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Auto da Barca do Inferno

Cena do Frade

O Frade surge no cais cantando e dançando com uma moça (Florença) com
quem vivera maritalmente. Esta cena é uma caricatura da devassidão do clero da época
– este frade canta, dança, pratica esgrima, tem uma “namorada”, passa mais tempo na
corte do que no convento a rezar – como todos os outros do seu convento “E eles fazem
outro tanto”.
Alegre, cantante e bom dançarino, o frade veste-se com as tradicionais roupas
sacerdotais e sob elas, instrumentos e roupas usadas pelos praticantes de esgrima,
desporto esse em que ele se revela muito hábil. O Frade indigna-se quando o Diabo o
convida a entrar na sua barca, pois acredita que os seus pecados deveriam ser
perdoados, uma vez que ele foi um representante da religião. Então ele, sempre
acompanhado pela amante, segue até ao batel da glória e o Anjo nem sequer lhe dirige
a palavra, tal é a sua reprovação, cabendo ao Parvo o papel de condenar o Frade à barca
do Inferno pela sua falsa moralidade religiosa.

1. Personagens
1.1. Papel e função

O Frade – protagonista (papel)


réu e advogado de defesa (função)

O Diabo e o Anjo – personagens principais (papel)


advogados de acusação e juízes (função)

A moça – figurante: elemento de prova (ajudará à condenação do Frade, simboliza a


vida pecaminosa levada pelo Frade. Florença no final também embarcará no batel do
Diabo, porque também ela pecou, pois sabia que não podia viver maritalmente com um
padre.)

2. Caracterização do Frade

O Frade apresenta-se ao Diabo dizendo “Deo gratias! Som cortesão.”. esta


personagem é muito bem caracterizada pelo Diabo e pelo Joane (que nesta cena
toma o lugar do Anjo, porque este não considera o Frade digno que ele lhe dirija
sequer a palavra) e por si próprio.

2.1. Caracterização Directa

2.1.1. Autocaracterização:
“Deo gratias! Som cortesão.” (Esta apresentação feita pela própria personagem é
contraditória: “Deo gratias!” - palavras relacionadas com o seu estatuto social –
homem da igreja ; “Som cortesão” – ele afirma ter frequentado a corte, tendo tido
por isso uma vida mundana, cortesã que não se coaduna com a vida do convento,
dos religiosos).
“Eu tangerei / e faremos um serão.” (O Frade além de saber cantar, afirma que
também sabe tocar. Cantava-se, tocava-se música e dançava-se nos serões da corte.)
À pergunta do Diabo se a dama que o acompanha lhe pertence, ele responde
“Por minha la tenho eu”, acusando-se a si próprio de ter uma amante.
“E este hábito nom me val?” O Frade estava convencido que lhe bastaria vestir
um hábito para se ver livre das chamas do Inferno.
“Um padre tão namorado / e tanto dado à virtude” Mais uma contradição na
caracterização feita pelo Frade, por um lado afirma que está muito enamorado de
Florença, por outro considera-se muito virtuoso.
“Se há um frade de perder /com tanto salmo rezado” Ele rezou tanto durante a
sua vida e agora, só por ter uma mulher, será condenado.
“Sabê que fui da pessoa!” O Frade informa o Diabo que foi uma pessoa bastante
importante.
“Padre que tal aprendia / no Inferno há-de haver pingos?” esta personagem
praticava esgrima na corte e ao demonstrar as suas habilidades de esgrimista ao
Diabo, declara que padre com tal sabedoria não poderia ir para o Inferno.

2.1.2. Heterocaracterização
Caracterização feita pelo Diabo:
“gentil padre mundanal,” O Diabo utiliza dois adjectivos contraditórios para
caracterizar o Frade: gentil tem a ver com a vida religiosa e mundanal refere-se ao facto
de ele ser dado aos prazeres do mundo.
“ Devoto padre marido” Ironicamente, o Diabo diz ao Frade que ele é um padre
devoto (muito dado à virtude, o que está de acordo com a vida dos padres), mas também
é marido de Florença, mostrando a desconformidade entre os ideais e os actos do Frade,
porque este em vez de viver um vida de pobreza, de humildade, de oração, tinha uma
mulher.

Caracterização feita pelo Parvo:


O Anjo não atende o Frade, porque sendo este um membro da igreja, deveria
saber distinguir o mal do bem e não ter levado uma vida de prazeres, de pecado. Não é
pois digno da atenção do Anjo.
“Furtaste o trinchão, frade? O parvo acusa o Frade de ter roubado Florença,
porque não é suposto um padre ter mulher, então aquela deveria pertencer a outro
homem certamente.

2.2. Caracterização indirecta

a) Os símbolos:
O Frade aparece-nos a cantar e a dançar com a moça Florença pela mão. Traz
também consigo os símbolos da sua classe social: o hábito com capelo e a coroa.
Carrega ainda os apetrechos que têm a ver com a sua vida mundana, a prática de
esgrima: o broquel, a espada e o casco.
Com estes símbolos, Gil Vicente pretende chamar a atenção para os frades
libertinos, galantes e sensuais e mundanos: dançarinos e esgrimistas que frequentavam a
corte.
b) A linguagem:
- alegre – “Tai-rai-rai-ra-rão,”
- convencido – “Eu hei-de ser condenado?”
- confiante – “Nom ficou isso n´avença”
- presunçoso – “Som cortesão”
- autoritário – “ Há lugar cá / pêra minha reverença? / e a senhora Florença / polo
meu entrará lá!”
- resignado – “Vamos onde havemos d´ir,”.

3. Acusação /Defesa

3.1. Acusação feita pelo Diabo e pelo Parvo


O Diabo acusa o Frade de ter levado uma vida mundana, tendo usufruído dos
prazeres da corte: praticava esgrima: “Dê vossa senhoria lição de esgrima”, dançava e
cantava: ele surge em cena a cantar e a dançar e mais tarde o Diabo pergunta-lhe se ele
sabe também o “tordião” ao que ele responde afirmativamente. É também acusado de
ter vivido amancebado, não tendo respeitado o voto de castidade imposto aos membros
sacerdotais: ”E essa dama é ela vossa? / por minha la tenho eu…”. Seguidamente
pergunta-lhe também o Arrais do Inferno: “E não vos punham lá grosa / no vosso
convento santo?” O Diabo ao fazer esta pergunta pretende obter uma resposta
condenatória do Frade, levando-o a não só a acusar-se a si mesmo, como a todos os que
vivem no convento, toda a classe social, o clero. Ironicamente, o Diabo continua a
acusar o Frade, apelidando-o de “gentil padre mundanal”, “ Devoto padre marido”,
querendo acusá-lo da vida “dupla” que levava (um padre não pode viver maritalmente
com uma mulher, nem ter uma vida mundana).
O Parvo acusa e condena o Frade ao Inferno, dizendo-lhe “Furtaste o trinchão,
frade?”, referindo-se ao pecado mais grave do Frade, segundo a sua opinião.

Defesa do Frade
O Frade defende-se, muitas vezes reforçando as acusações feitas pelo Diabo:
“Deo gratias! Som cortesão.”: apresentando-se desta maneira o Frade refere a sua vida
cortesã.
“E eles fazem outro tanto!”: é esta a resposta do Frade ao Diabo ao tentar
justificar o facto de ter uma amante (todos os padres do seu convento faziam o mesmo,
condena-se a si e a todo o clero com esta desculpa).
“E este hábito nom me val?”: o Frade pensa ter salvação por ser um membro da
igreja.
“Um padre tão namorado / e tanto dado à virtude”: a personagem ao tentar
defender-se, ainda se “enterra” mais – ele poderia ter sido uma pessoa virtuosa, mas
nunca poderia estar enamorado.
“Se há um frade de perder /com tanto salmo rezado”: mais uma vez, depois de o
Diabo lhe apontar o seu destino, o Inferno, o Frade defende-se, não concordando, pois
rezou tanto e agora só por ter uma mulher, é condenado às penas do Inferno.
“Sabê que fui da pessoa!”: ele apresenta como defesa o facto de ter sido, na vida
terrena, uma pessoa importante, logo não poderia ser condenado.
“Padre que tal aprendia / no Inferno há-de haver pingos?”: Enquanto dá a lição
de esgrima tenta mais uma vez a sua defesa, apresentando agora o facto de ser um
bom desportista.
4. Composição e Formulação

Personagem criada por Gil Vicente, o Frade ao representar a classe social a que
pertence – clero – traz em si todos os defeitos desta classe que são condenáveis pela
justiça divina.
Verificamos que o protagonista evolui em cena, movimentando-se, mas não se nota
que haja uma evolução psicológica, logo podemos classificá-lo como personagem
plana.
Para além disso, o Frade surge em cena acompanhado de elementos que
caracterizariam qualquer Frade, utilizando uma linguagem que qualquer outro elemento
da sua classe social poderia usar. O Frade, respondendo ao Diabo “E eles fazem outro
tanto”, condena toda a sua classe social, já que pretende dizer que no seu convento
muitos frades levam o mesmo tipo de vida que ele levava. O Frade é, portanto, não o
representante de si mesmo, mas uma personagem-tipo.
O Anjo e o Diabo são personagens alegóricas, porque representam conceitos: o bem
e o mal.

5. Percurso Cénico

Frade

Cais ----- Barca do Inferno ----- Barca do Anjo ----- Barca do Inferno ----- Embarca

Exposição Conflito Desenlace

6. A Linguagem e o Estilo

o Nível de língua
- corrente – no geral do texto
- gíria – tecnicismos utilizados na lição de esgrima dada pelo Frade ao Diabo –
vocábulos relacionados com a esgrima.

o Recursos estilísticos (exemplos)


- Ironia – “no vosso convento santo?”
- Eufemismo- “Pêra aquele fogo ardente”
- Comparação – “Aqui estou tão bem guardado / como a palha n´albarda.”
- Anáfora – “Pera onde levais gente? / Pera aquele fogo ardente”
- Interjeição – “Oh”, “Houlá!”
- Imperativo – “Entrai, padre reverendo!”
- Metáfora – “Mantenha Deus esta coroa / Ó padre Frei capacete”
- Antítese – “Devoto padre marido” (também é ironia)
- Adjectivação anteposta e posposta – “Gentil padre mundanal” (também é ironia)
7. Cómicos

o De Situação – O Frade aparece a cantar e a dançar com a moça pela mão e quando dá
a lição de esgrima ao Diabo (imagine-se um frade de hábito e todo “artilhado” a dar
uma lição de esgrima ou um frade feliz e contente, a dançar e a cantar com a sua amante
pela mão).
o De Linguagem – a ironia empregue pelo Diabo no diálogo com o Frade.
o De carácter – o Frade esgrimista, dançarino e namorado, convencido de que a
simples condição de sacerdote o salvava.

8. A intenção do autor

Gil Vicente pretende criticar e moralizar a sociedade do seu tempo,


hierarquizada em clero, nobreza, burguesia e povo.
Gil Vicente criou, no espaço alegórico da margem do rio que se tem de
atravessar rumo ao destino post-mortem, um pretexto para criticar a sociedade, através
de várias personagens representativas de classes ou grupos (tipos), da ironia e do
cómico.
Nesta cena, Gil Vicente criticou severamente os frades que levavam uma vida de
pecado, não cumprindo o voto de castidade a que haviam sido obrigados quando
decidiram enveredar pela vida religiosa.
As barcas simbolizam a salvação (Barca do Anjo) e o castigo, a condenação ao
fogo do Inferno (Barca do Diabo).
Gil Vicente acreditava que se as pessoas da sua época vissem os seus vícios
retratados, representados, poderiam emendar-se. A honestidade, a simplicidade, o
cumprimento dos preceitos religiosos em conformidade com uma vida digna, levaria as
pessoas ao paraíso. Já o contrário: desonestidade, corrupção, roubo, falsidade, feitiçaria,
desprezo pelas classes inferiores, vaidade, presunção… eram vícios condenáveis e
castigados pela justiça divina.

Prof. Maria Filomena Ruivo Ferreira