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1

1 - INTRODUÇÃO .................................................................................................. 4

2 - CAPÍTULO 1 ................................................................................................... 13

2.1 – Método e metodologias ................................................................................................................... 13

2.2 – Percurso teórico................................................................................................................................ 15


2.2.1 – Espaço: produto social ........................................................................................................... 15
2.2.2 – Paisagem urbana, globalização e urbanização................................................................. 19
2.2.3 - Bairro: ordem próxima e ordem distante. ........................................................................... 22

3 - CAPÍTULO 2 .................................................................................................. 26

3.1 – Velha ordem, nova ordem............................................................................................................... 26

3.2 - A cidade concebida. .................................................................................................................. 29

3.3 – “Velho” trabalhador, nova ordem. ........................................................................................ 33

3.4 – “os olhos dos pobres”............................................................................................................. 36

4 – CAPÍTULO 3 .................................................................................................. 40

4.1 - A Vila .................................................................................................................................................... 40

4.2 - A Vila. Vila? ........................................................................................................................................ 41

4.3 – A “ocupação” consentida e os coronéis da Vila ...................................................................... 44

4.4 – A mulher “ferroviária” e a paisagem social ............................................................................... 49

4.5 – Autonomia e a natureza do trabalho ferroviário ....................................................................... 50

4.6 – O lúdico na vida da Vila: futebol e festas de rua ...................................................................... 52

4.7 – Os dois clubes da Vila ..................................................................................................................... 56

4.8 – A Vila: contradições e conflitos atuais........................................................................................ 59

4.9 – A duplicação da Rua Gustavo da Silveira. ................................................................................ 64

5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... 65

BIBLIOGRAFIA.................................................................................................... 66

ANEXOS .............................................................................................................. 69

Entrevista com A SRª. Conceição Batista Vieira, 79, realizada em 29/09/2006. ....................... 69

Reportagem do jornal “O tempo” de 27 de junho de 2006. ............................................................. 72

Legislação municipal sobre A Vila Edgard Werneck......................................................................... 73


2

Matéria do jornal “O Estado de Minas” de 6 de fevereiro de 2006. ............................................... 90


3

RESUMO

NESTE TRABALHO, DEBRUCEI-ME SOBRE UMA PORÇÃO DA CIDADE DE


BELO HORIZONTE, SITUADA NA REGIÃO LESTE, DENOMINADA AQUI POR
VILA EDGARD WERNECK.
PARTINDO DA REALIDADE PRESENTE EM SUA COMPLEXIDADE,
QUESTIONEI A EXISTÊNCIA DA VILA ENQUANTO BAIRRO. PROCUREI
IDENTIFICA-LA NA TOTALIDADE DA CIDADE DE BELO HORIZONTE, AS
RELAÇÕES E CENTRALIDADES QUE MANTEVE E MANTEM COM A CIDADE,
QUE ME PERMITISSE ENTENDER SUA SOCIABILIDADE DEFINIDORA NA
NAS SUAS RELAÇÕES E PRÁTICAS ESPACIAIS.
NESTE MOVIMENTO, A VILA SE MOSTROU. O PROCESSO DE
URBANIZAÇÃO DA CIDADE DE BELO HORIZONTE PRODUZIU FORMAS E
TEXTURAS NA METRÓPOLE, QUE DESITEGRA AS ESPACIALIDADES DA
VILA, TRANSFORMANDO O ESPAÇO EM ESPAÇO HOMOGENEO. PARA SE
PERCEBER ESTES PROCESSOS É NECESSÁRIO COMPREEDE-LOS EM
UMA ESCALA MAIOR, NA SUA TOTALIDADE.
4

1 - Introdução

DESABAR

Desabava
Fugir não adianta desabava
por toda parte minas torres
edif
ícios
princípios

muletas
desabando nem gritar
dava tempo soterrados
novos desabamentos insistiam
sobre peitos em pó
desabadesabadesabadavam
As ruínas formaram
outra cidade em ordem definitiva.
Carlos Drummond de Andrade. As impurezas do branco. 1973

Salta aos olhos do observador que passa pelo Bairro Instituto


Agronômico, uma porção que tem como destaque o arruamento orgânico, com
ruas que se apresentam sem um padrão de simetria definido, com larguras
diversas, porém delgadas, que vão afunilando ou alargando, dependendo do
sentido no qual se caminha ou da orientação que se toma. Algumas terminam em
becos, outras são bruscamente interrompidas pela linha do metrô de superfície
(trem metropolitano), cujos trilhos são cercados por altas estacas de concreto,
dando forma a um interminável, esguio e sinuoso muro, que limita este fragmento
do bairro Instituto Agronômico pelo flanco leste.
O parcelamento dos lotes também chama a atenção do observador: não existe
um padrão tanto em relação às formas, (quase todos os muros construídos,
quando se encontram desconhecem o ângulo reto), quanto às áreas dos lotes,
que chegam a ter uma relação de 12 vezes entre o menor e o maior, variando
entre 50m² e 600m².
5

MAPA I – REGIÃO LESTE DE BELO HORIZONTE

Mapa cartográfico de parte da região leste de Belo Horizonte, composta por bairros que compõem
a Regional Leste - Região administrativa da PBH -, mostrando a Vila Edgard Werneck e os bairros
no seu entorno.
FONTE: PRODABEL (adaptado por Geraldo JF Mello)
A diversidade das áreas construídas acompanha as variações no
tamanho dos lotes, possuindo as construções, em sua maioria, um padrão
popular. Algumas poucas com afastamento frontal, sendo que uma parte
significativa não recebeu acabamento externo, expondo na falta do reboque, as
tramas e arranjos (i)regulares dos tijolos avermelhados. Poucos prédios, muitas
casas.
6

MAPA 2 – VILA EDGARD WERNECK EM 1982

Planta cadastral da Vila Edgar Werneck, elaborada pela PBH, e aprovada pelo decreto municipal
4.321 de 10/05/1982
FONTE: PRODABEL
7

Esta parte “visível” da paisagem urbana aguça o olhar do observador, que


fica ainda mais curioso quando, ao buscar aumentar sua escala de observação
para além dos limites do fragmento ora descrito, constata a singularidade da
paisagem observada, que tem como contraponto os bairros no seu entorno.

Ilustração 1 - Beco da vila Edgard Werneck (foto do autor. 05/09/2006)

Nestes, confrontados com a porção que acima descrevemos, verificamos


a regularidade dos arruamentos, o que comprova a ação e a interferência dos
planejadores e urbanistas. Ali as ruas são bem traçadas, os lotes (em sua
maioria) têm suas áreas padronizadas, as casas contam com um padrão de
acabamento nitidamente superior à porção objeto de nosso estudo, a qual
doravante denominarei de “Vila Edgard Werneck”, igualmente conhecida pelos
moradores da região leste da cidade de Belo Horizonte como “Vila dos
Ferroviários”.
A observação da paisagem urbana foi a maneira como estabeleci minha
primeira aproximação com esta porção/fragmento do Bairro Instituto Agronômico,
a “Vila Edgard Werneck”, que apresento agora como objeto do estudo que esta
pesquisa propõe. Conforme observa CARLOS, 1996 (p. 21) "a paisagem
urbana, enquanto momento instantâneo que surge à primeira vista aos olhos do
8

pesquisador, revela relações, ações, que iniciam a investigação sobre a cidade”.


Discorrendo sobre a forma urbana, Lefebvre afirma que

"A abundância, a agitação, tudo aí se distingue. Os


elementos evocados, convocados, reencontram-se. Tudo é
legível. O espaço urbano se exibe com transparência. Tudo
significa, mesmo se os significantes 'flutuam'. Tudo tem relação
com a forma 'pura', sendo conteúdo na e dessa forma. A
ordenação e a forma tendem a confundir, ainda que essa forma
seja simultaneamente percebida, concebida, surgida (sonhada).
Mas se (os sujeitos, individuais ou coletivos, que também estão na
realidade urbana e a constituem e nela se reúnem da mesma
maneira que as coisas) percebe que essa transparência
decepciona e engana. A cidade, o urbano, também é o mistério, o
oculto. Atrás da aparência, e sob a transparência,
empreendimentos são tramados, potências ocultas atuam, sem
contar os poderes ostensivos, como a riqueza e a polícia1."

Caminhando no mesmo sentido e partilhando de uma opinião que ratifica


a citação acima, SILVA2 afirma que... ”A paisagem possui uma legalidade como
dado, que o “ver” diferencia ou não“..., e que, penso eu, pode indicar uma
unidade escalar de análise espacial, neste caso a Vila Edgard Werneck.
A partir destas observações, algumas questões começam a povoar o
imaginário do pesquisador, revelando-me o objeto do estudo, ou seja, o processo
de urbanização e a gênese da cidade de Belo Horizonte como metrópole,
partindo das práticas espaciais do bairro/fragmento que descrevi, da sua
historicidade e das relações que este fragmento manteve, durante este processo,
com as estruturas de poder e com os interesses do capital e do estado,
representados aqui nas suas instituições. Estudo que busca aumentar as
possibilidades de leitura e análise da produção do real ora investigado, através de
caminhos de interpretação, de intervenção que privilegiem o social e o humano.

1
LEFEVRE, Henri. A revolução urbana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. p. 113
2
“Na contemplação (a observação) o estético é momento do “ver” a forma que, de qualquer modo, já é
espaço-tempo vivido. A paisagem possui uma legalidade como dado, que o “ver” diferencia ou não. E há que
considerar a velocidade. E, com ela, os fragmentos. Por isso, a paisagem não é o todo, mas pedaços do todo
que a reificação do olhar gasto não identifica.” SILVA, Armando Correa. A aparência, o ser e a forma (
Geografia e método ). Geographia, Revista do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFF.
Niterói/RJ, UFF/EGG Ano V – No. 3, 2000. Disponível em
<http://www.uff.br/geographia/rev_03/Armando%20Correa%20da%20Silva.pdf.>. Acesso em 17 janeiro
2002.
9

Orbitando em torno desta questão se configuram outras que nortearão


este estudo: Será que em algum momento da história da Vila, esta se configurou
como um bairro no sentido proposto por Lefebvre (1978: 201)) de uma “unidade
sociológica relativa”3? Se isto se comprovar, quais são as centralidades que
deram a amálgama, produzindo o sentimento de identidade dos moradores da
Vila, e mais: como a singular espacialidade da vila se é representada nas práticas
sociais destes moradores?
Em relação à historicidade do bairro e a relação estabelecida (ou não)
com a política (poder institucionalizado), por que o Estado, através de seus
administradores e urbanistas, manteve-se ausente por décadas (se não
totalmente ausente, mas de forma determinante) do planejamento e da
conformação urbanística da Vila? Porque a vila foi privada durante décadas do
instrumental técnico e da maioria dos equipamentos urbanos pertinentes à época,
e que eram propiciados aos bairros do entorno? A ausência do Estado pode ser
considerada, também, como uma política de Estado , no sentido de representar
os interesses historicamente determinados da elite, omitindo-se em relação aos
interesses da classe trabalhadora, representados ali pelos moradores da Vila?
Como os interesses do capital, representado de forma majoritária pela Estrada de
Ferro Central do Brasil (EFCB), se reproduziam nas relações sociais e como as
relações sociais se configuravam nas espacialidades da Vila?
Outra questão que se apresenta são as transformações por que passa a
Vila nas últimas duas ou três décadas. Como mostrarei no decorrer da pesquisa,
a Vila sofreu poucas transformações no decorrer de sua história. Porém, nos
últimos 25 anos estão a ocorrer grandes intervenções no seu espaço, que se
apresentam tanto na forma (paisagem), quanto nas práticas sociais. Dois fatos
históricos balizam estas alterações: o primeiro acontece com a regularização
fundiária (1976), e envolve vários desdobramentos que aqui analisarei. O
segundo é recente e faz parte de um plano de ação governamental, um projeto

3
“El barrio es una unidad sociológica relativa, subordinada. que no define la realidad social, pero que es
necesaria. Sin barrios, igual qué sin calles, puede haber aglomeración, tejido urbano, megalópolis. Pero no
hay ciudad. El espacio y tiempo social dejan de ser orgánicos y organizados. Coinciden con el espacio
geométrico; pero son sólo rellenos.”. LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Ediciones
Península, 1978, p. 201
10

urbanístico que envolve Belo Horizonte como um todo, mais especificamente sua
parte nordeste, com vistas a reordenar espacialmente o “processo de
desenvolvimento” da RMBH para o eixo norte da capital.

Ilustração 2 - Rua Conselheiro Rocha, Bairro Horto, principal via de acesso ao Bairro Instituto
Agronômico, vendo-se ao fundo a Estação Horto e o metrô. (foto do autor. 16/09/2006)

Neste plano de ação dos governos estadual e municipal, várias


intervenções acontecem simultaneamente no município de Belo Horizonte (Linha
Verde, extensão do Metrô, continuação da Avenida dos Andradas, etc.). Mas
uma, especificamente, mudará de forma radical o fluxo de pessoas e mercadorias
na Vila Edgard Werneck: a abertura de uma avenida com pista dupla e canteiro
central, que a cortará no sentido leste/oeste, quase ao meio do núcleo espacial
que compreende a Vila. De forma geral, conforme Carlos,

“... a ação do estado no espaço vai produzir a infra-estrutura


necessária à nova atividade produtiva; é assim que se abrem
novas avenidas cortando bairros antigos, ampliando-se a malha
viária estendendo as linhas de metro assegurando o fluxo
contínuo no espaço. É assim que o espaço revela em seu
processo de produção interesses divergentes que encontram uma
"unidade" no estado que revela um comando, posto que tem a seu
cargo a produção de grandes conjuntos e obras de infra-estrutura
que, para além de nomear e qualificar espaços, redefinem o seu
sentido. Por outro lado o estado tem a seu cargo, a orientação e
definição de metas que planificam o espaço (tanto no plano geral
11

da sociedade quanto no plano micro do bairro dentro da cidade) e


com isso interfere e delimita os umbrais da vida cotidiana, através
de estratégias de atuação, que exerce seu poder através do
espaço. É no espaço que o poder ganha visibilidade através de
intervenções concretas; é por isso que as contradições no
processo eclodem no plano institucional. No contexto do espaço
planejado, manipulado que aparece como objetivo e neutro,
esconde-se seu sentido político enquanto meio de dominação4.”

É neste sentido que se faz imperiosa uma questão: será que estas
mudanças, esta grande intervenção representará a destruição, o
desaparecimento do que resta da Vila Edgard Werneck? Se Isto significa a
desestruturação, o sucumbir das relações identitárias e do espaço socialmente
construído, de que maneira os moradores percebem a chegada desta nova
“ordem” que, como justificativa, traz em seu bojo o aprimorado discurso
ideológico do progresso e do desenvolvimento.
Em resumo, decifrar a língua, o(s) código(s) do espaço inscritos nos
caminhos, nas paredes, nas ruas, nos becos, nos monumentos, nas distâncias
(lugar do tempo), nos ângulos, nas manifestações culturais, na expressão de
uma (singular) prática espacial, produto e produtor de relações sociais
espacializadas na/da Vila Edgard Werneck, é a isto que me proponho, sabedor
antecipado da monumentalidade da obra a ser pesquisada e da impossibilidade
da sua total compreensão, posto que é processo, e que nele estou imerso.

*****
A monografia está dividida em três capítulos: no primeiro capítulo
buscarei explanar, em linhas gerais, o arcabouço teórico conceitual que servirá,
durante todo o texto, para contextualizar o estudo, com o intuito de dar corpo e
consistência à argumentação. Na primeira parte, tratarei da “produção do espaço”
e da reprodução das relações de produção, tendo como fio condutor a seguinte
pergunta: Como o capitalismo (o modo de produção capitalista) conseguiu
sobreviver (e se fortalecer) às inúmeras crises pelas quais passou? Ou, conforme
Lefebvre (1978, p. 224) “As gerações passam, os homens mudam, as relações
estruturais permanecem. Como isto é possível? Onde se produz a reprodução?”.
4
CARLOS, Ana Fani A.. São Paulo hoje: as contradições no processo de reprodução do espaço. Scripta
Nova. Barcelona: Universidad de Barcelona, 1 de maio de 2001, vol. V, nº 88. Disponível em
<http://www.ub.es/geocrit/sn-88.htm>. [acesso em: 23 fevereiro 2005].
12

Na segunda parte deste capítulo tratarei do conceito de bairro, de sua


contextualização histórica e de diferentes abordagens sobre o conceito a partir de
autores distintos. Na terceira parte, trarei a discussão das “vilas operárias” sob o
prisma da “imobilização da mão de obra” como estratégia de ordenação e coerção
do capital sobre o trabalho, tendo como pano de fundo o processo de divisão do
trabalho.
O segundo capítulo tem como tema a cidade de Belo Horizonte, sua
gênese e inserção no processo de urbanização; a trajetória da sua realização
como “cidade” e como “vida urbana”: Da cidade planejada (concebida) à cidade
“vivida” e seus matizes. O difícil processo de afirmação de Belo Horizonte como
centro do poder no estado, as contradições e os interesses que se apresentaram
e se apresentam como constituintes desse movimento, que se evidenciou tanto
no todo, quanto na Vila Edgard Werneck. Isto deverá ser comprovado no
processo de incorporação/inserção da Vila na cidade de Belo Horizonte.
O terceiro capítulo apresenta a Vila Edgard Werneck, sua paisagem, suas
centralidades, sua história, a produção do espaço nos seus vários planos, ou seja,
o concebido, o percebido e o vivido. Permitir-me-ei também uma breve descrição
do método e da metodologia de pesquisa (consulta a documentos históricos,
contratos, legislação, mapas, jornais, fotografias de época e entrevistas com
moradores e usuários do bairro) utilizados.
13

2 - Capítulo 1
2.1 – Método e metodologias

Esta pesquisa estuda o processo de urbanização e a produção social do


espaço da/na porção do Bairro Instituto Agronômico, denominada, aqui, Vila
Edgard Werneck, e, por conseguinte, a cidade de Belo Horizonte como totalidade,
movimento ampliado deste processo. Para isto, utilizo na pesquisa o método
proposto por Henri Lefebvre designado regressivo-progressivo5. A escolha do
método é fruto da minha reflexão sobre a relação espaço/sociedade, ou seja, uma
relação histórica e dialeticamente determinada, na qual ambos são, da relação,
produto e produtor, ora simultaneamente, ora alternadamente, de forma conflitual,
contraditória e em contínuo movimento. Tentarei, de resumidamente descreve-lo
e demonstrar sua importância para esta pesquisa.
O método foi desenvolvido por Lefebvre para pesquisas na área de
sociologia rural, na década de 1950. Lefebvre critica6 alguns métodos
comumente utilizados à época, como o etnográfico, que corre o risco de
naturalizar fatos sociais; o da “arqueocivilização”, que além deste perigo, se
fundamenta na (falsa) idéia da oposição entre o meio natural e o meio técnico; a
teoria histórico-cultural, que substitui o estudo dos fatos (sociais) por um
procedimento hipotético-dedutivo; o monográfico (muito utilizado pela geografia
no século XX), que ao usar a descrição (descritivo), pode cometer o erro de
perder-se nos detalhes, em detrimento do conjunto, da totalidade; e por fim faz
critica ao método tecnológico, limitado à tecnologia e aos modelos.
Desta forma Lefebvre propõe o método regressivo-progressivo, que busca
a apreensão do real como totalidade, a partir do materialismo histórico-dialético, e
que prevê três momentos distintos e complementares: o primeiro momento,
descritivo, no qual o pesquisador, já de posse de informações teóricas, deverá
reconstituir a “diversidade das relações sociais, identificar e descrever o que vê”
(MARTINS, 1996, p. 20). Lefebvre o apresenta como momento de
“Observación, pero informada por la experiencia y una
teoría general. En primer plano: la observación sobre el terreno.

5
O método está descrito em LEFEBVRE, H. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Península, 1978.
6
LEFEBVRE, H. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Península, 1978, p.71.
14

Utilización prudente de las técnicas de encuesta (entrevistas,


cuestionarios, estadísticas)7”.

O segundo momento é designado analítico-regressivo e Lefebvre afirma


que é o momento de
“Análisis de la realidad escrita. Intento de fecharla
exactamente (para no contentarse con una relación de
«arcaísmos» sin fecha, sin comparación unos con otros).8”.

Para melhor explicar e esclarecer a passagem recorremos à José de


Souza Martins (MARTINS, 1996, p. 20), que observa que neste momento “... a
realidade é analisada e decomposta. É quando o pesquisador deve ...datá-la.
Cada relação social tem sua idade e data ...De modo que no vivido se faz de fato
a combinação prática de coisas, relações e concepções que de fato não são
contemporâneas...”. Entendemos que neste segundo momento partimos do
presente para decifrar o passado, para desvendá-lo, pois conforme Marx9, “O
atual permite compreender o passado, e a sociedade capitalista as sociedades
anteriores, porque envolve as categorias essenciais destas”. Portanto, o que
víamos como moderno e contemporâneo retirado o véu da história, é
reencontrado nas formas remanescentes de relações e concepções sociais
consideradas “arcaicas”10, permanências de formas pretéritas no real.
O terceiro momento é histórico-genético e propõe o

“Estudio de las modificaciones aportadas a la estructura en


cuestión, una vez fechada, por el desarrollo ulterior (interno o
externo) y por su subordinación a estructuras de conjunto. Intento
de una clasificación genética de las formaciones y estructuras, en
el marco del proceso de conjunto. Intento, por tanto, de regresar a

7
LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Ediciones Península, 1978, p. 71.
8
ibidem p. 70
9
Ibidem. p. 17
10
Lefebvre, no seu “Lógica formal, lógica dialética” ajuda com alguns exemplos, a entender a permanência
das formas passadas no real presente: “A infância é um "momento" do adulto, ou seja, um antecedente, uma
condição, uma fase, um elemento implicado no caráter atual desse adulto. O adulto é ainda a criança que um
dia foi; e, não obstante, não o é mais, é isso e é outra coisa. A análise deve sempre captar corretamente essa
relação complexa, contraditória, dos momentos entre si e com a totalidade. Afirmamos, por exemplo, que a
Revolução de 1789 é um momento de nossa história. Pode ser reencontrada no mundo atual; ainda atua nele,
mas transformada, ou seja, como um elemento "integrado e modificado pelo todo". A análise deve apreender
e determinar, através de seus "momentos", cada ser em sua originalidade, cada situação naquilo que a
diferencia de todas as outras.” LEFEBVRE, Henri. Lógica formal/Lógica dialetica. Rio de Janeiro: Editora
Civilização brasileira, 1979, p. 119.
15

lo actual precedentemente descrito, para reencontrar lo presente,


pero elucidado y comprendido: explicado11”.

É no percurso deste movimento que, conforme Lefebvre, 1978 (p. 17), “... O
proceder do pensamento volta até o atual, a partir do passado decifrado,
apreendido em si mesmo”. Acredito que este momento é o da busca da
“totalidade” como movimento de assimilação da realidade. É o momento da
síntese, a que as várias temporalidades (relações sociais historicamente
determinadas em momentos diferentes do processo de produção) são
novamente reunidas no momento presente, esclarecidas e decifradas,
propiciando a apreensão da realidade. É possível que, justamente, nas
contradições não levadas a cabo (e que permanecem em conflito) que possamos
encontrar soluções e possibilidades ainda não elaboradas e ou praticadas.
Conforme a explanação acima, este método parece-me de grande valia
para os geógrafos e suas pesquisas, pois permite a compreensão do real como
totalidade ou, no mínimo, busca este movimento, posto que, conforme Lefebvre,
(1979 p. 119) “não existe análise que penetre no complexo e no-lo apresente de
modo transparente e sem resíduos”. Torna-se claro a impossibilidade da análise
da realidade de forma parcelar, que apenas nega a negação, ou seja, que nega o
momento isolado, o momento que não pode ser explicado pela pesquisa
empreendida. Como o espaço é a concretude do real, uma totalidade, sua
apreensão só pode ser possível a partir de um método que contemple todos os
aspectos e movimentos desta realidade.

2.2 – Percurso teórico


2.2.1 – Espaço: produto social
È difícil definir espaço, principalmente por ser um conceito histórico, que é
elaborado e re-elaborado ao longo da história, pelas várias culturas e
civilizações, por ser fundante da consciência e da representação que o homem
tem sobre ele mesmo enquanto ser social. Milton Santos coloca esta questão (da
difícil elaboração da definição do que seja espaço) analisando-a da seguinte
maneira:

11
LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Barcelona: Ediciones Península, 1978, p. 71
16

"As formas com que se apresenta e o seu conteúdo são tão


variados, que a tarefa de incluir em uma unidade de definição uma
tão grande multiplicidade fatual surge como um obstáculo de
peso, sobretudo porque tanto a terminologia cotidiana como a
própria conceituação estão carregadas das múltiplas acepções
correspondentes aos outros tipos de espaço12.”

Para o pensamento geográfico, o espaço, até recentemente (anos 70),


era elemento passivo da história, ou seja, determinado, neutro. LIMONAD13 faz o
seguinte comentário sobre a questão: “O espaço era visto como um continente ou
um reflexo externo da dinâmica social, que seria neutralizado em termos de sua
interação com os processos sociais e históricos.” Entretanto transforma-se, nestas
últimas décadas, em sujeito da história, elemento ativo, produto das relações
sociais, mas também produtor, principalmente para os geógrafos que se alinham
com os preceitos da corrente conhecida como geografia crítica.
Trato aqui do espaço como instrumento ordenador, como mediador das
relações de poder, como re-produtor das relações de produção, como evidência
concreta das contradições do modo de produção capitalista e como instância
política tanto de afirmação do poder pela burguesia, quanto da sua negação pelo
proletariado.
O espaço, categoria analítica matricial a que recorro no transcurso da
pesquisa, refere-se ao espaço como categoria determinante na reprodução da
estrutura global da sociedade, tendo como fio condutor a reprodução das relações
de produção.
Quando falo de espaço como produto, pressuponho que o espaço é obra
do trabalho materializado, portanto, produto histórico, obra da ação do homem de
domínio sobre a natureza (primeira e segunda natureza), enfim, espaço
produzido, que é resultante das relações que se estabelecem entre o homem e a
natureza, e, no capitalismo (como especificidade histórica), entre o capital e o
trabalho.
Mas o espaço não é somente materialidade, por conseguinte não
reproduz unicamente os meios de produção. O espaço é também o locus da

12
SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova. Da Crítica da Geografia à Geografia Crítica. 1ª edição.
São Paulo: Editora Edusp. 2002. p. 151.
13
LIMONAD, Ester. Reflexões sobre o espaço, o urbano e a urbanização. GEOgraphia. Niterói. UFF.
Ano I. Nº 1. UFF. 1999. p.74.
17

reprodução das relações de produção. Lefebvre fala sobre “lugares apropriados”


que o espaço social encerra:
“O espaço social contém”, ao lhe assinalar os lugares
apropriados (mais ou menos), as relações sociais de reprodução,
a saber, as relações bio-fisiológicas entre os sexos, as idades,
com a organização específica da família – e as relações de
produção, a saber, a divisão do trabalho e sua organização,
portanto, as funções sociais hierarquizadas. Esses dois
encadeamentos, produção e reprodução, não podem se separar:
a divisão do trabalho repercute na família e aí se sustenta;
inversamente, a organização familiar interfere na divisão do
trabalho; todavia, o espaço social discerne essas atividades para
“localizá-las”. 14

O espaço a que nos referimos é espaço de uso, mas também e


principalmente, espaço de troca, ou seja, espaço como mercadoria. A instituição
da propriedade privada da terra no Brasil, nos meados do século XIX, renova e
cria “sobrevida” para esta “arcaica” ( diga-se feudal) concepção da terra. Sérgio
Martins analisa esta questão (da terra como forma de mercadoria) sob o ponto de
vista da renda fundiária, o rentismo, como uma das estratégias do capital
industrial paulistano do começo do séc. XX, ligando-a à reprodução das estruturas
de poder,e abrindo novos horizontes para a apreensão do espaço urbano No
processo de urbanização, a ordem
“...tida como arcaica não foi, a rigor, negada pela ordem
considerada moderna ....pois antes de figurar como
contraposição...nela se aninhou fundamente...A começar pela
forma de mercadoria assumida pela terra, na metade do século
XIX, desvinculando o direito à terra de seu uso efetivo e abrindo,
assim, a possibilidade de apropriação de frações de riqueza
socialmente produzida através da manipulação da renda
fundiária...um outro aspecto que se mantém fusionado e
mutuamente implicado com o rentismo é o da cidadania
desprovida de potência transformadora...pois se presta a uma
assimilação desradicalizada da sociedade civil pelo estado...15”.

Acredito, em simetria com o autor, portanto, que o instrumento da


propriedade da terra é um projeto da burguesia brasileira para a re-produção das
relações sociais de poder, um processo que foi “naturalizado” pelo segmento

14
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. (trad. de Doralice Barros Pereira e Sergio Martins (do
original): La producion de l’espace. 4 ª ed. Paris: Éditions Antrópos. 2000)). Primeira versão: início – fev.
2006.
15
MARTINS, Sergio. Rentismo e autoritarismo: fundamentos seculares de uma metrópole anticidadã.
In Spósito, Maria Encarnação Beltrão (org.). Urbanização e cidades: Perspectivas geográficas. Presidente
Prudente. UNESP. 2001
18

hegemônico da sociedade brasileira, um projeto que atravessa os tempos e se


apresenta como “camisa de força” que entrava o desenvolvimento de novas
relações sociais de produção.
O processo de globalização que a sociedade moderna experimenta nas
últimas três décadas, se realiza a partir de (e como) uma nova dinâmica espacial
que se expressa concretamente no espaço, produzindo transformações tanto nas
formas e paisagens urbanas, que caracterizam as metrópoles, quanto no
quotidiano, no nível do vivido, nas relações de moradia e vizinhança (relações
sócio-espaciais). Um dos elementos (talvez o principal) ordenadores deste
processo é a nova divisão espacial do trabalho característica do modelo de
“acumulação flexível”,16 que sucedeu ao fordismo. Marx, no Livro I d’O capital
assim analisa a divisão do trabalho:
“...A divisão manufatureira do trabalho cria, por meio da análise da
atividade artesanal, da especificação dos instrumentos de
trabalho, da formação dos trabalhadores especiais, de sua
agrupação e combinação em um mecanismo global, a graduação
qualitativa e a proporcionalidade quantitativa de processos sociais
de produção, portanto determinada organização do trabalho
social, e desenvolve com isso, ao mesmo tempo, nova força
produtiva social do trabalho. Como forma especificamente
capitalista do processo de produção social - e sob as bases
preexistentes ela não podia se desenvolver de outra forma, a não
ser na capitalista - é apenas um método especial de produzir mais
valia relativa... Ela desenvolve a força produtiva social do trabalho
não só para o capitalista, em vez de para o trabalhador, mas
também por meio da mutilação do trabalhador individual. Produz
novas condições de dominação do capital sobre o trabalho. Ainda
que apareça de um lado como progresso histórico e momento
necessário de desenvolvimento do processo de formação
econômica da sociedade, por outro ela surge como um meio de
exploração civilizada e refinada17”.(grifo meu).

16
David Harvey descreve assim este novo regime de acumulação, combinado com um modelo específico de
regulamentação político e social: “ A acumulação flexível, como vou chamá-la, é marcada por um confronto
direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de
trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção
inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo,
taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação flexível
envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões
geográficas, criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado "setor de serviços", bem
como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas.” HARVEY, David.
A condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1993. Parte III. p. 140.
17
MARX, Karl . O capital. Crítica da economia política. O processo de produção do capital. Vol. I, Livro
I. Trad. Régis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Nova Cultural , 1988, 3ª ed. p. 273
19

Partindo desta citação faço a seguinte leitura: A divisão do trabalho, que é


a base da produção manufatureira, se expande como uma rede concêntrica, para
fora e alem da fábrica, organizando as unidades de produção em escalas cada
vez maiores, e com isto, determinando a “produção social do trabalho”. O fruto da
(divisão) especialização (do trabalhador) do trabalho elevado à sua maior
potência é a divisão social do trabalho, que encontra sua caixa de ressonância na
cidade, no campo, enfim, no espaço; fragmentando-o, segregando-o. É neste
espaço socialmente produzido que vão se re-produzir as relações sociais de
produção.

2.2.2 – Paisagem urbana, globalização e urbanização


Crise de acumulação no capitalismo: esta é a questão central. E de como a
paisagem urbana e o processo de urbanização, enfim, a produção do espaço está
atrelada a esta crise. Desde que Marx publicou “O capital”, sabemos que o
capitalismo passa por crises cíclicas de superprodução. São crises inerentes ao
modo de produção e engendradas por ele mesmo. Marx analisa no livro III d’O
capital que estas crises se devem à diminuição tendencial da taxa de lucro, em
função do aumento contínuo do capital constante em relação ao capital variável.
Crises estas que delimitam historicamente ciclos de acumulação capitalista ao
seu cabo.
David Harvey (2004, p. 93), afirma que “processos gerais de produção do
espaço são presa de processos de formação e resolução de crises” (de
acumulação). Harvey afirma que os excedentes oriundos da crise (e que ele
denomina de “sobreacumulaçao”, ou seja, trabalho, mercadorias e capital
monetário excedentes), podem ser absorvidos por uma nova ordenação espacial
e temporal do capitalismo. Segundo Harvey
“...a organização de divisões territoriais totalmente novas do
trabalho, a criação de complexos de recursos novos e mais
baratos, de novas regiões como espaços dinâmicos de
acumulação do capital e a penetração de formações sociais
preexistentes por relações sociais e arranjos institucionais
capitalistas(como regras de contrato e formas de gerenciamento
da propriedade privada) proporcionam importantes maneiras de
absorção de excedentes de capital e de trabalho. Essas
expansões, reorganizações e reconstruções com freqüência
ameaçam contudo os valores fixados no lugar (incorporados à
terra) mas ainda não realizados. Trata-se de contradição
20

incontornável e aberta a uma interminável repetição, porque novas


regiões também requerem capital fixo em infra-estruturas físicas e
ambientes construídos para funcionar com eficácia. As vastas
quantidades de capital fixado num lugar agem como empecilho à
capacidade de realizar uma ordenação espacial alhures18.”

Estas “soluções” se configuram como uma estratégia do capital para


continuar hegemônico como modo de produção, mantendo-se a taxa de lucro
(mais-valia) e eliminando possíveis rachaduras (diga-se crises) no processo de
acumulação. Continuando, Harvey afirma que
“... o capital busca perpetuamente criar uma paisagem geográfica
para facilitar suas atividades num dado ponto do tempo
simplesmente para ter de destruí-la e construir uma paisagem
totalmente diferente num ponto ulterior do tempo a fim de adaptar
sua sede perpétua de acumulação interminável do capital. Esta é
a história da destruição criativa inscrita na paisagem da geografia
histórica completa da acumulação do Capital19.”

A eficiência e eficácia destas estratégias dependem do fim das barreiras


geográficas: as fronteiras e aduanas. A mobilidade do capital é, na “acumulação
flexível”, fator determinante para realização do lucro. Isto engendra outro
processo que é o mesmo, mesmo sendo outro: o processo de globalização.
Carlos (2004, p. 31) afirma que as transformações geradas neste processo
expõem contradições que sinalizam para onde caminha o processo de
urbanização; a primeira refere-se à integração da metrópole na economia
mundial, concomitante à desestruturação da vida cotidiana pela fragmentação das
relações sócio-espaciais, ao esvaziamento dos comércios locais e à “expulsão”
dos moradores das ruas pelo veloz e intenso fluxo dos automóveis. A Segunda
contradição diz respeito à questão da propriedade privada do solo, que privilegia o
espaço enquanto valor de troca, em prejuízo ao espaço enquanto valor de uso,
ou seja, a cidade como “negócio”. Em síntese
“Os processos de globalização não ocultam a fragmentação do
espaço, fundamento da segregação da metrópole, tendo como
pano de fundo o processo de desconcentração industrial-
concentração financeira. Neste sentido o processo urbano não
sinaliza um movimento que iria do local ao global, mas uma

18
HARVEY, David. O novo imperialismo. Edições Loyola , S. Paulo, 2004, p. 99.
19
Ibidem, p. 88.
21

articulação de níveis de análise justapostos, tendo a metrópole


como mediação entre eles.20”

Vainer (2003, p. 25-31), numa linha de raciocínio correlata, faz referência


ao “modelo da cidade-empresa-mercadoria”, fazendo alusão à cidade como
negócio. Esta “nova” cidade deve ser administrada por tecnocratas, como que
gerindo suas próprias empresas, ou seja, cidades competitivas, disputando entre
si por mercados. Mercados? Quais mercados? O mercado locacional para
investimentos de capital, em tecnologias; o mercado da qualidade e preços de
serviços: o mercado da mão de obra qualificada, etc. A característica central é
que este mercado é mundial, globalizado. São necessários grandes investimentos
em infra-estruturas e qualificação de mão de obra para “atrair” estes
investimentos, principalmente em cidades periféricas ao grande circuito financeiro,
como Belo Horizonte, com infra-estruturas defasadas pela longa ausência de
investimentos no setor, em função da “ascensão” do neo-capitalismo como
modelo de acumulação vigente.
As grandes instituições financeiras, órgãos internacionais de “fomento”,
agências multilaterais; defendem e aplicam a tese das “cidades competitivas”
como pivô de suas políticas desenvolvimentistas atuais, e este projeto me parece
ter sido encampado pela elite local e regional no poder, para levar adiante seu
projeto político para a cidade de Belo Horizonte e região metropolitana (RMBH).
As “mudanças” produzidas traduzem-se na cidade, na forma urbana, no cotidiano
e no vivido, mais especificamente no plano da cidade e de sua espacialização,
tornadas legíveis nas (e para além das) formas e paisagens.
Os planejadores e urbanistas, entre outros, braços técnicos do novo
“modelo gestão urbana”, de posse de um discurso que tem como pilares a
modernização e a inserção de BH nos grandes circuitos mundiais de turismo e de
prestação de serviço21, além da intenção de afirmar e reafirmar BH como

20
CARLOS, Ana Fani Alessadri, A reprodução da cidade como “negócio”. In Carlos, Ana Fani Alessandri.
Carreras, C.. (org.). Urbanização e mundializaçao. Estudos sobre a metrópole. São Paulo, 2004, p. 31.
21
“Um dos elementos distintivos da chamada “cidade mundial” é a emergência do setor de serviços
altamente especializados, articulando espaços com uma racionalidade e eficiência assentada na
competitividade estabelecida por padrões impostos mundialmente.” CARLOS, Ana Fani Alessandri. São
Paulo hoje: as contradições no processo de reprodução do espaço. Scripta Nova. Barcelona: Universidad
de Barcelona, 1 de maio de 2001 , vol. V, nº 88. <http://www.ub.es/geocrit/sn-88.htm>. [acesso em 23
fevereiro 2005].
22

centralidade, ou “lugar” da imanência do poder regional, coordenam nesta


segunda metade da primeira década do século, várias intervenções urbanísticas
que podem ser observadas nos quatro cantos da cidade.

2.2.3 - Bairro: ordem próxima e ordem distante.


Quais são as possibilidades de apreensão da realidade, quando se
pesquisa esta realidade a partir de uma “parte” deste real? É esta questão que se
coloca quando fazemos a opção por estudar o bairro, retalho do “tecido” urbano,
neste caso, de uma metrópole. Lefebvre se propõe a analisar esta questão22
argüindo se existe no bairro uma unidade de vida social; podendo então ser o
bairro uma unidade escalar “autônoma”, com relações sociais próprias em
referência à cidade. A resposta é taxativa: não! Para Lefebvre
“El barrio es una forma de organización concreta del espacio y del
tiempo en la ciudad. Forma cómoda, importante pero no esencial;
más coyuntural que estructural. Las relaciones del centro urbano
con la periferia son un factor (una variable) importante. Pero no es
el único. El espacio social no coincide con el espacio geométrico;
este último, homogéneo, cuantitativo, es sólo el común
denominador de los espacios sociales diferenciados, cualificados.
El barrio, tal como acabamos de mostrarlo, sería la mínima
diferencia entre espacios sociales múltiples y diversificados,
ordenados por las instituciones y los centros activos. Sería el
punto de contacto más accesible entre el espacio geométrico y el
espacio social, el punto de transición entre uno y otro; la puerta de
entrada y salida entre espacios cualificados y el espacio
cuantificado, el lugar donde se hace la traducción (para y por los
usuarios) de los espacios sociales (económicos, políticos,
culturales, etc.) en espacio común, es decir, geométrico23.” (Grifo
meu)

Acredito que o bairro, no seu processo de formação, carrega contradições e


tempos diversos que também perpassam a cidade. O bairro tem uma riqueza de
diversidade de conteúdos produzidos socialmente (nas proporções e
especificidades que lhe é peculiar) sendo, portanto, representativo da dinâmica
do processo de urbanização da metrópole como totalidade. Conforme Lefebvre, o
único modo de, cientificamente, apreender o bairro, defini-lo territorialmente e o
seu grau de realidade:

22
LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Bairro e vida de bairro Barcelona: Ediciones Península,
1975. p. 195-203.
23
ibidem. p.200-201
23

“...es el que se basa en la ciudad como totalidad y no como


conjunto de elementos o colección de los aspectos (y en
consecuencia en la sociedad como un todo superior a las formas,
a las estructuras y a las funciones) que engloba. Sean cuales
fueren las dificultades metodológicas y teóricas del acceso a la
totalidad y a la globalidad, este proceso es el único aceptable; el
único que evita la inadmisible reducción del conjunto a los
elementos24.”

Portanto, um dos principais aspectos que me levou a escolher o bairro


como uma unidade de análise escalar é a possibilidade de estudar a realidade a
partir de um lugar (o bairro) no qual eu pudesse reunir os vários níveis de
manifestação do espaço social. Não me interesso em analisar somente o
estrutural, nem somente o fenomênico, o simbólico ou o empírico (as práticas
espaciais). Busco o movimento destes três momentos da produção social do
espaço, enquanto simultâneos, sobrepostos, contrapostos. Estes momentos se
afirmam ou se negam, fazendo aflorar as contradições engendradas na produção
do espaço.
Para isto, vejo como condição analisar tanto a ordem distante (estrutura:
instituições, classes, governos), quanto a ordem próxima, ou seja, relações de
vizinhança, de parentesco, das identidades locais. Odette Seabra, em sua tese
de livre docência, comenta sobre estes níveis das práticas espaciais, como
tradução das práticas sociais que resultam na produção social do espaço:
“...primeiro, uma ordem distante, visando sempre racionalizar o
existente, formulada estrategicamente segundo uma lógica
empresarial ou estatista, age sem poder negligenciar o espaço,
sejam quais forem as suas razões, porque no presente há uma
história realizada e realizando-se no espaço. Além do mais,
projetos, estratégias ou programas têm necessariamente que se
realizarem no espaço. Assim sendo, vão incidir na ordem de
proximidade, no vivido. É neste nível que se fará, portanto a
conexão do próximo com o distante.
A ordem próxima encerra o conjunto das práticas cotidianas, o
conjunto da experiência existencial. Aqui entram em conexão as
representações de espaço, que são as concepções estratégicas
de uso, com os espaços de representação, que são, sobretudo,
espaços da vida e, segundo a qual, existem espaços sociais que
se interpõem, superpõem e até por vezes se fundem. Fenômeno
que é obscurecido nas representações abstratas de espaço25.”

24
LEFEBVRE, Henri. De lo rural a lo urbano. Bairro e vida de bairro Barcelona: Ediciones Península,
1975. p. 200.
25
SEABRA, Odette Carvalho de Lima. Urbanização e fragmentação: cotidiano e vida de bairro na
metamorfose da cidade em metrópole, a partir das transformações do Bairro do Limão. Tese de Livre
24

È no embate destes dois níveis de práticas espaciais, que se enredam no


processo de formação/transformação/destruição da realidade, que nos
deparamos com o bairro. E é a partir daí que tento deslindar a produção social do
espaço.
Penso que a vida de bairro é o produto deste encontro. Os arranjos e
“derivações” traduzidos nos movimentos produzidos a partir das contradições
geradas ganham contornos locais, singularidades que resistem, por determinado
período, à homogeneização do espaço, que se revelam insuficientes para a
preservação de sua unidade espacial no decorrer da historia. Daí a implosão do
bairro, que se fragmenta, sendo suas partes reabsorvidas noutra espacialidade
que se apresenta a serviço das novas funcionalidades propostas pelo processo
de urbanização e levadas a cabo pela re-produção das relações de produção.
Marcelo José Lopes de Souza é outro pesquisador que tem estudado o
bairro, resgatando-o como merecedor de análise e de maior atenção do que as
dedicadas a ele pela academia. Um dos aspectos relevantes que o autor coloca é
o bairro como uma unidade da práxis política. Afirma o professor

“ele (o bairro) é um referencial direto e decisivo, pois define


territorialmente a base social de um ativismo, de uma
organização, aglutinando grupos e por vezes classes diferentes
(em níveis variáveis de acomodação ou tensão); catalisa a
referência simbólica e, politicamente, o enfrentamento de uma
problemática com imediata expressão espacial: insuficiência dos
equipamentos de consumo coletivo, problemas habitacionais,
segregação sócio-espacial, intervenções urbanísticas autoritárias,
centralização da gestão territorial, massificação do bairro e
deterioração da qualidade de vida urbana26” .

Lefebvre também dialoga com estas idéias. Em algumas passagens deixa


clara a característica política do espaço, senão vejamos:

“A luta de classes, hoje mais que nunca, se lê no espaço. Para


dizer a verdade, só ela impede que o espaço abstrato se estenda
ao planeta, literalmente apagando as diferenças; só a luta de

Docência, Geografia Urbana. São Paulo: Departamento de Geografia / Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras Humanas – FFLCH / Universidade de São Paulo – USP, 2003. p. 17.
26
SOUZA, Marcelo José Lopes de. O bairro contemporâneo: ensaio de abordagem política. Revista
Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, n. 51, 1989. p. 140.
25

classes tem uma capacidade diferencial, a de produzir diferenças


que não sejam internas ao crescimento econômico considerado
como estratégia, “lógica” e “sistema” (diferenças induzidas ou
toleradas). As formas dessa luta são muito mais variadas que
outrora. Dela fazem parte, certamente, as ações políticas das
minorias27”.

As transformações no/do espaço, que tendem a homogeneizá-lo, não


conseguem (apesar do discurso hegemônico) esconder os conflitos e
contradições que carrega, ao contrário, denotam, apresentam, elucidam-nas.
Mudam-se as formas, mas as relações sociais de produção pouco ou em nada se
alteram. O espaço produzido, mais que um testemunho deste processo, é o
instrumento e locus da re-produção das relações sociais de produção.
E repetindo o que já havia dito “é possível que, justamente, nas
contradições não levadas a cabo (e que permanecem como conflitos evidentes ou
não) que poderemos encontrar soluções e possibilidades ainda não elaboradas
e ou praticadas”. É no lugar que se afirma a contradição, em que é possível
negá-la.

27
LEFEBRE, Henri. A produção do espaço. (trad. de Doralice Barros Pereira e Sergio Martins (do original:
La producion de l’espace. 4 ª ed. Paris: Éditions Antrópos. 2000)). Primeira versão: início – fev. 2006.
26

3 - Capítulo 2
3.1 – Velha ordem, nova ordem.

Ouro Preto exerceu a função de capital de Minas Gerais nos anos de 1720
a 1886. A opulência e a efervescência urbana, política, econômica e cultural
propiciados pela extração e comércio do ouro, contido nas lavras mineiras cedeu
lugar,quando da exaustão destas, a decadência e a volatilização do significado
político de Ouro Preto como centralidade administrativa e econômica de Minas
Gerais. Alem disto, não havia estradas com qualidade de modo a formar uma
rede de cidades que determinasse um fluxo de produtos e pessoas centralizado
em Ouro Preto. Ademais, a economia agrário-exportadora, característica da
economia brasileira até recentemente, privilegia cidades-portos como centros
econômicos, em função do acesso ao mar e das vantagens locacionais que esta
exclusividade lhes propicia. Era realmente muito difícil a cidade manter-se como
ícone, e, portanto como instituição, essência do poder político-administrativo
mineiro, com todos estes elementos históricos, econômicos e espaciais a lhe
pesar contra.
Neste período houve algumas tentativas para reativar a economia regional
mineira, mas estas se mostraram insuficientes. A mais significativa foi o estímulo
a indústria metalúrgica, em função da qualidade e quantidade das minas de
hematita espalhadas pelo centro do território. A história de Minas do começo do
séc. XIX conta a sanha de vários homens que se arriscaram nestes
empreendimentos, como Eschwege e Monlevade. A falta de um mercado
consumidor próximo e/ou da facilitação do acesso por vias de transporte a estes
centros consumidores (RJ e SP), somado às facilidades tarifárias para a
importação de produtos ingleses (tratado de 1810), a falta de mão de obra
especializada e a dispersão espacial das forjas pelos vales do Doce e Paraopeba,
impedindo uma economia de escala inviabilizaram, naquele momento, o projeto.
Minas eram muitas. Naquele período (séc. XIX) verificava-se um processo
de fragmentação sócio-economico-espacial do território mineiro. Ouro Preto em
franco processo de decadência não representava a centralidade do poder,
necessária para a articulação das varias economias regionais que se
desenvolviam ainda que de forma incipiente
27

“ ...Nos vales do oeste e do norte desenvolveu-se a criação


extensiva, como continuação orgânica da pecuária nordestina,
que tinha subido o São Francisco nos séculos anteriores. No sul
se desenvolveu mais a criação leiteira, provavelmente tendo em
vista uma pequena exportação de queijos para o Rio e mesmo
para Portugal; no oeste expandiu-se a suinocultura28...”

Um acontecimento vai retirar minas do lento e insosso desenvolvimento


que permeia o século XIX, e de forma mais intensa a partir da sua segunda
metade: o desenvolvimento da economia cafeeira, pois o café se tornara um
produto com um grande mercado externo. E neste quadro econômico que a
produção do café atravessa as fronteiras de Rio e São Paulo e sobe as
montanhas mineiras, instalando-se pioneiramente nas regiões limítrofes com o
vale do Paraíba do Sul, e em menor grau no vale do Rio Grande, na Mantiqueira e
Triângulo. O ponto de estrangulamento da economia cafeeira mineira se mostra
na falta de condição para o escoamento da produção até o porto. Para se ter uma
idéia das dificuldades de acesso ao território mineiro e vice versa, na década de
1840, uma viagem do Rio a Ouro Preto levava em média duas semanas.
É o capital monetário internacional e as novas tecnologias por ele
financiadas, ou seja, a máquina a vapor e as estradas de ferro, que vão dar o
segundo choque e reconfigurar o espaço e a economia mineira, mais
especificamente a economia da Zona da Mata Mineira, criando as condições
propícias para expansão da cafeicultura. O surto ferroviário que acomete a
economia mundial chega a minas através da estrada de ferro D. Pedro II, que
“...penetra em Minas em 1869, após vencer a Serra do Mar,
proeza que levou longos anos. Em 1871 ela alcança Pôrto Novo
do Cunha, em 1875 Juiz de Fora, em 1880 Barbacena, em 1881
Carandaí, em 1884 Lafaiete, em 1886 Congonhas e em 1887
Itabira do Campo, chegando, no ano seguinte, a Ouro Preto29”.

O que a principio surge como uma solução, aos poucos revela-se um outro
problema, pois
“O ressurgimento do Setor de Mercado Externo, embora de
natureza diferente do constituído pela mineração no século
anterior, em nada contribuirá para dar unidade e coesão
econômica a Minas Gerais. Da mesma forma que a mineração, a
cafeicultura fará do porto de embarque, situado fora do território
mineiro, o verdadeiro centro econômico da província. O Rio de

28
SINGER, Paul. Desenvolvimento Econômico e Evolução Urbana. São Paulo, Cia. Editora Nacional,
1968. p. 207-208.
29
Ibidem. p. 210.
28

janeiro voltará a. desempenhar este papel, como já o


desempenara no século anterior30”.

Mapa 03 – Rede ferroviária mineira na 1ª década do séc. XX.

Ilustração 3 - Reprodução de mapa de autor desconhecido, confeccionado provavelmente na primeira


década do século XX, e que reproduz parte da rede de ferrovias mineiras e suas respectivas estações.
(fonte:http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_mg_linhacentro/efcb_linhadocentro_mg.htm.
acesso em 14/03/2006)

Portanto, este novo fato econômico, político e social, longe de resolver os


problemas de Ouro Preto como capital do estado, traz a tona do cenário político
contradições e conflitos que estavam a muito sendo relegados ou
contemporizados pelas elites mineiras. Dentro deste quadro, emerge uma solução
que não sugeria grande ruptura com as relações vigentes (“modernização
conservadora”), e que mesmo não sendo consensual, contemplaria os problemas
diagnosticados pelas elites desta época. Este projeto era a transferência da sede

30
SINGER, Paul. Ibidem p. 210.
29

do poder do estado para uma cidade que pudesse centralizá-lo nos seus vários
níveis de representação, ou seja, o social, o político e o econômico, e que
afirmasse na sua paisagem urbana o ideal moderno, negando o velho
monarquismo que Ouro Preto encarnava.

3.2 - A cidade concebida.

Belo Horizonte se apresenta para Minas Gerais, portanto, neste cenário


histórico de crise política, econômica e de paradigmas, onde surgia, de forma
contundente, o ideal moderno31, a organização de movimentos separatistas e a
emergências de novas elites econômicas que se afirmavam em regiões diversas
do estado.
A cidade foi projetada por uma comissão: a Comissão Construtora da
Nova Capital, um grupo de técnicos e engenheiros liderados por Araão Reis,
engenheiro carioca de reconhecida competência entre seus contemporâneos. A
escolha do local para a construção da cidade teve vários momentos e fatos, um
processo que perdurou por cinco décadas, culminando com a decisão pelo
Arraial do Curral D’El Rey. Uma decisão técnica de cunho político. Esta solução
favorecia também mais dois projetos das elites mineiras, de forma concomitante:
o primeiro, a construção de uma rede radial de estradas de ferro que resolveria o
problema do escoamento do café e, ao mesmo tempo, integraria as várias regiões
do estado, onde surgiam movimentos separatistas. O segundo era o problema da
mão de obra livre, após o fim da escravidão: a construção da “moderna” BH seria
o mote e o marketing para convencer migrantes europeus a se estabelecerem no
estado, fornecendo mão de obra “qualificada” e renovando as práticas agrícolas
correntes.
31
Embora o termo "moderno" tenha uma história bem mais antiga, o que Habermas (1983, 9) chama de
projeto da modernidade entrou em foco durante o século XVIII. Esse projeto equivalia a um extraordinário
esforço intelectual dos pensadores iluministas "para desenvolver a ciência objetiva, a moralidade e a lei
universais e a arte autônoma nos termos da própria lógica interna destas". A idéia era usar o acúmulo de
conhecimento gerado por muitas pessoas trabalhando livre e criativamente em busca da emancipação humana
e do enriquecimento da vida diária. O domínio científico da natureza prometia liberdade da escassez, da
necessidade e da arbitrariedade das calamidades naturais. O desenvolvimento de formas racionais de
organização social e de modos racionais de pensamento prometia a libertação das irracionalidades do mito,
da religião, da superstição, liberação do uso arbitrário do poder, bem como do lado sombrio da nossa própria
natureza humana. Somente por meio de tal projeto poderiam as qualidades universais, eternas e imutáveis de
toda a humanidade ser reveladas. HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola,
12ª ed. 2003. p. 23.
30

MAPA 2 – PLANTA CADASTRAL DO ARRAIAL DE BELO HORIZONTE - 1894

Ilustração 4 - Planta cadastral do Arraial D'El Rey, mostrando as ruas, as construções e os lotes
demarcados, para efeito de desapropriação, datada de 1894.
FONTE: PANORAMA, 1997
31

Belo Horizonte foi a primeira cidade brasileira a ser totalmente planejada. Era a
negação da velha, da medieval cidade orgânica. Alguns autores, como
MONT’MÓR, 1997 afirmam que com a construção da nova capital é a retomada
da verve dos inconfidentes mineiros dos setecentos, uma modernidade abortada
pela derrama
“A construção de uma nova capital – uma capital republicana –
para Minas Gerais é parte do esforço para criar uma cidade política
(e industrial ) que retomasse a precoce modernidade negada do
projeto republicano inconfidente de um século atrás, uma resposta
à marginalização sofrida pelo esvaziamento do projeto urbano
industrial mineiro. Sua ruptura urbanística com a tradição
colonial mineira, e seu abraço a modernidade franco-americana,
representam uma negação do passado, mas expressam também
uma renovação da modernidade mineira.32”

Tudo muito bem planificado, dentro dos moldes do racionalismo urbano e


de acordo com o ideal positivista do saber e da técnica, que orientava para o
contínuo e linear progresso da sociedade: As ruas largas, afeitas às máquinas e
ao transporte sobre rodas, a leve declividade da topografia do sítio urbano, em
direção a rede hidrográfica (diga se o Ribeirão Arrudas), para facilitar a coleta e
escoamento dos efluentes, a proximidade com uma queda d”água à jusante do
ribeirão, possibilitando o aproveitamento de seu potencial hidroelétrico para
abastecimento da cidade. Importante também era a construção das ferrovias que
evoluíam em direção ao arraial, produzindo uma teia de estradas de ferro que se
irradiavam a partir de Belo horizonte. Também o desenho do arruamento, com as
principais avenidas como um mosaico xadrez e as ruas cortando-as
diagonalmente, uma trama original que foi inspirada nas modernas Paris e
Washington e La Plata , criando como que atalhos, aumentando a velocidade de
circulação, “comprimindo” o espaço e o tempo, todos os pormenores foram
estudados nos seus mínimos detalhes.

A obra concebida, planejada era a realização suprema do conhecimento


cientifico acumulado até então, a afirmação do domínio da natureza pelo homem,
no caso o homem mineiro. Belo Horizonte não era simplesmente uma nova

32
MONT’MOR, Roberto L. Belo Horizonte, capital de Minas, século XXI. Varia História, Belo
Horizonte, nº 18, set/1997, p. 473.
32

MAPA 3 – PLANTA GERAL DA CIDADE DE MINAS – 1895 – CCNC

Ilustração 5 - Planta geral da Cidade de Minas elaborada pela CCNC e aprovada pelo decreto nº 87, de
15 de abril de 1895.
FONTE: PANORAMA, 1997
33

capital, era um novo ideal (moderno, racional, progressista) à ser erigido


por um novo homem.
O sítio urbano da cidade, anfiteatro natural que se formara num tempo
geológico, o seu relevo, a sua topografia, os seus vales e várzeas inundáveis, fora
dominado pela técnica do homem moderno. Onde antes havia casebres,
choupanas, sedes de fazendas33, espalhados entre matas, pastos, plantações,
capoeiras, surgia o marco do novo homem mineiro, que se tornava visível no
espaço construído, nos monumentos públicos, boullevards, praças, que, mais do
que referencias espaciais, se constituíam em ícones e símbolos do poder de uma
elite revista e revigorada.
Negava-se a ordem velha, arcaica, retrógrada, monárquica, afirmando,
portanto o moderno, o novo, a república, o “progresso”. Mas este moderno que
se queria hegemônico, também era carregado de contradições, que logo se
evidenciariam. O espaço concebido não se realiza no espaço vivido como tal. É o
real e suas contradições levadas a cabo que determinam a ruptura, e não o
contrário, ou seja, o corte epistemológico que determina a realidade.

3.3 – “Velho” trabalhador, nova ordem.

Belo Horizonte nasce, destarte, com a pobreza que caracteriza a


concepção redutora da lógica formal, cientificista, característica do ideal
positivista, que em muito influenciara Aarão Reis. Em 1895, a obra caminhava a
passos largos. Entretanto uma cidade não é fruto de abstrações, ou criada em
cima de mesas, sobre a regência de réguas e compassos. Milhares de
trabalhadores se dirigiam a futura capital para trabalhar nestas obras. Parte
destes trabalhadores era de imigrantes europeus (em sua maioria, italianos), a
outra fração se constituía de migrantes regionais, moradores de outras regiões
do estado. Mas o moderno não queria o “velho” trabalhador, despossuido do
ideal racionalista, lógico, funcional, e que se fazia requisito. Este velho
trabalhador não era adaptado às novas práticas contratuais que as relações
33
A única construção que restou das que existiam antes do começo da construção, foi a sede da Fazenda do
Leitão, poupada pela CCNC, hoje museu Abílio Barreto. As outras foram todas destruídas. Apagava-se a
memória do passado. A ruptura com este tempo era condição de afirmação do moderno. Outra que resistiu
por algum tempo foi a Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem, que posteriormente cedeu lugar a outra
construção em estilo gótico, atual matriz.
34

capitalistas assim condicionava, e não preenchia, portanto, o perfil do novo


habitante da nova cidade.
Negava-se, assim, também a massa de trabalhadores pobres, em sua
maioria, oriunda do campo, (ou das cidades mineiras, fruto do processo de
urbanização anterior (ciclo do ouro), que teve seu auge nos setecentos)
trabalhador inculto, analfabeto, e de forma significativa, negro ou “mestiço”, filho
do trabalhador escravo e recentemente homem livre, que tinha como maior
característica sua habilidade manual. Se a contemporânea “Reforma Pereira
Passos” no Rio de Janeiro se alimentava de uma prática e de um discurso
higienista para justificar a “remoção” dos cortiços (moradias populares) do centro,
mudanças estas que se faziam necessárias ao processo de acumulação
capitalista e manutenção da taxa de lucro, em Belo Horizonte a questão da
moradia para os trabalhadores que para cá se dirigiam, apesar de a cidade ainda
estar saindo do papel, já colocava em evidência as contradições que perpassaria
boa parte (se não toda) de sua história até hoje.
O plano da CCNC não previa a construção de moradias ou a designação
de áreas para a construção de moradias para estes trabalhadores, que viam na
construção de Belo Horizonte a possibilidade de melhoria na qualidade de vida.
Esta política “social” (que não previa a fixação desta parte da população,
personagens do “mundo” negados pela modernidade) já pudera ser observada
antes mesmo do início da construção da cidade: os antigos moradores do Arraial
de curral D’El Rey foram, em sua grande maioria, demovidos do possível
interesse de continuarem a morar na nova cidade que se erguia sobre suas
casas.
Para isto, basta verificar os procedimentos adotados para a desapropriação
das propriedades existentes à época: as indenizações34 pagas eram irrisórias35 .

34
“O Decreto nº 716, de 5 de junho, designando de Sabará o território referido e encarregando o mesmo
Engenheiro-chefe da administração local, completada essa providencia pelo Decreto nº 776 de 30 de agosto,
que autorizava aquele chefe a proceder as desapropriações amigável ou judicialmente. A área desligada era
de 19.200.000 metros quadrados. Em virtude desses decretos, com tino e habilidade inexcedíveis, o Dr.
Aarão Reis desapropriou as 430 propriedades existentes no arraial e imediações por Cr$ 841:666360, ou
sejam pela moeda atual Cr$ 841.666,36, sendo que os preços destas mediaram entre o máximo de
75:000$000 (custo da Fazenda do Barreiro) e o menor de 25$000 (preço por unidade de algumas casinhas da
rua do Capim e Lagoinha).” BARRETO, Abílio. Cinqüenta e sete anos da existência de Belo Horizonte. In
Anuário de Belo Horizonte. Ano 1, Nº 1. p. 102.
35
Para se ter uma idéia dos ridículos valores pagos, a menor das indenizações entre as 430 efetuadas,
25$000, não pagava uma viagem de carroça (40$000) para trazer os materiais e produtos usados pela CCNC,
35

Os valores dos lotes da nova capital eram dezenas, centenas de vezes


maiores que boa parte das indenizações, inviabilizando a compra destes lotes
pelos antigos moradores. Ficava claro que nos planos da CCNC, permeados pelo
ideal modernizador, positivista36, racionalista, não havia espaço para os “velhos”
habitantes do arraial. Como simbologia desta “ruptura” com o velho, com o
arcaico, com o monárquico, nada deveria restar, nenhum vestígio desta velha
ordem, incluindo as construções existentes e seus moradores.
Excluindo-se os funcionários públicos, profissionais liberais e comerciantes,
não conseguimos constatar qualquer indício de políticas que se preocupassem
com a questão da moradia para a outra parte de trabalhadores que migravam
para a capital, no projeto original da CCNC. O que se via era o rápido
aparecimento de favelas, nas quais se amontoavam boa parte da população. Os
próprios trabalhadores contratados para a obra maior eram alojados em grandes
barracões de madeira com pouca ou nenhuma higiene ou conforto, e ainda por
cima, em numero insuficiente, tal o número de trabalhadores.
O plano original da CCNC e a legislação em vigor indicam a orientação e
o conceito que as elites da época partilhavam sobre a cidade: nela não havia
espaço para os pobres, não havia espaço para trabalhadores que não tivessem
identidades com o “moderno” que se propunha, e que não possuíssem
habilidades e aptidões que se faziam requisito para construção de uma nova
ordem, da qual Belo Horizonte seria seu ícone maior. Mas como levar adiante
este projeto que excluía grande parte das camadas populares, sendo estas
absolutamente necessárias a consecução da obra? E aqui falo da cidade como
obra, me inspirando em Lefebvre
“A cidade tem uma história; ela é a obra de uma história, isto é, de
pessoas e de grupos bem determinados que realizam essa obra
nas condições históricas. As condições, que simultaneamente

tipo de transporte usado antes da construção do ramal que ligaria Sabará a Belo Horizonte, ocorrência que só
se deu em 7 de setembro de 1895.
36
O positivismo francês, que influenciou profundamente os governos dessa geração, fornecia uma razão para
negligenciar os menos afortunados. A sociedade iria progredir, de acordo com o positivismo, se liderada
corretamente por uma vanguarda determinada e dotada de mente científica. As massas seriam puxadas para
cima se a sociedade como um todo progredisse. Era errado desperdiçar recursos escassos com os pobres, que
não sabiam como investir no progresso. Retirado e traduzido por ROLNIK, Raquel. A cidade e a lei:
legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo. São Paulo: Studio Nobel, Fapesp, 1997.
(da obra de Michael Conniff: Urban Politics in Brasil. The Rise of Populism, 1925-1945. Pittsburgh,
University of Pittsburgh Press, 1981, p.8.).
36

permitem e limitam as possibilidades, não são suficientes para


explicar aquilo que nasce delas, nelas, através delas. Assim era a
cidade que a idade média ocidental criou. Animada, dominada por
mercadores e banqueiros, essa cidade foi a obra deles. Pode o
historiador concebê-la como um simples objeto de tráfico, uma
simples ocasião de lucro? Absolutamente, de modo algum. Esses
mercadores e banqueiros agiam a fim de promover e generalizar a
troca, a fim de estender o domínio do valor de troca; e, no entanto,
a cidade foi para eles bem mais um valor de uso do que valor de
troca. Amavam sua cidade tal como uma obra de arte,
ornamentada com todas as obras de arte, eles a amavam, esses
mercadores das cidades italianas, flamengas, inglesas e
francesas. De maneira que, paradoxalmente, a cidade dos
mercadores e dos banqueiros continua a ser para nós o tipo e o
modelo de uma realidade urbana onde o uso (a fruição, a beleza,
o encanto- dos locais de encontro) predomina ainda sobre o lucro
e o proveito, sobre o valor de troca, sobre os mercados e suas
exigências e coações. Ao mesmo tempo, a riqueza devida ao
comércio das mercadorias e do dinheiro, o poder do ouro, o
cinismo desse poder também se inscrevem nessa cidade e aí
prescrevem uma ordem. De modo que ainda nesta qualidade ela
continua a ser, para alguns, modelo e protótipo37”.

A resposta que poderíamos chegar é: com um rígido controle sobre a


produção do espaço. A planta cadastral de Belo Horizonte, confeccionada pela
CCNC em 1894 já apresentava estas características. Percebe-se aí a concepção
fragmentaria do espaço, a separação entre o rural e o urbano e a segregação
espacial: o fora/dentro da Avenida do contorno, à época, 17 de setembro.
Para se manter este controle somente com um estado forte, totalitário, para
além do estado democrático, e que fazia valer seus interesses com a utilização da
força, da coerção, do aparato policial e total controle dos três poderes
constitucionais. Belo Horizonte somente teve seu primeiro prefeito eleito em 1947,
50 anos após sua inauguração. Antes, todos eram nomeados pelo governo
estadual.

3.4 – “os olhos dos pobres”

Marshall Berman, em seu livro “Tudo que é sólido desmancha no ar” nos
apresenta uma questão que pode nos ajudar a entender a contradição que o
urbano moderno apresenta, e que se arrasta por toda história da cidade de Belo

37
LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Centauro Editora, 2004. 3ª ed. p. 47.
37

Horizonte, ou seja, a cidade moderna é o lugar em que todas as pessoas se


encontram, mas as relações espaciais que se estabelecem neste urbano são
fragmentárias e segregacionistas.
Mapa 4 – Planta geodésica, topográfica e cadastral, confeccionada
pela CCNC – 1894.

Ilustração 6 - – Planta geodésica, topográfica e cadastral , confeccionado pela CCNC – 1894.


(Adaptação: Geraldo JF Mello)
FONTE: PANORAMA, 1997.

Berman toma como argumento um poema de Baudelaire, “Os olhos dos


pobres”, (Spleen de Paris, nº26), no qual o narrador explica o sentimento
ambíguo que sente naquele instante pela amante: lembra-a então de um fato que
38

se sucedeu em um bulevar em frente à um café , numa Paris de em meados do


século XIX. Os dois sentados no terraço, tendo à frente um café, que era
ricamente decorado com alguns ícones da modernidade (muita iluminação
artificial, reprodução em profusão de obras com referencias à mitologia pelas
paredes, espelhos, molduras douradas, etc.), olhavam-no com fascínio.
Neste instante, o deslumbramento do casal foi interrompido por uma família
de pobres maltrapilhos, que pararam em frente a eles para observar o mesmo
cenário, ou seja, a casa de café de decoração duvidosa que os fascinava. O
narrador sentiu-se incomodado pela presença destes pobres, pois seus olhares
traziam além da crua realidade social observada, a consciência de que, classes
sociais diferentes conviviam em um mesmo espaço, a cidade moderna, mas o
usufruto (do espaço) e das “benesses” da modernidade não se daria da mesma
forma para todos. O comentário que sua namorada faz sobre a presença destes
maltrapilhos ao seu lado, à observarem o mesmo cenário é contundente e trás, de
forma estarrecedora, o sentimento que atravessará toda a história do processo de
urbanização que contempla o modo de produção capitalista.
“...o narrador começa a sentir-se incomodado, "um pouco
envergonhado de nossos copos e garrafas, grandes demais para
a nossa sede": Surpreende-se "tocado por essa família de olhos"
e sente alguma afinidade por eles. Porém, no momento seguinte,
quando "eu voltei a olhar para os seus olhos, minha querida, para
ler neles meus pensamentos" (o grifo é de Baudelaire), ela diz:
“Essas pessoas de olhos esbugalhados são insuportáveis! Você
não poderia pedir ao gerente que os afastasse daqui38”.

A contradição se explicitava. A famosa cena de Baudelaire, para Berman,


não é uma cena que fala simplesmente de amor, mais do que isto,

“ Elas devem conter material idílico, mas no clímax da cena uma


realidade reprimida se interpõe, uma revelação ou descoberta tem
lugar: "um novo bulevar, ainda atulhado de detritos [ . . . ] exibia
seus infinitos esplendores" : Ao lado do brilho, os detritos: as
ruínas de uma dúzia de velhos bairros - os mais escuros, mais
densos, mais deteriorados e mais assustadores bairros da cidade,
lar de dezenas de milhares de parisienses - se amontoavam no
chão. Para onde iria toda essa gente? Os responsáveis pela
demolição e reconstrução não se preocupavam especialmente
com isso. Estavam abrindo novas e amplas vias de

38
BERMAN, Marshal. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo:
Companhia das Letras, 1986. p. 170.
39

desenvolvimento nas partes norte e leste da cidade; nesse meio


tempo, os pobres fariam, de algum modo, como sempre haviam
feito. A família em farrapos, do poema baudelaireano, sai de trás
dos detritos, pára e se coloca no centro da cena. O problema não
é que eles sejam famintos ou pedintes. O problema é que eles
simplesmente não irão embora. Eles também querem um lugar
sob a luz. Esta cena primordial revela algumas das mais
profundas ironias e contradições na vida da cidade moderna. O
empreendimento que torna toda essa humanidade urbana uma
grande “família de olhos'; em expansão, também põe à mostra as
crianças enjeitadas dessa família.39”

Quando Abílio Barreto descreve a solenidade da festa de inauguração da


cidade de Belo Horizonte, podemos ver, não a mesma crítica, mas na sua
exposição, a mesma “Família de olhos” de Baudelaire:

“... Na tarde de onze de dezembro inaugurou-se a luz elétrica, e,


num anseio geral esperou-se o dia doze... À uma hora e 15
minutos partia de General Carneiro o comboio presidencial, agora
compôsto de 13 carros, conduzidos pelas locomotivas "Belo
Horizonte" e "Ouro Preto". Estrondosamente vitoriados em tôdas
as estações intermediárias, o Presidente Bias Fortes e sua
comitiva chegaram a Belo Horizonte às 2 horas. Ao silvo
prolongado e festivo das duas máquinas, cêrca de 8.000 pessoas
que se achavam na estação e imediações prorromperam em
outras tantas delirantes aclamações ao Governo, à Comissão e
aos nomes de quantas pessoas de destaque haviam concorrido
para a mudança da Capital, ao passo que três bandas de música
eletrizavam o ambiente com músicas patrióticas e festivas. Entre
esses populares estava o autor dêste livro, contando 14 anos de
idade. No alto da "Favela" milhares de lenços agitavam-se,
saudando os recém-chegados (grifo meu)40”.

39
Ibidem. p. 174
40
BARRETO, Abílio. Cinqüenta e sete anos da existência de Belo Horizonte. In: Anuário de Belo
Horizonte. Ano 1, Nº. 1. p. 132.
40

4 – Capítulo 3

4.1 - A Vila

Até agora reuni alguns elementos e circunstâncias históricas que podem


indicar e auxiliar no esclarecimento do processo de produção do espaço que
resultou no que é hoje, a Vila Edgar Werneck, senão vejamos.
O primeiro tópico que revelo neste processo, é o intenso movimento de
especulação imobiliária que toma conta de Belo Horizonte antes mesmo do início
da construção da cidade. Este processo já ocorria quando se tornou público a
opção da construção da capital pelo sítio do Arraial D’El Rey. A terra torna-se um
bem escasso em função da ação do Estado, que reserva toda a parte interna da
Avenida do Contorno (e grandes glebas da parte externa à avenida) para seu
controle. Paralelo a este processo (e talvez, em função dele), especuladores se
tornaram figuras usuais, já na última década do século XIX, pelas ruas da
cidade. O mais conhecido de todos, o Sr. José Francisco Macedo, mais
conhecido pela alcunha de “José dos Lotes”.
O segundo, o ideal de modernidade que perpassa o projeto da nova
capital, que representava muito mais que um projeto arquitetônico. Era um projeto
de uma elite emergente que, para se afirmar, negava o “ancien regime”, e que, ao
negar o passado, símbolo do arcaico, do ultrapassado, negava também alguns
sujeitos históricos como boa parte da população pobre, filhos da escravidão, do
monarquismo e da ignorância.
O terceiro, o projeto de integração regional que Belo Horizonte
representava, e que tinha como instrumento condutor (além da própria Belo
Horizonte como símbolo da centralidade que se afirmava), a construção de um
sistema ferroviário que irradiaria da capital em direção aos interiores de Minas e
aos grandes centros, Rio de Janeiro e São Paulo. A construção das estradas de
ferro em uma importante estratégia política e econômica do Estado.
O quarto, a falta de autonomia administrativa da cidade de Belo Horizonte,
que nas primeiras cinco décadas de existência foi gerida por interventores
designados pelo governo estadual. A cidade era desta forma (e ainda o é),
importante instrumento de afirmação de política estratégicas do Estado, o que
aumentava a distância entre os interesses dos cidadãos representados pelas e
41

nas questões locais, e a instituição que representava o poder administrativo, ou


seja, a Prefeitura Municipal. Afirmava-se desta forma um governo de práticas
totalitárias, distante que estava de seus cidadãos.
O quinto, o processo de divisão manufatureira do trabalho, engendrado
pelo modo de produção capitalista, que se reproduz no urbano, fragmentando e
segregando o espaço; e que se evidencia na cidade “funcionalista”, do qual a
metrópole é seu maior exemplo.
O sexto, a reprodução das relações de produção sociais de produção para
fora dos muros e portões das “fabricas”, nos interstícios da família, da escola, do
lúdico, do sacro e do profano. É no encontro destes elementos, é na fricção
destes processos, que se constitui a Vila Edgar Weneck.
Abordei, portanto, a “ordem distante” (que não pode “negligenciar o
espaço” SEABRA, 2003, p. 17) nas suas contradições históricas fundantes, e nas
possíveis relações residuais que atravessaram o tempo. Mas é também no
espaço, através da medição do vivido que estas relações se afirmam, ordenam,
realizam e/ou se negam.
É a Vila Edgar Werneck que neste caso, fará a ponte entre a “ordem
próxima” e a “ordem distante”, entre o local e o global, entre espaço de
representação e a representação do espaço, entre a cidade como totalidade e as
singularidades como partes desta totalidade.

4.2 - A Vila. Vila?

A Vila Edgar Werneck não pode ser considerada uma vila operária na sua
concepção clássica. As vilas operárias tornaram-se uma opção estratégica do
capital no princípio do século XX, para controlar, disciplinar, moralizar e vigiar a
força de trabalho. Conforme Rago

“Estratégia patronal de fixação da força de trabalho ao redor da


unidade produtiva neste momento histórico de constituição do
mercado de trabalho livre no país, a construção das vilas
operárias permite controlar a economia interna do trabalhador e
42

seu próprio tempo fora da esfera de trabalho, delimitando o


espaço em que pode circular.41”

As vilas surgem em um contexto histórico de transição do Brasil rural para


um Brasil urbano. Para os capitalistas alguns problemas se colocavam: não havia
mão-de-obra qualificada, não havia consumidor educado, não havia moradia para
os trabalhadores nas cidades modernas que surgiam no e do processo de
urbanização. Além do mais, a vinda dos imigrantes europeus (uma solução
buscada com o fim da escravidão para a escassez da mão-de-obra) mostrou-se
uma estratégia ineficaz. Segundo Rago

“Desde cedo, afinal, os dominantes vêem desmoronar a imagem


disciplinada e laboriosa que haviam projetado sobre o imigrante
europeu. “Nem da Ásia, nem da África” os trabalhadores
provenientes do sul da Europa, brancos civilizados como se
desejara, trazem consigo não apenas a força de trabalho, mas
todo um conjunto de expectativas, de valores e de tradições
culturais. Ao entrarem no país, fazem explodir todas as projeções
continuamente lançadas sobre seus ombros, procurando cada vez
mais incisivamente afirmar sua própria identidade. Indolentes,
preguiçosos, boêmios, grevistas ou anarquistas, segundo a
representação imaginária construída pela sociedade burguesa,
lutam para definir sua nova identidade, a partir dos sistemas de
representações, dos valores e das crenças que lhes eram
próprios.42”

A vila-cidadela, vila inglesa, taylorista, fordista, tem, portanto, alguns


elementos clássicos, como a proximidade com o “chão da fábrica”, com o local de
trabalho dos operários; o desenho arquitetônico funcional, racionalista,
hierarquizado e homogêneo das ruas e quarteirões; o isolamento físico desta em
relação ao espaço circundante (para facilitar a vigilância e o controle do
movimento da circulação das pessoas), a existência de uma rede de serviços
internos (escolas, armazéns, creches, farmácias, etc...), a fim de atender as mais
básicas necessidades de seus moradores; o simples direito do usufruto da
moradia, que permanecia como propriedade da instituição que empregava a mão-
de-obra. Para Rago

41
RAGO, Luiza Margareth. Do Cabaré Ao Lar. A Utopia da Cidade Disciplinar. Rio de Janeiro: Paz eTerra,
1985. p. 178
42
ibidem, p. 17.
43

“ Nesse sentido, o poder disciplinar cria dispositivos estratégicos


de estreitamento dos vínculos que unem os membros da família,
mas também entre esta o patrão, numa mescla de sentimentos
que incluem gratidão e cumplicidade.43”

A Vila Edgar Werneck possui alguns destes elementos. A proximidade com


os galpões de manutenção da RFFSA, com sua rotunda, local de trabalho da
maioria dos moradores. Ela faz divisa no seu flanco leste com estes galpões. Com
a construção do metrô de superfície (que foi construído em boa parte sobre o leito
dos trilhos da RFFSA), os portões de acesso aos galpões, que eram voltados
para Vila, formam transferidos para outras áreas do grande terreno, hoje
propriedade da MRS logística.

Ilustração 7 - Foto batida da Estação Horto do metrô, mostrando ao fundo os galpões das oficinas da
RFFSA. (Foto do autor em 08/09/2006)

43
Ibidem, p. 179.
44

O outro fator importante é que a área que compõe a Vila fazia parte da
propriedade da RFFSA e, portanto, seus moradores, a princípio tinham de ter
autorização formal para construírem no lugar.
A ingerência dos patrões na vida cotidiana do trabalhador é mais um
elemento que faz parte das práticas sociais da Vila Edgard Werneck e da vila
clássica inglesa. A divisão entre o público e o privado não se faz nítida. Esta
prática se mostra presente até hoje nas representações que os moradores têm
sobre a Vila. Um exemplo disto é o campo dos Tupinambás, uma área pública de
lazer que é administrada como área privada por alguns moradores da Vila, à
décadas. O depoimento da srª. Conceição, 79 anos, nos ajuda a perceber isto:

“...nos vamos dar um jeito pra senhora. Foram num tal de Lima.
Um fulano de tal Lima que era dono deste campo aqui, ó
(apontando em direção ao campo do Tupinambás). Aí o Sr. Lima
veio. O que esse homi fez pra mim ... Nossa senhora, ela já
morreu...Se eu pudesse, eu tinha vontade de homenagear esse
homem. De tão bom que esse homi foi pra mim nesse dia. Aí ele
falou assim...44”

Como não pude acessar os documentos guardados e mantidos pelo


espólio da rede (ver reportagem no anexo 1), baseei-me em entrevistas dos
moradores e na legislação municipal para levantamentos sobre as questões
pertinentes aos títulos de propriedade da área em questão.

4.3 – A “ocupação” consentida e os coronéis da Vila

A ocupação da região que é constituída hoje pelos bairros Horto, Santa


Tereza, Sagrada Família e Instituto Agronômico, teve dois momentos distintos nas
quatro principais décadas, depois da inauguração de Belo Horizonte:
O primeiro com a instalação da colônia agrícola América Werneck em
1899. Para alguns autores, as colônias agrícolas foram criadas para o
abastecimento da capital de gêneros alimentícios agrícolas e de origem animal,
partindo da visão clássica da divisão entre campo e cidade: o excedente da
produção no campo abastecia Belo Horizonte de gêneros alimentícios. Outros

44
Depoimento da srª. Conceição Baptista Vieira.
45

autores como Le Ven em afirma o controle de espaço como preocupação maior


na criação destas colônias:

“Afinal era preciso habitar esta região desértica destinada a ser a


capital e proteger a população de direito, bastante reticente, por
um cinturão já conquistado e ocupado por pioneiros, com
necessidade de terra e de trabalho, como os imigrantes.45”

O outro momento é o marco que anuncia o início do processo de ocupação


da Vila Edgar Werneck, mas que também acelera o processo de urbanização da
região em questão. Refiro-me a inauguração da Estação Horto Florestal do trem
metropolitano que ocorre em 1925, juntamente com a criação dos galpões da
manutenção da EFCB, junto à estação. Não possuo este dado, que poderia ser
conseguido nos arquivos da RFFSA (ver anexo 4), mas acredito que data daí as
primeiras ocupações realizadas nos terrenos da EFCB pelos funcionários. Não
havia critérios pré-estabelecidos para que cada ocupante cercasse “sua” área,
seu lote. Como não havia arruamento nem parcelamento do solo, a ocupação se
dava de forma desordenada. A maior parte dos ferroviários era de trabalhadores
sem especialização, que já trabalhavam na EFCB, em ramais que seguiam em
direção a Montes Claros. São muitos os imigrantes de Sete Lagoas, Curvelo,
Corinto, Diamantina, etc...
Um segundo momento que marca a formação sócio-espacial da Vila,
acontece na segunda metade da década de 1950, com a criação da RFFSA, que
encampa várias pequenas ferrovias privadas e concentra parte de seu serviço de
manutenção nas oficinas da Vila Edgar Werneck. Este momento marca uma
grande leva de trabalhadores que são transferidos para Belo Horizonte para
trabalhar nas oficinas. A Vila já estava quase toda “dividida” e as famílias que
chegavam, tinham que morar em cortiços ou pequenas casas de aluguel de
ferroviários que as construíam para este fim.

“...A Central (EFCB) mandou um mucado de gente vir do interior


pra bh. Desde de que nos casamos , meu marido trabalha na
Central. Aquela vida sufrida que não tinha mais “lugar”. Àquela
época não usava mulher de trabalhar. Quando apareceu a
oportunidade de vir para cá (bh), meu marido achou que era a

45
LE VEN, Michel Marie. As Classes Sociais e o Poder Político na Formação Espacial de Belo
Horizonte. (1893-1914). Belo Horizonte: FAFICH/UFMG, 1977 (Tese de Mestrado). p. 80.
46

solução. Eu falava com o Zé: - Nois não tem casa aqui, lá também
não vamu ter. Nois não tinha casa em Sete Lagoas pra vender pra
comprar aqui...
....O salário não dava pra nada. Tinha o armazém. Lá tinha um
caderno. Lá não tinha feijão. Tinha arroz, tinha banha...aquela
banha Diniz, um sabão amarelo em pedaço, cheio de soda, que
tirava a pele da gente. Feijão nunca tinha. Lata de sardinha tinha.
O salário ficava todo. E o Zé ainda era muito descabeceado...46”

Este é o momento de formação da identidade do bairro. Como os salários


eram muitos baixos e toda a região que fazia fronteira com os terrenos da RFFSA
já estavam loteados, tendo o valor do metro quadrado determinado pelo
especulativo mercado imobiliário, restava aos que chegavam construir nos
terrenos da Vila. As possibilidades de se conseguir uma área nova autorizada
pelos dirigentes da RFFSA eram ínfimas.

“....O ano foi 1958...em abril de 1959...Viemos num carro da


Central. Trouxe tudo que a gente tinha. Nos ficamos aqui na Rua
Santo Agostinho, nuns comoduzinho do Seu Antônio. Ele alugou
três cômodos. Lá ficamos um ano. Dela fomos lá para a Silva
Freire. Ficamos de aluguel. Depois uma tal Dona Lia, que tinha
um açougue aqui pra cima...aí (na parte mais alta da Vila) já é
umas casas melhores...Ficamos (morando) de aluguel muito
tempo, de 59 à 72....47”

Existia uma hierarquia nas oficinas que era mantida do lado de fora na
Vila. A autorização era obtida com muito mais facilidades por maquinistas, oficiais
e supervisores, do que pelos novos ferroviários que chegavam, em sua maioria,
operários sem especialização. Além do que, o controle que se fazia sobre as
novas construções, era domínio político de um grupo de pessoas que tinham a
sua frente, quase sempre um policial reformado. Muitas vezes era usada a força,
a coerção, a violência, chegando ao ponto de derrubarem as casas já
construídas.

“-Era o terreno da Rede,...


-Tinha gente que tomava terreno muito grande, não precisava
como ainda tem aí gente por aí que tem “terrenão”.
-Mais ou menos,(terreno) regularizado assim porque eu, por
exemplo...esse povo aqui da frente, por exemplo dessa casa aqui

46
Depoimento da Srª. Conceição Baptista Vieira.
47
Ibidem.
47

tem um mundo de terreno aí ó, eu aqui ó, não tenho nada. No


meu terreno, eu quero...se quiser fazer mais um cômodo, eu não
consigo, eu não tenho, eu posso é puxar para cima. Mas eu num
importo não, porque também eu não comprei. A Rede deixava. 48”

Outra forma de conseguir uma “nesga” de terra para construir era o


compadrio. Antigos ferroviários que ocupavam grandes terrenos cediam parte do
seu quintal para o amigo ou colega, ou quem bem lhe conviessem, como favor,
caridade ou por valores pecuniários.

“...Tinha uma casa velha aqui, ruim, mas ruim mesmo. Aí eu


consegui alugar. A casa, ela tinha uma beirada pra este lado aqui,
aonde é esse barracão (onde estávamos fazendo a entrevista). Aí
a vizinha falou: -Oo Conceição, se você conversar com o Sr. José
Jacinto (o proprietário), ele deixa você construir um barracãozinho
aqui. Ele era maquinista. Eu falei com ele, se ele me ajudava a
ponto de me dar esta nesga.
- Aqui é assim ( mostra com as mãos o formato do lote): um
coador! Aí ele falou:
- Você pode fazer! Aí, quando a esposa dele ficou sabendo, ele
não deixou:
- Não! Tem que ser vendido. Ela arrumou uma amizade com o
Lacorte. O Lacorte era muito brusco:
- Eu dou um jeito que ela vai ter que pagar. O Lacorte era
da Central também.49”

Isto nos leva a pensar na possibilidade de existência da família ferroviária.


Existiria um modo de vida ferroviário? Ou para usar o clássico conceito de La
Blache, haveria um gênero de vida ferroviário? Responder a esta questão não é
objeto desta pesquisa, mas as expressões das práticas espaciais, culturais e das
soluções encontradas para resolver seus problemas e atritos, entre outras coisas,
provoca em mim curiosidades.
O fato é que existia certa autonomia entre os moradores para a solução
dos conflitos, nos quais sempre apreciam mediadores que pertenciam à própria
comunidade. Esta autonomia talvez fosse produto da distância que a
administração pública mantinha em relação às questões cidadãs da Vila. Ou da
condição de pobreza que era característica daquele grupo de trabalhadores,
territorialmente localizados, e que despertava pouco interesse e nenhum receio

48
Depoimento da Srª Conceição Baptista Vieira
49
Ibidem.
48

das elites locais, apesar do peso estratégico das ferrovias no planejamento do


Estado, que perpassa toda a primeira metade do século XX.
Esta autonomia relativa pode ser observada no seguinte fato narrado pela
Dona Conceição

“O Lacorte era um...uma pessoa que governava a Vila. Quem ele


queria, eles davam até um pedaço pra construir aqui. Quem ele
não queria, não conhecesse, eles não deixavam.
Paguei duas prestações na promissória. Aí alguém falou
comigo...Porque eu não tinha grande conhecimento das
coisas...Vai na rua Sapucay e procura o advogado da Rede
(RFFSA). Aí eu cheguei lá e eles falaram que não era lá: - É lá
na Rua Varginha. Fui lá. Procurei o advogado. Ele não tava. Aí as
pessoas boas da Rede me chamou pra conversar. Aí eu falei pra
eles:
- O sr. José Jacinto, ele já tá aposentando, e eu conversei com ele
à respeito de um pedacinho de terra pra mim fazer...pro meu
marido fazer ( um barraco)...Pra mim acabar de criar meus filhos
sem pagar aluguel. Aí eles falaram assim:
- Peraí que nos vamos dar um jeito pra senhora. Foram num tal de
Lima. Um fulano de tal Lima que era dono deste campo aqui, ó
(apontando em direção ao campo do Tupinambás). Aí o Sr. Lima
veio. O que esse homi fez pra mim ... Nossa senhora, ela já
morreu...Se eu pudesse, eu tinha vontade de homenagear esse
homem. De tão bom que esse homi foi pra mim nesse dia. Aí ele
falou assim:
-O José Jacinto já ta esperando pra aposentar. Ele não pode
vender o terreno não! Ele não pode vender o que não tem. Porque
o terreno da rede é pra se morar. Não é pra vender pra ninguém.
Mas eu falei assim:
-Não foi ele (o sr. José Jacinto). Ele me deu. Mas a esposa dele
não deixou!
- E ela, o que que ela é?
- Ela é dona de casa. Ela não tem nada não. Ela não trabalha na
Rede não!
Bateram tudo lá, num sabe (fazendo o gesto de quem escreve
usando uma máquina de escrever , batendo com os dedos na
mesa). Encheu um envelope grande amarelo, como...daquele
processo contra o sr. José Jacinto...q ele estava vendendo coisa
que não era dele, pertencia a união, que não era dele e tudo, e
mandou eu assinar e tudo.
Fiquei o dia interim lá! E eles botaram aquilo no correio e
mandou pra Mogi das Cruzes. Daí até esqueci daquilo.50”

50
Depoimento da Srª Conceição Baptista Vieira
49

4.4 – A mulher “ferroviária” e a paisagem social

A presença da mulher na vida da Vila pode ser subestimada devido ao fato


que a mão-de-obra feminina é uma atividade exercida quase exclusivamente por
homens. Porém, a mulher de ferroviário, além de “criar” a família, tinha uma vida
ativa, e foi personagem fundamental na formação da identidade e das relações
sociais de produção da e na Vila.
Como os maridos estavam submetidos a uma hierarquia estipulada pelos
patrões no local de trabalho, sujeitos a sanções que a disciplina e os códigos
internos da RFFSA definiam, as invasões ou ocupações (parte significativa
destas), corriam na “calada da noite”, e eram realizadas ou tinham sua autoria
assumida pelas mulheres, que ficavam sob os barracos improvisados para resistir
à força policial da empresa, que logo chegaria.
A reprodução das relações de produção, que se verifica além dos muros
da oficina, em muitos momentos, como nestes casos, foi estremecida pelas
estratégias do vivido.
A produção/reprodução do espaço foi perturbada pelo sujeito da história
que fora colocado em xeque pelo projeto de vida burguês. A mulher, sujeito
histórico, a quem foi destinada um papel coadjuvante na sociedade moderna,
ressurge no processo de territorialização do processo social, como resistência à
reprodução das relações de produção. É o “arcaico” que não esgotou suas
possibilidades, não levou ao fim todas as suas contradições, e que, de súbito,
reaparece para fazer trincar o processo hegemônico de homogeneização dos
processos sociais e, fazer estremecer a reprodução das relações de produção.
50

4.5 – Autonomia e a natureza do trabalho ferroviário

Outra abordagem pode ajudar no entendimento destas peculiaridades: a


que pensa sobre a natureza do trabalho ferroviário. Sua principal característica é
ser um trabalho de “campo”, devido às longas distâncias. Nisto resulta a
valorização da experiência em detrimento da técnica. Contam também a força e
habilidades manuais. O aprendizado se dá no “campo” e o conhecimento
acumulado é resultado do tempo de trabalho. Portanto, os mais antigos
funcionários eram os que ensinavam os aprendizes que reproduziam as soluções
aplicadas pelos experientes mestres. Desta forma, o sentimento de proteção e
solidariedade faz parte do “modo de vida “ ferroviário.

Ilustração 8 - Festa de Ano Novo nos galpões das oficinas da EFCB no início dos anos 50 (arquivo
pessoal do Sr. Lenir Paulino).
51

O conhecimento e a técnica não estavam nos livros ou sobre as mesas,


mas na experiência adquirida. O domínio dos segredos da execução das tarefas
tornavam estes funcionários incluídos em outro tipo de hierarquia, informal, onde
as relações de confiança se sobrepõem aos regulamentos e a hierarquia formal.
Esta característica revela o peso das relações familiares multiplicadas
ainda pela territorialização dos núcleos habitacionais e pela reprodução no seio
da família, da profissão do pai, visto que o recrutamento dos aprendizes de dava
dentro de casa.
A autonomia alcançada por operários semi-desqualificados (devido a
experiência adquirida) frente aos patrões, de alguma forma se reproduzia nas
relações pessoais, no “chão da vila”.
Some-se a isto um dado que é específico dos ferroviários da RFFSA de
Minas Gerais: a estrutura organizacional da empresa e a distância com o lugar de
onde se tomava as decisões. A sede administrativa era na cidade do Rio de
Janeiro. Todas as questões pertinentes à relação empregado/empregador eram
resolvidas no Rio. O pagamento de salários, valores e contra-cheques, vinha
diretamente do Rio em um vagão especial, até os anos 70. Era comum o
empregado ir ao Rio de Janeiro resolver pendências administrativas. Este fato, de
certa forma, ajuda a entender o isolamento da vila em relação a administração
municipal.
Nas relações sócio-espaciais, a rede de amizades, interesses, negócios,
elos familiares, que dão forma e conteúdo ao vivido, aos processos sócio-
histórico-espaciais, no caso da Vila Edgar Werneck, estavam divididos entre Belo
Horizonte e o Rio de Janeiro. Belo Horizonte não afirmara, por completo, sua
centralidade. Isto ajuda a explicar porque a vila nunca chegou a configurar-se
como um bairro. A rede de serviços que é parte constituinte de uma “vida de
bairro”, na qual se incluem o comércio local, bancos, locais de lazer; em nenhum
momento, na história e no espaço da Vila, se efetivaram. Um bom exemplo é o
centro comercial que servia e ainda serve aos moradores da Vila, localizado no
vizinho bairro Horto, na divisa sul do bairro Instituto Agronômico. A centralidade
do bairro defini-se portanto em relação ao Horto, e este em relação à cidade.
Quanto ao lazer, este é uma questão que merece uma maior reflexão.
52

4.6 – O lúdico na vida da Vila: futebol e festas de rua

Várzea, esplanada, beira-rio: estes são termos comuns tanto no meio


ferroviário, quanto no meio do futebol. E isto não é simples coincidência. As
características morfológicas do relevo, que são necessárias ao leito pelos quais
trafegam as máquinas e vagões, e onde são planejadas e construídas as
estradas, os trilhos ferroviários; são também características que fazem parte da
geografia do futebol no Brasil. Mas as conexões que existem entre o “modo de
vida” ferroviário e o futebol vão muito além deste “determinismo” que, de fato,
existe.

Ilustração 9 - Jogadores do E. C. Ponte Preta, em uma formação clássica para fotografia (ano de 1954),
em seu campo, que não existe mais, tendo ao fundo a Serra do Curral (arquivo pessoal do Sr. Lenir
Paulino).

A convergência entre o espaço (a várzea), o lúdico (a festa barata e


socializante), a identidade territorializada do bairro e da que vem de dentro da
fábrica, tudo isto colocado no caldeirão que ferve (a chegada dos migrantes de
vários lugares, com culturas e valores que não se conhecem), tem um nome nas
práticas sócio-espaciais da Vila Edgar Werneck: futebol.
53

MAPA 5 – VILA EDGAR WERNECK E OS CAMPOS DE FUTEBOL

Referencias geográficas
1 – campo do Pompéia
2 – Campo da Lunense
3 – Campo do Monte Azul
4 – Campo da Ponte Preta
5 - Campo do Ferroviário
6 – Campo do Republicano
7 – Campo do Independente
8 – Campo do Brasilina
9 – Campo da Pracinha
10 – Campo do Tupinambás
11 – Sede Social Da Ponte Preta
12 – Igreja São Judas Tadeu
13 – Campo do Instituto Agronômico

Fonte: http://earth.google.com (acesso em


19/12/2005). Adaptado por Geraldo JF
Mello.
54

A configuração da prática do futebol na Vila é também produto de


profundas transformações que ocorriam no/do processo de urbanização que
marcam o mundo moderno e nele são traduzidas. A difusão do futebol está
profundamente ligada a forma que o capital inglês se espalhou e se estruturou
pelos quatro cantos do planeta, no final do século XX, e não por coincidência, no
auge da construção de estradas de ferro, também por Minas Gerais.
A partir de um centro de gravidade
hipotético, localizado na parte
central da Vila, um raio de 600 ou
700 metros, onze campos de
futebol existiam, sendo que entre
as décadas de 50 e 70,
simultaneamente, nove campos de
futebol coexistiam. Hoje ainda
restam quatro, sendo que um, o
mais antigo, se localiza dentro dos
limites da Vila, o campo
Tupinambás.
A vida social da Vila esteve
simbolicamente ligada à história de
três clubes de futebol: a Ponte
Preta, o Tupinambás e o
Ilustração 10 - Jogo entre o Tupinambás e o time do Ferroviário. Destes clubes, dois
bairro Tupi, em dez/2006. (foto do autor em 16/12/2006)
são identificados territorialmente
com a Vila. No terceiro, a identidade, como diz o nome, vem da atividade
operária, de dentro das oficinas da Rede: o ferroviário.
Clubes de bairros, clubes de escolas, clube de famílias, clube de fábrica de
comerciários. Qualquer grupo de pessoas que fizessem parte de um processo
identitário poderia criar um clube de futebol. Nem precisava ter um campo próprio.
Campos havia muitos, bastava ter um bom relacionamento com os líderes ou
“presidentes” da associação esportiva que possuísse sede. E que a sede
dispusesse de um campo de futebol.
55

Aliás, este era o caso de muitos “times” que tinham estatutos, associados,
etc, mas o que não possuíam campo próprio e que faziam seus treinamentos de
“favor” e “mandavam” seus jogos em campos “emprestados”, a partir de relações
de amizade ou compadrio. No caso da Vila Edgar Werneck, por esta ser produto
de uma ocupação desordenada e pela alta densidade populacional, a importância
dos campos de futebol era ainda maior, pois eram as únicas áreas públicas de
lazer de toda a Vila, não havendo sequer uma praça pública.
As datas comemorativas como o Primeiro de Maio, o Sete de Setembro, o
Dia das Crianças, o aniversário de inauguração da cidade, a entrada da
Primavera e muitas outras eram motivo para a realização de torneios e de
amistosos51.

Ilustração 11 - "Diploma" de participação oferecido ao clube da Ponte Preta, pelo organizador do


torneio de futebol (jornal “O estado de Minas” e Rádio Guarani) , no final da década de 1950. (acervo
particular do Sr. Lenir Paulino).

51
Nome dado as partidas ou jogos de futebol que não fazem parte de torneios oficiais, patrocinados ou
organizados pelas federações de futebol, ou seja, não fazem parte de um calendário oficial, sendo
combinadas entre os próprios clubes. É muito comum a ocorrência de amistosos de futebol na várzea,
mesmo porque nem todos os “times” são filiados às federações.
56

Nestas partidas, a programação quase sempre começava mais cedo, com


partidas entre as “categorias de base” do clube, e em seguida, vindo o jogo de
veteranos. Por último, a atração maior: o jogo do time principal. Realizava-se aí, o
encontro de gerações e a presença da família, e mais, uma grande festa da
diversidade étnico-cultural, exibida nas cores e bandeiras dos oponentes,
provenientes de bairros de regiões diversas da cidade.

4.7 – Os dois clubes da Vila

A história dos clubes da Ponte Preta e do Tupinambás se confundem com


a própria história da Vila. Na década de 1940 havia apenas um clube que
representava os moradores da Vila, pelas várzeas de Belo Horizonte. Este clube
era o Tupinambás. O “time” dos ferroviários representava uma categoria de
trabalhadores, mas o Tupinambás era a territorialização do futebol, dos
sentimentos identitários de uma comunidade. Até meados dos anos 50, havia
somente o Tupinambás. Questões políticas (que serão levantadas adiante)
fizeram cindir o clube, e desta cisão surgiu o Ponte Preta Futebol Clube em 1952.
A Ponte Preta após fundação, o clube mais popular do bairro, está presente, além
do futebol, nas festas populares, como no carnaval.
O clube possui uma pequena sede social, construída a 35 nos atrás, sendo
o único espaço fechado que resta à comunidade em toda a Vila para a realização
de festas comemorativas como lugar de socialização, de encontros, de
conhecimento de novos integrantes da comunidade. A sede da Ponte Preta já foi
lugar de bailes de carnaval, local de eleição da associação dos moradores da Vila
(que ainda existe, mas não é ativa), da festa de malhação de Judas, de onde
partem os foliões e torcedores, nas festas que ocorrem após os jogos da seleção
brasileira, nas Copas do Mundo (ver em anexo 2).
Hoje a vida social do clube é decadente. A freqüência a sua sede é na sua
maioria de pessoas adultas ou mais experientes. Pouco se vêem adolescentes ou
jovens pelo recinto em dia de festas. Sua permanência como lugar de
socialização está ameaçado.
57

Ilustração 12 - Festa de rua que promovia o clube da Ponte Preta após os jogos da copa do mundo de
2006 - em destaque o boneco "Ronaldinho" (acervo particular do Sr. Lenir Paulino)

A chegada do metrô, o grande crescimento da região leste, aumentando


em muito o número de linhas de ônibus que circulam pelo bairro (que é rota de
passagem para outros bairros da região), a mudança dos hábitos de consumo, faz
com que os jovens procurem outros locais para o lazer.
O Tupinambás, após a cisão em 1952, manteve sob sua direção, a única
área de lazer pública em toda a Vila: o campo de futebol, localizado em frente ao
SENAI do “Horto”. O presidente vitalício, até sua morte, foi o Sr. Lima, mesmo que
a Sra. Conceição se refere como dono do campo (ver em anexo 1). Esta é a
principal querela política que acontece hoje, no cotidiano da Vila. O clube da
Ponte Preta, após a separação, teve o seu próprio campo para treinamento jogos
das partidas no qual era o mandante. Mas no final da década de 1960, em função
do rápido processo de urbanização da região, perdeu o direito de usar a área para
a prática desportiva.
A partir daí passou a usar o campo que o Tupinambás usava o antigo
campo de onde haviam saído. Mas a administração da área pelos dirigentes do
58

Tupinambás é questionada, por ser administrada como área privada e não como
área pública de lazer. De fato, o espaço, por ser uma raridade, é subutilizado.

Ilustração 13. - Campo do Tupinambás, ao fundo o bairro Esplanada e a Serra do Curral: Jogo
amistoso entre o Tupinambás (de vermelho) e um time do Bairro Tupi (foto do autor - 16/12/2006)

Somente uma pequena parte da comunidade que compõe a Vila é


beneficiada. Lideranças locais tentam criar um comitê comunitário, com
representantes de grupos locais, para assumir a administração da única área de
lazer que resta neste bairro.
Hoje, daqueles onze campos na página 49, restam quatro: o campo do
Tupinambás, o campo do Ferroviário, o campo da Pracinha (construído pela
Prefeitura Municipal como “política compensatória” após a urbanização e
arruamento dos dois campos do grotão, nos anos 80), e o campo do Pompéia.
59

4.8 – A Vila: contradições e conflitos atuais

A década de 1970 é uma década de rica história (de lutas e resistência) e


de significados. Nisso se incluem o auge da repressão e o fim da ditadura militar,
com a volta do estado democrático de direito e da explosão urbana, demográfica
e territorial. Os governos, tendo como instrumento a legislação municipal
específica, adotam medidas para regular o uso, o parcelamento e a ocupação do
solo. É desta época também a criação das Regiões Metropolitanas (RM’s).
Em Belo Horizonte, foi aprovada a “Lei de Uso e Ocupação do Solo” –
LUOS -, lei 2662/76 de 21 de dezembro de 1976. Foi a primeira tentativa
organizada e abrangente, de ordenação da produção do espaço na cidade, na
segunda metade do século XX. Esta lei é o marco inicial do novo ciclo de
intervenções e de uso de instrumentos urbanísticos, que visam o controle da
produção do espaço na cidade.

QUADRO 1 – BH – instrumentos urbanísticos (1976 a 2000)


CARACTERÍSTICAS SIGLA/NOME VIGÊNCIA APROVAÇÃO INSTRUMENTO
URBANÍSTICO
Normalizar regras LUOS Dezembro 21/12/1978 Lei 2662/76
de uso e ocupação de 1978 a
do solo abril de 1985
Normalizar regras LUOS Abril de 25/04/1985 Lei 4034/85
de uso e ocupação 1985 a
do solo dezembro de
1996
Definir diretrizes Plano Diretor Em vigor 28/08/1996 Lei 7165/96
para a gestão
urbana
Normalizar LPUOS Em vigor 28/081996 Lei 7166/96
parcelamento uso e
ocupação no solo
Definir - Em vigor 21/12/2000 Lei 8137/00
modificações na
LPOUS 7166/96
Fonte: BELO HORIZONTE, 1976, 1985, 1996, 2000.
60

A Vila Edgar Werneck, que por muito fora esquecida, volta a se fazer
presente na pauta dos planejadores e urbanistas da PBH. Em 27 de outubro de
1976 é editada no Diário Oficial do Município - DOM. – a resolução 0340, que
aprova o convênio que faz a PBH e a RFFSA, visando à reurbanização da Vila
Edgar Werneck. Assim é a redação original das duas primeiras cláusulas da
resolução:

“ I - A Rede, como legítima possuidora de um terreno na


Vila Edgard Werneck, nesta Capital, se obriga a transferir à
Prefeitura uma parte desse terreno, correspondente à área
aproximada de 385.000,00 m2(trezentos e oitenta e cinco mil
metros quadrados), situada à esquerda da Oficina e da linha
férrea, no sentido a partir de Belo Horizonte (sic), e a ser
caracterizada na forma constante da Cláusula III deste Convênio.
II - A transferência da área mencionada na Cláusula
anterior destinar-se á a permitir à Prefeitura a execução de projeto
de reurbanização da região, para seu melhor aproveitamento
estético, higiênico, econômico e social.52 “

Ilustração 14 - Placa oferecida pela associação dos moradores, em 1976, aos políticos da época
responsáveis pelo processo de regularização fundiária da Vila. (foto do autor em 16/05/2006)
O fato é que, com o processo rápido e intenso de periferização que
acontece em BH nos anos 70, a Vila passa a ser um lugar de passagem. A

52
BELO HORIZONTE. Prefeitura Municipal. Resolução 0340. Belo Horizonte: PBH, 1976.
61

expansão da área metropolitana habitada, uma articulação entre estado e


empresários do capital imobiliário, tem como conseqüência o parcelamento e o
loteamento de grandes terrenos, para consumidores de baixo poder aquisitivo.
Este processo é intenso na região leste de BH, tanto nos município de Sabará e
Santa Luzia, quanto no município de Belo Horizonte, na divisa com estes
municípios.
A vila sempre fora local de passagem para estas regiões da RMBH, mas o
transito era de pequena expressão. Com os novos bairros proliferando para além
da vila, o adensamentp populacional é intenso, e o fluxo de pessoas,
mercadorias, automóveis tem o seu volume em várias vezes multiplicado. A rua
Gustavo da Silveira passa a ser um corredor local de trânsito.

Ilustração 15 - Rua Gustavo da Silveira, principal corredor viário local, na parte que será duplicada.
(foto do autor em 03/06/2006)

Com isto as centralidades, os tempos e espaços de socialização começam


a ser quebrados, sobrando aqui e ali, restos e resíduos das antigas relações que
carregavam a simbologia e as representações das identidades que outrora se
estabeleceram. Novas identidades surgem, mas o ritmo do que se desfaz é muito
mais intenso do que o que se forma, se cria.
Para uma comunidade que por décadas, apesar da proximidade com a
área central de BH, se manteve distante pelas singularidades e peculiaridade já
62

citadas, os últimos 30 anos tem sido tempo de muitas e radicais transformações,


tanto na paisagem, quanto nas práticas espaciais. A regularização fundiária
realizada pela PBH, praticamente eliminou as relações pré-capitalistas que os
moradores mantinham com a propriedade: o valor de uso deixa o palco e entra o
valor de troca. As propriedades passam a fazer parte de um grande balcão de
negócios, que lhes dá um valor abstrato, de troca, regulado pelo poderoso
instrumento do mercado. Porém, comenta Ana Fani, sobre a análise de, e
inspirada em Lefebvre
cada vez mais os espaços, urbanos, transformados em
mercadoria, são destinados à troca, o que significa que a
apropriação e os modos de uso tendem a se subordinar (cada vez
mais) ao mercado. Porém, adverte: com essa idéia Henri Lefebvre
não quer dizer que o valor de uso tende a desaparecer em nossa
sociedade, tampouco que a homogeneização de fragmentos
dispersos e comercializados do espaço impliquem a prioridade
absoluta do valor de troca sobre o valor de uso. Trata-se de urna
tendência que não destrói a relação dialética entre valor de uso e
valor de troca, mas aponta para o modo como as contradições do
processo de produção do espaço, entre uso e troca, se realizam
no mundo moderno. O Uso invadido e submetido ao mercado, ao
valor de troca, se torna residual.53

A prefeitura, visando a adequação e o controle do espaço na/da Vila ao seu


padrão urbanístico, realiza varias intervenções e “cirurgias” no lugar. Os serviços
de saneamento, especificamente água e esgoto, chegam de fato à Vila no
começo da década de 1980. É inimaginável, hoje, pensar que uma vila de
trabalhadores de uma empresa pública, do porte da RFFSA, tão próxima do
centro da capital mineira, e cercada por bairros considerados de consumidores de
classe média, muito bem servidos pela prefeitura de serviços e com saneamento
básico de qualidade, ficasse 60, 70 anos à espera destes mesmos serviços, como
ficou a Vila Edgard Werneck.
Segundo o relato dos moradores da vila, nas ruas ou becos que tomavam a
direção do Ribeirão Arrudas (no sentido dos ravinamentos da encosta, que
existiam antes do processo de urbanização), a erosão era tamanha, que não
possibilitava o tráfego de carros ou qualquer veiculo de médio/grande porte de
transporte de pessoas ou mercadorias, que exigissem um mínimo e qualidade do

53
CARLOS, A.F.A. Espaço - tempo na metrópole. Editora Contexto, São Paulo, 2001. p.37-38
63

arruamento. A prefeitura então, no meio da década de 1980, resolve pavimentar


todas as ruas e becos da Vila.
Todavia algumas mudanças se mostraram traumáticas. É o caso da
mudança do nome das ruas e numeração das casas, que foram à muito,
designados pelos próprios moradores,
a maioria destes nomes inspirados na
religião católica, hegemônica à época.
Para a adequação ao novo padrão
urbanístico imposto pela prefeitura,
novos nomes e numeração foram
criados. Para se constatar isto, basta
ver as inúmeras leis que foram

Ilustração 16 - placas da numeração das casas, aprovadas nas três ultimas décadas,
fixadas nas fachadas e muros da vila Edgard
Werneck (foto do autor em 15/09/2006) alterando o nome de ruas da Vila
(anexo 3 - Decreto 4231 de 10 de Maio de 1982). Mas isto trouxe inúmeras
reclamações e algumas resistências. Sucede que a Vila era uma unidade
territorial com uma paisagem singular,
fruto da ocupação não ordenada, o
que gerava uma descontinuidade das
suas ruas e becos, nos limites da Vila
com os outros bairros, notadamente o
Bairro Sagrada Família. Portanto as
ruas, produto do planejamento urbano
do Sagrada Família, quando se
encontravam com as da Vila no seu limite , davam com ruas mais estreitas ,
becos, vielas, que nem sempre estavam alinhadas ou geometricamente
ordenadas com a espacialidade orgânica que ali se apresentava.
A prefeitura fez algumas adaptações e intervenções no local de encontro
destas, transformando duas ruas em uma única. O novo nome quase sempre era
o proveniente da rua do Bairro Sagrada Família, e a numeração alterada,
respeitando-se a seqüência do ultimo número desta (ver Decreto 4231 de 10 de
Maio de 1982 – anexo 5). Alguns moradores resistem até hoje, passados 20, 30
anos destas mudanças, conforme podemos ver nas fotografias que registrei.
64

4.9 – A duplicação da Rua Gustavo da Silveira.

A última intervenção programada pela PBH é a duplicação de parte das


ruas Conselheiro Rocha e Gustavo da Silveira, em um trecho de cerca de 640 m.,
que começa na Rua Silviano Brandão, pssando em frente a estação Horto do
metrô, seguindo mais algumas centenas de metros e interrompendo-se. No
projeto consta uma rua de pista dupla e canteiros centrais.

Ilustração 17 - Parte da Rua Gustavo


da Silveira que será duplicada. Foto
tirada de dentro da estação Horto do
metrô. (foto do autor em 15/08/2006)

Esta intervenção estava


planejada a alguns anos, pois
após a década de 1970, o
crescimento do fluxo de carros
pela rua é imenso, com um
aumento expressivo nos
últimos cinco anos, e existe um estreitamento da rua em frente a estação Horto do
metro, que não permite a passagem
de dois caminhões ou ônibus, o que
provoca grandes congestionamentos
nas horas de “pico”.
Para a simples melhoria do
trafego, uma intervenção neste local
seria suficiente, não fosse o
aumento do número de carros a
que me referi. Além do que, a rua é
uma importante instrumento de Ilustração 18 - Casa demolida para obra de duplicação da
Gustavo da Silveira. (foto do autor em 02/10/2006)
ligação, um corredor de trânsito
local, entre duas importantes avenidas da região leste de BH: a Silviano Brandão
e a José Candido da Silveira, e um elo que interliga as três estações do metrô
desta região.
65

O que se pensa entre os moradores da região é que esta duplicação será


aplicada a toda extensão da Gustavo da Silveira, que é a rua que corta ao meio a
Vila Edgard Werneck. De fato, somente a primeira parte (os 640 metros citados)
da duplicação esta aprovada, mas
está claro aos olhos da comunidade
a continuidade das obras, e a
duplicação de toda a rua. Todas
casas já foram desapropriadas (ver
anexo 3 - Decreto 12287, de 16 de
Janeiro de 2006) e algumas já foram
demolidas. As primeiras demolições

Ilustração 19 - casa demolida, situada em frente a foram no mês de outubro e a PBH


estação Horto do metrô (foto do autor em 17/09/2006)
não informou a data para o termino
das obras.
Como conseqüência destas transformações, algumas evidencias já se
apresentam. Os valores dos imóveis da Vila estão aumentando muito alem da
media da região. Um bom exemplo ocorre no conjunto habitacional Valdemar
Diniz Henriques, localizado cerca de 600 m. adiante, na Gustavo da Silveira. Os
apartamentos, em um ano tiveram um aumento no seu valor de mercado de cerca
de 30%.

5 – Considerações finais

O impacto que a duplicação da Gustavo da Silveira trará a vila não pode


ser mensurado hoje. Só se sabe que será imenso e devastador. Pouco restará
das relações de identidade, da paisagem e das relações sociais espacializadas
nas ruas, becos, vielas e campos da Vila. Outra coisa é certa: a autonomia e as
singularidades da/na produção do espaço, que foram um dia, características que
se faziam presentes nas representações que os moradores, consciente ou
inconscientemente, tinham sobre eles mesmos, cada vez mais sucumbe ao
processo de homogeneização do espaço. Certo é que ainda há muito à ser
estudado sobre o processo de produção do espaço na/da cidade de Belo
Horizonte
66

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16 dezembro 2006.

ANEXOS
ANEXO 1
Entrevista com A SRª. Conceição Batista Vieira, 79, realizada em
29/09/2006.
...A Central (EFCB) mandou um mucado de gente vir do interior pra bh. Desde de
que nos casamos , meu marido trabalha na Central. Aquela vida sufrida que não
tinha mais “lugar”. Àquela época não usava mulher de trabalhar. Quando
apareceu a oportunidade de vir para cá (bh), meu marido achou que era a
solução. Eu falava com o Zé: - Nois não tem casa aqui, lá também não vamu ter.
Nois não tinha casa em Sete Lagoas pra vender pra comprar aqui...
....O salário não dava pra nada. Tinha o armazém. Lá tinha um caderno. Lá não
tinha feijão. Tinha arroz, tinha banha...aquela banha Diniz, um sabão amarelo em
pedaço, cheio de soda, que tirava a pele da gente. Feijão nunca tinha. Lata de
sardinha tinha. O salário ficava todo. E o Zé ainda era muito descabeceado...

....O ano foi 1958...em abril de 1959...Viemos num carro da Central. Trouxe tudo
que a gente tinha. Nos ficamos aqui na Rua Santo Agostinho, nuns comoduzinho
do Seu Antônio. Ele alugou treis cômodos. Lá ficamos um ano. Dela fomos lá para
a Silva Freire. Ficamos de aluguel. Depois uma tal Dona Lia, que tinha um
açougue aqui pra cima...aí (na parte mais alta da Vila) já é umas casas
melhores...Ficamos (morando) de aluguel muito tempo, de 59 à 72....

...Tinha uma casa velha aqui, ruim, mas ruim mesmo. Aí eu consegui alugar. A
casa, ela tinha uma beirada pra este lado aqui, aonde é esse barracão (onde
estávamos fazendo a entrevista). Aí a vizinha falou: -Oo Conceição, se você
conversar com o Sr. José Jacinto (o proprietário), ele deixa você construir um
barracãozinho aqui. Ele era maquinista. Eu falei com ele, se ele me ajudava a
ponto de me dar esta nesga.
- Aqui é assim ( mostra com as mãos o formato do lote): um coador! Aí ele falou:
- Você pode fazer! Aí, quando a esposa dele ficou sabendo, ele não deixou:
- Não! Tem que ser vendido. Ela arrumou uma amizade com o Lacorte. O Lacorte
era muito brusco:
- Eu dou um jeito que ela vai ter que pagar. O Lacorte era da Central também. O
Lacorte era um...uma pessoa que governava a Vila. Quem ele queria, eles davam
até um pedaço pra construir aqui. Quem ele não queria, não conhecesse, eles
não deixavam.
Paguei duas prestações na promissória. Aí alguém falou comigo...Porque eu não
tinha grande conhecimento das coisas...Vai na rua Sapucay e procura o
advogado da Rede (RFFSA). Aí eu cheguei lá e eles falaram que não era lá: - É
lá na Rua Varginha. Fui lá. Procurei o advogado. Ele não tava. Aí as pessoas
boas da Rede me chamou pra conversar. Aí eu falei pra eles:
- O sr. José Jacinto, ele já tá aposentando, e eu conversei com ele à respeito de
um pedacinho de terra pra mim fazer...pro meu marido fazer ( um barraco)...Pra
mim acabar de criar meus filhos sem pagar aluguel. Aí eles falaram assim:
70

- Peraí que nos vamos dar um jeito pra senhora. Foram num tal de Lima. Um
fulano de tal Lima que era dono deste campo aqui, ó (apontando em direção ao
campo do Tupinambás). Aí o Sr. Lima veio. O que esse homi fez pra mim ...
Nossa senhora, ela já morreu...Se eu pudesse, eu tinha vontade de homenagear
esse homem. De tão bom que esse homi foi pra mim nesse dia. Aí ele falou
assim:
-O José Jacinto já ta esperando pra aposentar. Ele não pode vender o terreno
não! Ele não pode vender o que não tem. Porque o terreno da rede é pra se
morar. Não é pra vender pra ninguém. Mas eu falei assim:
-Não foi ele (o sr. José Jacinto). Ele me deu. Mas a esposa dele não deixou!
- E ela, o que que ela é?
- Ela é dona de casa. Ela não tem nada não. Ela não trabalha na Rede não!
Bateram tudo lá, num sabe (fazendo o gesto de quem escreve usando uma
máquina de escrever , batendo com os dedos na mesa). Encheu um envelope
grande amarelo, como...daquele processo contra o sr. José Jacinto...q ele estava
vendendo coisa que não era dele, pertencia a união, que não era dele e tudo, e
mandou eu assinar e tudo.
Fiquei o dia interim lá! E eles botaram aquilo no correio e mandou pra Mogi das
Cruzes. Daí até esqueci daquilo. Foi passou uns dias, chegou o Lacorte. Eu tava
trabalhando na creche do aqui do lado.

Eu já tava era dentro do... só que não era aqui. Era uns treis cômodo aqui pra
botar meus menino dentro. Ele chegou chamando aqui...coisa e tal ....os menino é
que atendeu que eu não tava aqui...e falaram : mamãe não tá aqui não..ela ta
trabalhando na creche....tava na hora do almoço...quando chegou uma pessoa
me chamando....eu falei:
- meu deus do céu, quem que é? Era ele....e eu:
- que que é? Ele falou assim:
- nossa senhora, vamu lá comigo agora, lá na rua Varginha, você deu parte do Sr.
José Jacinto por causa que ele vendeu o terreno pra de você. Num pudia fazer
disso não. Eu falei:
- num pudia é ele querer que eu pagasse sem eu ter condição...
-Não, vamu comigo lá! E nisso eu fui lá dentro...mexia com as irmã de
caridade...falei com elas e elas deixou eu sai; entrei no carro com ele e fomo pra
lá.
Chegando lá tava o Sr. José Jacinto sentado e a mulher dele. Chamava dona
Efigênia. E eu cheguei. Aí eu falei:
-Tô atendendo um chamado. Ele falou (o suposto advogado da RFFSA) assim:
- A senhora prova que o Sr. José Jacinto vendeu os terrenos pra srª.? Eu nunca
falei mentira. Eu falei:
- Ele me deu, mas a mulher dele vendeu através do Lacorte. O Lacorte fez tudo
pra ela vender. Inclusive tem um xérox das duas promissórias grampeadas no
processo...Ele falou assim:
-Pois é, enquanto você (o Sr. José Jacinto ) não deslindar isto, você não vai
aposentar. E era o que ele mais queria era aposentar. E tô calada...Eu falei a
verdade. Eu ( pedi? 22” 17)...A dona Efigênia não trabalha na central...e eu
também não trabalho mais eu pedi ele, o que trabalha, né? Aí ele...o advogado
tava assim (por perto ? 22’ 34) e falou assim:
71

-Ô seu Jacinto, o que vou sugerir a vocêi é o seguinte:...ta na presença da sua


dona aí, você vai dar pra ela esse terreno,que ela já construiu...
Porque eu falei:
-Eles querem que eu devolva o barracão...
Nó minino, mas foi coisa... pesada pro lado dele. Aí ele falou:
-Não! Vocês é testemunha que eu dei pra ela o terreno...eu dei, eu não vendi.
Aí eu...(23”14’)... Como diz o dedo de Deus falei:
-Levo ferro! Levo ferro, a gente não deve vender o que a gente não... ele não
compro pra vende? Não tem (...23” 28’)...da Central do Brasil? Como é que ocê
vai vender uma coisa que...tem que vende o que é seu, né. Aí o advogado falou
assim:
- Ocê promete...aqui... que ocê não vai incomodar eles mais não? Ele falou assim:
-Prometo...prometo...eu dei...eu não moro aqui...eu não moro aqui, eu moro em
São Paulo...tem tantos anos que eu moro lá! Eu dô, já dei, já falei que dô pra ela
e...eu quero é que vocês limpa, tira isso da minha fixa porque eu quero é
aposentar, o que me interessa é a aposentadoria! E aí ele falou:
-Bom, então você vai dá...tá dado pra ela...assina.
Ele assinou os papel, mandaram a mulher dele assiná...e me entregar. Fico
resolvido.
O Zé falava assim:
-Nossa, como você...ocê é louca.
Eu falei:
-O que é isso?, eu sou louca, eu gosto é das coisa certa. Ué...ele vem me
incantuô, não era ocê que eles tava incantuando, incantuava eu.
O Lacoste vinha aqui, me incantuava e me perguntando que horas que eu ia sair
que ele ia mandar o Bola vir pra derrubar o meu barraco. Vinha!...vinha...!vinha e
eu fiquei...teve dia que eu falei com ele. O Zé saiu do serviço e falou assim:
-Ó, se chegar gente aqui, e falando que ia fazer... vai derrubar o barracão, você
não sai de dentro de casa, ocê fica dentro de casa... mas não veio ninguém não.
Eu falei:
-Pode deixar.
Depois eu pensei:
-Etâ home ruim minino, só se vendo.
Mas aí eu falei...agora...eu falei com o advogado que a senhora dele , a dona
Efigênia, ela faz tudo isso, porque o Lacoste, todo mundo obedecia ele. O
Lacoste,ele junta com ela e ensina a ela a fazer esta coisa aí, e faz pra ela.(...) Foi
com muito luta que eu adquiri esse pedaço aqui que eu não pago aluguel. Foi fácil
não...não foi fácil não. (...)Zé ficou bobo...INTERVENÇÃO SUA...(26”15’)
-Era o terreno da Rede,...
-Tinha gente que tomava terreno muito grande, não precisava como ainda tem aí
gente por aí que tem “terrenão”.
-Mais ou menos,(terreno) regularizado assim porque eu, por exemplo...esse povo
aqui da frente, por exemplo dessa casa aqui tem um mundo de terreno aí ó, eu
aqui ó, não tenho nada. No meu terreno, eu quero...se quiser fazer mais um
cômodo, eu não consigo, eu não tenho, eu posso é puxar para cima. Mas eu num
importo não, porque também eu não comprei. (A rede) deixava
72

ANEXO 2
Reportagem do jornal “O tempo” de 27 de junho de 2006.
73

ANEXO 3
Legislação municipal sobre A Vila Edgard Werneck

Resolução 0340 de 27 de Outubro de 1976

"APROVA CONVÊNIO QUE, ENTRE SI FAZEM A PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO


HORIZONTE E A REDE FERROVIÁRIA FEDERAL S.A., OBJETIVANDO A REURBANIZAÇÃO
DA ÁREA NA VILA EDGARD WERNECK".

A Câmara Municipal de Belo Horizonte decreta e promulga seguinte Resolução:


Art. 1.º - Fica aprovado o Convênio que, entre si fazem a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e a Rede
Ferroviaria Federal S.A., objetivando a reurbanização de área na Vila Edgard Werneck, na forma abaixo:
Entre a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, nestas instrumento denominada simplesmente Prefeitura,
representada por seu Prefeito, Eng.° Dt Luiz Verano, presentes também os Exmos. Srs. Ten-Cel.-PM
Adhemar Ferreira Dutra Júnior, Secretário Municipal de Administração; Dt Evandro Barbosa, Secretário
Municipal da Fazenda; Dt Martim Francisco Coelho de Andrada, Vice-Presidente do Conselho Municipal
do Desenvolvimento; e Dt Nelly de Morais Silva, Procurador Geral do Município, e a Rede Ferroviária
Federal S.A., aqui denominada simplesmente Rede, como sede e administração geral na Praça Duque de
Caxias, 86, na cidade do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro, representada por seu Presidente, Eng.°
Stanley Fortes Baptista e pelo St Diretor Engenheiro Napoleão Goretti, tem ajustada e combinada a cessão
de uma área de terreno, situada na Vila Edgard Werneck, nesta Capital, sob as seguintes cláusulas e
condições:
I - A Rede, como legítima possuidora de um terreno na Vila Edgard Werneck, nesta Capital, se obriga a
transferir à Prefeitura uma parte desse terreno, correspondente à área aproximada de 385.000,00 m2(trezentos
e oitenta e cinco mil metros quadrados), situada à esquerda da Oficina e da linha férrea, no
sentido a partir de Belo Horizonte, e a ser caracterizada na forma constante da Cláusula III deste Convênio.
II - A transferência da área mencionada na Cláusula anterior destinar-se á a permitir à Prefeitura a execução
de projeto de reurbanização da região, para seu melhor aproveitamento estético. higiênico, econômico e
social.
III - Caberão à Prefeitura, sob sua responsabilidade e ônus, todos os serviços necessários ao levantamento e
caracterização topográficos da área a lhe ser transferida, ficando o respectivo desenho como parte integrante
deste Convênio.
IV - Todas as obras e serviços relacionados com a reurbanização citada nas Cláusula II, assim como as
providências que se tornarem necessárias a possíveis desfavelamento e desocupação de terreno no local,
correrão à responsabilidade, e ônus da Prefeitura.
V - À Prefeitura, na qualidade de adquirente do imóvel a ser reorganizado, caberá promover, a quem e como
lhe convier, a venda dos lotes de terreno que venham a resultar da reurbanização a ser projetada e executada,
obrigando-se, no entanto, a vender aos ferroviários, empregados da Rede, os terrenos pelos
mesmos atualmente ocupados, ainda que modificados pela citada reurbanização da área.
VI - Por ocasião da venda dos lotes de terreno referida na cláusula anterior, a Prefeitura exigirá, como uma
das condições de habilitação do promitente-comprador, o comprovante de quitação, a ser fornecido pela
Rede, relativo à permissão de uso pela mesma concedida da área de terreno até então ocupada.
VII - Pela efetivação da compra e venda de que trata este convênio, a Prefeitura pagará à Rede, na forma
constante de laudo avaliatório, a importância de CrS 7.700.000,00 (sete milhões e setecentos mil cruzeiros),
em forma e prazo a se avençarem e que ficarão consignados na escritura definitiva de cessão a ser lavrada e
da qual as despesas porventura incidentes correrão por conta e responsabilidade da Rede.
VIII - De conformidade com o que a respeito preceitua a Lei Complementar Estadual n.° 3, de 28 de
dezembro de 1972, a cessão e os demais ajustes acertados neste convênio, notadamente os relacionados com
as obrigações da Prefeitura, ficarão dependentes de autorização legislativa da Egrégia Câmara de Vereadores
do Município de Belo Horizonte, inclusive quanto à avaliação do imóvel.
74

IX - E assim justas e combinadas, as partes assinam o presente convênio, lavrado em livro próprio da
Procuradoria Geral do Município, juntamente com duas testemunhas, e de que se extrairão cópias
autenticadas para os fins legais, sendo o Presidente Stanley Fortes Baptista, representado pelo bastante
Procurador, Dt Napoleão Goretti, conforme procuração anexa.
Belo Horizonte, 6 de abril de 1976.
(a.) Luiz Verano - Prefeito.
(a.) Adhemar Ferreira Dutra Júnior - Ten. Cel. PM - Secretário Municipal de
Administração.
(a.) Evandro Barbosa - Secretário Municipal da Fazenda.
(a.) Martim Francisco Coelho de Andrada - Vice-Presidente do conselho Municipal
do Desenvolvimento.
(a.) Nelly de Morais Silva - Procurador Geral.
(a.) Stanley Fortes Baptista - Presidente da REDE.
(a.) Napoleão Goretti - Diretor da REDE.
Testemunhas:
(a.) Ivone Borges Botelho.
(a.) José Lopes Brangança.
Art. 2.° - Revogadas as disposições em contrário, esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
Mandamos, portanto, a quem o conhecimento e a execução desta pertencer, que a cumpra e a faça cumprir,
tão inteiramente como nela se contém.
Belo Horizonte, 27 de outubro de 1976.
(a.) Obregon Gonçalves - Presidente.
(a.) Nilton de Oliveira - Secretário.
Publicada no "Minas Gerais" em 11-11-76.

Resolução 0017* de 5 de Novembro de 1936

DISPÕE SOBRE LIMITES DAS ZONAS RURAL E URBANA DE BELLO HORIZONTE

*Revogada pela Lei nº 6370, de 12.08.93 Revogada pela Resolução nº 1984/94

O povo do Municipio de Bello Horizonte, por seus Vereadores decretou e eu, em seu nome, sancciono a
seguinte resolução :

ARTIGO 1.º - Para effeito de incidencia de impostos e taxa, previstos na legislação municipal, fica o
Municipio de Bello Horizonte dividido em tres zonas : urbana, suburbana e rural.

§ Unico - O limites entre as zonas urbana e suburbana são os estabelecidos na legislação estadual.

ARTIGO 2.º A zona suburbana será comprehendida pela, seguinte linha de perimetro: partindo do marco do
Cardoso, até attingir a Villa Paraizo, abrangendo-a até o kilometro cinco da estrada de Nova Lima; deste
ponto, seguindo pelas divisas dos Parques Cruzeiro do Sul, Vera Cruz, abrangendo-o até à repreza de Freitas,
dahi seguindo do lado esquerdo da Estrada de Ferro Central do Brasil, em direcção a Marzagão, voltando
para abranger toda a villa Marianno de Abreu, até á Esplanada das Officinas do Horto Florestal, dahi segue
abrangendo as villas Edgard Werneck, São João, Mauá, Maria Brasilina, Silveira, Nova Floresta, Campos
Elyseos, Mello Vianna, Aurora, Humaytá, Villa Cachoeirinha e Maria Apparecida; dahi, em linha recta, até
Villa Amaral, abrangendo-a, em seguida, as Villas São Geraldo, Santa Helena, Futuro, Minas Geraes, Celeste
Imperio e Bella Vista, até encontrar o Ribeirão Arrudas, subindo pela margem direita deste até a Villa
Ambrozina, e abrangendo mais as villas Atlantida, Jardim America, São Domingo s até a Escola desta Villa,
e, dahi até o marco de pedras da primitiva triangulação da cidade, seguindo pela linha de perimetro desta
triangulação, passando pelos marcos Cercadinho, Boa Vista, Rabello, Ponta, Serra e Pico, e deste até
encontrar o marco do Cardoso onde teve inicio.

§ Unico - Ficam tambem sujeitas aos impostos e taxas da zona suburbana, as sub-divisões de terrenos do typo
de "villas", que, embóra fóra do perimetro estabelecido neste artigo, estejam ou venham a ser approvadas
pela Prefeitura.
75

ARTIGO 3.º - Sobre toda a parte restante do Municipio, que constituirá a zona rural, incidirão os impostos
privativo dessa zona, exceptuadas as sedes dos povoados de Venda Nova e General Carneiro, que pagarão os
impostos de zona suburbana.

ARTIGO 4.º - Os termos situados dentro do perimetro descripto no artigo segundo que tenham destino
proprio de predio rustico ficarão apenas sujeitos aos impostos de zona rural.

ARTIGO 5.º - Revogam-se as disposições em contrario.

Mando, portanto, a quem o conhecimento e execução desta resolução pertencem, que a cumpra e faça
cumprir tão inteiramente como nella se contém.

Bello Horizonte, 5 de novembro de 1936.

O PREFEITO - a) OCTACILIO NEGRÃO DE LIMA


Publicada e registrada nesta Inspectoria do Expediente e Communicações, aos cinco dias do mez de
novembro de mil novecentos e trinta e seis.

O INSPECTOR - a) JOÃO LUCIO BRANDÃO

Portaria 0066 de 31 de Agosto de 1931

O Prefeito de Bello Horizonte, usando de attribuições legaes, resolve modificar o expediente relativo aos
requerimentos para approvação de projectos de construcção, pela forma abaixo:
Art. 1º. O pedido de approvação deprojecto para construcção implica, tacitamente, no pedido dos outros
elementos como alinhamento, nivelamento, ligações de aguga e exgotto ou placa de numeração, necessarios á
construcção.
Art. 2º. Recebido o requerimento solicitando a approvação de um projecto de construcção, pelo Protocollo
Geral, este departamento o remetterá, no mesmo dia, á Directoria Geral de Obras, que organizará as fichas
necessasrias (modelos 1 e 2), e decorrentes da natureza da approvação solicitada, distribuindo-as pelas suas
Sub-Directorias e enviará o requerimento á Directoria do Patrimonio.
Art. 3º. Prestadas as informações que forem necessarias, a Directoria do Patrimonio devolverá á Directoria
Geral de Obras o processo, ao qual serão annexadas as fichas, igualmente já informadas.
Art. 4º. O alvará (modelo 3), será expedido então, após o pagamento detodas as taxas devidas, isto é, relativas
á approvação do projecto, ao alinhamento e nivelamento, agua e exgotto ou placa de numeração.
Art. 5º. A dispensa de um ou mais desses elementos necessarios á construcção, dictada por circumstancias
especiaes, a juizo do Directo Geral de Obras, dispensa igualmente o respectivo emolumento.
Art. 6º. Para os effeitos desta Portaria, para o rapido fornecimento dos elementos alludidos, e,
consequentemente, para maior rapidez na marcha dos requerimentos pedindo approvação de projectos, a
cidade será dividida em 8 districtos.
Art. 7º. Será a seguinte distribuição das differentes zonas:
Primeiro Districto - 1ª zona urbana, 2ª zona ur- zona, 3ª zona urbana, 9ª zona urbana, 14ª zona urbana.
Segundo Districto - 4ª. Zona urbana, 5ª zona urbana, 6º zona urbana 7ª zona suburbana, Ex-Colonia
"Adalberto Ferraz".
Terceiro Districto - 10ª zona urbana, 11ª zona urbana, 2ª zona suburbana e Ex-Colonia "Affonso Penna".
Quarto Districto - 8ª zona urbana, 12ª zona urbana, 3ª zona suburbana, Calafate, inclindo as Villas Jardim
America, Nova Granja, Ambrosina, Atlantida, Nova Suissa, Marinhos, Progresso, Pedro II, Adelina.
Quinto Districto - Ex-Colonia Carlos Prates, Villas: Angelica, S. Leopoldo, Santana, Santa Therezinha, S.
Geraldo,Futuro,BellaVista, Santa Rita, SantosDumont, Celeste Imperio, Minas Gares, Alvina.
Sexto Districto - 6ª zona suburbana, Villas: SantoAndré, Palmital, Adelia, Lagoinha, Marira Apparecida,
Concordia, Renascença, Canadá, Cachoeirinha, Mello Vianna, Aurora, Palmares, Parque Riachuelo.
Setimo Districto - 7ª zona suburbana, Ex-Colonia Americo Werneck, Villas: Esplanada, Independencia,,
Mariano de Abreu,Edgard Werneck, S. João, Silveira, Maná, Nova Floresta e Bairro da Graça.
Oitavo Districto - 13ª zona urbana, 8ª zona suburbana, Ex-Colonia Bias Fortes,Villas: Parque Cidade Jardim,
Novo Horizonte, Cruzeiro do Sul, Vera Cruz.
Art. 8º. A Directoria Geral de Obras distribuirá os funccionarios e encarregadosactuaes de modo a que em
cada districto haja 1 topographo e demracador, 1 fiscal de construcções, 1 ledor de hydrometros, 1
encarregado dos serviços de agua e 1 encarregado dos serviçosde exgotto.
76

Art. 9º. As normas do expediente, reguladas por esta Portaria, entrarão em vigor no dai 8 de setembro
proximo.
Bello Horizonte, 31 de agosto de 1933 - (a.) Octavio Penna, Prefeito.
77

Lei 7952 de 3 de Março de 2000

ALTERA DENOMINAÇÃO DE RUAS NAS VILAS MAUÁ, SÃO JOÃO E EDGARD WERNECK.

O Povo do Município de Belo Horizonte, por seus representantes, decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º - Ficam denominados, nas vilas Mauá, São João e Edgard Werneck:
I - Santo Agostinho o trecho da Rua São Jerônimo (cód. 79.102) situado entre as ruas Paissandu e Gustavo da
Silveira;
II - São Joaquim o trecho da Rua Santo Agostinho (cód. 61.557) situado entre as ruas João de Paula e
Gustavo da Silveira;
III - São Roque o trecho da Rua São Joaquim (cód. 62.940) situado entre as ruas Cabrobó e Mário Ventura
Marinho;
IV - São Luiz o trecho da Rua São Roque (cód. 63.600) situado entre as ruas Cabrobó e Florestal;
V - São Marcos o trecho da Rua São Luiz (cód. 63.275) situado entre as ruas Cabrobó e Silva Freire.
Art. 2º - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Belo Horizonte, 03 de março de 2000

Célio de Castro
Prefeito de Belo Horizonte

(Originária do Projeto de Lei nº 1.369/99, de autoria do Vereador Marco Antônio


Menezes)

Lei 6744 de 11 de Novembro de 1994

DÁ O NOME DE JANUÁRIO LAURINDO CARNEIRO À ATUAL RUA E, NO BAIRRO EDGARD


WERNECK.

O Povo do Município de Belo Horizonte, por seus representantes, decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1° - Passa a denominar-se Januário Laurindo Carneiro a atual Rua E (cód. 130743), no Bairro Edgard
Werneck, nesta Capital.
Art. 2° - O Executivo providenciará a colocação de placas indicativas, bem como a devida comunicação à
Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, CEMIG, COPASA e TELEMIG.
Art. 3° - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, revogando as disposições em contrário.

Belo Horizonte, 11 de novembro de 1994.

Patrus Ananias de Sousa


Prefeito de Belo Horizonte

Lei 6538 de 8 de Fevereiro de 1994

DÁ O NOME DE APOLINÁRIO ANTÔNIO GONÇALVES À ATUAL RUA B, NA VILA EDGARD


WERNECK.

O Povo do Município de Belo Horizonte, por seus representantes, decreta e eu


sanciono a seguinte Lei:

Art. 1° - Passa a denominar-se Apolinário Antônio Gonçalves a atual Rua B (cód. 130.696), na Vila Edgard
Werneck, nesta Capital.
78

Art. 2° - O Executivo providenciará a colocação de placas indicativas bem como a devida comunicação à
Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, CEMIG, COPASA e TELEMIG.

Art. 3° - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, revogando as


disposições em contrário.

Belo Horizonte, 08 de fevereiro de 1994.

Patrus Ananias de Sousa


Prefeito de Belo Horizonte

Lei 6442 de 9 de Novembro de 1993

DÁ O NOME DE JOSÉ MATEUS FILHO À ATUAL RUA A DO BAIRRO VILA EDGARD


ERNECK.

O Povo do Município de Belo Horizonte, por seus representantes, decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1° - Passa a denominar-se José Mateus Filho a atual Rua A do Bairro Vila Edgard Werneck, nesta
Capital.

Art. 2° - O Executivo providenciará a colocação de placas indicativas, bem como a devida comunicação à
Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, CEMIG, COPASA e TELEMIG.

Art. 3° - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, revogando as


disposições em contrário.

Belo Horizonte, 09 de novembro de 1993.

Patrus Ananias de Sousa


Prefeito de Belo Horizonte

Lei 2725 de 13 de Abril de 1977

"AUTORIZA A ABERTURA DE CRÉDITO ESPECIAL NO VALOR DE CR$ 8.213.144,90 OITO


MILHÕES, DUZENTOS E TREZE MIL, CENTO E QUARENTA E QUATRO CRUZEIROS E
NOVENTA CENTAVOS) PARA ATENDER ÀS DESPESAS DECORRENTES DOS ONVÊNIOS
ESPECIFICADOS".

O Povo do Município de Belo Horizonte, por seus representantes, decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. lº - Fica o Prefeito Municipal de Belo Horizonte autorizado a abrir Crédito Especial no valor de Cr$
8.213.144,90 (oito milhões, duzentos e treze mil, cento e quarenta e quatro cruzeiros e noventa centavos)
para atender às despesas decorrentes dos convênios especificados.

I - Convênio especial de cooperação mútua que, entre si, firmam a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e
a Prefeitura Municipal de Contagem, para possibilitar a conclusão do denominado "Viaduto do Barreiro".
Valor do Convênio Cr$ 513.144,90 (quinhentos e treze mil cento e quarenta e quatro ruzeiros e noventa
centavos).

II - Convênio que, entre si, fazem a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e a Rede Ferroviária Federal
S.A., objetivando a reurbanização de área na Vila Edgard Werneck. Valor do Convênio Cr$ 7.700.000,00
(sete milhões e setecentos mil cruzeiros).
79

Art. 2º - Para atender às despesas decorrentes da execução desta Lei, fica o Poder Executivo autorizado a
aplicar os seguintes recursos, na forma do § 1º, do art. 43 da Lei Federal nº 4320, de 17 de março de 1964,
que estatui normas de direito financeiro:

I - 0 "superavit" financeiro apurado em balanço patrimonial do exercício anterior;

I I - Os provenientes de excesso de arrecadação;

III - Os resultantes de anulação parcial ou total de dotações orçamentárias ou de créditos adicionais


autorizados em lei; e

IV - O produto de operações de créditos autorizados em forma que, juridicamente, possibilite ao Poder


Executivo realizá·las.

Art. 3º - Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Mando, portanto, a quem o conhecimento e a execução da presente Lei pertencer, que a cumpra e a faça
cumprir, tão inteiramente como nela se contém.

Belo Horizonte, 13 de abril de 1977.

O Prefeito (a.) Luiz Verano

Publicada no "Minas Gerais" de 14 de abril de 1977

Decreto 12287 de 16 de Janeiro de 2006

DECLARA DE UTILIDADE PÚBLICA, PARA FINS DE DESAPROPRIAÇÃO, IMÓVEIS


SITUADOS NA
VILA EDGARD WERNECK, NESTA CAPITAL.

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de suas atribuições legais e de acordo com o que lhe faculta o
Decreto-Lei Federal nº 3.365 de 21 de junho de 1941,
Decreta:
Art. 1º - Ficam declarados de utilidade pública, para fins de desapropriação de seu pleno domínio, a se
efetivar mediante acordo ou judicialmente, os imóveis abaixo indicados, situados na Vila Edgard Werneck,
assim como suas edificações e demais benfeitorias, se houver:

I - terrenos e benfeitorias localizados na Rua Conselheiro Rocha, CP 87-1-K, de propriedade presumível


das pessoas abaixo mencionadas, com a seguinte numeração:
a) n° 3.885, com área de 51,50 m², n° 3.887, com área de 48,30 m², e n° 3.891, com área de 68,70 m²,
todos de Maria Lucília Loureiro;
b) n° 3.917-A, com área de 130,50 m², e n° 3.917-B, com área de 130,50 m², ambos de José Firmino
Bitencourt;
c) n° 3.929-A, com área de 201,70 m², e n° 3.929, com área de 54,40 m², ambos de Wagner Salomão Sadi;
d) n° 3.939, com área de 26,00 m², de Amélia Anacleto Corrêia;
e) n° 3.963, apto. 02, com área de 106,50 m², n° 3.963-B, com área de 106,50 m², e n° 3.963, apto. 01, com
área de 72,60 m², todos de José de Souza Carmo;
f) n° 3.979-A, com área de 37,60 m², n° 3.979, com área de 73,70 m², n° 3.993, sobreloja, com área de
80,40 m², n° 3.993, com área de 80,40 m², n° 3.995, com área de 80,40 m², n° 3.995-A, com área de 80,40
m², n° 3.999, com área de 64,00 m², n° 3.999-A, com área de 30,40 m², n° 4.013, com área de 62,20 m², n°
4.019, com área de 63,80 m² e n° 4.025, com área de 42,60 m2, todos do Espólio de Manoel Loureiro;
g) n° 4.053, com área de 160,20 m², de Terezinha Salomão Massud;
h) n° 4.065-A, com área de 273,70 m², e n° 4.065, com área de 415,80 m², ambos de Geraldo Galinari
Filho;
i) n° 4.095-A, com área de 209,30 m² e n° 4.095, com área de 610,60 m², ambos de Carmen Andrade da
Fonseca;
80

j) n° 4.115, com área de 469,10 m², de Jair Alves Martins;


k) n° 4.583, com área de 401,20 m², de Luzia Barbosa de Paula;
l ) n° 4.357, com área de 154,20 m², de Floriano Serdeiro;
m) n° 4.357-A, com área de 127,90 m², de Sônia Serdeira.

II - terrenos e benfeitorias localizados na Rua Bolonha, CP 87-7-M, todos de propriedade presumível do


Espólio de Manuel Loureiro, com a seguinte numeração:
a) n° 11, com área de 92,30 m2;
b) n° 15, com área de 87,10 m2;
c) n° 32, com área de 42,60 m2;
d) n° 32, apto. 01, com área de 63,80 m2;
e) n° 22, com área de 62,20 m2.

III - terrenos e benfeitorias localizados na Rua Silva Freire, de CP 87-7-M, de propriedade presumível das
pessoas abaixo mencionadas, com a seguinte numeração:
a) n° 78, com área de 69,50 m², de Ronaldo de Paiva Carneiro;
b) n° 66-A, com área de 77,60 m², e n° 66, com área de 77,60 m², ambos de propriedade presumível de
Eduardo Marcos de Oliveira.
c) n° 130, com área de 83,40 m², e n° 130-A, com área de 517,60 m², ambos de Salathiel Moraes;
d) n° 135, com área de 93,60 m2 e n° 135-A, com área de 602,30 m², ambos do Espólio de Maximiano
Agostinho Ramos;
e) n° 145, com área de 154,70 m², e n° 145-A, com área de 154,70 m², ambos do Espólio de Clésio
Dionízio de Souza.

IV - terrenos e benfeitorias localizados na Rua Artur Alvim, CP 87-7-M, de propriedade presumível das
pessoas abaixo mencionadas, com a seguinte numeração:
a) n° 11, com área de 363,30 m², de Eunice Ferreira Lopes;
b) n° 110, com área de 323,80 m², do Espólio de Bento Américo da Silva.

V - terrenos e benfeitorias localizados na Rua Gustavo da Silveira, CP 87-7-M, de propriedade presumível


das pessoas abaixo mencionadas, com a seguinte numeração:
a) n° 35, com área de 123,50 m², de Haroldo Petronilho da Cruz;
b) n° 45, com área de 117,60 m², do Espólio de José Geraldo do Nascimento;
c) n° 49, com área de 37,40 m², de Célia Gonçalves Gomes;
d) n° 59, com área de 74,90 m² e n° 59-A, com área de 35,00 m², ambos de Levindo Pereira de Oliveira;
e) n° 69-C, com área de 18,20 m², de Arnaldo Augusto Dias;
f) n° 86, com área de 303,00 m² e n° 86-A, com área de 303,00 m², ambos de Alice Ávila de Souza;
g) n° 88, com área de 602,30 m², do Espólio de Maximiano Agostinho Ramos;
h) n° 102, com área de 92,00 m², de Waldyr Cabral;
i) n° 118, com área de 100,30 m², de Anselmo Sátiro de Queiroz;
j) n° 138, com área de 157,00 m², n° 138, apto. 01, com área de 157,00 m² e n° 138-A, com área de 100,00
m², todos de Edson de Souza;
k) n° 162, com área de 150,60 m², de Antônio Barreto do Amaral Filho;
l) n° 174, com área de 51,70 m2, e n° 174-A, com área de 292,20 m2, ambos de José Ferreira da Rocha;
m) n° 180, com área de 165,40 m2, do Espólio de Jayme Pascoal;
n) n° 188, com área de 39,90 m2, de Maria Silva Pinheiro;
o) n° 200, com área de 39,90 m2, de Ilma Ribeiro de Vasconcelos.

VI - terrenos e benfeitorias localizados na Rua Genoveva de Souza, CP 87-1-K, todos de propriedade


presumível de Fernando Pinto de Oliveira, com a seguinte numeração:
a) n° 1.957-A, com área de 243,20 m2;
b) n° 1.957, com área de 243,20 m2;
c) n° 1.957, apto.02, com área de 243,20 m2.

VII - terreno e benfeitorias localizados na Rua Pitangui, CP 87-1-K, n° 3.629, com área de 83,70 m², de
propriedade presumível de Maria Lucília Loureiro.

Art. 2º - As desapropriações previstas no artigo anterior destinam-se a permitir ao Executivo o alargamento


da Rua Conselheiro Rocha para revitalização do Entorno da Estação Horto Florestal.
81

Art. 3º - Fica a unidade jurídico-administrativa pertinente autorizada a alegar em juízo, a urgência da


desapropriação.

Art. 4º - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Belo Horizonte, 16 de janeiro de 2006

Fernando Damata Pimentel


Prefeito de Belo Horizonte

Decreto 10288 de 4 de Julho de 2000

APROVA O DESMEMBRAMENTO DE UM TERRENO INDIVISO SITUADO O LUGAR


DENOMINADO FAZENDA BELA VISTA E DE UM TERRENO INDIVISO SITUADO NO LUGAR
DENOMINADO BOA VISTA, NA VILA ESPLANADA.

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de suas atribuições legais, especialmente o art. 108, VII, da Lei
Orgânica do Município de Belo Horizonte, Lei nº 6.916, de 1º de agosto de 1995, Lei Federal nº 6.766, de
19 de dezembro de 1979, Lei nº 7.166, de 27 de agosto de 1996 e demais legislações pertinentes,
DECRETA:
Art. 1º- Fica aprovado o Desmembramento de um terreno indiviso situado no lugar denominado Fazenda
Bela Vista e de um terreno indiviso situado no lugar denominado Boa Vista, na Vila Esplanada, dando
origem aos lotes 5 e 6 do quarteirão 43 da Vila Edgard Werneck, conforme a planta CP 087-024-F.
Art. 2º- A aprovação constante no artigo anterior foi requerida através do Processo Administrativo nº
01.025871/00-36, em nome de Dirceu José Ferreira.
Art. 3º - Revogadas as disposições em contrário, este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Belo Horizonte, 4 de julho de 2000

Célio de Castro
Prefeito de Belo Horizonte
Paulo Emílio Coelho Lott
Secretário Municipal de Governo
Délcio Antônio Duarte
Secretário Municipal de Atividades Urbanas

Decreto 10019 de 27 de Setembro de 1999

APROVA O DESMEMBRAMENTO DE UM TERRENO INDIVISO SITUADO NO LUGAR


DENOMINADO JOÃO CARLOS.

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de suas atribuições legais especialmente art. 108, VII, da Lei Orgânica
do Município de Belo Horizonte, Lei nº 6.916, de 1º de agosto de 1995, Lei Federal nº 6.766, de 19 de
dezembro de 1979, Lei nº 7.166, de 27 de agosto de 1996 e demais legislações pertinentes,
DECRETA:
Art. 1º - Fica aprovado o Desmembramento de um terreno indiviso situado no lugar denominado João Carlos,
dando origem ao lote 3 do quarteirão 43 da Vila Edgard
Werneck.
Art. 2º - A aprovação constante no artigo anterior foi requerida através do Processo Administrativo nº
01.081982/99-08, em nome de José do Carmo Nagem.
Art. 3º - Revogadas as disposições em contrário, este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
82

Belo Horizonte, 27 de setembro de 1999

Célio de Castro
Prefeito de Belo Horizonte
Paulo Emílio Coelho Lott
Secretário Municipal de Governo
Délcio Antônio Duarte
Secretário Municipal de Atividades Urbanas

Decreto 9625 de 1 de Julho de 1998

APROVA O DESMEMBRAMENTO DE UM TERRENO INDIVISO SITUADO O BAIRRO DO


HORTO FLORESTAL.

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de suas atribuições legais, especialmente art. 108, VII, da Lei Orgânica
do Município de Belo Horizonte, Lei n° 6.916, de 01 de agosto de 1995, Lei Federal nº 6.766, de 19 de
dezembro de 1979, Lei nº 4.034, de 25 de março de 1985 e demais legislações pertinentes,
DECRETA:
Art. 1° - Fica aprovado o Desmembramento de um terreno indiviso situado no Bairro Horto Florestal, dando
origem ao lote 5 do quarteirão 43 da Vila Edgard Werneck, conforme CP 87-19-D.
Art. 2° - A aprovação constante no artigo anterior foi requerida através do Processo Administrativo n°
01.001964/93-10, em nome de Olga Álvares Ferreira e outros.
Art. 3° - Revogadas as disposições em contrário, este Decreto entra em vigor na
data de sua publicação.

Belo Horizonte, 1º de julho de 1998

Célio de Castro
Prefeito de Belo Horizonte
Paulo Emílio Coelho Lott
Secretário Municipal de Governo
Délcio Antônio Duarte
Secretário Municipal de Atividades Urbanas

Decreto 8673 de 1 de Abril de 1996

REVALIDA A APROVAÇÃO DO CP 87-12-E DE 19/07/90 QUE APROVA O EMEMBRAMENTO


DO LOTE 06 DO QUARTEIRÃO 25 DA VILA EDGARD WERNECK.

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de suas atribuições legais, no uso da atribuição que lhe confere o art.
108. VII da Lei Orgânica do Municipio de Belo Horizonte, Lei nº 6.916 de 01 de agosto de 1995 e demais
legislações pertinentes.

DECRETA:

Art. 1° - Fica revalidada a aprovação constante na planta CP 87-12-E de 19/07/90 que aprova o
remembramento do lote nº 06 do quarteirão 25 da Vila Edgard Werneck. dando origem aos lotes 06-A e 06-B
do quarteirão 25 da Vila Edgard Werneck.

Art. 2º - A revalidação constante no artigo anterior foi requerida através do Processo Administrativo n° 01
.016500/89-86, em nome de Selma dos Prazeres Araujo.

Art. 3º - Revogadas as disposições em contrário, este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
83

Belo Horizonte, 01 de abril de 1996

Patrus Ananias de Souza


Prefeito de Belo Horizonte

Luiz Soares Dulci


Secretário Municipal de Governo

Márcio Antonio Marques Gomes


Secretário Municipal de Atividades Urbanas

Decreto 7968 de 18 de Julho de 1994

DÁ A DENOMINAÇÃO DE GUARÁ A UMA PRAÇA DA CAPITAL.

O Prefeito de Belo Horizonte, com fundamento no item VII, do Artigo 108, da Lei orgânica do Município, e
em cumprimento do disposto na Lei n° 6.152, de 27 de abril de 1992,

DECRETA:

Art. 1° - Passa a denominar-se Guará a Praça na confluência das Ruas Gustavo da Silveira e Rua Silva Freire,
da Vila Edgard Werneck, logradouros estes aprovados pelo Decreto n° 4.231, de 10 de maio de 1982, na
planta CP 87-7-M, e identificados, respectivamente, pelos Códigos 032617 e 065848.

Art. 2° - O órgão responsável providenciará a colocação de placas indicativas, bem como a devida
comunicação à Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, CEMIG, TELEMIG e COPASA.

Art. 3° - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação, revogando as disposições em contrário.

Belo Horizonte, 18 de julho de 1994.

Patrus Ananias de Sousa


Prefeito de Belo Horizonte

Luiz Soares Dulci


Secretário Municipal de Governo

Antônio Thomaz Gonzaga da Matta Machado


Secretário Municipal de Atividades Urbanas

Decreto 7930 de 23 de Junho de 1994

DESCARACTERIZA LOTES DA VILA EDGARD WERNECK INTEGRANTES DO SETOR


ESPECIAL - 3 (SE-3) E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS.

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de sua atribuição legal e considerando o disposto no inciso III do art. 11
da Lei Municipal n° 4.034, de 25 de março de 1985, no § 1° do art. 10 do Decreto Municipal n° 5.094, de 19
de setembro de 1985, nas letras "a" e "b" do art. 2° da Lei Municipal n° 4.704, de 08 de maio de 1987, e no
art. 1° da Lei unicipal n° 4.846, de 09 de outubro de 1987,
84

DECRETA:

Art. 1° - Ficam excluídos do Setor Especial - 3 (SE-3) e incluídos na Zona Comercial - 3 (ZC-3), os lotes 10
e 13 do quarteirão 1C da Vila Edgard Werneck, aprovados pela planta CP 87-14-G.

Art. 2° - Revogadas as disposições em contrário, este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Belo Horizonte, 23 de junho de 1994.

Patrus Ananias de Sousa


Prefeito de Belo Horizonte

Luiz Soares Dulci


Secretário Municipal de Governo

Antônio Thomaz Gonzaga da Matta Machado


Secretário Municipal de Atividades Urbanas

Decreto 7929 de 23 de Junho de 1994

DESCARACTERIZA LOTES DA VILA EDGARD WERNECK INTEGRANTES DO SETOR


ESPECIAL - 3 (SE-3) E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS.

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de sua atribuição legal e considerando o disposto no inciso III do art. 11
da Lei Municipal n° 4.034, de 25 de março de 1985, no § 1° do art. 10 do Decreto Municipal n° 5.094, de 19
de setembro de 1985, nas letras "a" e "b" do art. 2° da Lei Municipal n° 4.704, de 08 de maio de 1987, e no
art. 1° da Lei municipal n° 4.846, de 09 de outubro de 1987,

DECRETA:

Art. 1° - Ficam excluídos do Setor Especial - 3 (SE-3) e incluídos na Zona Comercial - 1A (ZC-1A), os lotes
09, 11 e 12 do quarteirão 1C da Vila Edgard Werneck, aprovados pela planta CP 87-14-G.

Art. 2° - Revogadas as disposições em contrário, este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Belo Horizonte, 23 de junho de 1994.

Patrus Ananias de Sousa


Prefeito de Belo Horizonte

Luiz Soares Dulci


Secretário Municipal de Governo

Antônio Thomaz Gonzaga da Matta Machado


Secretário Municipal de Atividades Urbanas

Decreto 4239 de 13 de Maio de 1982

PERMITE AO SINDICATO DOS TRABALHADORES EM EMPRESAS ERROVIÁRIAS DE BELO


HORIZONTE O USO DO TERRENO QUE MENCIONA.

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de suas atribuições, nos termos do disposto no § 3º do artigo 98, da Lei
Complementar nº 3, de 28 de dezembro de 1972 e na Lei Municipal nº 2324, de 17 de junho de 1974

DECRETA :
85

Art. 1º - Fica permitido ao Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de Belo Horizonte,
entidade sediada nesta Capital, inscrição CGC-MF nº
16.740.052/0001·34, a título precária, o uso do terreno constituído pelo lote n. 1(um), do quarteirão 35 (trinta
e cinco) da Vila Edgard Werneck, com área, limites e confrontações da planta respectiva.

Art. 2º - Dá-se a permissão de uso do imóvel caracterizado no artigo anterior com a finalidade de propiciar o
funcionamento de posto médico-odontológico e equipamentos esportivos de lazer.

Parágrafo Único - A utilização dos equipamentos esportivos e de lazer fica assegurada a todos os moradores
da Vila.

Art. 3º - Ao imóvel não poderá ser dada outra destinação senão a estabelecida no Art. 2º sob pena de imediata
reversão ao domínio do Município e sem direito a qualquer indenização por benfeitorias existentes.

Art. 4º - A permissão de uso, que ora se concede, será objeto de contrato, no qual serão inseridas as
condições constantes deste Decreto e outras cláusulas de interesse do Município.

Art. 5º - Em se tratando de entidade que presta à Administração relevantes serviços públicos, a permissão é
concedida a título gratuito.

Art. 6º - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação, ficando revogadas as disposições em
contrário.

Belo Horizonte, 13 de maio de 1982


O Prefeito, (a.) - MAURÍCIO DE FREITAS TEIXEIRA CAMPOS
Secretário Municipal de Administração, (a.) - JOSÉ ANTÔNIO TORRES
Publicado no "Minas Gerais" de 14 de maio de 1982.

Decreto 4231 de 10 de Maio de 1982

APROVA A PLANTA DE PARTE DO LOTEAMENTO DA VILA EDGARD WERNECK E DÁ


OUTRAS PROVIDÊNCIAS .

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de suas atribuições, considerando:

I - que a Prefeitura Municipal assinou convênio com a Rede Ferroviária Federal S/A., tendo por fim
solucionar, em definitivo, os problemas relativos à urbanização e ocupação da habitação dos moradores da
Vila "Edgard Werneck";
II - que aquela Entidade paraestatal, de há muito, vem cedendo, a título de permissão de uso, frações da Vila
a seus empregados, que nelas construíram moradias;III - que, por este motivo, vem persistindo uma situação
excepcional para a Administração, que deve resolvê-la, nos termos do convênio aprovado pela
Resolução nº 340, de 27 de outubro de 1976;
IV- que é necessário assegurar condições de habitabilidade aos moradores locais, sem criar danos e
problemas aos cidadãos que ali já estabeleceram suas residências;
V - que se convencionou com a Associação dos Habitantes da Vila Edgard Werneck fosse feito o
levantamento topográfico da referida região, de maneira a permitir à Municipalidade, com base na situação
encontrada, aprovar o loteamento para posterior venda a seus possuidores;
VI - que, se trata de situação de fato que exige uma solução do Poder Público, dada sua dimensão social,

DECRETA:
Art. 1º - Fica aprovada parte do loteamento da Vila Edgard Werneck, com base no levantamento topográfico
elaborado com a participação da Associação dos Habitantes da Vila Edgard Werneck, no processo
protocolado sob o nº 25 .933, de 24 de março de 1982, observada a legislação pertinente no qual foram feitas
as adaptações à legislação em vigor.
Art. 2º - Em se tratando de loteamento com características peculiares, cuja aprovação se deu em respeito ao
direito adquirido, não será admitida a modificação dos lotes aprovados, sob qualquer pretexto.
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Art. 3º - A Prefeitura não se responsabilizará pelas medidas laterais e dos fundos dos lotes, limitando-se à
indicação da testada, da área e do número dos lotes confrontantes, e nem responderá pelos litígios decorrentes
da aprovação.
Art. 4º - Havendo necessidade de promover a implantação do sistema viário, a Prefeitura promoverá as
desapropriações necessárias, ensejando, sempre que possível, a possibilidade do expropriado adquirir sua
moradia.
Art. 5º - A alienação será feita, tendo em vista disposições da lei Municipal nº 2036/72 e as obrigações
assumidas pela Resolução 340, de 27 de outubro de 1976.
Art. 6º - A planta aprovada por este Decreto compõe-se dos seguintes quarteirões e lotes da Vila Edgard
Werneck:

I -quarteirão 1 com 7 lotes numerados de 1 a 7:


II -parte do quarteirão 2 com 5 lotes numerados de 1 a 5 ;
III -parte do quarteirão 3 com 4 lotes numerados de 1 a 4;
IV -quarteirão 4 com 5 lotes numerados de 1 a 5;
V -quarteirão 5 com 26 lotes numerados de 1 a 26 ;
VI -quarteirão 6 com 9 lotes numerados de 1 a 9;
VII -quarteirão 7 com 24 lotes numerados de 1 a 24;
VIII -quarteirão 8 com 12 lotes numerados de 1 a 12 ;
IX -quarteirão 9 com 20 lotes numerados de 1 a 20;
X -quarteirão 10 com 18 lotes numerados de 1 a 18;
XI -quarteirão 11 com 24 lotes numerados de 1 a 24.
XII -quarteirão 12 com 20 lotes numerados de 1 a 20:
XIII -quarteirão 13 com 18 lotes numerados de 1 a 18;
XIV -quarteirão 14 com 16 lotes numerados de 1 a 16
XV -quarteirão 15 com 20 lotes numerados de 1 a 20;
XVI -quarteirão 16 com 20 lotes numerados de 1 a 20;
XVII -quarteirão 17 com 7 lotes numerados de 1 a 7;
XVIII -quarteirão 18 com 24 lotes numerados de 1 a 24;
XIX -quarteirão 19 com 29 lotes numerados de 1 a 29;
XX -quarteirão 20 com 13 lotes numerados de 1 a 13;
XXI -quarteirão 21 com 22 lotes numerados de 1 a 22;
XXII -quarteirão 22 com 7 lotes numerados de 1 a 7;
XXIII -quarteirão 23 com 22 lotes numerados de I a 22;
XXIV -quarteirão 24 com 47 lotes numerados de 1 a 47;
XXV -quarteirão 25 com 24 lotes numerados de 1 a 24
XXVI -quarteirão 26 com 22 lotes numerados de 1 a 22;
XXVII -quarteirão 27 com 18 lotes numerados de 1 a 18 ;
XXVIII -quarteirão 28 com 15 lotes numerados de 1 a 15;
XXIX -quarteirão 29 com 26 lotes numerados de 1 a 26;
XXX -quarteirão 30 com 15 lotes numerados de 1 a 15 ;
XXXI -quarteirão 31 com 3 lotes numerados de 1 a 3 ;
XXXII -quarteirão 32 com 22 lotes numerados de 1 a 22;
XXXIII -quarteirão 33 com 39 lotes numerados de 1 a 39;
XXXIV -quarteirão 34 com 5 lotes numerados de 1 a 5 ;
XXXV -quarteirão 35 com 16 lotes numerados de 1 a 16;
XXXVI -quarteirão 36 com 44 lotes numerados de 1 a 44;
XXXVII -parte do quarteirão 37 com 5 lotes numerados de 1 a 5;
XXXVIII -parte do quarteirão 38 com 1 lote de número 1;
XXXIX -quarteirão 39 com 9 lotes numerados de 1 a 9;
XL -parte do quarteirão 40 com 12 lotes numerados de 1 a 12;
XLI -parte do quarteirão 41 com 6 lotes numerados de 1 a 6;
XLII -parte do quarteirão 93 com 3 lotes numerados de 6 a 8 ;
XLIII -parte do quarteirão 95 com 23 lotes numerados de 3 a 25.

Art. 7º - Para regularizar a nomenclatura das ruas da Vila Edgard Werneck ficam estabelecidas as seguintes
denominações:
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I -a Rua C passa a denominar-se Rua Albino de Souza , II -o trecho da Rua dos Ferroviários, entre as Ruas
Santo Agostinho e Balbina Bragança, passa a denominar-se Rua Flausina de Souza III -o trecho da Rua dos
Ferroviários, entre as Ruas Santo Agostinho e São Roque, passa a denominar-se Rua Mário Ventura Marinho
IV -o trecho da Rua Carlos Niemayer, entre as Ruas Maria Martins Guimarães e São Luís, passa a
denominar-se Rua Renato Ernesto do Nascimento
V -o trecho da Rua Carlos Niemayer, entre as Ruas São Joaquim e Santo Agostinho, passa a denominar-se
Rua Engenheiro Odilon Fernandes;
VI -a Rua Martins Guimarães passa a denominar-se Rua Maquinista Antônio Costa; VII -o trecho da Rua São
Roque, entre as Ruas Gustavo da Silveira e Silva Freire, passa a denominar-se Rua Américo Marcelino
Fonseca;
VIII -o trecho da Rua São Roque, entre os quarteirões 18 e 30 passa a denominar-se Rua José Rafael Mendes;
IX -a Rua situada entre as Ruas Dias de Faria e Bolonha passa a denominar-se Rua João Antunes de Siqueira;
X -a Rua sem saída existente no interior do quarteirão 36 passa a denominar-se Rua Hilda de Oliveira;
W -a Rua sem saída existente no interior do quarteirão 19 passa a denominar-se Rua Domingos Leão;
XII -a Rua sem saída existente no interior do quarteirão 33 passa a denominar-se Rua Antônio Nascimento;
XIII -a Rua sem saída existente no interior do quarteirão 24 passa a denominar-se Rua Lauro de Oliveira.

Art. 8º - Ficam revogadas as disposições em contrário, especialmente a aprovação dos quarteirões da Vila
Edgard Werneck concedida em 27.6.28, e que constam da planta registrada nesta Prefeitura sob o nº CP-87-
1-K.

Art. 9º - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. Belo Horizonte, 10 de maio de 1982.

O Prefeito, (a.) - MAURÍCIO DE FREITAS TEIXEIRA CAMPOS


Vice Presidente do Conselho Municipal de Planejamento do Desenvolvimento,
(a.) - MARTIM FRANCISCO COELHO DE ANDRADA
Publicado no "Minas Gerais" de 11 de maio de 1982

Decreto 3854 de 11 de Novembro de 1980

DECLARA DE UTILIDADE PÚBLICA, PARA FINS DE DESAPROPRIAÇÃO, ÁREAS DE


TERRENOS NA VILA EDGARD WERNECK, NESTA CAPITAL.

0 Prefeito de Belo Horizonte, no uso de atribuições legais, e de acordo com o que lhe faculta o Decreto-lei nº
3365, de 21 de junho de 1941,

DECRETA:

Art. 1º - Ficam declaradas de utilidade pública, para fins da desapropriação, a se efetivar mediante acordo ou
judicialmente, as áreas de terreno adiante indicadas, assim como as respectivas edificações e outras
benfeitorias, aquelas não aprovadas, situadas às margens do Córrego Avenida Petrolina, na Vila Edgard
Werneck, nesta Capital, presumivelmente de propriedade das pessoais, igualmente, a seguir mencionadas:
a) área de 838,00 m2 (oitocentos e trinta e oito metros quadrados), de forma irregular, correspondente a parte
de terreno maior, não aprovado, de Amélia Anacleto Correia, e
b) área de 499,00 m2 (quatrocentos e noventa e nove metros quadrados de forma irregular, correspondente a
parte de terreno maior, não aprovado, de herdeiros de André Bartolozzi.

Parágrafo Único - Cada uma das áreas indicadas no artigo tem a sua localização, forma e medidas de
delimitação de acordo com o que consta de projeto da Municipalidade, elaborado pela Superintendência de
Desenvolvimento da Capital SUDECAP, e relativo a trecho, no local, da Avenida Petrolina, era implantação,
a que se destina a desapropriação objetivados.
Art. 2°- Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.
Belo Horizonte, 11 de novembro de 1980.
O Prefeito, (a.) - MAURÍCIO DE FREITAS TEIXEIRA CAMPOS.
Secretário Municipal de Administração, (a.) - JOSÉ ANTÔNIO TORRES
Secretário Municipal da fazenda, (a.) - SÉRGIO CARLOS DE MIRANDA LANNA
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Publicado no "Minas Gerais" de 12 de novembro de 1980.

Decreto 3442 de 8 de Fevereiro de 1979

RE-RATIFICA O DECRETO Nº 3432 DE 26 DE JANEIRO DE 1979

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de suas atribuições e considerando que o Decreto nº 3432, de 26.01.79
e publicado em 27.01.79, contém incorreções que necessitam ser corrigidas,
DECRETA:
Art. 1°- O artigo 1° do Decreto n° 3432, de 26 de janeiro de 1979 passa a vigorar com a seguinte redação:
"Art. 1 °- Ficam aprovados os quarteirões % (noventa e seis) e 97 (noventa e sete) da Vila Edgard Werneck,
resultantes da re-urbanização dos lotes de n°s 2, 4, 6, 8, 10 e 1 2 a 18, do quarteirão 2; lotes 1 a 24 e 26, do
quarteirão 3 e lotes 1 a 40, do quarteirão 4, do Bairro Parque Agronômico, de propriedade do
Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais - INOCOOP-MG, de acordo com a planta apresentada
no Processo n° 5355, protocolado em 12.01.79, em nome de Cooperativa Habitacional do IPSEMG".
Art. 2°- Continuam em vigor as demais disposições do referido Decreto.
Art. 3°- Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação, retroagindo seus efeitos a 27 de janeiro de
1979.
Mando, portanto, a quem o conhecimento e a execução do presente Decreto pertencer, que o cumpra e o faça
cumprir, tão inteiramente como nele se contém.
Belo Horizonte, O8 de fevereiro de 1979.
O Prefeito, (a.) - Luiz Verano.
Vice-presidente do Conselho Municipal de Planejamento do Desenvolvimento (a.) -
Martim Francisco Coelho de Andrade.
Publicado no "Minas Gerais" em 10 de fevereiro de 1979.

Decreto 3432 de 26 de Janeiro de 1979

APROVA QUARTEIRÕES DA VILA EDGARD WERNECK E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS.

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de suas atribuições legais, tendo em vista o disposto na Lei Municipal
nº 1212, de 1º de dezembro de 1966 e, ainda, o que determinam os Artigos 14 e 23 do Decreto Municipal nº
2337, de 27 de fevereiro de 1973, o Parágrafo Único do Artigo 12 do mesmo Decreto Municipal e,
considerando, também, o parecer emitido pela Comissão Especial instituída pela Portaria nº 1934, de 23 de
abril de 1973

DECRETA:

Art.1º - Ficam aprovados os quarteirões 96 e 97 da Vila Edgard Werneck, resultantes da reurbanização de


uma área que, em loteamento particular, era formada pelos lotes de nºs 2 a 10 e 12 a 18 do quarteirão 2, lotes
1 a 24 e 26 do quarteirão 3 e lotes 1 a 40 do quarteirão 4, do Bairro Parque Agronômico, de propriedade do
Instituto de Orientação às Cooperativas habitacionais - INOCOOP-MG , de acordo com a planta apresentada
no Processo nº5355, protocolado em 12.01.79, em nome de Cooperativa Habitacional do IPSEMG.

Parágrafo Único - Os quarteirões referidos neste artigo são indivisos.

. Art. 2º - A abertura, pavimentação e obras complementares dos logradouros deverão ser executadas pelo
proprietário, de acordo com as normas vigentes no Município.

Art. 3º - Revogadas as disposições em contrário, este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação.

Mando, portanto, a quem o conhecimento e a execução do presente Decreto pertencer, que o cumpra e o faça
cumprir, tão inteiramente como nele se contém
89

Belo Horizonte, 26 de janeiro de 1979.

O Prefeito, (a.) - Luiz Verano.

Vice-presidente do Conselho Municipal de Planejamento do Desenvolvimento, em exercício, (a.) - Ismaília


de Moura Nunes.

Publicado no "Minas Gerais" de 27 de janeiro de 1979.

Decreto 3046 de 20 de Abril de 1977

"ABRE CRÉDITO ESPECIAL NO VALOR DE CR$ 7.700.000,00 (SETE MILHÕES E


SETECENTOS MIL CRUZEIROS) PARA O FIM QUE MENCIONA E DÁ OUTRAS
PROVIDÊNCIAS".

O Prefeito de Belo Horizonte no uso de suas atribuições legais e de acordo com o Artigo 43 da Lei Federal
n.° 4320 de 17 de março de 1964 e com a Lei Municipal n.° 2725 de 13 de abril de 1977.
DECRETA:
Art. 1.° - Fica aberto ao órgão abaixo o Crédito Especial no valor de Cr$ 7.700.000,00 (sete milhões e
setecentos mil cruzeiros), para pagamento de despesas decorrentes do Convênio firmado com a Rede
Ferroviária Federal S/A, relacionadas à Vila Edgard Werneck: 07.17-03070211.204-4210 Cr$
7.700.000,00
Art. 2.° - Constitui recurso para atender ao disposto no Artigo 1.° deste Decreto, a anulação parcial da
seguinte dotação do orçamento vigente: 21.55-11640351.253-4220 Cr$ 7.700.000,00
Art. 3.° - Revogadas as disposições em contrário, este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação.
Mando, portanto, a quem o conhecimento e a execução do presente Decreto pertencer, que o cumpra e o tapa
cumprir, tão inteiramente como nele se contém.
Belo Horizonte, 20 de abril de 1977
O Prefeito (a.) Luiz Verano
Secretário Municipal da Fazenda (a.) Evandro Barbosa
Publicado no "Minas Gerais" de 21 de abril de 1977 Retificado em 26.5.77
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ANEXO 4
Matéria do jornal “O Estado de Minas” de 6 de fevereiro de 2006.

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