor presente que eu poderia receber.

— Como ousam tocá-la com essas mãos sujas? — Ele chega e


leva a mão ao pescoço do garoto que puxava o meu cabelo.

A pergunta é feita com os dois de narizes praticamente colados


e, no rosto do garoto, já não vejo a mesma valentia de segundos atrás. Pelo

contrário, ele está com medo do Gabriel. Muito medo e eu também estou.

A sua expressão diz que está muito furioso e que não hesitaria
em tirar a vida desses meninos, que estão tão perdidos no mundo do vício que
talvez nem percebam a gravidade do que estão fazendo. Sempre soube que o
meu ex-marido seria capaz de qualquer coisa e estava até mesmo acostumada

com a ideia de que ele não era exatamente o genro que a minha mãe gostaria
de ter.

Mas vê-lo, pela primeira vez, desta forma, segurando o garoto


pelo pescoço e pouco a pouco apertando o seu agarre, me mostra que saber é
diferente de presenciar. Muito diferente. Quando eu apenas imaginava do que
ele seria capaz, caso se visse em situações que fugissem do seu controle, não
sentia o medo que estou sentindo agora.

Medo por ele, que pode complicar ainda mais a sua vida por

causa de uma atitude impensada. Fazer algo que não tem volta por causa de
uma atitude irresponsável minha.

Estamos todos em silêncio, os meus olhos não conseguem se


desviar da mão dele no pescoço do menino, não consigo mexer um músculo
sequer do meu corpo e fico surpresa ao conseguir pelo menos balbuciar
alguma coisa.
— Gabriel, por favor. — O som sai baixinho, mas sei que me
escuta, já que, por um segundo, desvia a sua atenção para mim. — Solte ele.

— Ele estava... Esse moleque estava pensando em... — Com o


horror do que estava passando pela sua cabeça, volta-se novamente para o
rapaz e então o sufoca com mais força.

No rosto dele, vejo o desespero e a dificuldade para respirar.

Olho para os lados, vejo que os outros dois já desapareceram e então me


convenço de que terei que parar de tremer e fazer alguma coisa.

Obrigo os meus pés a irem até ele. Do seu lado, toco no braço
que está erguido, segurando pescoço do cara e, com toda a cautela, peço:

— Gabriel, solte ele, por favor.

— Não, porra! Ele queria... Você...

— Não aconteceu nada. Não faça nenhuma besteira. —

Continuo de olho na sua mão e ele não afrouxa o agarre nem um milímetro
sequer.

Olho para o rapaz, vejo que já está com os olhos saltados e o


rosto vermelho, então decido apelar.

— Faça isso por mim. Por tudo que a gente viveu. Deixe ele ir
embora! — peço e sinto que estou sendo patética em usar o falso amor que
ele dizia sentir por mim. Como se ele fosse se sentir compelido a...
— Dê o fora daqui e agradeça a ela por eu não acabar com a sua
vida.

A sua fala traz um misto de sentimentos quando o vejo afrouxar


o agarre e depois largar o pescoço do garoto, que sai correndo para a rua de
cima sem olhar para trás. O alívio toma o meu corpo de uma forma que me
faz sentir que estou a ponto de desfalecer.

Alívio e surpresa pela minha tática ter dado certo. Surpresa pela
lembrança do que vivemos tê-lo feito voltar atrás e recobrar o controle. Por
um momento, pensei que seria preciso apelar para o filho que ele não sabe da
existência, mas bastou que eu mencionasse a relação que tivemos.

Pedi por mim, a pessoa que ele não chegou a amar, que ele
expulsou da sua vida e nunca mais procurou. Gabriel mandou sinais
completamente contraditórios e agora, além de estar doente de saudades e
louca para chegar mais perto dele, também estou confusa. Permitindo que

uma chama de esperança reacenda.

O meu loiro, pela primeira vez em meses, está bem na minha


frente e olhando diretamente para mim. Nós permanecemos por um tempo —
que mais tarde não poderei calcular quanto — em silêncio, apenas nos
fitando, e então eu aproveito para ter o que por meses venho desejando: a sua
presença, o seu corpo a um braço de distância do meu. Os olhos que parecem
enxergar a minha alma.

Ele está muito diferente e, de todas as mudanças, o que mais

chama a minha atenção são os seus olhos, uma das partes do seu corpo que eu
mais amava, olhos que eu seria capaz de passar horas admirando, sem nunca
cansar. Hoje eles estão vazios e sem vida. Mesmo no escuro, percebo que as
pupilas parecem dilatadas, deixando-os quase pretos.

Ao mirar o meu rosto, vejo passar por ele uma mistura de


sentimentos que, a princípio, não sei definir quais são. Não sei se sentiu raiva
por me ver na sua frente, quando provavelmente era a última coisa que
queria. Não sei se espanto por eu estar no mesmo beco onde não deveria ter
posto os pés quando criança e muito menos agora, estando sozinha e grávida.

De tudo que vejo, certamente enxerguei o sofrimento, mesmo


que tenha sido rápido e que ele tenha tentado esconder. Mesmo que prefira
não demonstrar essa fraqueza. Agora sei que Gabriel está sofrendo muito

com a bagunça que virou a sua vida e, neste momento, se ele permitisse, eu o
abraçaria para fazê-lo sentir que não está sozinho. Mostrar que o que eu disse
antes de ele partir o meu coração ainda está de pé.

Não te deixarei sozinho.

Assim que as ideias invadem a minha mente, logo arrumo um


jeito de justificá-las, pois prefiro acreditar que teria esta compaixão por
qualquer pessoa a crer que ainda o amo a esse ponto. Seria insano demais e
nem saber que carrego um filho dele no ventre é o suficiente para justificar

tamanha fraqueza e falta de amor próprio.

Depois de um tempo, percebo a mudança no seu rosto, que troca


a tensão e o medo pelo que esteve prestes a acontecer pela a irritação que eu
sabia que viria.

— O que você está fazendo aqui? — indaga, ao segurar o meu


pulso com mais firmeza. — Ficou louca, porra? Eles estavam a ponto de...
de... — Não consegue nem falar a palavra.

— Não tem o direito de falar nesse tom comigo — magoada,


afirmo. — Não aja como se eu tivesse alguma importância para você. —
Apesar das palavras, o tom da minha voz é brando, pois estou cansada e
abalada demais depois de tudo o que aconteceu. Tudo o que eu não quero é
brigar. Não com ele, que me salvou do que poderia ter sido um trauma

irreparável.

Aparentemente tão cansado quanto eu, ele não rebate e volta a


me fitar com intensidade. Lentamente, Gabriel varre o meu corpo da cabeça
aos pés e o olha com tanta atenção que até parece fazer um inventário para
checar se não falta nenhum pedaço.

— Você está bem? — por fim, pergunta.


— Isso não é da sua conta! — assevero.

— É da minha conta sim, você sabe que é — fala com

naturalidade e, sem que eu estivesse esperando, subitamente se aproxima,


deixando os nossos rostos e nossos corpos bem próximos.

— Não, eu não sei de nada e você está louco se pensa que vai...

Não consigo concluir o raciocínio quando seus olhos se fixam na


minha boca e a sua presença entorpece os meus sentidos como se eu estivesse
entrando em contato com a minha droga preferida, após meses de abstinência.

Seu cheiro ainda é o mesmo, as minhas pernas viram gelatina, o


estômago gela e a minha cabeça e o coração esquecem os motivos pelos quais
estou magoada com ele. A minha libido, que tem estado alta por conta dos
hormônios da gravidez, traz à tona o desejo de pular nos seus braços.

Como você é burra, Luana!

— Você está muito linda, morena — elogia contra a minha boca,


no momento, esquecendo do pé na bunda que me deu e essa fraqueza atribuo
ao que acabamos de passar juntos. — Mas também está abatida — afirma e a
voz não esconde o fato de ele estar exausto.

— Cinco meses se passaram, Gabriel — eu o lembro, assim que


encontro novamente o meu foco. Quando consigo jogar para o fundo da
minha mente os pensamentos libidinosos e o amor por quem eu deveria sentir
apenas desprezo. — Não tenho mais que dar nenhuma satisfação da minha
vida para você.

A fim de machucá-lo tanto quanto ele fez comigo, falo sem a


menor culpa. Gabriel não sonha que daqui a pouco meses se tornará pai e,
mesmo sabendo que estou agindo errado, não penso em lhe contar. Não
quando não sei qual será a sua reação, não quando não conseguirei lidar com

uma possível rejeição sua ao fruto da nossa breve relação.

— Você não tem dormido?— A mão se levanta na intenção de ir


ao meu rosto e, dessa vez, não faço nada para me esquivar do seu toque, mas
antes de fazer o que pretendia, Gabriel volta a abaixar a mão e leva o cigarro
que segura na outra aos lábios.

— Voltou a...

— Isso não te diz respeito. Aliás, nem sei o que estou fazendo
aqui conversando com você — fala e, novamente, vejo no seu rosto a mesma

expressão que tinha quando pediu o divórcio.

Ele tenta virar as costas para mim, mas não permito. Seguro no
seu braço e o gesto rápido faz com que eu me sinta tonta. Uma vertigem que
me deixa com a sensação de que o chão está se abrindo embaixo dos meus
pés.

— Morena, o seu rosto está branco com uma folha de papel.


Você está se sentindo mal? — O seu braço enlaça a minha cintura, deixando-
nos com os corpos o mais próximo que a minha barriga permite.

Os seus olhos aumentam de tamanho e se enchem de vida,


quando se dá conta do que está sentido. Do que exatamente está impedindo
os nossos corpos de estarem colados de cima a baixo.

— Luana, você...

— Me solte, Gabriel. Eu não estou me sentindo bem, tenho


mesmo que ir.

Dentro dos seus braços — que agora são dois, depois que ele
jogou o cigarro no chão e pisou em cima —, me debato, mas Gabriel me
segura com firmeza.

A mudança que vejo no seu rosto é tão grande quanto a que


percebo no seu corpo. Ele estava tenso e agora está relaxado. O cansaço que
via nos seus olhos parece ter desaparecido e, apesar de não conseguir ler sua

expressão, sinto que a partir dessa descoberta, tudo mudou para ele. De
alguma forma, tudo mudou e foi para melhor.

— Você não está se sentindo bem, me deixe te levar até em casa.


— É tudo o que ele tem a dizer, depois de ter descoberto, da pior forma, que
terá um filho.

Não grita na minha cara, como eu sei que mereço. Prefere o


silêncio que me machuca, porque parece que não se importa com ele, assim
como não se importa comigo. Não da forma como eu gostaria. Magoa-me

perceber que o seu desamor é maior do que eu pensava que fosse.

— Solte-me, porra! Eu posso ir sozinha. — Decepcionada e sem


conseguir encará-lo, aproveito o seu breve momento de distração e me
desvencilho do seu agarre.

Dou alguns passos apressados, mas a minha vista começa a


escurecer e só não caio porque ele chega por trás e me ampara. Depois me
segura em seus braços, e eu não reajo, apenas apoio a cabeça no espaço entre
o pescoço e ombro dele, infeliz pelas demais coisas, mas satisfeita por estar
sentido o calor do meu homem.

Deus, como eu sou patética!

— Vai ficar tudo bem, vou te levar para o hospital, morena —


avisa, enquanto caminha cheio de pressa pelo beco e imagino que tenha

estacionado o seu carro aqui por perto, já que acabo de ouvir o som do
veículo sendo destravado.

— Não quero ir para o hospital, me leve para casa do meu pai —


peço e percebo que não me refiro como sendo a minha casa, simplesmente
porque não a vejo dessa forma.

No meu coração traidor, a minha casa ainda é a que eu morava


com Gabriel. Passei a enxergar a enorme residência como sendo o meu lar e
os meses não foram capazes de me fazer mudar esse pensamento, por mais

que eu me esforçasse para fazer diferente.

— Você não está bem. O seu bebê...

O meu bebê! Ele nem mesmo consegue dizer “nosso bebê”.

— Está tudo bem com ele, foi apenas uma queda de pressão, mas
isso não é tão incomum no meu estado. Ainda mais depois do susto que
passei. Só me leve para casa, Gabriel.

Não sei se foi pelo tom suplicante da minha voz, mas ele acaba
concordando, já que não diz mais nada e apenas me coloca dentro do carro,
com todo o cuidado do mundo.

O curto caminho até a minha casa é feito em total silêncio. O


vento fresco entrando pela janela me ajuda a me recuperar da rápida tontura
e, vez ou outra, ele olha rapidamente na minha direção, me passando a

impressão de que dirá alguma coisa, mas da sua boca não sai uma palavra até
o momento em que estaciona na calçada da casa do meu pai.

— Pronto — diz e nem chega a desligar o carro, o que significa


que não quer esticar o assunto comigo e nem deseja estar por mais tempo na
minha companhia.

O clima fica muito pesado a ponto de nem eu mesma suportar e


então abro a porta e saio com os olhos ardendo pela vontade de chorar, mas
não o faço porque não posso dar a ele este gostinho.

Quando já estou abrindo o portão, ouço o barulho inconfundível


da porta do seu carro sendo batida e então sei que ele tem alguma coisa para
me dizer. De costas e com os braços soltos, respiro fundo várias vezes, até
que ele, parado atrás de mim, começa:

— Em algum momento, você pretendia me dizer, Luana?

Sentindo que estou preparada, me viro de frente para ele, vejo no


seu rosto a mágoa e então dou a reposta mais sincera que consigo:

— Eu não sei, não tinha pensando sobre isso. Talvez, um dia, eu


contasse. Não agora. Não estava preparada.

— Talvez um dia me contasse?! — Ele agarra o meu pulso com


firmeza, mandando pelos ares a aparente frieza e calma que vinha
demonstrando até agora. — Você está falando de um filho, porra! Não de um

objeto, um segredo que pudesse ser guardado apenas porque você assim
queria.

— Eu posso fazer o que eu quiser. Enquanto ele estiver dentro


da minha barriga, é apenas meu e você não pode fazer nada quanto a isso.
Perdeu esse direito quando me usou de forma tão baixa e depois me expulsou
da sua vida, como se eu fosse lixo.
Eu sei que ele tem direitos e que a minha fala está
completamente equivocada, mas a mistura de sentimentos que comprime o

meu peito não me permite agir de outra forma. Preciso feri-lo da forma como
me feriu. Fazer com que sinta pelo menos um terço da dor que não me dá um
segundo de paz.

— Você não sabe o que está falando, mulher. — Gabriel solta a

minha mão e olha para a minha barriga. Ele leva a mão até ela, a toca com
carinho por alguns segundos e depois, simplesmente vira as costas e vai
embora.

Sim, ele não conversou ou sequer brigou por causa da minha


omissão, ele apenas me virou as costas, entrou no carro e foi embora.

Fiquei por vários minutos parada no portão e olhando para rua


que o seu carro seguiu, até sumir das minhas vistas. Olhava como quem nutre
a esperança de que ele fosse voltar a qualquer momento, mas isso não

aconteceu. Fiquei sozinha com as minhas lágrimas, a minha dor e os meus


pensamentos confusos.

Pensei que estivesse superando, ou pelo menos tentando, mas


agora, depois de poucos minutos, os velhos sentimentos veem com força
total. A dor, a decepção e o amor. Principalmente o amor, porque não tem
como passar pela vida de Gabriel Souto e acreditar que tudo voltará a ser o
que era antes.

Ele é um homem que deixa marcas. Marcas profundas.

— Foi melhor assim, Luana — É do que tento me convencer e


acredito que, a partir de agora, repetirei até que se torne uma verdade. — A
gente não precisa dele, meu amor. — Acaricio a minha barriga, me
permitindo sentir a única e enorme alegria que ainda me resta: o meu filho.

Foi melhor assim.

Junto com o soluço das lágrimas que começam a secar, fico


repetindo a frase, até que, na minha mente, vem à lembrança de uma fala sua:

Amo você, nunca esqueça disso.

Não esquecer.

Jamais esquecer.

Não duvidar.

— Gabriel, o que você está tentado fazer? — A fala é dita em


voz alta, permito-me ter um segundo de esperança, mas logo trato de afastá-
la. Se me quisesse, Gabriel estaria comigo.
— Que bom que chegou, filha. Eu disse que você não estava,
mas elas quiseram esperar — fala meu pai, assim que fecho a porta atrás de

mim e, sentadas no sofá, avisto as minhas amigas do cassino. Um grupo tão


distinto e elegante que não é difícil perceber quão deslocado parece aqui na
nossa humilde casa.

— Já que você sumiu, nós viemos pessoalmente ver como tem


passado, criança — como de costume, é Trude quem primeiro fala. Ela
sempre age como se fosse a porta voz de todas as outras e elas não parecem
se incomodar como o fato. — A sua bolsa? Você só pode estar doente, nunca
te vi sem aquela bolsa pavorosa à tira colo. Espere um pouco, você esteve

chorando?

— Filha, está tudo bem? — Agora todos estão preocupados por


causa dos meus olhos inchados e da minha bolsa.

Trude tem razão ao dizer que ela e eu éramos inseparáveis, mas


não somos mais, já que nem Gabriel e nem eu percebemos que o garoto a
tinha levado. Agora estou triste, sem o meu celular e meus documentos.
— Calma, pai. Calma, meninas. Foi só um susto, mas está tudo
bem com comigo e com o bebê. Vou contar tudo para vocês.

— É claro que vai, não te deixaríamos fugir disso — Juceline diz


e eu abro o meu primeiro sorriso do dia.

— Que bom que vieram meninas! — falo com sinceridade, pois,


apesar de ter fugido desta visita e ter mantido contato somente através do

grupo de WhatsApp que nós temos, estava sentindo muito a falta delas,
mulheres que se tornaram mais do que meras conhecidas. Elas são as
melhores amigas que alguém poderia ter.

Contando comigo, somos nove mulheres, todas distintas entre si,


mas unidas por uma improvável amizade. Talvez o amor ao carteado tenha
nos unidos, mas, certamente, não foi ele quem estreitou os nossos laços. O
grupo é um dos responsáveis por eu ter passado a pior fase da minha vida
com a sanidade mental intacta. As nossas constantes trocas de mensagens me

divertem quando não tenho muitos motivos para sorrir e, por isso, sou
eternamente grata a elas.

— Como está com a separação e tudo que tem acontecido com o


Gabriel? — Mirtes, a bocuda, fala o que nem ela teve coragem de perguntar
através das trocas de mensagens.

— Pare de ser inconveniente, mulher! — Juceline a repreende ao


dar um cutucão na costela da outra com o cotovelo.

— Não significa que não estamos curiosas e preocupadas com

você — Trude pondera. — O que acha de jogarmos um carteado e tomarmos


um vinho enquanto conversamos? — Elas mostram as mãos cheias,
evidenciando que vieram preparadas. — Você pode nos contar o que quiser e
até onde se sentir confortável, tudo bem?

— Estão preparadas para perder? Gostaria de avisar que ainda


estou em excelente forma.

— Veremos, querida. Veremos — Mirtes devolve e todas as


outras começam a falar ao mesmo tempo, provocando-se.

Apesar de ter desejado ficar sozinha com os meus pensamentos,


no fim, acabo percebendo que estar com as meninas é a melhor coisa que
poderia ter acontecido essa noite. Elas com os seus copos de vinho e eu com
o meu suco, ficamos horas jogando baralho, dominó e vários outros jogos.

Entre jogos e provocações, converso com elas sobre o fim do meu casamento,
sobre as merdas que o Gabriel falou e todas recebem a notícia com
incredulidade. Para elas, que estavam sempre por perto, parece impossível
associar as palavras ditas com as atitudes do homem apaixonado e atencioso
que sempre esteve à minha volta.

Quanto ao cassino, creio que a notícia abalou mais aos seus pais
e respectivos maridos do que a elas, pois, como qualquer pessoa sensata,
sabiam que uma merda como aquela poderia acontecer, considerando que

nenhum segredo permanece oculto para sempre. De toda forma, creio que um
cassino não é necessário para que possamos estar sempre juntas, porque a
amizade que nos une é maior que o amor pelos jogos.

Pouco mais de 1h depois de elas terem ido embora, reviro-me de

um lado para o outro na cama, sem encontrar a melhor posição para conciliar
o sono. Na minha cabeça, já repassei tudo o que foi dito, as reações dele —
ou a falta delas — depois da descoberta de que será pai e, então, toda a
alegria que a visita das minhas amigas me proporcionou vai embora.

Quem fica são os meus velhos companheiros, só que


potencializados depois de hoje. Embora esteja tentando ser forte, volto a
chorar e os soluços são tão altos e desesperados que é praticamente
impossível que o meu pai nos os ouça.

Neste momento, libero o choro que, por dias, vinha guardando,


depois de ter chegado à conclusão de que já tinha passado tempo demais para
que eu ficasse remoendo uma história que já havia acabado em definitivo.

— Minha filha, o que está acontecendo? Está se sentindo mal?


— Meu pai, que certamente ouviu o meu soluço contra o travesseiro, acende
a luz e, preocupado, se senta ao meu lado na cama.
— Eu encontrei o Gabriel, papai — aos soluços, revelo.

— Ele fez alguma coisa com você? Te machucou de alguma

forma?

— Não. Ele foi frio e agiu como se eu não fosse ninguém na


vida dele. Pior, como se o filho que estamos esperando não fosse nada.
Simplesmente virou as costas e foi embora — revelo, entre um soluço e

outro. — O Gabriel nunca me amou. — Exausta física e psicologicamente,


me aproximo, abraço-o pelo pescoço e assim ficamos por um bom tempo.

Nos últimos meses, o meu pai, o responsável por toda esta


bagunça, se tornou o meu maior confidente e estou feliz que seja ele. O meu
pai que, apesar de tudo, sabe dar bons conselhos e é o melhor amigo que
alguém poderia ter nesse momento.

— Você precisa reagir, estou começando a ficar muito


preocupado — diz, depois de um tempo, quando já estou mais calma e menos

chorosa.

— Eu vou ficar bem. Amanhã é outro dia e já terei esquecido o


encontro de hoje e da existência dele, que não merece as minhas lágrimas —
minto porque sei que não será tão fácil.

— Não é bem assim, minha filha — ele começa, mas para, antes
de concluir.
— Do que o senhor está falando? — Seguro a sua mão quando
pensa em se levantar e fugir. Sei que iria dizer algo importante, mas, por

alguma razão, mudou de ideia.

— Minha filha, tente descansar. Amanhã, nós conversamos.

— Não! O senhor precisa me dizer o que o Gabriel está


aprontando — insisto, pois sei que tem a ver com aquele loiro dos infernos.

Ele não estaria tão alarmado se não tivesse.

— Ele não está tão desapegado como quer parecer — revela


rápido e sem parar para respirar. Em seguida, ele se levanta e começa a
caminhar pelo quarto.

— O que o senhor está falando?

— Todos os dias, não só uma vez, ele liga para saber como você
está. Pergunta como tem passado, se está lidando bem com a separação. — A
sua revelação faz o meu coração bater disparado dentro do peito e uma

confusão de informações desencontradas começa a se formar na minha


mente.

— Ele te ameaçou para fazer isso? — pergunto, porque,


tratando-se do Gabriel, não seria nenhuma surpresa.

— Não, Lu. Ele apenas pediu, depois de ter explicado os


motivos que o levaram a optar pela separação.
— Motivos? — pergunto, estranhando a conversa, porque, para
mim, o único motivo que ele deu foi a falta de amor.

— Isso você terá que perguntar diretamente a ele, minha filha. É


um assunto que não cabe a mim.

— Mas estava dando notícias minhas ao meu ex-marido —


acuso e ele se entristece.

Sei que não estou sendo justa, porque apesar de ter cometido um
erro ao me espionar para o meu ex-marido, ele o faz para, de alguma forma,
me ajudar. Também estou certa de que só está contando por que o meu choro
de agora é uma reação ao encontro com o Gabriel e o preocupou ainda mais.

— Espero que me perdoe por mais esse erro — diz e vira as


costas para deixar o quarto.

— Pai, ele sabia da gravidez antes dessa noite?

— Não mencionei nada a respeito da sua gravidez — afirma.

— Por quê?

— A minha lealdade está com você e não com o pai do seu filho.
Sabia que não era o que você queria, então não falei.

— Eu amo o senhor — declaro, porque, apesar dos erros, foi o


meu porto seguro sempre que precisei.
— E eu a você, minha menina. — Com a voz embargada e sem
dizer mais nenhuma palavra, desliga a luz e deixa o quarto.

Sozinha, me jogo de costas na cama e a minha mente começa a


trabalhar, afastando qualquer possibilidade de dormir tão cedo. Nada
diferente do que fazia antes do meu pai entrar aqui, mas agora as ideias são
outras. Agora sei que ele se importa mais do que quis demonstrar. Que,

durante todos esses meses, soube de cada passo meu.

Com uma única informação, começo a sentir que ainda existe


algo pelo que lutar, que talvez Gabriel esteja escondendo alguma coisa de
mim.

Quando já estava cansada de criar teorias na minha mente e no


me coração, que são fracos por um certo loiro, mais uma das nossas
conversas me veio à mente. Mais especificamente, uma frase que ressoou
como música nos meus ouvidos, até eu adentrar no mundo dos sonhos.

Eu amo você, meu amor. No dia em que não estivermos mais


juntos, você se lembrará disso, não é mesmo?
Ao adentrar a sala da minha casa, que nunca me pareceu tão
vazia, depois que o furacão Luana Souto passou e tirou tudo do lugar, coloco
as chaves da casa e do carro em cima da mesa de centro, abro a garrafa de
vodca que está sobre ela e encho o copo. Depois acendo um cigarro e estou

terminando a minha noite da mesma forma que vem acontecendo nos últimos
meses: sozinho como sempre estivesse, só que pior, porque antes eu não tinha
conhecido a felicidade, eu não sabia o que era amar alguém mais do que a
minha miserável vida. Não sabia como era bom ter alguém para dividir os
meus dias.

Encontrei a minha mulher e ela está grávida.


A minha morena vai me dar um filho e isso mudou algo dentro
de mim. No momento em que senti a sua barriga durinha entre nós e

compreendi o que estava acontecendo com ela, tudo mudou. De repente, ela
já não era a única razão para que eu continuasse lutando para ter a minha vida
de volta. De repente, ficar longe dela se tornou mais difícil.

Naquele momento, enquanto a olhava e tentava matar pelo

menos um pouco da saudade que dia a após dia aumentava, aceitei que não
conseguiria mais ficar afastado. Que não suportaria ficar longe e não
acompanhar de perto a sua gravidez. Sentir e ver o meu filho crescendo
dentro da sua barriga.

Agora, tudo o que eu mais quero é ficar perto dela, voltar atrás e
remediar o erro que cometi ao tentar pensar no que seria melhor para a minha
mulher.

A noite de hoje me provou de várias formas e ainda não creio

que cheguei tão perto de cometer um crime, como aconteceu quando vi a


minha morena cercada, tendo os seus cabelos puxados por um garoto que
talvez não se importasse com o fato de ela estar grávida e a machucasse de
alguma forma.

Sei que teria matado aquele cara, estava fora de controle e


tomado pelo ódio. Eu o mataria e só não o fiz por causa da morena. As suas
palavras me despertaram e o meu amor por ela foi muito maior do que a raiva

que estava sentindo. Raiva que não era só dele. Estava com raiva do mundo,

de mim mesmo, dos meus erros que me fizeram mandá-la para longe.

Ela ter me lembrado do nosso amor e tudo o que vivemos me


trouxe um segundo de lucidez, mas foi o suficiente para soltar o desgraçado e
deixar que ele fugisse.

A sua voz me mostrou que eu tinha uma razão para estar lutando
e que nada faria sentido se eu fizesse uma besteira e fosse preso. Aí, sim, eu
estaria perdendo-a para sempre. E eu não quero perdê-la para sempre. Tudo o
que faço é para vê-la bem e não para lhe trazer mais desgosto. Faço para ser
merecedor do seu amor e não para lhe dar mais motivos para me odiar.

O dia de hoje pareceu mais difícil do que qualquer outro, tanto


que, em um momento de fraqueza, peguei as chaves do meu carro e fui parar
no lugar onde eu nunca mais deveria colocar os pés. Um lugar perigoso

demais para um ex-viciado. Ir lá foi como rir na cara do perigo, arriscar me


afundar ainda mais do que eu já estava.

Foi para isso que eu fui, não posso negar o fato. Quando tudo
pareceu pesado demais, o desejo de recorrer aos velhos vícios foi maior do
que a minha força de vontade. Eu fui e tive um encontro com o passado.

Vi a minha mulher precisando de mim e não pensei antes de ir


ao seu encontro. Vê-la hoje foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido,
porque me fez enxergar que vale a pena seguir em frente.

Deu-me mais uma razão para arrumar a bagunça que eu mesmo


fiz, mas agora tudo será diferente, eu tenho a necessidade de vê-la. De tocá-la
e protegê-la dentro dos meus braços. Ela e o nosso filho. Não quero fazer isso
de longe, preciso que estejam aqui comigo, onde eu tenho a certeza de que

estão bem.

Ao tomar tal decisão, não estou fazendo por outra razão que não
seja puro egoísmo. Senti que ela não estava bem quando pedi para que fosse
embora, que não sabia lidar bem com a situação que ainda não melhorou.
Mesmo sabendo de tudo isso, ainda quero trazê-la para perto de mim. Ela e o
meu filho.

Sei que preciso conversar com a minha mulher e espero que não
seja tarde demais, que entenda que não suporto mais ficar longe, que fui até

onde as minhas forças permitiram.

O que aconteceu hoje, depois da minha decisão de ir até o beco,


evidenciou que nada pode ser mais difícil do que suportar o silêncio dessa
casa. Dormir e acordar sem sentir o seu corpo. Não cozinhar mais para ela
aos finais de semana. Perder, mais do que já perdi, o crescimento do meu
bebê dentro da sua barriga.
Provavelmente, a morena deve estar me odiando ainda por ter
lhe virado as costas, por não ter conversado depois que descobri da gravidez

e tem toda a razão de estar se sentindo dessa forma. Deve acreditar que eu
não recebi bem a notícia e que estou rejeitando o nosso bebê, mas ela não
poderia estar mais errada.

Saber que serei pai de um filho da mulher que amo é a melhor

coisa que me aconteceu depois do meu casamento com a morena e eu preciso


ela que entenda isso.

Se reagi da forma como fiz, foi apenas por ter ficado confuso,
por precisar colocar os meus sentimentos e pensamentos em ordem, como
faço neste momento. Por não acreditar que, em uma noite na qual tantas
coisas aconteceram, descobri que a vida ainda pode ser generosa. Que o
nosso amor, que nasceu há tantos anos, está dando frutos.

Durante quase toda a noite, fico sentado no escuro, bebendo e

fumando, a minha mente fervilhando em pensamentos e o único que persiste


é o de que preciso trazer a minha grávida de volta para a nossa casa. Apenas
quando o dia já começava a amanhecer, me permito cochilar no sofá, mal
sabendo que o dia seguinte seria ainda mais agitado.
— O nome disso é falta de sexo, meu amigo. Eu imagino o
quanto deve estar com saudade da sua morena gostosa — Dom diz,
constatando o óbvio, não só no que diz respeito ao sexo.

Depois de ontem à noite, estou com uma puta de uma ressaca e


tudo o que eu não precisava era receber Dom e Lucas logo cedo, para uma
reunião que eu mesmo havia marcado.

Ontem eu matei um pouco da saudade que estava da minha


mulher e só quero pensar em uma forma de reconquistá-la, não falar de
negócios com os dois babacas.
— Esta casa parece tão vazia, é difícil não pensar na morena
quando estamos aqui — Lucas aponta e está certo.

A imagem do dia em que ela desceu as escadas para ir embora


está vívida na minha mente, como se tivesse acontecido ontem. Ela saiu e não
quis levar nada além do que trouxe quando nos casamos, nem mesmo as
coisas mais simples como roupas, joias e perfumes. Tudo está guardado

dentro do nosso quarto, lugar onde não tenho coragem de entrar desde o dia
em que ela se foi. Dentro dele creio que a sua presença é ainda mais forte do
que no resto da casa e, nos últimos meses, tudo do que eu precisava era
manter a minha sanidade mental.

— Não a chame de gostosa. Sugiro que tenha mais respeito, se


não quiser perder metade dos dentes. E você, Lucas, não tem que pensar nela
de nenhuma forma — falo sem a menor paciência ou humor para as gracinhas
dos dois.

— Cara, você tem estado insuportável nos últimos dias, muito


mais do que nos últimos meses — Lucas reclama. — Ainda não sei o que
estamos fazendo aqui, quando está claro que você quer ficar sozinho,
lambendo as próprias feridas e sentindo pena de si mesmo.

— Eu também não sei por que marquei essa reunião— devolvo,


seco. — Essa ressaca está me matando e não estou a fim de ver as suas caras
tão cedo. — Sou duro, porque o meu humor não me permite agir de outra

forma.

— Vá se foder, então! — Lucas, não pela primeira vez, perde a


paciência e se levanta do sofá onde há algum tempo estamos sentados,
tomando, ou pelo menos tentando tomar, algumas decisões de negócio. —
Cansei de você, cara.

— Está bem, vamos todos nos acalmar, agora não é o momento


para isso. — Do seu jeito brando de sempre, a Dom cabe o papel de acalmar
os ânimos quando eu e Lucas ficamos a ponto de nos atracarmos como dois
moleques raivosos.

Lucas, apesar de entender o meu mau-humor diante de tudo que


vem acontecendo com a minha vida, perde fácil a paciência quando me fecho
dentro de mim mesmo e os deixo de fora, quando a todo o momento mostram
que estão do meu lado, que nem por um minuto pensaram em me abandonar

quando as coisas ficaram difíceis.

Se tem uma única coisa boa em tudo isso, é perceber quem são
os amigos de verdade. Amigos do tipo que podemos contar não só nos
momentos bons, mas também nos ruins. Dom e Lucas não titubearam na hora
de fazer a escolha. Quiseram ficar, mesmo que às vezes eu os faça se
arrependerem de tal escolha.
— Está bem, perdoe-me, mas esta semana está sendo
especialmente difícil para mim — digo, não tendo revelado o quão difícil foi

o inesperado reencontro que tivemos ontem à noite. Sobre como eu reagi ao


vê-la a ponto de ser, de alguma forma, violada por moleques que estavam
chapados e não tinham nada a perder.

— Vamos ao que interessa? Precisamos resolver esta situação e

conter os danos para que assim esse cara volte a tomar banho.

Quando diz tomar banho, Lucas se refere ao fato de eu não


cortar o cabelo como fazia antes, não fazer a barba e por ter perdido uns bons
8kg. Para mim, cuidados com a aparência ficam em segundo plano,
considerando que tenho coisas mais importantes com o que me preocupar e,
além do mais, por que que isso importa, se a minha mulher não está aqui?

— Acham que já é o momento? A mídia ainda está no meu


pescoço como um sanguessuga. Não permitem que eu dê um passo sem que

seja filmado.

Quando a merda aconteceu e eu mesmo dei o que eles


procuravam, imaginava que seria desta forma, mas não que tomaria as
proporções que tomou.

Um dia, as portas do Sensations foram abertas para quem


quisesse ver e logo em seguida o cassino foi fechado em definitivo. A polícia
apreendeu todo o maquinário e, deste então, estou sendo investigado pela
prática da contravenção de jogos de azar. Todos os meus bens adquiridos

depois da abertura do Sensations estão na mira da justiça, com exceção do


espaço onde o cassino funcionava e a minha casa, bens que,
comprovadamente, foram adquiridos antes da inauguração do cassino.

Hoje os bens materiais não são o que mais importa para mim,

isso está bem claro, mas ainda resta algo do antigo Gabriel e não deixarei que
este erro determine a minha vida, tornando-me um fracassado.

Como forma de não enlouquecer e de passar o tempo até que a


poeira baixe, meus amigos e eu estamos nos reunindo para planejar a
reabertura do novo Sensations, algo que seja em grande estilo e tão atrativo
ao público quanto antes.

Estamos sendo minuciosos nos detalhes e como, provavelmente,


não terei tanto capital para investir, Dom, Lucas e eu decidimos que seremos

sócios com igual participação nos lucros, um negócio que, modéstia à parte,
tem tudo para ser bem-sucedido. Não tem como ser diferente tendo homens
como nós três à frente. Cada um com a sua especialidade, nós três
funcionamos como uma boa equipe por vários anos e será desta forma que
seguiremos.

— Acho que quatro meses é um tempo razoável — Dom


assevera.

— Em quatro meses, o meu filho estará nascendo, esqueçam

essa merda — aviso.

Meu filho, ainda é tão estranho falar isso. Estou feliz, mas a
ficha ainda não caiu por completo.

— Filho? E desde quando você tem filho? Só falta você nos


dizer que andou comendo por fora enquanto ainda estava casado com o gost...
com a Luana. — Lucas brinca, mesmo supresso, porque não seria ele senão o
fizesse.

Dom, sempre observador, não diz nada e espera pela minha


resposta.

— Luana está grávida e imagino que o bebê não deve demorar a


nascer — digo, cheio de orgulho. A barriga dela já está despontando, o que
me faz perguntar como não percebi logo de cara, mesmo que o seu vestido

solto estivesse escondendo-a.

— E você só está nos contando isso agora? — Dom estranha o


fato, já que eles, além de serem os meus parceiros nos negócios, também têm
sido os meus ouvidos. Sabem de tudo o que aconteceu entre a mim e Luana e
não me julgam porque, levando a mesma vida que eu levava, talvez fizessem
o mesmo que eu, caso um dia fosse necessário.
— Eu não sabia. Ontem eu a encontrei e descobri por mim
mesmo — afirmo, ainda um pouco chateado com a constatação de que ela

seria capaz de nunca me contar que nós temos um filho ou filha a caminho.

Sei que pisei na bola com as palavras que usei e que a magoei
muito, mas isso não significa que consiga me sentir de outra forma.

— Aposto que o encontro acabou em sexo suado e sujo — com a

sobrancelha arqueada, jurando que me conhece melhor do que pensa, Dom


provoca.

— Quem me dera... — deixo escapar porque uma noite com a


minha morena gostosa era tudo o que eu mais queria.

Desejava comê-la quase com a mesmo intensidade do medo que


tinha de que ela seguisse em frente. Fui eu quem a mandou embora com
palavras duras e o meu castigo foi passar os dias com medo, pirando com a
ideia de que ela pudesse encontrar um novo cara. Que seguisse em frente,

como era um direito seu, já que em tese é uma mulher livre.

Pior era imaginar que esta pessoa poderia ser o pamonha do


Gustavo, o homem que foi o seu namorado e que claramente seria a pessoa
certa para ela, caso ela não fosse minha. A hipótese só não me fez
enlouquecer de ciúme porque o meu sogro me garantiu que nada estava
acontecendo entre eles e nem com qualquer outro homem. Soube de cada
acontecimento da vida da minha deusa e não sei ainda como me sinto com a
omissão do meu sogro.

O homem contou tudo, mas esqueceu de contar o mais


importante. Sabia o que eu tinha feito, da minha tentativa de protegê-la do
que estava por vir depois de ter percebido que não estava bem, mesmo que
tentasse ser forte e, ainda assim, não disse que a filha esperava um filho meu.

Uma descoberta que poderia mudar tudo, como acabou acontecendo. Teria
abreviado um sofrimento que já dura tanto tempo.

Júlio Aguiar foi desleal, mas não posso culpá-lo, apesar de estar
puto, pois, desta vez, pensou nos sentimentos e no bem-estar da filha em
primeiro lugar, algo que não fez quando a colocou em minhas mãos, há quase
um ano.

— Caramba, Gabriel, pare de viajar. Sei que acaba de saber que


será pai, mas você precisa reagir e não ficar com essa cara de quem está com

dor de barriga.

Lucas tem razão ao estar incomodado. Foi um erro ter insistido


nessa reunião, quando tudo o que eu quero é dar um jeito da minha vida
pessoal. Curar a ressaca e bolar um plano de conquista.

— Façam como vocês acharem melhor e depois me avisem. No


momento, eu realmente não estou com cabeça para isso — justifico,
enchendo mais uma vez o meu copo com suco, na esperança de curar mais
rápido a ressaca que tem deixado a minha cabeça pesada, como se uma escola

de samba estivesse desfilando dentro dela.

A verdade é que, com a tensão e todos os problemas, venho


bebendo mais do que o recomendado e fumado o dobro de cigarros que vinha
fumando desde o dia em que deixei a reabilitação. Apesar de ser pouco

recomendo para casos como o meu, acredito que seja a melhor saída,
considerando que é uma ótima válvula de escape para que eu não tenha uma
recaída, algo que quase aconteceu ontem à noite. Agora, mais do que nunca,
isso não pode acontecer, não quando tenho um filho a caminho e uma esposa
que pretendo fazer de tudo para ter de volta.

— Tudo bem, Romeu, deixemos essa reunião para outra hora.


Está estampado na sua cara que os seus pensamentos estão longe daqui —
Dom diz e os dois levantam-se do sofá maior.

Se eles soubessem de tudo o que a minha gata e eu já fizemos


em cima dele...

— Isso no seu rosto é um sorriso? Jurava que você não lembrava


mais como fazia isso — Lucas debocha.

— Está bem, idiota, chega disso. Vamos embora, deixe o outro


idiota sozinho para pensar em uma maneira de reconquistar a gostosona dele.
— Gostosona? Como ousa, caralho? — Vendo que não estou
para brincadeira, os provocadores dos infernos saem correndo em disparada

rumo à porta e, antes que eu os alcance, ela se fecha bem na minha cara.

Sozinho, subo para o quarto que venho ocupando nas últimas


semanas, tomo um banho gelado, com o intuito de esfriar a cabeça e resolvo
dar uma corrida pelos arredores. Com um fone no ouvido, corro até estar

pingando de suor, até o meu coração ficar disparado demais, quase a ponto
não conseguir respirar direito. De volta para casa, dou algumas braçadas na
piscina e saio, acreditando ter feito o suficiente para um único dia.

É dessa forma que tem acontecido desde o dia em que a minha


esposa foi embora. A exaustão tem me ajudado a seguir firme, pois somente
através dela e de um copo de cerveja, consigo deitar a cabeça no travesseiro e
apagar por pelo menos algumas horas. Não é suficiente, mas é o mínimo para
que eu possa manter a minha mente funcionando. Especialmente hoje, nada

tem dado certo: a a bebida, os cigarros, falar de negócios com os meus


amigos e muito menos a corrida.

Sinto-me especialmente destruído e a sensação de que estou


perdendo Luana é muito forte. Na minha cabeça, vem o questionamento se
realmente fiz a coisa certa ao mandá-la para longe e se é certo desejar tê-la de
volta quando o mundo à minha volta ainda parece tão nebuloso e o futuro,
incerto.
Quando percebo que não conseguirei parar de pensar nela, vou
para o lugar onde há semanas não piso os pés. O quarto está envolto em

silêncio e escuridão, mas isso não é capaz de amenizar a sua forte presença
dentro dele. Ainda posso sentir o cheiro do seu perfume e, quando dou por
mim, estou indo para o closet em busca de mais migalhas.

Assim que abro, dou de cara com algumas peças de roupas,

todas presentes meus, por isso ela não levou. Uma camisola muito sexy de
cetim preto chama a minha atenção, pego-a entre os meus dedos e, em
seguida, a levo ao nariz.

No mesmo instante, sou atingido por um misto de sentimentos,


principalmente a nostalgia pelo tempo em que era feliz, de uma maneira que
não sabia ser possível e que a vida nunca havia me permitido ser.

— Amor...

— Gabriel!

Como se tivesse aqui dentro, junto comigo, ouço a voz doce da


minha esposa e, desta vez, não resta dúvida de que estou enlouquecendo.
Bastou apenas uma noite. Uma noite inteira tentando me acalmar
e compreender que merda passa pela cabeça do Gabriel para fazer uma
bagunça tão grande com a própria vida e com a minha — por tabela. Depois
ter me chutado para longe, descobri através do meu pai que ele, em todo esse

tempo, esteve a par de quase tudo que aconteceu comigo. A minha rotina, os
dias que estou mais alegre e os que acordo querendo sumir, como aconteceu
no dia do nosso encontro.

Ele sabe de tudo!

Na minha cabeça, agora tudo parece fazer um estranho sentido.


A sua assustadora falta de consideração finalmente é explicada, porque eu
não conseguia entender como poderia ter sumido tão rápido e completamente

da minha vida, mesmo tendo dito com todas as letras que não tinha chegado a

me amar. Na minha cabeça, não fazia sentido, porque, mesmo se fosse só


pelo sexo, nós tínhamos passado meses casados, dividindo não só a mesma
cama, como também refeições e tudo mais que um casal normal faz na rotina
do dia a dia. Eu não aceitava que ele não se importasse nem um pouco
comigo. Que não se desse ao trabalho de mandar uma mensagem

perguntando se eu estava viva.

Agora sei que não mandava porque não precisava, tinha outra
pessoa falando em meu nome.

Apesar de ontem à noite o meu coração traidor não ter


conseguido sentir mais do que alegria e alívio por perceber que Gabriel ainda
se importava, agora sinto-me levemente frustrada e bastante irritada. A raiva
me consumiu durante todo a noite, porque não posso me sentir de outra forma

quando percebo que ele usou o meu pai para ter notícias minhas, mas não
teve coragem de aparecer ou de pegar o telefone e ligar diretamente para
mim.

Depois de muito quebrar a cabeça com tentativas de entender ou


arrumar justificativas para as atitudes do meu marido, percebi que eu não
conseguiria nada além de enlouquecer e então decidi que era o momento de
tirar aquela história a limpo. De conversar com o loiro e tentar entender o que
pretendia, ou pelo menos fazer do com que me diga o que pensa da minha

gravidez. O que pensa fazer a respeito, porque uma coisa era ele não saber
que seria pai, outra é estar ciente e virar as costas para a sua responsabilidade,
como deu a entender que faria, quando foi embora ontem à noite.

Gabriel será pai e, mesmo que não queria ficar comigo, terá que

lidar com a realidade, é justamente isso que estou indo jogar na sua cara.

É disso que tento me convencer, apenas para não admitir a


minha paixão pelo homem me deixou cheia de esperança de que ainda me
ama e que eu espero que tenha alguma explicação para o que está
acontecendo com a gente.

A viagem de táxi foi tranquila, quem não estavam tranquilas


eram as batidas do meu coração. O nervosismo de voltar para casa. Sim,
minha casa, porque ainda sou a senhora Souto e serei até o dia em que

assinarmos os papéis do divórcio, que ele não fez questão de dar entrada.

Da forma como ele sumiu, fiquei esperando receber tais papéis a


qualquer hora, mas felizmente isso nunca aconteceu, porque aí sim, a nossa
separação seria definitiva.

Assim que entro na propriedade na qual cheguei a pensar que


nunca mais fosse colocar os pés, uma onda de saudade invade o meu peito.
Aqui onde fui feliz, me sentia bem e que em pouco tempo se tornou o meu
verdadeiro lar.

Olho para a piscina, lugar onde costumávamos fazer amor aos


fins de semana, dias em que a nossa única preocupação era nos divertirmos e
a ideia de diversão do Gabriel, na maior parte do tempo, não incluía roupas.

Suas mãos pareciam ter dificuldade de se manterem afastadas do

meu corpo e isso, para uma pessoa que no passado teve problema de
autoestima, chegava a ser surpreendente.

Na sala, o sofá tem muitas histórias para contar, sobre ele nós
passamos algumas horas namorando despreocupadamente, mas era na
cozinha que aconteciam os nossos momentos de maior intimidade, tanto que,
nos primeiros dias depois da nossa separação, foi difícil me acostumar com o
fato de não tê-lo sem camisa, preparando o meu café da manhã. Mesmo
estando com muita raiva dele, simplesmente não conseguia parar de sentir

falta da casa e nem das pequenas coisas que fazíamos juntos.

Enquanto subo as escadas, volto novamente o meu olhar para a


sala e até o que posso alcançar da cozinha e então me surpreendo por
perceber que ele não mudou nada, tudo está como era antes de nos
separarmos. Dei meus toques pessoais por toda a propriedade e tudo continua
igual.
No corredor que leva para o nosso quarto, fico incerta se devo ou
não entrar no cômodo que tem muito dele, onde, noite após noite, Gabriel

declarou o seu amor de mentira. Mais alguns passos adiante, noto a porta
entreaberta, chego até ela e então termino de abri-la por completo.

Gabriel está parado de frente para o closet e de costas para a


porta. Ele leva algo que não consigo ver ao rosto e, em seguida, sussurra:

Amor.

Amor?

Meu coração começa a bater acelerado e então cresce a ilusão de


que eu seja o amor a que ele se refere.

— Gabriel! — chamo em um fio de voz.

Quando ele se vira na minha direção, meus olhos vão direto para
as suas mãos e nelas há um pedaço de tecido preto de cetim.

A minha camisola. Gabriel estava cheirando a vestimenta que ele


me deu de presente, uma das minhas peças preferidas. Gostava de usar, pois,
além de ser belíssima, fazia com que eu me sentisse bem e, principalmente,
muito sexy, considerando o olhar faminto dele sempre que me via com a
peça.

— O que você está fazendo aqui? — pergunta ao virar-se de


costas novamente, colocar a peça dentro do closet e fechar as portas. —
Quem te trouxe? Você está bem? — Gabriel parece apavorado ao inspecionar

o meu corpo de cima a baixo, parecendo preocupado com o bebê.

— Você sabe muito bem o que eu estou fazendo aqui. Não me


faça de idiota, Gabriel, não mais do que já fez — aviso, ao fechar a porta.
Não só fechar, eu a tranco com a chave e a guarda no bolso do meu short de
malha.

— Luana, por favor...

— Você vai deixar de agir como um covarde e me falar o que


realmente está acontecendo? Não acha que já brincou demais com a minha
vida?

Enquanto falo, ele dá passos incertos na minha direção, parando


quando está a um braço de distância de tocar o meu corpo. Como de costume,
seu cheiro me deixa inebriada e então preciso fazer um esforço a mais para
pensar em algo que não seja a atração latente que paira no ar. O loiro, apesar

de estar com aparência cansada, com cabelo e barba crescidos, continua tão
lindo quanto sempre foi, senão estiver mais. O fato de ter perdido algum peso
definiu melhor os seus músculos e, apesar dos assuntos mais urgentes a serem
tratados, a minha vagina pisca com vontade de tocar e ser tocada por esse
homem.

Ai, Luana! Quando você deixará de ser uma piada?


— Falarei assim que você deixar de arrancar a minha roupa com
os olhos — provoca e, por alguns segundos, fica a sensação de que estou na

frente do antigo Gabriel, pelo menos quem eu achei que ele fosse, antes de
negar o nosso amor. — Imagino que esteja sendo difícil lidar com os
hormônios da gravidez. Vi em algum lugar que as gestantes ficam com a
libido nas alturas. Imagino o tesão que...

— Pode deixar que dessa parte eu mesma cuido — corto, porque


só o fato de falar sobre o assunto já me deixa quente, cheia de vontade de
rasgar as suas roupas neste exato minuto, deixando de lado a conversa que
precisamos ter.

— Para mim não seria o menor problema fazer algo pela mãe do
meu filho — provoca e parece diferente, até a sua aparência está mais
saudável do que estava ontem no beco. Parece mais leve. — Será um prazer
poder te ajudar de alguma forma. — Ele elimina a distância que ainda existia

entre nós dois e eu caminho para trás, pois não estou com forças para resistir
à sua respiração perto da minha.

Aquele comportamento não era o que eu esperava. Confesso que


vim até aqui não apenas atrás de respostas, mas esperando também uma
reconciliação. Sim, eu sei que deveria ter mais amor-próprio, mas não é fácil
calar o amor que transborda em meu peito. Mas vê-lo assim, tão debochado e
reduzindo tudo o que vivemos a sexo, me machuca demais. Antes que eu seja
capaz de impedir, as palavras cruéis de Sabrina ecoam na minha mente:

Pobre tola, você se olha no espelho? Acha mesmo que um


homem como Gabriel levaria a sério uma mulher como você? Se enxergue,
garota! Você pode até ser bonita, mas está acima do peso e é apenas por
esse motivo que ele se interessou por você. É diferente de todas as outras e

ele viu em você a oportunidade de se casar com uma garota comum.

E para fazer companhia ao veneno de Sabrina, o desprezo de


Gabriel também se faz presente:

“Ela estava certa quando disse que eu estava tão louco por você
apenas pela novidade você representava. Uma mulher tão diferente das
modelos com quem eu costumava sair. Não nego que você seja uma baita de
uma gostosa, mas é só isso mesmo. Não estou disposto a ficar casado com
alguém como você.”

De novo, aquelas palavras me ferem, machucam minha alma,


arrasam com meu coração. Como pude ser tão idiota para me iludir mais uma
vez depois de tudo que ele fez e falou?

— Gabriel, você é um babaca. Como tem coragem de... —


começo, mas as palavras fogem, tamanha é a raiva que nubla os meus
pensamentos.
A sua atitude foi a gota d’agua, ela faz com que uma barreira
seja rompida e eu simplesmente não consigo mais me controlar. Jogo-me na

sua direção e começo a esmurrar a seu peito com toda a força que tenho.

São tantos sentimentos misturados, a frustração, a dor, a tristeza,


o cansaço. Principalmente o cansaço. Sinto-me cansada de ter Gabriel
brincando com a minha cabeça, fazendo-me duvidar a todo o momento das

minhas próprias percepções. Já não sei mais o que pensar, se alguma coisa foi
real em toda essa história. Cheguei cheia de certezas, mas...

— Eu estou com tanta raiva de você, Gabriel! — Eu o esmurro


outra vez. — Você foi o pior marido que já existiu sobre a face da terra —
Mais socos e ele não ousa se mexer, nem mesmo para se defender. — Queria
nunca ter te conhecido. Espero que passe o resto dos seus dias sozinho, pois é
isso que você merece.

Já suando, continuo a bater nele e nunca parece ser o suficiente.

Nunca será, não perto do que ele tem me feito passar. Não por todo o meu
sofrimento. Não depois de ter me tocado de uma forma que deixou a sua
marca gravada na minha pele.

— Desgraçado! Eu nunca vou te perdoar por...

Meus braços já estão enfraquecidos e minha visão está turva —


não sei se por culpa das lágrimas. Quero continuar a machucá-lo, feri-lo
como ele me feriu, mas Gabriel finalmente reage e segura meus pulsos. Ele
toma o meu corpo trêmulo e fraco para si e, antes que eu caia na mais

completa escuridão, ainda o ouço dizer:

— Já chega, morena. Foi o suficiente.

Lentamente meus olhos começam a se abrir, sinto que a minha


mente ainda está confusa e a luz do lugar, ainda que seja pouca, incomoda
bastante a minha vista.

— O meu bebê...

Minhas mãos vão de imediato para a minha barriga e, antes que

tenha tempo de ficar preocupada demais, um homem que não conheço, diz:

— Está tudo bem, senhora Souto, foi apenas um susto —


Enquanto fala, observo ele guardar seus instrumentos dentro de uma pasta.

— Gabriel. — Viro a cabeça para o lado e ele está em silêncio,


encostado na parede que fica em frente à cama. Muito longe. Nos seus olhos,
vejo a culpa e outros sentimentos que prefiro não classificar.
— Estou aqui — Aproxima-se, permitindo que eu o veja melhor.

— Deu um susto e tanto no seu marido. Ele ligou desesperado.


Mas não se preocupem, está tudo bem com a mãe e com o bebê. Foi apenas
uma queda de pressão. Nesta fase da gravidez, é importante que a senhora
não tenha fortes emoções ou algo que lhe cause muito estresse — fala
diretamente para Gabriel e ele apenas concorda com a cabeça.

— Obrigado por ter vindo, Doutor. Eu vou acompanhá-lo até a


porta — diz e eles saem, deixando-me sozinha com os meus pensamentos.

Olho para o meu corpo coberto até altura da cintura por um pano
fino e então me dou conta de onde estou. Novamente na minha cama, lugar
que ainda tem o nosso cheiro impregnado, fato que não deixa de ser estranho,
considerando que já se passaram muitos meses desde a última vez que estive
aqui.

Como um cachorro farejador, cheiro primeiro o meu travesseiro

e depois o dele. Levo-o ao nariz e meus olhos chegam a se fechar só pelo


prazer de estar novamente sentido o seu perfume.

— Está tudo bem? — Da porta, Gabriel indaga e jogo o


travesseiro longe, como se o objeto fosse uma batata quente.

— Tudo ótimo — afirmo com um sorriso forçado e que passa


longe do meu estado de espírito.
— Me perdoe por ter feito você passar mal — pede ao
aproximar-se e senta-se na ponta da cama, mas não perto o suficiente. —

Com os meus atos, cheguei perto de colocar a vida do nosso bebê em risco.

— A culpa não foi sua — afirmo.

— É claro que foi, você sabe disso.

— Tudo bem, a culpa foi sua. Se sente melhor? É disso que


precisa?

— Na verdade, não. Eu só estou cansado disso tudo — confessa


e nem precisaria dizer, pois a palavra cansaço está estampada bem no meio da
sua testa. Resta somente ele dizer os motivos desse cansaço. — Sinto tanto a
sua falta.

— Não consigo entender você, Gabriel.

— Estas têm sido as piores semanas da minha vida e eu posso te

garantir que já tive muitos dias ruins.

— Converse comigo, por favor? — Mais uma vez peço que faça
o mínimo.

— Eu não quero conversar, não neste momento quando as


palavras nunca serão suficientes para mostrar tudo o que sinto. Os
sentimentos que vêm me sufocando, dia após dia, e que já não cabem dentro
do meu peito. Eu cheguei ao meu limite, Luana.

Na minha frente, finalmente vejo o Gabriel que conheci e amei.


Agora ele se mostra despido de qualquer máscara. Seus olhos parecem
vulneráveis e preciso de muita força de vontade não o puxar para os meus
braços e abraçá-lo apertado. Não só abraçar, mas fazer o necessário para
aplacar a saudade que jamais pude negar. Saudade de pequenas coisas e que

meia dúzia de crueldades não foram capazes de apagar.

— Me fale do que você precisa, Gabriel. O que tem te


atormentado para que tenha no rosto a expressão de quem está carregando o
peso do mundo nas costas? — Sei que motivos não faltam, mas por outro
lado não posso acreditar que tudo isso seja culpa dos problemas com o
Sensations. Tem que existir mais.

Talvez não exista e seja a minha mente pregando-me uma peça,


fazendo com que eu dê a mim mesma a importância que ele já disse que não

tenho na sua vida.

— Preciso de você, Luana Souto. Não quero falar desse assunto


agora, mas eu quero que saiba que eu vivo por você. Sinto a sua falta em cada
segundo dos meus dias. Durmo e acordo pensando em você. Estou
gravemente doente e você é a minha salvação, não existe outra cura. Apenas
você — Atropelando as palavras, não parando nem para tomar fôlego,
Gabriel parece ter deixado que uma barreira se rompesse e tudo que diz deixa
o meu coração indeciso entre disparar ou parar de bater de uma vez. É muito

confuso, é contraditório, mas ainda assim não deixa te ser tudo o que eu
desejei ouvir. — Preciso de você, meu amor, mais do que preciso da minha
próxima respiração.

— Eu estou aqui — Afastando as minhas costas da cabeceira da

cama, arrasto-me até onde ele está, acaricio a barba macia e sou invadida pela
sensação de estar novamente em casa.

Sempre vi meu marido como sendo a minha casa, os seus braços


eram o meu verdadeiro lar e, pelo que parece, os meses de distância não
foram capazes de apagar da minha mente essa ideia romântica. Chega a ser
engraçado como no início eu o associei ao diabo. Fiz porque, apesar de ser
lindo como um anjo, a sua personalidade em nada combinava com um ser
celestial. Agora, e durante todo o casamento, consegui mudar de ideia. Como

pensar de outra forma quando esse homem me enfeitiçou de tal forma que
simplesmente não posso deixar de amá-lo?

Nos momentos em que deveria desprezar até mesmo a sua


existência, ainda lamentava a forma como tudo entre nós havia terminado,
lamentava que tudo fosse apenas uma farsa para ele. Sofria pela saudade e,
principalmente, por nunca ter deixado de amá-lo com todas as minhas forças
e também fraquezas.

— Você precisa de respostas e eu vou dá-las, mas antes deixe


que eu te ame. Imploro, se for preciso, mas me deixe tocar em você. Preciso
crer que você é real, que está aqui. Que não é algo inventado pela minha
mente para me confortar em meio ao caos que a minha vida miserável se
transformou.

Completamente perturbado, Gabriel fala e não parece capaz de


se calar. Ouvindo e sem saber como ajudar, apenas continuo fazendo carinho
no seu rosto. Às vezes, como forma de reação, chega a inclinar o rosto em
direção à minha mão e para mim é difícil demais vê-lo dessa forma. Este não
é o meu Gabriel, não é o homem forte que toma tudo sem pedir. Que tinha
total controle sobre a sua vida e todos à sua volta.

Na minha frente, o homem parece estar se desfazendo e


deixando que a máscara caia por completo. Gabriel foi a primeira pessoa que

conheci e enxerguei como alguém inabalável e somente agora, vendo-o sem


máscaras, percebo o quão quebrado Gabriel Souto na verdade é. Foi forte a
vida toda, mesmo tendo passado por uma adolescência e início da vida adulta
extremamente difíceis e agora os erros vieram para cobrar o seu preço.

Apesar de não ter certeza de que estou fazendo a coisa certa e


correndo o risco de sair desse quarto mais destruída do que da última vez, não
posso agir de forma diferente. Não quero fazer de outra maneira, não quando
o amo mais do que pensei ser possível amar outro ser humano. Quebrado ou

não, tendo me amado com loucura ou me ferido mortalmente, esse na minha


frente é o meu garoto sofrido do capuz, o meu Gabriel. O único amor da
minha vida.

— Sou completamente sua, Gabriel — finalmente digo e os seus

olhos, que pareciam vazios, ainda que vidrados no meu rosto, de repente se
enchem de vida e interesse.

Agindo lentamente e prendendo o seu interesse durante todo o


processo, passo a abrir casa por casa dos pequenos botões da minha camisa
até chegar ao último. Quando termino de tirar a blusa, seus olhos caem
diretamente no meu sutiã vermelho. Por conta da gravidez, meus seios estão
maiores e mais pesados, Gabriel nota e não perde a chance de demonstrar.

— Estão lindos e bem maiores do que da última vez que os vi —

diz, quase como se tivesse medo de tocar, mas ainda assim não consegue
desviar o olhar. — Por causa do bebê?

— Sim, por causa do seu filho — digo, como se estivéssemos


bem com isso, quando na verdade nem conversamos a respeito.

— Você está mais linda a cada dia que passa — elogia e, sem
dizer mais nada, leva a mão à minha barriga, a acaricia com cuidado por
alguns minutos e depois pede: — Pode se deitar, por favor? Quero ver você.

Como Gabriel pede, arrasto-me até a altura da cabeceira e me


deito. Depois ele tira a camisa e vem para perto de mim.

Começa a beijar o meu pescoço, o canto da minha boca e,


quando passa para a boca, tenho a sensação de que meu sangue recebeu uma
injeção de ânimo. Tudo em mim se enche de calor e suas mãos parecem me

incendiar.

Emociono-me quando os seus olhos caem na minha barriga já


grandinha. Ele levanta a mão e a acaricia com devoção; então abaixa a cabeça
e a beija por todos os lados. Neste momento, me dou conta de que errei ao
achar que ele não tinha lidado tão bem com a notícia de que teremos um
bebê. Esse homem que está na minha frente, venerando a barriga onde gero o
bebê, ama e está feliz com a iminente paternidade. Não tenho dúvidas.

— Como eu senti falta do seu cheiro, morena... — afirma

quando, mais para baixo, os dedos atrevidos começam a entrar pelo elástico
do short de malha, o primeiro que vi e peguei dentro do guarda-roupa antes
de vir até aqui. Enquanto ele ameaça invadir a minha calcinha, por dentro, já
estou implorando para que o faça.

— Gabriel, será que você poderia... — interrompo-me, por não


ter coragem de pedir com todas as letras para ele me tocar onde mais
necessito neste momento.

— Se te tocar agora, será que estará molhadinha? — fala,


olhando meu rosto de perto e eu percebo que, mesmo passando por uma fase
difícil, ele não perdeu a capacidade de ser safado. Longe disso, a sua voz faz
mais pelo meu corpo do que todas as vezes em que tive que encontrar o meu
próprio alívio quanto estive longe e sozinha.

— Por que você não comprova por si mesmo? — insinuo-me


sem qualquer pudor.

— Safada!

— Você gosta — afirmo, vendo-o se levantar somente para tirar


o meu short. A calcinha ele deixa, pois sempre teve um prazer especial em
me ver vestindo somente essa peça.

— Muito, não faz ideia quanto — provoca e depois de se

levantar para terminar de tirar o resto das suas roupas, volta a pairar o corpo
sobre o meu e, aos poucos, vai descendo beijos pela minha barriga até
alcançar o início do meu sexo.

Gabriel leva o nariz até a parte da frente da minha calcinha, fica


ali por alguns segundos e, quando estou a ponto de implorar, ele enfim diz:

— Senti falta disso. O cheiro de mulher, da minha mulher — Por


fim tira a peça, mas antes de fazer o que eu desejo, preocupa-se em saber se
estou bem. — Tem certeza? Acabou de ter um desmaio. Está grávida e eu

jamais me perdoaria se fizesse algo para...

— Se acalme, homem, você ouviu o que médico falou. Foi só


um susto. Além disso, estou grávida e não doente. — Devo parecer
desesperada. — Para ser sincera, sexo é tudo em que tenho pensado durante
as noites insones.

— Nós temos muitas coisas para conversar — fala, mas não


resiste a descer o rosto até bem próximo do meu sexo úmido de desejo. Tão
próximo que posso sentir a sua respiração.

— Só não vai ser nesse exato momento — digo.

— E nem nos próximos, depois desse. Agora eu só penso em


apagar o seu fogo alto.

Gabriel desce a boca até o meu sexo e, quando o toca, já estou

tão pronta que é preciso certo esforço para não gozar logo de cara. A mão vai
para o meu seio, bem mais sensível por causa da gravidez, é impossível não
puxar o seu cabelo, cumprido o bastante para que finalmente eu possa fazer
isso.

— Está se sentindo bem, gostosa? Por que você não goza para
mim?

Depois que fala, meu marido ou ex — ainda não sei classificar


— passa a usar o dedo e já não posso mais adiar o orgasmo que toma o meu

corpo. Depois de semanas, vem o alívio de verdade. Não proporcionado pelos

meus próprios dedos e sim pelos dedos e a boca do homem que sabe tocar
meu corpo como ninguém nunca soube.

Com meu corpo ainda sofrendo os tremores pelo ápice


alcançado, sinto quando se ajeita sobre mim e entre as minhas pernas, que se

abrem involuntariamente para recebê-lo. Percebendo o seu cuidado para não


colocar muito peso sobre o meu corpo, sinto a ponta grossa e dura do seu
sexo pincelar o meu e, olhando dentro dos seus olhos, vejo refletido neles
todos os sentimentos que por semanas me foram negados, sentimentos que no
momento não necessitam de palavras. Eu os vejo com clareza.

— Não quero palavras agora. Só preciso amar você.

— Está certo. No momento, elas não cabem entre nós —


assevero e sinto ele me penetrar por completo. Sinto-me tão bem, de uma

forma que há muito tempo não sentia.

Cheia dele por todos os lados. Com o seu pau investindo sem
parar e com um agonizante prazer no meu sexo. A boca que não deixa de me
beijar um segundo sequer, as mãos que passeiam e exploram todas as partes
do meu corpo e especialmente os olhos, esses não permitem que eu feche
meus. Ele parece ter a necessidade de me olhar para ter certeza de isso que
realmente está acontecendo.

De maneira lenta e torturante, Gabriel leva a transa até onde


pode, parece demora uma eternidade para ele conseguir alcançar o seu ápice
e, quando acontece, leva-me junto até a beira do penhasco para então
pularmos juntos.

Quando acaba, muito longe de qualquer um de nós estar

satisfeito, não nos atrevemos a falar nada, ficamos em silêncio, deitados lado
a lado e sabendo que entre nós, às vezes, as palavras podem estragar tudo.
Ficamos de mãos dadas até o momento de recomeçarmos tudo outra vez e
assim seguimos durante todo o dia.

Seja nos amando com carinho ou com paixão e loucura, o que


importa é que o dia termina diferente, sem o vazio das últimas semanas. Meu
corpo está satisfeito e, ainda que o coração não esteja, tenho a convicção de
que em breve estará, pois finalmente me dei conta de que o que nós vivemos

antes de eu ir embora não foi uma mentira.

Gabriel me ama.

Ele nunca deixou de me amar nem por um segundo, mas eu


ainda quero saber por que tentou me fazer acreditar no contrário.
Espreguiço quando a luz do sol entra pela janela, que cobre toda
uma parede e teve as suas cortinas arregaçadas. De maneira involuntária, a
minha mão se estende para o lado da cama onde Gabriel deveria estar deitado
e encontro-o vazio.

Devagar, me sento e me apoio na cabeceira. Olho em volta do


aposento e um sorriso se abre no meu rosto quando lembranças do dia
anterior enchem a minha mente. Gabriel e eu ficamos quase o tempo todo
namorando em silêncio e, quando parecia que não tínhamos mais energia
nem mesmo para respirarmos com mais força, ainda assim, preferimos
continuar. Agimos como se o mundo fosse acabar ontem mesmo e não
fossemos ter a chance de estarmos juntos novamente.

Agora que o dia amanheceu e a necessidade do corpo foi


saciada, um frio sobe pelo meu sangue. A insegurança de não saber como vai
ser a partir daqui, como Gabriel irá reagir e nem como eu mesma irei reagir
ao que ele tem a dizer. Se é que tem algo a dizer ou queira falar.

Ontem eu estava segura dos seus sentimentos, levando em conta

as reações e a forma como ele tocou o meu corpo com tamanha devoção. Mas
hoje eu só quero que tudo isso acabe, de uma forma ou de outra.

Levanto com a pretensão de ir atrás do Gabriel, seja lá onde tiver


se metido, mas logo me detenho ao perceber que estou nua. Olho para a cama
sem coragem de vestir todas as peças de roupas, mas o dilema é rapidamente
resolvido quando, na ponta da cama, vejo uma de suas camisas. Não posso
negar que esse é um bom sinal, pois é fato que Gabriel adora quando visto
uma de suas camisas e deixar uma delas sobre a cama era algo que costumava

fazer quando, nos finais de semana, ficávamos em casa.

Depois de — cheia de pressa — terminar de fazer a minha


higiene pessoal e prender a juba no alto da cabeça, não resisto e vou até a
janela, apreciar a bela visão do jardim e da piscina. Enquanto faço isso, tento
me convencer de que não vesti a camisa e nem prendi o cabelo para agradá-
lo.
— Bom, Luana, as coisas poderiam ser bem piores. Você
poderia estar sem calcinha também — divertida, digo a mim mesma em voz

alta, o que não deveria estar acontecendo.

Gabriel não merece nada disso, é uma pena que ontem — mais
de uma vez — eu tenha dado o que ele mais queria. Foi tão fácil e, a meu
favor, conta apenas o fato de que era o que eu estava precisando,

considerando que é difícil lidar com os hormônios da gravidez. Estava na


seca havia tantos meses, tinha uma necessidade que só ele poderia satisfazer.

Não que a minha necessidade de transar tenha sido única e


exclusivamente por conta dos hormônios. Eu estava com muita saudade. Ele
costumava me chamar de safada e creio que um apelido jamais foi tão
apropriado para alguém quanto esse é para mim, considerando que, ao invés
de passar os dias desejando comer coisas exóticas ou tendo qualquer outro
desejo de grávida, passo o tempo desejando transar com o Gabriel.

— Que belos pensamentos para se ter de manhã cedo, Luana.


Uau!

Da janela, ao invés de apreciar o jardim, sou surpreendida por


um homem muito gostoso dando vigorosas braçadas na piscina. Ele, apesar
de mais magro, está mais lindo do nunca e só a visão das suas costas faz com
que certa parte da minha anatomia pulse e não estou falando do coração.
Do lado, onde há uma espreguiçadeira, vejo que tem uma
bandeja com tudo o que eu gosto de comer pela manhã, o que deixa clara a

sua intenção. Na hora em que volto a minha atenção para ele, Gabriel tem a
cabeça erguida, está olhando diretamente para mim e, com a mão, pede para
que eu desça.

No momento em que desço as escadas, existem duas partes da

minha anatomia que pulsam: a minha vagina, cheia de expectativa para ver de
perto o homem só de sunga, e também o meu coração, que está batendo mais
forte que a bateria de uma escola de samba. Mesmo calejado, ele ainda
acredita que tudo voltará ao seu devido lugar.

— Bom dia, dormiu bem? — Enquanto a observo se


aproximando da beira da piscina, cumprimento-a e aproveito para sair de
dentro da água. Em seguida, pego a toalha que estava sobre uma das
espreguiçadeiras, coloco-a sobre os meus ombros e, antes que tenha a chance
de dizer qualquer coisa, puxo seu corpo para o meu. O beijo não é nada casto
para o horário, mas o faço porque preciso disso e tenho que fazê-lo antes que
ela me mate ou saia correndo para nunca mais voltar.
Assim que a solto, ela dar um passo para trás e diz:

— Acho melhor não fazermos mais isso por enquanto.


Precisamos conversar.

Concordo com ela. Era para termos feito isso ontem, mas a
saudade e o cansaço não me permitiram fazer o correto. Só pensei em aliviar
um pouco da saudade que estava sentido dela. Quis tocá-la quando percebi

que não era fruto de um delírio. Naquele momento, no instante em que levei a
peça ao nariz e o seu cheiro invadiu a minha alma e a minha mente, a decisão
foi tomada.

Mais uma vez, reafirmo o meu desejo de reconstruir a relação


que, na tentativa de protegê-la, acabei destruindo. Preciso fazê-la acreditar
que nada do que foi dito 5 meses atrás chegou perto de ser verdade.

— Eu preciso saber se ontem foi apenas sexo.

— Você sabe bem que não foi só sexo, morena. Não rebaixe
dessa forma o que temos — digo, sabendo que, no mínimo, estou sendo
contraditório, já que, com a minha falta de tato e minha inabilidade com as
palavras, a fiz acreditar que a queria apenas para isso, quando na verdade
meu coração pulava de alegria com o seu retorno, mesmo que não fosse
definitivo.

— E o que nós temos Gabriel? — pergunta, com as duas mãos


na cintura, deixando claro para mim que não se dobrará com tanta facilidade.

— No momento, eu só quero que você sente comigo e tome o


seu café da manhã. Já passou do horário e o bebê não pode...

— Então você se preocupa mesmo com ele. Na outra noite, você


não esboçou reação alguma ao saber a verdade. Parecia até que nem o queria.
— Eu sei que as minhas atitudes a magoaram, mas está difícil pensar nisso

quando ela parece querer dificultar a minha vida.

— Você me pegou de surpresa. Eu não sabia o que dizer, era


muita coisa para lidar e eu ainda tenho muita coisa para lhe dizer, mas, por
favor, sente-se e coma — falo, completamente ciente de que a magoei com o
meu comportamento.

— Tudo bem, vamos tomar café. Estou faminta — avisa,


pegando a bandeja com pães, frutas e sucos para levá-la até a mesa com
guarda-sol.

— Imagino que esteja mesmo — insinuo e ela tenta esconder a


risadinha, mas não consegue.

Mesmo que agora esteja cautelosa, Luana não pode negar que o
dia de ontem foi uma loucura. Dois corpos famintos que se reencontraram e
mataram a saudade de semanas. Ontem eu me senti vivo e feliz pela primeira
vez em muito tempo. Hoje eu acordei com a sensação de que os problemas
deixaram de existir, ainda que sabia que eles estão do lado de fora da casa, à
minha espera. Todavia, nenhum deles é maior do que o prazer de estar com a

minha mulher, com a pessoa capaz de me tornar-me fraco e forte ao mesmo


tempo.

Mesmo que eu já soubesse, depois de ontem ficou ainda mais


claro para mim que o que me nocauteou, a ponto me deixar prostrado e

aparentemente sem saída, não foram os problemas em si, mas sim o fato de
estar passando por tudo sem tê-la ao meu lado. Estive sem a minha mulher
porque acreditei que ficar longe de mim era o melhor para ela. Não o melhor
para mim, pelo contrário, pensei apenas nela.

Por vários anos, a mídia me pintou como um homem inatingível


e eu até mesmo cheguei a pensar assim. Era aquele que dificilmente sofreria
algum arranhão na sua armadura. Depois da Luana, principalmente, agora
aprendi que não existem pessoas inatingíveis e, se antes não percebi, foi

apenas por não ter sido colocado à prova. Agora eu sei que não existem
homens inatingíveis quando existe o risco de perder tudo o que mais se preza
na vida.

O poder e o dinheiro.

A minha mulher e o meu filho.

Prioridades de quem fui e de quem sou agora. Uma coisa levou a


outra, mas somente duas delas me importam hoje e acredito que assim será
para sempre.

Perdido nos meus próprios pensamentos, durante a refeição não


abro a boca ou olho para Luana. Tão pouco consigo comer direito, pois na
minha cabeça, tento de todas as formas encontrar uma maneira de começar a
conversar com a morena de um modo que não piore o que já está ruim. E

mesmo sem olhá-la, sei o quanto ela está ansiosa pelas minhas explicações.

— Gabriel. — A voz incerta dela me chama, olho diretamente


para o seu rosto e percebo que está sem graça por algum motivo. — Não vai
mais comer? — No momento, olha para o meu prato e está quase caindo de
boca em cima dele. — Comeu pouco e eu...

— Quer comer a minha parte? — indago divertido e ela diz um


tímido sim. — Pode comer tudo que você quiser, precisa mesmo se alimentar
bem, ainda mais depois de ontem.

— Vai mesmo ficar relembrando isso a cada segundo do dia? —


indaga, falando com a boca cheia de pão doce.

— Depende. Se você estiver aqui, vou relembrar com a sua


ajuda. Se estiver a fim, é claro. Se for embora, terei que fazer isso embaixo
do chuveiro — afirmo e a faço cuspir o suco que levava à boca, tamanha é a
sua surpresa.
Olhando-a como se não tivesse acabado de insinuar uma futura
masturbação em sua homenagem, vejo o momento em que minha gata desiste

de comer e devolve o copo para a bandeja. Pega o guardanapo de cima da


mesa e limpa a boca. Depois de descartá-lo, ajeita sua posição e estou certo
de que chegou o momento de recomeçarmos tudo outra vez.

— Quando foi que você começou a ser tão engraçadinho assim?

Pela última lembrança que tenho de nós dois, você estava falando sobre o
quanto fui tola em acreditar no seu amor. Não sei se crueldade combina com
esse bom humor.

— Sei que fui cruel, acredite, aquelas palavras me machucaram


também, foi difícil dizê-las, mas eu precisava. E desde aquele dia tenho
vivido um inferno sem você. Quando fui ao nosso quarto, depois de meses
sem conseguir fazê-lo, entrei lá porque já não aguentava mais de tanta
saudade. Precisava sentir o seu cheiro, reafirmar para mim mesmo que tinha

tomado a decisão correta.

— O que você fez, Gabriel? — Já mais carinhosa, ela acaricia o


meu rosto. — Por que, de repente, parece que tudo foi uma grande mentira?

— Nós vamos conversar e eu espero que você entenda as minhas


atitudes.

— Fale e deixe que eu decida o que fazer daqui para frente,


como agir depois dessa conversa. Sabe que me deve isso, não sabe?

— Eu sei e vou aceitar se achar que não pode me perdoar. —


Ainda que custe e doa muito falar isso, faço porque sei que não tenho outra
escolha. Eu tomei a minha decisão e agora é o momento da minha mulher
fazer a dela.

— Você pode começar, se quiser. Pergunte tudo o que estiver na

sua cabeça. Eu sei que tem muitas perguntas a fazer.

— Não tem ideia de quantas — afirma, enquanto estrala os


dedos, demostrando como está tensa.

— Pode começar.

— Você estava usando o meu pai para ter notícias minhas?


Desde quando?

— Desde o dia que você deixou esta casa — revelo.

— Como o meu pai entrou nessa história? Nem sabia que vocês
dois tinham se tornado amiguinhos. Ele me falou que tinha motivos, mas não
consigo imaginar quais sejam.

— Júlio sempre esteve a par de tudo que vou ter contar agora.
Ele precisava entender e me ajudar a não enlouquecer com esta separação.

— Significa que não queria se separar de mim? — pergunta e


parece estar insegura.

— Não nesta vida. Nunca nesta vida, meu amor.

— Eu sou o seu amor, não é? — A minha vontade no momento é


de deixar a conversa para outra hora e trazê-la para os meus braços.

— Muito. Meus amores, você e o nosso bebê.

— Como se sente sobre a gravidez? Você agiu de uma maneira


tão estranha lá no beco.

— Morena, este foi o melhor presente que você poderia me dar.


Me desculpe se não reagi bem, mas aconteceram muitas coisas naquele beco
e eu não conseguia racionar direito, mas saiba que sentir a sua barriga
naquela situação foi a melhor sensação da minha vida. Ali a minha vida
mudou. A minha cabeça mudou.

— Fico tão aliviada por ouvir isso, não suportaria viver em uma

realidade em que você desprezasse o nosso filho. Poderia até entender que
nunca tivesse me amado e que o nosso casamento tinha acabado, mas não
suportaria que este bebê nascesse sabendo que o pai dele não o queria.

— Eu não faria isso, morena. Sei o que é crescer sem o amor de


um pai e não condenaria o meu filho ao mesmo destino. Além disso, esse
bebê é também o seu filho, da mulher que eu amo.
— Quando será que isso aconteceu? Estive tomando
anticoncepcional e não lembro de ter esquecido algum dia.

— Não importa como aconteceu, Luana. Acho que nem se você


tentar, conseguirá descobrir, não com a quantidade de sexo que vínhamos
fazendo. Sexo gostoso e de qualidade.

Ela sorri e indago, curioso:

— Menino ou menina?

— Seu cúmplice não lhe deu essa informação? — Ela brinca


com o fato de o pai ter escondido por meses a sua gravidez, fazendo-me
acreditar que sabia de tudo, mas na verdade eu desconhecia o mais
importante.

— Curiosamente, aquele traidor escondeu a informação mais


importante de todas.

— Ele não faria isso comigo — garante. — E quanto ao sexo do


nosso filho, gostaria de dizer que sou uma dessas mulheres que preferem
descobrir apenas no momento do parto, mas a minha curiosidade falou mais
alto...

— Isso quer dizer? — Tão curioso quanto ela, a interrompo,


doido para saber mais sobre o meu moreninho ou moreninha. Quando suas
mãos pousam sobre a barriga saliente, o mundo se enche de cor e parece que
nada está fora de lugar.

— Eu não sei se você está merecendo essa informação, senhor


Gabriel Souto.

— O que eu tenho que fazer para que você me diga? — Sabendo


que ela está muito sensível, decido apelar e enfio a mão por dentro da minha
camisa, indo direto para os seus peitos que estão mais deliciosos ainda, agora

que estão mais cheios.

— É... menino! — Um toque e ela cedeu ao que eu queria.

Abro um sorriso de canto porque prevejo que seu período de


gestação será muito agitado e prazeroso.

Um garotão. Porra! Eu serei pai de um moleque!

— Morena, você é perfeita! — Muito contente, encho o seu


rosto de beijos, até que ela segura o meu com as duas mãos e me afasta.

— E se fosse menina?

— Eu ficaria com os cabelos brancos antes do tempo, porque


tenho certeza de que seria linda como a mãe.

— Seu bobo. — Ela sorri e eu não lembro de ter visto alguém


com o sorriso tão bonito quanto o dela.

Dentro dessa casa, no momento, eu tenho a minha mulher com o


nosso bebê na barriga e se a vida fosse fácil, ficaríamos aqui para sempre,

onde os problemas externos não nos alcançariam. Como não é possível,

busco as palavras corretas para explicar para Luana que tudo o que eu quis
foi protegê-la da merda que atingiu a minha vida.

— Gabriel... — começa, incerta, e sei que, apesar da conversa


bonita que estávamos tendo a respeito do nosso filho, o tema “separação”

ainda precisa ser tratado e não pode mais ser adiado.

— Pode falar, morena — incentivo, porque ela está visivelmente


nervosa.

— Se você diz que me ama tanto, por que falou coisa tão cruéis
e me expulsou da sua vida? Nada faz sentido na minha cabeça.

— Eu tentei proteger você. Acreditei que as minhas merdas não


te atingiriam, caso estivesse afastava de mim e eu sei que não atingiram. —
Quando termino de falar, Luana olha para mim com olhos cheios de horror.

— Como você teve coragem, Gabriel? — Ela se levanta,


obviamente, incapaz ficar perto de mim.

Imaginei que ela pudesse ter esse tipo de reação e não a julgo
por isso, pois de certa forma ela tem razões para não aceitar muito bem as
atitudes que tive de tomar.

Por um tempo e em total silêncio, ela fica de costas para mim.


Não faço ideia do que passa pela sua cabeça e, dentre todas as muitas

possibilidades, não creio na hipótese de ser algo que não termine com ela

indo embora e me odiando.

— Luana. — Aproximo-me para tocá-la e, no mesmo instante, a


gata selvagem não só repele o meu toque, como também desfere um tapa no
lado direito do meu rosto. Por reflexo, levo minha mão ao local ardido, tento

continuar a falar, mas a mulher está puta demais para permitir que isso
aconteça.

— Não pensou que eu tinha o direito de escolher? Que eu não


queria ser protegida?

— Amor, você não estava bem, lembra? Queria demonstrar uma


força que não tinha. Estava fraca e abatida, eu nunca tinha te visto daquela
forma e aquilo me assustou.

— Não me chame de amor — ela fala, sem se alterar dessa vez e

isso não é nada bom. Prefiro quando está nervosa e jogado acusações na
minha cara, porque sei que está sendo ela mesma e não tentando mascarar
sentimentos. — Já parou para pensar que naquela época eu já estava grávida?
Que todos os sinais que o meu corpo mandava não eram por causa dos
problemas que estávamos enfrentando?

— Eu não... — tento, mas não encontro palavras para me


justificar.

Entendi tudo errado e causei um sofrimento maior a nós dois.

— Venha aqui. Pense no bebê — peço, minha mulher olha para


a barriga e faz como peço, mas afasta a cadeira, tudo para não ficar muito
perto de mim.

— Tem ideia do quanto sofri por causa das coisas cruéis que eu
tive que ouvir em nome da sua ideia de proteção?

— Me perdoe, meu amor.

— Não existiu amante?

— Não existiu mais ninguém na minha vida depois que te


conheci — confesso.

— Sabrina?

— Era mentira.

— Por que não confiou em mim para contar o que estava


sentindo? Deveria ter confiado em mim o suficiente para chegar e perguntar o
que estava acontecendo. Será que o amor que diz sentir é tão fraco assim? —
questiona.

— Eu não tenho experiência com isso de confiar em pessoas.


Senti que tudo estava sendo pesado demais para você e não pensei duas vezes
antes de te poupar. Então se espera que eu tenha uma desculpa plausível,

além do que já falei, sinto desapontá-la. Não tenho justificativa, agora cabe a

você descobrir se será capaz de me perdoar um dia. Se ainda me ama a ponto


de passar por cima da mancha que eu causei no nosso relacionamento.

— Eu queria ter estado do seu lado — afirma, com a voz


magoada, esforçando-se para não chorar. Apesar de me amar, sei que ela

ama, Luana está muito chateada e eu daria qualquer coisa para poder abraçá-
la neste momento. Como poderia ser diferente se fui eu quem colocou a
tristeza no seu olhar? — Preferiria sofrer ao seu lado a chorar de saudade, de
decepção e por acreditar que tudo o que vivemos tinha sido uma mentira.

— Se deixar, eu vou passar o resto dos meus dias tentado te


recompensar por isso, morena. A minha vida ainda está uma bagunça, mas
isso não muda a decisão que eu já tinha tomado. Eu estava indo até você
implorar o seu perdão, se fosse preciso. Não estava mais aguentando ficar

longe. Isso estava me matando.

— Eu não...

— Te falar todas aquelas coisas foi a primeira atitude altruísta


que tive em toda uma vida, porque naquele momento pensei no melhor para
você, mesmo que por dentro estivesse destruído. Agora, mesmo que nada
tenha mudado, que ainda eu esteja com a vida de cabeça para baixo, não
tenho vergonha de admitir que mudei de ideia. Mudei porque não sou uma
pessoa altruísta. Não sou essa pessoa. Estou pensando em mim e no fato de

não querer ficar mais um dia sequer longe de você. Eu sou essa pessoa, bebê,
o homem que te quer aqui, mesmo que a sua vida se transforme em um
inferno.

— Amor, eu... — Neste momento, ela já chora de soluçar e sinto

vontade de tomá-la entre os meus braços, mas acredito que ainda não seja o
momento, não antes de nos acertamos de vez.

— Você e o bebê.

— Espere um pouco, Gabriel. Me diga quando foi que você


tomou a decisão de que não iríamos mais ficar separados? — pergunta e,
infelizmente, sei exatamente o que se passa na sua cabeça neste momento,
uma ideia completamente equivocada.

— Ontem à noite, quando cheguei em casa, depois do nosso

encontro.

— Gabriel... — diz, entre soluços — Você não me quer, só


deseja ficar perto do seu filho. Foi por causa dele que você... me disse todas
essas coisas...

— Não é nada disso, Luana. Por favor, me escute.

— Já entendi tudo. Você ficou com medo de que eles


descobrissem sobre o bebê e por isso me quer aqui.

— Esta conversa não vai nos levar a lugar nenhum — digo por
que sei que nada do que eu fale a fará pensar de outra forma. Está nervosa
demais para isso.

Realmente não estamos conseguindo nos entender e talvez seja


melhor não insistirmos para não piorar a situação.

— Vou pedir para o José te levar a casa do seu pai. Só tome


cuidado para não te verem, pois, se isso acontecer, eles tornarão a sua vida
um inferno — entristecido, aviso.

— Duvido muito que não tenham visto.

— Puta. Que. Pariu!

— Também não precisa se preocupar com isso.

— Não?

— Eu não pretendo ir para lugar nenhum, pelo menos, não hoje.


Aqui é a minha casa e eu só sairei quando achar que devo sair — afirma e
para mim está sendo impossível entendê-la.

Não sei o que tem em mente, mas, se quer me enlouquecer,


talvez não esteja longe de conseguir.

— Tudo bem, você está certa. Fique à vontade, na sua casa —


digo. — Vou subir e tomar uma ducha — aviso.

— Vá. Acho que preciso descansar um pouco. Vou me deitar lá


no sofá.

Subo para o quarto, enquanto tomo banho, meus pensamentos


não conseguem sair da sala, lugar onde a minha mulher provavelmente está
dormindo tranquilamente neste momento. Pela forma como está chateada e

acreditando que só a quero por causa do nosso filho, fiquei esperando que ela
fosse embora, mas, como não cansa de me surpreender, decidiu ficar.

Depois de todas as atitudes, palavras ditas e também as não


ditas, decidi que não farei mais nada. Minha cota de erros já extrapolou todos
os limites aceitáveis e até quando tento fazer o certo, acabo errando. Não me
arrependo de ter protegido Luana da tempestade que me pegou, meu único
arrependimento foi ter corrido o risco de perdê-la para sempre. O risco ainda
existe e só me resta esperar.

Sei que ela não quis conversar naquele momento e que precisa
de um tempo para pensar e tomar uma decisão. De qualquer forma, está nas
suas mãos colocar na balança o que é melhor para ela e o bebê, o que a fará
feliz. Se no momento ficar ao meu lado não for a sua escolha, aceitarei com
resignação, pois, apesar de ter conhecido o que era o amor apenas nos seus
braços, sei que se trata de liberdade, de escolha e não de prisão.
Minha mulher já sabe de todos os meus erros, conhece quem fui
e também quem me tornei. Se ela acreditar que ainda vale a pena me amar, a

sua resposta será o fim dos meus dias ruins, não tenho dúvida quantos a isso.
Será o recomeço, sem ameaças do passado querendo nos assombrar. Serei o
Gabriel sem segredos sujos e ela a minha pequena sereia. Basta que me
escolha.

— Apenas me escolha, meu amor.


Deus! Que cheirinho bom. Será que morri e estou em uma
espécie de paraíso gastronômico? É o que a minha mente grita no meio de
um sonho bom. Sim, é óbvio que só pode ser um sonho. Devo estar com
muita fome e a minha mente já começou a fantasiar com macarrão à

bolonhesa, com um queijinho ralado em cima.

— Acorde. — Ouço uma voz masculina distante e ela parece


meio rouca. Um tesão! — Você está babando, mulher. — É a voz do Gabriel.
Uma bela combinação: marcarão com tudo que tenho direito e um homem
gostoso para saciar a minha outra fome depois da refeição.

— Adivinhe só o que a Lury está preparando? Isso mesmo: o seu


amado macarrão à bolonhesa. — O gostoso me dá essa informação bem
baixinho, sussurrado ao meu ouvido. É certamente a coisa mais indecente que

alguém já me falou. — Macarrão! Marcarão!

— Marcarão! — De repente, já estou sentada, ereta sobre o sofá.


Olho para a frente e aqui está ele, agachado bem ao meu lado, gostoso como
sempre.

— Achei que estivesse sonhando — aviso, sem jeito, quando o


meu estômago denuncia o tamanho da minha fome. — Com marcarão.

— Que bom que está com fome, a Lury fez para você — avisa e
não deixo de me surpreender com o fato de a Lury ainda estar aqui na casa.
Pelo visto, Gabriel manteve as coisas iguais a quando eu morava aqui. Pelo
que percebi, nada mudou e isso certamente deve ter alguma relevância.

— Tudo o que eu poderia desejar — digo ao tentar puxar a barra


da sua camisa que ainda estou usando. Ela, apesar de servir como um vestido

para mim, não é tão comprida assim e, no momento, as minhas pernas estão
completamente à mostra.

Não que isso tenha alguma importância, considerando que


Gabriel não olhou nem de relance para elas. Algo fora do comum, pois ele
não tem o costume de disfarçar os seus olhares apreciativos para algumas
partes muito específicas do meu corpo.
— Agora eu vou deixar você em paz para que se alimente — diz,
levanta-se e simplesmente vai embora. Não faz um gesto de carinho e eu não

deveria sentir falta disso, não quando recebo o que procurei.

Assim que a porta do seu escritório se fecha, levanto-me e,


guiada pelo aroma de comida, vou para a cozinha. Quando Lury me vê na sua
frente, ela sorri e parece respirar aliviada.

— Que bom que está aqui, senhora.

— Que bom que sentiu minha falta, eu também senti saudades


de você e de todos dessa casa — afirmo.

— Falta nós sentimos, mas foi além de sentir falta, foi um


exercício de paciência não termos pedido demissão e deixado o senhor
Gabriel sozinho.

— Explique isso melhor, Lury — peço ao sentar-me à sua frente,


enquanto a observo servir o meu almoço.

— Esta quantidade está boa?

— Perfeito!

— Bom, é com todo o respeito que digo isso, mas Gabriel Souto
estava virado no cão. Ele estava constantemente de mau humor, não fazia
nenhuma questão de ser gentil ou educado com ninguém, nem mesmo com
José, que trabalha há tantos anos com ele.
— Eu imagino como deve ter sido difícil — digo. O Gabriel que
conheci era exatamente a pessoa que Lury está descrevendo e, de alguma

forma, tornou-se alguém muito diferente depois que passei a conhecê-lo e


entendê-lo melhor.

— Acho que ele sentiu muito a sua falta e não estava sabendo
lidar com isso. Eu sei que não é da minha conta os motivos que a fizeram ir

embora, mas, acredite, seu Gabriel é outra pessoa quando está com você.
Parece que perdeu o rumo quando a senhora se foi.

— Você acha? — indago, sentindo um frio na barriga ao ouvir


alguém que observa a situação de fora e sem interesse.

— Acredito piamente nisso — afirma. — Agora vou deixar a


senhora comer e aproveitar para dar um pulo no mercado, a dispensa está
quase vazia.

— Tudo bem.

Sozinha, devoro o macarrão como se não visse comida há algum


tempo. Enquanto como, pergunto-me se Gabriel já almoçou e o que ele está
fazendo trancado no escritório. Na minha cabeça, existe a leve suspeita de
que está se escondendo para não me incomodar.

Apesar de ter ficado indignada com a atitude que teve, mesmo na


intenção de me proteger, não posso negar que, no fundo, também fiquei
aliviada por saber que não estava me usando, que não queria se separar e,
principalmente, que não tem e nem teve nada com a tal Sabrina, isso eu não

poderia perdoar.

Com mais calma, depois de ter dormido um pouco, após uma


noite quase inteira em claro nos braços do meu amor, permito-me julgar a
mim mesma e ver as coisas sob outra perspectiva. Tudo bem que Gabriel

errou feio em não ter confiado em mim e em não me dar o direito escolha,
mas eu também errei.

Errei a partir do momento em que acreditei em tudo o que ele


falou. Acreditei fácil demais, como se o nosso amor fosse algo tão frágil para
acabar com tanta facilidade. Ele me deu todos os indícios de que o seu amor
era real quando, por mais de uma vez, me fez prometer jamais duvidar ou
esquecer do seu amor por mim.

Confiar.

Acreditar.

Ainda que pareça difícil.

Ainda que as circunstâncias digam o contrário.

Era isso que estava me incomodando nos últimos dias, quando


parei de sofrer e sentir pena de mim mesma. Senti que havia algo errado e
que eu não estava conseguindo enxergar. Eu não quis acreditar.
Também gritei que poderia ter estado ao seu lado quando o
mundo desabou sobre a sua cabeça. Agora eu começo a me perguntar o que

teria acontecido se eu tivesse ficado com ele.

Teria aguentado o julgamento, a perseguição e ser apontada


como ele foi?

Como teria reagido se um escândalo afetasse o meu emprego e

as minhas idas ao abrigo?

Teria conseguido levar a minha gravidez com tranquilidade


como tem acontecido até o momento?

Apesar de eu ter dito e acreditar que ficaria melhor ao seu lado,


muito mais do que sofrer por estar longe e acreditando nunca ter sido amada,
talvez eu deva admitir que, de certa forma, ele teve os bons motivos para agir
daquele jeito.

Talvez — quase certeza — Gabriel soubesse as merdas que

atingiriam a minha vida e eu, apesar de acreditar ser uma pessoa forte, talvez
não estivesse preparada para tanto.

Talvez!

Existem muitas dúvidas, muitas incertezas e perguntas sem


respostas. A mais importante de todas elas é a que eu menos gostaria de fazer
ou saber.
Será que o amor teria resistido? Será que eu não o teria culpado
de alguma forma por algo que estaria passando única e exclusivamente por

causa dele? Não posso pensar nessas respostas, pois teria que admitir que
existia a possibilidade de eu ser injusta com ele.

Já estou sendo injusta. É óbvio que Gabriel errou, mas eu


também errei tanto quanto ele, primeiro por ter acreditado tão rápido quando

os sinais estavam claros e agora por estar sendo tão teimosa, a ponto de fazê-
lo se trancar no escritório por acreditar que a sua presença me incomodaria.
Sei que é exatamente isso que ele está fazendo, pois o escritório não é o seu
lugar preferido da casa e, nem mesmo quando trazia trabalho para casa, o
fazia dentro desse cômodo.

Quanto a acreditar que ele só me disse todas aquelas coisas


bonitas e iria atrás de mim por causa do nosso bebê, acho que deixei as
emoções e a insegurança falarem mais alto. Ele poderia muito bem dar um

jeito para proteger o filho e garantir os seus direitos como pai, no entanto me
quer aqui ao seu lado. Quer porque me ama.

Nunca deixou de me amar.

Cometeu erros em nome do amor, diferente de quando fazia por


pura ambição.

— Chega disso! — afirmo em voz alta, levando o tempo apenas


para juntar a louça que usei, subir para escovar os dentes e descer em busca
do meu marido.

— Gabriel, nós precisamos conversar — afirmo, fechando a


porta, para em seguida encostar-me nela, longe o bastante do homem que está
à minha frente, sentado atrás de uma mesa. Uma imagem que o deixa sexy
como o demônio loiro que é. E sim, já estou outra vez tendo pensamentos

pervertidos, quando precisamos conversar seriamente.

Felizmente, tenho a desculpa da gravidez para justificar a minha


safadeza e ninguém ousaria julgar uma pobre grávida cheia dos hormônios
em erupção.

— Agora você quer conversar? — questiona, em tom de


sarcasmo.

Qual o nosso problema?

É difícil acreditar que um dia tivemos um casamento quase sem

brigas quando hoje parece que não somos capazes de nos entendermos nem
mesmo acerca das coisas mais simples.

— Sim, algum problema? Não me diga que está sem espaço na


sua agenda lotada — devolvo a ironia, pois neste momento o meu gênio é
mais forte do que a minha maturidade e a minha sensatez.

— Acertou. Sem tempo — assevera e volta a olhar para a tela do


computador. De vez em quando, aperta algumas teclas com mais força que o
necessário. Decido esperar um pouco, ao mesmo tempo em que tento conter a

minha irritação.

Um, dois, três, seis minutos se passaram, segundo o tic-tac do


relógio pregado na parede atrás da sua cabeça. Sete minutos foi o tempo
necessário para que eu perdesse a paciência e cansasse de ser propositalmente

ignorada.

— O que tanto faz aí para achar que está no direito de ignorar a


mãe do seu filho? — Já do seu lado, coloco o rosto quase colado na tela no
computador e não posso acreditar quando vejo o que tanto prendia a sua
atenção.

— Estava jogando paciência — justifica e não consigo me


lembrar se ele sempre foi tão irritante ou se está fazendo um esforço para me
tirar do sério. — Como eu disse, sem tempo.

— E agora, tem tempo? — pergunto, depois de resetar o modem


e acabar com o se jogo online.

— Agora sim, querida — diz, com um sorriso forçado. — Por


que não se senta? Tenho certeza de que não faz bem para o meu filho que a
mãe dele fique tanto tempo em pé.

— Mas o que tem a ver... Ei! — Minha linha de raciocínio é


cortada quando ele agarra a minha cintura e me coloca sentada sobre a mesa.
O safado então abre as minhas pernas e, ao arrastar a cadeira mais para perto,

praticamente se coloca no meio delas. Felizmente, coloquei uma calcinha por


baixo da sua camisa ou então ele estaria com a cara na minha boceta.

— Espero que esteja confortável — diz, mudando do sarcasmo


para a malícia.

— É você, está confortável? — provoco ao ajeitar a minha


postura e os seus olhos entram no jogo quando sobem famintos para os meus
seios.

— Não lembro de ter estado tão confortável — Enquanto fala,


sua mão sobe lentamente pela minha panturrilha e provavelmente terminará
entre as minhas pernas, se eu permitir, o que me faz questionar que tipo de
doidos nós somos. Agora a pouco estávamos nos alfinetando e de repente
estamos fazendo insinuações sexuais.

— Você quer me enlouquecer? — É a única pergunta que me


vem à cabeça no momento.

— E você, quer me atormentar? — devolve.

— Acha que o nosso amor é tão forte como acreditávamos ser?

— Que tipo de pergunta é essa, Luana?

— Não sei. Estive pensando que você não confiou em mim e em


como eu acreditei tão rápido em suas mentiras. Há pouco duvidei quando
disse que me amava. Não acha que deveria ser diferente se realmente

acreditássemos no amor que dizíamos sentir?

— Eu não posso responder uma pergunta como essa, Luana.


Para ela, não tenho uma resposta. O único amor que conheci foi o da minha
mãe, depois dela não tive razões para acreditar nesse sentimento. De qualquer

forma, talvez você tenha que me perdoar por não seguir a cartilha que nunca
foi apresentada a mim. Agi como acreditei ser o melhor e, se o melhor foi da
forma mais errada possível, eu não posso fazer nada para mudar isso.

— Existiu um tempo em que eu acreditava saber o que era o


amor entre um homem e uma mulher. Isso foi só até te conhecer e me
apaixonar por você. Os sentimentos vieram fortes e me pegaram como um
rolo compressor. Percebi que também não sabia nada sobre amar alguém com
o tipo de amor que eu tenho por você. Então também tenho que pedir perdão

por não ter confiado em tudo que tínhamos vivido, por ter acreditado fácil
demais naquele teatro. Por ter dito que só me queria por causa dele. — Levo
a mão à barriga. — Eu não acredito em nada daquilo que falei.

— Fico feliz em ouvir isso, porque aquele pensamento não


poderia estar mais equivocado.

— Fui injusta.
— Não, estava nervosa e por isso te deixei sozinha. Você não
tem culpa de nada nessa bagunça que eu fiz com as nossas vidas.

— E você não é o monstro que algumas vezes acreditei que fosse


— afirmo.

— Eu amo você e esta será a melhor coisa que eu terei feito


nessa vida quando eu partir.

— Não fale dessas coisas, eu não gosto.

— Amar você e o nosso filho será a objetivo da minha vida. Se


me aceitar de novo, prometo que nada nos separará novamente. Eu não
suportaria.

— Eu também não. Amo você, Gabriel, ainda que para outras


pessoas pareça uma escolha questionável, acredito que a minha vida ganhou
um significado a mais no dia em te conheci, anos atrás.

— Estamos bem?

— É claro que estamos bem — assevero. — De uma forma ou


de outra, nós sempre estaremos bem, pois independente do que aconteça, nós
encontraremos o caminho de volta para casa. Já fizemos isso uma vez.

— Sim, nós fizemos, Luana Souto.

A sua frase me traz a sensação de que um ponto final foi


colocado, o fim de uma fase onde o amor foi posto à prova e nós o vencemos.
Houve brigas e desencontros no meio do caminho, mas, ainda assim,
vencemos. Estamos juntos e, mais uma vez, reafirmamos o que parece ter

sido escrito pelas mãos do destino.

Independente dos rumos que quisermos tomar, das escolhas que


fizemos e ainda faremos, estou certa de que a vida sempre tratará de nós
colocar novamente no caminho um do outro, pois é assim que tem que ser.

No fim das contas, apenas torço para que não seja preciso passarmos por
maus bocados novamente. Hoje, tudo o que precisamos é colocar as nossas
vidas nos trilhos e sermos felizes como pessoas realizadas, como um casal e
futuros pais.

— Amor...

— Algum problema? — Preocupado, ele me puxa de cima da


mesa direto para as suas pernas. Depois disso, a sua pergunta deixa de fazer
sentido, pois o problema foi solucionado.

— Agora não mais — confesso no seu ouvido, adorando sentir


os fios do seu cabelo entre os meus dedos. Também não posso ignorar o
prazer do contato com outras partes mais específicas do seu corpo gostoso.

— Eu não sei se isso tem a ver com a gravidez ou se é apenas


você sendo a safada de sempre. Mulher, ontem, nós passamos o dia inteiro
transando — relembra, com um sorriso sacana no rosto.
— Será que alguém aqui está pedindo arrego? Talvez a minha
libido elevada pelos hormônios esteja te assustando.

— Você não sabe o que diz, mulher. De você eu não peço


arrego, posso saciar este seu fogo por uma vida inteira. Estou preocupada
com o bebê. Será que ele sente? Não se incomoda os pais estarem o tempo
todo.

— Você não existe, Gabriel! — afirmo quando consigo controlar


a minha risada o suficiente para poder falar. — Não tem problema nenhum
em fazermos sexo, é até bom que nesta fase façamos o máximo que
pudermos — afirmo e os seus olhos brilham de interesse.

— Seria essa a melhor notícia do dia?

— Parabéns, você ganhou o direito de satisfazer a sua


mulherzinha grávida quando e onde ela quiser. — Nesta parte da conversa,
todos os 3 botões da sua camisa já estão abertos e já estou empenhada em

subi-la pelo seu abdômen. Vendo o meu esforço, meu marido me ajuda e
termina tirando ele mesmo a barreira entre os meus olhos e a sua barriga
cheia de gomos.

— E ela quer agora? — provoca, aproveitando para tirar a sua


camisa do meu corpo, deixando-me apenas com a calcinha, já que eu
considero o sutiã um item desnecessário quando estou em casa. Já basta ter
que usá-los o dia todo quando estou fora.

— Ela quer muito, neste exato minuto, mas antes você tem que

prometer algo.

— O que você quiser, moça de peitos tentadores. — Suas mãos e


os seus olhos certamente concordam com as palavras, ambos parecem não
conseguir para de olhar e tocar o meu corpo.

— Prometa que não vai mais mentir ou esconder coisas de mim


— digo, séria, e puxo o seu cabelo forte o suficiente para que sua cabeça caia
levemente para trás e eu tenha os seus olhos na altura dos meus. — Não
mentir e nem esconder.

— Eu prometo, senhora!

— Sob a pena de eu poder cortar o seu pau fora em caso de


descumprimento.

— Ai é por sua conta e risco — brinca.

— Você preste atenção, Gabriel! Não me faça ter que ficar sem
o meu parque de diversões.

— Não farei, pois sou um bom marido e sei o quanto você gosta
de cavalgar no colo do seu homem.

— Você está bem, não é? — questiono, curiosa, pois é nítida a


mudança na sua fisionomia de ontem para hoje. Se eu achei que estava no
fundo do poço, bastou que o visse no beco para deixar de sentir pena de mim
mesma. Gabriel parecia e, ainda parece, muito mal e agora só quero que ele

se cuide e volte a ser o homem de sempre. Forte e que não precisa aumentar o
tom de voz para ter o mundo nas mãos, pois tem força e carisma o suficiente
para conquistar tudo o que deseja.

— Como poderia não estar, bebê? Estou com você nos meus

braços. Não preciso de mais nada.

— É claro que precisa. Vai tirar essa barba, cortar esse cabelo,
colocar o terno e tomar nas mãos o controle da sua vida. Esse é o verdadeiro
Gabriel e agora eu estou do seu lado, como deveria ter sido desde o início.

— Antes de qualquer coisa, eu preciso recuperar as minhas


forças. Será que a minha deliciosa esposinha não tem alguma sugestão? —
pergunta, ao afastar a minha peça íntima para o lado e lentamente enfiar o
dedo indicador no meu sexo. — Você está sempre excitada? — quer saber e

eu chego a ter uma vertigem quando leva o dedo até a boca e o chupa, sem
desviar o olhar do meu.

— Ultimamente, sim.

— Como você tem feito para... — Ele não termina a pergunta,


seu corpo fica tenso, deixando evidente para mim o pensamento que acaba de
lhe ocorrer. Ele sabe que não pode ter acontecido nada, já que tinha o meu pai
para lhe fazer fofoca e eu só saía de casa para o trabalho, mas ele é ciumento
demais para pensar nisso em um primeiro momento.

— Nem pense em falar essa merda — aviso.

— Então fale você. Eu te conheço bem demais, amor, mas nos


poucos momentos em que pensei na possibilidade, estive a ponto de
enlouquecer. Só de imaginar uma coisa dessas...

— Gabriel, você precisa se acalmar, homem — peço,


percebendo como ele fica mexido somente pela ideia de que eu poderia seguir
em frente, o que poderia perfeitamente acontecer, depois de tantos meses
sozinha.

— Fale alguma coisa, morena. Eu preciso que você fale.

— Nunca houve e nem haverá ninguém depois de você.

— Você é minha, Luana Souto. Só minha e apenas eu toco em

você. Diga que é minha, diga!

— Eu sou sua. Sempre sua.

Existe um prazer inexplicável em dizer tais palavras, uma


realidade muito distante do tempo em que eu as achava erradas de serem
ditas, pois acreditava que elas me trariam a sensação de prisão, de
dependência, quando eu apreciava tanto a minha liberdade. Dizer que sou
dele é poder exigir que diga o mesmo.
— Você é só meu também.

— Vamos para a melhor parte de fazer as pazes, meu amor.

Nas horas que se seguem e pelo resto da tarde, Gabriel e eu não


fazemos nada que não seja matar a saudade que sentimos do outro. Entre um
beijo e outro ou o descanso entre uma transa e outra, falamos sobre tudo que
vivemos no período em que estivemos separados. Eu falo de cada detalhe da

gravidez e ele ouve com bastante interesse e empolgação. Confesso como foi
me adaptar com a nova rotina e voltar para casa do meu pai quando já estava
acostumada com a nossa.

Falo de como me senti com a separação, de como foi difícil


seguir em frente e ele sorri satisfeito quando confesso que o nosso filho me
deu forças para amenizar a dor. Difícil mesmo foi ouvir de sua boca a notícia
do fechamento do Sensations, escutar sobre a perseguição da imprensa e que
ele está na mira da justiça. No meio de tudo, ainda revela que, junto com os

amigos, já planeja recomeçar, nada que eu já não esperasse, afinal, estamos


falando de Gabriel Souto, o homem que pode até se abater, mas fraqueza não
é uma palavra que pode ser associada a ele.
— Acho que você já dormiu muito, morena. Não durma mais ou

então terá dificuldade para pegar no sono mais tarde.

— Que horas são? — pergunto, aconchegando-me melhor sobre


o seu peito, na nossa cama macia e quentinha.

Como eu senti falta dessa cama e desse corpo!

— Já está quase anoitecendo, não quer descer a ver se ainda tem


alguma coisa para jantarmos? Não sei se a Lury ficou para fazer o jantar
depois que subimos — fala com tranquilidade.

— Será que ela nos ouviu?

— Não se tiver ido embora depois que chegou do mercado —


fala aos risos, enquanto brinca com um dos meus seios despreocupadamente.

— Não tem graça, amor. Eu fico sem saber como olhar para ela.

— Os casais transam, morena. É de conhecimento de todos. Se


for um casal se reconciliando então...

— Por falar em reconciliação, já sabe o que nós vamos fazer a


partir de agora?

— Primeiro quero que volte para essa casa. A sua casa —


afirma. — Depois nós teremos de ser cuidadosos com isso tudo, pois o
assédio ainda está muito grande e, apesar de estarmos bem, continuo não

querendo que perturbem você ou coloquem em risco o nosso bebê. Leônidas

ainda está por ai e não sei o que ele pode fazer contra mim.

— Mais do que já fez? Deus! Esse homem é um monstro. Você é


filho dele.

— Em algum momento, ele esqueceu isso, meu amor. Muito

cedo, eu deixei de ter um pai para ter um estranho que só me fez mal com a
falta de amor e por me apresentar tão cedo a vícios que talvez eu nunca
conhecesse.

— Ele não pode mais fazer nada contra você, Gabriel. Olhe bem
o caos em que se transformou as nossas vidas. Será que não foi o suficiente?

— Não se aflija, bebê, está tudo bem. Sei me cuidar e farei o


mesmo por você.

Com suas palavras, meu marido me tem um pouco mais

tranquila, pois ao seu lado eu sinto que estou protegida e foi assim desde o
início. Sabia que, mesmo vendo-o como o próprio diabo na terra e
detestando-o por ter se tornado meu dono, ele poderia me proteger de
qualquer um. Só não existia alguém capaz de me proteger dele, por isso agora
estou nos braços do demônio, o meu diabo loiro. Rendida e completamente
apaixonada.
— Acho que devemos arrumar um jeito de pegar as minhas
coisas na casa do papai e conversar com ele sobre a nossa volta.

— Ele sabia que nós voltaríamos — diz e, quando o olho de rabo


de olho, Gabriel continua: — Mesmo que você tivesse dificultado a minha
vida mais do que já dificultou, Júlio estava ciente que eu bateria na porta dele
todos os dias, implorando pelo seu perdão, até que entendesse que é a minha

gostosona e que eu nunca deixei de te amar.

— Gostaria de ver essa cena, ela inclusive está passando pela


minha mente neste exato momento. Teria flores? Você sabe que eu amo
flores e chocolates, não é?

— Teria tudo isso, linda. Até carro de mensagens se fosse


preciso.

— Gostei! Que tal brigarmos mais um pouco, assim você tem a


oportunidade de demonstrar todo o seu amor?

— Pensei que eu tivesse passado a tarde demonstrando o meu


amor por você. Talvez eu não tenha feito o serviço direito. — Num instante,
ele já está deitado sobre mim outra vez, pincelando o sexo a meio mastro no
meu centro castigado.

— Eu até quero, mas amanhã estarei correndo o risco de andar


pela casa de pernas abertas.
— Melhor não — Rola para o seu lado da cama e faz a pergunta
que eu estava querendo ouvir. — Quer mesmo ir ver o seu pai?

— Muito.

— Então nós vamos visitar o Júlio. Só teremos que tomar


cuidado e sermos discretos.

Como se fôssemos duas celebridades fugindo de paparazzis,


Gabriel e eu saímos pelos fundos da propriedade, o mesmo lugar por onde
tive a ideia de entrar quando cheguei ontem. Felizmente, eles são amadores
demais para imaginar que a discreta entrada existe e com isso não temos
nenhum incidente. De qualquer forma, meu marido, que é um homem
prevenido, conta com a cobertura dos seus três seguranças e a ida até a casa
do papai é tranquila.

Seu Júlio, de certa forma, fica feliz por nos ver juntos e de ser
informado que reatamos, mas também fica preocupado com o que pode

acontecer com essa volta. Ele tem acompanhado pela TV, jornais e revistas a
exposição que a vida de Gabriel vem sofrendo e por isso o compreendo. O
loiro, por outro lado, garante para o sogro que está tudo bem e assim
permanecerá. Ele acredita que a poeira está começando a baixar e que logo
dará outros motivos para falarem dele. Desta vez, bons motivos.

Fazendo coisas boas ou ruins, Gabriel é e sempre foi o


queridinho da imprensa local e, como ele mesmo um dia me falou, basta tê-la
ao seu lado para as portas se abrirem. Pode fazer um grande estrago quando

se propõe, mas também pode ser uma boa aliada. Com os planos ambiciosos
que Gabriel tem, ele acredita que está próximo de virar o jogo, do vento
soprar a seu favor.

No caminho de volta para casa, me sinto feliz por olhar para o

banco de trás e ver as malas com os meus pertences voltando para o lugar de
onde nunca deveriam ter saído e por ter deixado o meu pai bem. Ele ficou um
pouco triste por já ter se acostumado com a minha presença na sua casa, mas
eu acabei o convencendo de que será bom para ele também, considerando que
terá mais privacidade com a nova namorada. Júlio diz que estão ainda se
conhecendo, mas eu duvido de que seja só isso, pois ele passa a vida no
celular e tenho certeza de que não era só com o Gabriel que ele falava.

Quando nos deitamos para dormir, permanecemos mais um

tempo conversando, fazendo planos para os próximos dias e os cuidados que


precisaremos ter antes de revelar a nossa volta e calar as especulações sobre
outras mulheres na sua vida — certamente a parte de que mais gostei.

Sentindo seu braço em volta na minha cintura e a mão, que


costumava dormir agarrada ao meu seio, descansando sobre a minha barriga,
posse dormir tranquila, tendo a certeza de que tudo está como deveria ser.
Sabendo que o amanhã não me assusta, pois nada pode ser pior do que não
estar com quem se ama, uma experiência não quero mais reviver.
— Será que ele pode nos ouvir? Acho que sim. Toda vez que eu
falo, você se mexe, não é filho?

Deitados em uma espreguiçadeira à beira da piscina, Luana e eu


estamos curtindo o que chamamos de lua de mel infinita, pois agimos como

um casal que está em uma, mas na verdade já estamos assim há três meses. O
fato de não termos saído muito de casa serviu apenas para nos deixar ainda
mais unidos. Percebemos que o fato de estarmos brigando por tudo no
período da reconciliação era apenas o estresse falando mais alto.

Nas últimas semanas, nós passamos pela prova de fogo no nosso


relacionamento. Foi uma fase em que tivemos de ficar inclusos dentro de
casa, enquanto esperávamos que um novo escândalo aparecesse para
substituir o meu. Aconteceu quando, um mês depois da nossa reconciliação,

um famoso ator foi visto em uma situação comprometedora com uma mulher
que não era a sua esposa. Os olhos de todos se voltaram para ele e então eu
pude ter um pouco de tranquilidade para tentar recomeçar ao lado da minha

morena.

— Ele ama o papai, por isso fica assim quando você toca a
minha barriga — afirma, apoiando a mão sobre a minha, que está na sua
barriga proeminente que a deixa mais linda do que nunca.

A primeira consulta que tive a oportunidade de presenciar foi


muito emocionante para mim. Pude ouvir o coraçãozinho bater e foi a partir
daquele dia que caiu a minha ficha de que, em breve, formaremos a nossa
pequena família. Antes, eu pensava que jamais seria pai, mas quando Luana
engravidou, não poderia ter ficado mais feliz, algo que aconteceu por ela ser a

mãe. A mulher que eu amo e que será a melhor mãe que um bebê poderia ter.
Ao seu lado, não tenho medo de ser pai, pois eu sei que o seu amor me
inspira a ser melhor a cada passo que dou na minha vida.

— Doido para sair deste aperto e jogar bola com o pai e os


meninos do abrigo — afirmo, lembrando-me das ocasiões em que precisamos
fugir pelos fundos da casa para ir até as crianças da Luana.
Ir até lá também era uma forma de sairmos um pouco, em uma
fase que estávamos ficando entediados por não podermos deixar a casa.

Luana, que aproveitou para tirar as férias vencidas que vinha acumulando no
hospital, não sabia o que fazer para ocupar o tempo, já que não dava mais
para passarmos o dia transando.

Ela começou a fazer receitas com Lury e hoje posso dizer que

ela quase sabe cozinhar. Para saber mesmo, ainda falta um pouquinho. Eu
como das suas invenções com um sorriso no rosto e ela, sendo a criadora,
acha que tudo sai perfeito. A mim, resta torcer para que o quase deixe de
existir quando associo a minha gata e cozinha na mesma frase.

— Já estou ansiosa para irmos até lá — diz, ajeitando-se melhor


entre as minhas pernas e apoiando as costas contra o meu peito. Esta é uma
posição da qual gostamos muito, pois assim ficamos muito perto e eu tenho
liberdade para tocar na sua barriga e nos seus seios também. — É hoje, não

é? Você prometeu.

A morena está mais ansiosa do que esteve em qualquer outra


ocasião para ir ao abrigo e existem basicamente dois grandes motivos para
isso. O primeiro é que apareceu um casal interessado em adotar Carla, a
criança a quem ela é tão apegada. Soube através de uma ligação mais cedo e
não se aguenta de ansiedade para saber mais a respeito do assunto.
O segundo motivo é o garoto que ela chama de Black, um dos
rapazes que estava no beco no dia em que nos encontramos e que de alguma

forma tentou protegê-la dos outros dois. Ficou sabendo que alguns dias atrás
ele foi procurá-la no abrigo e que agora ele sempre aparece por lá. Minha
morena está muito radiante com essa notícia porque é assim que ela é, uma
pessoa boa, sempre preocupando-se com o próximo, com quem tem menos

do que ela.

— É hoje, amor, só que desta vez nós vamos à noite, lembra?

— Não entendo por que tem de ser à noite. O abrigo não recebe
ninguém à noite — afirma, não desconfiando de nada.

— Eu marquei um minicampeonato de futebol com os garotos,


esqueceu que eu te falei ontem à noite?

— Na verdade, esqueci sim. Talvez você tenha dito quando eu já


estava dormindo. — Na verdade, não estava dormindo. Não ouviu porque eu

simplesmente não mencionei nada disso para ela. O futebol é apenas uma
pequena mentira para que não suspeite do que tenho preparado.

— Pode ser, considerando que dormir é tudo o que você faz,


bebê — brinco, mas não deixa de ser verdade. Nunca vi Luana tão
dorminhoca quanto agora.

— Isso quando você não decide usar o seu tempo livre para
tentar me seduzir.

— Eu não ouvi a senhora reclamando nenhuma vez — digo,

mais uma vez encantado por sentir o bebê chutando dentro da sua barriga.

— É por que eu reclamaria? Pelo menos tenho tempo livre para


arrancar as roupas de um homem gostoso como você — provoca, passando as
unhas pelos meus braços. Quem a vê desta forma não acredita que há pouco

estávamos namorando dentro da piscina.

— Desculpe por ter sujeitado você a isso, amor — peço,


sentindo que preciso fazer isso.

— Do que você está falando?

— De ter ficado tanto tempo sem praticamente sair de casa. Foi


por isso que eu tomei decisões questionáveis meses atrás. Só não queria que
você sofresse.

— Gabriel — começa, virando a cabeça na minha direção. —


Entenda que nenhuma prova é mais difícil do que ficar longe de você. É claro
que, algumas vezes, foi bastante tedioso ficar presa aqui dentro, mas, para
ficar ao seu lado, eu poderia passar a vida inteira nesta casa.

— Você me ama mesmo, não é?

— E por que não amaria?

— Eu poderia falar meia dúzia de motivos.


— E nenhum deles seria capaz de mudar este fato. O amor não
se explica, Gabriel, apenas se sente. Vamos mudar de assunto, pois eu não

gosto quando você fala desta forma, como se não fosse digno de ser amado
por mim e nem por ninguém.

— Não queria te chatear.

— Então não fale mais sobre isso. Eu te amo e faria tudo por

você. Sei que me ama da mesma forma e nada mais importa além disso.

— Você está certa, senhora Souto. Famosa senhora Souto —


brinco, lembrando-me de como ela enlouqueceu quando, recentemente,
decidimos que já era o momento de aparecermos juntos novamente. Não foi
necessário fazer nada, diferente de quando abri as portas do Sensations para
escancarar a verdade por trás dele.

Dessa vez, bastou que saíssemos de casa para que, no outro dia,
aparecesse em toda a imprensa notícias da reconciliação. Em tom de fofoca,

as notícias foram bem menos maldosas, tirando uma ou outra que afirmava
que nós nunca estivemos realmente separados, já que a barriga da minha
morena está grande demais para dizer o contrário.

Quem sabe fazer contas deu-se conta de que provavelmente


Luana já estava grávida quando nos separamos.

Desde esse dia, os tabloides tentam descobrir os motivos da


nossa separação e também como aconteceu a reconciliação depois de tantos
meses. Luana e eu preferimos não falar nada, pois este silêncio, de certa

forma, nos beneficia, já que é preferível a fofoca a respeito da nossa vida


amorosa às especulações a respeito do cassino, o bloqueio dos meus bens e o
processo ao qual estou respondendo.

— Nem me fale disso. Se eu soubesse que estaria me casando

com uma celebridade, juro que teria fugido de você — ela debocha de um
assunto que acabou se tornando piada entre nós dois.

— Seria uma pena se você não tivesse escolha, não é mesmo,


mulher do diabo loiro?

— Quando eu lembro da raiva que senti de você quando veio,


cheio de marra, dizer que eu teria de casar com você.

— Quando eu lembro do tesão que você despertou em mim


assim que vi essa boca carnuda, os seios grandes e a bunda, fico com vontade

de te comer agora mesmo — provoco, mordendo a ponta da sua orelha.

— Eu ainda não posso acreditar que você sentiu isso tudo. Eu só


queria te matar com requintes de crueldade.

— Te achei insuportável, porém, uma insuportável gostosa.

— Safado!

— Gostosa.
Durante o restante da tarde, enquanto Luana dorme
tranquilamente, aproveito para arranjar os últimos detalhes e, a cada hora

passada, mais perto fica do momento e com isso o meu nervosismo aumenta.
Para um homem que é mais de falar, o que tenho em mente é uma baita prova
de fogo.

— Você está estranho, amor. Tem certeza de que está tudo bem?
Sei que já perguntei umas cinco vezes, mas você realmente está muito
estranho e não adianta tentar negar.

— Está tudo bem. — É a mesma resposta que dei das outras

cinco vezes. — Talvez seja o clima — digo algo completamente sem sentido
e nem sei de onde saiu.

Agora estou estacionando o carro na calçada, em frente ao


abrigo de menores, e seguro o volante com tanta força que os nós dos meus
dedos estão brancos. Tudo para que ela não perceba o quanto as minhas mãos
estão tremendo.
Assim que saímos do carro, Luana entrelaça os nossos dedos e,
curiosa, observa o meu rosto em busca de respostas.

— Sua mão está muito gelada. E não vale dizer que é o clima,
pois hoje está quente demais, tanto que se eu pudesse, sairia pelada pela rua.

— Você seria capaz, não é mesmo, minha maluquinha? —


pergunto para distraí-la e mudar de assunto.

— O que você acha?

— Que não gostaria de ver o seu marido morto de ciúme por ver
outros idiotas descobrindo quão gostosa você é.

— Esperto, você — diz, parando apenas para beijar de leve os


meus lábios. Quando as nossas bocas se afastam, olho nos seus olhos e
encontro a calma de que eu preciso. Neles, está a resposta que desejo ouvir,
antes mesmo de fazer a pergunta.

— Está preparada?

— É só o abrigo, meu amor. Por que eu precisaria estar


preparada?

— Pois é. É só o abrigo.
Quando o portão de ferro é aberto, o pátio está silencioso e
escuro. Aparentemente não tem ninguém além de nós dois.
Automaticamente, seguro a mão fria do Gabriel com mais força e ele a solta
para abraçar minha cintura e trazer meu corpo para mais perto do seu.

Meu marido tem agido estranho desde o momento em que


começamos a nos arrumar para vir até aqui e cada vez que eu abri a boca para
questioná-lo, foi capaz de dar uma desculpa pior que a outra. Na hora em que
fui pegar o meu short confortável e a minha blusa de alça, Gabriel foi até o
closet e de lá tirou um lindo longo na cor champanhe. Ele tem o tecido leve e
é de um ombro só. Parece ter sido feito para mim de tão bem que caiu no meu
corpo, deixando a minha barriga linda e em evidência. Quando perguntei,
Gabriel disse que conhece o meu corpo como a palma da sua mão e que foi

bastante fácil passar as minhas medidas na hora de escolher o vestido

belíssimo.

Ele também está bastante arrumado e nem de longe parece que


viemos para um campeonato de futebol. Está mais para uma festa. Eu, como

não sou idiota, sei que o diabo loiro está aprontando alguma coisa, só não tive
tempo de pensar no que é. De qualquer forma, o meu coração bate um pouco
acelerado e talvez a minha mão esteja tão gelada quanto a dele.

— Gabriel, você tem certeza de que...

— Calma, amor. Logo você vai entender — pede.

O pátio silencioso, de repente, começa a ser invadido por uma


música ambiente bem baixa e eu consigo identificar o som de um violino.
Uma luz de LED verde ilumina um determinado ponto e então vejo uma das

crianças segurando uma plaquinha quadrada e branca.

Você é a luz que me guiou.

Leio, começando a me emocionar quando entendo o que


pretende e também por ver o pequeno anjinho, Carlos, todo de branco e com
o cabelo arrumadinho. Depois dele, o refletor passa para Joice e ela também
carrega uma placa e usa roupas brancas.
Quando tudo era escuridão.

Uma a uma, as crianças, que estão dispostas lado a lado, tiveram

os seus rostos iluminados até formarem tudo o que meu amor queria dizer. A
cada frase, mais lágrimas escorrem pelo meu rosto e eu começo a reler tudo
outra vez, só para sentir novamente a mesma emoção.

Você me ensinou sobre o amor.

Sobre ser uma pessoa melhor.

E sobre o perdão.

Amar você foi a escolher mais fácil que precisei fazer.

Também foi a mais importante

Amo você, morena.

A mãe do meu filho

Feliz 1 ano de casamento.

— Amor, você lembrou. — Impressionada e com a voz


embargada pelas lágrimas, eu o abraço quando o lugar todo se ilumina. —
Como pude esquecer do nosso aniversário de 1 ano de casamento?

— Como poderia lembrar? — diz, quando uma sombra passa


pelo seu olhar, mas eu trato de afastá-la.

— O dia mais importante da minha vida, pois mesmo que não


estivéssemos felizes no dia do nosso casamento, foi aquele momento que nos

trouxe até aqui. Ele tem sempre que ser comemorado, meu amor. Obrigada

por lembrar.

— Está linda — elogia, não pela primeira vez, e me beija


levemente nos lábios. — Agora aprecie o quanto o seu marido pode ser
romântico.

Quando Gabriel termina de falar, olho para o pátio e ele nem


parece o mesmo. Está todo enfeitando por pequenas luzes de LED verde, a
cor que ele sabe que eu amo. Flores de todas as cores foram colocadas de
maneira estratégica em diversos pontos e a impressão é de que estou no meio
de um belo e florido jardim.

— Lembrou o nosso jardim. — Ele sorri porque sabe que eu


adoro aquele lugar.

— Queria que tudo que tem a ver com você estivesse

representado neste momento, um pouco do nosso lar, através do jardim, e o


abrigo que adora. Não poderia ser em outro lugar.

— Está tudo perfeito!

— Olha para as suas amigas, o que elas te lembram?

— O Sensations?

— Sim, bebê, o lugar onde nos conhecemos e que guarda muitas


histórias nossas. — De onde estão, as meninas acenam para mim e eu não
poderia estar mais feliz por tê-las comigo na noite de hoje. Todas são

importantes à sua maneira e ficaram felizes quando, por mensagem, falei da


minha reconciliação com Gabriel.

— O seu pai está ali com a namorada, está vendo? — Aceno


com a cabeça. Emociono-me por vê-lo bem e feliz novamente ao lado da

Cíntia, a namorada que parece fazer bem a ele. Apesar dos erros e também
por eles, Júlio é o meu pai e eu o amo muito. Sempre será assim. — De uma
forma completamente errada, ele foi o responsável por termos nos
reencontrado.

— Eu estava à sua procura — digo o que até os sonhos poderiam


atestar.

— Eu te carreguei marcada na minha pele. Como uma


lembrança da única coisa boa que tive na vida. Foi a menina que um dia você

foi que me fez continuar acreditando que o ser humano podia ser bom.

— Garoto do capuz.

— Você aceita casar comigo? — pede ao colocar um joelho


contra a grama que, antes de hoje, não existia e tirar do bolso uma aliança de
ouro lindíssima.

Meus olhos voltam a se encher e, entre risos e lágrimas, digo:


— Nós já somos casados.

— Vamos renovar os nossos votos perante as pessoas que

amamos. Desta vez será diferente, pois saberemos o que nos une. Você
aceita?

— É tudo o que eu mais quero nesta vida. Obrigada por fazer


este momento tão especial para mim.

— Farei quantas vezes forem necessárias, apenas para ver esse


sorriso no seu rosto. As lágrimas são dispensáveis, mas pelo menos são de
felicidade — afirma, beijando minhas pálpebras. — Não vamos deixar as
pessoas esperando.

Como mágica, os próximos minutos passam em câmera lenta e,


ao mesmo tempo, rápido demais. Com os nossos amigos mais próximos, as
minhas crianças e na presença de um padre, Gabriel e eu renovamos os votos,
mas para mim e creio que para ele também, fica a sensação que estamos nos

casamos pela primeira vez. Hoje fazemos promessas verdadeiras de amor,


companheirismo e fidelidade. Fazemos porque é a verdade que existe em
nossos corações.

No momento em que as alianças são trocadas, Gabriel abaixa-se,


deixa um beijo sobre a minha barriga e o momento termina sob fortes
aplausos. De mãos dadas, passamos a cumprimentar o pessoal e, por algumas
horas, ficamos confraternizando com os convidados. As garotas confessam
que deram uma ajudinha nos planos do meu marido e, graças a elas, o homem

conseguiu contratar um dos melhores bufês da cidade. Temos um jantar


delicioso e um bolo de abacaxi que faz a minha boca salivar.

Quando, aos poucos, a galera começa a ir embora, Gabriel


aproveita para dar a sua escapadinha, me levando para um cantinho mais

discreto e pouco iluminado.

— Tenho uma coisa para te falar — diz, cheio de mistério.

— Creio que seja algo muito importante para termos saído no


meio da festa e deixado os convidados sozinhos e pensando que fugimos para
dar uma rapidinha.

— Como foi que não pensei nisso antes? — Junto com as


palavras, as mãos já começam a me agarrar e a barriga é o impedimento para
que os nossos corpos não fiquem colocados de cima a baixo. É sempre

divertido quando isso acontece, a frustração passa rapidamente pelo seu


rosto, mas ele sempre arruma uma outra forma de me agarrar, como acontece
quando nos deitamos na espreguiçadeira que claramente não foi feita para
comportar nós dois.

— Foco, amor. Me fale sobre o assunto importante, estou


curiosa — confesso quando ele encosta meu corpo contra a parede e se
coloca à minha frente. Muito lindo com o seu cabelo outra vez curto e a barba
que ele não tirou por inteiro, o meu diabo loiro aproxima a cabeça do meu

rosto, deixa nossas bocas bem próximas e, quando os meus olhos começam a
fechar, pela expectativa do que virá a seguir, ele desvia a boca da minha, a
leva até o meu ouvido e pergunta baixinho:

— Qual a sensação da liberdade?

— Liberdade?

— Doze meses, foi esse o prazo que nós estabelecemos para o


fim do nosso acordo de casamento.

— Tem razão senhor, Souto. Não parece que isso aconteceu em


outra vida? Esses doze meses voaram.

— E como se sente agora? Ainda ansiosa para se ver livre de


mim? Acho que era assim que você falava — provoca, beijando o meu ombro
diversas vezes.

— E você? O acha de se livrar da mulher que não faz o seu tipo?


Feliz? — devolvo.

— Feliz mesmo eu só ficarei quando puder te tirar daqui e levar


para o melhor quarto de hotel desta cidade. Você vai ter de fingir que estamos
na nossa noite de núpcias, apesar da sua barriga dizer o contrário.

— O que tem nesse quarto de hotel? — provoco ao passar o pé


por seu tornozelo.

— Não me provoque, morena. Não comece algo que você não

pode terminar agora. — É o que diz, mas a sua boca já está sobre a minha,
beijando-me com fome e avidez. Como não sou de ferro, por um momento
aproveito dos carinhos do homem que me beija com uma intensidade
correspondente ao seu amor.

— Acho que nós temos que voltar, Gabriel. Ainda tem gente
aproveitando a festa que você preparou e não seria nada bonito fugirmos
desta maneira. Vamos pelo menos nos despedir do pessoal.

— Tudo bem. Promete não demorar? Eu amo esse lugar e as


crianças, mas realmente preciso ficar a sós com você.

— Prometo.

Prometi e acabei não cumprindo. Ainda demoramos um tempo


para deixarmos o lugar e tudo porque eu quero aproveitar o máximo possível

da noite que estava tão linda, não só pelo clima, como também por tudo o que
vivemos. É lindo ver como Gabriel tornou-se um homem de grandes gestos.
Perceber como mudou no curto prazo de um ano.

Ainda tem a mesma essência de homem forte, que impõe


respeito pela simples presença, mas existe bem mais do que se vê de fora.
Tornou-se o homem capaz de amar outras pessoas além de si mesmo.
— O vestido, você vai estragar ele, homem — reclamo ao vê-lo
tentar abrir de tudo quanto é jeito os botões do vestido e não ter nenhum
sucesso. Tudo bem que são dezenas de botões e que eu passei o caminho
inteiro provocando para tê-lo neste estado, mas também não quero perder o
vestido tão bonito e especial para mim.

— Depois eu te dou outro, só tire essa coisa, amor —


praticamente implora, esfregando a ereção na minha bunda, deixando-me
mais molhada do que já estou.

— Abra os botões, Gabriel. Tenho certeza de que se você se


esforçar, vai conseguir abrir todos sem estragar o meu vestido. Se o fizer,
prometo te recompensar.

— Que tipo de recompensa? — pergunta com interessante e já


está mais empenhado.

— Do tipo que te dará muito prazer, isso eu garanto.


Quando a peça cai aos meus pés, meu marido me vira de frente,
observa o meu rosto e depois todo o meu corpo, com os olhos cheios de fogo

e desejo.

— Gostosa!

— Com essa barriga? — questiono, apenas para provocá-lo, pois


até nesse aspecto ele me deixa muito segura. Não mudou em nada a sua

admiração, o fogo no olhar e nem o apetite sexual, pelo contrário, parece


mais apaixonado do que nunca.

— Linda e que carrega o nosso filho. Agora venha aqui que eu


não aguento mais esperar, preciso amar você. A noite inteira ou pelo menos
até você pedir por clemência.

— Não conte com isso, diabo loiro. Não esqueça que você está
falando com uma mulher grávida e cheia de hormônios.

— Estou contando com isso, senhora Souto — A frase termina

com uma mordida tão dolorosa quanto excitante no meu pescoço e que,
certamente, diz como acabará a nossa noite.

Tomando um cuidado especial por conta da minha barriga,


mesmo eu tendo falado algumas vezes que não vou quebrar e nem nada
parecido, ele é bastante carinhoso. A noite segue agitada e não posso deixar
de notar o cuidado que teve até mesmo com a arrumação do quarto de hotel.
Gabriel parece ter levado a sério, quando eu disse que esperava
ganhar flores e chocolates e é exatamente assim que encontro o quarto

quando paro para admirá-lo.

Entre o sexo e os carinhos mais inocentes, ainda tiramos alguns


cochilos de descanso e aproveitamos a banheira de hidromassagem, assim
como fazemos em casa. Quando no meio da manhã, deixamos o hotel, nos

nossos rostos estava estampada a alegria por mais um passo dado, pois a
noite de ontem representou um divisor de águas nas nossas vidas,
individualmente e como um casal.

Um ciclo se fechou e outro se iniciou. Doze meses se passaram


e, ainda assim, decidimos ficar juntos. Ficamos porque há muito tempo o
acordo tinha deixado de importar. Muito rápido, percebemos que o que nos
uniu nunca foi só uma dívida e que, de uma forma ou de outra, tínhamos que
acontecer.
Seis meses depois.

— Você não vai ficar com saudades do papai, não é mesmo?


Prometo que a sua mamãe e eu não demoraremos a retornar. — Como um pai
babão, converso com o bebê nos braços, mesmo depois de Luana ter dito para

não o tirar do berço. Com seus 3 meses de vida, o pequeno Gael já começa a
ter as suas vontades e uma delas é choramingar quando fica longe da mamãe
por mais tempo do que está acostumado.

— Sei que você não vive sem ela, amigão. Eu também não e por
isso te entendo. Não é fácil ficar longe daqueles peitos.

— Gabriel! Olhe o tipo de coisa que você está dizendo para o


nosso filho! Ele é apenas um bebê.

— Nada demais, gata. Ele e eu amamos os seus seios — digo e

vejo os seus olhos rolarem para cima. — Aliás eles estão muito bonitos
dentro deste vestido decotado e sexy — elogio, admirando-a abertamente,
enquanto o pequeno Gael brinca com o meu dedo, tentando de todas as
formas levá-lo a boca.

Meus olhos passeiam pelo seu rosto com uma maquiagem


perfeita e quase discreta, a exuberância fica por conta dos seus lábios
carnudos e perfeitamente pintados com um batom vermelho. Os cabelos estão
presos em um penteado que deixa algumas mechas soltas por todos os lados.
Está um vestido preto tomara que caia e justo, moldando todo o seu corpo
cheio de curvas deliciosas e que me deixam louco de desejo. Nos pés,
colocou uma sandália de tiras e saltos altíssimos.

Três meses depois do nascimento do pequeno, ela está melhor do

que nunca. Tão linda e confiante como sempre foi e sabendo que é perfeita do
jeito que é e se sente bem com isso.

— Por que o pegou, amor? Sabe que vai dar trabalho quando
tivermos que sair — avisa. — Ficará com esses olhinhos azulados nos
encarando e eu não conseguirei pensar em mais nada, até voltarmos para casa
— diz, pegando-o dos meus braços.
— Como eu posso resistir, morena? Ele estava acordando e
praticamente implorando com o olhar para que eu o pagasse — defendo-me,

observando com fascínio o modo como ela se encaminha para a poltrona


posicionada ao lado do berço e tira o seio para fora do vestido.

— Belos seios — elogio, vendo-a amamentar o nosso filho. A


cena é corriqueira, mas não deixa de ser fascinante. Adoro observá-la

alimentar o nosso pequeno e poderia passar horas sentado, apenas observando


as duas pessoas que são todo o meu mundo e estão dentro desse quarto.

Parece que foi ontem que ela ligou para mim, enquanto estava
empenhado nos preparativos para a reinauguração. Era o meio de uma tarde
de terça-feira, Luana estava no abrigo e eu tive de largar tudo e sair correndo.
O caminho nunca tinha me parecido tão longo e quando cheguei ao lugar, a
minha gata estava fazendo umas caretas muito estranhas por causa das dores
das contratações. Foi inusitado porque ela estava rodeada de crianças e as

elas faziam com que, vez ou outra, minha gravidinha desse um sorriso em
meio às dores por causa das suas perguntas inocentes.

O mais rápido que pude, eu a levei para o hospital e, após


algumas horas em estive do seu lado, segurando a sua mão, a minha morena
deu a luz o nosso pequeno. Por escolha dela, o parto foi normal e tudo
aconteceu da melhor forma possível. Quando, ainda sujinho, o nosso Gael foi
colocado nos seus braços, me permiti derramar algumas lágrimas e, naquele
momento, acreditei ter alcançado a minha redenção.

Acreditei que a vida foi generosa comigo, depois de crer na sua

crueldade e de nunca ter entendido o porquê de tudo sempre ter sido tão
difícil para mim, fazendo com que eu me tornasse uma pessoa da qual não
deveria me orgulhar.

Naquele momento, agradeci pela minha família, a mulher da

minha vida e pelo meu filho. Prometi dedicar a minha vida a fazê-los felizes e
demonstrar todos os dias o quanto os valorizo.

— Gabriel! Eu estou falando com você. — Assusto-me quando


sou atingido por um urso de pelúcia e só então percebo que estive perdido em
pensamentos. — Pensamentos bons? — indaga, me conhecendo tão bem que
não é preciso que eu diga nada, ela sabe que, algumas vezes, eu preciso ficar
com os meus próprios pensamentos. Um hábito adquirido por quem passou
por muita coisa para alguém que tem apenas 31 anos.

Tudo que vivi moldou o meu caráter, fez com que eu me


desconstituísse e hoje vivo dia após dia, na constante tentativa de ser o
melhor para quem merece o melhor de mim. Não se enganem, ainda sou
Gabriel Souto, o que muitos dizem ser implacável. A melhor versão, esta só
tem quem merece.

— Estava pensando em você, morena. Bons pensamentos. —


Pisco para ela, que devolve com um bonito sorriso de lábios vermelhos.

— Ele dormiu, ainda bem — avisa, quando, com calma, tira a

boquinha dele do seu seio, beija a sua testa e o deita novamente no berço.
Minha mulher ainda o mima um pouco e quando se dar por satisfeita, volta
para o meu lado e elogia: — Você está muito bonito, senhor Souto. A sua
mulher deve se preocupar com o assédio? — provoca, passando a ponta das

unhas pela minha nuca. Faz porque sabe que me excita.

— Não. A minha mulher sabe que eu só tenho olhos para ela e


que sou eu quem devo me preocupar com os atrevidos esta noite. Ela está
mais maravilhosa do que nunca e certamente será a mulher mais linda do
evento. A mais deliciosa e a mais comprometida também — digo, ao puxar a
sua cintura bem marcada para perto do meu corpo.

— Você sabe ser bom com as palavras, loiro.

— Posso ser bom com outras coisas e se quiser, te mostro agora

mesmo, gostosa. — Avanço na intenção de beijar a sua boca, mas a morena


sexy é rápida ao desviar e o beijo pega no pescoço perfumado. Tudo para não
borrar o batom.

Qual o problema das mulheres com batons?

— Mais tarde, insaciável. Prometo que mais tarde você poderá


mostrar o quanto pode ser bom com as mãos e também com a boca.
Inclusive, estarei ansiosa, esperando por este momento, mas agora nós temos
que ir. Você não pode chegar atrasado, não mais do que já está — diz com

seriedade, ajudando-me e apoiando-me nas pequenas coisas, como veio


fazendo nos últimos meses até a chegada do grande dia.

— Vou cobrar, mulher. Acho que lá mesmo nós podemos...

— Licença, senhores, minha tia pediu para que eu subisse, mas

se quiserem mais um tempinho, eu posso descer e esperar até que...

— Não, Lina. Está tudo bem, nós já estamos de saída. Tirei o


leite e as mamadeiras estão na cozinha. Ele acorda sempre com fome —
explica para a moça que não deve ter mais que 18 anos.

Apesar de ser muito jovem, não é a primeira vez que a moça fica
com Gael quando precisamos sair. Ela é uma boa moça, sobrinha da Lury e a
cozinheira fica de olho quando o bebê sob os cuidados da garota.

— Qualquer coisa, peça ajuda da Lury, que ela te orienta — dou

o aviso de sempre e afirmo: — Nós não vamos demorar, tudo bem?

Sei que nós dois parecemos pais desesperados com tantos avisos,
repetidos em outras ocasiões e que ela está cansada de saber, mas em nossa
defesa conta o fato de sermos pais de primeira viagem e de ainda ser difícil
sair e deixar o nosso pequeno moreninho. Com os meus olhos claros, Gael
puxou a mesma cor de pele da mãe e os mesmos cabelos escuros. Muito
parecido e tão lindo quanto ela.

— Tudo bem. Tenham uma boa noite — despede-se e, antes de

sairmos do quarto, minha gata e eu ainda nos aproximamos do berço e damos


uma última olhada no pequeno.

— Mais um pouco e eu fico cega — Luana reclama da entrada


do Sensations, que está lotada e cheia de fotógrafos e jornalistas. Quanto ao
que diz, não tenho como questionar, pois realmente é bem irritante, porém
necessário.

Hoje é o tão aguardado dia da inauguração e eu não poderia estar

mais feliz com a conquista. Creio que o sentimento é o mesmo de quando


aconteceu pela primeira vez, mais de uma década atrás.

Juntamente com Lucas e Dom, os amigos com quem posso


contar em todas as horas, consegui reverter a opinião e o interesse da mídia a
meu favor, tanto que hoje eles estão aqui para prestigiar e noticiar a
reabertura da casa de shows Sensations, antigo cassino restrito e agora
totalmente aberto ao público.

Em meio ao burburinho da descoberta das atividades exercidas

no meu antigo estabelecimento, o processo pela prática de jogos ilegais e a


minha separação, creio que a pior parte foi o período em que estive longe da
minha esposa. Eu não era mais eu mesmo, tentava me reerguer, me reunia
com os meus amigos, mas nada parecia estar bom. Era apenas a sombra do

implacável homem de negócios que um dia havia sido. Depois que fizemos as
pazes, tudo mudou. Senti as minhas energias se renovarem e, aos poucos,
voltei a ser o mesmo de sempre, o homem que não precisa de permissão, ele
simplesmente vai lá e faz.

Com astúcia, soube suportar e esperar até que os escândalos


fossem esquecidos por completo e então coube a mim o papel de tentar voltar
às atenções da grande mídia para a minha vida, principalmente no mundo dos
negócios. Como já havia a curiosidade por conta do processo e do bloqueio

de parte dos bens, por serem provenientes de atividades ilícitas, não foi
preciso de muito para atrair a atenção da imprensa como se eles fossem
abelhas em volta do mel.

Por meses, deixei que pequenas informações vazassem a respeito


dos meus próprios passos, da reabertura do Sensations e das novidades da
casa de shows, que reabriria e que se tornaria a mais badalada da cidade. As
especulações criaram grandes expectativas e elas são as responsáveis pelo
evento ter se tornado algo tão grandioso.

Para as pessoas e muito menos para a imprensa já não importa o

que foi o antigo Sensations, tudo o que querem é ver o que Gabriel Souto
conseguiu construir, depois da grande queda. Precisam ver o quão eficaz eu
fui em me reerguer, se sou ou não o mesmo, depois do acontecido e de ter me
tornado um homem de família.

Felizmente, ainda sou o mesmo quando o assunto é o mundo dos


negócios e a eles darei muito mais do que esperam para que amanhã e pelos
próximos anos, seja apagada da lembrança de todos a imagem de um Gabriel
Souto fraco. Ficará apenas o que eles conheciam até pouco tempo. Alguém
que detém o controle da própria vida nas mãos. Que faz os amigos o
admirarem e os inimigos também.

Com as experiências, aprendi que cada um tem de mim o que


merece. Fora, sou o que quero que todos vejam. Dentro da minha casa, sou

apenas como uma pessoa qualquer, alguém que ama a família que criou.

— As câmeras te amam, meu amor — afirmo, quando enfim


conseguimos alcançar a porta de entrada do Sensations. O lugar está
iluminado com luzes de LED de várias cores, tanto por dentro quanto por
fora e esta foi a melhor ideia que eu e os meninos poderíamos ter. O lugar
parece deslumbrante em plena noite de sexta-feira, o que torna tudo ainda
mais sedutor aos olhos dos futuros frequentadores e, desta vez, por motivos

diferentes.

— Elas amam você, Gabriel. Não finja que não sabe disso. Casei
com uma celebridade e estou ficando deslumbrada com isso — ela brinca. Sei
que não está falando sério, pois muitas vezes os holofotes a incomodaram,
principalmente depois do nascimento do nosso filho.

— Se você diz...

— Sabia que antes mesmo de te conhecer eu já via o seu rosto


nos sites de fofoca?

— Via mesmo? Aposto que as notícias não eram nada lisonjeiras


— falo ao abraçá-la, agora que atravessamos a porta e estamos a sós no vão
que fica antes do grande salão, que está todo preparado para receber o grande
público.

Sei por que, mais cedo, os meus novos sócios fizeram uma

pequena recepção para os funcionários e outra para possíveis patrocinadores.

— Não eram mesmo. Longe disso. Mas isso não muda o fato de
eu ter te achado o homem mais lindo que eu já tinha visto na minha vida,
mesmo que fosse só por foto.

— Agradeço os elogios, minha gata, mas eu prefiro que você


diga o quanto sou lindo, gostoso e viril quando estiver pulando no meu pau e
esfregando esses peitos no meu rosto. Mal vejo a hora de ficarmos a sós.

— E por que teríamos de estar a sós? — pergunta, apenas para

me atiçar, pois sabe exatamente do que estou falando.

Feliz por ter esse tempinho a sós com ela, antes que a loucura
nos impeça de estarmos assim por um bom tempo, trago-a para mais perto,
beijo o seu pescoço e então digo ao seu ouvido:

— Porque, na ocasião, você estará sem esse tanto de roupa, esses


seios estarão bem perto da minha boca e você estará pulando no meu pau.
Depois, quando achar que não aguenta mais, permitirá que eu coma a sua
bunda, do jeitinho que eu ensinei você a apreciar. Vai deixar, não é mesmo,
bebê? — digo com uma mordida na ponta da sua orelha e seu corpo treme de
excitação.

— Deixo tudo o que você quiser, faço porque quero e por estar
muito, muito orgulhosa de você — afirma, trazendo-me mais para perto, se é

que ainda é possível.

— Se estou em pé novamente, é graças a você, linda. É a minha


força, é o coração que bate dentro do meu peito. Tudo isso também é por
você, sempre foi por você.

— Que casal mais apaixonado! Chego a ficar emocionado com


as notícias que leio sobre vocês. Sempre juntos, a família perfeita!
— Como você entrou aqui? — Imediatamente, coloco-me na
frente da minha esposa, protegendo-a com o meu corpo do homem que eu

não esperava ver novamente, não depois de tantos meses, não depois de ele
ter conseguido transformar a minha vida em um inferno. — Como tem
coragem de ainda aparecer na minha frente?

— Sou o seu pai — afirma, mas nem ele acredita no que fala.

Não o considero assim e muito menos ele me trata como um filho. Está muito
bem vestido e eu não posso nem imaginar como conseguiu essas roupas,
apenas sei que não foi por um meio lícito.

— Eu quero que você saia daqui agora e não volte a me


procurar. Tentou me destruir e aqui estou mais uma vez. Mais forte do que
nunca. Não importa quantas vezes você ou qualquer outro tente me derrubar,
eu sempre consigo dar a volta por cima.

— Como você é prepotente, garoto!

— Não é prepotência, são apenas os fatos. Alguém que


sobreviveu a você é capaz de sobreviver a qualquer coisa — afirmo, sentindo
os braços trêmulos da minha pequena em volta da minha cintura. Sei que ela
está assustada e por isso eu tenho vontade de esquecer que esse homem um
dia foi o meu pai e mandar ele direto para o inferno, sem direito a passagem
de volta. — Vá embora daqui — peço, mais uma vez, com calma, ainda que
por dentro esteja atento a todos os seus movimentos, por suspeitar que não

veio apenas conversar ou ver como ficou o lugar.

— Você não pode mandar ninguém embora, não é assim que se


trata um cliente, meu filho. — Vejo quando a sua mão vai para as costas. No
mesmo instante, levo a mão ao meu bolso traseiro e aciono o comunicador
que trazia dentro dele.

O aparelho de última geração foi escolhido por nós três com a


intenção de nos comunicarmos com facilidade, para que não aconteça
incidentes assim e que possam me interromper quando estiver tendo os meus
momentos de intimidade com a minha mulher.

Agora que acionei os caras, principalmente Dom, que também é


segurança, estou em dúvida se o dinheiro gasto foi bem empregado. O
aparelho no meu bolso permite que eles ouçam tudo que está sendo dito e não
existe motivos para que eles ainda não estejam aqui.

— Leônidas, você não é bem-vindo aqui — começo a falar


quando, por cima do ombro dele, vejo Dom se aproximar sem fazer nenhum
barulho. É tão discreto que Leônidas só percebe a sua presença quando já está
imobilizado pelo pescoço.

— Algum problema aqui, cara?

— A entrada de Leônidas Souto está terminantemente proibida


nesse lugar. Deem um jeito de garantir que algo como o que aconteceu aqui
não se repita.

— Tudo bem — diz. — Tadeu, reviste os bolsos dele e também


por baixo da camisa — pede.

— Muito esperto você, Gabriel. Eu estou impressionado, nem


parece aquele garoto fracote que quase acabou com a própria vida de tanto se

drogar — com prazer, relembra o quão fundo eu caí e não perde a pose nem
mesmo ao se ver na situação em que está.

Se a cadeia algumas vezes transforma uma pessoa, fazendo com


que mude ou pelo menos tente se tornar alguém melhor, nada disso aconteceu
com Leônidas, ele saiu igual ou pior do que entrou. É uma pena que não
possa ficar a vida inteira trancafiado. Só assim para deixar de ser uma ameaça
para mim e para a minha família.

Quando a revista termina, nas mãos do segurança aparece uma

arma de fogo calibre 38. Eu o olho sem acreditar que pôde ir tão longe e,
atrás de mim, ouço o som de um choro bem baixinho. Rapidamente, levo as
minhas mãos até às suas, que ainda estão em volta da minha cintura e
entrelaço os nossos dedos. Elas estão trêmulas e geladas e eu só preciso que
saiba que está tudo bem, que nada de ruim irá nos acontecer.

— O que você pretendia entrando aqui com essa arma? —


questiono, tentando manter a calma e não assustar ainda mais a minha
mulher.

— Segurança. — É só o que ele diz.

— Tirem ele daqui e deixem que se explique para a polícia —


peço a Dom e ele acena com a cabeça.

— Boa sorte, pequeno Gabriel. — São as últimas e debochadas


palavras do homem que nunca amou alguém além de si mesmo.

Por um tempo, cheguei a ser como ele, mas no meu caminho


apareceu um anjo em forma de adolescente e, no meu coração, plantou a
semente da amizade que por anos fincou raízes dentro de mim. Muito tempo
depois, quando eu achava ter a vida que eu merecia, voltou e mostrou que o
amor vai além de qualquer compreensão.

Sozinhos novamente e já sendo possível ouvir as vozes de


pessoas que estão ansiosas pela abertura dos portões, trago o corpo da minha

morena para frente e no seu rosto vejo a expressão do medo. Do horror pelo
que poderia ter acontecido, estando o homem armado e, aparentemente, fora
do seu juízo perfeito.

— Não chore, morena. Está tudo bem — Tento acalmá-la


enquanto, com carinho, seco as suas lágrimas. — Você não quer que te vejam
com a maquiagem toda borrada, não é mesmo? — Ela nega com a cabeça e
acaba soltando uma risadinha fraca. — Além do mais, você me privou desta
boca gostosa por causa disso e não é justo que coloque tudo a perder por

causa de algumas lágrimas.

— Já me convenceu — afirma, abraçando-me apertado e sendo


retribuída.

Tanto quanto Luana, também preciso desse toque, de sentir que

está tudo bem, pois, apesar de ter precisado ser forte, no fundo eu senti muito
medo. Medo por mim, por não poder pensar na possibilidade de algo
acontecer comigo e ter que deixar a minha mulher e o meu filho sozinhos.
Medo por ela, por saber que eu simplesmente não poderia viver em um
mundo em que ela não estivesse.

— Nós estamos bem, meu amor. Hoje é uma noite muito


importante para nós dois e aquele homem não voltará a nos incomodar —
afirmo.

— Como você...

— Eu simplesmente sei, bebê — assevero, sabendo que


precisarei dobrar a segurança até ter a garantia que ele não representará mais
risco algum para nós. — Está preparada? O grande show está para começar.

— Estou excitada.

— Está, é? — brinco com a frase de duplo sentido, apenas para


tê-la desconcertada como agora.

— Não esse tipo de excitação, seu bobo.

— Então vamos, porque eu não vejo a hora de você me mostrar


o outro tipo de excitação.

— Safado!

— Gostosa.

— Dono da porra toda!

— Dona do dono da porra toda.

— Gostei disso — ela diz.

— Eu sabia que você gostaria — digo, soltando o seu corpo para


depois entrelaçar os nossos dedos e então perguntar: — Preparada?

— Muito.

Depois de uma rápida olhada no salão para checar se está tudo

certo com as mesas, garçons, barmans e bebidas, eu e minha morena


voltamos para os portões, que em nada lembram o antigo Sensations, para o
devido protocolo.

Novamente somos surpreendidos por flashes e, desta vez


microfones também são apontados na direção do meu rosto, mesmo que os
repórteres estejam atrás de uma fita vermelha ridícula que, segundo Lucas,
terá que ser cortada para dar sorte. Penso que é uma bobagem, mas n