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Psicopatologia Geral II

Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2. Ed. – Porto


Alegre: Artmed, 2008. 440p.

Aula 12 – A memória e suas alterações

A memória é a capacidade de registrar, manter e evocar as experiências e os


fatos já ocorridos. A capacidade de memorizar relaciona-se intimamente com o nível de
consciência, com a atenção e com o interesse afetivo. Tudo o que uma pessoa aprende
em sua vida depende intimamente da capacidade de memorização.

Além disso, todos os processos relacionados com a memória são altamente


contextualizados. De modo geral, recordamos e aprendemos elementos provenientes de
experiências vivenciadas em bloco, nas quais diversas modalidades sensoriais
interagem, em contexto emocional determinado e com significações pessoais e sociais
específicas.

Tipos de memória classificados segundo a estrutura cerebral envolvida

Memória de trabalho. A memória de trabalho é, na verdade, a combinação de


habilidades de atenção (capacidade de prestar atenção e de concentração) e da memória
imediata. São exemplos de memória de trabalho o ouvir um número telefônico, retê-lo
na mente, para, em seguida, discar, assim como, quando ao dirigir em uma cidade
desconhecida, perguntar sobre um endereço, receber a informação e a sugestão do
trajeto e, mentalmente, executar o itinerário de forma progressiva. A memória de
trabalho é, de modo geral, explícita e declarativa.

Memória episódica. Esta é possivelmente a forma mais relevante de memória


para a clínica neurológica, psiquiátrica e neuropsicológica. Trata-se de uma forma de
memória explícita e declarativa relacionada a eventos específicos da experiência pessoal
do indivíduo, ocorridos em determinado contexto. Relatar o que foi feito na noite
anterior é um típico exemplo de memória episódica. Esta corresponde a eventos
concretos, comumente autobiográficos, bem-circunscritos em determinado momento e
local. Refere-se, assim, à recordação consciente de fatos reais. A perda da memória
episódica em geral se evidencia para eventos autobiográficos recentes, mas, com o
evoluir da doença, pode incluir elementos mais antigos. Nesse sentido, a perda de
memória episódica obedece à lei de Ribot (perdem-se primeiro os elementos
recentemente adquiridos e, depois, os mais antigos).

Memória semântica. Esse tipo de memória se refere a aprendizado, conservação


e utilização de algo que pode ser designado como o arquivo geral de conceitos e
conhecimentos factuais do indivíduo. Assim, conhecimentos como a cor de um leão
(marrom) ou de um papagaio (verde), ou quem foi o maior jogador de futebol do Brasil
(Pelé) são de caráter geral e se cristalizam por meio da linguagem, ou seja, também são
de caráter semântico. Assim como a memória episódica, a memória semântica é sempre
explícita e declarativa. A memória semântica diz respeito ao registro e à retenção de
conteúdos em função do significado que têm. Ela é um componente da memória de
longo prazo que inclui os conhecimentos de objetos, fatos, operações matemáticas,
assim como das palavras e seu uso. A memória semântica é, de modo geral,
compartilhada socialmente, reaprendida de forma constante, não sendo temporalmente
específica (Dalla Barba et al., 1998).

Memória de procedimentos. Trata-se de um tipo de memória automática,


geralmente não-consciente. Exemplos desse tipo de memória são habilidades motoras e
perceptuais mais ou menos complexas (andar de bicicleta, digitar no computador, tocar
um instrumento musical, bordar, etc.), habilidades visuoespaciais (como a capacidade
de aprender soluções de labirintos e quebra-cabeças) e habilidades automáticas
relacionadas ao aprendizado de línguas (regras gramaticais incorporadas na fala
automaticamente, decorar a conjugação de verbos de uma língua estrangeira, etc.).

Alterações quantitativas de memória

Hipermnésias: muitas representações, porém com pouca clareza e precisão.

Amnésias (hipomnésias): perda da memória, seja a da capacidade de fixar ou a


da capacidade de manter e evocar antigos conteúdos mnêmicos.

Amnésia anterógrada: o indivíduo não consegue mais fixar elementos mnêmicos


a partir do evento que lhe causou o dano cerebral. Por exemplo, o indivíduo não lembra
o que ocorreu nas semanas (ou meses) depois de um trauma cranioencefálico.
Amnésia retrógrada: o indivíduo perde a memória para fatos ocorridos antes do
início da doença (ou trauma).

Alterações qualitativas de memória (paramnésias)

Ilusões mnêmicas. Neste caso, há o acréscimo de elementos falsos a um núcleo


verdadeiro de memória. Por isso, a lembrança adquire caráter fictício. Muitos pacientes
informam sobre o seu passado indicando claramente deformação de lembranças reais:
“Tive uma centena de filhos com minha mulher” (teve de fato alguns filhos com a
mulher, mas não uma centena). Ocorre na esquizofrenia, na paranóia, na histeria grave,
nos transtornos da personalidade.

Alucinações mnêmicas. São verdadeiras criações imaginativas com a aparência


de lembranças ou reminiscências que não correspondem a qualquer elemento mnêmico,
a qualquer lembrança verdadeira. Podem surgir de modo repentino, sem corresponder a
qualquer acontecimento. Ocorrem principalmente na esquizofrenia e em outras psicoses
funcionais.

Fabulações (ou confabulações). Neste caso, elementos da imaginação do doente


ou mesmo lembranças isoladas completam artificialmente as lacunas de memória,
produzidas, em geral, por déficit da memória de fixação. Além do déficit de fixação, o
doente não é capaz de reconhecer como falsas as imagens produzidas pela fantasia.

Testes simplificados de memória

Testes de memória verbal simples: Pedir ao paciente que preste atenção em quatro
palavras aleatórias que serão ditas (p. ex., rua, cadeira, paz e chapéu). Solicitar que ele
as repita em seguida, assegurando que prestou atenção e registrou imediatamente o
que foi dito. Deixar passar 5 a 10 minutos (fazer alguns exames de força muscular e
reflexos neurológicos ou solicitar ao paciente que conte de frente para trás, a partir de
20). Solicitar, então, que ele repita as palavras (ele deve recordar 3 ou 4 palavras).

Teste de memória visual: Esconder quatro objetos (p. ex., caneta, relógio, chave e livro)
diante do paciente, que repete imediatamente o nome dos objetos e diz onde eles estão.
Continuar a testagem (outros testes ou perguntas) e, após 10 minutos, solicitar ao
paciente que diga onde estão os objetos escondidos. Pessoas com memória visual
normal (e sem afasias) tendem a lembrar de 3 a 4 locais.
Teste de memória verbal por associação de palavras: Dizer ao paciente que vai ler uma
lista de 10 pares de palavras, relacionadas logicamente entre si (p. ex., alto-baixo). Depois
pronunciar a primeira palavra do par e pedir ao paciente que diga a palavra correspondente.
Por exemplo, “Quando eu disser alto, você deve dizer baixo”. Ler, primeiramente, todos os
pares devagar e de forma bem-pronunciada, pedir ao paciente para que preste bem
atenção. Em seguida, falar a primeira palavra do par e solicitar que ele diga a segunda
palavra correspondente.

Exemplo de lista de palavras: grande-pequeno/livro-caderno/cadeira-móvel/chuva-


barro/criança-brinque-do/sol-verão/monstro-medo/rio-água/dinheiro-luxo/professor-escola.
O indivíduo adulto, sem déficit de memória verbal, acerta, pelo menos, cerca de seis
palavras.

Teste de memória lógica (repetição imediata de uma história): Contar ao paciente uma
história simples com 15 itens distintos. Por exemplo:

1. (Pedro); 9. (dois homens fortes);

2. (de 23 anos); 10. (com revólveres na mão);

3. (ajudante de mecânico); 11. (disseram a uma velha);

4. (morador de Hortolândia); 12. (que entregasse a bolsa);

5. (foi ao cinema); 13. (ela ficou nervosa);

6. (com sua namorada); 14. (caiu no chão);

7. (na saída da sessão); 15. (bateu a cabeça); e

8. (viu um assalto); 16. (foi levada para o hospital).

Solicitar, em seguida, que o paciente repita a história completa. De modo geral, o indivíduo
normal consegue lembrar de pelo menos 5 a 6 segmentos narrativos.