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Capítulo X

O Gozo nas Perseguições


Alejandro G. Frank

Introdução
Até o presente capítulo temos considerado as características da vida de um cristão. Todas as
bem-aventuranças analisadas até o momento consideram como o cristão é na essência.
Embora presentes em maior ou menor medida, são características que devem ir crescendo na
vida do crente à medida que ele amadurece na fé. Consideremos agora esta nova bem-
aventurança:

“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e,
mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso
galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.”
(Mateus 5.10-12)

Novamente temos uma mudança de foco nas bem-aventuranças. Primeiro, tínhamos visto
características interiores do crente (Mateus 5.3-6). Posteriormente vimos correspondências e
características exteriores a essas características interiores (Mateus 5.7-9). E, agora, para
encerramento das bem-aventuranças o Senhor coloca um novo foco, totalmente diferente dos
anteriores e que está olhando para o resultado de vivermos todas as bem-aventuranças
anteriores. Aqui o Senhor coloca um resultado externo à vida do crente, mas com implicações
para a sua vida e caráter. Aqui já não depende do que o crente faz ou é, aqui já aparecem os
resultados de ser cristão.

Este verso em consideração envolve a maior das implicações práticas de todas as bem-
aventuranças. Ele reflete o que realmente somos, pois é um testemunho externo, que não
vem de nós, mas dos próprios incrédulos. Facilmente podemos cair no erro de nos alegrarmos
quando os incrédulos se alegram por nós, quando nos acham pessoas legais e simpáticas,
gentis e atenciosas. Muitas vezes se prega assim também nas igrejas acerca de como um
crente deve ser visto pelo mundo. Neste caso, os pregadores dizem: “se o mundo vier que
vocês são legais, eles vão se interessar pelo evangelho”. É assim que se cria todo um evangelho
“amigável” para o mundo. Muitos creem que devemos ser “aceitos” pelo mundo para
ganharmos eles. É por isso que o cristianismo nominal tem inventado tantas falsas estratégias
de evangelismo, as quais chegam até o ponto de criar festas cristãs, pubes gospel, música
mundana com letra gospel e assim por diante.

Mas aqui o texto está dizendo que o verdadeiro testemunho que o mundo dá acerca da vida
de um verdadeiro crente, daquele que manifesta as bem-aventuranças consideradas no
sermão do monte, não é o elogio, mas a perseguição. É a consequência maior de buscarmos
viver a justiça de Deus e de sermos pacificadores. O Senhor está dizendo: “Se vocês realmente
vivem isto, se vocês realmente me seguem, não serão amigáveis e agradáveis para o mundo,
mas desprezados por eles. E alegrai-vos por isso!”. Depois de termos sido mansos, de termos
buscado viver a justiça de Deus, depois de termos agido como pacificadores, o que ainda nos

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espera é a perseguição! Estão vendo como esta mensagem é diferente à teologia da


prosperidade material pregada por tantas igrejas de hoje? O Senhor está prometendo uma
vida dura nesta terra por Sua causa. E isto é verdade hoje, no mundo todo. Há crentes que
estão morrendo no mundo todo por causa do Evangelho. Outros tantos perdendo empregos,
passando dificuldades e sendo ameaçados, mas nós estamos imersos em um falso cristianismo
cheio de prosperidade por causa do materialismo e do secularismo da vida cristã como algo
que forma parte da cultura. É isso o que nos espera como cristãos. “Ora, todos quantos
querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos”(2.Timóteo 3.12).

Motivos errados de perseguição


Se acreditamos nas Escrituras podemos confiar que o resultado de vivermos as bem-
aventuranças são as perseguições. Não há dúvida, conforme vimos nos capítulos anteriores, da
necessidade que cada crente tem de vive-las, embora saiba que tenha que sofrer as
consequências. Porém, facilmente podemos cair no erro de sermos achados bem-aventurados
por sermos perseguidos por algum motivo, sendo o motivo errado. Assim sendo, a seguir
veremos primeiro alguns motivos errados de perseguição1, para depois sim vermos o motivo
real que nos torna dignos diante do Senhor quando formos perseguidos.

Nesta bem-aventurança vemos que o Senhor destaca que são bem-aventurados os


perseguidos “por causa da justiça”. Aqui não lemos apenas “bem-aventurados os
perseguidos”, mas “bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça”. Porém, há pessoas
cristãs, ou que dizem sê-lo, que são perseguidas por outras causas que nada tem a ver com
esta bem-aventurança. Por exemplo, não lemos aqui: “Bem-aventurados os perseguidos por
causa de atitudes dignas de objeção”. Não lemos aqui que são bem-aventurados os
perseguidos por serem difíceis, nem os que sofrem por faltar-lhes sabedoria no procedimento.
Há pessoas que são cristãs e que agem tolamente, que tem algum comportamento digno de
repreensão e, quando sofrem, elas dizem: isto é uma perseguição por ser eu cristão. Vejam o
que diz Pedro em 1 Pedro 4.15-16:

“Que nenhum de vós padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como o que se
entremete em negócios alheios; Mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes
glorifique a Deus nesta parte.”

Este texto também esclarece que não se trata de sofrermos por pecados, nem quando somos
entremetidos em assuntos alheios, mas se trata de padecermos como cristãos. Ora, acho
importante destacar nesse texto a questão de se entremeter, pois há muitos crentes que
andam julgando assuntos onde ninguém os chamou ou em assuntos que nada tem a ver com
eles e, logo, vem a ser desprezados por isto. Precisamos muita sabedoria para saber quando é
um assunto que nos compete. Não estou dizendo que devemos ser mornos, pelo contrário,
devemos ser pacificadores e ajudar no que for necessário a estabelecer a paz entre as pessoas.
Mas digo que há casos entre pessoas que nada tem a ver conosco e, que quando opinamos,
somente podemos criar mais confusão ainda. Também, este texto repreende aos fofoqueiros,
àquelas pessoas que andam comentando os problemas dos outros e, depois, quando há algúm

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Várias ideias acerca dos motivos errados estão baseadas no livro “Estudo no Sermão do Monte” de
Lloyd-Jones. SP: Editoria Fiel.

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ofendido por causa disto, acham que estão sendo perseguidos por causa de serem cristãos.
Não é disso que aqui trata.

Outro caso são as pessoas que tem um trabalho e que nas horas de trabalho dedicam-se a
atividades religiosas ao invés de cumprirem com suas obrigações contratuais. Então, quando
são demitidas ou quando alguém chama a atenção delas, elas acreditam estarem sendo
perseguidas por causa da justiça. Não é isto o que o texto está nos dizendo. Pessoas assim, na
verdade, estão dando um péssimo testemunho da sua fé. A Palavra nos manda sermos
submissos a nossos patrões, fazer o nosso trabalho como se fosse para o Senhor ao invés de
pensarmos que fazemos para eles e, assim, testemunharmos da nossa vida cristã (Efésios 5.5-
8; Colossenses 3.22-24). No trabalho, os nossos colegas têm que ver em nosso caráter e na
nossa integridade a presença de Cristo e não através do tempo que roubamos dos outros para
usarmos na obra do Senhor. Então, se alguém sofre nestas consequências não tem razão para
reclamar ou para se alegrar achando que tem a promessa desta bem-aventurança.

Também não se trata de sermos ofensivos nem provocativos. Há pessoas excessivamente


zelosas quanto à fé que, por defenderem a justiça, esquecem a outra virtude do crente: a
mansidão. Um exemplo comum é o caso de jovens que se convertem ao Senhor em famílias
com pais incrédulos. Quando os pais proíbem que eles participem dos programas da igreja, em
alguns casos os jovens podem se rebelar e desobedecer e, como consequência, receber algum
castigo. Alguém nessa situação pode achar que está glorificando ao Senhor, mas está
esquecendo que há um princípio de submissão dos filhos aos pais, independentemente se eles
são crentes ou não, que glorifica realmente a Deus pois essa é a Sua vontade (Efésios 6.1-3). Se
uma proibição assim não afeta diretamente as questões de fé do jovem, ele deveria ser
submisso para dar testemunho e não o contrário. Isto também é válido para mulheres que se
convertem e seus maridos ainda são incrédulos (1.Pedro 3.1-6). Outro caso é o que pode
acontecer quando queremos defender a nossa fé diante dos homens. Facilmente podemos cair
no erro de ficarmos exaltados e irritados tentando defender a fé ao invés de sermos mansos e
pacificadores. Vejam como a Palavra nos instrui a respeito disto: “estai sempre preparados
para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há
em vós” (1 Pedro 3.15b). Não é a toa que neste texto se destaca a palavra mansidão e temor.
Mas quando entramos em uma discussão feroz, tentando defender e argumentar e ficamos
exaltados, levando-nos a uma briga com a outra pessoa, não temos motivo para lamentar
depois as consequências. Considere como o Senhor Jesus testemunhou dele com mansidão e,
quando não queriam crer nEle, Ele simplesmente calava e deixava tudo nas mãos do Pai.

Por fim, também não se trata de sermos perseguidos por defendermos alguma causa. Sermos,
por exemplo, contra algum tipo de governo ou contra algum tipo de organização. Muitas vezes
na perseguição de um cristão há, no fundo, algum fator político e não por assuntos religiosos.
Como disse Lloyd-Jones: “Se alguém resolveu sofrer por motivos políticos, então que prossiga
e sofra. Mas que não fique ressentido com Deus se vier a descobrir que esta bem-aventurança,
que esta promessa não se torna realidade em sua vida”. Precisamos discernir entre nossos
preconceitos políticos e os nossos princípios religiosos.

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O significado da perseguição ao crente e os motivos da mesma


Uma vez considerado os motivos errados pelos que um crente pode ser perseguido, uma
primeira questão que precisamos responder é: o que significa então esta bem-aventurança?
Qual é o verdadeiro significado da perseguição? A resposta está no próprio texto. Ali diz “por
causa da justiça”. Por nenhuma outra razão o crente é bem-aventurado ao ser perseguido, mas
sim por causa da justiça. Temos visto em uma das bem-aventuranças o significado de
buscarmos a justiça de Deus. Nesse estudo vimos que buscar a justiça de Deus significa viver
conforme à vontade de Deus. Este é a maior marca do crente, ele busca ser como Jesus Cristo.
O que lhe espera como consequência de buscar ser igual a Cristo? Considere o seguinte texto,
em João 15.18-20:

“Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se vós fósseis
do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos
escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que vos disse:
Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos
perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Mas tudo
isto vos farão por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou.”

Sofrer por causa da justiça significa sofrer por estar vivendo para glória de Deus, viver
conforme a Sua vontade e de acordo aos padrões bíblicos e não do mundo, tal como o fez o
Filho. O mundo não gostará disso, eles nos desprezarão, sentirão uma rejeição. Isto o Senhor
Jesus disse no texto descrito acima. Por conseguinte, podemos esperar que, quanto mais
sejamos santificados (no sentido de separados e purificados), mais distantes e diferentes
seremos do mundo e, portanto, isso não causará agrado neles. “E também todos os que
piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Timóteo 3.15). Muitos
exemplos há na Bíblia de homens que foram perseguidos por causa da justiça de Deus.
Considere a Moisés, homem manso como ele não houve outro na terra, nos diz a Palavra
(Números 12.3). Porém, o povo constantemente queria apedrejá-lo e murmuravam contra ele.
Ou José, quantas vezes sofreu por causa da justiça? Foi vendido por seus irmãos sem ter feito
nada e foi encarcerado quando fugiu da mulher de Potifar. Ou Daniel no fosso dos leões, que
foi enviado ali por orar a seu Deus três vezes ao dia. Todos esses servos sofreram por causa da
justiça, por serem servos fieis a Deus.

A segunda pergunta que vamos a responder é a seguinte: quais os tipos de perseguições? Este
ponto é muito abrangente, mas basta dizer que as perseguições são qualquer tipo de oposição
à pessoa cristã pelo que ela é. Pode ser desde algo tão grave como a tentativa de tirar a vida
da pessoa, podem ser ações discriminatórias como a demissão de um emprego ou a exclusão
de um grupo de trabalho da faculdade, pode ser algum tipo de terror psicológico como as
ameaças, ou podem ser atitudes de ignorância e indiferença para com a pessoa, expressando a
rejeição contra ela. Há muitas mais formas, mas são todas elas tentativas de opressão,
rejeição e desprezo ao crente.

Uma terceira pergunta que deveríamos nos fazer é: por que motivo um crente é perseguido?
Ele é perseguido por ser diferente das outras pessoas. Não é porque ele é apenas um homem
bom, pois o mundo elogia essas virtudes morais. Mas se observamos no Senhor Jesus, o que
irritava e indignava aos judeus era que o Senhor Jesus buscava e vivia a justiça de Deus,

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portanto, havia neles um senso de condenação quando viam Suas obras. Assim também é na
vida do crente. Quando alguém perdido vê a vida de um cristão verdadeiro pode ter um
sentimento de ira porque, no fundo, sente quão longe está de Deus e da vida eterna. Embora
eles nem saibam o motivo da sua reação. Um incrédulo que sente o peso do seu pecado vê no
crente aquilo que ele não consegue ser com seu esforço próprio. Ele pode ver uma pessoa
bondosa e gentil e saber que pode ser assim, mas quando vê a vida de um crente verdadeiro
pesa sobre ele o sentimento de juízo de Deus. Isto indigna o mundo e faz com que sintam
desprezo e rejeição.

A quarta pergunta que precisamos realizar é: quem é que persegue a um crente? Embora
tenhamos falado disso genericamente, gostaria detalhar um pouco mais aqui este aspecto. Em
primeiro lugar é claro que o crente será perseguido pelo mundo, pelos incrédulos que não
aceitam o nome de Cristo, como diz no texto que lemos anteriormente de João 15.19c: “por
isso é que o mundo vos odeia”. Porém, existem outros dois tipos de perseguidores muito
piores ainda. Um deles são os crentes nominais. Aquelas pessoas que se dizem crentes, mas
que não vivem como tais. Isto é muito comum de se ver e é lamentável. São pessoas que se
opõem com força quando um crente fala todas as verdades bíblicas e buscam tirá-lo do meio
da própria igreja. O Senhor Jesus anunciou que aconteceria isto com seus discípulos em Joãos
16.1-2:

“Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar
cuidará fazer um serviço a Deus. E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a
mim.”

Isto já aconteceu em muitas perseguições realizadas pelo catolicismo romano na idade média
àqueles que se opunham à doutrina dessa igreja. O mesmo aconteceu com os puritanos
perseguidos na Inglaterra no século XVI e segue acontecendo, de outras maneiras mais sutis,
até nos nossos dias dentro do meio evangélico. Essas pessoas acham que o fazem para Deus,
mas na verdade elas se opõem a Deus.

Por outro lado, há um terceiro grupo de pessoas que podem ser nossos perseguidores. Trata-
se dos nossos próprios irmãos na fé, sejam pessoas de nossa família ou da Igreja. Neste caso
refiro-me a um tipo de perseguição mais sutil ainda. Isto acontece em casos em que essa
pessoa cai em algum tipo de pecado ainda não confessado que a cega em relação a suas
atitudes. Quero explicar isto com mais cuidado para não ser mal entendido. Quando há um
pecado ainda não reconhecido, não arrependido e confessado por um verdadeiro crente, ele
ficará perturbado e até irritado pelos atos de justiça de outros irmãos que estão próximos a
ele. No salmo 32.3-4 Davi fala acerca do seu estado enquanto não reconhecia o seu pecado
cometido (adultério e homicídio): “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus
ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre
mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio.” Na versão Almeida Fiel esta última parte
diz: “o meu humor se tornou em sequidão de estio.” Há uma falta de vigor e uma mudança de
humor e ânimo no crente que retém algum pecado em si. Portanto, isto pode torna-lo sensível
às atitudes de justiça dos outros ou até diante de alguma palavra que dizermos que o
confronta com esse pecado. Uma pessoa nesse estado pode se opor a nós e até criar situações
constrangedoras por estarem perturbadas pelo seu próprio pecado. Porém, quero ressaltar e
deixar claro que, se elas realmente conhecem ao Senhor, virão ao arrependimento. A principal

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arma contra tais pessoas é a mansidão e o bem, pois este tipo de pessoas são sensíveis ao
pecado e sentirão o peso da injustiça cometida.

O gozo na perseguição
Ora, o crente pode encarar de duas maneiras totalmente diferentes a persecução que ele sofre
por causa da justiça. A forma humana é o lamento e a depressão pelo sofrimento. Esta é a
tendência natural do homem. Os salmos, as lamentações e em muitos outros livros da Bíblia
vemos a natureza do ser humano que se lamenta na sua dor e nas perseguições que ele sofre
quando são por causa da justiça. É claro que uma injustiça assim dói no coração, pois quem
que não sente dor de ter agido corretamente e ter recebido em troca o desprezo e a rejeição?
Mas agora o Senhor acrescenta a esta bem-aventurança a necessidade de uma atitude
totalmente diferente:

“Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim
perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.” (Mateus 5.12)

Aqui o Senhor destaca que a atitude do crente deve ser de regozijo. Mas note que não esta
expressão não significa que o crente deva ter um sorriso no rosto o tempo todo, mas significa
uma alegria interior, um gozo no espírito. É ter paz no interior sabendo que o Senhor está se
agradando em nós. É por isso que Paulo disse aos Filipenses (4.4): “Alegrai-vos sempre no
Senhor; outra vez digo: alegrai-vos”. Paulo destaca aqui a palavra “sempre”, em todo
momento e em toda situação. E mais adiante Paulo acrescenta todas as dificuldades que ele
passou e afirma que sabe viver e se contentar em todas as situações, pois: “tudo posso
naquele que me fortalece” (Filipenses 4.13). A alegria de Paulo em todas as circunstâncias
estava baseada na fortaleza que o Senhor lhe dava. Isto não significa não choremos quando
formos perseguidos, mas nosso choro se consola no gozo do Espírito (ou pelo menos deveria).

Assim sendo, também temos que nos perguntar: em que está baseado esse gozo? Qual é o
motivo de nos regozijarmos quando formos perseguidos? O próprio texto deixa claro um
primeiro grande motivo: o galardão que nos espera. Se lermos o capítulo 11 dos Hebreus
podemos ver que os heróis da fé suportaram qualquer coisa por causa do galardão, por causa
das promessas que lhes esperavam nos céus. Veja, por exemplo, os versos 13-16 desse
capítulo:

“Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e
saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque os
que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria. E, se, na verdade, se
lembrassem daquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Mas, agora, aspiram
a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser
chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade.” (Hebreus 11.13-16)

O próprio Senhor Jesus sofreu e suportou tendo em vista também as promessas (Hebreus
12.2b: “Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não
fazendo caso da ignomínia”. Precisamos lembrar das promessas, precisamos sentir esse anelo
pelo galardão que nos espera nos céus. É isso que manteve firme e perseverantes a todos os
servos de Deus na história da Igreja. “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz
para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2.Coríntios 4.17). Quando

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possuirmos uma visão eterna da nossa vida, poderemos afirmar como Paulo disse aqui, leve e
momentânea tribulação. Ela é leve comparando com o peso de glória que nos espera. Ela é
momentânea se comparada com a eternidade. Então porque desanimar?
Além disso, há outras razões pelas quais podemos nos regozijar no meio da perseguição2. Um
deles é que o fato de sermos perseguidos por causa da justiça é prova de quem e que
realmente somos. Quer dizer que isto é uma prova que testifica a nosso favor de que somos
realmente cristãos. Neste sentido, podemos ver até as intenções do Diabo de nos fazer mal se
tornarem bênção e gozo para nós. Ele faz com que a nossa fé se afirme mais ainda com essas
provações. Por outro lado, se a nossa vida estiver tranquila demais o tempo todo, se ninguém
se incomodar conosco pelo que somos, deveríamos então ficar preocupados e nos perguntar
se realmente estamos vivendo as bem-aventuranças, se realmente estamos nos caminhos do
Senhor.

Outro motivo é que, se estamos sendo perseguidos, significa que estamos sendo cada vez mais
semelhantes a Cristo e estamos sendo formados à sua imagem. Lembrem do texto que lemos
de João 15: “Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós”. Por quê? Por sermos
semelhantes ao nosso Senhor. Ora isto deve ser um privilégio para nós como crentes. Se
formos perseguidos por sermos semelhantes a Cristo é uma honra para nós, pois o maior alvo
do crente é ser cada vez mais próximo ao caráter e semelhança de Cristo (Romanos 8.28-29).
Como disse Pedro em 1 Pedro 2.19-24:

“porque isto é grato, que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de
sua consciência para com Deus. Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por
isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente
afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo
fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo
para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em
sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não
fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente, carregando ele mesmo em
seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados,
vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.”

Aqui Pedro afirma que fomos chamados para sofrermos como Cristo sofreu. Isto é agradável a
Deus, pois significa que estamos nos parecendo a seu Filho amado. Oh que glória seria se
todos nós vivêssemos e sofrêssemos igual que Cristo! O Senhor se alegraria com nossas vidas e
nós também por termos agradado a nosso criador e pelo galardão que nos espera!

Por fim, uma última razão para nos alegrarmos é que o fato de sermos perseguidos é uma
prova de que temos nosso destino certo. “Bem-aventurados os perseguidos por causa da
justiça, porque deles é o reino dos céus”. Se formos perseguidos por causa da justiça temos
mais uma comprovação que nosso será o reino dos céus. Então isto é mais um testemunho a
nosso favor que nos dá a garantia, uma tranquilidade de sabermos que nos espera o galardão
nos céus, pois todas as pessoas querem um galardão, mas a questão é se elas realmente estão
em caminho a alcança-lo. Mas se formos perseguidos pela justiça de Deus sabemos que
estamos no caminho certo. Já não depende de subjetividades nossas, mas é uma comprovação

2
Ibid.

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externa. É por isso que eu disse no inicio que isto é um testemunho que o mundo dá acerca do
crente. Além disso, observem que esta promessa é a mesma que está presente na primeira das
bem-aventuranças. Esta repetição da mesma promessa na primeira e na última bem-
aventurança não é à toa. Ela encerra a maior das promessas da vida do crente, é a certeza de
saber que nosso é o reino dos céus. Isto equivale a sabermos que somos salvos, sabermos que
gozaremos da presença do Senhor para todo sempre. Nada deveria nos alegrar mais do que
isso em nossas vidas.

Considerações finais
Depois de termos considerado todos esses aspectos acerca do verdadeiro significado das
perseguições, seu sentido na vida do cristão e o gozo que ela deve produzir em nós, basta nos
perguntarmos a nós mesmos como estamos diante desta bem-aventurança. Para isso, em
primeiro lugar precisamos nos perguntar: Sou perseguido por causa da justiça? Mas antes
disso, estou vivendo essa justiça? Estou vivendo cada uma das bem-aventuranças anteriores
para ser, assim, digno das perseguições pela justiça? Como está nossa humildade, nosso
lamento pelos pecados, nossa mansidão? Estamos vivendo conforme a vontade de Deus,
conforme aos padrões bíblicos? Dedicamos tempo exclusivo para a oração e a leitura da
Palavra diariamente? Somos misericordiosos? Temos um coração puro e sincero, que sempre
fala a verdade e ama em todo momento? Buscamos a paz em todas as situações, inclusive com
nossos inimigos? Se essas questões são um problema nas nossas vidas, se não estamos sendo
santificados nesses pontos, também não poderemos dizer que estamos sendo perseguidos por
causa da justiça. Talvez seja por outra causa, mas não pela justiça de Deus.

Outra pergunta para nos fazermos é: como é o nosso relacionamento com o mundo? Há neles
um agrado para conosco? Eles sentem muito prazer em nós? Se as pessoas se alegrarem
demais conosco, se temos ganho demasiada simpatia do mundo, talvez haja algo errado em
nós e precisamos avaliar se estamos vivendo a justiça de Deus. E como é a nossa vida cristã?
Ela é fácil demais neste mundo ou temos dificuldades por sermos cristãos? Se tudo for fácil
demais, se não sofremos em algumas ocasiões por causa de sermos fiel à verdade de Deus,
também é motivo para nos avaliarmos diante do Senhor.

Por outro lado, como é o nosso sentimento a respeito do galardão que nos espera. Isso nos
infunde alegria ou algum tipo de estranheza e temor? Se não sentimos alegria no galardão,
alguma coisa não está bem em nossas vidas e precisamos nos avaliar. Se no meio das
dificuldades não há em nós um sentimento de esperança na vida eterna e um gemer em nós
esperando que o Senhor venha nos buscar, há algo de errado e precisamos buscar a ajuda em
Cristo, pois esta é a maior alegria que um crente deveria ter. Pode estar errada a nossa noção
de céu ou pode ser que nem tenhamos experimentado a salvação em Cristo para nos
alegrarmos na esperança que há nEle.

Finalmente, quero deixar uma exortação final para todos nós. Uma exortação a olharmos para
o Senhor Jesus e aprendermos dEle e dos seus padecimentos. Ela está em Hebreus 12.1-3:

“Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas,
desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos,
com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e
Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a

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cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.
Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores
contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma.”

Que o Senhor nos sustente com sua graça para olharmos para Cristo, para ver da mesma
maneira que o nosso Senhor viu o galardão e que, através disso, estejamos dispostos a
suportar qualquer situação por causa da justiça de Deus.

Toda glória seja dada a Ele!

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