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FACAM – FACULDADE DO MARANHÃO

SOMAR SOCIEDADE MARANHENSE DE ENSINO SUPERIOR LTDA

CNPJ 04.855.275/0001-68

GRADUAÇÃO – PÓS-GRADUAÇÃO – ENSINO À DISTÂNCIA

PSICOLOGIA SOCIAL

Me. GISELLI RAMOS ZORDAN

São Luís
2013
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Zordan, GiselliRamos

Psicologia Social / Giselli Ramos Zordan –. São Luís, 2013.

Impresso por computador (Fotocópia)

Apostila (Graduação em Serviço Social a Distância) – Curso de Graduação


em Serviço Social, Faculdade do Maranhão, 2013.

1. Psicologia Social I. Título.

CDU: 159.9:36
3

SOMAR – Sociedade Maranhense de Ensino Superior Ltda.

FACAM – Faculdade do Maranhão

Carlos César Branco Bandeira


Diretor Geral

Thatiana Soares Rodrigues Bandeira


Diretora Executiva

Henilda Ferro Castro


Diretora Acadêmica

Heraldo Marinelli
Coordenador Geral de Ensino a Distância

MeyryJanes Costa Almeida


Supervisora Adjunta de Ensino a Distância

Diana Costa de Melo


Coordenadora de Serviço Social
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FLUXOGRAMA DE ESTUDO

ENTRADA

Inscrição / Seleção

TUTORIA

Orientação ao aluno Encontros


pedagógicos

Recebimento do
Processo de Estudo
material
Independente Avaliação presencial
instrucional

T
Não alcançou Alcançou
U desempenho desempenho
satisfatório satisfatório
T

Aluno entra em Aluno inicia Estudo


I Independente dos
processo de
reorientação com o demais módulos
A tutor

SAÍDA
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DISCIPLINA: PSICOLOGIA SOCIAL


CARGA HORÁRIA: 72h

PLANO DE ENSINO

EMENTA

História e concepção da Psicologia Social. Sujeito na sociedade. A influência


do grupo e da cultura no indivíduo. Principais enfoques teóricos. Matrizes de análise
da relação indivíduo/ sociedade. A constituição da subjetividade no mundo
contemporâneo. Categorias fundamentais da Psicologia Social: Valores, Atitudes,
relação social, a influência social, a representação social, a cognição social, a
identidade social. Discussão de conteúdos como gênero, cidadania, trabalho,
formação de opinião, estereótipo, preconceito, mídia, ideologia, conformidade,
persuasão e conflito.

OBJETIVOS

Objetivo Geral: O objetivo desta disciplina é proporcionar a você o contato com


elementos teóricos e metodológicos que facilitem a compreensão da Psicologia
Social, sua organização, bem como fazer entender o processo de interação social, a
interdependência entre os indivíduos e o encontro sócio-cultural.

Objetivos Específicos:
 Compreender e conhecer conceitos vinculados à Psicologia Social de acordo
com os principais autores da área.
 Debater a formação e o desenvolvimento de Ideologia, Identidade, Política e
Gênero.
 Identificar a influência do social no comportamento humano.
 Reconhecer e questionar relações de poder entre sujeitos e instituições.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

RECURSOS
Quadro branco e acessórios;
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Textos;
Data Show;
Computador;
Material Impresso

AVALIAÇÃO

A avaliação será processual e contínua através de observação,


acompanhamento dos trabalhos em diversos momentos de aprendizagem.
O processo ensino-aprendizagem será avaliado na dimensão qualitativa e
quantitativa – a partir de produção individual e coletiva, expressão crítica e reflexiva
dos conteúdos, assiduidade, criatividade, organização e desempenho nas atividades
no contexto presencial e a distância.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ARONSON, E. Psicologia social . 3. Ed. Rio de Janeiro: LTC Editora. 2003

BOCK, A.; GONÇALVES, M.G.M.; FURTADO, O. (orgs.) Psicologia Socio-histórica:


Uma perspectiva crítica em psicologia. 3 ed. São Paulo: Cortez 2007.

JACQUES, M.G.C et al. Psicologia Social contemporânea: livro-texto. 12ed.


Petrópolis: Vozes, 2009.

Bibliografia Complementar

LANE, S.T.M.: (ORG.) Psicologia Social: o homem em movimento. 13 ed. São Paulo:
Brasiliense, 2006.

MOSCOVICI, S. Representações sociais: Investigações em psicologia social.


Petrópolis, RJ: Ed. Vozes. 2003.

MYERS, D. J. Psicologia social. 6ª Ed. Rio de Janeiro: LTC Editora. 2000.

RODRIGUES, A., Assmar, E. M. L. &Jablonski, B. Psicologia social27ª ed.


Petrópolis, RJ: Ed. Vozes. 2009.

ZANELLI, J. C. Interações humanas, significados compartilhados e


aprendizagem organizacional. Curitiba: ENEO, 2000.
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APRESENTAÇÃO

Seja Bem Vindos a Disciplina de Psicologia Social! Este estudo é


fundamental para o curso de Serviço Social, pois nele discute-se e aprofunda-se o
conhecimento sobre a organização e planejamento das ações que o Assistente Social
comoum profissional envolvido no seu cotidiano terá na sua prática profissional com
a temática.
Esta apostila é um consolidado prático para o estudo e está dividida em
três capítulos básicos: História e Concepção da Psicologia Social, Categorias
Fundamentais da Psicologia Social e Aplicações da Psicologia Social; que se
subdividem em unidades que buscam dar conta do que é e como se processa a
Psicologia Social, constitui-se na compilação de textos de variados teóricos, que se
propuseram a desvendar o tema.
Para tanto, convido você a estudar lembrando que a modalidade de
Educação a Distância - EAD não é outra educação, pois, coerentemente com o
processo educativo, contém em si uma concepção de educação. Contudo, trata-se de
modalidade educacional com características distintas, tendo em vista sua
organização, estrutura, atores envolvidos (professores, tutores, apoio administrativo,
etc) e o uso, imprescindível, de distintas tecnologias (Internet e recursos didáticos
(textos, vídeos, etc).
Nesse sentido, a EAD exigirá de alunos e professores saberes e práticas
que extrapolam o processo didático a que habitualmente estão acostumados a
exercitar. É importante chamarmos a atenção que a EAD, por realizar-se para além
dos limites e espaços físicos da escola, exige dedicação,disciplinaecompetências
para que você possa desenvolver sua aprendizagem com autonomia. Estudar a
distância implica ajustar suas necessidades, bem como as condições pessoais,
profissionais e acadêmicas, lembre-se do seu investimento e do que você colherá
como fruto/resultado do seu esforço.
Por isso repito SEJA BEM VINDO e Bons Estudos!

Profª Me. Giselli Ramos Zordan


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 9
CAPÍTULO I HISTÓRIA E CONCEPÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL ............... 11
Unidade 1.1 Histórico da Psicologia Social .......................................................... 11
Unidade 1.2 Perspectiva Pragmática ................................................................... 15
Unidade 1.3 Perspectiva Fenomenológica ........................................................... 21
Unidade 1.4 Psicologia Social no Brasil ............................................................... 27
CAPÍTULO II CATEGORIAS FUNDAMENTAIS DA PSICOLOGIA SOCIAL ...... 37
Unidade 2.1 Valores e Atitudes ............................................................................ 37
Unidade 2.2 Relação Social e Influência Social ................................................... 41
Unidade 2.3 Cognição Social ............................................................................... 52
Unidade 2.4 Representação e Identidade Social ................................................. 56
CAPÍTULO III APLICAÇÕES DA PSICOLOGIA SOCIAL.....................................64
Unidade 3.1 Psicologia Social nas Organizações..................................................64
Unidade 3.2 Psicologia Social e Desenvolvimento Comunitário............................70
Unidade 3.3 Psicologia Social e Saúde ................................................................ 76
Unidade 3.4 Críticas à Psicologia Social .............................................................. 82
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 89
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1 INTRODUÇÃO

Vamos definir a Psicologia Social como sendo uma área da Psicologia


Geral que busca estudar a interação social; sendo assim, a ramificação da Psicologia
que busca a compreensão das interações do homem, entre as diferentes formas de
encontro social.
Podemos definir a Psicologia Social como o estudo científico das
manifestações comportamentais de caráter situacional, suscitadas pela interação de
uma pessoa com outras pessoas ou pela mera expectativa de tal interação, bem como
dos estados internos que se inferem logicamente destas manifestações.
Trata-se de um ramo da psicologia que, com base em uma perspectiva ampla
do comportamento humano, busca extrair sentido das interações entre as pessoas em
contextos sociais, ou seja, nas interações entre amigos, nas relações amorosas e nas
relações interpessoais que ocorrem no trabalho, na escola ou na rua.
Figuram entre os temas de interesse da Psicologia Social fenômenos como os
processos de grupo, a atração interpessoal, o comportamento prosocial (por que as
pessoas ajudam umas às outras), o preconceito, o estereótipo, a agressão, entre
outros. A Psicologia Social começou a se desenvolver na primeira metade do século
XX, mas tornou-se um campo consolidado de estudo somente a partir das décadas
de 1950 e 1960, com o estudo científico dos pensamentos, sentimentos e outros
fenômenos.
Nas décadas de 1970 e 1980, foi de grande importância para a Psicologia
Social o progresso crescente no estudo dos processos cognitivos básicos, que acabou
por constituir um campo de estudo amplo e sofisticado: a Cognição Social. Trata-se
da área que estuda cientificamente como as pessoas pensam a respeito de outras
pessoas e de seu mundo social.
A partir dos anos 1990, outro desenvolvimento importante ocorreu na
Psicologia Social: a aproximação da disciplina com a Biologia e com a Psicologia
Evolucionista, que busca aplicar as idéias básicas da evolução estendendo-a à
compreensão do comportamento social humano. Foi também nesse período que
psicólogos sociais passaram a estudar o cérebro na tentativa de identificar as relações
entre seu funcionamento e as interações sociais entre os indivíduos. Surge, então, a
Neurociência Social Cognitiva.
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Alguns autores dizem que a Psicologia Social tomou dois caminhos distintos:
um tenta atender às necessidades da Psicologia; o outro, atende à política das classes
dominantes. Assim sendo, torna-se difícil afirmar que a Psicologia Social está mais
próxima da Psicologia ou da Sociologia.
Para outros autores, a Psicologia Social surge graças aos êxitos das várias
Ciências Sociais. Entretanto, reconhece que só esse motivo não foi o bastante; o que
influiu mesmo foram os interesses ideológicos e políticos da burguesia. É reforçado
a idéia dos que vêem a Psicologia Social como um ramo da Sociologia burguesa,
pronta para defender a classe dominante do crescente movimento revolucionário da
classe operária.
Dentre o campo de pesquisa e estudo que a Psicologia Social atua, ela
possuiuma percepção social; a comunicação; as atitudes; a mudança de atitudes; o
processo de socialização; os grupos sociais e os papéis sociais. Essa percepção
social nos oferece um manancial de impressões de alteridade, com suas
características, dando subsídios para a consciência fazer uma organização e gerar
um sentido (ex: jovens com tênis, calça jeans e mochilas = grupo de estudantes).
A comunicação como processo de emissão/ codificação e
recepção/decodificação das mensagens é de suma importância para a Psicologia
Social, para verificação dos níveis e graus de influências, interdependência e poder
de persuasão, propriamente dito.
As atitudes são predisposições para agir favorável ou desfavoravelmente em
relação àspessoas e aos objetos presentes no meio social, mediante informações
acumuladas, com forte carga emocional, que dão indícios que o indivíduo tome
determinada ação, na direção de seu comportamento. Nós desenvolvemos atitudes
(crenças, valores e opiniões) em relação a qualquer elemento do meio social. As
atitudes são bons preditores de comportamentos.
A Mudança de Atitudes ocorre a partir de novas informações, novos afetos ou
novos comportamentos ou situações. (ex: um líder de opinião pode alterar as formas
como uma pessoa vê determinado produto, principalmente se ele for convincente e
alguém merecedor de respeito e confiança, além de admiração).
Os papéis sociais, como médico, professor, pai, mãe, filho, aluno, entre outros,
são importantes para a Psicologia Social, pois assim poderemos ao certo saber o que
esperar de cada um – funcionando como reguladores dos comportamentos sociais,
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no encontro humano. Eles nos preparam para o conjunto de rituais de nossa


complexa sociedade e organizam as nossas relações. Desde pequenos, vamos
aprendendo quem é quem e quem somos. Vamos crescendo e nos abrindo para
diferentes grupos sociais. No início, tudo já era uma relação, mas vamos nos
desenvolvendo sempre nesse ir e vir de socialização e diferenciação, para irmos
compondo a nossa singularidade.
Para a Psicologia Social, a subjetividade humana surge do contato entre os
homens e dos homens com a Natureza, isto é, esse mundo interno que possuímos e
suas expressões são construídos nas relações sociais.
A Psicologia Social naturalmente não constitui o único campo de estudo
interessado no comportamento social. Todavia, a área se diferencia de disciplinas
como a Sociologia e a Antropologia, por exemplo, fundamentalmente pelo uso
sistemático do método científico, pela ênfase colocada no papel da situação nas
causas do comportamento social, pelo estudo dos processos sócio-cognitivos e das
diferentes individuais como antecedentes do comportamento, bem como pelo foco no
indivíduo em sua circunstância social (e não em grandes grupos ou sociedades).

CAPÍTULO I HISTÓRIA E CONCEPÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL

Unidade 1.1 Histórico da Psicologia Social

Para traçarmos a história da Psicologia Social é necessário que conheçamos o


percurso percorrido por ela ao longo do tempo, seus avanços, retrocessos e
construções.
A psicologia social embora tenha bases européias, tem seus fundamentos enraizados
nos Estados Unidos da América, por ocasião das migrações de cientistas da Áustria
e da Alemanha expulsos pelo nazismo. E da fusão entre fenomenologia e positivismo,
teria nascido a Psicologia Social Cognitiva, diz Bernardes (2010).
A Psicologia Social experimental atingiu seu auge, com a publicação do livro
"O soldado americano" em 1949, um estudo sociológico referente ao período da
guerra que trata da adequação dos soldados, bem como da eficácia dos treinamentos
sobre seu comportamento.
Esta psicologia pragmática, como enfatiza Sílvia Lane, visavaalterar e/ ou criar
atitudes interferir nas relações grupais para harmonizá-las e assim garantir a
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produtividade do grupo, que é uma atuação que se caracteriza pela euforia de uma
intervenção que minimizaria conflitos, tornando os homens reconstrutores da
humanidade que acabava de sair da destruição de uma II Guerra Mundial.
É interessante ressaltar o que Bernardes (2010) chama de concepções teóricas
que se desdobraram ou que se atravessaram na Psicologia Social: são as formas
elencadas por Farr(1996): psicológica e sociológica. Na primeira, as explicações do
coletivo e do social são reduzidos a leis individuais. O indivíduo é o centro da análise,
suas relações com o contexto social não influem. Há uma separação entre o homem
e o social. O que importa, neste caso, é o comportamento do indivíduo; na forma
sociológica, os estudiosos valorizam a relação entre o individual e o coletivo.
É exatamente esta psicologia social psicológica que se desenvolve na América
do Norte, como é ressaltado por Bernardes:"Seus princípios básicos nas explicações
dos fenômenos sociais são: tratá-los como fenômenos naturais através de métodos
experimentais, sendo que seus moldes explicativos nos remetem sempre, em última
instância, a explicações centradas no indivíduo." (2010, p. 27)
Referenciais teóricos como George Mead, que coloca o "estudo da linguagem
e do pensamento humano dentro de um contexto evolucionista"(BERNARDES,
2010.P. 29) e seu modelo de mente: " seu modelo de mente era síntese de fenômenos
tanto em nível coletivo quanto em nível individual"(Id.ib.), foram ignorados na
constituição da psicologia social norte americana.
Outra perspectiva deixada de lado foi a histórico- crítica, centrada nas idéias marxistas
de ideologia, alienação e consciência de classe, com objetivos de transformação.
A psicologia comportamental desenvolvida na América do Norte foi levada para
a Europa e lá, como nos diz Guarechi (2007,p.25) foi elaborado um verdadeiro "Plano
Marshal Acadêmico" para que a psicologia social nos moldes norte americanos tivesse
êxito. Graças à cientistas como Moscovici, que questionou a capacidade desta
psicologia de atender as necessidades do social, estas tentativas não vigoraram.
O papel de colonizado dos países latino-americanos, levou a importação do
modelo de psicologia social predominante na América do Norte, visto que segundo
Farr (1996), os renomados professores de Psicologia Social na América Latina fizeram
seus cursos de graduação nos Estados Unidos, exemplo disso foi Aroldo Rodrigues,
o grande representante da psicologia social cognitivista no Brasil. Nos anos de 1960
13

surge a Associação Latino-Americana de psicologia social(Alapso), criada nos


preceitos da psicologia social norte americana.
Em rechaço à Alapso e procurando uma psicologia com postura crítica e
adequada a realidade dos países latino-americanos é que surgem os movimentos que
resultariam na psicologia social sócio-histórica. Esta reação à psicologia tradicional e
seus conceitos que não se aplicava à realidade latino-americana, levou à chamada
"crise da psicologia social", é que tomou corpo nos Congressos da Sociedade
Interamericana de Psicologia em 1976, em Miami nos Estados Unidos, e em Lima no
Peru, em 1979.
Segundo Bernardes como pontos principais da crise da psicologia social,
estavam a dependência teórico metodológica, principalmente dos Estados Unidos, a
descontextualização dos temas abordados, a simplificação e a superficialidade das
análises destes temas, a individualização do social na Psicologia Social, assim como
a não preocupação política com as relações sociais no país e na América Latina. A
palavra de ordem era a transformação social.
Esta crise deu origem as associações como a Associação Venezuelana de
Psicologia Social (Avepso) e a Associação Brasileira de Psicologia Social (Abrapso).É
oportuno ressaltar que a crise da psicologia social já vinha acontecendo na Europa
desde a década de 60, principalmente na França, segundo Lane.
Na França, a tradição psicanalítica é retomada com toda veemência após o
movimento de 68, e sob sua ótica é feita uma crítica à psicologia social- norte
americana como uma ciência ideológica, reprodutora dos interesses da classe
dominante, e produto de condições históricas específicas, o que invalida a
transposição tal e qual deste conhecimento em outros países, em outras condições
histórico-sociais.
Esse movimento também tem suas repercussões na Inglaterra, onde Israel e
Täjfell analisam a crítica sob o ponto de vista epistemológico com os diferentes
pressupostos que embasam o conhecimento científico é a crítica ao positivismo, que
em nome da objetividade perde o ser humano.Voltando ao caso específico da America
Latina, os estudiosos da psicologia social, trilharam novos caminhos buscando uma
psicologia social que atendesse à realidade latino-americana.
Partindo desta idéia de uma psicologia social transformadora, e em busca da
superação da "crise" Sílvia Lane foi buscar no marxismo as bases epistemológicas
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para um novo referencial para a psicologia social e com a compreensão do homem


como ser que interage no meio, transforma-o e revela o ser dialético descrito por
Heráclito de Éfeso(540-480 a.C,) nos tempos da Grécia Antiga quando dizia que um
homem não toma banho no mesmo rio por duas vezes, pois da segunda vez nem ele
nem o rio serão a mesma pessoa(KONDER,1987,p.8).
Nesta perspectiva, surge a psicologia sócio-histórica, baseada nas pesquisas
e elaborações de conceitos de Sílvia Lane, um trabalho feito em conjunto no qual,
conforme Bock (2007)ressalta que nos permite perceber a coerente articulação entre
suas proposições teóricas e práticas por meio da compreensão de duas importantes
questões: a dialética subjetividade-objetividade; e a formação e mudança de valores.
A partir desta conscientização surge uma psicologia voltada para a realidade
brasileira, não uma psicologia que como Lane (1989,p.12), ressalta, busque a
objetividade nos moldes positivistas, mas compreenda o homem como ser histórico,
produtor de mudanças. E o papel do psicólogo social deixa de ser de um mantenedor
da ordem e passa a ser de um agente de transformação.
Mesmo antes de estabelecer-se como Psicologia Social as questões sobre o
que é inato e o que é adquirido no homem permeavam a filosofia mais especificamente
como questões sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade, avaliando como as
disposições psicológicas individuais produzem as instituições sociais ou como as
condições sociais influem o comportamento dos indivíduos. Segundo Jean Piaget
(1970) é tarefa dessa disciplina é conhecer o patrimônio psicológico hereditário da
espécie e investigar a natureza e extensão das influencia sociais.
Enquanto área de aplicação distingue-se por tomar como objetos as massas
ou multidões associada à prática jurídica de legislar sobre os processos fenômenos
coletivos como linchamento, racismo, homofobia, fanatismo, terrorismo ou utilização
por profissionais do marketing e propaganda (inclusive política) e associada aos
especialistas em dinâmica de grupo e instituições atuando nas empresas,
coletividades ou mesmo na clínica (terapia de grupos). Nessa perspectiva poderemos
estabelecer uma sinonímia ou equivalência entre as diversas psicologias que nos
apresentam como sociais: comunitária, institucional, dos povos (etnopsicologia) das
multidões, dos grupos, comparada (incluindo a sociobiologia), etc.
Segundo Aroldo Rodrigues, um dos primeiros psicólogos brasileiros a escrever
sobre o tema, a Psicologia Social é uma ciência básica que tem como objeto o estudo
15

das "manifestações comportamentais suscitadas pela interação de uma pessoa com


outras pessoas, ou pela mera expectativa de tal interação". A influência dos fatores
situacionais no comportamento do indivíduo frente aos estímulos sociais. (Rodrigues
, 1981)
O que precisa ser esclarecido para entender a relação do “social” com a
psicologia, quer concebida como ciência da mente (psique) quer como ciência do
comportamento é como esse “social” pode ser pensado e compreendido desde o
caráter assistencialista ou gestão racional da indigência na idade média até
emergência das concepções democráticas ciências humanas no século XX passando
pela formulação das questões sociais em especial os ideais de liberdade e igualdade
no século das luzes e os direitos humanos.

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1.Qual é a origem da psicologia social?


___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
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2.Onde e de que forma pode ser aplicada a psicologia social?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
__________________________________________________________________

Unidade 1.2 Perspectiva Pragmática


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Os campos de conhecimento que compõem o território daquilo que na


modernidade ficou conhecido como ciência desenvolveram-se, historicamente,
associados à expansão do capitalismo.
E, como não poderia deixar de ser, sempre abrigaram, em seu interior, as
marcas das contradições inerentes a essa forma de estruturação das relações sociais.
No caso particular da Psicologia Social - um campo fragmentado, no qual diferentes
teorias e abordagens concorrem pelo direito e pelo prestígio de falar em nome da
Ciência, avanços e retrocessos, conhecimento legítimo e ideologia compõem o quadro
do enfrentamento entre os membros do campo.
Na presente exposição, pretende-se considerar as articulações entre o campo
científico e o campo social, com o objetivo de refletir a respeito das relações entre as
transformações da realidade brasileira e a produção de conhecimento em Psicologia
Social.
Parte-se do pressuposto de que as questões teóricas e metodológicas não se
esgotam no âmbito interno de cada uma das abordagens e nem mesmo no plano mais
geral da Epistemologia, exigindo, para seu esclarecimento, a análise de elementos de
ordem ética, política e social. Analisam-se aspectos específicos relevantes da
produção de conhecimento em Psicologia Social, como a fragmentação do campo, a
questão da interdisciplinaridade, do dogmatismo, do holismo, do fracionamento do
objeto de estudo, da autonomia ou dependência dos campos de conhecimento, das
relações entre teoria e prática e dos compromissos entre as teorias e os diferentes
grupos que compõem o campo da sociedade.
Inicialmente, devemos lembrar que um elemento essencial para o
desenvolvimento da Psicologia Social no Brasil, após a década de 60, foi a crítica ao
modelo norte-americano de produção de conhecimento, que aconteceu a partir de
uma situação social particular. Externamente, houve os movimentos estudantis de 68
e toda a repercussão de crítica política a eles associada. Internamente, tivemos o
recrudescimento da repressão militar instaurada a partir de março de 64 que, em
contrapartida, refletiu-se em uma certa unificação das críticas ao regime militar.
O apoio do governo norte-americano às ditaduras latino-americanas e seu
tradicional conservadorismo político não poderia produzir, nos ambientes acadêmicos
mais críticos, posição favorável a um alinhamento com a produção psicológica mais
conservadora desse país. Vários autores brasileiros que participaram desse
17

movimento crítico da Psicologia Social brasileira registraram suas impressões do


processo:
Na América Latina, dependente econômica e culturalmente, a Psicologia Social
oscila entre o pragmatismo norte-americano e a visão abrangente de um homem que
só era compreendido filosófica ou sociologicamente - ou seja, um homem abstrato.
Os congressos interamericanos de Psicologia foram termômetros dessa oscilação e
culminam, em 1976 (Miami), com críticas mais sistematizadas e novas propostas,
principalmente pelo grupo da Venezuela, que se organiza numa Associação
Venezuelana de Psicologia social (AVEPSO) coexistindo com a Associação Latino-
Americana de Psicologia Social (ALAPSO). Nessa ocasião, psicólogos brasileiros
também faziam suas críticas, procurando novos rumos para uma Psicologia Social
que atendesse à nossa realidade. Esses movimentos culminam, em 1979 (SIP - Lima,
Peru), com propostas concretas de uma Psicologia Social em bases materialistas-
históricas e voltadas para trabalhos comunitários, agora com a participação de
psicólogos peruanos, mexicanos e outros (LANE, 1984, p. 11).
Em conseqüência desse movimento de crítica, novas concepções teóricas
foram sendo procuradas.
Depois de uma fase bastante confusa na década de 70, identificada como um
momento de "crise da psicologia social", na qual havia uma grande indefinição na área
e, conseqüentemente, nos programas oferecidos nas escolas de psicologia, parece
que alguns caminhos alternativos começam a se delinear. Um maior intercâmbio entre
o Brasil e outros países, particularmente da América Latina. Uma maior
conscientização dos problemas sociais enfrentados pelos países latino-americanos.
Um incremento da produção científica crítica buscando encontrar soluções para
problemas específicos do continente latino-americano. Uma fundamentação teórica
com base em postulados e concepções de homem e de realidade social alternativa à
concepção positivista (OZELLA, 1996, p. 140-141).
E esse esforço de procura de autonomia em relação à produção científica norte-
americana, associado à busca de uma prática social crítica e transformadora, tem
servido como elo de ligação para uma parcela significativa da comunidade de
psicólogos sociais brasileiros, que buscavam mudanças.
Na ausência desses desenvolvimentos, a produção da área corre o risco de se
perder na justaposição da diversidade de microteorias sem identidade clara, versando
18

a respeito de uma multiplicidade de aspectos diminutos e não integrados do objeto.


Isso inviabiliza um progresso científico consistente. A impossibilidade de confrontação
entre as formulações distintas pode paralisar a evolução no campo, na medida em
que não fique claro o modo pelo qual cada uma delas se articula a um paradigma
consistente. Mesmo se recusássemos, junto com Kuhn, a proposição popperiana de
que a atividade de refutação e falsificação de teorias constituiria o modo salutar de
desenvolvimento da Ciência, ainda assim teríamos que nos defrontar com a exigência
da direção de paradigmas consistentes. O mesmo pode ser dito a partir das
proposições de Pierre Bourdieu, seja na escolha do cientista de "estratégias de
conservação e sucessão", que visam assegurar a consolidação de teorias já
existentes, seja na opção mais arriscada e ambiciosa de "estratégias de subversão",
que visam lucros mais altos derivados da substituição dos paradigmas vigentes.
É aqui que se torna importante a questão das diferenças entre dogmatismo,
sincretismo e ecletismo. Encontra-se difundido, com certa freqüência, o ponto de vista
de que um posicionamento teórico muito claro e consistente seria indicativo de uma
posição rígida, dogmática e de negativa receptividade a novas idéias. Segundo essa
visão, a flexibilidade teórica e o trânsito fluido entre diversos referenciais e abordagens
constituiriam uma base mais favorável para a evolução de investigações menos
"fechadas" e restritas a concepções pré-estabelecidas.
Sincretismo é o termo que julgaria apropriado para essa indistinção teórica, a
partir de diferentes sentidos que o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
aponta para o termo: a) de "reunião artificial de idéias ou de teses de origens
disparatadas"; b) de "visão de conjunto, confusa, de uma totalidade complexa"; c) de
"amálgama de doutrinas ou concepções heterogêneas"; ou d) de "fusão de elementos
culturais diferentes, ou até mesmo antagônicos, em um só elemento, continuando
perceptíveis alguns sinais originários" (FERREIRA, 1975, p. 304). Sincretismo é o
termo que reservaria para a adoção e uso de uma mistura de conhecimentos de
abordagens teóricas distintas, mas que, ao mesmo tempo, permanecem em
compartimentos de reflexão separados e sem articulação, inviabilizando-se qualquer
consciência de possíveis contradições e divergências.
Já o termo ecletismo aparece no mesmo dicionário com alternativas de
qualidade e valor diferentes. Filosoficamente, seria "um método que consiste em
reunir teses de sistemas diversos, ora simplesmente justapondo-as, ora chegando a
19

reuni-las em uma unidade superior, nova e criadora" (Ibid, p. 497). Como se vê, há
uma alternativa de sentido, algo pejorativo, de simplesmente justapor-se teses de
sistemas distintos. Mas há também uma alternativa de significado positivo, de síntese
inovadora e de criação superior, que poderíamos ressaltar. É essa a posição que
poderia ser positiva no campo da Ciência. Porém, note-se que, aqui, talvez já
estejamos no âmbito daquilo que Kuhn chama de "pesquisa extraordinária" e de
"revolução científica", ou do que Bourdieu associa com as "estratégias de subversão"
no campo científico.
O sincretismo em Psicologia parte do ponto de vista, em minha opinião,
equivocado, de que cada abordagem teórica limita-se a enfocar um aspecto distinto
do fenômeno humano, como se se tratasse de dividir um bolo em fatias e atribuir a
cada uma delas o seu pedaço: aos behavioristas, o comportamento; aos sócio-
históricos, a atividade e a consciência; aos psicanalistas, o inconsciente; aos
cognitivistas, o pensamento racional e os processos de resolução de problemas, e
assim por diante, cada um recebendo seu justo quinhão.
A verdade é que cada abordagem teórica tem as suas próprias concepções de
ser humano, de universo psíquico, de realidade, de sociedade, de cultura, de vínculo
social e dos demais aspectos fundamentais com os quais é construída a estrutura
fundamental do seu paradigma para a abordagem do seu objeto de estudo: o ser
humano.
Isso não significa que a investigação de todos os aspectos esteja igualmente
desenvolvida nas diferentes teorias. Podemos pensar que cada teoria possa,
inclusive, beneficiar-se de algum nível de interação com as demais, no sentido de ter
sua atenção voltada para problemas e questões já anteriormente desenvolvidos em
campos de outros paradigmas. Porém, esse benefício nunca se limitará a uma simples
importação, sem alterações, de proposições e descobertas desses outros campos.
Sempre será necessário um processo de "metabolização" desses conhecimentos
oriundos de campos diferentes - uma articulação com os demais componentes do
paradigma - antes que eles possam ser úteis e se tornem disponíveis para uso no
novo campo para onde foram transpostos.
Devemos refletir sobre a respeito das implicações das diferentes alternativas
de relacionamento entre a Psicologia Social desenvolvida no Brasil e a desenvolvida
em outros centros, notadamente as dos países de maior desenvolvimento científico.
20

Como visto anteriormente, uma certa tomada de distância em relação à


Psicologia Social norte-americana parece ter se mostrado benéfica para o
desenvolvimento de um processo reflexivo crítico no interior da comunidade dos
psicólogos sociais brasileiros e latino-americanos. Contudo, o cenário político neste
início de século XXI encontra-se profundamente modificado. Em primeiro lugar, não
mais existem as ditaduras militares, que possibilitavam a existência de laços de
identificação e cooperação contra um adversário comum em décadas passadas. As
disposições atuais são bem mais matizadas e diferenciadas ao longo do espectro
político.
É verdade que novos focos de ação política podem e devem constituir novas
bases para uma práxis conjunta. Porém, no contexto do vertiginoso crescimento
exponencial do intercâmbio econômico, social e de informação entre as nações,
observado nas últimas décadas, parece-me impossível um isolacionismo que não
implique atraso. A questão central a ser pensada é como manter uma postura crítica
independente, que não pressuponha o isolamento como requisito de autonomia
reflexiva.
O que pode favorecer a consolidação de núcleos de pesquisa em Psicologia
que desenvolvam uma produção cujo centro de gravidade não se afaste dos
problemas e necessidades brasileiros e que se mantenha social e politicamente
crítica, sem, no entanto, perder nível de qualidade e complexidade em relação ao
conhecimento desenvolvido nos demais centros de produção de conhecimento
internacionais? Aí estão algumas das perguntas fundamentais que é preciso
responder.

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1.O que pode ser considerado como elemento essencial para o desenvolvimento da
psicologia social no Brasil? Comente sua resposta.
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
21

___________________________________________________________________
__________________________________________________________________
2. O que você entende por SINCRETISMO?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
__________________________________________________________________

Unidade 1.3 Perspectiva Fenomenológica

O exercício da fenomenologiaimplica numa experiência singular, pouco usual:


a suspensão de todo e qualquer juízo a respeito do fenômeno para o qual a nossa
consciência se volta. Deixar de lado todo conhecimento ou crença a respeito do
fenômeno pesquisado, como se dele nada soubesse, como se nunca tivéssemos
passado pela experiência de amar, de nos envergonharmos, de ter sofrido alguma
violência ou ter sido violento, por exemplo.
Como se fosse a primeira vez que entramos em contato com o fenômeno sobre
o qual nos debruçamos.Deixar que o fenômeno se mostre tal qual é, sem nenhuma
interferência de valor, científica, religiosa ou do conhecimento cotidiano, de modo que
possamos apreendê-lo na sua essência, no seu modo próprio de ser, que o distingue
das outras coisas, tornando-o evidente para a nossa consciência; dá-se o nome de
redução fenomenológica a este movimento de suspensão dos juízos a respeito das
coisas.
Com a redução fenomenológica temos a emergência do fenômeno, que se
apresenta de modo distinto das outras coisas, constituindo-se numa relação direta
entre fenômeno e consciência.
Ou seja, à medida que o nosso saber a respeito das coisas visadas encontra-
se entre parênteses, vemos que a consciência obtém um acesso direto ao objeto
visado. Temos, assim, a apreensão do fenômeno tal qual nos aparece originariamente
à nossa consciência, ao qual doamos um sentido.
22

Por esta característica, a fenomenologia distingue-se da ciência. Esta se


apresenta como um conhecimento, portadora de um saber, um discurso a respeito do
objeto visado, exterior ao sujeito que conhece. A metodologia científica clássica funda-
se na distinção clara e inequívoca entre sujeito e objeto, que é explicado, e sobre o
qual se procura formular teorias e leis, levando-a à apropriação do mesmo.
A formulação de hipóteses apresenta-se como um exemplo típico como a
ciência, no paradigma vigente, que busca conhecer as coisas. Antes do contato com
o fenômeno, já enunciamos algo sobre o mesmo. Sobre ele já é dito alguma coisa
pressupondo, assim, a existência de algum conhecimento por parte do pesquisador a
respeito do que pretende conhecer, um quê mínimo. Na verdade, um conhecimento
que pode dizer mais a respeito do pesquisador do que daquilo que é pesquisado.
Tal divergência, no entanto, não invalida a aproximação entre fenomenologia e
ciência. O projeto “husserliano” sustentava-se na fenomenologia como fundamento
das ciências. Fenomenologia e ciência se interceptam na medida em que partem do
que é evidente e buscam o rigor na apreensão dos fenômenos. O rigor na perspectiva
da ciência é a condição “sinequa non” no métodocientífico, para a validação do
conhecimento.
Por outro lado, a descrição rigorosa dos modos como os fenômenos se
apresentam à
consciência, sem a emissão de quaisquer juízos sobre os mesmos, constitui a
exigência maior da fenomenologia. A evidência, por outro lado, “autoriza” a
emergência do status de objeto científico a um dado fenômeno. A falta de evidência
implica a possibilidade da sua inexistência, de questionamentos, de uma explicação
racional. Do mesmo modo, a fenomenologia tem a evidência como uma exigência de
configuração, pois só assim pode se sustentar como possibilidade de conhecimento
válido das coisas.
O modelo clássico de ciência, herdado dos modernos, fundado na quantificação
e na experimentação vislumbrando o domínio e o controle das coisas, possui seu
espaço de validade. Não podemos negar a contribuição deste modelo para o
conhecimento humano, no desenvolvimento da tecnologia e para o avanço da própria
ciência. Configurava-se como uma visão própria do seu tempo, no qual o homem
buscava o rompimento de barreiras culturais e religiosas que o impediam de usufruir
23

de toda a sua capacidade criativa e de investigação a respeito de si mesmo e do seu


mundo.
Romper com preconceitos, crenças e dogmas exigiu do homem moderno um
novo modo de ser, de ver a si mesmo como construtor da realidade, como sujeito. A
ciência desconsidera a relação que se estabelece entre o homem e o mundo ao seu
redor, partindo do pressuposto da possibilidade da objetividade, hoje já não tão
acreditada como outrora. Para a fenomenologia conhecer é apropriar-se das
essências das coisas, o que só é possível a partir da atribuição de sentido por uma
consciência, ou seja, o fenômeno é indissociável da subjetividade. Daí a possibilidade
de se propor a uma psicologia fenomenológica.
As ciências humanas se deram conta de que o modelo clássico de ciência não
abarca o homem como sujeito, mas nem por isso deixaram de ocorrer tentativas de
aproximação. Augusto Comte talvez seja o maior exemplo da tentativa de formatar as
ciências humanas aos moldes da ciência Moderna, que o diga, também a Psicologia,
no seu “nascimento” enquanto ciência com o laboratório de Wundt.
A psicologia é uma ciência muito jovem, pensando do ponto de vista do seu
reconhecimento acadêmico, na perspectiva da ciência positiva. Mas, trata-se de um
conhecimento milenar, que se encontra presente, por exemplo, em Aristóteles. No
sentido epistemológico, no que diz respeito ao seu objeto e método(s), tem-se uma
diversidade conceitual e teórica, constituindo um espectro e abrangendo modelos que
assumem o paradigma científico experimental a modelos cujo rigor metodológico não
apresenta tanta rigidez.
Neste sentido, no que diz respeito às teorias psicológicas e seus respectivos
métodos, apresentam-se tão complexas quanto à questão do seu objeto. Diferentes
matizes permeiam o universo da psicologia, numa gama variada de referências,
coexistindo perspectivas diametralmente opostas com princípios inconciliáveis. Trata-
se, pois, de uma questão epistemológica ainda aberta e muito complexa,
considerando que contemporaneamente temos uma emergência de novas teorias,
abordagens e áreas de atuação.
Com Wundt, a Psicologia busca o reconhecimento como um saber científico, a
partir de estudos experimentais. No entanto, a complexidade da condição humana não
é possível de ser aprendida meramente entre os instrumentos dos laboratórios: O ser
humano transcende aos seus limites físicos e observáveis, a existência humana
24

implica uma relação de alteridade, temporalidade, fantasias, sentimentos, buscas e


tantas outras questões às quais nos foge a possibilidade de medir, observar
diretamente e estabelecer leis.
Se de um lado as ciências humanas e sociais não se conformam ao paradigma
positivista, por outro a Psicologia, por ser uma ciência humana do humano, apresenta-
se, de modo peculiar, mais desconfortável, por se tratar de um conhecimento cujo
objeto de estudo se mostra bastante complexo. Tanto por ser uma complexidade
inerente ao próprio objeto, como pelo fato de que se trata do humano voltando-se para
o humano.
Assim, o desafio da Psicologia, como também das ciências ditas humanas,
constitui na busca de referenciais que superem os limites das fronteiras da ciência
clássica, mas também não perca o seu estatuto de cientificidade, de rigor, a partir da
evidência dos fatos. Nesta busca corre-se o sério risco de perder seus referenciais
científicos e produzir um conhecimento fundado na mera intuição sem o necessário
rigor metodológico.
A pluralidade conceitual e metodológica da Psicologia demonstra,
inequivocamente, o quanto é difícil o caminho por ela percorrido, no sentido da busca
por uma “unidade epistemológica”; talvez não desejável nem possível, haja vista a
variadas possibilidades de ser do ser humano.
Diante da crise das ciências com a qual se depara, Husserl se propõe a
constituir uma ciência que seja o fundamento da filosofia. Não que ele se oponha ao
modelo Moderno de ciência, mas por entender que esta tinha se contaminado por um
objetivismo extremado, a ponto de impossibilitá-la de chegar ao fenômeno tal qual se
apresenta, ao desconsiderar que a relação entre sujeito e objeto é determinante na
constituição do objeto científico.
Para Husserl, a psicologia trilha pelo mesmo caminho. No dizer de Goto (2008,
p.54), “da mesma maneira que pergunta sobre uma possível crise nas ciências e na
cultura, Husserl indaga se a Psicologia também não sofre uma crise em sua
cientificidade.” No sentido de fundar-se cientificamente, a psicologia busca a
compreensão dos fenômenos psicológicos a partir dos pressupostos da ciência
positiva.
A relação entre Psicologia e Fenomenologia é bastante próxima. Nasce com o
próprio Husserl, ao fazer a crítica da Psicologia enquanto ciência positiva,
25

vislumbrando uma psicologia fenomenológica. Entende a necessidade da Psicologia


se voltar para a subjetividade como objeto próprio dela, diferenciando-se da ciência
clássica, que via na questão da subjetividade um empecilho para o conhecimento.
“Toda a análise que ele propõe através do processo da redução à essência, ou
redução transcendental, via entender como o ser humano é feito. O filosofo Husserl
busca assim oferecer instrumentos de base para poder construir uma psicologia
positiva e, (...) institui a análise fenomenológica da subjetividade transcendental como
base para a psicologia” (BELLO, 2004, pg. 129)
Em Husserl a fenomenologia, mais do que uma orientação metódica, vai se
constituir num fundamento para a Psicologia ao colocar a subjetividade no âmago da
própria ciência. Ao assim fazer, temos uma ruptura com o paradigma clássico de
ciência, que permite a Psicologia avançar na constituição do seu objeto, bem como
na proposição do modo de se fazer ciência, na medida, e mesmo lidando de modo
muito intimo com a subjetividade se mantém no rigor.
Se a fenomenologia possibilita uma fundamentação epistemológica e metódica
da Psicologia enquanto ciência ao construir rigorosamente o conhecimento
psicológico, por outro lado, “também abre possibilidades para ampliar o entendimento
da psicologia como profissão, seja no âmbito clínico ou social” (GOTO, 2008, pg. 237).
Na medida em que se volta para os fenômenos, a fenomenologia impõe uma
crítica à ciência meramente empírica, por entendê-la incapaz de apreensão das coisas
nas suas constituições originárias, em virtude do seu compromisso com a
objetividade. Esta se apresenta comprometida, ao olhar husserliano, uma vez que
toda relação entre sujeito e objeto se dá mediada pela consciência que lhe atribui um
significado.
Considerando o contexto no qual a ciência psicológica encontra-se emersa, de
uma multiplicidade de abordagens e teorias que procuram desvendar os fenômenos
psicológicos a partir dos mais distintos, e, não raro, contraditórios referenciais, a
fenomenologia se apresenta como uma herdeira legítima e direta da filosofia,
comprometida com o saber científico a partir da evidência e do rigor, na
fundamentação e recurso metodológico para a Psicologia Social.

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO
26

1. O que você entende por FENOMENOLOGIA?


___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
__________________________________________________________________

2. Qual é a relação entre Psicologia e Fenomenologia?


___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
_________________________________________________________________

Unidade 1.4 Psicologia Social no Brasil

Segundo Bomfim (2003) três referenciais fazem parte do contexto de produção


da Psicologia Social: os relacionados com o progresso de áreas afins como a
sociologia, a antropologia, a educação, a história social e a própria psicologia; o
27

avanço da psicologia social em países da Europa, nos Estados Unidos e, mais


recentemente, na América Latina e ainda às condições históricas e econômicas
mundiais, especialmente, às condições nacionais que, aliadas às demandas sociais
de comunidades, grupos e movimentos sociais, abriram caminhos no campo do
conhecimento psicossocial.
A Psicologia Social aparece em 1908, com a publicação de “Social
Psychology”, de Edward Ross e “AnIntroductionto Social Psychology” de William
McDougall. Ross, de orientação sociológica, fazia referência a conceitos como mente
coletiva, costumes sociais, opiniões sociais e conflitos. McDougall referia que as
características sociais e o comportamento se baseavam na natureza biológica, idéia
em que a psicologia social se apoiou em seu desenvolvimento.
Mesmo sabendo que existem contribuições nesse campo vindas,
principalmente, da Europa e dos Estados Unidos, cabe destacar que vamos nos deter
na história da Psicologia Social no Brasil. O primeiro livro com título específico referido
a Psicologia Social foi publicado, no Brasil, somente em 1921. De autoria de Francisco
José de Oliveira Viana, intitulado “Pequenos estudos de psychologia”, este fora
composto de artigos publicados em jornais, versando sobre temas como o meio social
e o meio político.
Mas, já havia um pensamento psicossocial no Brasil, que é normalmente
denominado de "pensamento social brasileiro". Dentre os autores que mais se
destacaram neste sentido, ainda no século XIX ou na passagem para o XX, citam-se
Sylvio Romero, Raimundo Nina Rodrigues e Manoel Bomfim, cujas idéias traziam as
marcas brasileiras de uma época de pouca industrialização, domínio da oligarquia
rural e um contexto intelectual regido pelo predomínio das idéias positivistas. Uma
questão bastante discutida em suas obras era o regime escravocrata, que revelava
reações diferentes quando incluía discursos sobre a inferioridade do povo brasileiro e
das raças (BOMFIM, 2003b).
Sylvio Romero nasceu em Sergipe, em 1851, e formou-se em Direito, sendo
também sociólogo, professor e historiador. Sua contribuição para a Psicologia Social
ocorreu com a publicação da obra “História da literatura brasileira”, de 1886, na qual
tratava da relação existente entre a literatura e as manifestações políticas,
econômicas e artísticas. No capítulo intitulado “Psicologia Nacional - Prejuízo de
educação - Imitação do estrangeiro” o autor declara sua crença numa psicologia dos
28

povos. Segundo seu entendimento, o povo brasileiro, em especial, tinha


características como apatia, falta de iniciativa, desânimo e propensão para esperar a
iniciativa vinda do poder. Seu texto denota a situação do Brasil à época, quando 90%
da população era analfabeta (preocupação com educação), com mais de 7% de
estrangeiros (preocupação com a questão da imitação). Assim, ele inaugurou uma
linha de estudos em Psicologia Social.
Raimundo Nina Rodrigues nasceu no Maranhão, em 1862 e formou-se em
Medicina na Bahia, em 1886. Entre as várias obras publicadas, destaca-se “As raças
humanas e a responsabilidade penal no Brasil” de 1894, onde afirma que a diferença
entre os povos civilizados e bárbaros é baseada em uma organização cerebral
herdada.
Suas idéias comungavam tanto da necessidade ideológica de "entender" a
gente brasileira como também faziam parte da ideologia racial que impunha o urgente
aprimoramento da raça brasileira, considerada inferior. A importante presença de Nina
Rodrigues no campo da Medicina Legal influenciou os campos médico e jurídico no
país. Manoel Bomfim nasceu em Sergipe em 1868 e formou-se em Medicina no Rio
de Janeiro, em 1890. Sua atuação como intelectual do seu tempo envolveu vários
campos disciplinares como Medicina, Educação, História, Antropologia, Língua
Portuguesa e Psicologia Entre suas várias produções, uma se destaca para este
contexto: trata-se da obra “America Latina - males de origem” concluída em 1905, em
Paris, na qual o autor, conforme Bomfim (2003a, p. 24), já destacava que:

“[...] para se estudar um grupo social e compreender os motivos


pelos quais ele se apresenta em determinadas condições, seria
preciso analisar não só o meio no qual se encontra, como
também os seus antecedentes. Como conseqüência, a
nacionalidade seria o produto de uma evolução resultante de
ações passadas e de ações do meio [...]”.

A característica significativa dessa obra foi a sua rejeição às teorias raciais, de


caráter racista tão presentes naquele momento. Além disso, Manoel Bomfim fundou e
4dirigiu o Laboratório de Psicologia Experimental no Rio de Janeiro em 1906, época
em que com a reforma do ensino no Brasil, nos fins do século XIX e início do século
29

XX - propiciada por Benjamin Constant (1890), houve a introdução de noções de


psicologia nos cursos de educação, sendo criados os primeiros laboratórios de
psicologia, objetivando o desenvolvimento de pesquisas nessa área.
Na década de 1930 surgiram os primeiros cursos superiores em Psicologia
Social. Cabendo a Raul Carlos Briquet o pioneirismo docente. Médico, nascido em
São Paulo em 1887, ele foi responsável pela cadeira de Psicologia Social na Escola
Livre de Sociologia e Política de São Paulo. Desse curso resultou uma publicação do
primeiro livro acadêmico em Psicologia Social, editado em 1935. O livro foi estruturado
em duas partes: a primeira, versa sobre as contribuições da Sociologia, Biologia e
Psicologia; a segunda, denominada de especial, traz temáticas específicas em
Psicologia Social, em que o autor realizou uma análise dos fatores psíquicos que
motivam o comportamento social, o instinto, o hábito, as três formas de identidade
social (sugestão, imitação e simpatia), a inteligência e a vida social.
O segundo curso de Psicologia Social foi ministrado em 1935 por Arthur Ramos
– médico, nascido em Alagoas em 1903 - que resultou na edição do livro “Introdução
à Psychologia Social”, publicado em 1936, na Escola de Economia e Direito da extinta
Universidade do Distrito Federal. Para ele, a Psicologia Social era uma disciplina entre
a Psicologia e a Sociologia que necessitava de maiores delimitações do seu campo,
com crescente importância, embora seus métodos e objetivos ainda não estivessem
claros. Na sua visão, caberia à Psicologia Social estudar: as bases psicológicas do
comportamento social, as inter-relações psicológicas dos indivíduos na vida social e
a influência total do grupo sobre a personalidade.
A década de 1940 foi marcada, segundo Bomfim (2003b), por missões
estrangeiras que chegaram ao Brasil no auge da II Grande Guerra Mundial,
acrescentando, portanto, várias contribuições psicossociais. Desse grupo pode-se
destacar Pierre Weil que chegou ao país em 1948 para trabalhar em treinamentos do
recém-criado Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), no Rio de
Janeiro. Entre suas obras, merece destaque “Dinâmica de Grupo e Desenvolvimento
em Relações Humanas” (1967) e a partir dessa obra ele desenvolveu, com colegas,
a técnica de Desenvolvimento das Relações Humanas (DRH).
Na década de 1950, a ideologia desenvolvimentista torna-se mais
impregnanteno pais, com a crença de que um parque industrial forte melhorará a
qualidade de vida do Brasil, de que a industrialização e a urbanização levarão à
30

qualificação dos recursos humanos, ou seja, construir-se-á um país moderno e


desenvolvido. Para tanto, houve maior ênfase no setor educacional. Assim, foram
criados órgãos como o “Conselho Nacional de Pesquisas” (CNPQ) em 1951,
“Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário” (CADES) em 1954
e o “Serviço de Educação de Adultos”, em 1957. Este momento foi importante para a
Psicologia Social, pois possibilitou as primeiras teses de doutorado com temáticas
comprometidas com essa perspectiva, como a tese de Carolina Bori, que versava
sobre a “Análise dos Experimentos de Interrupção de Tarefas e da Teoria da
Motivação” na obra de Kurt Lewin (1953) e a tese de Dante Moreira Leite com o título
“Caráter Nacional do Brasileiro” (1954), que analisou a visão do que seja o "brasileiro"
em diferentes obras representativas do chamado "pensamento social brasileiro",
apontando, nelas, seu caráter conservador ou progressista.
Além das teses, outras contribuições se fizeram presentes, nessa década, no
periódico “Boletim do Instituto de Psicologia” do Rio de Janeiro criado por Nilton
Campos, quando diretor do Instituto de Psicologia da Universidade do Brasil. Nesse
boletim, foram publicados uma série de artigos do próprio Nilton Campos além de
Antonio Gomes Penna e de Eliezer Schneider, enfocando as situações do ensino, da
pesquisa e das publicações da Psicologia Social no Rio de Janeiro. Além disso, nesse
período na Psicologia Social, segundo Bomfim (2003a), houve um aumento de
estudos sobre comunicação de massa, violência, papéis sociais, valores e normas,
em que o sujeito era flexível às influências da informação.
Mudanças consideráveis foram realizadas na década de 1960 na sociedade e
nas formas de governo. A rebelião de maio de 1968 na França foi um marco na
expressão dos conflitos e das demandas por mudanças sociais e políticas na busca
de uma nova ordem social, mais justa e mais humana. No Brasil, na primeira metade
da década de 1960, mais precisamente em 1964, ocorreu a revolução militar,
acabando com a liberdade democrática (política, social, econômica e cultural). Esse
regime autoritário era mantido por pactos com o capital internacional, coordenado pelo
Serviço Nacional de Informação (SNI), pelas práticas de cassação de direitos políticos,
prisões e torturas.
A Psicologia Social, até o início dos anos 1960 parecia que daria respostas a
todos os problemas sociais, mas foi atravessada por uma polêmica em torno de seu
caráter teórico e ideológico, ocasionando uma crise. Tal crise foi devida tanto à sua
31

metodologia como às formas de teorização utilizadas, pois a Psicologia de até então


não havia desenvolvido uma base sólida de conhecimentos estruturada na realidade
social e nas vivências cotidianas. Sua teorização era centrada, segundo Krüger
(1986), no cognitivismo (relevo aos fatores cognitivos do indivíduo), no
experimentalismo como método de pesquisa, no individualismo (ou seja, na análise
dos fenômenos sociais a partir da perspectiva do indivíduo), no etnocentrismo (já que
este modelo de indivíduo era o estabelecido na cultura norte-americana), no uso de
microteorias (ou seja, na investigação de micro-espaços do social) e, finalmente, na
perspectiva a-histórica, já que o "homem" estudado através destes diversos invólucros
seria um homem presente em todos os tempos e espaços.
Para superar a crise, segundo Bonfim (2003a), seria necessário buscar uma
maior e mais cuidadosa produção de conhecimento, discutindo as questões
ideológicas, elucidando os conflitos sociais, analisando as diferenças individuais,
grupais e comunidades e questionando seu papel político. Assim, a crise teórica de
caráter internacional que aconteceu nesse período residiu em grande parte nas
dúvidas sobre o método experimental e sobre a sua adequação à complexidade e
exigências do objeto de estudo, pois, as regras do comportamento humano,
contrariamente às das ciências naturais, não podem ser estabelecidas
definitivamente, porque elas se alteram em função das circunstâncias culturais e
históricas.
Desse modo, as investigações deveriam estender-se do individual para o
social, levar em conta o político e o econômico, no sentido de se obter uma
compreensão apropriada da evolução da psicologia contemporânea e da vida social.
No Brasil, a Psicologia Social cresceu em meio às conturbações políticas e
sociais internas. Cresceram, também, nas empresas e nas instituições brasileiras, as
práticas de dinâmica de grupo e de intervenção psicossociológica que privilegiavam
as relações interpessoais, empresariais e/ou terapêuticas. Houve ainda um crescente
aumento no número de cursos de psicologia criados no país.
A década de 1960 também foi importante para a Psicologia pela conquista de
7sua autonomia e pelo reconhecimento da profissão de psicólogo regulamentada pela
Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962, que estimulou a criação de novos cursos, assim
como consolidou o ensino da Psicologia nos cursos superiores. Dessa forma, ocorreu
o desenvolvimento da produção psicossocial, principalmente em relação a disciplinas,
32

como “Dinâmica de Grupo e Relações Humanas”, “Seleção e Orientação Profissional”


e “Psicologia da Indústria”, além da obrigatoriedade da “Psicologia Social”.
Na década seguinte, 1970, o Brasil continuava sob o regime militar que durante
muitos anos buscou controlar a população, suas ações e pensamentos. A Psicologia,
por sua vez, ainda vivia a crise da década passada, refletida em fóruns de discussões,
os impasses da psicologia social enquanto ciência e espaço de práticas políticas e
ideológicas.
Entre eles: o “Fórum de Psicologia Social”, que aconteceu no Rio de Janeiro,
em outubro de 1970, promovido pela Associação Brasileira de Psicologia Aplicada, o
“I Encontro dos Psicólogos Brasileiros”, em São Paulo em 1971 e o “III Encontro
Nacional de Sociedades de Psicologia”, em 1973 na cidade do Rio de Janeiro,
promovido pela Associação Brasileira de Psicologia Aplicada.
Foi também nessa década, fase áurea da expansão de cursos de Psicologia na
rede privada, que a visão empresarial dominante sustentou a criação de cursos sem
estrutura adequada para a formação de psicólogos. O campo da Psicologia
continuava crescendo, com a implantação dos primeiros cursos de mestrado
específicos em Psicologia Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, os
quais geraram dissertações com temáticas voltadas à realidade brasileira. A produção
literária também aumentava, embora neste período tenha ocorrido o auge das
traduções dos livros estrangeiros.
Entre a produção nacional, citamos: “Psicologia Social”, de Aroldo Rodrigues
(1972); “Relações Humanas: psicologia das relações interpessoais” (1978) de
Agostinho Minicucci e “Psicosociologia das Relações Públicas”, de Cândido de
Andrade (1975). Outro fato marcante nesse período foi a criação do Conselho Federal
e dos Conselhos Regionais de Psicologia, pela Lei nº 5.766 de 20/12/1971. Assim,
conforme Bomfim, (2003a), “ Essa lei complementava a Lei 4.119 de 1962 que veio
regulamentar a profissão de psicólogo. Com a instalação dos conselhos de psicologia,
foram criadas melhores condições para definição da área e do exercício profissional”.
O Brasil na década de 1980, ainda sob o regime militar, vivenciou novas greves
resultantes do processo recessivo, devido às perdas salariais e à instabilidade no
emprego. O poder já não estava somente com o Estado, mas também em instituições
sociais que criticavam e denunciavam exclusões e opressões.
33

Nesse período, a Psicologia Social no Brasil, de acordo com Bomfim (2003a),


buscou autonomia científica, por um conjunto de atividades: crescimento expressivo
da produção publicada, detalhamento das temáticas anteriormente abordadas
(educação, saúde, comunidade, trabalho, etc.), inclusão de outras (representações
sociais, relações de gênero, movimentos sociais, etc.) através de estudos realizados,
além de publicação de estudos e ampliação da divulgação de aplicações da psicologia
social, principalmente em relação aos trabalhos com comunidades carentes.
Predominou, nesse momento, a busca por uma nova identidade, com muitos
debates, congressos, encontros, publicações, reflexões. Cotejem-se alguns aspectos
enumerados por Bock (1999): encerravam-se duas etapas da categoria, uma marcada
pelas intervenções e lutas corporativistas, e outra que teve como resultado a
consolidação da profissão no Brasil; engajavam-se os psicólogos nas lutas junto aos
trabalhadores e começavam a participar de movimentos sindicais para a construção
da Central Única dos Trabalhadores (CUT). A partir daí, iniciou-se uma mudança na
história desses profissionais através de debates e reflexões sobre seus problemas,
com a proposta de uma atuação mais adequada junto à população brasileira e suas
necessidades.
Essa década foi importante para a Psicologia Social, pois além do aumento da
produção de artigos e dissertações de mestrado, foram criados os primeiros cursos
de doutorado específicos nessa área e defendidas as primeiras teses nos cursos
instituídos. Vale ressaltar que com a criação das associações científicas, entre elas a
“Associação Brasileira de Psicologia Social” (ABRAPSO), em julho de 1980, e a
“Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia” (ANPEPP), em
julho de 1983, a Psicologia, de modo geral e a social de modo específico, deram um
salto de qualidade por meio dos encontros promovidos com a categoria em diferentes
eventos científicos.
O Brasil da década de 1990 mantinha algumas características da década
anterior, tais como estagnação econômica, grave crise social, inflação descontrolada
e caos nas finanças públicas, devido às dívidas internas e externas. Foi a época em
que a Psicologia, segundo Bock (1999), partiu para a sistematização da diversidade
construída na década de 1980, quando os psicólogos refletiram e construíram novas
idéias.
34

A categoria que, anteriormente, almejava uma identidade para o psicólogo, deu


lugar, na década de 1990, à preocupação com a imagem da Psicologia e do psicólogo
junto 9à população. Segundo Bock (1999, p. 127): “[...] Em 1990, vamos nos deparar
com mais certezas e posições. Se a década de 80 levantou questões, a década de 90
parece se propor a respondê-las”. Para isso, ainda segundo a autora, os congressos,
as publicações e a realização sistemática de pesquisas sobre a categoria no Brasil
tiveram papel importante na discussão de questões relativas à profissão e à própria
ciência. Assim sendo, essa década obteve alguns resultados para suas
reivindicações, entre eles: o psicólogo começou a ser visto como profissional da
saúde; a profissão se aproximou dos contextos sociais; houve aumento do número de
profissionais em outros campos de trabalho não tradicionais, o que levou à
necessidade de rever a formação tradicional dos psicólogos. Um dos marcos
significativos desse período foi a publicação pelo Conselho Federal de Psicologia em
1994 do livro “Psicólogo brasileiro – práticas emergentes e desafios para a formação”.
O segundo milênio foi aberto pela Psicologia Social no Brasil sendo
considerada como um campo de busca de compromissos sociais, com a apresentação
de muitos trabalhos inseridos na temática social. Isso pôde ser demonstrado na “I
Mostra Nacional de Práticas em Psicologia: psicologia e compromisso social”, cuja
iniciativa foi do Conselho Federal de Psicologia.
Apesar do número elevado de trabalhos apresentados com o cunho “social”,
isso não reflete a realidade desse compromisso, pois, segundo Bock (2003), não havia
de fato um real comprometimento social dos profissionais com a sociedade.
A Psicologia Social que hoje conhecemos e com a qual convivemos, nos
diferentes centros de investigação e trabalho, foi e está sendo construída por
profissionais que estão aí, em pleno exercício das suas atividades, comprometendo-
se com as demandas e necessidades explícitas em seus locais de atuação. Trata-se
de pessoas que viveram a “crise” da psicologia social, e colaboraram para chamar a
atenção sobre realidades sociais e cotidianas que se diferenciavam daquelas vividas
nos centros de domínio econômico, político e científico (FREITAS, 2000).
Limitamo-nos a assinalar, brevemente, autores e algumas obras importantes
para o conhecimento da constituição histórica da Psicologia Social. No entanto, vários
outros estudiosos poderiam ter sido citados aqui, mas em razão do objeto visto para
este texto, deixamos de contar com suas valiosas contribuições. Assinalamos como
35

aconteceu a Psicologia Social no Brasil e, de certo modo, na América Latina, tendo


como propósito mostrar porque ela esteve muito tempo ignorada.
Essa visão, motivada depois da “crise”, provocou mudança de idéias, que se
materializavam pela ação de profissionais e investigadores na luta por se manter e
sobreviver em resistência aos clássicos modelos importados dos centros
hegemônicos de produção científica, o que no caso específico nosso apresentou-se
diferente das múltiplas demandas impostas pelas condições sociais brasileiras.
É certo que a história não é estática e nem estagnada, está sempre sujeita a
revisões à medida que são revelados novos dados ou novas interpretações de dados
já existentes. E só assim, é possível entender que o conjunto de mudanças na
sociedade deve ser visto de forma articulada, ou seja, história, sociedade, progresso,
transformação.
Finalmente, é preciso pensar uma Psicologia Social mais comprometida com a
realidade social e com as condições de vida das pessoas no contexto em que elas
estejam inseridas, e, para tanto, deve-se acabar com a idéia de que o mundo
psicológico está oposto ao social.

Importante:

Ao final dessa unidade você deverá ser capaz de:

1. Visualizar a história da Psicologia Social e suas vertentes teóricas


2. Identificar suas ações e metodologias
3. Analisar a postura do conhecimento na área
4. ATIVIDADE: Quais as condições necessárias, na Psicologia brasileira em
geral, e mais particularmente no caso da Psicologia Social, para que o
intercâmbio científico não seja simples processo de assimilação de mão
única de direção?
36

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1.Quando surgiu a Psicologia Social no Brasil?


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2.Qual a contribuição do autor Sylvio Romero para a Psicologia Social?


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ATIVIDADE AVALIATIVA

1.De acordo com o texto:“Para se estudar um grupo social e compreender os


motivos pelos quais ele se apresenta em determinadas condições, seria preciso
analisar não só o meio no qual se encontra, como também os seus
antecedentes.”Você concorda com essa afirmativa? Elabore um texto de dez linhas
justificando a sua resposta.
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CAPÍTULO II –FUNDAMENTOS DA PSICOLOGIA SOCIAL


Unidade 2.1 –Valores e Atitudes

No seguimento da explicação do que se entende por psicologia social, numa


perspectiva simples e com o objectivo de a diferenciar da sociologia e da psicologia,
proponho-me, nos seguintes artigos, a delinear a sequência hegemónica de
assuntos que caracterizaram a psicologia social ao longo do século XX, apoiando-
me na análise de McGuire (1986).
As décadas de 20 e 30 foram caracterizadas pela era da medição de atitudes.
O conceito de atitude é o conceito mais central de psicologia social e foi, ao longo
do tempo, aceitando definições sucessivas. Porém, há que distinguir a noção
comum e o conceito científico de atitude. Como noção, a atitude significa um acto,
uma postura do corpo ou o sentido de um propósito. Mas como conceito, a atitude
representa um esquema mental que efectua a mediação entre o pensamento e o
comportamento, não podendo ser observável. Por outro lado, não podemos
confundir as atitudes com opiniões, traços de personalidade, crenças, valores ou
ideologias.
Os primeiros estudos sobre atitudes partiam do pressuposto que as atitudes
previam os comportamentos. Um exemplo disso foi o estudo de La Pierre (1934) que
tinha como objectivo estudar o preconceito dos norte-americanos, relativamente à
minoria chinesa. Neste âmbito, percorreu vários hotéis e restaurantes em diversas
cidades americanas com um casal de chineses e só em raros casos encontrou
resistência por parte dos proprietários dos estabelecimentos. Seis meses depois, La
Pierre enviou uma carta para todos os locais onde já tinha passado com o casal de
chineses com o intuito de perguntar se aceitavam indivíduos de raça chinesa como
hóspedes.
Dos 81 restaurantes e 47 hotéis que responderam, 92% disseram que não e
os restantes responderam que “dependia das circunstâncias”. Conclui-se, deste
38

modo, que as pessoas não hesitavam em assumir os seus preconceitos em situação


de anonimato, mas já não o faziam em situação de face-a-face. Estes resultados
apontavam para o efeito contextual das atitudes, ou seja, a maneira de agir do
indivíduo depende do contexto em que este está inserido, o que significa que não
podemos impor à atitude o carácter de prever o comportamento.
A medição de atitudes conquistou mais adeptos, nesta altura, visto que se
pensava que o que os cientistas estudavam tinha de ser passível de medição, para
ser considerado ciência. Assim, Thurstone e Likert desenvolvem as metodologias
de medição das atitudes, isto é, as escalas de atitudes. Esta técnica parte do
princípio que podemos medir as atitudes através das respostas verbais dos
indivíduos, ou seja, das opiniões e avaliações que os sujeitos efectuam acerca de
uma determinada situação. Neste âmbito, propõe-se ao sujeito uma série de
proposições padronizadas e solicitasse-lhe o grau de acordo com cada uma delas.
O conjunto de respostas obtidas indicará a direcção e a intensidade da atitude.
A escala de Likert é mais fácil de construir e de aplicar, sendo que a resposta
do indivíduo é localizada directamente em termos de atitude, como se pode
constatar na figura 1.

Figura 1 – Exemplo de escala tipo Likert

As escalas intervalares de Thurstone centram-se na procura de objectividade


na selecção das frases face às quais os sujeitos apenas têm de assinalar aquelas
com que concordam. Primeiramente, há que obter um conjunto de 100 frases que
manifestem a opinião acerca do objecto de atitude para se proceder à sua avaliação
por um conjunto de sujeitos numa escala de onze pontos (1 – totalmente
desfavorável; 11 – totalmente favorável). Porém, este tipo de escala tem sido cada
vez menos utilizado tendo em conta motivos de ordem prática como a morosidade
do processo de construção; motivos de ordem metodológica dada a contestação da
capacidade dos juizes para situarem as frases numa escala de intervalos iguais; e
39

motivos de ordem científica, na medida em que é difícil para os indivíduos


abstraírem-se da sua própria posição na avaliação dos itens. Na figura 2 temos um
exemplo deste tipo de escala.

Figura 2 – Exemplo da escala de Thurstone

Estas técnicas, designadas em psicologia como de papel e lápis, apesar de


serem as mais usuais na avaliação de atitudes, apresentam alguns problemas,
nomeadamente, o facto da resposta do sujeito poder não corresponder realmente à
sua atitude. Por outro lado, a linguagem utilizada e os efeitos de contexto, como a
ordem da apresentação das questões constituem outros obstáculos que poderão
influenciar as respostas dos indivíduos e, assim, enviesar os resultados.
A atitude possui as seguintes derivações:

 Componente cognitiva: é o que consideramos verdadeiro acerca o objeto.


 Componente afetiva: está ligada ao sistema de valores, sendo a sua direção
emocional.
 Componente comportamental: depende da crenças e dos valores que se têm
relativamente ao social.

As atitudes não são diretamente observáveis; são inferidas a partir de


comportamentos.
Por outro lado também é possível inferir de um comportamento a atitude que
esteve na origem.
As atitudes são o suporte intencional de grande parte dos nossos
comportamentos e nascem conosco, formam-se e aprendem-se no processo de
socialização.
As atitudes são conseqüência de uma construção, e das quais os agentes
sociais são responsáveis pela sua formação (pais e família, a escola, o grupo de
pares, os mass media).
40

É através da observação, da identificação e da imitação de modelos (pais,


professores, figuras públicas…) que se aprendem e se forma as atitudes.
A aprendizagem ocorre ao longo da vida, mas tem maior importância na
infância e na adolescência.
Apesar da aparente estabilidade das atitudes, estas podem mudar ao longo da
vida.
As experiências vividas podem levar à alteração das atitudes.

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1.De acordo com o texto, qual o conceito de ATITUDES?

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2.De que forma podem ser medidas as ATITUDES?

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Unidade 2.2 Relação Social e Influência Social

Ao estudar a natureza das relações sociais, antes de mais nada, o que precisa
ser esclarecido para entender a relação do “social” com a psicologia, quer concebida
como ciência da mente (psique) quer como ciência do comportamento é entender
como o “social” pode ser pensado e compreendido desde o caráter assistencialista ou
da gestão racional da indigência na idade média até emergência das concepções
democráticas ciências humanas no século XX passando necessáriamente pela
41

formulação das questões sociais e em especial os ideais de liberdade e igualdade no


século das luzes e os direitos humanos.
Contudo esse modo de abordar o tema da psicologia aplicada aos problemas
sociais humanos não deixa de ser uma limitação do que pode ser compreendido como
o estudo da capacidade ou condição do homem viver em sociedade. Assim sendo,
temos várias áreas ou arenas de discussão desse tema definido então como:
 Psicologia comunitária
 Psicologia cultural-histórica
 Etnopsicologia ou Psicologia inter-cultural
 Psicologia política
 Psicologia das multidões
 Psicologia dos grupos ou Dinâmica de grupos
 Psicologia Institucional ou organizacional
Considera-se que estas diversas sub-disclinas ou inter-disciplinas, com nítidos
recortes de objeto e método definidos, são formas mais "sociológicas" ou mais
"psicológicas" da psicologia social que essencialmente é o estudo do comportamento
e dos processos mentais do indivíduo quando em grupos analisando-se
simultaneamente a natureza da sociedade que modela e paradoxalmente é modelada
por esses grupos.
Em sua primeira fase, a Psicologia Social tinha como objeto central de estudo
as atitudes e a influência social. "O homem era geralmente percebido como um
animal racionar, afirma Moscovici (1982, p. 119). Buscava-se então compreender a
formação e mudança das atitudes numa abordagem intra-psíquica. A teoria da
dissonância cognitiva de Festinger (1975) é um bom exemplo dessa abordagem que
se propõe a explicar como, diante de um conflito entre cognições, o sujeito tende a
reduzir a dissonância reajustando suas atitudes. No entanto, afirma Moscovici (1982,
p. 119), que "a teoria da dissonância cognitiva revelou ser o homem um ser
racionalizante mais que uma criatura racional". Ele deveria mudar suas atitudes e
cognições para ajustá-las ao seu comportamento e motivos subjetvos.
Por outro lado, a dissonância pode ser provocada não apenas por conflitos
intra-psíquicos, mas também por conflitos interpessoais. Tais problemas não
poderiam ser completamente elucidados através das explicações anteriores. A fonte
de tensão entre opiniões e ações passa agora a ser as relações entre o sujeito e o
42

outro. Entra-se, pois, na segunda fase da Psicologia Social onde o estudo


da percepção social torna-se o foco das atenções dos pesquisadores.
O tema da atribuição de causalidade predominou nessa segunda fase.
Buscava-se compreender como o sujeito ordenava e explicava o comportamento do
outro; a partir de que elementos o sujeito atribuía causas ao comportamento do outro.
O homem é aqui percebido, segundo Moscovici (1982), como uma máquina de
processamento de informações que apresenta alguns problemas. Ele deixa de ser o
animal racional para ser uma máquina pensante, para usar a expressão do próprio
Moscovici. Isso implica que o conhecimento vem de fora e chega até o sujeito por
processamento de informação. A máquina, porém, como foi dito acima, apresenta
alguns problemas, cometendo o que se convencionou chamar de "erro fundamental".
Tais erros seriam, na verdade, erros de atribuição cometidos por sujeitos capazes de
construir um corpo de conhecimento objetivo.
O homem é visto nessa abordagem como um "cientista imperfeito", segundo
Moscovici (1982), que constrói teorias ingênuas sobre o outro (é o caso das teorias
implícitas da personalidade) e apreende da realidade apenas os elementos que
confirmam sua teoria ao invés de construir teorias falsificáveis, isto é, teorias que
possam ser refutadas pela experiência - como são as teorias científicas.
Esse nível de análise tem como limite o fato de não conseguir explicar a
frequência e sistematicidade dos erros de atribuição cometidos pelos sujeitos.
É nesse contexto, e buscando resolver tais questões, que em 1961 surge o
trabalho de Serge MoscoviciintituladoLapsychanalyse, sonimageetsonpublic, onde
propõe o estudo das representações sociais.
Nessa perspectiva, o "erro fundamental" não seria mais devido a características
individuais do "cientista ingênuo", mas sim uma consequência das nossas
representações sobre os seres humanos e os grupos sociais. Segundo Moscovici
(1982, p. 134), "as representações elas próprias podem estar erradas, não duvido,
mas não é uma questão de lógica ou uma questão psicológica, mas uma questão da
história e da interpretação da nossa cultura".
Ao procurar entender como é assimilada a psicanálise pelo leigo, enquanto
discurso científico, Moscovici (1976) não tinha como objetivo discutir a teoria
psicanalítica, mas tentar compreender como o saber científico enraizava-se na
consciência dos indivíduos e dos grupos. Ao estudar como o leigo se apropria de um
43

saber científico, ajustando-o à psicanálise, Moscovici estudava cientificamente o


"senso comum". Esse estudo implicava, pois, a análise das formas culturais de
expressão dos grupos, a organização e transformação dessa expressão além da
análise de sua função mediadora entre o indivíduo e a sociedade.
A proposta básica do estudo da representação social é a busca de
compreensão do processo de construção social da realidade, para retomar a
expressão de Berger e Luckmann (1973).
Moscovici (1976) retoma o conceito de "representação coletiva" de Durkheim,
afirmando porém que este último englobava como "representação coletiva" uma
enorme classe de conhecimentos e crenças qu^ incluíam a ciência, a religião, os mitos
e as categorias de tempo e espaço que, devido à sua heterogeneidade e à
impossibilidade de defini-las através de poucas características gerais, dificultavam a
delimitação do conceito.
Já vimos que, inicialmente, Moscovici (1976) definiu a representação social
como "teorias", "ciências coletivas",suigeneris, destinadas à interpretação e
construção do real (p. 48). (...) Elas determinam o campo de comunicações possíveis,
valores ou idéias apresentadas nas visões compartilhadas pelos grupos e regulam,
por consequência, as condutas desejáveis ou admitidas" (p. 49). Seria então
necessário compreender as dimensões latentes sobre as quais se constroem esse
universo.
O estudo de Moscovici (1976) teve o grande mérito de propor uma
noção carrefour, como dizem Doise e Pamonari (1986), que permite considerar o
sujeito não como um aparelho intra-psíquico, mas como produtor e produto de uma
determinada sociedade. Assim, ele abriu a perspectiva de interconectar conceitos da
Sociologia e da Psicologia considerando que a realidade social é construída em três
momentos que foram sintetizados por Berger e Luckmann (1973, p. 87) na expressão:
"A sociedade é um produto social". A sociedade como produto humano é ,na verdade,
uma reconstrução, uma reelaboração humana.
Sendo a representação social uma construção do sujeito sobre o objeto e não
a sua reprodução, essa reconstrução se dá a partir de informações que ele recebe de
e sobre o objeto. "Essas informações seriam filtradas e arquivadas na memória de
forma esquemática e coerente, constituindo uma "matriz' cognitiva do objeto que
44

permite ao sujeito compreendê-lo e agir sobre ele" (Silva, 1978, p. 20). Seria o que
Jodelet (1984) considera o "crivo de leitura" da realidade.
Sendo a representação social compreendida enquanto conteúdo e processo,
seu estudo remete necessariamente aos processos perspectivos e imaginários do
sujeito, às forças sociais e conteúdos culturais subjacentes às relações numa
sociedade determinada, bem como à sua função mediadora entre indivíduo e
sociedade.
Ao analisar as dimensões latentes sobre as quais se constrói a representação
social, Moscovici (1976) propõe três dimensões que dizem respeito à formação do
conteúdo da representação e que remetem ao quadro social em que se insere o
indivíduo:
a) Atitude - expressa uma resposta organizada (complexa) e latente
(encoberta). "Uma orientação geral face ao objeto de representação. Ela se apresenta
como uma pré-conceituação que é produto de relações, remanejamentos e
organizações da experência do sujeito com o objeto" (Silva, 1978, p. 21). A atitude é
ligada à história do indivíduo ou do grupo.
b) Informação - remete à quantidade e qualidade do conhecimento possuído a
respeito do objeto social. Pode-se, assim, distinguir níveis de conhecimento do objeto.
Esses dois elementos do conteúdo se estruturam no:
c) Campo da representação - "seria uma unidade hierarquizada dos
elementos que denota a organização desse conteúdo (preponderância, oposição etc,
de um elemento sobre o outro) e o caráter vasto desse conteúdo, suas propriedades
qualitativas e imageantes" (Silva, 1978, p. 22).
A análise dessas dimensões permite, segundo Moscovici (1976), descrever as
linhas sociais de separação dos grupos, comparando o conteúdo das representações.
No que se refere à elaboração das representações sociais, Moscovici (1976)
propõe dois processos como sendo fundamentais:
1) Objetivação - caracteriza-se pelo fato de que as idéias construídas em
contextos específicos são percebidas como algo palpável, concreto e exterior ao
sujeito. Essas realidades podem ser, em seguida, atribuídas aos outros ou a si
mesmo. Ela torna concreto o que é abstrato. Transforma um conceito em uma imagem
ou em núcleo figurativo. Por exemplo, o complexo da teoria psicanalítica não é mais
uma hipótese teórica mas um atributo real do outro (Tap, 1985).
45

A objetivação implica dois movimentos:


- a Naturalização do Objeto: é a construção de um modelo figurativo, um núcleo
imaginante - a transformação do conceito em categorias de linguagem e entedimento.
- a Categorização: a partir da qual a representação social torna-se um
instrumento de ordenamento e de classificação do real. Esses dois movimentos
implicam a Seleção das Informações e a Descontextualização dos elementos retidos
(Tap, 1986)

2) Ancoragem: caracteriza-se pela inserção do objeto numa hierarquia de


valores, estabelecendo uma rede de significações em torno do mesmo. Pela
naturalização e ancoragem, a representação social adquire seu caráter figurativo e
significativo.

A representação social é uma modalidade de conhecimento e uma


interpretação do real, determinada pela estrutura da sociedade onde ela se
desenvolve.
No entanto, essa influência não é linear, isto é, não se pode compreender a
representação social como sendo resultado único de processos sócio-econômicos.
Se, por um lado, as normas e valores sociais são fundamentais na gênese dos
sistemas de orientação do sujeito, por outro lado eles se combinam com as atitudes e
motivações construídas ao longo das experiências pessoais através de uma história.
Essa combinação implica um duplo movimento de objetivação e subjetivação do
objeto. Três processos intervêm nessa relação realidade social-representação soeial-
atividade do sujeito:
a) a Pressão à Inferência - Considerando que o sujeito busca constantemente
o consenso com o seu grupo e que a ação o obriga a estimar, comunicar e responder
às exigências da situação a cada momento, essas múltiplas pressões tendem a
influenciar a natureza dos julgamentos, preparando respostas prefabricadas e
forçando um consenso de opinião para garantir a comunicação e assegurar a validade
da representação.
b) a Focalização - "Refere-se à densidade de interesses dos sujeitos em
relação ao objeto" (Silva, 1978, p. 27). O sujeito tende a dar uma atenção variável aos
aspectos do ambiente social. A intensidade de suas atitudes e o modo pelo qual ele
46

relaciona os dados da realidade dependem de seus hábitos lógicos e linguísticos, de


tradições históricas e da estratificação de valores.
c) Defasagem e Dispersão de Informação - "esse fator refere-se às condições
de acesso e exposição às informações sobre o objeto (inclusive do próprio objeto)"
(Silva, 1978, p. 27). Essa diversidade de informação refere-se não só às informações
disponíveis mas também às condições objetivas de acesso a elas como, por exemplo,
obstáculos de transmissão, falta de tempo, barreiras educativas e até mesmo os
efeitos de especialização.
Além disso, para se constituir como organização cognitiva a representação
social se apoia em dois princípios:
1) Analogia - é um princípio de mediação entre dois ou mais universos tornados
permeáveis por uma transferência, ou generalização de uma resposta ou de um
conceito já conhecido para uma resposta ou conceito novo.
A analogia permite a construção do objeto representado a partir de uma
informação sumária sobre o objeto, relacionando seus atributos com atributos
semelhantes pertencentes a outros objetos significativos. A analogia permite uma
economia de informação justificada pelas exigências da comunicação.
2) Compensação - é um princípio que regula a frequência de raciocínio, sua
coerência interna. São, segundo Moscovici (1976), operações que fazemos
maximizando as semelhanças ou diferenças a fim de introduzir o objeto em uma
classe. É uma tendência à estabilidade, à coerência, à não-contradição das
proposições destinadas a exprimir o conteúdo das representações.
Silva (1978) destaca que, a partir das características descritas, a representação
social seria:
a) uma recriação do objeto determinada simultaneamente pela estrutura
psicológica e pela estrutura social
b) um processo de mediação entre o conceito e o objeto, em que o processo
individual e as características do objeto se relacionam e se engendram mutuamente
c) um princípio de ordenamento dos objetos em um sistema coerente, o que lhe
confere uma significação individual e social
Jodelet propõe a seguinte definição da representação social:
O conceito de representação social designa uma forma de conhecimento
específico, o saber do senso comum, cujos conteúdos manifestam a operação de
47

processos generativos e funcionais socialmente marcados. Mais abrangentemente,


ela designa uma forma de pensamento social. As representações sociais são
modalidades de pensamento prético orientado para a comunicação, a compreensão
e o domínio do ambiente social, material e ideal. Enquanto tal, elas apresentam
características específicas no plano da organização dos conteúdos, das operações
mentais e da lógica. A marca social dos conteúdos ou dos processos da representação
remete às condições e ao contexto das quais emergem as representações, às
comunicações pelas quais elas circulam, às funções que elas têm na interação com o
mundo e com os outros (Jodelet, 1984, pp. 361-362).
Esta definição possui, no entanto, uma tal abrangência que dificulta a
operacionalização do conceito nos trabalhos de pesquisa. O próprio Moscovici (1976)
reconhece que o conceito não é facilmente apreendido embora o "seja a realidade das
representações sociais".
A sua situação de conceito carrefour faz com que ela designe um grande
número de fenômenos e processos, como o salientam Doise e Palmonari (1986). E,
continuam os autores, "a pluralidade de abordagens e de significações que ela veicula
fazem dela um instrumento de trabalho difícil de manipular" (Doise e Palmonari, 1986,
p. 83). Paradoxalmente, é nisso que consiste a sua riqueza. Ela busca articular
diferentes sistemas explicativos, referindo-se aos processos individuais, inter-
individuais, intergrupais e ideológicos.
A representação social é, segundo Jodelet (1991, p. 15) "uma forma de
conhecimento que embora distinta do saber sapiente ous sério' (Foucault, 1969), deve
ser estudada como tal em seus estudos e processos (Jodelet, 1988) e enquanto um
saber prático do senso comum, socialmente compartilhado e tido por evidência
consensual no quotidiano (Berger e Luckmann, 1966)". Ainda segundo a autora, dessa
definição decorre que o estudo da representação social deve levar em conta:
- "o sujeito do conhecimento - indivíduo ou grupo - e sua experiência.
- as condições sócias de sua produção e de sua circulação em referência a
uma prática já que este conhecimento se oferece como versão do mundo que gere a
vida cotidiana material, social etc". (Jodelet, 1991, p. 15)
Jodelet (1991) afirma que na medida em que o conceito de ideologia não
conseguiu explicar o papel do conceituai nas relações sociais e nas relações de poder,
48

a noção de representação social constitui um novo olhar sobre o social e o


pensamento, tendo como perspectiva a questão da mudança.
Na medida em que fatos sociais são objeto do conhecimento, as
representações são a parte conceituai do real. Paradoxalmente, as representações
são constitutivas do social na medida em que os sujeitos só se situam com relação
aos outros no momento em que os fatos sociais são apropriados pela consciência,
isto é, representados pelos sujeitos.
Lipiansky (1991), no entanto, ao discutir as diferenças entre os conceitos de
representação social e ideologia salienta a dificuldade de precisar esses limites, uma
vez que, quanto à sua utilização, eles aparecem de forma desigual em Psicologia
Social.
Além disso, há desigualdade da elaboração dessa noções nos trabalhos de
pesquisa na área de Psicologia Social. Enquanto a representação social vem se
constituindo como um conceito fértil e articulado em Psicologia Social, o conceito de
ideologia é utilizado raramente, de forma limitada e imprecisa.
Vale salientar que a articulação entre os dois conceitos é, segundo Lipiansky
(1991), insuficiente, pois raramente os pesquisadores fazem uma confrontação
explícita e/ou uma articulação entre eles.
Para este autor, é necessário fazer algumas distinções entre representação
social e ideologia, partindo do pressuposto de que eles não são sinônimos.
A primeira distinção proposta por Lipiansky (1991) é uma distinção de nível. Ele
ressalta que o conceito de ideologia aparece nas pesquisas como um sistema de
representações. Nesse sentido, ela seria o contexto no qual se inscreveriam as
representações isoladas. Tudo se passa como se a ideologia fosse de um nível que
englobaria as representações.
A segunda distinção proposta diz respeito à extensão e domínio dos dois
conceitos. "O termo ideologia refere-se geralmente a sistemas de representações
compartilhadas por todo um grupo social, tendo um caráter dominante sobre o campo
das representações desse grupo" (Lipiansky, 1991, p.50).
A terceira distinção remete às funções específicas da ideologia. Esta
aparece nas pesquisas em Psicologia Social com as funções de racionalização das
condutas, função de defesa, função de articulação do individual e do grupai, do
psicológico e do social.
49

Para Lipiansky (1991) é necessário confrontar os dois conceitos para que se


possam construir as articulações e suas possíveis operacionalizações no campo da
Psicologia Social. Partindo da definição de ideologia como um sistema de
representações, pode-se apenas deduzir que a ideologia seria o fio de articulação das
diferentes representações. Isso nos daria a idéia da estrutura da ideologia mas não
de sua função e processo.
No que se refere à função da ideologia, o pensamento marxista remete às
relações de classe. "Ela traduz as posições e interesses de um grupo particular,
naturalizando essas posições e interesse, apresentando-os como universais e
comuns no conjunto da humanidade e tendendo a legitimar a ordem estabelecida"
(Lipiansky, 1991, p. 56).
Aqui, ideologia aparece como a expressão do pensamento de um grupo sem
que haja reciprocidade. "A representação das relações deste grupo às suas práticas
e relações sociais, torna-se, para ele, a descrição e explicação da realidade"
(Lipiansky, 1991, p. 57).
No entanto, essa explicação não nos informa como os indivíduos se apropriam
da ideologia e a reproduzem e quais os processos cognitivos envolvidos nessa
apropriação e reprodução.
É importante lembrar o que diz Malrieu (1979): o sujeito não faz apenas
submeter-se à ideologia do Estado, ele a compartilha com seus semelhantes e,
apropriando-se dos seus significados, ele dá um sentido à sua existência.
Para que isso seja possível, para que a ideologia seja apropriada e reproduzida,
é necessário que haja um "terreno" propício a se apropriar e a reproduzir essa visão.
Lipiansky (1991, pp. 57-58) salienta que:
"não se pode colocar ideologia de um lado, e o consumo passivo da ideologia
do outro. Ela não se impõe de for a à consciência individual ou coletiva. Ela responde
de dentro às necessidades cognitivas e psíquicas do sujeito que lhe dá sua adesão
porque ele encontra nela um modelo de ligação e de articulação de representação, de
ações e de crenças pelas quais pode se exprimir ao mesmo tempo sua relação com
o ambiente (a partir do lugar e da posição que ele ocupa no campo social) e os
mecanismos psicológicos que lhe permitem afirmar e defender sua identidade, o
equilíbrio e a consistência do seu campo cognitivo".
50

Ideologia e representação são conceitos distintos que se referem a fenômenos


próximos.
Eles têm em comum uma tripla função:
a) Cognitiva - construção da realidade social
b) Axiológica - orientação nesta realidade a partir dos valores que elas implicam
c) Conativa - influência que exercem sobre a conduta
Nesse sentido, ideologia e representação social são formas de discursos
estruturados que têm como função cognitiva estruturante a construção social da
realidade.
Elas contribuem no nível simbólico "à fundação de uma ordem social, à
integração dos indivíduos a essa ordem e à instauração de uma coesão e de um
consenso grupal" (Lipiansky, 1991, p. 60).
Segundo este autor, instituindo laços e relações lógicas entre as
representações sociais, a ideologia as organiza e as estrutura. Elas têm, pois, uma
função reguladora sobre o discurso, as representações e as condutas. A ideologia e
a representação social se caracterizam por funções e processos psicossociais que se
referem a diferentes níveis da realidade articulados uns aos outros.
A ideologia assegura uma articulação nos níveis cognitivo, social e psíquico e
uma correspondência entre o psicológico e o social. Ela oferece uma via de passagem
para que os mecanismos psíquicos se transformem em mecanismos sociais,
permitindo ainda que os processos sociais sejam transformados em processos
psíquicos. A identidade pessoal é um exemplo dessa articulação. Ao indicar ao sujeito
seu lugar no mundo social, ela lhe oferece modelos de identificação. Favorece, então,
uma base social para a estruturação da identidade pessoal.
A participação na dinâmica social inicia-se com a interiorização de uma
realidade já construída. Ao assimilar essa realidade o indivíduo assume o mundo
social e toma-se membro da sociedade; em outras palavras, ao nascer, depara-se
com um universo simbólico cujas regras, valores, padrões comportamentais e
representações serão por ele compartilhados. Ressalte-se a originalidade de cada
indivíduo nesse trajeto ao assumir o mundo dos outros (apropriar-se desse mundo), o
que implica um processamento simultâneo de assimilação e transformação dos
conteúdos transmitidos. Só a partir do momento em que ele se apropria das formas
de pensamento e dos modelos de conduta de sua cultura é que tais representações
51

vão se consolidando subjetivamente, podendo, assim, intervir na sua interpretação do


mundo e de si mesmo, isto é, na construção de sua identidade pessoal. Nessa
perspectiva, desenvolve-se, no Laboratório de Interação Social Humana (Lablnt) do
Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco, uma linha de
pesquisa que investiga a relação entre representações sociais e identidade individual.

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1.Qual a importância do estudo de MOSCOVICI para a Psicologia Social?

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2.O que você entende por influência social?

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Unidade 2.3 Cognição Social

A cognição social é um campo da psicologia social que investiga a forma como


as pessoas compreendem as outras pessoas e elas mesmas (Fiske e Taylor, 2008).
Surgiu do interesse de psicólogos sociais pela psicologia cognitiva, que começaram a
utilizar os modelos cognitivos para entender os processos básicos subjacentes às
interações sociais. Essa área de pesquisa tem como aspectos básicos:
 omentalismo, que confere importância aos processos e representações
mentais;
 a formação, operação e mudança dos processos cognitivos dentro dos
contextos sociais;
52

 a utilização de métodos, teorias e modelos desenvolvidos em outras


áreas pela psicologia social, como a psicologia cognitiva e a neurociência social
cognitiva;
 a aplicação ao mundo real (aplicação à temas como comportamento de
ajuda, preconceito, esteriótipos, relacionamentos íntimos e outros).
No decorrer da pesquisa em cognição social, vários modelos de “pensador
social” foram utilizados. Nas décadas de 50 e 60 a visão dominante era de que as
pessoas buscavam consistência entre suas cognições, e eram motivadas pelas
inconsistências entre elas.
Essa visão era decorrente de várias teorias criadas a partir das pesquisas em
mudança de atitude, predominantes depois da Segunda Guerra Mundial, como a da
dissonância cognitiva de Festinger (1957) e a teoria do balanço de Heider (1958).
Nessa visão, as pessoas tinham como funcionamento básico a busca por
consistência (e.g. Uma pessoa fuma e sabe que isso fará mal a ela. Isso cria uma
inconsistência entre suas cognições “fumar faz mal à saúde” e “cuido da minha saúde”.
O passo seguinte será no sentido de diminuir ou acabar com essa inconsistência,
incluindo uma cognição como “fumar me deixa feliz, e, portanto, tem consequências
positivas para minha saúde”). Esse tipo de visão não considerou que certas
inconsistências poderiam não ser percebidas como inconsistências pelo indivíduo.
Na década de 70 o ser humano passou a ser visto como um cientista leigo, que
busca controle e predição sobre o seu contexto, de forma analítica e racional. O ser
humano, de um modo geral, tem uma grande série de limitações que não permitem
tanta racionalidade no julgamento e comportamento como essa visão o conferiu.
Na década seguinte foi pensado no “avaro cognitivo”, onde os seres humanos
seriam muito limitados e usariam atalhos mentais sempre que pudessem no sentido
de obter soluções rápidas para seus problemas.
A visão do ser humano como um “tático motivado” predominou nos anos 90,
em que o pensador social seria engajado no seu pensamento, tendo à sua disposição
múltiplas estratégias cognitivas, que conscientemente ou inconscientemente escolhe
entre elas baseado em suas metas, motivações e necessidades.
Nem sempre seremos tão engajados, deliberados ou racionais na forma como
agimos ou pensamos, e nesse sentido, a visão de homem com o início do século XXI
53

se modifica novamente, construída a partir de todas visões anteriores, no que foi


chamado de “atores ativados”.
O ambiente social daria pistas de conceitos sociais, sem a consciência do
indivíduo, e, quase inevitavelmente, também daria pistas de cognições, avaliações e
motivações associadas. Nenhuma das visões é vista hoje como completa e correta,
mas as observações feitas construíram uma visão mais rica do ser humano,
enfatizando diferentes aspectos.
Um dos resultados dessa evolução de pensamento foi o Modelo Duplo de
Processamento, que se tornou predominante nessa área de pesquisa e visa explicar
a diversidade de pensamentos, sentimentos e comportamentos entre as pessoas.
Esse modelo integrador se baseia num continuum de processamento da
informação social que vai de um nível mais automático a um mais controlado, onde
múltiplas variáveis irão influenciar o nível de processamento da informação social, e,
conseqüentemente, o comportamento.
Em determinadas circunstâncias haverá um processamento mais automático,
resultando em comportamentos onde o indivíduo não deliberou ou tem grande
consciência das motivações ou das consequências de realizar tal conduta; em outras,
haverá um processamento mais controlado, onde a deliberação e consciência se
tornam mais presentes.
Para a cognição social, os diferentes níveis de análise são essenciais para o
entendimento do ser humano: o cérebro importa e a cultura importa.
O modo como nos relacionamos com os outros ao longo da vida e as interações
que estabelecemos definem grande parte do que fomos e somos.O processo de
socialização é dependente da aprendizagem, da qual resulta uma complexidade e
diversidade nas relações que estabelecemos com outros, sendo:
Interação Social- conjunto de influências recíprocas que se estabelecem entre
as pessoas.
Cognição Social – estudo do modo como percecionamos o nosso mundo
social enquanto atores e espectadores, bem como da forma como interpretamos o
nosso comportamento e o dos outros, do modo como agimos na sociedade, formando
e mudando atitudes e comportamentos.
54

Em síntese, refere-se ao conhecimento do mundo social (pessoas, grupos,


instituições ou comunidades). E a partir daí temos os processos fundamentais da
cognição social, sendo parte deles:Expectativas, Atitudes e Representações Sociais.
As Impressões são noções que se criam no contacto com as pessoas e que
nos dão um quadro interpretativo para as avaliarmos.Construção de uma imagem,
uma idéia. A produção de impressão é mútua, quando se trata de pessoas, e afeta
tanto o meu comportamento como o do outro.Provoca efeito na relação interpessoal
futura.
O Efeito de ordem ou primazia tem a tendência de dar mais importância às
primeiras impressões sobre uma pessoa do que a informações posteriores.
Corresponde à durabilidade ou persistência das primeiras impressões.A formação das
impressões é o processo pelo qual se organiza a informação acerca de outra pessoa
de modo a integrá-la numa categoria significativa.
A Categorização permite generalizar as características de uma categoria a
todos os objetos pessoais ou situações que a compõem, permite organizar o mundo
social dando-lhe um sentido.Categorização social orienta, serve de guia para a nossa
ação, induzindo a complexidade do mundo social.A principal função da categorização
é a simplificação da informação.
Na base da formação das impressões está a interpretação, isto é, nós
enxergamos o outro, a partir de uma grelha de avaliação que nos remete para os
nossos conhecimentos, valores e experiências pessoais.
Características podem remeter para determinado tipo de personalidade ou
categoria social (ex. alta, baixa, magra, gorda, morena).
A partir dos indícios, formamos uma impressão global de uma pessoa, a quem
atribuímos uma categoria socioeconômica e cultural, um determinado estatuto social.
Ao fazermos uma avaliação geral da pessoa a partir de algumas características
(indução) ou traços que observamos na interação com ela ou que nos foi referida por
outros (o que comporta riscos), e construímos o que designa por teoria implícita da
personalidade.
A primeira informação é a que tem maior influência sobre as nossas
impressões.
As primeiras características ou conhecimentos que apreendemos têm mais
influência na categorização que fazemos sobre uma pessoa.
55

Há como que uma rejeição a integrar informações que contrariem as nossas


primeiras impressões ou opiniões e uma tendência a procurar ou a valorizar as
informações que confirmem as nossas convicções.
A cognição social é um processo cuja finalidade é compreender de que forma
os nossos pensamentos (atitudes) são afetados pelo contexto social em que cada
individuo está inserido e de que modo influenciam o seu comportamento. Os
processos de cognição social permitem tornar o estranho em conhecido.

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1.Na sua concepção o que significa Cognição Social?

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2.Qual a diferença entre Interação Social e Cognição Social?

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Unidade 2.4 Representação e Identidade Social

Se formos ao dicionário verificarmos que, o conceito de representação surge


associado a uma imagem mental, a uma reconstrução do real que permite ao ser
56

humano a capacidade de relembrar ou evocar um dado acontecimento, objeto ou


pessoa, na sua ausência.
Quando as representações são aceites e partilhadas por uma dada sociedade
ou grupo de indivíduos estamos perante as designadas Representações Sociais, isto
é, conjunto de explicações, de crenças e idéias, elaboradas a partir de modelos
culturais e sociais que dão quadros de compreensão e interpretação do real.
As representações sociais são características de uma determinada época e
contexto histórico, por isso, a sua alteração ocorre muito lentamente. Um bom
exemplo disto é a representação da mulher nas sociedades ocidentais.
Contemporaneamente, para além de ser mãe de família, desenvolve uma atividade
profissional em que procura como é evidente ser bem sucedida.
Esta representação que, atualmente é tida como desejável, seria impensável
no início do século XX, cuja representação social era da mulher que ficava em casa a
cuidar dos filhos e das tarefas domésticas. Outro exemplo onde é evidente a mudança
da representação é no ideal de mulher bonita. A imagem robusta, com ancas
arredondadas, associada ao que se considerava um corpo bonito e esbelto, deu lugar
a um ideal em que dominam os corpos magros e esguios.
As representações sociais, também consideradas em sentido mais amplo como
pensamento social, são deveras imprescindíveis nas relações humanas, uma vez que,
dão uma explicação, um sentido à realidade (função de saber). Alem disso, ao
funcionarem como reguladoras e orientadoras do comportamento (função de
orientação) permitem aos indivíduos comunicarem e compreenderem-se.
É também importante salientar a função de identidade das representações
sociais, são elas que permitem construir uma identidade social do grupo, pois numa
mesma sociedade existem diferentes grupos que possuem representações diferentes
acerca de uma mesma realidade – as representações sociais não são homogêneas
dentro de uma sociedade. São também uma forma dos indivíduos explicarem e
fundamentarem as suas opiniões e comportamentos.
Na formação deste tipo de pensamento estão subjacentes dois processos que
funcionam em parceria: a objetivação e a ancoragem.
Em primeiro lugar ocorre a objetivação, processo este que permite a formação
de um todo coerente, através da seleção e da descontextualização do objeto,
seguindo-se a fase da esquematização, que tem como objetivo construir um esquema,
57

ou melhor, um “núcleo figurativo”onde constem organizadamente num padrão de


relações, os principais elementos do objeto da representação.
Este processo termina com a naturalização dos padrões relacionais que
passam a ser percebidos claramente. Assim os elementos abstratos tidos inicialmente
transformam-se em imagens concretas, que fazem parte da realidade.
A objetivação é, portanto um processo de simplificação, uma vez que se perde
muita informação. No entanto, esta riqueza informativa que se perde durante o
processo ganha-se em entendimento.
Posteriormente ocorre o processo de ancoragem. Através deste ocorre a
assimilação das imagens criadas pela objetivação, sendo que estas se integram em
categorias (daí que a representação social seja uma manifestação dos fenômenos da
categorização) que o sujeito possui fruto das experiências anteriores.
A objetivação e a ancoragem funcionam como um todo no processo de
formação das representações sociais.
Estas, quando ancoradas, funcionam como um filtro cognitivo, uma vez que as
novas representações são interpretadas segundo os quadros de representação
preexistentes. Assim, vão influenciar o comportamento dos indivíduos. Por exemplo,
se determinado indivíduo tiver uma má representação dos estrangeiros, esta terá
muita influência no comportamento, uma vez que, pode levar inclusivamente a
reações xenófobas. Por este motivo é que apesar de serem extremamente
importantes, as representações sociais podem revelar-se muito perigosas.
A discussão de processos identitários abordando aspectos conceituais e
contextuais implica, primeiramente, na concepção da identidade, enquanto categoria
de análise, como uma construção social, marcada por polissemias que devem ser
entendidas circunscritas ao contexto que lhe conferem sentido.
Neste item, procurou-se abordar a identidade associada à multiplicidade de
sentidos e terminologias que atravessam a configuração do termo ao longo da história
e num mesmo período histórico, expresso pela diversidade de áreas de conhecimento
que se dedicam ao estudo do tema em questão.
O termo identidade sempre desperta interesse, tanto das pessoas comuns,
representantes do universo consensual, quanto de cientistas sociais, psicólogos e
assistentes sociais.
58

Inúmeras questões estão associadas à identidade. Historicamente, o termo


empregado para significar o que hoje se entende por identidade foi personalidade,
privilegiando não só a perspectiva individualista, mas também uma visão em que os
princípios da ciência médica sustentavam toda proposta de compreensão. Nesse
contexto, os debates versavam sobre o “normal” e o “patológico”, o “natural” e o
“inerente”.
A priorização do ser biológico e individual sustentados por uma estrutura
psíquica, invariante enquanto processo normativoinstitui uma dicotomia entre o
indivíduo e o grupo, entre o homem e sociedade.
O conceito de personalidade oferecia um conjunto de princípios que
previamente classificavam os indivíduos em categorias, confirmando uma concepção
de sujeito em que pese a diversidade dos ambientes sociais. Os comportamentos
expressos pelos indivíduos invariavelmente serviam para justificar as interpretações
denominadas “científicas”, restando pouco ou quase nada a fazer por parte daqueles
que manifestavam tais condutas.
Baseados no princípio de “normalidade” e estrutura psíquica invariante,
aplicado a todos indistintamente, os psicólogos mostravam-se despreocupados em
investigar o comportamento dos homens. O comportamento, em si, configurava-se
como recurso para alimentar os princípios constitutivos da personalidade normal ou
patológica. A história social e singular do indivíduo participava apenas como pano de
fundo para a expressão dos comportamentos “sabidamente” conhecidos.
Dissonante dessa perspectiva, e preocupados em considerar o homem
enquanto sujeito social, inserido num contexto sócio-histórico, os psicólogos sociais
adotaram o termo identidade.
O emprego popular de tal termo apresenta-se marcado por uma intensa
diversidade conceptual, sugerindo que a ostentação de um nome tão definitivo,
continua sujeito a inúmeras variações.
Essa imprecisão conceptual não se restringe ao universo da vida cotidiana, mas
reflete a dificuldade nos mais variados campos do conhecimento que têm se dedicado
a essa temática, como a Antropologia, Filosofia, Sociologia e Psicologia.
“A importância conferida ao estudo da identidade foi variável ao longo da
trajetória do conhecimento humano, acompanhando a relevância atribuída à
59

individualidade e às expressões do eu nos diferentes períodos históricos” (Jacques,


1998, p.159).
Na visão psicológica, os estudos sobre identidade são tratados geralmente pela
Psicologia Analítica do Eu e pela Psicologia Cognitiva (Jacques,1998), que em comum
compartilham a noção de desenvolvimento, marcado por estágios crescentes de
autonomia, entendendo a identidade como produto da socialização e garantida pela
individualização. Ainda segundo o mesmoautor, a questão da identidade em
Psicologia Social ocupou lugar central nos estudos de William James , enquanto que,
na tradição do Interacionismo Simbólico, as referências concentram-se nos trabalhos
de George Mead.
As dificuldades apontadas nesse percurso, que respondiam por uma excessiva
ênfase, ora no individual, ora no social, são também encontradas na atualidade sob
formas diferentes, embora na “essência” ainda carreguem o problema de origem,
referente à demarcação do território limítrofe do social e do individual.
Instala-se, então, uma dicotomia em que a identidade passa a ser qualificada
como identidade pessoal (atributos específicos do indivíduo) e/ou identidade social
(atributos que assinalam a pertença a grupos ou categorias
Diante dessa diversidade de qualificações e predicativos atribuídos à
identidade, destaca-se o termo identidade social, uma vez que os elementos que o
compõem parecem apontar, de forma mais evidente, as duas instâncias - individual
e social - em jogo na discussão da problemática conceptual, que trata da origem
individual ou coletiva da identidade. Com isso é possível fazer algumas reflexões
sobre a concepção de homem subjacente à interpretação do termo, a fim de superar
a falsa dicotomia (individual e social), bem como mostrar que é na articulação destas
que é tecida a identidade.
Os termos identidade e representaçãosocial sugerem, respectivamente, um
conceito que "explique por exemplo o sentimento pessoal e a consciência da posse
de um eu..." (Brandão, 1990 p.37) privilegiando, de um lado, o indivíduo, e de outro
lado, a coletividade, resultando numa configuração na qual se capta o homem inserido
na sociedade, bem como à dinâmica das relações sociais. A importância dessa
relação pode ser melhor compreendida nessa citação de Marx (1978a, p.9) “ A
sociedade é, pois, a plena unidade essencial do homem com a natureza, a verdadeira
60

ressurreição da natureza, o naturalismo acabado do homem e o humanismo acabado


da natureza”.
A identidade é considerada uma categoria de análise, ou seja, constitui-se em
um elemento que é utilizado como referencial para submeter um objeto a uma análise;
um recurso teórico que vai subsidiar a compreensão de um dado fenômeno; mediação
para a compreensão de um determinado objeto.
O processo de construção da identidade, bem como seus elementos
constituintes, tem um caráter dialético, e dentro dessa perspectiva é interessante
destacar os princípios ou “leis” da dialética, para um melhor entendimento da noção
de identidade, não só em seu aspecto representacional mas também operativo.
De acordo com Gadotti (1983), as quatro "leis" da dialética compreendem:
1) tudo se relaciona;
2) tudo se transforma;
3) mudança qualitativa;
4) unidade e luta dos contrários.

A identidade é totalidade, e uma de suas características é a multiplicidade. Os


papéis sociais são impostos ao indivíduo, desde o seu nascimento e assumidos pelo
mesmo na medida em que se comporta de acordo com a expectativa da sociedade.
Por exemplo: na presença do filho, o homem se relaciona como pai; na presença de
seu pai, comporta-se como filho. Se for também professor do filho, o pai será
pai/professor e aquele será filho/aluno. O papel de pai, bem como o de filho,
materializa a identidade como totalidade/parcialidade, pois sendo expressão de uma
parte, não revela a identidade por inteiro.
A cada personagem materializado, a identidade tem assegurada sua
manifestação enquanto totalidade, mas uma totalidade que não se esgota nem
tampouco se resume a concretização de personagens. As personagens são partes
constitutivas da identidade e, ao mesmo tempo, configura-se como um todo que se
cria a si mesmo, enquanto fenômeno de uma totalidade concreta. A identidade é ainda
um universo de personagens já existentes e de outros ainda possíveis.
Desta forma, na relação com outros homens, o indivíduo não comparece
apenas como portador de um único papel, pois diversas combinações configuram uma
identidade como totalidade. Uma totalidade contraditória, múltipla e mutável, no
61

entanto una. Ao se apresentar frente a uma determinada pessoa, comporta-se de


uma dada maneira, neste momento as “outras identidades” pressupostas estão
ocultadas.
A identidade é construída por elementos opostos, ela é diferença e igualdade;
objetividade e subjetividade, ocultação e revelação, humanização e desumanização,
e, para compreendê-la, é necessário articular essas dimensões aparentemente
contraditórias a fim de superar a dicotomia individual/social que constitui a
problemática da identidade desde a origem do termo.
Identidade é ao mesmo tempo diferença e igualdade. Assim, a identidade
implica tanto no reconhecimento de que um indivíduo é o próprio de quem se trata,
como também pertence a um todo, confundindo-se com outros, seus iguais. Para
subsidiar tal afirmação, é interessante retomar a história de Severino, este
personagem que na busca de sua singularidade (diferença), acentuava cada vez mais
sua igualdade.
Severino, tentando dizer quem é, recorre a um substantivo (palavra que nomeia
o ser) para indicar sua identidade, porém não é suficiente para que a sua identidade
seja reconhecida. Em uma segunda tentativa, recorre a outros substantivos próprios
como nome da mãe, do pai, definindo com isso a sua posição social – família
determinada; procura então uma região geográfica, depois, acrescenta a descrição de
seu corpo físico, mas nada o singularizava, até a morte e a vida eram iguais na busca
da diferença.
Para muitos, a identidade se confunde com o nome e, nele estão a diferença
(pré-nome) e igualdade (sobrenome). O processo de identificação começa no grupo
social. O primeiro grupo social é a família na qual as duas dimensões da identidade
começam a se constituir – igualdade (sobrenome) e diferença (pré-nome).
O nome não é a identidade; enquanto substantivo não revela a identidade, mas
apenas parte dela. O substantivo é algo que nomeia o ser, e para isso é necessário
uma atividade: o nomear. Logo, a identidade não é substantivo, é verbo; identidade é
atividade (Ciampa, 1984).
Assim, ao se tratar de identidade e representações sociais, deve-se ter em
conta que a expressão do homem na vida em sociedade requer uma análise e um
projeto político, de forma que a pessoa alcance projeção, garantindo seu espaço e
reconhecimento social, entendendo essa projeção como direito e privilégio de todos
62

os seres humanos. Não é possível compreender a subjetividade a não ser pela


articulação entre sistema político (participação e representação), autonomia
(conhecimento e reflexão crítica) e cidadania (igualdade de direitos e solidariedade).

Importante:

Ao final dessa unidade você deverá ser capaz de:

1. Identificar os conceitos básicos de representação social, cognição social e


identidade.
2. Analisar a postura do individuo e suas reais necessidades no meio social

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1.De acordo com GADOTTI, quais são as leis da dialética?


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2.O que se entende por IDENTIDADE SOCIAL?
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ATIVIDADE AVALIATIVA

1. Elabore um texto que trate do seu cotidiano, identificando a aplicabilidade dos


conceitos analisados de representação e identidade social.
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CAPÍTULO III APLICAÇÕES DA PSICOLOGIA SOCIAL

Unidade 3.1 Psicologia Social nas Organizações

Ao longo de sua história, uma das grandes necessidades percebidas pelo


homem foi a de procurar organizar a sua realidade, através da elaboração de
conhecimentos necessários para direcionar e esclarecer as relações humanas e os
elementos que as compõem. Essas necessidades para atender sua condição física
fizeram com que o homem passasse a desenvolver conceitos mecanicistas.
Sempre se procurou traçar um parâmetro para a explicação do homem através
da junção da física, mecânica e matemática, principalmente a partir do século XVIII,
chegando a promover comparações do homem com a máquina através da recém
instituída física social, determinando que seus processos e condições psicológicas
poderiam ser analisados partindo de princípios da mecânica, em que também
avaliavam que o comportamento humano poderia ser visto através das bases nas leis
da astronomia.
64

Neste contexto, a organização social, o poder e a autoridade eram resultantes


das pressões de átomos e moléculas sociais, nascendo, então, a estática social, ou
melhor, a teoria do equilíbrio social, análoga à estática da mecânica física e a dinâmica
social, que envolvia o movimento como função do tempo e do espaço, às quais se
podia exemplificar pelas curvas matemáticas.
Os mais destacados simpatizantes e paladinos dessa idéia mecânica de
sistemas foram: H. C. Carey, A. Bentley, T. N. Carver e Pareto. Onde tudo teve sua
origem através de uma visão superficialista da realidade social e culminou como o
primeiro modelo sistêmico para interpretação das relações dos homens. Estes
modelos constituíram uma base filosófica muito boa para a implantação de sistemas
administrativos autoritários.
Dentro do conceito de concepção orgânica, na mesma linha de
desenvolvimento das ciências físicas, serviu este tema de base para a concepção
mecânica de sistema; o avanço das ciências biológicas constituiu o alicerce para o
nascimento do conceito orgânico de sistema social. Seu precursor foi Herbert
Spencer, que trabalhou a idéia de que o sistema social obedecia a leis e princípios
semelhantes aos dos organismos vivos.
Os diversos sistemas do corpo constituíam os sistemas da sociedade que, em
uma interação harmônica, poderiam determinar a estrutura global do organismo.
Ainda se via o sistema social como um organismo onde as células, ou seja, os
indivíduos, lutavam para manter vivo o organismo, ou seja, a estrutura e, também,
uma visão baseada no evolucionismo de Darwin, o qual vê a sociedade como um
conjunto de grupos de indivíduos lutando pela manutenção da sociedade, que é o
organismo. Nesta visão, o elemento mais importante não é o indivíduo e, sim, o grupo;
o importante não é a sobrevivência do indivíduo mas, sim, da espécie.
Dentro do contexto de concepção de sistema de processo, o termo processo
como designação de um tipo de conceito de sistema indica uma dinâmica diferente
para a organização e interação de seus componentes. Enquanto os termos mecânicos
e orgânicos pressupunham uma organização predeterminada e constante, o processo
representa o rompimento com estas duas condições. Este conceito foi conduzido nos
EUA pela escola de Chicago no início do século XX, e obteve como seus precursores
Albion W. Small, G. H. Mead, R. E. Park e E. W. Burges. A idéia de sistema como
processo, no qual a sociedade é o resultado de uma série de fatores que se associam
65

e se dissociam de maneira bem variada, traz a estrutura de uma forma onde acontece
a organização dos valores intimamente ligados aos processos que a originaram e é
permanente, acomodando-se em constante mudança as transformações do ambiente
em que se encontra.
A organização é um pressuposto básico que é tomado como óbvio – afinal
organizações existem – para poder ir adiante na investigação de sua forma e natureza
de sua forma e natureza; seja de organizações boas (sindicais, comunitárias) ou más
(capitalistas, psiquiátricas). Mas será que esta crença básica tem validade, quando
vista pela ótica de uma psicologia social ativa e investigava voltada à análise de ação
social vista do lado do agente desta ação? Será que organizações existem?
Durante muito tempo, e até pelo menos a década de 1930, organização,
enquanto palavra ‘descritora’ foi sempre associada à necessidade de dar ou pôr
ordem (ordenar) nas diversas ações que formavam o empreendimento industrial ou
comercial e o serviço público. A arte de administrar foi erguida em volta de atividades
tais como planejar, organizar, liderar e controlar; conseqüentemente a organização de
atividades fez parte do empreendimento ou serviço e não era sua característica
principal. Qualquer passagem pela arqueologia industrial inglesa mostra os portões
de fábrica e prédios do século dezenove onde o empreendimento era claramente
identificado: Fundação Soho, Tecelagem Bennet, Chapelaria Christie-Miller. Livros
escritos no início do século discutiam a organização e administração da fábrica, ou do
escritório, e ainda em 1974 George tinha isso a dizer ao resumir seu trabalho sobre a
história do pensamento administrativo:
“quando os administradores tentam criar um ambiente físico e mental eles
devem inculcar um certo grau de ordem no caos que a ignorância dos fatores
ambientais ocasionaria. Esse processo de ordenação, envolvendo o planejamento,
recebeu diversos nomes, sendo o mais comum de organização”
Na antropologia da mesma época, organização era usada de maneira genérica
para se referir aos processos sociais em agregações humanas, suas religiões, ritos,
estrutura familiar e modo de vida. Ninguém duvidava que estes processos sociais
tinham seu lado simbólico, como a citação de George deixa transparecer a partir do
uso da expressão ambiente mental; tratava-se, porém, de um processo de ordenação
no nível micro ou macro e não de algo em si.
66

Enquanto na linguagem do cotidiano este sentido básico de organização


enquanto atividade ou ação processual ao alcance de todos continua simbolicamente
presente até hoje (como na frase organizar uma festa), no terreno conceitual a
situação é outra. Ao chegar na década de 1950, o processo de criação do campo
profissional gerencial se consolida, exigindo um espaço delimitado e ideologicamente
legitimável de autoridade e competência. Expande-se também o campo profissional
das ciências sociais para os níveis de meso-análise da sociedade, trazendo a
necessidade de Ter um algo para estudar. A palavra organização altera seu
significado. Agora ela passa a ser um objeto a ser estudado, uma espécie de baú
dentro de qual comportamento podem ser observados, e cresce a discussão sobre
suas características e seu gerenciamento. Cada vez mais livros aparecem mostrando
como a organização é um fenômeno moderno e como as vidas de cada um são mais
e mais dependentes de organizações. Os múltiplos elementos deste ‘novo algo” são
separados e juntados num esforço de identificar as variáveis-chaves que afetam seu
desempenho e demora muito pouco tempo para que o baú abstrato vire uma entidade
concreta que tem comportamento próprio – quase que antropomórfico quando
consideradas as referências à organização enxuta, à organização saudável, à
organização que aprende.
Ao ser conceitualizada cada vez mais um “algo” em vez de ser compreendido
enquanto processo, começa-se a fortalecer a subordinação simbólica da parte ao
todo, visto com um todo separado. Organizações são “algo” e este “algo” tem partes;
dado que o “algo” é maior do que a parte, o “algo” é mais importante. O
comportamento, que é visto como uma parte, acontece dentro deste “algo”, ou
organização-todo. A estrutura é a estrutura do todo, da organização formalmente
constituída – as ações do dia-a-dia são do mundo informal e mundano da parte. Segue
portanto que o primeiro ‘”obviamente” a base do poder e segundo da subserviência.
A presença desta representação social sobre a constituição da organização
levou pessoas a pensar que não se pode fazer nada se não houver participação nas
decisões centrais conseqüentemente, equacionando participação com a presença de
representantes eleitos nos conselhos administrativos e negando a importância de
mudanças no local de trabalho. A organização-todo não tem nenhum lugar para o
cotidiano.
67

Porém, será que isso é um pressuposto válido, ou será que ao assumir a


concretude da organização enquanto um todo, cai-se num erro tautológico” Ao supor
que a organização é uma categoria clara e não problemática, interpretam-se os dados
na mesma veia. Se a organização existe, portanto é obvio que ação acontece dentro
da organização. E se por acaso este “algo” não existir?
Desde os trabalhos pioneiros dos interacionistas simbólicos dentro da linha
aberta por G.H.Mead, e dos pesquisadores de campo lewinianos (por exemplo Barker
e Wright), até as propostas etnometodológicas, e também o debate crítico dentro da
antropologia da ação ou da semiótica, torna-se cada vez mais claro que o dia-a-dia, o
cotidiano mundano, não é um vazio de restos aleatoriamente espalhados pelo chão
mas, ao contrário, é o lugar onde a gente se reconhece como gente no sentido
comunicativo. Reconhece-se também que a capacidade de ordenar atividades e
ações, de criar diferentes e novas formas de agir é uma característica essencialmente
humana e que é esta a base que materializa os passos da humanidade no horizonte
reconhecível do dia-a-dia, mesmo que os passos sejam contraditórios e seus
significados confusos.
O dia-a-dia organizacional é onde se trabalha; parte esta cujo horizonte – ou
limite – é socio-tecnicamente configurado (pelo espaço físico, maquinária, tarefas,
horários, pressupostos de controle e práticas de interação). Nesta concepção, a
ordem organizacional tem muito mais ver com uma ordem negociada entre cotidianos
distintos – departamentos, áreas, salas de aula, repartições e lojas – e o todoé muito
mais um residual, sem nenhuma característica homogênea. Nesta ótica, as
organizações enquanto coisas reificadas como “algo” nada mais são do que a sombra
projetada pelo cotidiano em movimento ou, talvez melhor, as pegadas deixadas pela
passagem da ação enquanto atividade humana. A sombra inibe e a pegada convida,
porém ambas são as consequências da ação e não sua origem.
Obviamente há exemplos de empreendimentos que se isolam por inserção ou
opção, onde um texto organizacional busca ser hegemônico e diferenciador, criando
uma cultura organizacional forte e marcante. Mas será mesmo nestes casos o texto é
de fato hegemônico ou, ao contrário, as pessoas reconhecem a sua presença
enquanto autoridade ou discurso oficial enquanto utilizam outros recursos para o dia-
a-dia. Vale lembrar o estudo clássico de Rosenhamcujo ospseudos-pacientes
esquizofrênicos foram rapidamente diagnosticados como pesquisadores pelos demais
68

pacientes internados. Também em comum em processos de introdução e integração


de trabalhadores perceber que a maioria dos funcionários não presta atenção `as
aulas ou vídeos explicativos carregados com conteúdo simbólico e aguarda o início
do trabalho para indagar ao vizinho como as coisas são feitas e quais as regras
importantes.
Se a organização enquanto um todo não é mais que um rastro da atividade que
já passou, uma sombra pálida de um fenômeno multidimensional que desaparece
quando a luz é acessa, segue que estes empreendimentos diversos de todos os tipos
funcionam não porque as pessoas são administradas e direcionadas, mas a
concentração de processos que seus cotidianos representam serve de ímã para o uso
das caixas coletivas de ferramentas organizativas mundanas desenvolvidas ao longo
da história social. Em última análise, pessoas, pessoas sabem se virar. A estrutura de
uma firma, hospital, escritório ou ONG é uma representação de ação congelada; de
pouca importância no dia-a-dia de negociação de significado. Ela pode apoiar ou
restringir a ação processual pelo seu efeito simbólico enquanto mecanismo de
mediação, mas não a produz nem reproduz; igual a pegada, ela têm algo a contar –
só que é diferente daquilo que se está acostumado a ouvir.
Será que a reificação da organização dentro de uma ideologia gerencial
moderna, refletida no aumento vertical da quantidade de “bestsellers” e seminários,
precisa ser compreendida como um processo onde a negação implícita presente ne
ênfase na importância do bom gerente (a incapacidade organizativa do não-gerente)
aponta justamente para a presença contrária.
Ao tornar natural autoridade de alguém, desautoriza-se no mesmo tempo a
autoridade do outro de quem ou do qual, enquanto conceito, se têm medo. A oferta
da cidadania da organização reprime o exercício da cidadania que se deriva das
contradições do dia-a-dia, como também a construção de uma cidadania limitada a
direitos garante a manutenção de um estado. Conseqüentemente, e tal como a
ideologia de assentamento humano representou o medo do não assentado cuja
cultura e práticas igualmente complexas e morais desafiaram a lógica da vida
assentada, o processo de colonização simbólica não se tornou ainda hegemônico e
certas condições – entre as quais a complexidade – poderia levar a desmistificação
parcial do sistema enquanto metanarrativa frente às rupturas produzidas na parte.
69

Estas idéias estão também presentes em outras áreas de análise social, onde
a noção de atividade processual que forma um cotidiano intersubjetivo vêm sendo
trabalhado durante algum tempo. Reconhecesse a presença de uma consciência
prática das contradições presentes nestes significados como também a possibilidade
de transcender parcialmente a consciência prática em relação a uma consciência
discursiva. Admite-se a possibilidade das pessoas assumirem a agência do autor no
ator social, porque a agência é própria da parte.
Ao reconfigurar a Psicologia Social enquanto ação processual a partir da
psicologia do fenômeno organizativo, abre-se a opção de reassumir a intervenção
investigativa da pesquisa-ação como base para um diálogo que apóia a agência do
outro na alteração de práticas e formas de agir. O estudo do fenômeno organizativo e
do trabalho tem muito a ganhar com sua proximidade a psicologia social – e talvez a
psicologia social tenha algo aprender também.
EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1.Qual a importância da Psicologia Social dentro das organizações?


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___________________________________________________________________
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2.O que podemos entender por ORGANIZAÇÂO?
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Unidade 3.2 Psicologia Social e Desenvolvimento Comunitário


70

A comunidade representa um ambiente destinado para a interação entre


indivíduos e a formação de grupos. De acordo com Guareschi (2007), os grupos se
constituem a partir de um sistema de relações, que podem ser modificadas diante das
transformações sociais e da participação de novos integrantes.
A psicologia comunitária integra estas concepções, Vasconcelos (1985) numa
perspectiva histórica destacou a contribuição dos seguintes acontecimentos para o
surgimento da área: a arte dramática desenvolvida por Moreno nas ruas da cidade de
Viena em 1908, e a revolução da higiene sexual de Wilhelm Reich no final da década
de 1920.
Esses eventos representaram o início da psicologia comunitária com interesses
direcionados para a sociedade.A construção desta área ocorreu de uma forma
gradual, Lane (2007) destacou que durante a década de 1960 no período militar
alguns questionamentos se referiam a ausência do psicólogo nos centros
comunitários, e diante dessas reivindicações foi possível construir um campo de
atuação.
Algumas diferenças podem ser identificadas entre a psicologia comunitária da
América do Norte com o enfoque na saúde pública, e o movimento comunitário da
América Latina que reivindicava uma ação política visando estabelecer um novo
modelo de atuação para o psicólogo frente aos problemas sociais (PRADO, 2002). A
perspectiva de identificar as problemáticas sociais e direcionar intervenções
representou o princípio central na atuação do psicólogo comunitário.
A psicologia comunitária iniciou suas atividades no Brasil na década de 1960,
ocorreram mudanças relacionadas à teoria e metodologia após a delimitação das
práticas(NEVES; BERNARDES, 2007). Estes autores destacaram que os
fundamentos teóricos da psicologia social são utilizados nas comunidades com o
objetivo de investigar o processo de construção da subjetividade humana e a dinâmica
dos grupos comunitários.
De acordo com Ximenes e Barros (2009), o estudo dos processos psicossociais
a partir das concepções de Vigotsky mostra-se pertinente para a psicologia
comunitária.Destaca-se a contribuição de Lane e Sawaia (1995) no desenvolvimento
da psicologia comunitária numa visão crítica para o compromisso social. De acordo
com estes autores, na fase inicial das atividades existia a necessidade de modelos
teóricos para fundamentar a atuação profissional, e deste modo, considerava-se
71

relevante as publicações científicas para a avaliação e o aprimoramento das práticas


psicológicas.
De acordo com Montero (2003), a psicologia comunitária tem o objetivo de
promover mudanças em um contexto diante da participação dos indivíduos. O
psicólogo identifica as demandas sociais e utiliza estratégias de intervenção para
facilitar o diálogo com a comunidade. Góis (1993) ressaltou que a psicologia
comunitária tem o propósito de identificar e compreender as relações que são
estabelecidas entre osintegrantes do grupo. Lane e Sawaia (1995) destacaram que
essa perspectiva possibilita desenvolver nos indivíduos uma atitude crítica em relação
aos problemas sociais, o que pode contribuir para a reivindicação dos serviços de
saneamento básico, educação e saúde nos órgãos públicos.
Desse modo, entende-se que a intervenção busca promover a qualidade de
vida da comunidade.De acordo com Arendt (1997), o psicólogo comunitário investiga
a influência das variáveis ambientais no comportamento dos indivíduos. Nesse
contexto, a psicossociologia das comunidades relaciona a interação entre o indivíduo
e o grupo, considerando relevante o desenvolvimento das relações sociais
(NASCIUTTI, 2007).
O psicólogo comunitário identifica a linguagem, os sentimentos e as
representações sociais do grupo (LANE, 2007). Freitas (1998) definiu os parâmetros
para a inserção do psicólogo na comunidade destacando aimportância dos objetivos
da intervenção, e a Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 3, n. 3,
jul./dez. 2009 69_____Psicologia &m foco Vol. 2 (1). Jan./jun 2009 Vol. 3 (2). jul./dez
2009 seleção adequada dos instrumentos de coleta e análise dos dados. Campos
(2007) destacouque o psicólogo atua na condição de facilitador apresentando
temáticas para discussão, deste modo, os indivíduos podem refletir sobre os
interesses e necessidades inerentes a comunidade.
Costa e Brandão (2005) evidenciaram que é possível utilizar a intervenção
clínica no contexto comunitário, o que possibilita construir novas formas de atuação.
As práticas da psicologia comunitária são consideradas por diversos autores
(INZUNZA; CONSTANZO, 2009; RAMMINGER, 2001; XIMENES; PAULA; BARROS,
2009) como políticas sociais de assistencialismo.
Este modelo de atuação direcionado para as famílias de baixa renda provoca
uma série de críticas, pelo fato de centralizar a prática da psicologia comunitária as
72

situações de pobreza. Verifica-se que existe a necessidade de reformulação desses


princípios teóricos para ampliar as perspectivas de atuação, principalmente diante da
inserção do psicólogo nos centros de referência da assistência social.No que se refere
ao modelo de investigação da psicologia comunitária, Tovar (1994) destacou sobre a
importância de contextualizar as expectativas e necessidades da comunidade, bem
como, as atitudes, os valores, e as crenças culturais.
O artigo de Ussher (2006) destacou que o psicólogo focaliza uma unidade de
análise a partir da perspectiva teórica e da identificação das necessidades do grupo
comunitário. Dessa forma, entende-se que no primeiro momento o psicólogo atua na
condição de observador, para em seguida formular um plano de intervenções
adequado as condições ambientais.
Guareschi (2007) destacou que as intervenções tem o objetivo de desenvolver
a autonomia do grupo. O conceito de autonomia refere-se a uma atitude crítica dos
indivíduos com o foco na resolução de problemas, no manejo adequado dos conflitos,
e na elaboração de projetos sociais. Destaca-se a importância do diálogo entre o
grupo comunitário para compartilhar experiências, deste modo, espera-se que a partir
deste procedimento as ações na esfera política possam ser realizadas visando a
satisfação dos indivíduos.
De acordo com Montero (2000), o surgimento da Psicologia Social comunitária
ocorreu mediante a insatisfação com o modelo da psicologia social que não atendia
as problemáticas por meio de ações efetivas. O desenvolvimento do indivíduo na
sociedade e a maneira pela qual a subjetividade é construída a partir da interação
simbólicarepresentam as principais temáticas da
psicologia social e comunitária. Numa perspectiva de integrar essas concepções
teóricas enfatizando a importância das práticas sociais, foi construída e desenvolvida
a psicologia social comunitária.
Dessa forma, estabeleceu uma identidade profissional para o psicólogo que
atuava nas comunidades e em outras instituições com o enfoque social. Na América
Latina durante a década de 1970, a psicologia social comunitária apresentava um
paradigma para a transformação social por meio do compromisso ético e político
(RAMOS; CARVALHO, 2008). Os psicólogos nas comunidades destacavam o
interesse pelas questões sociais, deste modo, existem questionamentos sobre o que
73

se pretende investigar nesta área de atuação, um ponto que precisa ser


contextualizado.
A Psicologia Social comunitária utiliza uma visão crítica acerca dos problemas
sociais (SCARPARO; GUARESCHI, 2007). A intervenção pode ser utilizada em
diversos contextos institucionais, tais como, creches e postos de saúde, conforme foi
apontado por Campos (2007). A proposta apresentada mostra-se pertinente para a
ampliação dos modelos referentes às práticas psicológicas, mas precisa definir os
procedimentos metodológicos.
Nesse contexto, a psicologia social comunitária enfatiza que a construção do
conhecimento deve estar fundamentada na interação entre o psicólogo e os indivíduos
da comunidade (CAMPOS, 2007). De acordo com Freitas (2007), esta área utiliza os
fundamentos teóricos da psicologia social visando ressaltar a importância de trabalhar
com os grupos, a partir dos princípios éticos da humanização. Neste ponto, existe uma
tendência de considerar que a psicologia social representa as bases teóricas, e a
psicologia comunitária utiliza a intervenção.
De acordo com Guareschi (2007), o psicólogo direciona o grupo para o início
do diálogo frente às situações do ambiente geográfico. A psicologia social comunitária
desenvolve pesquisas com intervenção para avaliar os efeitos de um experimento
(FREITAS, 2007). As práticas neste âmbito de atuação permitem contribuir para
oaprimoramento de estudos científicos.
A intervenção em psicologia social comunitária visa promover uma mudança
na estrutura de uma comunidade (ÁLVARO; GARRIDO, 2006), uma concepção que
precisa ser discutida entre pesquisadores da área, por considerar que existe um
conjunto de crenças e normas culturais inerentes ao grupo comunitário. De acordo
com Montero (2000), busca-se promover a participação coletiva com o foco para as
relações sociais.
A Psicologia Comunitária é uma aplicação da psicologia social para resolução
dos problemas sociais nas comunidades. Constitui-se como disciplina recente na
história da psicologia.
A Psicologia Comunitária se caracteriza por trabalhar com sujeitos sociais em
condições ambientais específicas, atento às suas respectivas psiques ou
individualidades. Seus objetivos se referem a melhoria das relações entre os sujeitos
e entre estes e a natureza e instituições sociais ou o seu empoderamento. Nesta
74

perspectiva está todo o esforço para a mobilização das comunidades na busca de


melhores condições de vida”. O termo Psicologia Comunitária inclui os estudos e
práticas que vêm se realizando no Brasil a exemplo do Movimento de Saúde Mental
Comunitário e do Movimento de Ação Comunitária na América Latina, e outras
aplicações da psicologia social em problemas relacionados a comunidade.
Fundamental para compreensão da Psicologia Comunitária é o conceito
de comunidade, seu objeto material e campo de atuação. O termo Comunidade,
utilizado hoje em dia na Psicologia Social, é bastante elástico e capaz de incluir em
seu escopo desde um pequeno grupo social, um bairro, uma vila, uma escola, um
hospital, um sindicato, uma associação de moradores, uma organização não -
governamental, até abarcar os indivíduos que interagem numa cidade inteira.
Comunidade vem do latim communitatem/communitas, qualidade ou estado do
que é comum; comunhão: compartilhamento de idéias (senso comum) ou interesses
em concordância, identidade; na área jurídica, posse, obrigação ou direito em comum
designando também o sujeito ou interesses coletivos.
Comunidade é um conceito amplo que abrange situações heterogêneas, mas
que, ao mesmo tempo, apoia-se em fundamentos afetivos, emotivos e tradicionais.
Ela está relacionada a parentes que se relacionam por laços de sangue e por uma
vida em comum numa mesma casa, a vizinhos, o que se caracteriza pela vida em
comum entre pessoas próximas da qual nasce um sentimento mútuo de confiança, de
favores, e amigos, que estão ligados aos laços criados nas condições de trabalho ou
no modo de pensar.etc. A psicologia Comunitária vai além da psicologia social, ela
tem uma visão maior com relação à sociedade; mudança social, ideologia, alienação,
representação social, identidade social, sentido psicológico de comunidade,
“empoderamento”, grupo social, apoio social, realidade socialmente construída,
atividade, investigação-ação-participante, sujeito histórico-social, consciência crítica,
conscientização etc. Podemos dizer que a Psicologia Comunitária compreende hoje
um conjunto de concepções relevantes para o esforço de delimitar seu campo de
análise e aplicação.
Pode-se dizer que é uma relação mantida entre pessoas mais próximas.
Quando nos referimos a pessoa vivendo em comunidades é difícil pensar que essas
comunidades nunca terão problemas de relacionamentos às vezes interpretados
75

como doença mental, pois há diferenças entre as pessoas por se tratar das diferenças
de cada indivíduo suas subjetividades e opiniões de classe social e racial.
Se tomarmos a acepção literal de psicologia aplicada ao estudo intervenções
na comunidade teremos esta(s) como sinônimo da psicologia social, ou seja, como os
mesmos problemas de método e definição do objeto de estudo que essa. A principal
diferença entre a psicologia social e comunitária vem da do uso específico que assume
o vocábulo comunidade contrapondo-se à sociedade enquanto segmento específico
por recorte territorial, identidade ou relação entre seus membros.
A descoberta da comunidade não foi um processo específico da psicologia
social. Fez parte de um movimento mais amplo de avaliação crítica do papel das
ciências sociais e, por conseguinte, do paradigma da neutralidade científica,
desencadeado nos anos 60 e culminado nas décadas de 70 e 80, quando o conceito
de comunidade invadiu literalmente, o discurso das ciências humanas e sociais,
especialmente as práticas na área da saúde mental. Sem deixar de ressaltar a
importância, para psicologia, dessa aquisição epistemológica (científico-analítica)
onde está implícita a perspectiva orientadora de ações e reflexões (construção /
modificação da realidade), o referido autor, assiná-la a o caráter utópico da proposição
bem como sua utilização demagógica em discursos políticos.

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1.Quando teve início a Psicologia Comunitária no Brasil?

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2.Qual a importância da Psicologia Comunitária para o Serviço Social?

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Unidade 3.3Psicologia Social e Saúde

Ao contrário do pensado pelos idealizadores do projeto da modernidade, a


política do neoliberalismo prega que a liberdade do indivíduo está acima da liberdade
da comunidade, o que justifica uma série de desigualdades sociais.84 Aletheia 26,
jul./dez. 2007.
A conseqüência deste desequilíbrio, infelizmente, foi que o Lebenswelt
[Habermas]deixou de ter força e importância, e as subjetividades características de
cada comunidade foram engolidas por uma teoria política liberal e transformadas em
uma subjetividade individual e individualizante.
Com a soberania de uma política neoliberal, floresce um social híbrido, que é
umsocial repleto de anomalias, onde tudo é permitido em nome da liberdade. Esta é
adefinição de democracia nesses tempos. Ela vira sinal de salvação para qualquer
caosou problema. Ser democrático é entendido como ser justo, imparcial e neutro, o
queconfere o direito de um grupo de pessoas decidir por outras. Só que a
democraciaassume uma forma interessante, pois ela se realiza, segundo Habermas
(1997),exclusivamente na forma de compromissos de interesses e as regras de
formação docompromisso são fundamentadas nos direitos fundamentais liberais. O
nervo do modeloliberal consiste na normatização constitucional e democrática de uma
sociedadeeconômica, a qual deve garantir um bem comum apolítico, através da
satisfação dasexpectativas de felicidade de pessoas privadas em condições de
produzir.
Os valores da liberdade, igualdade e fraternidade passaram a ser
supremacianesse modelo e tudo o que não se enquadrasse nisso podia, com direito,
ser julgado.A alteridade é anulada para que, em seu lugar surja uma massa social na
buscadesesperada da cidadania social. Como alerta Santos (1996), este tipo de
cidadania trazsérios conflitos e contradições no seu âmago, pois, se por um lado a
cidadania enriquecea subjetividade e abre-lhe novos horizontes de auto-realização,
por outro, ao fazê-lopor via de direitos e deveres gerais e abstratos que reduzem a
individualidade ao quenela há de universal, transforma os sujeitos em unidades iguais
e intercambiáveis nointerior de administrações burocráticas públicas e privadas,
77

receptáculos passivos deestratégias de consumo, enquanto consumidores, e de


estratégias de dominação,enquanto cidadãos da democracia de massas.
Se todas as pessoas precisam ser vistas como iguais, as diferenças precisam
sermascaradas. As cidadãs e os cidadãos sociais têm que agir de forma solidária,
mas, domesmo modo que nasce uma nova cidadania, brota um novo tipo de
solidariedade, quese baseia no silêncio. E o que acontece com a ética, quando temos
uma solidariedadedesse tipo? Germina-se um novo tipo de ética: uma ética liberal. A
filosofia liberalengendrou práticas sociais liberais: solidariedade liberal,
mascaramento nas relaçõesao invés de compreensão e autocompreensão das
diferenças, e legalização ao invés departicipação. Isto impediu a verdadeira
emancipação das pessoas e, no lugar dela,emergiu uma cidadania liberal, reguladora,
atomizante e estatizante.
A ética, ao invés de libertar, fica limitada à natureza do individual e o modo
deviver foi construindo uma moral repleta de discriminações e moldando um mundo
cadavez mais injusto. A democracia virou sinônimo de delegação de poderes: o Outro
se vêno direito de decidir por mim, e quando alguém se vê no direito de decidir por
outrapessoa, a questão da normatização, da necessidade de leis que garantam a vida
emsociedade, propicia um terreno fértil para o florescimento de uma ordem
socialdemocrática baseada na burocratização. A democracia burocrática precisa ser
valorizadajá que o povo não consegue ter participação nas decisões.
As práticas na psicologia também terminaram por se enquadrar nesse
processoAletheia 26, jul./dez. 2007 85de burocratização, e uma das conseqüências
em tratar a saúde como um “objetoburocrático” é que a saúde das pessoas, em geral,
na modernidade, vem se deteriorandoem um galopar progressivo e, a cada dia que
passa, parece mais difícil para as pessoasse manterem saudáveis no mundo
moderno.
Acontece que o direito à saúde tem sido um direito garantido para aquelas
pessoasque têm condições de pagar pela saúde, ou seja, garantem seus direitos
aquelas quepodem pagar (e muito caro) por um plano privado de saúde. Direito à
saúde e capital sãointerdependentes. Aqueles que não têm condições de pagar por
um plano privado desaúde, enfrentam inúmeras dificuldades para receberem
atendimento digno e, por quenão dizer, humano.
78

Aquelas pessoas que possuem certo capital econômico têm que abrirmão de
muitas outras coisas para poderem financiar um plano privado de saúde.Violações à
saúde como a tortura física ou psicológica, assassinatos, estupros,fome e doenças
fatais são mais fáceis de serem percebidas e colocadas à distância porquem não as
sente na pele. Agora, violações como o hábito de esperar horas na filapara o
atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS), ter uma consulta médica decinco
minutos, ter vergonha de sorrir por causa dos dentes cariados, ser proibida desair de
casa pelo parceiro, e fazer aborto em condições perigosas são alguns dosmuitos
exemplos de violações que as pessoas excluídas suportam todos os dias.
Nessas“pequenas misérias” a saúde coletiva também se enliou e as
responsabilidades dos
psicólogos também.Trajetórias da psicologia da saúde: psicologia social psicológica
ou psicologia
social sociológica?
Nesse momento, tentar-se-á mostrar que, a psicologia, como um todo, se
constituiu
seguindo a mesma linha de pensamento de uma sociedade excludente e apoiada
emuma ética liberal.De acordo com Fonseca (1995), a psicologia instalou-se dentro
dos limites damodernidade, construindo concepções capazes de dizer que espécies
o universocontém como as que não contém.
Ela tem se revelado como prática discursivasintonizada com as ideologias de
dominação, com a ânsia de padronização ehomogeneização, como fonte legítima
para instaurar o desvio e o desviante.
O curso do desenvolvimento da psicologia social não foi muito diferente.
Sabemosque a psicologia social foi influenciada por eventos como o Facismo e a
SegundaGuerra Mundial (Farr, 1996; Moscovici, 1972), e que as pesquisas na
psicologia socialforam estimuladas pelas necessidades do mercado, nas quais o
centro da discussão éa motivação, o indivíduo, e os aspectos interacionais são postos
de lado. De fato, aquestão toda tem a ver com a resolução de conflitos. O que se quer
da psicologiasocial é que ela dê conta disso e, dessa maneira, possa servir aos
interesses da sociedadecapitalista.
Mas será que essa é a única forma de psicologia que encontramos? Não
teriahavido resistências ao enquadramento dessa disciplina na cosmovisão
79

liberal?Segundo Farr (2000), desde que Durkheim fez a distinção entre


representaçõesindividuais e representações coletivas, ele separou a sociologia da
psicologia, criando,86 Aletheia 26, jul./dez. 2007como conseqüência, uma crise de
identidade para os psicólogos sociais, levando àcoexistência de duas formas de
psicologia, na atualidade: a forma psicológica dapsicologia social e a forma
sociológica da psicologia social.
Em resumo, a psicologia social psicológica está marcada por explicações
centradasno indivíduo, em sua conduta e comportamento. Ao lado oposto disso,
temos apsicologia social sociológica, que se desvincula da perspectiva cartesiana e
sugere aconstrução de um espaço de intersecção onde o indivíduo e a sociedade são
vistoscomo relacionais e interdependentes (Farr, 1996, 2000).
Baseados nessa forma,encontramos o construcionismo social, os estudos
culturais e a teoria crítica.A forma psicológica tem sido evidente nos últimos tempos
na psicologia dasaúde. Por muitos anos, o que se referia à questão da saúde era
tratado dentro docorpus maior da psicologia. Não havia uma subárea que tratasse
especificamente dasaúde. O surgimento da subárea da psicologia denominada
psicologia da saúde foi, decerto modo, uma tentativa de modificar ou corrigir as
carências nesse campo de ação(Evans, Sexton&Cadwallader, 1992).
Uma breve revisão de conceitos sobre psicologia da saúde pode trazer
indicadoresda forma de psicologia da saúde praticada e, também, que fundamentos
éticos permeiamas ações da mesma.
Talvez um dos primeiros registros escritos de uma conceituação de psicologia
dasaúde foi na revista científica American Psychologist (Oregon), em 1980:
“Psicologiada saúde é um agregado das específicas contribuições educacionais,
científicas eprofissionais da disciplina da psicologia à promoção e manutenção da
saúde, àprevenção e ao tratamento das doenças, e à identificação dos correlatos
etiológicos ediagnósticos da saúde, da doença e disfunções relacionadas”
(Matarazzo, 1980, p.815).
Alguns anos mais tarde, foram adicionados ao final da conceituação, o
seguinte: “àanálise e melhoramento do sistema de saúde e à formação de políticas de
saúde”(Matarazzo, 1982, p.4).
Tentando conhecer melhor o que é entendido por psicologia da
saúde,Rodríguez-Marín (1995), fez uma extensa revisão sobre as diversas definições
80

daárea, resumindo a postura atual sobre psicologia da saúde como aquela que
estudaos fatores emocionais, cognitivos e comportamentais associados à saúde e
àsdoenças físicas dos indivíduos. A psicologia da saúde integra conceitos
dediferentes disciplinas psicológicas, colaborando com o delineamento e aplicaçãode
programas de intervenções individuais, grupais e comunitários para a promoçãoe
prevenção da saúde, para o tratamento e reabilitação da doença e para a qualidadede
vida do doente.
Para Rodríguez-Marín (1995) e para Rodríguez e Garcia (1996), na
psicologiasocial da saúde interessa o estudo da conduta da saúde/doença em
interação comoutras pessoas ou, igualmente, com produtos da conduta humana,
técnicas diagnósticase de intervenção, organizações de cuidado de saúde, etc. Todas
as atividades queimplicam as atividades no conceito de psicologia da saúde são
resultado das interaçõesentre os profissionais e os usuários do sistema de saúde e se
desenvolvem em talinteração.Aletheia 26, jul./dez. 2007 87
Remor (1999) também apresentou uma interessante revisão sobre as origens,
objetivos
e perspectivas em psicologia da saúde, descrevendo que ela é “a disciplina que
explica oporquê de determinados hábitos de comportamento que favorecem ou
prejudicam a saúde.
É a encarregada de estabelecer estratégias de modificação do comportamento;
a que podeajudar ao doente a conviver com a doença ou com a dor; a que ensina o
tipo de interaçõesque devem dar-se entre o profissional da saúde e o paciente etc.”
(p.216).
Observem que a palavra-chave nas definições de psicologia da
saúde,apresentadas até aqui, é comportamento. Está relacionada diretamente à
mudança dehábitos, atitudes, condutas e sintomas. O objeto é bem concreto e
também é concretoseu objetivo: modificar o comportamento dos indivíduos de modo
que os mesmospermaneçam, ou se tornem, saudáveis, com qualidade de vida.
Enfim, a psicologia social da saúde, como produto da modernidade, adota
umaconcepção de saúde pessimista (baseada na doença), limitada (visa
mudarcomportamento/atitude), individualizante e discriminatória (atende
diferenciadamenteas pessoas). Como conseqüência, infelizmente, ela não tem
conseguido dar conta deproduzir significantes mudanças na área da saúde já que, no
81

geral, as psicólogas e ospsicólogos não têm mais tempo de parar e refletir sobre que
tipo de psicologia estãofazendo, sobre seus valores e postura ética, pois a primazia
está na produção.

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1.Qual o papel do psicólogo dentro da comunidade?


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___________________________________________________________________
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2.Qual o foco principal da psicologia social dentro da saúde?
___________________________________________________________________
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___________________________________________________________________
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Unidade 3.4 Críticas à Psicologia Social

No início dos anos 70 acumulávamos uma década de reconhecimento do curso


de psicologia em nosso país, no entanto, a psicologia já se deparava com
questionamentos a respeito da sua cientificidade, do seu direito à existência e do seu
pertencimento ao campo das ciências naturais ou ao campo das ciências humanas.
Estávamos diante do que alguns autores denominaram de "crise" da psicologia.
Consideraremos como crise o momento de reflexão que a psicologia começou a viver
nos fins dos anos 60 e início dos anos 70.
Parecia que a necessidade de uma interrupção se fazia presente, ou seja, o
questionamento sobre "onde estamos e para onde devemos ir" passou a mobilizar a
psicologia como um todo. A partir do exame do conceito de crise utilizado por Kuhn,
82

em seu livro The structureofscientificrevolutions publicado em 1962, nos depararemos


com a idéia de que a crise aponta para substituição de um paradigma por outro; no
entanto, esta passagem não significa a resolução automática dos problemas do
paradigma anterior.
Diferentemente disto, teríamos novas maneiras de pensar os problemas e
novos questionamentos a serem considerados. Partindo de Kuhn, devemos entender
o conceito de paradigma como um consenso, uma maneira aceita de soluções de
problemas por meio de exemplos ou modelos para os praticantes da ciência e também
como um conjunto de valores compartilhados pelos membros de uma determinada
comunidade científica.
Não podemos pensar no empreendimento científico do pesquisador sem
subordiná-lo à noção de paradigma, pois fazer ciência nos leva necessariamente a
um trabalho social e institucionalizado. A psicologia, ao longo de sua história,
apresenta uma variedade de objetos e métodos: os diversos projetos teóricos e
metodológicos como o behaviorismo, a gestalt e a psicanálise marcariam a sua
constituição diversa. A ausência de um consenso na psicologia nos aponta, portanto,
uma dificuldade no uso do conceito de paradigma para pensarmos o saber
psicológico.
A crise da psicologia, mencionada anteriormente, não pode ser discutida a
partir das posições teóricas de Kuhn, pois a crise para este teórico prenuncia o
surgimento de um novo paradigma, ou melhor, de uma unidade e concordância entre
os pesquisadores de um determinado campo de conhecimento. Nosso objetivo será
apresentar a crise no campo da psicologia social, dando ênfase inicialmente ao seu
aparecimento enquanto um conhecimento tipicamente norte-americano e, em
seguida, apontar para as críticas realizadas a esta psicologia social no Brasil, e, mais
especificamente, no Rio de Janeiro.
Após a segunda guerra mundial a psicologia social obteve um grande impulso
nos Estados Unidos e segundo um dos mais importantes historiadores da psicologia
social naquele país, ou seja, Allport: a psicologia social seria um fenômeno
tipicamente norte-americano.
A migração dos psicólogos da gestalt, da Áustria e da Alemanha para os
Estados Unidos em função dos nazistas, foi uma das fontes de inspiração para a
psicologia social norte-americana e uma das causas responsáveis pela sua
83

individualização. As raízes deste campo conceitual devem ser buscadas na


fenomenologia; filosofia claramente distinta do positivismo que vai inspirar nos
Estados Unidos uma psicologia, no período entre as duas guerras mundiais. Os
psicólogos da gestalt não tinham se defrontado com o behaviorismo até que
chegassem a este país e foi desse conflito entre duas filosofias rivais (fenomenologia
e positivismo), que a psicologia social surgiu nos Estados Unidos, na forma
característica que se deu.
A crise na psicologia social moderna teve início na década de 60. Várias críticas
vão ser apresentadas a proposta de se acumular dados de pesquisa para em seguida
se chegar à formulação de teorias globalizadoras. Estes questionamentos irão
caracterizar "a crise da psicologia social moderna". Vários outros questionamentos
serão apresentados à psicologia social norte-americana, no entanto, é na Europa que
estas críticas são mais incisivas e contundentes.
A denúncia do seu caráter ideológico e mantenedor da ordem social
estabelecida passa a ser objeto de reflexão para os psicólogos sociais em geral. Na
América Latina, a psicologia social reproduzia os conhecimentos desenvolvidos nos
Estados Unidos e na Europa.
A busca de "leis universais" que regem o comportamento dos indivíduos
impedia que se pensasse em teorias que atendessem as questões dos países latino-
americanos, que apresentavam sociedades e culturas diferentes da norte-americana
e européia.
Uma outra importante crítica as formulações positivistas no campo da
psicologia social foi a constatação de que não há neutralidade na formulação de
nossos conhecimentos; somos parte do fenômeno analisado e ele é parte de nós
mesmos. Se no século XIX a psicologia na Alemanha foi um centro para onde
viajavam vários pesquisadores em psicologia das mais diferentes partes do mundo.
No século XX, é a psicologia norte-americana que se torna irradiadora de influência e
domínio.
No entanto, a tranqüilidade com a hegemonia foi seguida, nas décadas de 60
e 70, no Brasil e na América Latina pelos questionamentos e pelo que temos
denominado crise. A crise da psicologia social é objeto de denúncia no Congresso de
Psicologia Interamericana, realizado no ano de 1976 em Miami, com a participação
de psicólogos sociais de vários países da América Latina.
84

No Congresso posterior, que ocorreu em Lima, Peru, no ano de 1979, algumas


diferenças expressivas puderam ser observadas, ou seja, as críticas à psicologia
social norte-americana eram mais precisas e visavam uma redefinição da psicologia
social. Durante este Congresso foi discutida a criação da Associação Latino-
Americana de Psicologia social (ALAPSO), que tinha por objetivo promover o
intercâmbio entre os psicólogos sociais latino-americanos. E que teve como primeiro
presidente o professor Aroldo Rodrigues.
Embora a crise da psicologia social no Brasil tenha o significado de busca de
novas teorias que fundamentassem a ação social do psicólogo em nosso meio, não
podemos deixar de considerar a continuidade da influência exercida pela psicologia
social norte-americana. Aroldo Rodrigues é certamente um dos mais importantes
divulgadores desta psicologia social. Professor do Programa de Pós-Graduação da
PUC-RJ constituiu-se em uma referência para a psicologia social no Rio de Janeiro,
embora, posteriormente, tenha sido alvo de críticas por parte dos psicólogos sociais
cariocas e brasileiros. Suas obras "Psicologia Social" de 1972 e "Estudos em
Psicologia Social" de 1979 são, nos dias atuais, estudadas em muitos cursos de
psicologia social no país.
A contraposição de Rodrigues a uma psicologia social que começa a tomar
corpo nas décadas de 60 e 70 no Brasil e na América Latina fica evidente com o
episódio ABRAPSO.
Após ser convidado, em 1979, para participar da reunião que proporia a
fundação da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), não apenas se
negou a discutir a proposta, mas discordou do projeto que orientaria esta mesma
associação. Durante o XV Congresso Interamericano de Psicologia, realizado em
dezembro de 1974, em Bogotá, Colômbia, Rodrigues proferiu uma conferência com o
título "A Psicologia Social: problemas atuais e perspectivas para o futuro". Entre as
questões analisadas destaca-se a crise vivida pela psicologia em geral e pela
psicologia social, em particular.
No Brasil, nesse mesmo período histórico, Silvia Lane já apontava para a
necessidade de se buscar caminhos próprios para a psicologia social em nosso país,
que atendessem a nossa realidade cultural, social e política. Um dos sinais da crise
da psicologia social a partir dos anos 60 foi a busca, por um lado, do atendimento da
necessidade de intervenção social para a melhoria das condições de vida das
85

sociedades, e por outro, a tendência de contrariedade ao rigor da metodologia


experimental de laboratório.
Este dilema colocava, de um lado, a psicologia social norte-americana que tinha
a preocupação de reproduzir o modo de fazer ciência das ciências naturais, mas que
a partir do final da década de 60, também buscava responder as necessidades de
relevância em suas pesquisas; e em uma posição distinta, uma outra maneira de
pensar a psicologia social, que se configurava a partir de críticas ao modelo positivista
de ciência e que passou a sustentar como uma de suas preocupações a busca da
relevância social. Se por um lado, ambas as teorias buscavam responder à questão
da relevância, por outro, a resposta apresentada por estas abordagens é bastante
diferente.
A psicologia social norte-americana via essa questão a partir do uso dos
conhecimentos da psicologia para a solução de problemas sociais, o que se
denominou de tecnologia social. Em São Paulo Silvia Lane defendeu uma posição
diferente da sustentada por Aroldo Rodrigues. O debate entre essas propostas foi
registrado na revista "Ciência e Profissão" do ano de 1986, com o título: "A tecnologia
social na psicologia: Controvérsias". Se para Rodrigues a psicologia social é uma
ciência básica que permitiria a solução de problemas sociais para Lane tal concepção
poderia transformar o psicólogo em agente de adaptação. Buscamos, ao longo deste
texto, trazer algumas questões e estabelecer alguns confrontos que nos permitam
refletir sobre a história mais recente da psicologia social no Brasil e no Rio de Janeiro.
Algumas das principais críticas à Psicologia Social e que ela se restringe a
descrever fatos, apenas nomeando os mecanismos sociais visíveis; sendo criada no
contexto de uma sociedade norte-americana que, no final da guerra, precisava
recuperar sua economia, valendo-se para isso de recursos teóricos que lhe
permitissem interferir na realidade social e então intensificar a produção econômica,
assim investiu em pesquisas sobre processos comunicativos de convencimento,
modificações nas ações pessoais, etc., tentando moldar os procedimentos individuais
à conjuntura social; alimenta uma visão restrita da vida social, reduzida apenas à
interação entre indivíduos, deixando de lado uma totalidade mais complexa e dinâmica
das criações humanas, que simultaneamente edifica o real social e cria o indivíduo,
conceito que se torna ponto de partida para a elaboração de uma nova Psicologia
Social.
86

Esta linha de pensamento adota uma postura mais crítica no que tange à vida
social, e defende uma colaboração mais ativa da ciência para modificar a sociedade.
Assim, ela busca transcender os limites de sua antecessora.

Importante:

Ao final dessa unidade você deverá ser capaz de:

Ao fim dessa disciplina você deve ser capaz de Identificar e analisar os


fenômenos de ordem psicossocial nas relações entre indivíduos, grupos e
instituições, a partir da compreensão dos pressupostos que estabelecem
os campos de atuação profissional da Psicologia Social.
Identificar os diferentes paradigmas da Psicologia Social; Analisar,
descrever e interpretar relações entre processos psicológicos e contextos
grupais, institucionais e sociais.

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO

1. Quais são as características mais marcantes do mundo moderno calcado na


filosofia individualista-liberal?
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2. Dentre as críticas à Psicologia Social, quais as que deveriam ser


urgentemente sanadas?
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______________________________________________________________

ATIVIDADE AVALIATIVA

1. Elabore um texto dissertativo de dez linhas, elencando quando teve início a


crise da Psicologia Social no Brasil e qual a importância da mesma para o
trabalho do Assistente Social.
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