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Educação, Corpos, Sexualidades e Prazeres: A Construção das

Identidades Sexuais em Questão

Anteprojeto de Pesquisa

Paulo Melgaço da Silva Júnior


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O vírus da Aids realizou em alguns anos a proeza que


nem mais o bem-intencionado movimento pelos direitos
homossexuais teria conseguido,em muitas décadas:
deixar evidente à sociedade que o homossexual existe e
não é o outro, no sentido de um continente à parte, mas
está próximo de qualquer cidadão comum..... (Trevisan,
2000, p.462)

1- TEMA:
“O processo de construção das identidades sexuais, realizadas
através da educação do corpo, analisado a partir do estudo das relações de poder e
saber disseminadas e difundidas ao longo dos tempos e confrontado com as atuais
propostas preconizadas pelas Leis que regem a Educação Nacional.”
O presente anteprojeto pretende investigar historicamente como se desenvolveu o
processo de Educação Sexual através dos tempos. Com isso, analisar como as diversas
identidades sexuais (em especial a homossexual) foram definidas, construídas, legitimadas
e/ou negadas a partir das relações de poder e saber, para em seguida confrontar com as
atuais propostas preconizadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), as leis que
dão autonomia ao sujeito (Direitos Humanos) e as iniciativas realizadas pela Secretária
Municipal de Educação de Duque de Caxias no período de 1998 aos dias atuais.

O Problema:
Questão central: Como os mecanismos de poder e saber interferem ou
determinam o processo de construção e legitimação das identidades sexuais a partir
das propostas de Educação sexual preconizadas pelas escolas?
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OBJETIVOS
Geral:
Investigar, a partir de uma perspectiva histórica, como a educação sexual determina o
processo de construção das identidades sexuais e confrontar com as propostas educacionais
preconizadas pela Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias a partir da
implementação da Lei de Diretrizes e Bases nº 9394/96 e dos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCN).

Específico:
- Analisar o processo de construção das identidades sexuais a partir das relações de
poder saber.
- Examinar como as Leis, a partir do século XX, buscam dar autonomia ao sujeito ao
garantir seu direito de vivenciar sua identidade sexual.
- Investigar a partir das propostas pedagógicas como a Educação Brasileira respalda o
projeto de Educação Sexual (Corpos Educados Sexualmente) nas Escolas.
- Descrever como as Escolas oferecem subsídios para construção da identidade
sexual.
- Analisar a s propostas da Lei de Diretrizes e Bases 9394/96 e da Pedagogia Queer.
- Confrontar os dados obtidos com as propostas preconizadas pela Secretaria
Municipal de Educação de Duque de Caxias.
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JUSTIFICATIVA
Trabalhar com questões relativas à sexualidade tem sido uma constante em minha
vida profissional. Talvez por trabalhar em regiões (comunidades) carentes, sempre me vejo
envolvido com questões relativas ao programa de orientação sexual: gravidez na
adolescência, homossexualidade, DSTs, entre outras. Me identifico com este trabalho,
acredito em sua importância.
Atualmente, uma questão que tem me incomodado bastante nas escolas e na
educação em geral é o processo de construção e legitimação das identidades sexuais. Como
a comunidade escolar legitima e reconhece determinadas identidades ao mesmo tempo em
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que nega outras. Isso, em um momento no qual vivenciamos uma série de inquietações,
questionamentos de verdades consideradas absolutas e que segundo Stuart Hall estamos
vivendo uma “crise nas identidades” onde diversas identidades procuram conquistar seu
espaço.
Assim, acredito que um estudo que relacione uma compreensão histórica sobre
como os mecanismos de poder determinam a construção das identidades sexuais certamente
ajudará aos/às educadores/as a refletirem sobre sua responsabilidade no desenvolvimento
do programa de orientação sexual nas escolas.
Torna-se relevante destacar que, segundo os PCN, o desenvolvimento do
programa de orientação sexual nas escolas é uma responsabilidade de todos/as
professores/as, o que reforça a importância de trazer essas discussões para o núcleo escolar.
Destaco também minha trajetória acadêmica e profissional como justificativa para
realização deste trabalho de pesquisa. Sou licenciado em Desenho e Plástica pela FUMA
(Fundação Universidade Mineira de Artes “Aleijadinho”) com especialização Latu-Sensu
em Metodologia de Ensino pelo IEMG (Instituto de Educação de Minas Gerais). Assim que
me formei, em 1989, fui lecionar Artes Industriais em uma escola na periferia de Belo
Horizonte. Nesta escola que tive minha primeira oportunidade de observar o cotidiano de
meus/minhas alunos/alunas perceber a necessidade do desenvolvimento de um programa de
educação sexual: em 1990, uma aluna da oitava série ficou grávida de um vizinho casado,
em busca de solução, a jovem foi levada por ele a uma fazedora de anjos (como
chamavam). O aborto foi realizado com talo de mamona. Meses depois, a aluna estava
internada em um hospital, perdeu útero, causa: aborto mal realizado.
Esse caso me incomodou muito na época, começaram meus questionamentos em
relação à função da escola e a nossa responsabilidade enquanto professores/as. Busquei
algumas leituras como, entre outros, Foucault: A Historia da Sexualidade (1984) e
Microfisica do Poder (1979). O Sistema Educacional era regido pela Lei de Diretrizes e
Bases 5692/71, que não mencionava em seu conjunto um programa de orientação sexual.
Em conjunto com a orientadora educacional e com um professor de ciências começamos a
desenvolver um programa de educação sexual baseado em dramatizações, oficinas, jogos e
desenhos. Esse trabalho durou aproximadamente 3 anos, quando me mudei para Rio de
Janeiro.
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Cheguei no Rio de Janeiro em 1993, prestei concurso para a FAEP (Fundação de


Apoio à Escola Pública) e fui lecionar em um Ciep na favela do Parque União –
Bonsucesso. Nessa escola a realidade não era muito diferente da anterior: iniciação sexual
precoce, gravidez na adolescência, desconhecimento do próprio corpo. Porém, a Aids havia
surgido como um fato novo e estava provocando uma serie de discussões, uma vez que sua
principal forma de transmissão era através do ato sexual. A prevenção ao HIV e as DST
obrigou o surgimento de diversos encontros de professores para discutirem as questões
relativas a educação sexual nas escolas.
Estava surgindo, uma nova perspectiva para o programa de orientação sexual nas
escolas. Uma nova Lei de Diretrizes e Bases era aprovada – a Lei 9394/96 trazia através
dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) indicações para o desenvolvimento e
realização de programa de orientação nas escolas como tema transversal. Assim, comecei a
envolver nas discussões, nesse Ciep desenvolvemos uma serie de oficinas de orientação
sexual com alunos/as do 6º ao 10º ano de escolaridade. Nestas oficinas trabalhávamos
corpo e sexualidade, prevenção de DST, Aids, gravidez na adolescência, entre outros. Nos
primeiros anos desse trabalho participei dos encontros promovidos pela FAEP para
discussão de um programa de orientação sexual nas escolas. Com a mudança de Governo, o
programa desenvolvido pela FAEP foi extinto e os/as professores/as e escolas foram
transferidos/as para Secretaria Estadual de Educação. Permaneci nessa escola até 1998,
infelizmente, com o fim da FAEP, o número de aulas aumentou, mudou a estrutura da
escola e as oficinas não tiveram continuidade e o trabalho se dispersou se resumindo
apenas a conversas esporádicas com alunos/as. Tive a oportunidade de retomar essas
oficinas, nessa escola, em 2000 quando foi convidado pela então diretora (que conhecia
meu trabalho e as oficinas) para trabalhar no Projeto Escolas de Paz, promovido pelo
Governo Estadual em parceria com a UNESCO. Nesse projeto além dessas oficinas
promovi discussões sobre multiculturalismo, gênero, identidades sociais e relações de poder
através de filmes e atividades afins.
Em 2001, um novo concurso me levou a Duque de Caxias, fui trabalhar como
professor de Artes no 2º distrito do Município. A discussão de temas relacionados à
orientação sexual nas escolas já era uma constante em minha vida profissional, sempre
que podia incluía questões relacionadas à orientação sexual em minhas aulas. No ano
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seguinte um fato me causou profunda indignação e fez sentir a necessidade de realizar


estudos sistematizados em relação à orientação sexual nas escolas: Um aluno, de 15 anos,
cursando a 8ª série, chegou à escola, com o uniforme sujo e com um certo odor, o que
poderia ser normal em outros/as alunos/as, mas não naquele, pois sempre se mostrou um
garoto muito caprichoso com sua aparência. Aquele era o dia da entrega de trabalhos, e
este aluno disse-me que não poderia entregar o seu. Depois de recolher todos os
trabalhos, dispensei a turma e o chamei para conversar. Então, ele contou que estava
dormindo há três dias numa casa em construção na vila em que sua família morava. Por
quê? — perguntei. “Minha mãe me colocou para fora de casa, ela disse que homem tem
que dormir na rua e passar fome, para aprender a ser homem”. Tudo isso porque a mãe
desconfiava que o filho era gay.
Com o intuito de propor um espaço de discussão sobre sexualidade naquela
escola, comuniquei o fato à orientação educacional e à direção, que prontamente
procuraram a mãe deste aluno. Na semana seguinte, fiquei sabendo que a mãe era uma
cobradora de ônibus, que lutava para criar sozinha os quatro filhos, e que fizera tudo isso
com aquele filho apenas para alertá-lo e ensiná-lo a ser homem, pois ele estava andando
com “más companhias” (garotos gays) e fazendo aulas de dança de rua. A diretora
entendeu o ato da mãe lutadora, pois em nenhum momento ela abandonou o filho, e
concluiu o caso dizendo: “Nenhuma mãe quer um filho gay”.
Esta atitude da diretora vem ao encontro do que Luiz Mott, Marcelo Cerqueira e
Cláudio Almeida (webpage, 2001) mostram no trabalho Direitos Humanos: o crime anti-
homossexual no Brasil, no qual eles afirmam que “de norte a sul pais e mães costumam
repetir: Prefiro um filho ladrão do que um homossexual”.
Procurando ler e conhecer melhor a realidade da Baixada Fluminense, descobri
que fatos como estes são comuns, conforme atesta Pedro Dantas apud Mott (webpage,
2001) ao revelar que “Sair do armário na baixada é complicado, porque quanto maior a
miséria, maior é a ignorância que gera a violência”. Nessa mesma matéria pude ler um
caso parecido com o do meu aluno e que terminou com um triste final: O do travesti
Abelardo Dias, de apenas 16 anos, assassinado em Nova Iguaçu em 2000. “Aqui na
Baixada os pais ainda expulsam os filhos de casa ao descobrirem a homossexualidade.
Logo, os meninos viram travestis e para sobreviver começam a se prostituir antes dos 15
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anos — admite Baena (secretário do grupo Cidadania)” (Dantas apud Mott, webpage,
2001).
Estes acontecimentos despertaram em mim o interesse por estudar questões
relativas a homossexualidade e a escola, que até então não havia dado relevância. Em
minhas leituras conheci alguns pesquisadores/as e professores/as, dentre eles/elas a
professora doutora Márcia Moraes que estava ligada a um então recente programa de
mestrado promovido pelo ISEP (Instituto Superior de Estudos Pedagógicos), gostei da
proposta, prestei concurso e me inscrevi no programa.
De agosto 2002 a 2004 foi um período de intensos estudos, escrevi artigos, entre
eles: Por um olhar mais atento às múltiplas e conflitantes sexualidades presentes no
interior das salas de aula (2003), dirigi grupo de estudo: Homossexualidade se aprende na
Escola (Duque de Caxias, 2004), realizei diversas leituras, e sob a orientação desta
professora defendi minha dissertação: Do Cotidiano Escolar à Escola no Cotidiano: um
estudo de caso sobre a orientação sexual e a homossexualidade nas Escolas pela
Instituição citada. Foi um período muito importante em minha vida acadêmica, pois
ampliou meus horizontes. Porém o programa ainda não foi reconhecido, o que não me
permite alçar novos vôos.
A partir desses estudos me aproximei de grupos que trabalham com
homossexuais e promovem discussões sobre questões relacionadas à homossexualidade
nas escolas. Em 2006, fui convidado pelo Grupo Arco-Iris para ministrar a oficina Ética e
Relações de Poder nas Escolas, no curso: Rompendo Fronteiras e discutindo a
diversidade sexual na Escola promovido pelo grupo em parceria com o MEC.

ABORDAGEM TEÓRIO-METODOLÓGICA

Nunca se falou tanto em sexo/sexualidade como em nosso tempo, porém fala-se


como algo que deve ser ocultado ou reprimido. Nesta perspectiva, Michel Foucault (1979)
afirma que “o exercício do poder cria perpetuamente o saber e, inversamente, o saber
acarreta efeitos de poder” (p.142), sugerindo que o poder se manifesta a partir do discurso
do conhecimento, selecionando qual a informação pode-se ou deve-se permitir chegar ao
povo e quais devem ser negadas. Com isso, através da educação corpos são moldados e
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identidades sociais/sexuais são construídas ao longo dos anos. Assim, a sexualidade não é
apenas uma questão pessoal, mas uma questão social e política, estando diretamente
relacionada à forma como a sociedade se organiza culturalmente, pois, “ela segue as regras
da cultura, mesmo quando a cultura tende a domesticar a sexualidade” (Deborah Britzman,
2001).
Ainda dentro deste contexto, Nailda Bonato (1996,webpage) entende a sexualidade
como “ um dos elementos mais eficazes de controle sobre o sujeito e a sociedade, atuando
há mais de três séculos”, pois os discursos se produzem como dispositivos institucionais. O
poder é exercido através de práticas legitimadas pela sociedade dando direito a todo e
qualquer grupo que pertencer ao modelo discursivo de se anunciar como dominador e
estará evidenciado nas relações: marido-mulher, pai/mãe- filho/a, escola- alunos/as, entre
outros. No entanto, os grupos que não se enquadram nestes modelos criam mecanismos de
luta e resistência. Assim “as resistências são o outro lado do poder” Foucault (1988, p.9).
Outro autor relevante para análise desta problemática é Pierre Bourdieu (1995) que
afirma que “o conhecimento através do corpo é o que leva os dominados a contribuir para
sua própria dominação” (p.146), o que revela que corpos são educados ao longo da história
de maneira a formar modelos aceitáveis do ponto de vista social, tendo em vista o objetivo
de formar homens e mulheres que correspondam às formas hegemônicas de masculinidade
e feminilidade ajustados às regras convencionadas pela sociedade.
Esse processo histórico de educação de corpos acarretou na construção (definição)
de diversas identidades sexuais, que foram/são proclamadas ou negadas através dos tempos.
Como as identidades sexuais foram construídas historicamente? Como o
poder impôs o saber ao longo dos tempos? Quais os mecanismos utilizados para
construir o conhecimento?
Responder esta questão seria o ponto de partida do presente estudo. O objetivo
central do projeto é construir uma linha histórica desvendando como o corpo foi educado ao
longo dos tempos e analisando como a homossexualidade foi determinada como binômio
oposto negativo da heterossexualidade. Esse estudo será realizado através de leituras dos
diversos trabalhos realizados por Foucault, Richard Parker, Robert Connel, Pierre
Bourdieu, Jeffrey Weeks, Andrey Sullivan e outros pesquisadores.
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A caminhada pela história da educação de corpos irá conduzir ao século XVIII com
o surgimento dos colégios. Então, corpos passam a ser educados através das perspectivas
higienistas e da medicina. Deve-se ressaltar que com a chegada da Família Real ao Brasil,
em 1808, determinou novos rumos para Educação Nacional, reforçando o pensamento
religioso e introduzindo modelos educacionais vigentes na Europa no que se diz respeito à
Educação de Corpos Sexuados.

Torna-se relevante destacar que a nomenclatura homossexualidade e o


homossexual foram inventados a partir do século XIX, onde naquele momento uma pratica
sexual começa a determinar um novo sujeito. A homossexualidade, discursivamente
produzida, transforma-se em questão social relevante (Louro, 2004), além das
preocupações da igreja, a ciência começa a desenvolver uma série de estudos, isso a partir
da releitura que o sexólogo Richad von Krafft-Ebing apresentou sobre as obras do escritor
austro-hungaro Karl Kertbny que apresentavam a homossexualidade como variação
benigna da heterossexualidade.

Nesta época, segundo Bonato (1996,webpage) “Nasce a educação sexual


objetivando o combate `a masturbação, às doenças venéreas e ao preparo da mulher para o
papel de esposa e mãe. Sempre com objetivos de "saúde pública" e de "moral sadia",
procurando assegurar-se a saudável reprodução da espécie.” Como, a partir desses
objetivos, esses colégios irão trabalhar para construção ou negação das diversas
identidades sexuais? Como trabalharam questões relativas as homossexualidades?

Aqui, pretende-se analisar de que maneira o desenvolvimento da Educação


Sexual foi implementado no Brasil e como determinou a construção de modelos de
homem/mulher, e contribuiu para a formação das identidades sexuais determinadas
no século XX.

No Brasil a partir dos anos 70 e posteriormente com o retorno de intelectuais


exilados/as pela ditadura militar que trouxeram consigo experiências acumuladas no
exterior começam a surgir e tomar força os Movimentos Homossexuais. Já na década de
1980, o Movimento homossexual, com auxilio dos estudos de Foucault invade as
Universidades e se torna questão acadêmica. Com isso, “o ativismo gay iniciou um
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questionamento mais amplo dos pressupostos heterossexuais da lei, da ciência e psicologia”


(Parker, 2001, p.140), fato que teve como reflexo e conseqüência o Conselho Federal de
Medicina e as Organizações Cientificas Brasileiras, em 1985, deixarem de considerar a
homossexualidade como doença passando a reconhecê-la como uma orientação sexual

Devido a essas modificações, na última década do século XX e no início do século


XXI preconizou-se uma série de mudanças de olhar e entendimentos nas relações sociais.
Foram quebrados cânones, modelos de masculinidade hegemônicos (Robert Connell, 1995)
passaram a ser questionados. Assim, John Money, biólogo americano, utiliza pela primeira
vez a palavra gênero, objetivando a separar homens e mulheres e na Inglaterra, segundo
Parker (2001), McIntosh, em 1968, começa a desenvolver trabalhos de pesquisa sobre
Identidades Sexuais objetivando a busca de raízes históricas da homossexualidade
masculina. Com isso, “o debate sobre as praticas sexuais e de gênero vem se tornando cada
vez mais acalorado, especialmente provocado pelo movimento feminista, pelo movimento
de gays e lésbicas” (Louro, 2001,p.10).

Assim, surgiram diversas Leis promulgadas a partir desses questionamentos com o


objetivo de “quebrar o isolamento, defender direitos pessoais e criar maior autoconfiança e
liberdade de viver na sociedade” (Bernardino Leers e José Trasferetti, 2002, p.96). Entre
outras Leis que evidenciam o direito de ser, podemos citar: Constituição Brasileira de 1988,
a Lei nº 8.069/1990 o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Declaração Universal dos
Direitos Sexuais (Hong Kong- 2000), no Rio de Janeiro as Leis Estaduais nº 3406/2001
(que proíbe e estabelece sanções aos estabelecimentos comerciais e funcionários públicos
que discriminem homossexuais) e nº 3786/2002 (que reconhece o direito de companheiros
do mesmo sexo).

Porém, além de todas as Leis e trabalhos citados, o grande impulsionador para o


desenvolvimento de um programa de Educação Sexual nas Escolas foi o surgimento da
Aids. O combate à doença acarretou nos discursos de sexualidade, deu visibilidade às
diversas identidades sexuais. Segundo J. Silvério Trevisan “O vírus da Aids realizou em
alguns anos a proeza que nem o mais bem-intencionado movimento pelos direitos
homossexuais teria conseguido,em muitas décadas: deixar evidente à sociedade que o
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homossexual existe e não é o outro, no sentido de um continente à parte, mas está próximo
de qualquer cidadão comum.....” ( 2000, p.462). Essa preocupação fez com que através da
Lei de Diretrizes e Bases nº 9394/1996 o Ministério de Educação e Cultura passasse a
estimular o desenvolvimento de projetos pedagógicos relativos a Educação Sexual através
dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), os quais enfatizam que as questões devam
ser discutidas de forma interdisciplinar através dos temas Transversais. O programa de
orientação-sexual propõe que o conteúdo seja discutido a partir de três eixos temáticos:
Corpo (Matriz de sexualidade), Relações de Gênero e Prevenção de DST´s.

Com as novas políticas de identidades, surge nos anos de 1990 uma nova proposta
pedagógica – a Teoria Queer - que apropriando da construção discursiva das sexualidades
definidas trabalhadas por Foucault e da proposta de Desconstrução de um discurso
impulsionada por Jacques Derrida, busca transgredir normas e currículos. “A teoria queer
permite pensar a ambigüidade, a multiplicidade e a fluidez das identidades sexuais e de
gênero, mas, alem disso, também sugere novas formas de pensar a cultura, o conhecimento,
o poder e a educação.” (Louro, 2004, p.47)

Aqui pretende analisar como as reivindicações sociais e Leis criadas interferiram no


processo de desenvolvimento de um programa Orientação Sexual e na construção e
legitimação das identidades sexuais.

A partir deste estudo, será possível compreender o processo de construção das


identidades sexuais e a orientação sexual nas escolas a partir de um objeto específico.

Visando atender às deliberações da Lei de diretrizes e Bases nº 9394/1996, às


necessidades dos/das educandos/as e o preparo de professores/as a Secretaria Municipal de
Educação de Duque de Caxias em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde promoveu
uma série de projetos relacionados ao desenvolvimento da Educação Sexual.

Então, os dados obtidos a partir da realização desta pesquisa histórica serão


analisados e confrontados com as propostas e projetos implementados e desenvolvidos pela
Secretaria Municipal de Educação a partir da criação dos Parâmetros Curriculares
Nacionais o que permitirá responder a seguinte questão: Como a educação sexual, atual,
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preconizada pelas escolas contribui para a construção e legitimação das Identidades


Sexuais?

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