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Intertextualidade

Intertextualidade significa interação entre textos, um diálogo entre eles que pode ocorrer tanto
por meio de elementos formais quanto temáticos. Dessa forma, é comum, ao lermos determinado texto,
lembrarmos de outros inúmeros que façam parte de nosso repertório. A recorrência a outros textos é
muito comum na literatura e nas propagandas.

A) Intertextualidade explícita
Dentre a intertextualidade explícita, temos vários gêneros, como: epígrafe, citação, paráfrase,
paródia, tradução.

1) Epígrafe constitui uma escrita introdutória de outra.

CANÇÃO DO EXÍLIO
Gonçalves Dias

[Conheces o país onde florescem as laranjeiras?


Ardem na escura fronde os frutos de ouro...
Conhecê-lo? Para lá, para lá quisera eu ir!]
Goethe (tradução de Manuel Bandeira)

Minha terra tem palmeiras,


Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,


Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,


Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,


Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,


Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Coimbra, julho de 1843

2) Citação - transcrição de texto alheio, marcada por aspas.

■ Osório Duque Estrada, 1909 •••••


HINO NACIONAL BRASILEIRO

(trecho)

Do que a terra mais garrida


Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".

3) Paráfrase - A paráfrase é a reprodução do texto de outrem com as palavras do autor, com sua
ampliação ou interpretação particular. Ela não confunde com o plágio porque seu autor explicita a
intenção, deixa clara a fonte. Apesar de as palavras serem mudadas, a ideia do texto é confirmada pelo
novo texto, a alusão ocorre para atualizar, reafirmar os sentidos ou alguns sentidos do texto citado. É
dizer com outras palavras o que já foi dito.

Meus olhos brasileiros se fecham saudosos


Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’.
Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
Onde canta o sabiá!
(Carlos Drummond de Andrade, “Europa, França e Bahia”).

4) Paródia - A paródia é uma forma de apropriação que, em lugar de endossar o modelo retomado, rompe
com ele, sutil ou abertamente. Ocorre, aqui, um choque de interpretação, a voz do texto original é
retomada para transformar seu sentido, levando o leitor a uma reflexão crítica.

CANTO DO REGRESSO À PÁTRIA


Oswald de Andrade
Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas


E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas


Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra


Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

5)Tradução - A tradução de um texto literário implica em recriação, por isso ela está no campo da
intertextualidade. Veja um poema de Edgar A. Poe traduzido por dois escritores da língua portuguesa:

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,

E já quase adormecia, ouvi o que parecia

O som de alguém que batia levemente a meus umbrais

‘Uma visita’ eu me disse, ‘está batendo a meus umbrais

E só isto, e nada mais.


(Tradução de Fernando Pessoa)

Em certo dia, à hora, à hora

Da meia-noite que apavora,

Eu caindo de sono e exausto de fadiga,

Ao pé de muita lauda antiga,

De uma velha doutrina, agora morta

Ia pensando, quando ouvi à porta

Do meu quarto um soar devagarinho

E disse estas palavras tais:

‘É alguém que me bate à porta de mansinho:

Há de ser isso e nada mais.

(Tradução de Machado de Assis)

O poema é o mesmo, mas Machado de Assis traduziu do francês para o português, enquanto Fernando
Pessoa partiu direto do inglês, por isso as traduções ficarem bem diferentes, embora a essência dele
continue nos dois textos traduzidos.

B) Intertextualidade implícita Quando uma articulista de jornal escreve sobre a importância dos
direitos humanos na atualidade, suas idéias fazem parte de um discurso ideológico, portanto, com certeza,
seu texto mantém diálogo implícito (ou explícito) com a Declaração Universal dos Direitos Humanos da
ONU e outros documentos.

Bibliografia

Paulino, Graça; Walty, Ivete; Cury, Maria Zilda Cury. Intertextualidades: Teoria e Prática, 1ª edição, Belo
Horizonte-MG, Editora Lê, 1995.

Barros, Diana Luz Pessoa de; Fiorin, José Luiz (organizadores). Dialogismo, Polifonia, Inter-
textualidade. lª edição, São Paulo, Edusp, 1994.

Site “Por trás das Letras”

Exercícios
Álcool, crescimento e pobreza
O lavrador de Ribeirão Preto recebe em média R$ 2,50 por tonelada de cana cortada. Nos anos
80, esse trabalhador cortava cinco toneladas de cana por dia. A mecanização da colheita o obrigou a ser
mais produtivo. O corta-cana derruba agora oito toneladas por dia.
O trabalhador deve cortar a cana rente ao chão, encurvado. Usa roupas mal-ajambradas, quentes,
que lhe cobrem o corpo, para que não seja lanhado pelas folhas da planta. O excesso de trabalho causa a
birola: tontura, desmaio, cãibra, convulsão. A fim de agüentar dores e cansaço, esse trabalhador toma
drogas e soluções de glicose, quando não farinha mesmo. Tem aumentado o número de mortes por
exaustão nos canaviais. O setor da cana produz hoje uns 3,5% do PIB. Exporta US$ 8 bilhões. Gera toda
a energia elétrica que consome e ainda vende excedentes. A indústria de São Paulo contrata cientistas e
engenheiros para desenvolver máquinas e equipamentos mais eficientes para as usinas de álcool. As
pesquisas, privada e pública, na área agrícola (cana, laranja, eucalipto etc.) desenvolvem a bioquímica e a
genética no país. Folha de S. Paulo, 11/3/2007 (com adaptações).

1. Confrontando-se as informações do texto com as da charge acima, conclui-se que


A a charge contradiz o texto ao mostrar que o Brasil possui tecnologia avançada no setor agrícola.
B a charge e o texto abordam, a respeito da cana-de-açúcar brasileira, duas realidades distintas e sem
relação entre si.
C o texto e a charge consideram a agricultura brasileira avançada, do ponto de vista tecnológico.
D a charge mostra o cotidiano do trabalhador, e o texto defende o fim da mecanização da produção da
cana-de-açúcar no setor sucroalcooleiro.
E o texto mostra disparidades na agricultura brasileira, na qual convivem alta tecnologia e condições
precárias de trabalho, que a charge ironiza.

“Natal 1961
Deslocados por uma operação burocrática – o recenseamento da terra – a Virgem e o carpinteiro José
aportam a Belém.
“Não há lugar para essa gente”, grita o dono do hotel onde se realiza um congresso internacional de
solidariedade.
O casal dirige-se a uma estrebaria, recebido por um boi branco e um burro cansado do trabalho.
Os soldados de Herodes distribuem elementos radioativos a todos os meninos de menos de dois anos.
Uma poderosa nuvem em forma de cogumelo abre o horizonte e súbito explode.
O menino nasce morto.” MENDES, Murilo. Conversa portátil. Poesia completa e prosa.Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 1944. p. 1486.

2. Pode-se inferir que o autor do texto:


I. Atualiza a história de Cristo, adaptando o sentido da paixão cristã às duras condições de vida nas
grandes cidades.
II. Faz ver que, em nossa era, o advento de um Cristo seria impossível, em vista das atrocidades em que
os homens se especializaram.
III. Ironiza a corrida armamentista, comparando-a a fatos narrados em passagens bíblicas.
Está correto somente o que se afirma em:
a) I.
b) II.
c) III.
d) I e II.
e) II e III.

Anacronismo. S.m. 1. Confusão de data quanto a acontecimentos ou pessoas.


3. Com base na definição acima, do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, o autor se vale
intencionalmente de um anacronismo quando associa:

a) a Virgem e o carpinteiro José à cidade de Belém;


b) a fala do dono de um hotel à realização de um congresso;
c) soldados de Herodes a elementos radioativos;
d) nuvem em forma de cogumelo a súbita explosão;
e) uma estrebaria a um boi branco e um burro cansado.

O gráfico abaixo mostra a área desmatada da Amazônia, em km2, a cada ano, no período de 1988 a 2008.

4. As informações do gráfico indicam que:


A o maior desmatamento ocorreu em 2004.
B a área desmatada foi menor em 1997 que em 2007.
C a área desmatada a cada ano manteve-se constante entre 1998 e 2001.
D a área desmatada por ano foi maior entre 1994 e 1995 que entre 1997 e 1998.
E o total de área desmatada em 1992, 1993 e 1994 é maior que 60.000 km2.

5) A propaganda acima estabelece diálogo intertextual com uma outra. Esclareça a que outra propaganda
ela se vincula e que elemento deixa claro tal vínculo.
6) A propaganda acima parte da plurissignificação do vocábulo “enrolado” para gerar efeito de sentido.
Esclareça os dois sentidos deste adjetivo utilizados na propaganda e que palavras são modificadas por ele.