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Justiça e

diálogo sociaL 2

A importância
da Justiça
na Democracia
Antônio Jorge Pereira Júnior
Sumário
1. A importância da Justiça na Democracia...........................................................20

1.1 Duas acepções de Justiça e sua conexão com a democracia........................20

2. Acesso à justiça e desenvolvimento social........................................................26

2.1. Três categorias de Justiça: Comutativa, Distributiva e Legal..........................26

3. Mecanismos de participação popular..................................................................28

3.1. Mecanismos de participação popular no Poder Executivo..............................28

4. Imparcialidade e efetividade na prestação jurisdicional...................................29

4.1. Os limites hermenêuticos do magistrado...........................................................29

Referências...............................................................................................................31
1.
A importância
da Justiça na
Democracia

1.1.
Duas acepções clinando-o a agir conforme a dignidade
de Justiça e sua humana. O ato de justiça se manifesta
como um ato livre, ou seja, de autodeter-
conexão com a minação ao bem.
A justiça é a virtude social por ex-
democracia celência. Por ela, cada pessoa respeita a
“Justiça” é termo equívoco, tendo diver- ordem da divisão dos bens entre os indi-
sas conotações. Vale examinar dois de- víduos, garantindo-lhes o gozo pacífico
les. Enquanto virtude, justiça é o hábito do que lhes pertence, sejam as coisas
de dar a cada pessoa o que lhe é devido. dispostas pela natureza ou repartidas
Uma predisposição da vontade que pau- mediante pactos condizentes com a dig-
ta a conduta e aperfeiçoa o seu autor, in- nidade humana.
Assim, quando uma pessoa contra-
ta com outra, se o acordo está dentro de
parâmetros razoáveis e conforme à digni-
dade humana, é justo que o compactua-
do seja cumprido. Esse procedimento de
respeito ao que cabe a cada um está na
base de todas as relações sociais, a partir
das quais surgem direitos e deveres.

Justiça natural
e lei positiva
Muitas vezes as divisões e atribui-
ções de deveres decorrem de situações
derivadas da natureza dos acontecimen-
tos. Por exemplo, é de justiça natural que
o pai ou mãe cuidem do filho; mas tam-
bém é justo por lei positiva, uma vez que
se fez constar assim do direito posto;
também é de justiça natural que o Esta-
do zele pelo bem comum, que igualmen-
te é prescrito pela lei. O direito positivo
torna mais fácil a realização daquilo que
é devido, na medida em que esclarece as
regras de convivência consideradas es-
senciais à viabilidade e sustentabilidade
da vida social.

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Também é próprio do direito positivo complementariedade de ambos. Surge
definir, mediante lei — que é sobretudo oposição apenas quando acontece de 1 “Para Aristóteles, as duas fontes do di-
ferramenta política, ou seja, para gover- se pretender usar do aparato legislativo reito: direito natural e positivo, são com-
plementares. Aristóteles é um defensor
nar —, regras para situações indiferentes para manipular o poder estatal e criar lei
das leis positivas, reconheceu sua ne-
e estabelecer critérios para casos de la- em benefício de alguns, ao tempo em cessidade, descreveu suas fontes e ava-
cuna ou de conflitos entre normas. Tal é que prejudica outros. Por isso, o exame liou sua autoridade.
a importância do direito positivo, que sua de conformidade da lei à “justiça mate- “O justo natural é incapaz de nos con-
duzir a soluções concretas, seu estudo
própria existência responde a uma ne- rial”, comumente passa por seu contras- compreende o primeiro estágio da elabo-
cessidade de direito natural. te com o “justo natural”, ao qual nunca ração do direito (especulativo), nos pro-
É um erro, conceitual e filosófi- deveria contrariar. Isso foi recordado e porciona apenas matéria que nos resta
co, estabelecer uma oposição de raiz reforçado ao fim da Segunda Grande informar. Os princípios vagos e gerais que
podem ser extraídos do justo natural não
entre o direito natural e o direito posi- Guerra, quando réus nazistas tentavam são suficientes para nos dar soluções
tivo 1. Já Aristóteles e Tomás de Aqui- defender-se nos Tribunais internacionais concretas, é preciso decidir um determi-
no explicavam a plena harmonização e alegando estrito cumprimento da lei ale- nado pedido, para determinado autor, em
determinado Estado, com determinada
mã. Os julgadores afirmaram existir uma
cultura, fatos que exigem a intervenção
lei e um direito que estariam acima do do legislador e do juiz. (...)
direito positivo dos alemães, e que os re- “Em “Retórica”, Aristóteles nos fornece
feridos réus poderiam reconhecer como dois motivos para confeccionar leis es-
critas e para preferir sua solução ao justo
de valor universal, ao qual seu direito po- natural, que é vago e impreciso. A primei-
sitivo deveria estar conforme. ra razão é que não se poderia deixar toda
a tarefa ao juiz (observar o justo natural e
dele extrair leis que se amoldem ao justo
particular), visto que seria mais fácil em
uma pólis encontrar alguns legisladores
filósofos, mais cultos que guiem a socie-
dade, do que uma grande quantidade de
juízes com as mesmas qualidades. Em
segundo, porque é preciso desconfiar da
imparcialidade dos juízes, cujo julgamen-
to pode ser levado pela simpatia ou pelo
temor. A lei constitui inteligência sem
paixão.
“Assim, o direito positivo ocupa um lu-
gar fundamental nas fontes do direito tal
como disposta pelo estagirita.
“As leis positivas são necessárias em
razão da própria natureza do homem:
homem social destinado à ordem políti-
ca. Além do seu conteúdo repressivo e
permissivo, é responsável por criar novas
obrigações entre homens na pólis.
“O direito positivo é um prolongamento
do direito natural, fruto da razão nesse
sentido, mas também, da vontade huma-
na, na medida em que o poder legislati-
vo apresenta-lhe concretude, conteúdo
fixo, objetivo e preciso”. Cf. ZAKIA, Maria
Lucia Perez Ferres. Equidade como pa-
râmetro do justo: a passagem do logos
teórico ao logos prático no raciocínio
jurídico. Dissertação em Filosofia do
Direito. Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo - PUC-SP, 2016 p. 39-40.

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Justiça material e
Justiça institucional
Desde tempos remotos também se
chama de “Justiça” a estrutura do po-
der estatal especializada na função de
prevenir ou remediar situações em que
a justiça concreta é ameaçada ou rom-
pida. Nesse sentido, a “Justiça” está en-
carregada de administrar as colisões de
direito, reais ou aparentes, e de se pro-
nunciar sobre o direito dos envolvidos –
de onde “dizer o direito” ou “jurisdictio”
—, bem como determinar que sua deci-
são seja cumprida, mediante coerção, se
necessário, uma vez que o Estado exerce
o monopólio do uso da força a ser em-
pregada para que suas determinações
sejam obedecidas.
O descumprimento da “justiça”
concreta ou material, se não corrigido,
inviabiliza a vida em sociedade. A injus-
tiça é desagregadora, sendo ela mesma
fruto de um abuso ou violência, que por
sua vez se irradia no meio social. “Sem
justiça, não há paz social. Logo, não ha-
veria convivência e nem mesmo o Esta- Conexões da justiça
do Democrático de Direito que, no fim,
nada mais é do que um Estado regido e com a democracia
garantidor da justiça”. A democracia tem relação com a
Em sentido amplo, “a despeito da justiça por várias conexões.
especialização funcional atribuída ao Entre os diversos elementos consti-
Poder Judiciário, tanto o Executivo, me- tuintes do conceito de “democracia”, ao
diante políticas públicas, como o Legisla- longo da história, comumente se evocam
tivo, por meio da viabilização normativa, três: a participação popular nos assuntos
trabalham para a Justiça” (PEREIRA JÚ- do Estado mediante voto, desde a Grécia
NIOR; BRITO, 2017). antiga; a limitação do poder absoluto dos
governantes e a proteção dos cidadãos

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contra a ingerência abusiva das conceito de democracia tende a assumir
autoridades públicas em sua vida um determinado viés como nota prepon- 2 “O primeiro limita-se a estabelecer os
métodos clássicos de participação po-
privada, em geral desde a Magna derante em cada etapa e lugar, segundo pular, que envolve o exercício do direito
Carta inglesa até o estabeleci- as circunstâncias de seu tempo e am- de voto. Nesse tópico, são estudados
mento de direitos fundamentais biente. De modo geral, ela tende a ma- os princípios da soberania popular, da
nas Constituições; a repartição, nifestar um papel principal de natureza representação popular, assim como o
direito de sufrágio e o sistema eleitoral.
atribuição ou reconhecimento política, jurídica ou principiológica. Pode-se, assim, verificar que a acepção
de novas competências ao cidadão, em Segundo Jaqueline Saiter (2005), clássica do princípio democrático pro-
âmbitos outrora reservados ao Estado e sob as Constituições de 1824, 1891, 1934 move uma participação popular, mas
ainda muito restrita diante da promovida
seus agentes. Esses três elementos se e 1937, a democracia no Brasil foi enten- pela sua nova acepção.
alinham no protagonismo progressivo dida como “modalidade de regime po- “O segundo permite vislumbrar exata-
da participação do cidadão na gestão lítico”, tendo preponderado assim uma mente a ampliação que a democracia
do bem comum. Deve-se notar que es- perspectiva “política”. Nas Constituições sofreu ao assumir uma dimensão prin-
cipiológica. Nesse momento, a análise
tão vinculados à repartição de poderes, de 1946, 1967, e na Emenda Constitucio- do principio democrático exige uma as-
de bens e ao gerenciamento do interes- nal de 1969, ela teria sido ampliada, as- sociação ao princípio da participação
se público. Tudo isso precisa acontecer sumindo a nota de “direito fundamental”; popular. Afinal, trata-se do princípio de-
“conforme a justiça” para que haja de- ou seja, teria adotado um caráter jurídi- mocrático participativo e, portanto, ele
estabelece uma ampliação na participa-
mocracia e não demagogia. co como elemento configurador princi- ção popular.
Com relação às três situações acima pal, sem perder sua referência anterior. “A associação entre os referidos prin-
descritas, é possível associá-las ainda às Na Constituição de 1988, por sua vez, a cípios acaba por construir outros três
subprincípios: o princípio da participação
notas mais relevantes que a “democracia” democracia avançaria para uma pers- legislativa, o princípio da participação ad-
assumiu em cada uma das Constituições pectiva maior, sem deixar de exprimir as ministrativa e o princípio da participação
do Brasil durante sua respectiva vigência. concepções antecedentes. Ela alcança- jurisdicional. Trata-se de extensão da
Pode-se dizer que o conceito de de- ria um matiz principiológico, sendo con- participação popular às divers as áreas
de atuação desenvolvidas pelo Estado:
mocracia busca traduzir um status de or- siderada “princípio constitucional” que legislativa, executiva e jurisdicional. Ao
ganização da vida social mediante o qual se subdividiria em outros: no princípio se permitirem essas novas modalidades
se garante a máxima liberdade de ação democrático representativo e no princí- de participação, implementa-se uma
ampliação do instituto democrático”.
individual para realização de interesses pio democrático participativo 2. Isso fa-
(SATIER, p.17)
particulares e participação do cidadão cilitaria chegar ao quadro de maior atua-
na definição e gestão de interesses pú- ção do cidadão na gestão do poder e dos
blicos. Naturalmente, em cada época interesses públicos, com protagonismo,
e período haverá uma democracia para além da democracia representativa.
possível, vinculada mesmo à maturi- Dentro da perspectiva do “princípio
dade do povo que a vivencia. “A De- democrático participativo”, a partir de
mocracia ... não se resume 1988 se vislumbra o crescimento paula-
num quadro institucional tino da participação do cidadão nos três
rígido, universalmente vá- níveis de Poder do Estado: executivo ou
lido, para todas as épocas administrativo; legislativo e judiciário.
e para todos os povos [...]. Dizia Franco Montoro em 1974 que
Ela pode e deve ser ajustada para cada “A condição humana não permite que os
caso, para cada nação, para cada tem- membros da comunidade sejam consi-
po” (FERREIRA FILHO, p. 133). derados e tratados simplesmente como
Há atores e fatores de ordem polí- “objeto” passivo das atenções dos gru-
tica, jurídica, social, econômica, históri- pos dirigentes, como se fossem mer-
Em razão disso, concluía que “de-
ca e cultural que influenciam os hábitos cadoria, ficha ou peça na vida social”.
senvolvimento propriamente humano só
democráticos, individuais e coletivos, em Completava o saudoso professor com
é aquele que é feito com a “participação”
cada época e lugar. Em cada meio viceja uma exortação que ganharia corpo na
consciente e responsável das pessoas
um determinado tipo de vivência da de- Constituição de 1988, ao sublinhar que
e grupos que integram a comunidade
mocracia. Em razão disso, ao olhar para sua “dignidade de pessoa exige outro
(MONTORO, 1974. p. 43).
a História é possível reconhecer que o tratamento”.

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Redemocratização e
valorização do cida-
dão na Constituição
de 1988
No Brasil, a presença maior do cida-
dão no exercício de poderes outrora re-
servados com exclusividade aos agentes
públicos é resultado da redemocratização
da segunda metade dos anos 1980, que
culminou na Constituição Federal de 1988.
A Constituição de 1988 trazia em
seu bojo um programa de descentraliza-
ção do poder estatal e de repartição dele
com o cidadão. Por isso, na década de
1990 se observará a primeira etapa da Em paralelo, após a promulgação
construção dos fundamentos necessá- da Constituição, majorou a quantidade
rios para implementar a ordem consti- de organizações não-governamentais e
tucional inaugurada em 1988, e viabilizar de entidades públicas mistas – conse-
maior ação do cidadão no cenário polí- lhos -, compostas simultaneamente por
tico, em sentido amplo. Nesse período cidadãos e agentes estatais. Por meio
estabeleceram-se bases doutrinárias e delas, entidades civis e cidadãos atuam
legais para consolidar o Estado Demo- com poder consultivo ou deliberativo
crático de Direito projetado na Norma dentro de órgãos estatais, assim como
Fundamental, para que se traduzisse por meio de entidades de pressão que
em maior poder ao cidadão para a ges- detêm competências concorrentes com
tão dos interesses públicos. Também se as do Estado. Tudo isso vai redundar em
assistiu à sedimentação dos “interesses maior acesso à justiça, nos dois sentidos
difusos e coletivos”; à difusão da “co- expressos, formal e material, em razão
gestão de interesses públicos com os de maior difusão de direitos e multiplica-
cidadãos”, em colaboração com agentes ção de meios para protegê-los.
estatais, mediante delegação ou com- Vale chamar especial atenção ao
partilhamento de poderes com “leigos”. fato de que, a partir de 1996, com a Lei
Produtos dessa nova etapa de- da Arbitragem e a Lei dos Juizados Es-
mocrática seriam, ainda, na década de peciais, com juízes leigos, começaria
1990, por exemplo, o Código de Defesa também a democratização do poder
do Consumidor, o Estatuto da Criança jurisdicional, marcos da evolução da
e do Adolescente, ambos de 1990, a Lei democracia que sinaliza e favorece o
de Arbitragem e a Lei que criou os Jui- desenvolvimento social de um povo. A
zados Especiais Estaduais, ambas de cultura e o progresso dos meios alter-
1996. Nessas leis é possível reconhecer nativos de resolução de conflitos, como
o fortalecimento do cidadão, tanto por arbitragem, conciliação e mediação te-
sua maior proteção, quanto pelo cha- riam aqui seu nascedouro institucional
mado a estar presente sob novas formas (PEREIRA JÚNIOR, 2019, p. 658-667).
na gestão e administração estatal, bem Naturalmente Estados centraliza-
como na resolução de conflitos jurídicos dores tendem a reservar para si exces-
(PEREIRA JÚNIOR, 2019). so de atribuições e, logo, dificilmente

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conseguem sustentar-se de modo con- tiva próprias, que eles possam fazê-lo,
veniente e perdurável, sem um siste- sendo-lhes reconhecida e respeitada 3 No trecho que segue é possível vislum-
ma fiscal e de controle que termine por a competência preferencial, pois são a brar um diagnóstico e uma proposta de
reduzir a liberdade dos cidadãos. Isso fonte e os protagonistas dos poderes solução para o que se passaria ainda na-
quele quadrante histórico no Brasil e em
afetará a elasticidade da democracia, estatais, e não o contrário 4. outros Estados: “Ao falarmos na reforma
posto que reduz a autonomia do cida- A correção do excesso de poder das instituições temos em vista sobre-
dão, e a reserva legal de competências estatal, programado pela Constituição tudo o Estado; não porque dele só deva
Federal de 1988, atualiza-se nos princí- esperar-se todo o remédio, mas porque o
excessivas ao Estado tende a infirmar o
vício do já referido «individualismo» levou
papel das entidades intermediárias e a pios de descentralização do poder, de as coisas a tal extremo, que enfraquecida
atuação mais livre por parte do cidadão. valorização da livre iniciativa e de con- e quase extinta aquela vida social outrora
Por outro lado, ao não atender satisfato- vocatória do cidadão para a cogestão do rica e harmonicamente manifestada em
poder público. Isso se expressa, dentre diversos gêneros de agremiações, quase
riamente as competências assumidas e só restam os indivíduos e o Estado. Esta
não permitir que cidadãos ou sociedades outros exemplos, na revalorização das deformação do regime social não deixa
menores atuem, o Estado se torna fonte organizações não governamentais; nos de prejudicar o próprio Estado, sobre o
de injustiças. Logo, ele termina por invia- conselhos públicos políticos com pre- qual recaem todos os serviços das agre-
sença paritária de cidadãos; nos conse- miações suprimidas e que verga ao peso
bilizar a própria democracia em alguma de negócios e encargos quase infinitos”.
de suas virtualidades, ao reduzir a ação lhos gestores compostos por cidadãos (PIO XI).
do cidadão em prol do bem comum. eleitos; na liberdade de constituição de
árbitros em substituição aos juízes; na 4 “Verdade é, e a história o demonstra
Nesse sentido, o movimento de re- abundantemente, que, devido à mudan-
conhecimento ou atribuição de pode- possibilidade de negociação processual ça de condições, só as grandes socieda-
res ao cidadão na gestão de interesses em qualquer etapa; no estímulo estatal des podem hoje levar a efeito o que antes
públicos e na resolução de conflitos à mediação e conciliação; nas parce- podiam até mesmo as pequenas; per-
rias público-privadas, etc. Dessa forma, manece contudo imutável aquele solene
é fenômeno corretivo da concentra- princípio da filosofia social: assim como é
ção de competências pelo ente esta- poderá o Estado melhor aplicar recur- injusto subtrair aos indivíduos o que eles
tal, quando tal circunstância se mostra sos públicos nas situações em que haja podem efetuar com a própria iniciativa e
fonte de injustiças. efetivamente maior necessidade de sua indústria, para o confiar à coletividade,
ação, compartilhando tarefas com os ci- do mesmo modo passar para uma socie-
dade maior e mais elevada o que socie-
dadãos 5. Sem isso, ou seja, sem contar
O princípio da subsi- com o cidadão e a sociedade civil para a
dades menores e inferiores podiam con-
seguir, é uma injustiça, um grave dano e
diariedade na redemo- realização de inúmeras tarefas, o Estado perturbação da boa ordem social. O fim
natural da sociedade e da sua ação é co-
centralizador será artífice de injustiças,
cratização pois não entregará o que assumiu, ou o
adjuvar os seus membros, não destruí-
-los nem absorvê-los”. Cf. PIO XI
Por trás do movimento de descen- fará com demora, o que equivale tam-
5 Deixe pois a autoridade pública ao cui-
tralização do poder e de fortalecimento bém à omissão.
dado de associações inferiores aqueles
do cidadão é possível reconhecer, assim, negócios de menor importância, que a
a atualização de um princípio de ordem absorveriam demasiado; poderá então
desempenhar mais livre, enérgica e efi-

2.
social que permeia inúmeros dispositi-
cazmente o que só a ela compete, porque
vos da Constituição de 1988: o princí- só ela o pode fazer: dirigir, vigiar, urgir e
pio da subsidiariedade. O conceito reprimir, conforme os casos e a neces-
foi propalado de modo especial sidade requeiram. Persuadam-se todos
os que governam: quanto mais perfeita
pela doutrina social católica e
pode ser lido na encíclica Quadra- Acesso à justiça e ordem hierárquica reinar entre as varias
agremiações, segundo este princípio da
gesimo anno, de Pio XI, de 1931 3.
O excesso de competências para o desenvolvimento função « supletiva » dos poderes públi-
cos, tanto maior influência e autoridade
Estado gera desequilíbrio nas contas e social terão estes, tanto mais feliz e lisonjeiro
será o estado da nação.” (PIO XI)
prestações estatais, com consequências A justiça é requisito do desenvolvi-
gravosas para a vida em sociedade. Aqui mento social. A injustiça, por sua vez,
se compreende de modo preclaro a má- quebra a coesão social e gera instabi-
xima da subsidiariedade: aquilo que os lidade, elementos necessários para o
indivíduos ou sociedades menores têm progresso. Assim, a justiça é elemento
aptidão para realizar por conta e inicia-

JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL 25


básico para viabilizar tanto a democra- para depois servir às necessidades pe-
cia quanto o desenvolvimento social culiares de cada um, sem sacrificar o
sustentável. Por isso deve ser garanti- “mínimo necessário” da maioria, para
da e protegida. salvaguardar direitos excepcionais de

2.1.
minorias. É fato que nem sempre há bens
suficientes para todas as demandas.
Disso nasce o dever de a autoridade
avaliar com prudência a quem, como e
Três categorias de quando atender em face da escassez, e
saber lançar mão, quando oportuno, do
Justiça: Comutativa, conceito de “reserva do possível”, invo-
cado quando o magistrado precisa de-
Distributiva e Legal cidir uma lide em face de necessidades
O desenvolvimento social se consolida prementes e preterir interesses em ra-
quando as relações sociais fluem con- zão do conflito inconciliável entre tais.
forme a dignidade e a natureza social e Em razão da limitação de recursos,
individual do ser humano, em conformi- nem todos os interesses poderão ser
dade com o que é próprio de sua condi- igualmente contemplados ou aprecia-
ção. Nesse contexto, há três acepções dos na mesma medida.
clássicas para as relações de justiça se- É comum de ocorrer quando alguém
gundo as peculiaridades das situações pleiteia do ente federativo, por exemplo,
por elas criadas: justiça comutativa, jus- em nome do direito à saúde, medica-
tiça distributiva e justiça legal. mento cujo valor ultrapassa limites de
A Justiça Comutativa e a Justi- gastos previstos no orçamento público
ça Distributiva abrangem relações nas de Saúde da respectiva circunscrição,
quais importam algumas particularidades que contempla despesas com remédios de serviços, como o alistamento militar,
e subjetividade das partes envolvidas. variados para atender necessidades de a convocatória para atuar como jura-
Por isso se diz que são modalidades de grande contingente populacional. As- do no Tribunal do Júri, para ser mesário
“justiça particular”. Enquanto isso, há si- sim, ao determinar o magistrado que se nas eleições, etc. Pela Justiça legal, im-
tuações nas quais interessam menos as dê atenção e se direcionem recursos ao põem-se deveres aos cidadãos para a
especificidades das partes e há prepon- tratamento mais caro para atender de- manutenção do Estado e dos serviços
derância do ente estatal como sujeito na terminado interesse, pode ele gerar ris- estatais, em favor do bem comum.
relação. Neste sentido, as relações se co de deixar a descoberto maior grupo
destacam pelo dever dos cidadãos co- de cidadãos, que gozam igualmente do
direito à saúde. A insuficiência dos re-
A hermenêutica
laborarem com o Estado, para que este
possa agir em prol do bem comum. As cursos impõe, nesses casos, um duro e adequada a cada
relações que envolvem prestação do ci- difícil juízo. Portanto, a justiça distributiva categoria de Justiça
dadão perante o Estado estão classifica- deve ser aplicada com vistas ao que seja
das como de “Justiça legal”. possível, para atender a quem precisa, Nesse sentido, cabe compreen-
A “Justiça distributiva” é aquela na sem prejudicar, por isso, maiores contin- der que há critérios hermenêuticos em
qual o ente estatal deve, tal como sugere gentes populacionais. cada categoria de relação de justiça –
o termo, “distribuir” bens conforme uma Por Justiça legal, por fim, tem-se comutativa, distributiva e legal - de acor-
proporcionalidade razoável, orientada aquela de natureza geral, que impõe do com as particularidades das situações
pelas necessidades dos cidadãos, a par- deveres na relação dos cidadãos com o descritas, que também devem pautar a
tir do montante arrecadado pelo esforço Estado, permanecendo todos igualmen- atividade jurisdicional realizada em cada
colaborativo dos cidadãos, mormente te obrigados a colaborar, segundo pa- âmbito, conforme o contexto dos interes-
por meio de impostos, taxas e demais drões objetivos e comuns, em razão de ses particulares e públicos envolvidos nas
modalidades tributárias. incidência legal tributária. Mas também diversas circunstâncias, sob risco de se
O Estado deve primeiro atender às os deveres perante o Estado assumem provocar injustiça mediante interferência
demandas gerais e comuns de todos natureza diversa, mediante prestação antidemocrática.

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Em todas as relações, quando surge a lógica de reciprocidade típica das re- importa compreender a natureza das re-
um conflito, deve-se preservar ao má- lações comutativas, e projetará efeitos lações de justiça e dos bens envolvidos
ximo a dignidade de todas as pessoas, deletérios para toda a coletividade, ao em cada uma, de modo a dar o trata-
tanto as envolvidas diretamente quanto usar critério próprio da justiça distributiva mento hermenêutico adequado a cada
aquelas que, de modo mediato, podem onde não caberia. categoria de justiça: comutativa, distri-
sofrer efeitos da decisão. É oportuno re- Para exemplificar, pense-se nos butiva ou legal.
cordar isso porque por vezes se notam planos de saúde individuais. Quando o
magistrados a invocar o princípio da dig-
nidade humana em determinado caso,
magistrado estabelece deveres que ex-
trapolam o plano-base contratado entre
A democratização do
deitando o olhar exclusivamente consumidor e prestadora, para além do Judiciário nos anos
em um dos lados do conflito, ol- que a própria Agência Nacional de Saúde
tenha estabelecido, essa decisão pode
1990
vidando-se que do outro lado
há uma pessoa humana levar à revisão de toda a matriz da lógica Quanto à democratização do Poder
com igual dignidade. negocial dos planos de saúde, e provo- Judiciário, vale recordar que a partir da
Também não é raro car aumento global das mensalidades década de 1990 começou a se articular a
para todos os cidadãos, como precaução “Reforma do Judiciário”, para fazer fren-
dos fornecedores desse serviço. Nesse te à “Crise do Judiciário”.
caso, em razão do desejo do magistrado Como resposta à “crise”, então, fo-
de auxiliar um determinado consumidor, ram tomadas medidas que visavam a
premido pela situação, pode fazer que as “democratização do Judiciário”. Essas
empresas desse mercado majorem as medidas convergiram para a melhoria do
mensalidades de todos, como efei- acesso à Justiça e para o aprimoramento
to de “seguro” em face de eventuais da prestação jurisdicional. O “processo
decisões similares. Esse resultado de democratização da Justiça” concen-
— aumento de mensalidade — pode trou-se no âmbito da administração e
inviabilizar, assim, a contratação de gestão da Justiça, visando a eficiência e
muitos outros cidadãos que ficarão de- celeridade da prestação jurisdicional.
que o julgador ainda se
sassistidos. Nesse sentido, além de modifica-
esqueça da dignidade
O caso serve para mostrar como ções no direito processual para acelerar
de todos que não estão
as relações comutativas devem ser tra- a resposta judicial, ocorreu a institucio-
diretamente envolvidos na
tadas pelo magistrado dentro de sua nalização da Arbitragem (Lei no. 9.307,
demanda, mas podem ser pre-
lógica, segundo o princípio da boa-fé de 23 de setembro de 1996) que teve sua
judicados por uma disposição
objetiva, subjacente às relações de reci- constitucionalidade questionada, sendo
sua que venha, a despeito de be-
procidade. Ou seja, a “Justiça” (aparato confirmada pelo STF somente em 2001;
neficiar um sujeito que é parte, impor
judicial) teria feito uma “injustiça maior”, a criação dos Juizados Especiais (Lei
perdas à coletividade.
enquanto acreditava o magistrado que no 9.099, de 26 de setembro de 1996),
Por exemplo, uma decisão em uma
teria sido “mais justo”. Esse cuidado, dos Juizados Especiais Federais (Lei no
dada relação comutativa na qual o ma-
na verdade, além de preservar a justiça 10.259 de 12 de julho de 2001) e a Emen-
gistrado aplique critérios de justiça distri-
própria da situação, salvaguarda a auto- da Constitucional no 45/2004 (EC 45),
butiva – erroneamente - e atribua maior
nomia privada e resguarda a dignidade conhecida como “Reforma do Judiciá-
dever do que caberia a uma das partes,
humana de todas as pessoas envolvidas, rio”, que criaria ainda o Conselho Nacio-
pelo fato de ser economicamen-
sendo a sociedade tão ou mais impor- nal de Justiça que, entre outras funções,
te mais forte na relação. Em
tante do que uma única pessoa isolada teria um papel de controle e aprimora-
situações assim, o magistra-
e conjunturalmente beneficiada naquela mento do Judiciário.
do trata o sujeito particular, e
decisão, sendo que ela mesma, depois Para além da democratização da
seus bens, como se estivesse
fará parte do conjunto dos prejudicados prestação jurisdicional, cabe chamar a
diante de bens do próprio Es-
pela majoração da mensalidade. atenção a outros mecanismos de partici-
tado, que pode ser demandado
Julgar sem tal perspectiva leva a pação popular na gestão do poder e dos
na lógica distributiva, até à re-
promover um prejuízo maior do que o interesses públicos, que redundam tam-
serva do possível. Estará assim
bem que se imaginava propiciar. Por isso bém em favor da justiça, por outros canais.
a autoridade judiciária rompendo

JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL 27


3.
Mecanismos de
Mecanismos de
participação popular
no Poder Legislativo
6 “Vislumbra-se assim um novo modelo
de democracia lastreado nos princípios
representativo e participativo com a re-
estruturação do espaço público, no qual
possam coexistir a ordem institucional
participação popular Relativamente ao Poder Legislativo,
podem ser apontados como instrumen-
já estabelecida e a participação direta da
sociedade civil”. CARVALHO, Kátia de. Da
Dizia-se acima que pelo princípio da sub- tos de democracia a disponibilidade de democracia representativa à democracia
sidiariedade cabe às sociedades inter- concorrer, inclusive por sua associação
participativa: a auto-convocação popu-
mediárias menores que o Estado e aos lar, um mecanismo de aperfeiçoamento
aos partidos políticos; o exercício do su- da representação política. Dissertação de
indivíduos assumirem competências que frágio universal pelo voto direto e secre- mestrado. Universidade Federal de San-
lhes são próprias. Também se esboçou to (no caso do Legislativo, para eleger ta Catarina, Centro de Ciências Jurídicas,
um conceito amplo de democracia, que Programa de Pós-Graduação em Direito,
vereadores, deputados estaduais, fede- Florianópolis, 2011.
diz com a liberdade de atuação e interfe- rais e senadores), bem como participar
rência nas decisões que envolvam inte- do processo deliberativo em matéria le- 7 “Os primeiros Conselhos de Direitos da
resse particulares e públicos. Nesse sen- Criança e Adolescente foram criados há
gal por meio de plebiscito, referendo 9 e vinte e cinco anos como instâncias pari-
tido, é possível listar alguns mecanismos iniciativa popular (CF, art. 14). Também tárias, em que representantes do Estado
de participação popular nos três âmbitos se poderiam elencar o veto popular 10 e e da sociedade civil deliberariam a res-
de exercício do poder público, que exem- a participação em audiências públicas peito da elaboração e concretização de
plificam exercício de democracia 6. políticas públicas para o segmento”.
nas casas legislativas como instâncias Cf. TOSI, Matilde Alba Tumbiolo Gioia. O

3.1.
de participação popular que afetam a Conselho de Direitos da Criança e do
tarefa legislativa. Adolescente como mecanismo de par-
ticipação popular: análise de sua inci-
dência na implementação de políticas
Mecanismos de par- públicas. Dissertação de Mestrado. Uni-
Mecanismos de versidade de São Paulo: Escola de Artes,
ticipação popular no Ciências e Humanidades. Programa de
participação popular Mestrado em Análise de Políticas Públi-
Poder Judiciário cas. 2016.
no Poder Executivo Por fim, quanto ao Poder Judiciário, 8 “Acredita-se que as agências regula-
No que se refere ao Poder Executivo, sem doras representam um avanço na con-
há abertura para a participação, substi-
cretização da democracia participativa,
prejuízo de outras situações nas quais se tutiva, complementar ou auxiliar na ta- mesmo que não tenham ainda consegui-
pode identificar a ação do cidadão na refa jurisdicional, mediante a ação do do alcançar um nível desejável de parti-
conformação da vontade política do Es- cidadão no júri popular, na arbitragem, cipação efetiva”. RODRIGUES, Cristiana
Espírito Santo. Participação popular
tado, contam-se o voto nas eleições de na conciliação por juízes leigos, na me- no âmbito das agências reguladoras
prefeitos, governadores e presidente da diação junto a particulares, vinculado ou brasileiras. Dissertação de Mestrado.
República (CF, art. 14); a presença ativa e não a órgãos jurisdicionais e, ainda a par- Universidade de Fortaleza: Programa de
deliberativa de cidadãos nos conselhos 7 ticipação em audiência pública 11 ou na Pós-graduação em Direito Constitucio-
nal, 2011.
de natureza política em todas as esferas posição de amicus curiae.
de governo, bem como nas agências re- Mediante audiência pública no Ju-
guladoras 8; a presença intensa em con- diciário, oferece-se aos magistrados a
selhos de caráter administrativo, como o possibilidade de escutar a população ou
“conselho tutelar”, de âmbito municipal, a sociedade civil organizada para decidir
na área dos direitos da criança e do ado- sobre temas de relevante apelo social.
lescente; a participação em órgãos de De rigor, em qualquer esfera judicial se-
controle e direcionamento do orçamento ria possível realizarem-se escutas po-
público, etc. pulares. Mas o mais comum ainda são
audiências no âmbito do STF. Há quem
critique o modo como se tem empregado
essa ferramenta de participação popular,
pela restrição de convite a expertos que

28 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


4.1.
desenvolvem sua opinião sobre os temas
(LOPES, 2012). Ao se operar tal redução, 9 Cf. PINTO, Érica Maria Garcia. Instru-
estaria se desvirtuando o espírito da au- mentos de participação democrática
direta: o plebiscito e o referendo. Uni-
diência pública, pois não mais haveria es-
paço para pessoas simples participarem.
Os limites versidade de São Paulo: Faculdade de
Direito. Programa de Pós-Graduação em
Além disso, para a participação de exper- hermenêuticos do Direito, 2013.
tos como auxiliares, haveria a ferramenta 10 Há um trabalho recente dedicado ao
do “amicus curiae” pelo qual podem cola- magistrado instituto do veto popular, a partir de sua
previsão na Lei Orgânica do Município de
borar com a Corte no julgamento. Quanto aos limites hermenêuticos, o Fortaleza. “Objetivo da presente disser-
desvirtuamento costuma ser chamado tação é analisar, sob uma perspectiva,
de “ativismo judicial”. Há perspectivas principalmente jurídica, política e social,
a constitucionalidade do instrumento

4.
analíticas positivas e negativas da ação de participação popular característico
exorbitante do magistrado, que não deve de democracias que embora estrutu-
ser confundida com o caso de interpre- radas sob um regime representativo
possuam mecanismos de participação
tação por lacunas na lei. direita. Dentre os diversos instrumentos
Em geral, o ativismo decorre da apa-
Imparcialidade e
existentes, será apresentado e estuda-
rente ou real invasão em competência do do o veto popular previsto no artigo 59,
inciso V da Lei orgânica do município de
efetividade na pres- poder legislativo ou de outra esfera de
poder estatal. O caso da criminalização
Fortaleza/CE” Cf. ACIOLY FILHO, Evaldo
Ferreira. Análise do veto popular como
tação jurisdicional da homofobia pelo STF em 2019 é em- mecanismo de aperfeiçoamento da
Como se dizia, nos anos 1990 houve am- blemático 12. Todavia, dada a limitação democracia brasileira. Dissertação de
Mestrado. Universidade de Fortaleza:
plo debate sobre a “crise do Judiciário”, de espaço, não será aqui analisado.
Programa de Pós-Graduação em Direito
que redundou em uma “Reforma do Ju- Constitucional, 2019.
diciário”, por meio de alteração de legis-
lação processual, abertura para novos Os limites éticos do 11 Para melhor análise desse tema, suge-
re-se ler A participação popular nas au-
atores participarem das tarefas jurisdi- magistrado diências públicas judiciais: verdade ou
engodo?, de Robson Louzada Lopes.
cionais (arbitragem, juízes leigos, con-
Quanto aos limites éticos, a palavra Segundo o autor, seu trabalho “busca
ciliadores e mediadores) e a criação do estabelecer a importância de se concre-
de ordem é a “imparcialidade”. O magis-
Conselho Nacional de Justiça, por meio tizar a democracia e a cidadania, enquan-
trado não pode tomar partido em uma
de emenda constitucional. A ideia era to regime político e direito fundamental,
dada causa, que seria papel do advoga- junto ao poder judiciário, analisando
aprimorar a efetividade do Judiciário.
do. Isso não significa neutralidade, até centralmente se as aberturas operadas
Ao final de 2019, assiste-se à nova pelos tribunais por meio das audiências
porque deve ele assumir a vontade da
onda de reforma, desta vez para blindar públicas se constituem método eficaz ou
lei e os valores do sistema jurídico. Se o se trata de engodo. A linha de pesquisa
o sistema judiciário em face de estraté-
magistrado nota que sua isenção pode abarcada é denominada no programa de
gias procrastinatórias empreendidas por
correr risco por relação prévia com al- pós-graduação strictu sensu da Faculda-
réus que se aproveitam da amplitude re- de de Direito de Vitória como “Jurisdição
guma das partes, espera-se que ele se
cursal para ocupar o Judiciário até pres- constitucional e concretização dos direi-
afaste do juízo, declarando-se suspeito. tos e garantias fundamentais” e se resu-
crever a aplicação da lei penal antes de
Também a lei previu situações de impe- me em pesquisar “o papel da sociedade
se consumar a “coisa julgada”. e os caminhos não estritamente estatais
dimento, em que não seria necessário o
Outro desafio ou oportunidade de para a efetivação dos direitos fundamen-
magistrado declarar-se suspeito, porque
aprimoramento diz com a conduta do tais da população em geral”. As referên-
há um dispositivo legal que impede que cias completas de acesso estão ao final
magistrado na realização de sua tarefa.
ele atue, como acontece em casos nos desse texto.
Aqui entra o tema dos limites hermenêu-
quais haja um vínculo ostensivo dele
ticos e éticos do juiz.
com alguma das partes 13.

JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL 29


Quando o magistrado não se afasta quérito que avalie casos chamativos, de
de causas nas quais há elementos para modo a se propor mudanças legais que 12 Veja-se a respeito PEREIRA JUNIOR,
pensar que deveria, ainda que não ve- impeçam tais situações. Tal Comissão Antonio Jorge; MOREAU, Caio. O des-
pótico STF e a desarmonia na República.
nha a se beneficiar ou lesar alguma das foi denominada pela mídia como “CPI da 21/02/2019 Jornal: O Estado de São Paulo.
partes, ele favorece a desconfiança para Lava Toga” 14.
com a Justiça, pois inevitavelmente sur- Também se reconhece desvio da 13 Causa escândalo, especialmente nas
Cortes Superiores, quando ministros ju-
gem conjecturas quanto à sua parciali- atuação do Judiciário quando magistra- diciais atuam como julgadores em casos
dade. Caberia aos juízes serem muito dos usam de sua posição para ultrapas- nos quais parente próximo seja advo-
mais cautelosos nesse tema. Diz o di- sar limites de sua competência técnica. gado de uma das partes, em situações
tado que “à mulher de Cesar não basta Situações como essas terminam por nas quais tenham recebido valores de
uma das partes para palestras, ou quan-
ser honesta; deve parecê-lo”. Em se tra- macular o exercício exemplar de tantos do eles mesmos tenham atuado como
tando de Poder Judiciário vale o mesmo. outros que agem conforme a dignidade advogado em favor de umas das partes
Em razão de fatos assim, senadores da de sua tarefa, dentro dos limites éticos e antes de chegarem à posição de magis-
trados. Nessas situações, mais sensato
República trabalham para a instalação técnicos da função.
seria o juiz alegar suspeição, por prudên-
de uma Comissão Parlamentar de In- cia. Mas essa decisão é discricionária: ou
seja, cabe ao próprio implicado avaliar e
decidir, como regra, sem que isso impe-
ça eventual ação contra os seus atos no
processo, por quem tenha interesse, de-
monstrando-se o favorecimento ou pre-
juízo que possa ser comprovado.

14 Cf. PEREIRA JÚNIOR, Antonio Jorge.


Quem teme a CPI da Toga no Senado?
Jornal: O Povo, 25/03/2019.

30 FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE


Pós-Graduação da Faculdade de Direito da SAITER, Jaqueline Coutinho. Democracia
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da tecnologia na democracia : avalian-
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JUSTIÇA E DIÁLOGO SOCIAL 31


ANTÔNIO JORGE PEREIRA JÚNIOR (autor)
Doutor, mestre e bacharel pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Professor do Programa de Mestrado e Dou-
torado em Direito da Universidade de Fortaleza (PPGD-UNIFOR). Ganhador dos Prêmios Orlando Gomes-Elson Gottshalk, pela
Academia Brasileira de Letras Jurídicas (ABLJ), Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) e o Jabuti, com a obra Os
Direitos da Criança e do Adolescente em face da TV (Saraiva, 2011). Tem mais de 150 obras publicadas entre artigos, capítulos
e livros, no Brasil e exterior. É membro da International Academy for the Study of the Jurisprudence of the Family, da Academia
Iberoamericana de Derecho de la Familia y de las Personas, da International Society of Family Law, da Associação de Direito de
Família e das Sucessões (ADFAS), sendo atual presidente da seção Ceará. Membro do Comitê Brasileiro de Arbitragem (CBAr),
da Câmara de Mediação e Arbitragem Especializada (CAMES) e da Academia Paulista de Letras Jurídicas (APLJ). É professor da
Escola Nacional de Magistratura, coordenador do pesquisa sobre o depoimento especial de criança e adolescente vítima de vio-
lência do Conselho Nacional de Justiça, Árbitro, membro do Comitê Brasileiro de Arbitragem (CBAr) e da Câmara de Mediação e
Arbitragem Especializada (CAMES). É Advogado vinculado ao quadro efetivo da OAB São Paulo e Ceará, sendo atual membro das
Comissões de Ensino Jurídico, Direitos da Criança e Direito de Família da OAB/CE. Articulista do jornal O POVO, desde agosto de
2018, e possui registro de jornalista.

KARLSON GRACIE (ilustrador)


Nasceu em Paulista, Pernambuco. Desenha desde criança. A arte e a leitura estiveram sempre presentes em sua vida. Filmes,
desenhos animados, histórias em quadrinhos e videogames eram inspirações para desenhar. Integra o Núcleo de Design (NDE)
da Fundação Demócrito Rocha, onde faz o que mais gosta: imaginar, criar e ilustrar.

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fundacao@fdr.org.br Nogueira Corregedor-Geral do Tribunal de Justiça do Ceará: Desembargador Teodoro Silva Santos | ISBN 978-65-86094-01-5

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