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A Companhia de Jesus

A Companhia de Jesus foi fundada em 1534 por Santo Inácio de Loyola, e em poucos
anos conquistou grande prestígio por seu dinamismo e pelo sólido preparo teológico e
cultural de seus membros, que ascenderam a posições de destaque no clero e nos
conselhos de reis e príncipes. A Ordem se tornou a principal força da Igreja Católica no
processo da Contra-Reforma, renovou a pedagogia na Europa, e de fato representou a
vanguarda religiosa em seu tempo, contando com privilégios especiais e grande
independência da estrutura hierárquica católica, mas votando uma obediência total ao
papa.[8][9] Os jesuítas aportaram no Brasil em 1549, no Peru chegaram em 1567, no
México em 1572 e na Nova França em 1611, mas o sistema missioneiro levou várias
décadas para se estruturar e consolidar.[1] Dessa forma, as primeiras tentativas de
evangelização foram informais, itinerantes, pouco coerentes e sem resultados
significativos, e encontraram os entraves da ausência de instituições jurídicas e
administrativas de apoio eficazes, da pouca colaboração de outras Ordens - quando não
sua conivência com as práticas predatórias dos colonizadores, como lamentou no Brasil
Manuel da Nóbrega - e da objeção dos primeiros colonizadores que já estavam
instalados, para quem os índios eram tão desprezíveis quanto os negros e só lhes
pareciam úteis como trabalhadores braçais. A primeira iniciativa de fundação de
povoados especiais para os índios cristianizados partiu de Dom João III, que em
Regimento ao primeiro governador-geral do Brasil Tomé de Sousa ordenou que eles
vivessem em grupos nas proximidades das vilas para que pudessem entrar em mais
íntimo contato com os cristãos e pudessem ser melhor doutrinados. A idéia foi louvada
por Nóbrega, pois ele sem demora percebeu a ineficiência das missões itinerantes,
pouco antes de o padre espanhol José de Acosta fazer a mesma constatação no Peru.[7]

O massacre dos incas em Cajamarca, na conquista espanhola do Peru

Redução de Nossa Senhora de Loreto Conchó, Baixa Califórnia, México

Rugendas: aldeamento no centro do Brasil


Nóbrega escreveu aos seus superiores solicitando que os jesuítas obtivessem do papa o
poder de erigir altares onde bem lhes aprouvesse e assim consolidar seus povoados, ao
mesmo tempo em que recomendou paciência para com o processo de aculturação,
prevendo que uma transformação autoritária, súbita e radical nos costumes indígenas
não daria frutos positivos. Também reconheceu, em seu Diálogo da Conversão do
Gentio (1556-57) que os índios não eram essencialmente maus, apesar de suas práticas
religiosas "abomináveis", e que podiam ser gradualmente conduzidos a uma vida mais
digna, pois se sua religião era errônea, a raiz do mal estava mais no ter um caráter
supersticioso, que podia ser encontrado em qualquer povo ignorante, e não por ser
intencionalmente maligna, a opinião mais corrente.[7] Acosta viajou para o Peru no
cargo de Provincial da Ordem em 1576 e, inspecionando o trabalho até então
desenvolvido entre os índios, o considerou insatisfatório. Na assembléia provincial de
1576 e no concílio de Lima de 1582-83, reunidos para examinar as causas do fracasso,
Acosta recolheu os elementos necessários para compor a obra De procuranda indorum
salute (1588), onde sintetizou suas experiências e apresentou as contradições da
evangelização no Novo Mundo. Nessa altura as pilhagens, escravizações e assassinatos
em massa já se haviam tornado um escândalo, condenado na Europa, a despeito de o
Papa Paulo III ter publicado já em 1532 uma bula em que proclamava a liberdade dos
índios nas possessões espanholas. As idéias de Acosta eram em suma as mesmas de
Nóbrega, e apareceram como uma alternativa viável de criação de uma obra missionária
baseada no respeito aos índios e mais independente de um Estado que se revelara cruel e
imoral, preservando os costumes nativos que não se opusessem diretamente à fé cristã e
à justiça, ainda que não abandonasse de todo a idéia da imposição doutrinal forçada em
alguns casos. Homens de seu tempo, Nóbrega e Acosta consideravam a cristianização
do gentio um imperativo para seu próprio bem (pro sua salute), e viam com maus olhos
sua religião, mas encontraram um caminho para a sua reforma, e não sua supressão
total, identificando pontos de semelhança com o Catolicismo, como a crença na vida
após a morte e em um deus supremo. Combateram o método de erradicação completa
dos símbolos religiosos e culturais nativos acreditando que apesar de sua idolatria os
índios poderiam conhecer a "verdadeira fé" através da razão. Essas idéias liberais
tinham longa história, pois o Papa Gregório I no século VI já recomendara para
Agostinho de Cantuária, o evangelizador da Inglaterra, que trabalhasse sobre os
costumes locais e preservasse tudo que fosse positivo na fé autóctone.[1][6]

Entretanto, no Brasil apareceram divergências sobre o modo de conduzir o trabalho


missionário. Nóbrega começou a mudar seu discurso, apostando então mais na sujeição
pura e simples do índio, e essa tendência parece ter-se tornado daí em diante a
predominante, dando ao missionarismo português em geral um caráter distinto do
espanhol, e relativamente menos frutífero no que diz respeito ao sistema missioneiro em
particular, até porque as missões de toda a metade norte do atual Brasil foram das que
trouxeram mais problemas para se estabilizar, quando foram capazes de fazê-lo.[10][11][12]
Na época em que Portugal e Espanha estavam governados por um mesmo rei, foi
publicada a partir de 1607 uma série de decretos que protegiam as missões, dando-lhes
total autonomia desde que houvesse ali um representante da Coroa. Ao mesmo tempo se
proibiu o acesso de mestiços e negros, e se deram salvaguardas para os índios reduzidos
a fim de que não pudessem ser capturados pelos encomenderos, os caçadores de
escravos. O resultado dessas novas medidas foi que grande número de indígenas buscou
proteção dentro das reduções, num período em que crescia aceleradamente a demanda
por escravos e os ataques ilegais aos aldeamentos também se multiplicavam. Calcula-se
que somente em 1630 tenham sido mortos ou aprisionados cerca de 30 mil nativos na
região do Paraguai.[5][13]

As idéias de Acosta foram levadas adiante na América espanhola por Antonio Ruiz de
Montoya, que trabalhou entre os guaranis do Paraná-Paraguai e escreveu o livro
Conquista espiritual (1639), onde propôs a fundação de aldeamentos indígenas
afastados das zonas de colonização, dando diretrizes para a organização da sua vida
sócio-cultural e para uma evangelização mais profunda, salientando o fato de que os
índios eram, por força da Conquista, súditos legítimos do rei espanhol e merecedores
assim de respeito e de uma proteção oficial mais efetiva, tanto mais que seu trabalho
revertia em rendas para a Coroa e as reduções espanholas funcionavam como baluartes
contra a expansão portuguesa. Na mesma obra relatou os progressos positivos que
testemunhara aplicando suas idéias entre os índios e a rica e harmoniosa sociedade que
conseguira estabelecer nas reduções que fundara. Enquanto isso, no Brasil, o padre
Antônio Vieira se esforçava por livrar os índios da escravidão e exigia, com sucesso, do
novo rei português, Dom João IV, a regularização do status jurídico e a autonomia
administrativa dos povoamentos estabelecidos pelos jesuítas, fazendo o monarca ver
que os interesses da Ordem não eram contrários aos da Coroa, e mais do que isso, lhes
eram de auxílio. Mas mesmo que os jesuítas trabalhassem para minimizar a dependência
das reduções do Estado e o contato com os outros colonizadores, essas ligações não
foram rompidas completamente. Tampouco os jesuítas se opuseram ao conceito simples
da colonização européia da América, pois ela era evidentemente irreversível e eles
mesmos foram um de seus agentes mais importantes.[1][11] Além disso, para os jesuítas
uma evangelização centrada em núcleos urbanos novos se revelava imediatamente
vantajosa, tanto pela maior facilidade de administrar o povoado desde o início de acordo
com suas idéias, criando um modelo econômico auto-sustentável que facilitasse a obra
catequética, como pelo fato de que se mantinham mais isolados do contato com os
outros colonizadores.[14]

Um encomendero capturando um índio


Jesuítas martirizados pelos índios mapuches em 1612 no Chile

Em meados do século XVII muitas das reduções já eram prósperas o bastante para
desenvolver um ativo comércio com as cidades e províncias próximas, chegando a
exportar muitos produtos para a Europa, incluindo instrumentos musicais e esculturas, e
importando outros tantos. Em diversos casos o seu sucesso foi de fato notável,
superando em muito o nível de vida dos colonos assentados nas vilas e cidades,
desenvolvendo uma estrutura administrativa e econômica muito mais eficiente e
humana, e práticas tecnológicas mais avançadas. Apesar disso o sistema missioneiro
jamais se livrou de continuadas dificuldades e imprevistos. Na maior parte das missões
houve declínio na taxa de natalidade dos índios. Nas da Califórnia se verificou uma
queda populacional de 80% até o fim do século XVIII, e essa queda, se bem que não tão
acentuada em outros locais, foi um fenômeno generalizado, situação piorada com a
ocorrência de diversas pragas agrícolas, prejudicando a produção de meios de
subsistência e provocando períodos de fome, quando não eram as epidemias e os
ataques de tribos selvagens que dizimavam ou afugentavam a população de núcleos já
consolidados. Outro problema foi o conflito entre a constante pressão do Estado para
uma aculturação rápida e a incapacidade de alguns grupos indígenas de se integrarem à
civilização estrangeira no ritmo desejado pelos colonizadores, fazendo com que suas
estruturas culturais originais se desvirtuassem a ponto de causar uma crise interna no
grupo e a rejeição completa da proposta missioneira, revertendo para as selvas, mas já
tendo perdido boa parte de seu conhecimento tradicional de práticas caçadoras-coletoras
e guerreiras, acabaram não podendo se readaptar ao ambiente primitivo, perecendo de
fome ou caindo nas mãos dos caçadores de escravos. Em outros casos os padres eram
em número insuficiente ou estavam mal-preparados, seja não conseguindo estabelecer
laços de confiança eficientes com os índios, seja administrando de forma incompetente,
ou acabaram desmotivados diante da aspereza da tarefa e abandonaram as povoações.[15]
[16][17][18]
Além disso o conflito de interesses entre os colonos já instalados e os
missionários nunca se resolveu, e os confrontos violentos não foram raros,
especialmente nas incursões dos contrabandistas de gado, dos que cobiçavam supostos
tesouros escondidos pelos padres, dos bandeirantes no Brasil e dos encomenderos na
América espanhola, buscando nos índios mão-de-obra escrava, com o resultado de
mortes numerosas e destruição de muitas reduções. Por fim, nas tentativas de
aproximação algumas tribos se mostraram hostis e outras se rebelaram depois de
reduzidas, com o consequente assassinato dos padres, e as diferenças de visão entre os
jesuítas e as outras Ordens e a Inquisição lhes trouxeram problemas adicionais.[19][20][21]

[editar] As missões na América do Norte

A conquista espanhola da América se estendeu para o norte até as regiões da Flórida,


Texas, Novo México, Arizona e Califórnia, mas boa parte da região norte-leste
norteamericana foi colonizada por franceses e ingleses. O território da Nova França
começou a ser evangelizado no início do século XVII por jesuítas franceses, que
tentaram estabelecer um sistema similar ao das reduções hispânicas, mas sem
conseguirem o mesmo sucesso. Seus primeiros contatos foram com os iroqueses e
algonquinos, e em seguida alcançaram a maior parte dos grupos étnicos da região,
chegando até onde hoje é o Canadá, mas depois reduziram seu escopo de atuação, se
concentraram nos dois grupos iniciais, e se fixaram principalmente nos arredores de
Quebec e Montreal. Em parte seu trabalho foi facilitado pela inclinação comercial da
colonização francesa, o que exigia a manutenção de relações mais amistosas com os
índios, mas o constante estado de guerra entre as tribos, que custou a vida de muitos
padres, e seu marcado espírito de independência, mais a falta de apoio da Coroa
francesa e a crescente penetração de colonos protestantes ingleses, que faziam uma
campanha na Europa contra a presença jesuíta ali, impediram que essa vantagem desse
frutos importantes e se fundassem reduções estáveis.[22][23]

[editar] Fim do ciclo

De qualquer forma, no século XVIII as reduções haviam alcançado em conjunto um


sucesso econômico e autonomia administrativa grandes o suficiente para que
começassem a ser vistas como uma ameaça ao poder das Coroas espanhola e
portuguesa, e a Companhia de Jesus como um todo, que havia a esta altura acumulado
riquezas imensas e conquistado um poder político comparável, passou a ser acusada de
ser um antro de enganadores astutos e inescrupulosos e de tentar estabelecer um império
teocrático independente na América, ao mesmo tempo em que se desencadeava uma
grave querela sobre os ritos nas missões do oriente. Os jesuítas tiveram ainda de fazer
face ao sentimento anticlerical fomentado pelos iluministas, o que foi agravado com seu
envolvimento na disputa política de fronteiras entre portugueses e espanhóis na América
do Sul. Os crescentes desentendimentos dos religiosos com o poder laico e com a
própria hierarquia da Igreja acabaram por resultar na sua evacuação das colônias
americanas, não sem antes ocorrerem revoltas sangrentas como a Guerra Guaranítica no
sul do Brasil.[24] Foram expulsos da colônia portuguesa do Brasil em 1759 através de um
decreto do Marquês de Pombal, que dois anos antes disso já havia emitido o Diretório
que se deve observar nas povoações de índios do Pará e Maranhão, que para Moreira
Neto foi

"um claro instrumento de intervenção e submissão das comunidades indígenas


aos interesses do sistema colonial. Nesse sentido, ampliava e completava a obra
de desorganização da vida indígena tribal, inaugurada pelas missões. Ao
estimular o aumento do número de colonos brancos e seu consequente domínio
sobre os índios, assegurado pela manutenção e ampliação da distribuição
compulsória da força de trabalho indígena entre os colonos, a prática
pombalina teve um resultado mais negativo - para o futuro dos índios
concretamente envolvidos no processo - do que a ação missioneira anterior,
ainda que a política indigenista pombalina pretendesse aparecer como
progressista e liberal".[15]

Em 1768, por ordem do rei Carlos III, a Espanha fez o mesmo em suas colônias
americanas, justificando a decisão por considerar que a Companhia se opunha ao Estado
e ao bem público, sendo fechadas também todas as suas cátedras de filosofia nos
colégios, acusando-os de se colocarem indevidamente como mediadores entre a vontade
divina e o livre arbítrio, de manterem uma postura pouco humilde, e de sustentarem
interpretações excessivamente liberais da doutrina e muito condescendentes para com as
fraquezas humanas, fazendo pouco caso das decisões dos cânones e concílios, o que
indica que além de serem vistos como ameaça política também seu sistema filosófico e
moral estava em xeque.[25] Considerando que sua atividade era equívoca e infrutífera,
disse o enviado espanhol ao Novo Mundo, Francisco Antonio de Lorenzana, Inquisidor-
Geral da Espanha e encarregado de implementar o decreto e reformar o sistema de
ensino religioso:

Ruínas da missão de São Miguel Arcanjo em 1846, Brasil


"Em todos os séculos se disse que o mundo está perdido, mas o seu relaxamento
foi maior em algumas épocas do que em outras: o (mundo) de nossos dias vê
mais frequência aos sacramentos, mais religiões fundadas, maior número de
sacerdotes e ministros, maior quantidade de confessores, maior formosura e
adorno nas igrejas, e mais socorro para todo o espiritual do que nos séculos
anteriores. Mas com tudo isso não progrediu a reforma dos costumes, nem
aumentou o fervor dos cristãos para cumprirem as obrigações de sua
condição".[25]

O golpe derradeiro, que selou o fim da empresa missioneira, foi a dissolução da


Companhia de Jesus em 1773 pelo documento Dominus ac redemptor do papa
Clemente XIV, mas as reduções não foram imediatamente abandonadas. Diversas
continuaram funcionando até o início do século XIX, com seu governo então dirigido
por oficiais militares e um clero secular ou membros de outras Ordens como os
franciscanos, mas a dispersão foi inevitável, ocorrendo queda drástica na produção,
motins, deserções em massa, aprisionamento de índios, depredações dos edifícios e
saque das igrejas - somente dos Sete Povos das Missões as tropas de Fructuoso Rivera
em 1828 roubaram 60 carretas de objetos preciosos e obras de arte [26] - deteriorando
sem remédio o antigo sistema.[27]

[editar] A teologia prática dos jesuítas


A grande obra missionária que os jesuítas ergueram na América - e também no oriente e
África - esteve intimamente vinculada a vários conceitos teológicos inovadores que seus
luminares desenvolveram. Antes disso, o terreno fora preparado pela publicação da bula
Inter coetera Divinae em 1493 pelo papa Alexandre VI, que dividiu as terras recém
descobertas do ocidente entre os reinos da Espanha e Portugal e resultou na prática com
a consolidação do direito do Padroado, que concedia aos soberanos português e
espanhol uma jurisdição não apenas política mas também eclesiástica sobre o Novo
Mundo. Sobre esta base dupla se estruturou toda a Conquista, requerendo para ser
implementada nesse molde tanto exércitos como missionários.[28][29] Quando os estatutos
da Companhia de Jesus foram definidos, em 1540, ficaram estabelecidas suas vocações
principais, entre elas a de obediência total ao papa, e a de se prontificarem a ir, sem
questionamentos, aonde ele indicase para a divulgação do Evangelho, o chamado
"quarto voto". Isso configurava um modelo de evangelização à imitação do apostolado
imposto por Cristo para seus discípulos - da mesma forma que Cristo enviara seus
apóstolos para o mundo, o papa, como vigário de Cristo, enviaria os jesuítas -, dava um
tom nitidamente cristológico à sua vocação, buscando em toda parte sinais que
prefigurassem o Segundo Advento, e fazia uma ligação com a teologia sincrética de São
Paulo, que em sua pregação para os gregos identificara seu deus ignoto com o deus
cristão. A partir dessa ligação o pensamento jesuíta se inclinou para o conceito da
revelação natural, para a busca de um deus acessível a todos, um deus que vivia em
todos e a todos animava, o que possibilitou que os jesuítas fossem simpáticos e
tolerantes com credos não-cristãos e encontrassem inspiração nos textos da filosofia
clássica, a qual por sua vez já inspirara os primeiros Doutores da Igreja como
prenúncios da doutrina de Cristo.[29] Dessa forma, sua teologia inicial foi um produto
típico do Humanismo renascentista, fazendo uma mediação entre a tradição da
Antiguidade clássica pagã e o Cristianismo.[6]
Um jesuíta das missões do oriente, vestido com costume local, ilustrando o conceito da
acomodação

A liberalidade do seu pensamento foi cristalizada no conceito da acomodação


(accomodatio), que interpretava a doutrina de que a salvação só podia acontecer dentro
da Igreja (extra Ecclesiam nulla salus) nos termos da possibilidade de remissão do
pecado original mediante apenas a lei natural. Uma vez que Deus criara toda a ordem do
universo, estava em todas as coisas e dava a todas uma espécie de iluminação interna,
presente até naqueles homens que jamais haviam conhecido o Evangelho mas que por
virtude dessa luz estavam imbuídos de uma "fé implícita". Era, pois, todo o mundo
manifesto a grande Igreja de Deus, e assim a acomodação permitiu que os jesuítas
encontrassem na fé alheia imagens comuns com o Catolicismo. Porém, essas
proposições divergiam do que resolvera o Concílio de Trento, que entendera impossível
a justificação sem fé declarada e sem batismo. Ao mesmo tempo, a acomodação era
tomada também em seu senso estrito, como uma capacidade de adaptação às
circunstâncias e às necessidades locais da evangelização, autorizando os jesuítas a se
moldarem externamente a qualquer forma de culto estranho, desde que no seu interior
preservassem a "verdadeira fé", a fim de que o contato intercultural fosse satisfatório e
frutificasse dentro do espírito da diplomacia, do respeito e da etiqueta. Empregando essa
forma de apostolado indireto, se chocavam contra as Ordens missionárias que preferiam
modos explícitos de pregação, ensinando nas ruas e exibindo ostensivamente os
símbolos cristãos como o crucifixo.[30]

Essas idéias pouco ortodoxas foram, junto com as acusações de imperialismo


dissimulado, interferência indevida na política, ultramontanismo e enriquecimento
suspeito, as causas principais para que começassem a receber críticas de vários
pensadores e clérigos importantes, inclusive gerando dissidências internas. Os críticos
deploravam o efeito que a metodologia jesuítica estava produzindo na América, tais
como manifestações grosseiras de devoção entre os índios num culto excessivo às
imagens dos santos, que se aproximava da idolatria, e um ardor missionário demasiado
afeito à glorificação do martírio, e buscavam regularizar, moderar e "esfriar" os
movimentos de renovação da fé cristã. Ao mesmo tempo, no oriente, trabalhando com
culturas de grande antiguidade e sofisticação como a japonesa e a chinesa, os jesuítas
pareciam estar se inclinando a uma valorização imprópria da razão, da ciência e da
educação profana em detrimento da fé, e estavam introduzindo práticas estranhas no
próprio ritual da missa. Ademais, mantinham opiniões controversas sobre o livre-
arbítrio e a predestinação e atraíram a inveja de outras Ordens pela influência
conquistada sobre a política eclesiástica do Estado, por serem até antes da ascensão de
Carlos III os confessores prediletos dos reis da Espanha, e também durante algum
tempo dos reis da França. Enfim, a afluência à Europa de uma profusão de relatos
maravilhosos e excitantes dos jesuítas sobre sua experiência com um vasto número de
culturas exóticas, algumas delas com filosofias próprias que podiam competir com a
tradição clássica em termos de sutileza e profundidade, começou a abalar, ainda que
involuntariamente, a noção de superioridade da civilização cristã, instilando nela o
germe do relativismo.[31][32][33] Segundo Elisabetta Corsi,

"Fiéis ao mandato de Inácio de 'achar Deus em todas as coisas e todas as coisas


em Deus', os jesuítas missioneiros ... trataram de harmonizar o ideal cristão
com as diversas manifestações culturais e religiosas dos povos com que
interagiram. Sua atitude, amiúde audaz e liberal, mas não isenta de
eurocentrismo e de uma certeza intrínseca na unidade e superioridade do
Cristianismo, gerou intensos debates na Europa durante muito tempo. Os
testemunhos escritos desses debates quase sempre refletem posturas
extremadas: passam da glorificação à demonização, e intimam para que
adotemos um partido, seja daqueles que os vêm como colonizadores sem
escrúpulos como dos que os percebem como místicos sobrenaturais. Quando
essas tensões se tornaram intoleráveis a Companhia foi suprimida em vários
países, culminando com sua dissolução definitiva em 1773".[34]

[editar] A organização das missões


As reduções eram concebidas de forma a se desenvolverem de forma auto-sustentada,
conforme havia prescrito Loyola nas Constituições da Ordem, onde cada domicílio da
Companhia ficava obrigado a funcionar com independência,[35] e por isso deviam
possuir todos os equipamentos e estruturas necessários para tal, tornando-se na prática
grandes empresas industriais e agropecuárias. Nesse processo chegaram a constituir
verdadeiras cidades, muitas delas com milhares de habitantes, compostas por um núcleo
urbano principal com as habitações, igreja, colégio, presídio, mercado e oficinas
diversas, e grandes áreas em torno dedicadas às lavouras e criações de gado. Se sua
economia não resultava lucrativa o suficiente, muitas vezes eram sustentadas em parte
pelos rendimentos que a Companhia de Jesus obtinha em outras atividades, como as
operações de crédito, ou com doações da nobreza.[36]

Planta da redução de São Miguel Arcanjo, Brasil

Antes que tudo isso pudesse se concretizar era necessário em primeiro lugar reunir a
população-alvo, convencendo-os das vantagens da vida em uma redução. Para que o
primeiro contato fosse possível se recorria a algum índio do mesmo ramo linguístico do
povo que se pretendia atrair, servindo de intérprete, e com o tempo surgiu a figura do
missionário itinerante, já conhecedor de várias línguas e da geografia local, e perspicaz
na psicologia própria dos índios. Nem sempre os índios se deixavam levar de imediato,
e podia ser necessária uma aproximação lenta ao longo de anos, com várias trocas de
presentes e promessas, ou com o convite para que algum representante indígena
visitasse uma redução já em funcionamento.[35] As inteligentes técnicas de contato e
interação usadas pelos jesuítas os colocam entre os primeiros etnólogos da América,[6]
mas mesmo assim muitas tribos nunca aceitaram sua proposta, como os mapuches do
Chile, cujas hostilidades contra os jesuítas acabaram em martírios,[37] e alguns guaranis
do Paraguai, para quem a troca da vida nômade por uma sedentária, justo quando a
introdução do cavalo na região tornara os deslocamentos mais fáceis, não pareceu
atraente.[21]

A diversidade de contextos geográficos, culturais e econômicos impediu que se criasse


um modelo urbano único para todas as reduções americanas. Houve reduções modestas,
quase apenas um pequeno rancho para um grupo de poucas dezenas de pessoas, e outras
muito maiores, com milhares. Em algumas delas não houve grandes preocupações de
uma organização pré-estabelecida estrita, e foram crescendo informalmente de acordo
com as necessidades ou possibilidades, mas em geral as reduções se estruturaram de
forma racional e avançada para sua época, com um planejamento urbano regular e
eficiente, destacando-se especialmente as da região de fronteira entre Brasil, Bolívia,
Paraguai e Argentina.[24] Nessa região, que muitos consideram a mais representativa de
todo o projeto missioneiro, a povoação se definiu em torno de uma grande praça
quadrangular, em cujo centro se instalava uma grande cruz e uma estátua do santo
protetor. De um lado se erguiam a igreja, com casas anexas para viúvas e órfãos, uma
escola, o claustro dos missionários, um cemitério e as oficinas; atrás da igreja se
cultivavam o pomar e a horta. No lado oposto ficavam as moradias dos índios, e nos
lados restantes estabeleciam o Conselho da missão, uma portaria, uma hospedaria, um
relógio de sol e uma prisão. Em torno às vezes cavavam trincheiras e erguiam um muro
para proteção contra os ataques de indígenas selvagens e as expedições predatórias dos
bandeirantes. A igreja era o único edifício mais elaborado e ornamentado, e os demais
eram pavilhões simples. Esse modelo podia apresentar variações na disposição dos
elementos e na quantidade de edifícios, mas seu esquema básico permeneceu em linhas
gerais constante.[36][38][39][40] Para Luiz Custódio, os povoados guaranis,

"Originados no contexto colonial espanhol, ... também utilizaram as diretrizes


administrativas e as referências urbanas vigentes para estruturar uma tipologia
peculiar, morfológica e funcional, que pode ser considerada como uma variante
da organização espacial espanhola adequada a um programa e a uma situação
política e administrativa própria. No que se refere às etapas por que passaram
os ordenamentos urbanos no sistema reducional, podem-se reconhecer duas
fases referentes à estrutura espacial interna onde as variáveis, território,
arquitetura e organização espacial interagem, diferentemente: a primeira fase
(século XVII), em que as povoações iniciais devem ter atendido às orientações
genéricas das Leis das Índias e que, em princípio, correspondem às descrições
dos inúmeros pequenos povoados – aldeamentos ou pueblos de índios –
empreendidos durante a colonização espanhola e portuguesa na América. A
segunda fase, quando a redução missioneira adquire sua autonomia
compositiva e funcional em relação ao traçado da cidade colonial espanhola,
moldando características próprias, estruturando um modelo espacial
reconhecível. Este pode ser denominado de tipologia urbana missioneira uma
vez que caracterizou, distinguiu e permite identificar, especialmente, as
reduções da Província Jesuítica do Paraguai".[41]

Florian Paucke: Índios e missionários atravessando um rio na região do Chaco

Florian Paucke: Colheita do mel, século XVIII

O governo civil era exclusivamente indígena e respeitava as hierarquias tribais.


Consistia de um Conselho eleito por votação renovada anualmente, composto por
oficiais, administradores, fiscais de justiça e representantes dos bairros da missão, todos
sob a égide de um cacique geralmente hereditário. A administração da justiça ficava a
cargo dos jesuítas, mas era frequente a consulta ao cacique para qualquer decisão, e a
execução das penalidades era deixada para oficiais índios. Como poucos eram os
crimes, os castigos usualmente eram leves. Raramente se utilizava a prisão ou se
condenava ao exílio, considerado a desgraça suprema. Todos recebiam tratamento
igualitário, salvo alguns oficiais e o cacique, que podia levar um cetro e na igreja se
assentava em posição de destaque.[38][42] Havia ainda, no caso excepcional das reduções
do Paraguai, uma força militar considerável, composta por soldados espanhóis e
guerreiros indígenas, armados com equipamento produzido localmente e em parte
importado. Eram instruídos em tática e estratégia e na arte de construir fortificações,[43]
mas o uso de armas de fogo pelos reduzidos paraguaios só se possibiitou graças a uma
dispensa especial da Coroa espanhola em vista do constante ataque dos bandeirantes. A
eficiência desse exército se comprovou na vitória da Batalha de M'Bororé, que afastou
os predadores da região por quase um século e garantiu a sua posse para a Espanha. Em
outras reduções a presença militar era bem menor, e estava mais envolvida com a
disciplina interna e com a proteção contra outros índios não reduzidos.[21][44]

A cada família se atribuía uma porção de terra, hereditária, destinada a fornecer o seu
sustento privado com o plantio de culturas diversificadas de legumes e frutas próprias
de cada região, e de algumas básicas como o milho, batata, algodão e feijão. Outras
áreas eram "propriedade de Deus", cujos frutos revertiam para a comunidade, e onde o
índio deveria trabalhar dois dias por semana, numa jornada que durava cerca de seis
horas. Os instrumentos de trabalho eram de propriedade coletiva e seu uso estava sujeito
a prioridades estabelecidas pelos padres. Não se usava dinheiro nas reduções, mas o
fumo, mel e milho serviam, às vezes, como moeda de troca. Entretanto este sistema
tinha papel pouco relevante, pois os centros comunais de abastecimento forneciam o
que faltasse. Com o tempo a pecuária se desenvolveu consideravelmente, criando-se
enormes rebanhos de gado. O comércio também prosperou, tanto entre as regiões
próximas como para o exterior, com a exportação de gêneros como mel, couro, frutas,
tinturas, instrumentos musicais e esculturas para a Europa em troca de papel, livros,
tecidos, agulhas e anzóis, ferramentas, instrumentos de cirurgia, metais e sal. Os lucros
se aplicavam em investimentos internos e pagavam os impostos exigidos pela Coroa.
Resistindo em rebaixar o nível de vida e reduzir o abastecimento de gêneros para os
índios quando era necessário investir recursos para manter o ritmo de desenvolvimento
geral da redução, os padres muitas vezes se viram obrigados estabelecer fazendas e
estâncias independentes com objetivos basicamente de lucro ou suprimento alimentício
suplementar. Essas instalações separadas empregavam o trabalho dos escravos negros, e
às vezes eram administradas pelos jesuítas em conjunto com os índios, o que evidencia
a grande diferença de tratamento que era dispensado a cada uma das duas etnias não-
brancas, e que é um dos paradoxos da proposta humanitária jesuíta. Índios também
trabalharam em fazendas, mas nesse caso seu trabalho era remunerado.[36][38][39]

Havia também um serviço de cuidado aos doentes em todas as reduções, contando com
um grupo de enfermeiras instruídas pelos padres. Faziam rondas diárias pelo povoado e
davam relatórios detalhados para seus superiores sobre as condições de saúde dos
reduzidos. Com isso dificilmente alguém morria sem receber atendimento médico e a
extrema-unção. Os remédios eram feitos principalmente com ervas conhecidas pelos
indios, se mantinha uma farmácia junto dos colégios, e foram compilados manuais
médicos para uso prático, mas os relatos sobre epidemias de doenças vindas da Europa
são frequentes, e nesses momentos se tolerava o auxílio dos curandeiros tribais.[5]

[editar] Cotidiano

A vida numa comunidade missioneira seguia uma rotina precisa. Antes do amanhecer
tocava-se o sino para despertar. Seguiam-se a oração individual, as crianças eram
acordadas, assistia-se à missa e às 7 horas os trabalhos do dia eram distribuídos. Nesta
hora as crianças recebiam o desjejum e logo oravam. Às 8 horas realizava-se a visita aos
doentes e enterravam os mortos. Depois os demais tomavam um desjejum, em seguida
se dirigiam aos diversos afazeres e as crianças iam às aulas. Entre 11 e 12 horas havia o
almoço, seguido de um descanso de uma hora, para depois voltarem ao trabalho. Das 16
horas em diante havia o catecismo, novas orações, lanche, reunião para novo culto e
depois o jantar. Entre as 20 e 21h os fogos eram apagados e a aldeia dormia. Nos dias
santificados o trabalho era proibido, aos domingos havia uma missa solene, e em dias de
grandes festejos realizavam-se encenações teatrais, danças comunitárias, procissões,
profissões públicas de fé e às vezes autoflagelações, combates simulados e concertos de
música, em celebrações coletivas que podiam durar todo o dia.[38][45]

[editar] Práticas religiosas

Os primeiros jesuítas a chegarem na América imaginaram que os nativos não possuíam


religião, pois não encontraram templos e nem imagens de culto. Com o maior contato,
logo perceberam que não era assim, mas passaram a considerar a religião indígena como
confusa e cheia de erros, ainda que alguns de seus mitos e lendas os impressionassem
por verem neles prefigurações da doutrina cristã. A tendência geral, contudo, era
interpretar essas similitudes como uma paródia da "verdadeira fé" que o diabo inventara
para enganar essas gentes "ingênuas".[46]

Nossa Senhora da Conceição, Sete Povos das Missões, acervo do Museu Júlio de
Castilhos. Note-se os traços indígenas da face e dos cabelos longos e lisos
Altar da igreja de San Rafael de Velasco na missão de Chiquitos, Santa Cruz, Bolivia

Relatos de época informam que os reduzidos nunca chegaram a desenvolver grande


compreensão das sutilezas da doutrina Cristã, sendo considerados extremamente inábeis
em assuntos espirituais e tudo o que envolvia elaboração mental abstrata e originalidade
segundo os critérios europeus. Em certa época os europeus chegaram a duvidar que
fossem mentalmente aptos para entender e receber os sacramentos, mas as opiniões
sobre esse tema eram polêmicas até mesmo entre os próprios jesuítas, pois outros relatos
dizem que eles tinham facilidade para absorver os ensinamentos. A interpretação
indígena da doutrina cristã, na verdade, muitas vezes evidenciou ter sido heterodoxa,
considerando os ritos e sacramentos como uma forma de magia e não como um
instrumento de reconciliação com Deus. Alguns padres afirmavam que os índios
padeciam de uma inconstância natural, e tão rápido como se convertiam ao Cristianismo
podiam rejeitá-lo e voltar aos seus cultos originais, e é claro que este aspecto não pode
sofrer uma generalização, dada a diversidade cultural dos povos reduzidos no vasto
território americano.[10][46][47]

Algumas práticas religiosas indígenas foram inteiramente abolidas, como todas as


formas de magia, a cremação dos cadáveres e a ingestão ritual de suas cinzas, mas
houve tolerância para com o consumo de ervas alucinógenas e a dança durante a missa,
compreendendo que isso tinha uma função socializante.[10][46][47] A comunhão era
frequente, muitos a recebiam toda semana; se formaram diversas sociedades piedosas, e
o culto aos santos, em especial à Virgem Maria, foi comum e muitas vezes intenso.
Relatos de Visitadores da Igreja e Inspetores da Coroa repetidamente louvaram o zelo
religioso das comunidades, a devoção dos índios, seu espírito fraterno, sua moral em
constante aprimoramento e sua lealdade para com os líderes.[5] Para enfrentar o desafio
da evangelização os jesuítas desenvolveram uma série de estratégias a fim de ganhá-los
para Cristo, se valendo às vezes da crença largamente difundida entre os indígenas de
que os europeus eram dotados de poderes mágicos ou eram seres divinos.[12] Foi
especialmente importante o uso pedagógico que os jesuítas fizeram da arte, em
particular a música, o teatro e a dança, pelas quais os índios mostravam grande apreço,
um método que eles já desenvolviam na Europa com sucesso e que se tornou um de seus
instrumentos mais eficientes para a conversão. Foram feitas também muitas referências
ao festivo modo de cultuar a divindade que se desenvolveu entre as reduções, e que
reunia no momento único da missa, a culminação da catequese, todas as artes dentro do
cenário teatral da igreja ricamente decorada. Um trecho de um documento antigo que
descrevia o trajeto devocional da Via Sacra é ilustrativo:

"... incensam, cantam os músicos algum trecho devocional e o versículo, e o


padre diz sua oração. Logo se senta diante da capela em uma rica cadeira... e
os oficiais e cabos em seus assentos correspondentes. Começam as danças.
Oito, dez ou mais dançam alguma de suas danças devotas diante do Santíssimo
Sacramento, vestidos de anjos ou com seus trajes alegóricos. Direi como foi.
Saem vestidos dez de asiáticos com incensadores com uma porção generosa
para que dure toda a dança. Dispõem-se em filas, começam a incensar o
Senhor, com reverências até o chão, como era o costume de seu povo, e ao
mesmo tempo cantam o Lauda Sion, e com vozes belíssimas, quase todos
sopranos. Cantam com vagar, no compasso da incensação. Depois todos
repetem mais rápido, dançando e cantando, e prosseguem variando duas ou três
vezes. Dois deles cantam uma segunda vez o Quantum portes tantum aude, etc.,
incensando e cantando com pausa, e repetem todos o Lauda Sion; dançam, e
cantam mais depressa. Com esta ordem vão cantando todo o hino sagrado...
Concluída a missa, tira o padre a custódia entre o sonoro e devoto estrondo de
quantos instrumentos há no povoado: violinos, harpas, baixos, clarins,
tambores, tamborins e flautas; acompanham-no acólitos com incensários de
prata e outros enchem o piso de flores".[48]

O sucesso da obra puramente evangelizadora é motivo de polêmica. Algumas reduções


testemunharam casos de completa e sincera conversão dos grupos indígenas à fé
católica, como nas de Juli no Peru e Tepotzotlán no México, mas elas se tornaram
notórias por serem exatamente exceções nesse aspecto. Em muitos casos os nativos
jamais aderiram integralmente ao novo credo, e continuaram mantendo muitas de suas
práticas religiosas tradicionais. Não foram raros os pajés e xamãs que permaneceram
como focos de resistência, por vezes dissimulando uma aceitação dos ritos católicos
mas na verdade se apropriando de suas formas externas para continuarem em segredo o
culto aos seus próprios deuses, imitando os gestos de bênção, usando cruzes e
organizando cerimônias onde ofereciam hóstias de mandioca e taças de beberagens
feitas de ervas mágicas. Muitos índios mantinham reserva sobre a confissão, crendo que
com ela os padres apenas queriam saber o que se passava em suas vidas privadas a fim
de poder controlá-los, e outros continuaram a ver as doenças como obra de espíritos
malignos, a fazer previsões a partir do comportamento dos animais, e alimentar tabus a
respeito dos mortos, entre outras crenças. Alguns grupos não conseguiram desenvolver
a noção de pecado, e rejeitaram a intermediação de um sacerdote para comunicação com
suas divindades. Por outro lado, também se encontram muito relatos de como o contato
com a religião cristã levou ao abandono dos hábitos da embriaguez, da poligamia, do
infanticídio, do assassinato por vingança e do canibalismo, e houve até curas milagrosas
após o contato com relíquias de santos cristãos.[15][49][50]

[editar] Educação e cultura

Ver artigo principal: Ratio Studiorum

A questão educativa foi entendida desde o início como central para garantir qualquer
futuro para o projeto missioneiro, pois era vista como alavanca privilegiada para todo
progresso social, econômico, moral e religioso. Nessa questão de imediato se colocou o
problema da comunicação entre os europeus e os índios, que falavam uma multidão de
línguas desconhecidas. O preparo dos jesuítas na Europa já previa essa dificuldade, e
lhes dava sólidos conhecimentos de linguística e de oratória, ao mesmo tempo em que
os capacitava como professores hábeis e os ilustrava com grande cultura geral,
incluindo formação artística. Sua metodologia educativa, sistematizada no compêndio
Ratio atque institutio studiorum Societas Jesu (1599), era tão eficiente que a Ordem foi
reconhecida como uma das mais eruditas da Europa, e vários de seus membros se
destacaram como polímatas. Mas mais do que eruditos, seguindo a orientação de Loyola
para que os conhecimentos abstratos fossem postos ao serviço das demandas do
cotidiano (usus, non praecepta), se tornaram mestres na arte da persuasão e na
adaptabilidade ao contexto diversificado que encontraram na América.[51]

A atuação dos jesuítas quanto às línguas nativas se revelou ao mesmo tempo protetora e
destrutiva. Protegeram-nas sistematizando-as e dando-lhes grafia latina, o que permitiu
sua perenização através de bibliografia impressa e o seu estudo pelos linguistas
europeus, e em alguns casos a sua reconstituição moderna quando se extinguiram ou
desvirtuaram mais tarde. Também as protegeram contra a política colonial oficial, que
preferia antes a completa erradicação das culturas nativas e uma europeização total dos
povos conquistados. Mas por outro lado o uso que delas fizeram para a propagação da
nova fé em muitas ocasiões as desfigurou profundamente, o conhecimento reunido pelos
padres foi muitas vezes usado pelos outros colonizadores para dominarem mais
facilmente os indígenas, e o progressivo desaparecimento dos pajés levou com eles a
prática da "palavra inspirada", uma das mais importantes formas de preservação através
das gerações da eloquência política, dos mitos e das tradições tribais.[41][51]

Antonio Ruiz de Montoya: Arte de la Lengua Guarani, edição de 1724

É preciso notar que nem sempre os jesuítas dominaram as línguas nativas, alguns até se
recusaram a fazê-lo, e mesmo durante a ministração dos sacramentos às vezes era
necessário um intérprete, o que deu origem a disputas entre a hierarquia do clero e se
complicava no caso da confissão dos pecados, que deveria ser um assunto de completa
privacidade. O testemunho do fundador da Província do Paraguai, Nicolás Durán,
confirma a importância da fluência no vernáculo, dizendo que nas casas onde os
superiores não falavam a língua os ministros eram tão letárgicos que se tornavam uma
vergonha para Companhia, e dizia que nesses casos o trabalho ficava todo para os
versados no idioma, enquanto os outros se entregavam à preguiça. No Brasil também
era enfatizada a utilidade do conhecimento idiomático a fim de que se obtivesse a
confiança dos índios e autoridade sobre eles, e para, evidentemente, doutriná-los
melhor. Mas em linhas gerais se pode dizer que os jesuítas se tornaram grandes
linguistas, e sua habilidade nesse campo se tornou notória. Foram os primeiros autores
de gramáticas e dicionários em vernáculo ou bilíngues, e produziram boa quantidade de
obras literárias, a maior parte ligada à catequização.[17][52] Em 1700 foi fundada a
primeira gráfica missioneira na Missão de Loreto, na Argentina, e ali foi produzido,
pelo indígena Juan Yapai em 1705, o primeiro livro impresso neste país, um
Martirológio Romano. Outras produções incluíam calendários, tabelas astronômicas e
partituras. As missões também geralmente possuíam uma boa biblioteca. A de Loreto
contava com mais de trezentos livros, a de Corpus Christi cerca de quatrocentos,
Santiago mais de 180, e Candelária a cifra, assombrosa para a época, de 4.724 volumes.
[38]

A eficiência da pedagogia jesuítica se prova nos poucos anos que eram precisos para
uma redução entrar em pleno funcionamento, mas existem relativamente poucos estudos
que aprofundaram esse tópico e a controvérsia sobre seus resultados é grande. Era dada
atenção especial à educação das crianças, consideradas "anjos inocentes" e "o bem e o
remédio desta terra", já que elas aprendiam com mais facilidade, podiam transmitir o
conhecimento aos adultos e mais tarde ensinar as outras gerações. Muitos índios adultos
nunca foram capazes de receber uma educação além da mais elementar. Havia
separação de sexos nas escolas, e se seguia uma política de aproveitamento das
capacidades e talentos individuais. Os filhos dos caciques e dos oficiais eram
alfabetizados em vernáculo, castelhano e latim, o que tem dado margem a uma opinião
muito generalizada de que o ensino dos padres foi elitista, mas isso provavelmente
decorre da simples percepção das possibilidades reais, e existem alguns documentos que
sugerem uma abrangência bem maior do estudo do que se tem pensado.[53] Há relatos de
índios muito habilidosos com as letras, como foi o caso do cacique Nicolás Yapuguay,
da redução argentina de Santa Maria, que escrevia em guarani com grande clareza e
elegância, tendo dois de seus livros impressos, um deles um catecismo em espanhol e
um livro de sermões em guarani. O índio Melchor escreveu a história de sua aldeia
Corpus Christi, e o índio Vásquez, de Loreto, era também um bom escritor.[38] Os
restantes eram educados através do ensino oral, do trabalho e da arte. As aulas gerais
não eram ministradas pelos padres, encarregados da administração da comunidade, mas
por um professor contratado ou por algum índio já educado, sob a supervisão dos
religiosos. Entretanto, diariamente algum padre assumia as classes por determinado
tempo para ministrar a educação religiosa. De manhã era dado o catecismo no
vernáculo, e à tarde na língua do reino. Chegando a noite o padre reunia alguns índios
talentosos para ensinar música na igreja. No Vice-Reino do Peru os primogênitos dos
caciques eram muitas vezes mandados para uma escola na capital, já que os caciques
eram o elo de ligação principal entre as autoridades coloniais e os índios, e se supunha
que uma educação mais aprimorada fosse capaz de formar futuras lideranças com
conhecimento maior dos costumes europeus e assim mais capazes de se integrarem ao
sistema administrativo da colônia. Essa educação parece ter tido êxito, mas não foi
usada pelos novos caciques da forma pretendida pelo governo espanhol, e vários deles
encabeçaram rebeliões mais tarde, como foi o caso de Túpac Amaru II.[2][17][27][51][54][55]

Para a fixação dos povos indígenas e construção dos povoados foi dado um ensino
prático em técnicas de agricultura e pecuária, e elementos de arquitetura, cantaria,
carpintaria e fundição. Gradativamente foi sendo dada uma formação adicional em artes
diversas, que incluíam escultura, pintura, gravura, poesia, música, teatro, oratória e
ciências para aqueles que mostravam mais capacidade.[2][53]
[editar] Artes

Ver artigo principal: Escultura dos Sete Povos das Missões

Escola cuzquenha: São José e o Menino Jesus, c. 1700

Miguel Cabrera: Fiel retrato do venerável Juan Diego, 1752

Os jesuítas se tornaram conhecidos por seu pragmatismo e sua adaptabilidade às


necessidades locais, e isso vale também para a arte que introduziram nas Américas.
Lúcio Costa observou que suas manifestações apresentam formas diversificadas, de
acordo com os hábitos e meios nativos, e com características de estilo variando de
acordo com os sucessivos períodos. Embora isso não fosse uma regra diversos padres
eram artistas consumados, e sendo oriundos de várias partes da Europa, possuíam em
conjunto uma formação artística absolutamente multifacetada, de modo que não é
possível definir um "estilo jesuítico-missioneiro" a não ser em linhas muito amplas e
indistintas, sendo caracterizado acima de tudo pelo hibridismo, mas eles têm sido
associados com o Maneirismo tardio e em especial com o Barroco da Contra-Reforma,
reproduzidos em solo americano em uma vasta gama de adaptações e sínteses ecléticas
onde não faltou a contribuição do gosto indígena, diversidade que fez Bailey considerá-
la a menos unificada de todas as escolas artísticas de sua época. Mesmo reduções
próximas podiam apresentar uma arte de traços muito contrastantes. O objetivo central
no transporte da arte européia para a América foi usá-la como instrumento de catequese,
e seu manifesto ecletismo é outro dos resultados da doutrina da acomodação.[56][57]

A facilidade dos índios para as diversas artes era famosa e sua capacidade de imitação
de modelos formais europeus causava espanto nos próprios missionários.[47] Dizia o
Padre Sepp:

"O que viram uma só vez, pode-se estar convencidíssimo que o imitarão. Não
precisam absolutamente de mestre nenhum, nem de dirigentes que lhes indiquem
e os esclareçam sobre as regras das proporções, nem mesmo de professor que
lhes explique o pé geométrico. Se lhes puseres nas mãos alguma figura humana
ou desenho, verás daí a pouco executada uma obra de arte, como na Europa
não pode haver igual".[58]

Parte do trabalho catequético dos jesuítas se valia do teatro como forma de ilustração de
verdades religiosas. Encenavam-se dramas sacros, que versavam sobre a vida de santos
e passagens das Escrituras, e também havia ocasiões em que eram montadas obras
clássicas. Certas peças, vindas da Europa, eram traduzidas para o vernáculo, outras eram
escritas nas próprias reduções. Na pintura também se registraram indivíduos com
grandes dotes, como Kabiyú, produzindo entre outras coisas uma notável Virgem das
Dores.[38] Também deve ser citado o índio zapoteca Miguel Cabrera, que conseguiu
ultrapassar os preconceitos ligados à sua origem e o âmbito das missões, tornando-se o
maior pintor do Vice-Reino da Nova Espanha e o pintor favorito dos jesuítas
mexicanos, fundando e dirigindo ainda a segunda academia de pintura do México.[59]
Mas foi especialmente brilhante a Escola de Cuzco, fundada pelos jesuítas Juan Íñigo de
Loyola e Bernardo Bitti, junto com alguns outros mestres, que introduziram um estilo
derivado do Maneirismo em meados do século XVI. Recebendo ao longo dos anos a
influência do Barroco e contando com a participação de índios incas, um povo de
sofisticada cultura própria, que deram sua própria contribuição estética, logo a escola se
desenvolveu numa forma original, sincrética e de tendência fortemente ornamental, cuja
influência se espalhou a partir do século XVII por todo Vice-Reino do Peru e ainda hoje
permanece em atividade.[60]
Página do Cancioneiro Chiligudú, com 19 partituras que Bernardo de Havestadt
incorporou ao II volume de sua obra sobre a língua dos índios mapuches do Chile. A
letra das canções, publicadas em separado, é em mapuche e trata de conceitos básicos da
fé cristã.[61]

São muitos os testemunhos sobre a grande inclinação natural dos índios para a música,
que foi usada desde os primeiros contatos para atrair os aborígines para fora de suas
selvas.[62] O padre Noel Berthold afirmou que o Irmão Verger podia fasciná-los de tal
modo quando tocava órgão que eles permaneciam imóveis, como que em êxtase, por até
quatro horas. Muitos índios chegaram a se tornar proficientes construtores de
instrumentos, como Ignacio Paica e Gabriel Quiri, ou instrumentistas exímios, a
exemplo de um menino de doze anos que executava com perfeição sonatas e danças
cortesãs de insignes compositores europeus. Diversos dentre os próprios jesuítas eram
músicos de primeira ordem, como os ditos padres Verger e Sepp, este o autor do
primeiro órgão construído nas Américas, o padre Juan Vaseo, e Domenico Zipoli, cuja
obra foi imensamente popular na América. Formaram-se grandes orquestras e coros,
que rivalizavam com grupos de formação européia e eram convidados para se apresentar
nas cidades principais. Na missão de San Ignacio funcionou um dos primeiros
conservatórios de música da América.[27][58][63][64] Alguns índios até mesmo se tornaram
compositores eruditos, como um paraguaio que foi co-autor de uma ópera sacra sobre a
vida de Inácio de Loyola, e um mexicano que compôs uma missa completa em 1560. A
maior parte das partituras compostas ou executadas nas missões se perdeu após sua
dissolução, mas no século XX diversos estudos especializados trouxeram novamente à
luz uma significativa quantidade de material, como foi a espetacular descoberta em
1972 de cerca de dez mil partituras na missão de Chiquitos, na Bolívia, e já existe
discografia disponibilizando parte desse acervo.[61]

A escultura merece uma atenção especial pela boa quantidade de exemplares


remanescentes. Neste campo se encontra bem visível a mescla de traços de várias
escolas e épocas artísticas européias. Também aparecem elementos claramente
indígenas nas feições de algumas imagens, em certas posturas hieráticas, numa
tendência à abstração das formas e nos adornos típicos, e mesmo na rusticidade de
execução, sendo talvez a arte em que o elemento autóctone encontrou mais
oportunidade de expressar sua individualidade atravessando o rígido arcabouço de
preceitos estilísticos importados. Entretanto, se tais desvios são tomados por parte da
crítica como autênticos sinais de originalidade, por outro diversos autores os interpretam
como mera inépcia no mister. De qualquer forma, parece provável que as peças hoje
consideradas de maior qualidade tenham saído das mãos dos próprios jesuítas, alguns
dos quais possuíam um domínio superior do ofício, como os padres Johann Bitterich,
José Brasanelli, Anselmo de la Matta e novamente Antônio Sepp. Aos índios cabia
geralmente a participação como auxiliares, ou eram incumbidos, quando trabalhando
sem intervenção direta dos padres, apenas da produção de obras menores. Mas há
exceções registradas, como a do índio José, que em 1780 produziu uma estátua do
Senhor da humildade e da paciência, hoje em Buenos Aires, considerada um dos
marcos iniciais da arte nacional argentina. Outro aspecto a ser levado em conta é o
hábito de trabalho coletivo para produção de cada peça, o que muitas vezes torna
impossível a obtenção de uma homogeneidade formal em cada exemplar específico e a
identificação de estilos individuais.[57][64]

Também a arquitetura é digna de destaque. Os jesuítas introduziram uma notável


organização urbana em seus povoados, com benfeitorias que não se encontravam em
muitas cidades européias de população comparável, com pontes, canalizações para
irrigação, fontes para água e moinhos. As moradias, distribuídas em séries regulares,
eram inicialmente de barro e cobertas de palha, mas em algumas reduções logo
passaram a ser feitas de pedra, possuindo vários aposentos, chaminés e cobertura de
telhas. Como já se disse, soluções unificadas não existiram, e quanto às igrejas, se
encontram desde templos modestos erguidos com tijolo cozido ao sol e pobre decoração
interna, como em algumas missões do Arizona, até grandes edifícios de pedra com
fachadas ricamente ornamentadas, cúpulas e interiores luxuriantes onde o gosto barroco
pelo espetacular encontrou perfeita expressão, e que constituem documentos claros da
grande virtuosidade de seus melhores artistas, sem nada dever a similares europeus.
Toda essa riqueza era um traço típico da arte sacra européia daquela época, e o culto se
desenvolvia com um ritual magnificente, entre a rica talha dos altares, a profusa e
expressiva imaginária, tudo envolvido pela música solene do órgão, da orquestra e do
coro, enlaçando a teatralidade retórica barroca com o gosto índio pelos festejos e
ornamentos. As igrejas eram assim o ponto focal da vida na missão, e a arte que
continham, além de ser uma oferenda a Deus, era elemento didático, pois sempre
impressionou vivamente o indígena, excitando sua fantasia e ampliando sobremaneira
sua suscetibilidade para a recepção da doutrina religiosa. Simples ou requintadas, as
igrejas representavam em seu tempo o principal símbolo visível da nova ordem e
permanecem hoje como o mais importante testemunho material da existência das
reduções. Mas cabe lembrar, conforme atesta a documentação, que a principal
preocupação dos padres ao erguerem uma igreja não era estética, embora esta existisse,
e sim funcional. Foi notada, finalmente, a absorção de elementos da arquitetura dos
povos pré-colombianos em muitas igrejas.[56][65][66]


Detalhe de pintura na fachada da igreja de San Rafael de Velasco, missão de
Chiquitos, Bolívia

Capela-mor da igreja de San Miguel de Velasco, missão de Chiquitos, Bolivia

Igreja da missão de San Ignacio Kadakaamán, Baixa Califórnia, México

Retábulo-mor da igreja da missão de Alta Gracia, Córdoba, Argentina

Interior da igreja de San Javier, missão de Chiquitos, Bolívia

Igreja da Concepción, missão de Chiquitos, Bolívia


missão de San Pedro y San Pablo del Tubutama, Sonora, México

Detalhe de altar na igreja da Concepción, missão de Chiquitos, Bolívia

[editar] O legado das missões


As missões jesuíticas foram um dos fenômenos culturais mais ricos e peculiares da
história das Américas, permanecem como um tema muito fecundo para os historiadores
não só da Igreja Católica mas também interessando antropólogos, sociólogos,
arqueólogos e críticos de arte, e ainda despertam reações apaixonadas. Mas os
resultados globais da proposta missioneira são difíceis de avaliar, sequer foi um sistema
monolítico como se tem referido, pois as circunstâncias encontradas pelos padres por
toda a América mostraram ser muito diversificadas. Trabalharam em regiões de deserto,
montanha e de selva, e entre os grupos nativos que contataram estavam representantes
de culturas altamente sofisticadas como a inca e a maia, mas outras vezes os povos
estavam em estágios de civilização semelhantes aos da Pré-História. Os obstáculos ao
estudo são aumentados pela perda de boa parte da documentação de época, embora o
material sobrevivente seja de qualquer maneira farto.[15][16][41][67]

As ruínas jesuítas de São Miguel das Missões, na Região das Missões. Patrimônio da
Humanidade desde 1983 no estado do Rio Grande do Sul, Brasil.

Muito se tem discutido sobre o verdadeiro papel e caráter dos Jesuítas e dos índios neste
grande ciclo sócio-cultural. Diversos autores consideram os padres como simples
senhores de escravos travestidos de anjos evangelizadores, instrumentos das potências
européias num impulso imperialista. Para Octavio Paz o indígena se ajoelhava diante do
Cristo sangrante e humilhado, golpeado pelos soldados, condenado pelos juízes, porque
que via nele a imagem transfigurada do seu próprio destino.[66] É questionada acima de
tudo a legitimidade da transformação profunda das culturas nativas com a consequente
perda de suas identidades, e também a homogeneização de grupos distintos tratados em
bloco, a postura paternalista dos religiosos, e também a falha fundamental da didática
jesuíta, revelada tarde demais, na dissolução imediata de todas as aquisições culturais e
espirituais quando o índio foi privado da orientação dos religiosos, não havendo
evidência importante da formação de culturas ou sequer de escolas artísticas regionais
que tenha subsistido de forma independente e viva após a derrocada da Ordem e suas
reduções,[11][27][66][67][68] salvo casos pontuais, como os povoados de Chiquitos, na Bolívia,
que conseguiram sobreviver até os dias de hoje com muitas de suas tradições e hábitos
comunais preservados,[41] e a Escola de Cuzco de pintura, que também permanece em
atividade, com a ressalva de que ali se cristalizaram fórmulas visuais dos séculos XVIII-
XIX que não encontraram um caminho de renovação verdadeira. É importante assinalar
ainda, conforme faz David Sweet, que repetidas vezes ficou patente o abismo entre os
altos ideais da proposta evangelizadora e a dura realidade cotidiana, e que as relações
dos padres com seus reduzidos não foram sempre amistosas, especialmente quando
lidaram com tribos mais primitivas e resistentes à redução, como algumas da Amazônia,
onde ocorreram vários episódios de tortura, segregação e trabalho forçado.[12][69] Outras
vezes apoiaram o extermínio de tribos inteiras, ou se valeram do suborno dos caciques
para conseguir a adesão dos seus comandados.[70] Em vários documentos históricos
essas culturas primitivas são descritas com a mais baixa estima, chamando os índios de
"peças", como se fazia para com os negros escravos. Também abundam comparações
dos índios com animais, e é frequente o uso dos verbos "amansar", "domar" e
"domesticar" quando se referem ao processo de reduzí-los. São muito raras as citações
de índios por seus nomes, salvo os caciques, e não parece ter se desenvolvido nenhuma
amizade estreita entre padres e índios individuais em qualquer das reduções, pelo menos
não há evidência documental; nenhum escritor jesuíta jamais declarou ter aprendido
alguma coisa com os povos que liderava nem referiu algum aporte autóctone
significativo à cultura que nascia, e finalmente até no século XVIII ainda havia alguns
que duvidavam que eles fossem de fato humanos ou que possuíssem a faculdade da
razão.[12]

Antes da expulsão dos jesuítas diversas apreciações favoráveis ao seu trabalho foram
publicadas por influentes autores europeus, como Montesquieu, que disse ser "uma
glória para a Companhia de Jesus ter mostrado pela primeira vez ao mundo como é
possível a união entre religião e humanidade", e em termos semelhantes d'Alembert
louvou seu trabalho dizendo que "mediante a religião alcançaram os jesuítas no
Paraguai uma autoridade moral apoiada puramente em sua arte de convencer e em seu
modo suave de governo". Até o próprio Voltaire, que era um dos grandes inimigos da
Companhia, os comparou a verdadeiros soberanos, legisladores e pontífices. Disse ele:
"pareciam um triunfo da humanidade".[51][71] Com suas falhas e contradições internas,
trazidas à luz abundantemente pela pesquisa moderna, mas principalmente por suas
conquistas positivas, as missões jesuíticas exerceram um impacto profundo na vida das
Américas. Para Aguirre o caráter revolucionário das reduções jesuíticas deriva

"da premissa que lhes serve de ponto de partida, premissa que implica um
expresso reconhecimento dos vínculos que costumam ligar as injustiças sociais
com o atraso geral das sociedades. Por isso o sistema econômico missioneiro
jesuíta se encaminha, desde o princípio, para conseguir o desenvolvimento
econômico dos povos aborígines, para organizar uma ordem social e produtiva
que permita aos indígenas americanos romperem as barreiras da miséria e
terem uma alternativa distinta daquela que era se submeter à economia da
encomienda, da mita e do latifúndio colonial. Os jesuítas não definiram o
problema da justiça no plano jurídico, mas se propuseram a realizá-la no
âmbito de um sistema econômico e social, onde a riqueza se acomodava às
pautas de uma filosofia inspirada na noção cristã de igualdade entre todos os
homens...".[72]

Arte Missioneira: Nosso Senhor dos Passos, século XVIII. Acervo do Museu Júlio de
Castilhos

Para Wolfgang Reinhard por mais controversos que tenham sido os intentos dos jesuítas
de adaptar a mensagem cristã às concepções autóctones e de prover uma mudança
cultural dirigida, a empresa missioneira foi a melhor alternativa de que a América
dispôs para levar adiante uma colonização que era sob todos os aspectos irrefreável e
que em outras esferas se revelou brutal, e por isso mesmo continuam a ter um apelo para
o mundo moderno, onde a problemática integração dos povos indígenas remanescentes
com as culturas de entorno ainda não encontrou soluções satisfatórias,[73] uma opinião
que era compartilhada com Darcy Ribeiro.[74] Unindo uma diligência evangelizadora
intrépida com uma base cultural de alto gabarito, uma praticidade única na lida com os
problemas que enfrentaram com um pensamento econômico, político e social arrojado e
de amplo horizonte, sua atuação foi decisiva na formação da civilização americana
moderna, e o estudo do seu exemplo de desenvolvimento auto-sustentado, onde o
objetivo primário era o bem-estar e harmonia das populações através do
estabelecimento de um modelo de vida sadia, significativa, solidária e justa para todos
pode ser de alguma forma ainda útil para a sociedade moderna, num continente que
ainda sofre com as desigualdades sociais e onde os índios sobreviventes permanecem
em muito marginalizados e despossuídos. Adicionalmente, as missões são vistas
também como parte integrante das identidades nacionais nos países americanos,[3][11][24]
[72][75]
e a importância do projeto jesuíta nas Américas é reforçada pelo fato de a
UNESCO ter declarado como Patrimônio Mundial um significativo grupo de
monumentos missioneiros - seis na Bolívia, cinco na Argentina, dois no Paraguai e um
no Brasil.[4]

Do lado dos índios o balanço final talvez seja de avaliação ainda mais árdua, uma vez
que a cultura predominante tende a analisar as coisas sob sua ótica particular. Com
certeza foi uma experiência impactante para os povos indígenas, mas no contato com o
branco a anulação de sua índole vital, de sua visão de mundo e de sua cultura - cujos
elementos, quando preservados, eram adaptados e traduzidos sempre para servir ao
propósito da cristianização - talvez tenham sido perdas mais importantes do que os
supostos benefícios recebidos. Muito se tem aplaudido as igrejas, a estatuária, a música
e as outras artes de que foram autores ou co-autores, mas uma vez que nenhuma
tradição se arraigou entre eles que pudesse evoluir independentemente a partir do
modelo inaciano quando as missões foram extintas, talvez seja procedente o argumento
de que o indígena, com exceções notadas, não passou de uma tábua rasa nas mãos dos
religiosos. Mesmo assim se registraram muitas declarações de índios protestando
veementemente quando as missões foram extintas, acusando os reis da Espanha e
Portugal de não saberem o que havia custado erguer aquelas comunidades e o quanto
estavam apegados a elas, numa postura que era o perfeito oposto da sustentada no início
do processo missioneiro, quando geralmente as reduções eram vistas mais como locais
de cativeiro dissimulado,[24][27][66][76] e vale a pena transcrever o testemunho de Auguste
de Saint-Hilaire, que em passando pela província do Rio Grande do Sul em 1820, época
em que os povoados locais já estavam em ruínas, registrou:

"Entre os índios, vi apenas uma mulher que viveu sob o governo dos jesuítas, e
ela pronuncia o nome de jesuítas com profundo respeito; porém muitos guaranis
se lembram de haver ouvido seus pais ou avós falar deles, dizendo que, quando
esses religiosos administravam a região, foi o tempo da felicidade." [77]

A revalorização cultural das missões jesuíticas nasceu a partir do ínício do século XX,
quando se fundou em 1932 a primeira faculdade de Missiologia na Universidade
Gregoriana do Vaticano e o movimento missionário ganhava novo impulso,
antropólogos estudavam com métodos mais científicos as culturas tradicionais,[78]
arquitetos passavam a dedicar sua atenção ao modelo urbano das reduções, e órgãos de
patrimônio histórico também se voltavam para elas na preservação de suas relíquias,
trazendo-as novamente à evidência.[41] As missões ainda são um tema fértil e seu caráter
- real ou suposto - de utopia já deu margem ao surgimento de obras literárias,
documentários, exposições de arte e filmes, bem como à formação de um folclore
próprio, com variadas abordagens e conclusões. Em anos recentes a produção
cinematográfica norte americana A Missão, estrelada pelo conhecido ator Robert De
Niro, recebeu larga divulgação e diversos prêmios internacionais.[63] Na cultura oficial
da América Latina contemporânea se percebe uma tendência a uma glorificação muitas
vezes acrítica e propagandística das missões e de seus personagens mais destacados,
transformados em figuras numinosas e focos agregadores de virtudes coletivas de
civismo, fé e coragem, discurso enfatizado pelo fato de alguns missionários terem sido
santificados ou beatificados pela Igreja Católica, isso depois de um período de intensa
negação de seu valor no século XIX no processo de construção das independências
nacionais, quando eram memória indesejada do período colonial.[79][80] Como exemplo,
Paulo Suess aponta que as missões dos Sete Povos são apresentadas nos dias de hoje
pelo poder público brasileiro como um momento glorioso na história do sul do Brasil, e
os índios massacrados na Guerra Guaranítica são retratados como heróis, especialmente
Sepé Tiaraju, centro até de um culto popular, embora esta postura tenda a ocultar ou
dissimular os graves problemas enfrentados por todas as comunidades indígenas que
ainda existem, em grande parte num estado de miséria e abandono, numa espécie de
"cultos ao esquecimento, liturgias que desarmam os guerreiros homenageados e se
apropriam de sua causa".[75]
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