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Casos práticos Direito das Obrigações

Estudos de Direito (Universidade Nova de Lisboa)

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Descarregado por Tatiana Filipa Rodrigues (tatii_10-95@hotmail.com)
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Direito das obrigações


Casos práticos e outros Elementos para as Aulas práticas
Manuel Januário da Costa Gomes
10 – A, dona de uma joia, celebrou com B um contrato de depósito da mesma por um ano, com início a 1
de fevereiro; a título de remuneração foi ajustada a quantia de 120€.
A obrigação a cargo de B foi garantia pelo penhor de um anel constituído por C.
a) Em outubro, C vendeu a D o anel objeto do penhor; D exige a B a imediata entrega do anel
empenhado, pelo que este pretende saber se pode entregar a joia a A e exigir o imediato
pagamento dos 120€ acordados.
R: O penhor não se extingue por venda da coisa, pelo que, não há diminuição das garantias e, portanto, não
há perda do benefício do prazo (780º, nº1). Não havendo perda do benefício do prazo, o credor não tem
direito a exigir imediatamente o pagamento dos 120€.
Além disso, mesmo que neste caso a venda da coisa resultasse numa diminuição das garantias, este
comportamento não é imputável ao devedor, mas sim a terceiro, pelo que não há perda do benefício do
prazo conforme resulta do art. 780º, nº1. O benefício do prazo continua a ser para o devedor (779º).
b) Em 31 de dezembro, A apresentou-se a B para exigir a entrega da joia objeto de depósito, mas B
recusa-se a entregar-lha porque o depósito fora celebrado por 1 ano. A verdadeira razão estava,
porém, no facto de B ter alugado a joia a D para o “réveillon”.
R: Neste caso, a exigência da obrigação imediata não representa para o devedor (B) nenhuma desvantagem.
Antes pelo contrário, o devedor liberta-se de dois meses de obrigação e recebe na mesma a totalidade do
preço. Por isso, ilidimos a presunção do art. 779º, o que significa que A pode exigir a entrega da coisa a
qualquer momento.
O que A não pode fazer é modificar a sua obrigação (o pagamento dos 120€).
Art. 1194 º - o prazo é estabelecido a favor do depositante.
c) Em janeiro do ano imediato, A pretende a restituição da joia, propondo-se pagar a B apenas 110€,
uma vez que não esgotara o prazo previsto no contrato.
R: A não pode modificar a sua prestação. Para isso tem de haver justa causa (1194º).
12 – Numa deslocação ao Porto, A residente em Lisboa, vendeu a B o seu automóvel, que guardava numa
garagem de recolha em Cascais, pelo preço de 10.000€, a pagar em 4 prestações mensais de igual valor.
Ficou acordado que o vencimento da 1º prestação seria em 10 de março, data em que o carro seria
entregue.
A vendeu a B a sua vivenda na Foz, por 500.000€, por escritura lavrada num cartório notarial da cidade do
Porto, ficando este devedor de metade do preço.
a) Em 10 de março, B quer pagar a A 2500€. Onde o deve fazer? Onde deve A entregar o automóvel?
R: O carro deve ser entregue em Cascais (773º, nº1). O dinheiro deve ser entregue no lugar e tempo da
entrega da coisa (885º).
b) A não quer entregar o automóvel e exige a B o pagamento dos 2500€.
R: Se A não aparece no dia 10 de março em cascais, há incumprimento. Há também, simultaneamente, mora
do devedor e mora do credor, dependendo da obrigação sobre a qual estejamos a perspetivar.

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A não quer entregar o carro, mas exige o pagamento dos 2500€. Não pode fazê-lo, pois está em mora do
devedor.
Se A não entrega o automóvel, B pode invocar a exceção de não cumprimento (428º). Pode, eventualmente,
ter direito a uma indemnização pelos danos causados.
c) Em 10 de março, B pagou, contra a entrega do carro, 2500€ a A, mas em 10 de abril nada paga.
R: B está em mora do devedor relativamente à 2º prestação. Fica obrigado a indemnizar o credor pelos
danos que lhe tenha causado (804º). Fica também obrigado a pagar juros moratórios porque a sua obrigação
é pecuniária (806º).
Além disso, a falta da realização de uma prestação, importa o vencimento de todas as outras (781º), sem
prejuízo do disposto no art. 934º.
d) Considerando o descrito na hipótese anterior, A exige a B os 7500€. C apresenta-se para pagar
5000€.
R: O facto de ser um terceiro a oferecer o cumprimento é irrelevante (767º + 768º).
A pode aceitar o pagamento oferecido por C ou pode recusar com o fundamento de que o cumprimento
oferecido é apenas parcial (763º). Neste momento, porque B está em mora e dado que por essa razão as
prestações em falta venceram, A tem direito a exigir a totalidade do preço. Como tal, não é obrigado a
receber o cumprimento parcial.
e) B envia, no final de março, a A um cheque no valor de 7500€; quando, em 10 de abril, A exige a B o
pagamento da 2º prestação, este responde-lhe que já pagara a totalidade do carro. Contudo, A
contrapõe-lhe que imputara os 7500€ na dívida da casa.
R: B pode, a qualquer momento, decidir oferecer o cumprimento da obrigação, porque o prazo está
estabelecido em seu benefício. Se A se recusar a receber, incorre em mora do credor (813º).
O problema aqui está relacionado com a matéria da imputação do cumprimento: devemos considerar que os
7500€ pagos por B foram para pagar a prestação do carro ou para abater na dívida da casa?
Como o devedor não designou qual a dívida no momento do pagamento, não se aplica o nº1 do art. 783º.
Assim sendo, temos de aplicar os critérios supletivos do art. 784º

13 – A comprometeu-se para com B a guardar-lhe uma viatura durante 1 ano, tempo corresponde à
ausência deste no estrangeiro. No fim do ano (dia X), B apresentar-se-ia no domicílio de A para levantar a
viatura e pagar 500€ como retribuição.
No dia aprazado, B, que já regressara, não compareceu no domicílio de A e telefona-lhe a exigir que este
lhe vá entregar a viatura. A recusa-se a fazê-lo porque se apercebe que B se “esquecera” do carácter
oneroso do contrato.
15 dias depois o telhado da casa de A ruiu por completo, danificando seriamente o automóvel de B.
A tem a obrigação de entregar o carro a B e B tem a obrigação de pagar 500€ a A.
Nenhuma das obrigações foi cumprida por causa imputável a B. B está em mora do credor relativamente à
obrigação de receber a viatura e está em mora do devedor relativamente à obrigação de pagar 500€.
Não se pode mudar o lugar da prestação unilateralmente.
Se B se esqueceu que tinha que pagar 500€, A pode invocar a exceção de não cumprimento (428º). Mas na
verdade, em bom rigor, o que há aqui não é uma exceção de não cumprimento, mas um direito de retenção.

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a) Quid iuris, sabendo que, oito dias antes, A fora alertado pelos serviços camarários do mau estado
do telhado e do perigo de desmoronamento.
R: Pelo facto de o carro ter sido seriamente danificado, há uma situação de impossibilidade que se reporta à
obrigação de entrega do carro.
A impossibilidade ocorre na pendência da mora do credor.
Se o carro for suscetível de reparação aplicamos o art. 814º; se não for suscetível de reparação aplicamos o
art. 815º (este artigo refere-se a todos os casos de impossibilidade).
Neste caso, nunca aplicaríamos o art. 796º porque a causa da impossibilidade não é imputável ao credor.
A consequência da aplicação dos artigos 814º e 815º é que, o devedor, na pendência da mora, não responde
pelo risco, exceto no caso de dolo ou de culpa grave. Ora, neste caso o devedor é responsável porque se
observou no seu comportamento um elevado grau de negligência, pois ele sabia que o telhado corria perigo
de desmoronamento. Portanto, A está obrigado a indemnizar B.
b) Suponha agora que o automóvel fica totalmente destruído e que A consegue receber de uma
companhia de seguros quantitativo razoável, relativo à garagem e ao automóvel.
R: Na pendência da mora do credor (B), a prestação tornou-se impossível. Aplicamos então o art. 815º. Não
há dolo nem culpa grave do devedor, por isso o risco corre por conta do credor (B).
Assumindo que as obrigações são recíprocas, A está exonerado da sua responsabilidade de entregar o carro,
mas mantém o seu direito a exigir os 500€ (815º, nº2). Mas, se o devedor obter algum benefício com a
extinção da obrigação, deve reduzir-se a contraprestação na medida desse benefício (última parte do nº2 do
art. 815º). O benefício aqui é aquilo que o devedor tem a receber da companhia de seguros.
c) Admita agora que o lugar combinado para a entrega da viatura era o domicílio de B e que A se
recusa a fazer essa entrega enquanto B não lhe entregar, no seu domicílio (de A), os 500€.
R: A entrega do carro, que deveria ter ocorrido no domicílio de B, no dia X, não ocorreu. Portanto, há uma
situação de não cumprimento.
Esta situação de não cumprimento deve-se ao facto de A pretender receber os 500€ no seu domicílio. Temos
de avaliar se este fundamento é lícito ou não.
Nos termos do art. 774º, a obrigação deve ser entregue no domicílio do credor (A). Mas, por força do art.
939º, aplicamos o art. 885º, pelo que o pagamento do preço deve ocorrer em simultâneo com a entrega da
coisa. Por isso, a exigência de A não é lícita, o que significa que estamos numa situação de mora do devedor.
A continua obrigado a proceder à entrega do carro e B continua obrigado a pagar os 500€. Mas B não paga
juros moratórios porque há mora do credor (814º, nº2).
Além disso, A deve indemnizar B pelos danos causados.
d) A mesma situação referida na alínea anterior. Quid iuris, admitindo que a garagem desabou, que o
automóvel foi destruído por completo e que poucas horas depois seria, por qualquer modo,
destruído, em virtude de uma explosão de gás ocorrida num prédio contíguo à garagem.
R: Há uma situação de impossibilidade. Não é imputável ao devedor, mas ocorre na pendência da mora
deste.
Assim sendo, aplicamos o art. 807º, o que significa que, pelo facto de estar em mora, o devedor assume a
responsabilidade da destruição do automóvel, mesmo que a causa da impossibilidade não lhe seja
imputável.

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O devedor tem o ónus de demonstrar que o credor teria sofrido igual prejuízo, mesmo que não existisse uma
situação de mora (807º, nº2).
Neste caso, a mora é relevante, pelo que A deve indemnizar B.
14 – A, estudante de direito, comprou a B um computador pessoal para armazenar e tratar a
jurisprudência de Direito das Obrigações. O preço acordado foi de 1000€, a pagar em 4 prestações iguais, a
primeira das quais vencia-se no momento da celebração do contrato e as restantes, sucessivamente, no
último dia dos 3 meses subsequentes. Segundo o acordado, o computador, com características específicas,
deveria ser entregue no dia imediato à celebração do contrato na casa de A.
a) Quando, no dia imediato à celebração do contrato, B colocava cuidadosamente o computador no
seu carro para o levar a A, cai um vaso de flores de uma varanda, destruindo o computador.
R: Temos uma situação de não cumprimento devido a uma impossibilidade que não é imputável a nenhuma
das partes. Assim, sabemos que estamos no âmbito de aplicação dos artigos 790º e seguintes.
O regime da impossibilidade divide-se em duas partes: o regime geral da impossibilidade e o regime especial
(risco). Temos de optar por um destes caminhos para aplicar: fazemos isso indo ao art. 796º ver se estão
preenchidos os requisitos para que se aplique o regime especial do risco; não estando preenchidos esses
requisitos, aplicamos o regime geral.
Para a aplicação do regime do risco é necessário que se verifiquem cumulativamente os seguintes requisitos:
1. Temos que estar perante uma obrigação que emerge de um contrato que tem por efeito a
transmissão ou a constituição de um direito real sobre uma coisa. Ex: compra e venda.
2. É necessário que a obrigação que esteja em causa seja a obrigação de entrega da coisa que é o
objeto do contrato.
3. É necessário que a obrigação se tenha tornado impossível, ou seja, a entrega da coisa, nos termos
em que estava prevista, não pode ocorrer.
4. É necessário que essa impossibilidade seja consequência da perda ou da deterioração da coisa.
Verificamos que estão preenchidos todos os requisitos do art. 796º, pelo que aplicamos o regime especial do
risco.
De acordo com o art. 796º, o risco de destruição, em princípio, corre por conta do adquirente (A), exceto se
o benefício do prazo tiver sido estabelecido em benefício do alienante (B), caso em que o risco só se
transfere com a entrega da coisa.
Como existe um dia certo para o cumprimento da obrigação, o benefício do prazo é fixado em benefício de
ambas as partes. Por isso, não se aplica o nº2 do art. 796º. Isto significa que o risco corre por conta do
adquirente (A).
A obrigação extinguiu-se. A não está obrigado a pagar o preço (795º, nº1).

b) B esqueceu-se da data de entrega do computador e quando, 3 dias após a celebração do contrato,


recebe um telefonema de A, envia-lho, por C, que, ao transpor a porta de entrada do prédio de A,
escorrega numa casca de banana e parte o computador.
R: B está numa situação de mora do devedor.
Na pendência da mora, o devedor pode oferecer o cumprimento a qualquer momento.
Pode também ser um terceiro a oferecer o cumprimento (arts. 767º e 768º).

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Porém, o computador ficou destruído, há uma situação de impossibilidade. Esta impossibilidade verificou-se
na pendência da mora do devedor, o que significa que o devedor responde pelos danos causados ao credor
(807º).
Poderíamos considerar a aplicação do art. 801º, se demonstrássemos que o comportamento do terceiro (C)
foi culposo. B responde pelos atos de C como se tivesse sido ele próprio a praticá-los (800º, nº1).
c) No dia do vencimento da 2º prestação, A pede a D que passe no escritório de B para pagar os
250€. D, por confusão, entrega o dinheiro a E.
8 dias depois, B, que, entretanto, cedeu o seu crédito respeitante às duas últimas prestações a E,
escreve uma carta a A exigindo o pagamento dos 750€ em dívida e juros respetivos.
R: No dia do vencimento da 2º prestação, A deveria pagar 250€ a B, no domicílio do credor (774º).
A encarrega um terceiro (D) de efetuar o pagamento (767º e 768º), mas D não cumpriu junto do credor. Este
facto não extingue a obrigação, o devedor continua obrigado a cumprir perante o verdadeiro credor.
Portanto, no dia em que o pagamento é feito ao credor errado, constitui-se uma situação de não
cumprimento, que se traduz em mora do devedor.
A mora sobre obrigações pecuniárias pressupõe o pagamento de juros moratórios (806º) e, por se tratar de
um pagamento a prestações, o devedor, neste caso, perde o benefício do prazo (781º), sem prejuízo do
disposto no artigo 934º.
Entretanto, B cedeu o crédito correspondente às duas últimas prestações a E. é uma cessão de créditos
parcial e produz efeitos independentemente do conhecimento do devedor. A partir do momento em que se
deu a cessão, o credor passa a ser E, pelo que B não pode exigir o pagamento dos 750€ em falta e dos juros
respetivos. Apenas pode exigir 250€ (correspondentes à 2º prestação) e os juros moratórios sobre esses.
Mas na hipótese de A pagar os 750€ a B por desconhecer a cessão de créditos, isso não lhe é oponível
(583º).
E adquiriu um crédito vencido (porque A não pagou a 2º prestação), pelo que E pode exigir imediatamente a
3º e a 4º prestações (781º).
d) No dia do vencimento da 2º prestação, D apresenta-se na casa de A com uma procuração de B
para receber a quantia devida. A recusa-se a pagar, razão pela qual B exige o imediato pagamento
da quantia correspondente às prestações em dívida.
R: O credor envia um procurador a casa do devedor para receber o pagamento. O devedor não paga, pelo
que há uma situação de não cumprimento. Será que existe algum fundamento para este não cumprimento
ser lícito?
A pode invocar que o pagamento não está a ser feito no local indicado (774º); pode invocar o facto de o
pagamento estar a ser exigido por terceiro.
O devedor pode recusar cumprir perante terceiro nos termos do art. 771º, porque não existe convenção das
partes nesse sentido. Contudo, se o devedor proceder à realização da prestação ao representante do credor,
a obrigação considera-se cumprida (769º).
Relativamente ao argumento do local, nada impede que a prestação seja cumprida noutro local diferente do
estabelecido, desde que as partes nisso consintam.
Se A recusa pagar ao procurador, fica obrigado a dirigir-se ao domicílio do credor para realizar a prestação.
Se não o fizer, entra em mora do devedor.

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e) E, amigo de A, constatando que este estava mal de finanças, apresenta-se no escritório de B para
pagar os 250€ da 2º prestação, mas B, ao corrente da situação, refere que tem direito a exigir a
totalidade, a não ser que F garanta o cumprimento do restante.
R: F oferece o cumprimento da prestação. Pode fazê-lo nos termos dos artigos 767º e 768º, não sendo
necessário que o devedor esteja de acordo.
B está a invocar a situação de insolvência do devedor para justificar a perda do benefício do prazo (780º,
nº1). Por isso, B argumenta que F deve pagar a totalidade da obrigação.
Note-se que “estar mal de finanças” não se confunde com a insolvência. Só está numa situação de
insolvência o devedor que não tem recursos suficientes para fazer face às suas obrigações. Se o devedor não
estiver numa situação de insolvência, o credor não pode exigir todas as prestações em falta, porque não
haveria fundamento para haver vencimento antecipado e, consequentemente, não podia recusar os 250€
oferecidos por F. Se o fizesse, incorria em mora do credor (768º + 813º).
Mas, se de facto o devedor se encontrar numa situação de insolvência, B pode invocar o art. 780º, nº1. Pode
também recusar os 250€ oferecidos por F nos termos do art. 763º. Dado que, pelo facto de o devedor estar
numa situação de insolvência, as prestações venceram, então o credor não tem de aceitar receber menos do
que a totalidade da obrigação.
B não pode exigir garantias de F porque este não é o devedor, pelo que não tem a obrigação de prestar
qualquer garantia. Além disso, a exigência de garantias só se aplica na situação de diminuição das garantias e
não na situação de insolvência (780º, nº2).
f) Quando B se dirige, no dia imediato à celebração do contrato, a casa de A, transportando o
computador, G, tia deste, informa-o que A ia pensar melhor se ia comprar o aparelho ou não.
Transtornado com os modos da tia de A, B, ao descer a escada de acesso ao apartamento de A, cai,
destruindo-se o computador.
R: O computador não foi entregue por causa imputável ao credor (não criou as condições para que a
obrigação fosse cumprida). Portanto, A está em mora do credor.
Posteriormente, o computador destrói-se – há uma impossibilidade que ocorre na pendência da mora do
credor. Aplicamos o art. 815º, o que significa que o risco corre por conta do credor. O credor já não irá
receber o computador, mas continua obrigado a pagar o preço. Só não é assim se houver dolo ou culpa
grave da parte do devedor (815º, nº2).
15 – Em janeiro, A celebrou com B um acordo, pelo qual o segundo se comprometia a adquirir ao primeiro
uma máquina de cortar relva, modelo X, tendo-lhe entregue a quantia de 1000€, correspondente a
metade do preço; o contrato seria celebrado em junho no escritório de A.
Ao mesmo tempo, B comprometeu-se a transportar para casa de A, o conteúdo de um contentor que
chegaria a 15 de fevereiro a bordo do barco “Mare mio”, transporte esse que deveria ser feito
imediatamente após o desalfandegamento. Como contrapartida a esse transporte, A entregaria a C, sócio
de B, a próxima colheira de laranjas do seu quintal.
I – A 16 de fevereiro B compareceu no porto, onde foi informado de que, em virtude de uma avaria nas
máquinas, o “Mare mio” só chegaria dia 20.
Em 21 de fevereiro, A telefonou a B, dizendo que o barco chegara e podia transportar o contentor, uma
vez que já havia luz verde na Alfândega.
Em 25 de fevereiro, o contentor, que ainda não fora transportado, foi destruído por um incêndio,
provocado por um grupo terrorista, quando já caducara o seguro das mercadorias.

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A pretende uma indemnização de B, mas este recusa-se a pagá-la, alegando que tivera o camião avariado
e que, de qualquer forma, nunca poderia ser responsabilizado por atos do grupo terrorista, o qual, aliás,
também dinamitara o armazém de A. C, por sua vez, fez saber a A que pretende exigir a entrega das
laranjas.
R: B deveria fazer o transporte imediatamente após o desalfandegamento – temos de interpretar o que isto
significa.
Há uma impossibilidade absoluta, não imputável a nenhuma das partes. Mas esta impossibilidade é apenas
temporária, pelo que o devedor fica exonerado das consequências do atraso apenas enquanto a
impossibilidade se verificar (792º).
A impossibilidade terminou no dia 21 de fevereiro, quando A informou B de que o barco já tinha chegado.
Por isso, B deve agora proceder ao cumprimento da obrigação dentro de um prazo razoável; se não o fizer
entra numa situação de mora do devedor.
Mais tarde, verifica-se uma nova impossibilidade, não imputável a nenhuma das partes. Portanto, não há
incumprimento definitivo, o que há é impossibilidade definitiva na pendência da mora do devedor. Por isso,
aplicamos o art. 807º, de acordo com uma leitura extensiva.
De acordo com o art. 807º, nº1, o devedor suporta o risco de perda ou deterioração da coisa a entregar. O
devedor tem a possibilidade de provar que o credor teria sofrido igual prejuízo se a obrigação tivesse sido
cumprida a tempo (807º, nº2). É precisamente este o argumento que B está a invocar.
Ao aplicarmos o art. 807º, nº2, concluímos que o facto de a impossibilidade se ter verificado na pendência
da mora não tem, neste caso, relevância, pelo que aplicamos o regime geral da impossibilidade (arts. 790º e
seguintes). A obrigação extingue-se (790º). Da mesma forma, extingue-se a contraprestação (795º).
II – Em junho, A não se encontrava em condições de fornecer a máquina a B; em consequência, B pretende
uma indemnização de 2000€ e quer resolver o contrato, uma vez que já não tem interesse no modelo X
por ter aparecido um mais recente.
R: Há uma situação de incumprimento (portanto, o não cumprimento é imputável ao devedor). Temos de
qualificar este incumprimento à luz de 2 critérios: o temporal e o material. O temporal afere se há uma
situação de mora ou de incumprimento definitivo; o critério material avalia se o incumprimento é total ou
parcial.
Ora, estamos aqui perante um incumprimento total.
Relativamente ao critério temporal, diz-se no enunciado que B perdeu o interesse na prestação – a perda do
interesse do credor é um dos motivos que transforma uma situação de mora em incumprimento definitivo,
conforme diz o art. 808º.
Mas para que a mora se transforme em incumprimento definitivo pela perda do interesse do credor, é
necessário que se verifiquem determinados requisitos: o interesse perdido tem de resultar da situação de
mora; a perda de interesse tem de ser subjetiva e objetiva.
Relativamente ao prazo, apenas se diz que o contrato deve ser celebrado em junho. Ora, tendo em conta
que o benefício do prazo está estipulado em benefício do devedor (779º), a mora só se constitui depois do
dia 30 de junho, o que significa que ainda não estamos numa situação de mora. Consequentemente, não
pode haver perda objetiva do interessa na prestação, pelo que não se verificam todos os requisitos para
aplicação do art. 808º.

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Além disso, se o modelo X apareceu antes de se constituir uma situação de mora, a perda de interesse não é
consequência da mora, pelo que não se aplicaria o art. 808º. Na verdade, o mesmo se diria se o modelo X
tivesse aparecido na pendência da mora.
Mas, depois de junho, para chegar ao incumprimento definitivo, o credor pode estabelecer um prazo
admonitório (808º).
16 – A, emigrante no Brasil, celebrou com B, residente na terra natal de ambos, o seguinte contrato: B
consertaria uma parede da casa de A que ameaçava ruir e, em troca, A traria do Brasil, nas férias
seguintes, a jiboia “666” (assim conhecida depois de ter sido “protagonista” de um filme satânico
chamado “666”) que B queria colocar no seu quintal para impor respeito aos filhos do seu vizinho C.
B fez, de facto, a reparação do muro em que despendeu 1500€.
a) A traz a jiboia numa jaula, mas um passageiro envenena-a à sucapa.
R: Há uma situação de não cumprimento por impossibilidade. Esta impossibilidade não é imputável ao
devedor (assumindo que o devedor adotou todos os comportamentos de cuidado exigíveis).
Devido à impossibilidade, a obrigação de entregar a jiboia extingue-se (790º, nº1). Mas como B já arranjou a
parede, tem o direito de exigir a restituição da prestação (795º, nº1), na medida do enriquecimento sem
causa.
b) A traz a jiboia numa jaula mas, ao sentir sobre si os olhares aterrados dos passageiros, envenena-
a.
R: Há uma situação de não cumprimento por impossibilidade. Esta impossibilidade é imputável ao devedor.
Estamos no âmbito de aplicação dos artigos 801º e seguintes.
O devedor é responsável como se faltasse culposamente ao cumprimento da obrigação (801º, nº1).
Independentemente do direito à indemnização, o credor, se já tiver realizado a prestação, pode exigir a sua
restituição por inteiro (801º, nº2).
c) A, que pensava poder trazer a jiboia consigo, é informado pelas autoridades aeroportuárias que a
mesma, dada a sua perigosidade, devia seguir em transporte especial, o que custaria 3000€, para
além de uma prévia vistoria veterinária que lhe custaria mais 500€; perante tal, A abandona a
jiboia no aeroporto.
R: A obrigação tornou-se mais onerosa do que aquilo que o devedor esperava, pelo que A abandonou a
jiboia. Não se trata de uma situação de impossibilidade.
Há uma situação de erro na representação.
Há incumprimento.
d) A é informado, no aeroporto de Lisboa, de que só pode levantar a jiboia dali a 15 dias, pelo que
chega à terra natal sem a mesma.
R: Há uma impossibilidade não imputável ao devedor. A impossibilidade é temporária, suspende-se nos
termos do art. 792º. Daqui a 15 dias, A deve levantar a jiboia no aeroporto e entrega-la ao B.
e) A considera que transportar uma jiboia é um grande incómodo e não se preocupa mais com o
caso, deparando, à chegada, com a ira de B.
R: Há uma situação de não cumprimento, imputável ao devedor.
É discutível se há incumprimento definitivo ou se há apenas mora do devedor.

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17 – A, comerciante grossista, celebrou com B, comerciante retalhista, a 15 de janeiro, um contrato de


compra e venda pelo qual aquele vendia a este cem fardos de bacalhau que tenha em armazém.
Convencionaram ambos que, embora o preço acordado fosse pago no ato da celebração do contrato – o
que realmente aconteceu – a entrega da mercadoria a B apenas teria lugar em 15 de fevereiro, ficando a
mesma, entretanto, depositada no armazém de B.
a) Em 2 de Fevereiro, um incêndio provocado dolosamente por um rival de A, destruiu as instalações
do armazém em que a mercadoria se encontrava, perdendo-se esta totalmente e impedindo que A
procedesse à sua reposição em tempo de satisfazer as encomendas de terceiros.
R: No dia 15 de fevereiro os cem fardos de bacalhau deveriam ter sido entregues a B. Existe não
cumprimento.
A entrega não ocorreu por impossibilidade, impossibilidade essa que não é imputável a nenhuma das partes.
O devedor não responde pelas consequências do não cumprimento.
A obrigação é específica (são os cem fardos de bacalhau que estão no armazém), pelo que esta
impossibilidade é definitiva.
b) Admita agora que o incêndio de que resulta a perda da mercadoria foi causado por B.
18 – A empresa A comprometeu-se para com a empresa B a fabricar e fornecer-lhe moldes para a
produção desta, no valor de 50000€, fornecimento esse que deveria ser feito na fábrica do comprador, até
31 de março.
Em 31 de março, B recebeu uma fatura para pagamento da quantia acordada, com a indicação de que a
entrega da mercadoria pressupunha o prévio pagamento. B recusou-se a pagar a fatura sem a entrega
prévia da mercadoria.
Em 31 de julho, os moldes são entregues na fábrica de B, mas por lapso do empregado de A, a entrega dos
moldes foi feita sem que a fatura tivesse sido paga.
Em 31 de outubro, A exige a B juros moratórios nos termos do artigo 102º do Código Comercial, calculados
desde 31 de março, mas B não aceita a pretensão de A, sustentando por um lado, que só tem de pagar
juros moratórios a partir de 31 de outubro e, por outro, que os juros aplicáveis seriam os civis.
Mas refere B que é A quem lhe deve pagamento de juros moratórios, desde 31 de março, calculados sobre
50000€, valor da mercadoria, valor esse que deve ser acrescido a uma indemnização suplementar de
10000€, correspondente ao prejuízo que teve com o atraso do fornecimento.
Quid iuris?
42 – A, colega de B, deparou, numa galeria de arte, com uma tela de Vieira da Silva que, há muito tempo,
B, em gozo de férias no estrangeiro, tentava adquirir.
Convencido de que assim seria agradável a B, A, convencionou com C (dono da galeria), e em nome
próprio, o seguinte:
i) C venderia o quadro dois dias depois, por 5000€, a pagar em 5 prestações mensais iguais,
vencendo-se a primeira no momento da entrega do quadro;
ii) O pagamento do preço ficaria, pessoalmente, garantido por D, irmão de B.
Ficou também acordado que, na data da venda do Vieira da Silva, C entregaria a A uma cópia de um Dali,
que este adquiriu em nome de B, por 500€, tendo pago metade do preço.
Dois dias depois, A deslocou-se, de facto, à galeria, onde pagou a C 1000€ e recebeu os dois quadros, que,
com a ajuda de B colocou na parede do “hall” da vivenda de B.

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Regressado do estrangeiro, B manifesta a sua discordância em relação ao comportamento de A.


Acrescenta, referindo-se ao Dali, que A sabia perfeitamente que só se interessava por originais.
No entanto, ratifica a aquisição da cópia, a qual vende, de imediato, a E, por 750€.
a) Caracterize juridicamente as situações com alusão fundamentada aos direitos e deveres dos
intervenientes, considerando que A, magoado com B, deixa de pagar a 2º prestação a C, exigindo a
B o pagamento das despesas efetuadas, o reembolso das quantias entregues a C com juros legais e
o lucro obtido por B na venda do Dali. C, por sua vez, exige o pagamento dos 4000€ em falta a D.
R: A procedeu à gestão de negócios nos termos do artigo 464: assumiu a direção de negócio alheio (em
termos práticos, significa tratar de um assunto que não é seu), atuou no interesse do outro (com o propósito
de transferir para o outro os efeitos do seu comportamento) e atuou sem autorização.
O gestor praticou dois atos, cada um deles consubstancia uma gestão de negócios. Saber se estamos perante
uma ou duas gestões de negócios é relevante para efeito das consequências que resultam da classificação da
gestão enquanto regular ou irregular. Mas para saber se estamos perante uma ou duas gestões temos de,
olhando para o art. 464º, avaliar se a necessidade identificada pelo gestor se é única ou é múltipla. A
identificação da necessidade é avaliada de um ponto de vista subjetivo do gestor.
Neste caso, podemos segregar facilmente a compra da Tela Vieira da Silva da compra da cópia do Dali, pelo
que temos duas gestões e, por isso, vamos analisá-los separadamente.
A al. a) do art. 465º faz uma distinção fundamental entre gestão regular e gestão irregular. Para haver gestão
regular é necessário a verificação cumulativa de dois requisitos: estar em causa um interesse objetivamente
valioso e uma atuação de acordo com a vontade real ou presumível do dono do negócio
Compra da cópia de Dali
É uma gestão irregular porque não é conforme à vontade real ou presumível do dono do negócio, ainda que
o interesse seja objetivamente valioso (podemos considerar que o interesse é objetivamente valioso tendo
em conta o padrão do homem normal apreciador de arte).
Em princípio, a gestão irregular apenas dá lugar à restituição nos termos do enriquecimento sem causa
(468º, nº2).
Porém, a gestão é representativa houve ratificação do negócio nos termos do art. 268º. Ainda que o dono do
negócio diga expressamente que não concorda com a gestão, o que significa que não há aprovação da
gestão, ao ratificar o único ato praticado no exercício da gestão, na prática, isto equivale à aprovação da
gestão (469º). De outra forma, estaríamos perante uma situação de incoerência e de abuso de direito. Por
isso, por força do artigo 334º, ainda que não haja aprovação, a esta gestão devem ser aplicados os efeitos da
aprovação da gestão. Isto significa que os direitos do gestor, neste caso, são os consagrados no artigo 468º,
nº1: o gestor tem direito a ser reembolsado pelas despesas que fundadamente tenha considerado
indispensáveis, com juros legais a contar do momento em que foram feitas e deverá receber uma
indemnização caso tenha sofrido prejuízos.
B deve restituir os 250€ pagos por A.
Esta gestão é representativa e houve ratificação nos termos do art. 268º, por isso é B quem está obrigado a
pagar os restantes 250€ a C.
Compra da tela Viera da Silva
A gestão é regular porque é conforme à vontade regular ou presumível e o interesse é objetivamente valioso
se considerarmos o homem comum que gosta de arte (465º).

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A ausência, associada à impossibilidade de contactar o dono do negócio (465º, b), não é um requisito para
que haja gestão, mas é um requisito para que esta seja lícita.
Sendo a gestão regular, os direitos do gestor são os previstos no art. 468º. Porque a gestão é regular, é
indiferente que o dono do negócio proceda à aprovação do negócio.
A gestão é não representativa. Os efeitos produzem-se, num primeiro momento, na esfera jurídica do
gestor, mas devem depois ser transferidos para a esfera jurídica do dono do negócio.
Diz-se no enunciado que D é um fiador na compra da tela Vieira da Silva. Portanto, existe aqui uma garantia
especial pessoal. Mas A não poderia livremente convencionar com C a existência desta garantia porque a
vontade de prestar fiança tem de ser expressa e tem de ser declarada pela forma exigida para a obrigação
principal (628º, nº1). Não é possível criar obrigações na esfera jurídica alheia.
Contudo, mesmo que considerássemos que D é fiador da compra, C só poderia exigir-lhe o pagamento
quando esgotasse todas as possibilidades de satisfazer o crédito através do património de A (benefício da
excussão prévia).
Se A deixou de pagar uma das prestações, as restantes vencem-se imediatamente de acordo com os artigos
781º e 934º. É A quem tem a obrigação de pagar perante o C. A tem direito a ser reembolsado pelo B.
Se A incorreu em mora, então terá de pagar juros moratórios. Porém, como o dono do negócio já voltou, a
partir deste momento é ele quem deve assumir o pagamento dos 4000€ e dos juros moratórios. A partir do
momento em que B regressou, a sua recusa em assumir as obrigações é ilícita (1182º). Se A tiver de pagar
juros moratórios, estes serão restituídos por B.
Assim, não há interrupção injustificada da gestão (466º).

b) Entretanto, C incendeia a galeria para receber uma indemnização do seguro, tendo ardido o
quadro de Vieira da Silva.
R: A obrigação tornou-se impossível por causa imputável ao devedor, pelo que este é responsável como se
faltasse culposamente ao cumprimento da obrigação (801º, nº1).

Tendo a obrigação por fonte um contrato bilateral, o credor, independentemente do direito à indemnização,
pode resolver o contrato e, se já tiver realizado a sua prestação, pode exigir a restituição dela por inteiro
(801º, nº2).

Assim, C responde perante A e depois este transfere os direitos que adquiriu para B.

O facto de C receber uma indemnização do seguro é relevante para efeitos da aplicação do art. 794º. A pode
exigir a entrega da compensação que fosse paga a C pela seguradora.

43- A pretende intentar uma ação com fundamento em enriquecimento sem causa.
a) Com vista a ser reembolsado dos 100.000€ que entregou a B, como pagamento de um
apartamento que lhe comprou, por escrito particular.
R: Há um contrato, mas este é nulo por falta de forma (875º + 220º). Se o contrato é nulo, deve verificar-se a
restituição de tudo aquilo que foi prestado (289º). Por isso, A tem direito a receber de volta os 100.000€, por
força da nulidade e não por força do regime do enriquecimento sem causa porque este é de natureza
subsidiária (474º).

b) Contra C, a quem emprestou, há 24 anos, 2500€, cuja devolução ainda não conseguiu obter.

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R: Não há enriquecimento sem causa, trata-se de um contrato de mútuo. Mesmo que existisse, a obrigação
está prescrita (482º + 309º). A obrigação converteu-se em obrigação natural.
O regime do enriquecimento sem causa é subsidiário (474º) e, dado que a obrigação, neste momento, já é
natural, o regime a aplicar é o regime da obrigação natural, que não é possível exigir judicialmente.

c) A conseguiu agora identificar D, como autor do furto do seu automóvel, ocorrido há 40 meses. Por
sua vez, a seguradora X, com idêntico fundamento, exige de A o reembolso dos 25.000€, pagos a
título de indemnização pelo furto do carro agora recuperado.
R: No momento em que a compensação foi paga, ela era devida. Por isso a deslocação patrimonial, numa
fase inicial, tem uma causa (a verificação de um facto que nos termos do contrato desencadeia esta
consequência).
Quando o carro aparece, há duas alternativas: ou o contrato diz aquilo que as partes devem fazer ou nada
diz e aplicamos o regime do enriquecimento sem causa.
Na primeira hipótese, aplicamos aquilo que o contrato dispõe, porque o regime do enriquecimento sem
causa é de natureza subsidiária (474º).
No caso de o contrato nada dizer, aplicamos o regime do enriquecimento sem causa porque algo foi
recebido por virtude de uma causa que deixou de existir (473º, nº2).

d) O mesmo exemplo da alínea anterior, mas suponha agora que, entretanto, A adquiriu outro carro
com os 25.000€ que recebeu.

R: O dinheiro, que é um bem ultra fungível, transformou-se numa coisa. Mas o objeto da restituição continua
a ser dinheiro. A questão da conversão do bem para determinar o valor correspondente só releva se a
conversão for de uma coisa para dinheiro ou se for de uma coisa para outra coisa.

e) No último natal, por engano, o primo de A entregou na residência de E, seu vizinho, 4 garrafas de
whisky, no valor de 200€, destinadas a A e que E consumiu de imediato. A, habitual consumidor de
whisky barato, pretende reagir contra E, que alega nada dever, já que “só bebe quando não paga”.
R: Assumamos que estamos perante uma doação. A doação pressupõe a entrega da coisa.
Houve enriquecimento, o enriquecido acedeu a 4 garrafas de whisky, que consome.
Há erro sobre a pessoa do declaratário (251º). Por isso, o negócio é anulável se verificados os pressupostos
do art. 247º. Logo, não se aplica o regime do enriquecimento sem causa, porque este é de natureza
subsidiária (474º). Aplica-se o artigo 289º que fala sobre os efeitos da anulabilidade: deve ser restituído tudo
o que tiver sido prestado. Como a restituição em espécie não é possível porque o bem foi consumido, E deve
restituir os 200€ a A.

f) Contratado por F, pelo preço de 1500€, para pintar o exterior do seu armazém, A enganou-se e
procedeu à pintura do seu armazém contíguo, propriedade de G, que assim, de imediato,
dispensou os serviços de H, a quem iria pagar 2000€ para proceder a idêntica tarefa. O armazém
de G ficou valorizado em 1750€.
R: Há enriquecimento sem causa.

A cumpriu perante terceiro, por isso aplicamos o artigo 476º, nº1. Daí resulta que G tenha de restituir F nos
termos do artigo 479º.

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Nos termos do artigo 479º temos de determinar o valor correspondente de acordo com os dois limites: a
medida do enriquecimento e o que ele despenderia, em condições normais, para aceder a este
enriquecimento. Mas neste caso em concreto, devemos substituir o segundo limite por outro que avalia
aquilo que o enriquecido deixou de despender para aceder ao enriquecimento: seriam 2000€, porque
sabemos que G iria obter este resultado

De acordo com a teoria do duplo limite tradicional, a restituição seria 1500€ (medida do empobrecimento).

g) A assumiu a posição de fiador, garantindo uma dívida de 5000€, contraída por I perante J, com
vencimento em 31 de outubro. No início de novembro, A pagou os 5000€ a J quando este lhos
exigiu, invocando que I se recusava a cumprir.
R: Nem sequer há enriquecimento porque J não ficou melhor por este facto, recebe aquilo que tinha a
receber nos termos do seu direito.
I também não enriqueceu porque continua obrigado a prestar os 5000€, mas agora perante um novo credor,
A, por efeito de uma sub-rogação legal (644º).

h) Por escrito assinado, A mutuou a L 1000€, com juros, a restituir a 1 de julho. Passados tempos, ao
consultar o texto contratual, A, que sofria de grave miopia, leu 1 de junho, procedendo assim
nesta data à restituição.
R: A obrigação de restituição foi cumprida antecipadamente, por isso aplicamos o nº3 do art. 476º. Só há
direito à restituição se o erro for desculpável e na medida daquilo que o enriquecido enriqueceu por efeito
do cumprimento antecipado.

i) M, ignorando que o terreno Y pertencia a A, procedeu aí à plantação e corte de eucaliptos, que


veio a vender por 25.000€, causando, com isso, danos no imóvel no valor de 5000€. O valor de
mercado da utilização do terreno, para efeitos idênticos, ronda os 4000€.
R: Não podemos aplicar o regime do enriquecimento sem causa porque existe um outro regime aplicável
(porque o enriquecimento sem causa é de natureza subsidiária – 474º), em virtude de existir dano: a
responsabilidade civil.
Não encontramos no OJ uma causa que permita ao M aproveitar o terreno do A e para esta situação a lei
não consagra um regime para aplicar, pelo que estão preenchidos os pressupostos para aplicar o
enriquecimento sem causa.
De acordo com o artigo 479º teremos de determinar a medida da compensação, tendo em conta os dois
limites: a medida do enriquecimento do enriquecido e aquilo que ele teria que despender para aceder
àquele enriquecimento. Neste caso, o menor dos valores é 4000€, porque é o valor da utilização do terreno
para efeitos idênticos, portanto, é este o valor correspondente da restituição.
Nota: os 5000€ do dano nunca podem corresponder ao empobrecimento do empobrecido, porque estes
serão ressarcidos ao abrigo do regime da responsabilidade civil.
A subsidiariedade do enriquecimento sem causa não invalida a possibilidade de serem aplicados outros
regimes em simultâneo com o regime do enriquecimento sem causa, como é o caso.

j) N, utilizando um pequeno avião, sobrevoou um palácio pertencente a A, tirando várias fotografias


ao edifício, comercializando-as, mais tarde, através da venda de calendários de parede.

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R: Ninguém pode tirar proveito económico de um bem alheio. Portanto há enriquecimento e esse
enriquecimento não tem uma causa.
O regime aplicável não pode ser o da tutela dos direitos de personalidade porque o que foi fotografado foi
um edifício. Também não pode ser aplicado o regime da responsabilidade civil porque não há danos. Assim,
vamos aplicar o regime do enriquecimento sem causa a título subsidiário (474º).
De acordo com o artigo 479º teremos de determinar a medida da compensação, tendo em conta os dois
limites: a medida do enriquecimento do enriquecido e aquilo que ele teria que despender para aceder
àquele enriquecimento.

k) Sem o consentimento de A, conhecido apresentador de televisão, Q tirou-lhe algumas fotografias,


que veio a utilizar numa campanha publicitária de refrigerantes, produzidos por uma empresa de
que é titular.
R: Eventualmente, neste caso, existiram danos. E quanto aos danos, aplicaríamos o regime da
responsabilidade civil. Não temos informação se houve ou não danos.
Quanto ao resto, vamos aplicar o enriquecimento sem causa: Q teve um enriquecimento injustificado pelo
uso da imagem de A na campanha publicitária.

l) P atravessou toda a cidade de Lisboa, viajando num autocarro da empresa de A, pensando tratar-
se de um serviço gratuito, oferecido pela Câmara Municipal. Quando foi intercetado por um fiscal,
no momento em que já saia do veículo, P recusou-se a pagar o bilhete.
R: Não há enriquecimento sem causa. Trata-se de um negócio em que é dispensada a aceitação (234º). Se o
OJ dispensa a aceitação, torna-se irrelevante o erro do declarante.

m) A comprou, por 150.000€, uma vivenda a Q, que, no dia seguinte, a vendeu a R, que registou de
imediato a aquisição. O valor de mercado do imóvel ronda os 160.000€, preço pago por R.
R: O Q enriqueceu (vendeu 2x a mesma coisa). Não há causa justificativa para esse enriquecimento porque
quando Q está a vender o imóvel pela 2º vez, está a vender um bem alheio.
Mas aqui não se aplica o regime do enriquecimento sem causa, porque existe dano. Q violou o direito de
propriedade de A, pelo que o regime aplicável é o da responsabilidade civil.

n) A procedeu à pintura da casa arrendada que habita, propriedade de S. Obra essa que, embora não
imprescindível, valorizou o imóvel em 1000€. Atingido o termo do contrato, S entende nada dever
a A, que gastou 500€ na pintura, tanto mais que esta foi realizada contra a sua vontade expressa.
R: Há um enriquecimento de S, o seu património valorizou 1000€.
Para saber se este enriquecimento sem causa, teríamos de ver o contrato de arrendamento ou a lei que lhe
é aplicável e saber se existem disposições sobre esta questão. Se sim, teríamos de aplicá-las. Ex: o contrato
tinha uma disposição que diz que o arrendatário tem autorização para realizar trabalhos de manutenção,
sendo que o trabalho passava a integrar o imóvel sem que tivesse direito a qualquer compensação – haveria
causa justificativa.
Não existindo disposições sobre a questão no contrato de arrendamento nem na lei aplicável ao
arrendamento, então há enriquecimento sem causa.

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o) Crendo pertencer-lhe, por erro desculpável, T retirou areia do terreno de A, no valor de 4500€, não
provocando qualquer dano no imóvel. T vendeu, por 2500€, metade da areia a U. seguidamente,
doou a outra metade a V, empreiteiro que a utilizou para ultimar uma obra, poupando assim 500€,
correspondentes ao valor da areia de péssima qualidade que costumava adquirir. Desconhece-se
se, à data das alienações, T já teria sido alertado para o facto de a areia provir da propriedade de
A.
R: T teve um enriquecimento sem causa justificativa. Não há no OJ nenhum outro instituto que possa ser
aplicado, por isso aplicamos o regime do enriquecimento sem causa.
É preciso ter em conta que T procedeu a duas alienações: uma a título gratuito e outra a título oneroso.
Relativamente à venda da areia:
- T enriqueceu 2500€;
- O investimento numerário é 2250€ (valor correspondente à metade da areia vendida).
Logo, a medida do valor correspondente a restituir é 2250€.
Relativamente à doação da areia, o enriquecimento é 0. Por isso, de acordo com o artigo 481º, nº1, temos
de olhar para a perspetiva do adquirente (V): não sabemos a medida do seu enriquecimento, mas sabemos
que o valor do investimento necessário que teria que fazer para aceder o enriquecimento são 500€. Por isso,
neste caso, o valor correspondente nunca excederá os 500€.
No enunciado diz-se que se desconhece, à data das alienações, se T já teria sido alertado para o facto de a
areia provir da propriedade de A. Isto é relevante para efeitos da aplicação do artigo 481º.
Se a alienação onerosa tivesse ocorrido depois da verificação do primeiro dos factos a que faz referência o
art. 480º, T teria que pagar os 2250€ + juros.
Se a alienação gratuita se tivesse verificado depois da verificação do primeiro dos factos a que faz referência
o art. 480º, T teria de pagar 2250€ (corresponde ao valor do seu enriquecimento no momento em que ele é
medido) e responde também nos termos do art. 480º.
Sempre que desconhecemos se já se verificou o primeiro dos momentos a que faz referência o art. 480º, o A
tem o ónus da prova relativamente a provar que T já tinha conhecimento de que a areia pertencia a um
terreno seu (342º). Não conseguindo provar, vamos aplicar o regime do enriquecimento sem causa como se
T não tivesse conhecimento.

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