ORIGENS E PERTINÊNCIA DA MATEMATIZAÇÃO DA TEORIA ECONÔMICA Iara Vigo de Lima1 Resumo: Nossa intenção aqui é sondar, seguindo uma

perspectiva genealógica, a busca do método na filosofia e na ciência e como esta culminou nas origens e desenvolvimentos da economia matemática. Procuramos resgatar a gênese da concepção moderna de ciência e sua ascendência sobre a mathematization da teoria econômica, com o intuito de apresentar os principais questionamentos acerca da hegemonia da abordagem matemática em nossa disciplina. Palavras-chave: genealogia, método, concepção moderna da ciência e mathematization da teoria econômica. Abstract: Our intention here is to probe, following a genealogic perspective, the search of the method in philosophy and science and how this culminates in the origins and developments of mathematical economics. We investigate the genesis of modern science conception and its ascendancy over the economic theory’s mathematisation with the purpose to present the main questions about the mathematical approach hegemony in our discipline. Keywords: genealogy, method, modern conception of science and economic theory mathematisation.

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Professora do Departamento de Economia – UFPR. E-mail: iaravl@sociais.ufpr.br

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INTRODUÇÃO Existe uma ampla discussão em torno ao estado atual da ciência econômica. Muitos apontam para uma crise, o que pode ser atestado pelo título de inúmeras publicações.2 Tem-se debatido suas causas amplamente. Diversos autores associam-na à questão do método, mais especificamente ao formalismo e ao “abuso” do emprego da matemática em nossa disciplina. Recentemente, Mark Blaug (1998), renomado metodólogo ortodoxo - o que torna a declaração bastante significativa, afirmou que o problema é mesmo o formalismo matemático. É comum levantar-se questões quanto à relevância empírica de grande parte da teoria econômica, ou ainda, à ausência de progresso cumulativo em comparação a outras ciências. A “matematização”3 impõe a
2 Tais como: M. Perelman, “The End of Economics”, London: Routledge, 1996; Paul Ormerod, “A Morte da Economia”, trad. Dinah Abreu Azevedo, São Paulo: Companhia das Letras, 1996; Benjamin Ward. “O que há de errado com a Economia?”, trad. Edmond Jorge, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975; Henry K. H. Woo, What’s Wrong With Formalization in Economics? An Epistemological Critique, Newark: Victoria Press, 1986; e Robert B. Carson, “O que os economistas sabem. Um manual de política econômica para a década de 90 e depois”, trad. Ruy Jungmann, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. 3 Necessário se faz esclarecer, desde já, como entendemos - uma vez que ainda não há uma padronização em sua interpretação - alguns dos termos aqui utilizados, freqüentemente envoltos em alguma dubiedade: “quantificação”, “matematização” e “formalização”. Entendese “quantificação” como o uso das matemáticas na investigação empírica e quantitativa dos fenômenos econômicos, assim como na ilustração de proposições. Atualmente, alguns críticos do método predominante em economia afirmam que a “quantificação” tem sido esquecida pelos economistas matemáticos, o que tem contribuído para o distanciamento entre teoria e realidade. O termo “matematização” comporta dois sentidos. O primeiro diz respeito ao emprego do raciocínio matemático na formulação da teoria pura. Ou, em outras palavras, a elaboração da teoria na linguagem matemática, cuja origem em nossa disciplina se confunde com a emergência da economia matemática. Um segundo entendimento do vocábulo refere-se à hegemonia e paroxismo da abordagem utilizada pela economia matemática. A expressão “matematização da economia” incorpora conotação crítica e tem sido utilizada por aqueles que questionam a sua predominância no estudo do comportamento econômico. A maioria dos proponentes das críticas ao método empregado pela corrente principal de nossa ciência parece não defender a extinção do uso das matemáticas ou mesmo não são contrários à “matematização” em seu primeiro sentido acima, mas denunciam um certo abuso em seu emprego. Finalmente, por “formalização”, seguindo Katzner (1986, p. 137) compreende-se o desenvolvimento e análise das relações entre as variáveis de um modelo, a qual pode não estar na forma matemática, embora esta seja a mais comum em economia. A “formalização” tem sido considerada uma das causas da situação enfrentada pela disciplina. Este é o caso de McCloskey (1991). Todavia, grande parte dos críticos parecem não considerar a “formalização” per se como problemática, mas sim apresentam objeções ao formalismo matemático.

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desde os primórdios da disciplina.adoção de pressupostos adaptáveis aos axiomas da matemática. Koopmans e Debreu. 3 . incluem-se Cournot. existem problemas relacionados à tradução dos processos econômicos para a linguagem matemática. mais recentemente. Ainda. proposto pelos gregos e levado a cabo pelos filósofos e cientistas da Idade Moderna. para se utilizar aqui uma concepção histórica que é bastante retomada em defesa do emprego de modelos matemáticos. pretende resgatar a emergência. Jevons. Leontief. pretende-se apontar algumas destas grandes questões.4 os quadros históricos que culminaram na concepção moderna de ciência e como esta. Ademais. que em geral não se conformam ao mundo real. Grandes economistas. Wicksell. não são apenas economistas não-matemáticos que apresentam objeções (como Veblen e Knight). Debate-se. como Marshall. Entre eles. bem como à acuidade de sua manipulação na análise. Outras grandes críticas levantadas à matematização citam exemplos de que a economia matemática descobriu muito pouco relativamente a outras abordagens menos-matemáticas e que a ênfase na modelagem matemática pode ser creditada a aspectos de socialização na profissão. Solow e Herbert Simon. até que ponto o objeto da economia é “naturalmente quantitativo”. ao influenciar o pensamento de economistas e de outros cientistas que se voltaram à análise de fenômenos econômicos. deu origem ao método que é hoje objeto de tais questionamentos. defendem o emprego do raciocínio e das ferramentas da matemática. portanto. portanto. Há. Keynes e Georgescu-Roegen. Procura acompanhar o embate dos poderes e saberes que propiciaram tais eventos. instaurado na filosofia por Nietzsche (1844-1900) e ampliado por Foucault (1926-1984). A racionalidade 4 O procedimento genealógico. Ou ainda. ADVENTO DA ECONOMIA FORMALIZAÇÃO MATEMÁTICA EM A busca do método na filosofia e nas ciências seguiu o que podemos chamar de um “projeto histórico de racionalidade”. Stigler. a proveniência multifacetária de certos eventos significativos. Nosso objetivo aqui é sondar. como imprimir aos símbolos e fórmulas matemáticas uma significância econômica? Isto é. seguindo uma perspectiva genealógica. Pareto. Este movimento colimou na busca da matematização do mundo. Do outro lado do debate também se encontram renomados economistas. entre eles seis Prêmios Nobel: Myrdal. 1. Walras e. uma polêmica muito viva em torno ao método hoje empregado pelo mainstream da ciência econômica. Hayek. mas também grandes matemáticos.

assim. Como forma de combater um intenso ceticismo. que determinou a moderna atitude do saber. Todas as ciências resultam de um certo modo prévio de abrir-se ao mundo.convidava à conversão de diferentes aspectos dos fenômenos em símbolos abstratos. No âmbito do pensamento metacientífico. independente das personagens que o protagonizaram. traduzindo-se em grandes transformações no pensamento filosófico e científico. O projeto matemático histórico foi promovido por personagens como Pitágoras. mas um exercício de poder do ser humano sobre a natureza e resultados passam a ser requeridos das ciências com muito mais veemência. o qual não deveria ser compreendido a partir da matemática. No século XVIII. deriva de um “caráter-de-fundo”. Esta. pela forma como aplicou a matemática à física. p. ou ao conhecimento puramente intelectual e perfeito. inverte-se a forma como o homem ocidental passa a se relacionar com a natureza. do qual a própria matemática decorre. que toma a física newtoniana como paradigma de 5 Heidegger (1987. confundindo-se com a idéia de “progresso”. 4 . Heidegger identifica-o no “matemático”. de cunho essencialmente matemático. que é o “matemático”. Isaac Newton. inaugurou a concepção de que o melhor caminho para se chegar às idéias verdadeiras. isto é. de um projeto “historial”. A ciência moderna não é mais contemplação. com Francis Bacon e sua convicção de que “saber é poder”. Trata-se. Copérnico. Kepler. No século XVII. enquanto projeto fundamental. pois esta é uma “configuração” daquele. Platão.5 Platão. seguindo uma inspiração pitagórica. além das caracterizações tradicionais de “ciência de fatos”. já nos gregos observava-se o germen de um desejo humano de dominar a natureza. cristalizando uma tendência no pensamento humano de revivescência do interesse pela matemática. encontrava-se na matemática. com o intuito de melhor ordená-los e apreendê-los. o homem passa a duvidar de sua capacidade de conhecer. Descartes e. Francis Bacon inaugura o empirismo e Descartes estabelece o dedutivismo. O Renascimento fez ressurgir uma corrente pitagóricoplatônica há muito reprimida. Galileu e Newton. enquanto diferente de “histórico”. levando a cabo o referido projeto histórico. Procurando estabelecer “o solo histórico em que se apoia a ‘Crítica da Razão Pura’ ”. convertendo esta em um paradigma às demais ciências e imprimindo os seus requisitos determinista e matematizante. pensadores se voltam à questão do método científico. porém o historial é uma explicitação da racionalidade. para Heidegger. verificou-se outra grande mudança na filosofia ocidental. que deuse ao homem. promovidas por personagens tais como: Copérnico. O matemático permite a abertura de toda e qualquer ciência específica e fornece-lhe os “axiomas”. 74-82) afirma ter sido esse um evento “historial”. Galileu. mas especialmente com Descartes e o nascimento do “sujeito” moderno. Na Idade Moderna. Kant. de um “projeto matemático fundamental”. “investigação experimental” e “ciência que mede”. os conceitos fundamentais e paradigmas. Ademais.

Isto tem levado a que alguns autores. II. como Deane (1980) e Redman (1991). Segundo Ingrao & Israel (1990. Quesnay denominava o Tableau. defendam que Smith procurou aplicá-lo em sua obra seminal. foram norteados pela concepção de cientificidade instaurada na modernidade. Diz-se. precursor da análise de equilíbrio geral. em especial no positivismo lógico. Dentre eles. 6 5 . sua admiração pelo método newtoniano e a crença de que tal deveria ser o procedimento científico. Todo esse movimento histórico repercutiu na adoção pela economia da linguagem matemática.ciência. ao adotar alguns pressupostos simplificadores e relegar a preocupação com os fatos. de “fórmula aritmética” da reprodução anual da riqueza das nações e Turgot também se preocupava com a medida dos fenômenos econômicos e sociais. p. que ocorreram entre os séculos XVII e XVIII. manifestou. 124) chamou de “vício ricardiano” a tendência de aplicar os resultados de teorias amplamente abstratas aos problemas práticos. marcando decisivamente os desenvolvimentos posteriores na filosofia da ciência. promovida por um grupo de matemáticos. 7 Schumpeter (1964. só que agora aliada a um procedimento essencialmente abstrato. O pensamento do Círculo de Viena acabou exercendo forte influência na “revolução formalista”. Os mercantilistas já demonstravam a influência do método moderno de análise.7 Ricardo recebeu censuras à sua teoria e ao seu método ainda em vida. Os primeiros passos decisivos dados pela mais antiga das ciências sociais . físicos e engenheiros que se votaram aos estudos econômicos. vivendo no contexto do Iluminismo.assim como as demais que iriam se formar -. sintetiza racionalismo e empirismo e se volta para a investigação da possibilidade de a razão “conhecer”. em alguns ensaios sobre filosofia da ciência. Ele retoma a perspectiva dedutivista. Ricardo foi a personagem mais relevante no que concerne ao método. escritos antes de A Riqueza das Nações. 44). que também condenava o seu excessivo Smith. que ele revolucionou o método no âmbito da disciplina e tem sido apontado como o fundador da teoria econômica pura. cristalizada pela física newtoniana. os dados históricos e as instituições. que firmou a “matematização” da economia. tal como presente em Smith. como forma de adquirir o ambicionado estatuto científico e “progredir”. concebendo o conceito de equilíbrio em analogia a fenômenos físicos. p. vol. Nos escritos dos fisiocratas e de Adam Smith6 identifica-se o emprego sistemático da visão determinista do mundo. William Petty é representativo de tal ascendência. portanto. embora não tivesse tentado nenhuma formalização. ao se espelhar na física e combinar racionalismo com o estudo empírico-quantitativo. a segundo plano. em especial de Malthus.

8 Então. Estes promoveram uma “revolução” metodológica ao adotar. p. p. escritos por Senior. alternativas já tinham sido apresentadas (por exemplo. o uso das matemáticas concentrava-se na “quantificação”. por que os primeiros neoclássicos foram aqueles que obtiveram sucesso? A resposta a esta questão parece mesmo estar na adoção da linguagem matemática. Sucederam-se diversos trabalhos voltados à questão metodológica. Bagehot e Jevons. A partir do final da década de 1850.abstracionismo. aliado ao positivismo de Comte e ao socialismo. pelo que Mirowski não considera os austríacos propriamente neoclássicos). Gossen e Lloyd. como nos escritos dos aritméticos políticos. 72) também corrobora a visão de ruptura. além de novas técnicas matemáticas10. enquanto Mirowski (1984) entende que o movimento promovido pelos primeiros marginalistas caracterizou-se por uma “revolução”. Stuart Mill. Até então. leva à primeira grande crise da economia. declaravam-se extremamente pessimistas com o estado da disciplina. decorrente da adoção da linguagem matemática. Em 1871. com o reconhecimento de seus principais protagonistas da inspiração na física (excetuando-se Carl Menger. O grande passo inicial em direção à “matematização” da teoria econômica foi dado pelos protagonistas da “revolução marginalista”9. II. 203). MacLeod. apresentando o princípio da utilidade marginal e marcando o surgimento da Economia Neoclássica. 8 Conforme Schumpeter (1964. pelas escolas históricas). observando que os economistas do período acreditavam que faziam parte da grande linha divisória do fim da teoria clássica. 10 Embora estas não tenham excedido em muito o uso da otimização condicionada (Mirowski. sobretudo no que concerne ao método. Há muitos os economistas ambicionavam um estatuto de cientificidade correspondente àquele obtido pela física e matemática. mas contra seu grande mestre. Vários economistas ilustres. Blaug (1996) defende um “gradualismo” . tais como Cairnes. o princípio da utilidade marginal já havia sido desenvolvido por Dupuit. Embora houvesse um descontentamento interno na disciplina. 9 A questão de se houve ou não uma “revolução” no último quartel do século XIX tem sido debatida. o desalento da teoria ricardiana. p. Meek (1971. de fisiocratas. 1986. Os próprios conceitos de utilidade e de margem não eram novos. não só por se voltarem contra Stuart Mill. Além disso. o imperativo de “progresso” estava presente nas discussões em torno ao estado da Economia Política. John Neville Keynes e outros. 6 . Ricardo. 112). de William Whewell e até mesmo de Ricardo (que utilizou ilustrações numéricas) e Marx (ao empregar fórmulas matemáticas). Jevons publica o seu A Teoria da Economia Política. vol.

tiveram precursores. assim como também tinham algum treinamento na física (embora pouco familiarizados com as sutilezas desta ciência. um engenheiro e matemático. diz Mirowski. todos os departamentos de economia interessados em pesquisa. por volta do início da década de 1960.a sua linguagem na teorização11 e defenderem uma rígida separação entre ciência e arte. físicos e matemáticos. os periódicos raramente utilizavam mais de 5% de suas páginas ao discurso matemático. Segundo Ward (1975). p. o uso da matemática era bastante limitado. são citados: Daniel Bernouilli. Maurice Allais. segundo Mirowski (1984. Robertson (1949) e Bousquet (1958) apontam o italiano Giovanni Ceva. em 1711. Além deste. o aumento da “matematização” tem sido explicado pela chamada “revolução formalista”. Seu incremento decorreu do ingresso de muitos engenheiros. todos concordam que o fundador da Economia Matemática foi Cournot. A nova abordagem propagou-se e. passa a incorporar a linguagem matemática em sua formulação teórica. A mudança foi impulsionada por formalistas que passaram a trabalhar de forma cooperativa no Massachusetts Institute of Technology e em Chicago no final da década de 1940. passou-se a perseguir o ideal formalista. seguindo uma tendência histórica matematizante nos demais ramos do saber. no Quarterly Journal of Economics e no Journal of Political Economy entre 1887 e 1955. Achille Nicolas Isnard. não a newtoniana. já possuíam seus formalistas (Ward. 7 . este percentual começa a elevar-se e chega a aproximadamente 25% no início da década de 50. tais como: Ragnar Frisch. 12 É significativo. Griffith Evans. Kenneth Arrow. 13 Segundo dados tabulados por Mirowski (1991. como o mais antigo economista matemático. até a década de 1930. 149-50) referentes a publicações no Revue D’Economie Politique. É desta forma que a economia. 116-117). mas sim a energética. tal como se desenvolvia em meados do século XIX. ocorreu através de uma analogia perfeita com a física12. Harold Thayer Davis e Edwin Bidwell Wilson. Tjalling Koopmans. Porém. demonstrou que entre 1887 e 1924. que publicara De re numaria quoad geometrice tractata potest. com algumas divergências. Cesare Bonesana. Entretanto. marcando o surgimento da teoria neoclássica e o primeiro grande ponto de inflexão da “matematização” da ciência econômica. acrescenta o autor). A concretização desse projeto histórico. Jevons (1996). entre outros.13 Após a Segunda Grande Guerra. Jan Tinbergen. no decêncio de 1925-35. 1975. decorrente da ampla influência dos critérios de cientificidade prescritos pelo positivismo lógico. o fato de que todos os membros da Escola de Lausanne fossem engenheiros. John von Neumann. O 11 Porém. por exemplo por Frank Ramsey e Tinbergen ainda na década de 1930. 1986 e 1991). p. Entretanto. no Economic Journal. Nicolas François Canard.

ao dar início à tendência dos economistas de se distanciarem do mundo real. o auge da transferência da abordagem formalista para a nossa disciplina ocorreu com a publicação. Tem-se questionado as vantagens e limitações da metodologia empregada na ciência econômica. Esta obra teria iniciado o “abuso” na utilização da matemática. bastante contraditórias. Obediência ao rigor dita a forma axiomática da análise onde a teoria. os economistas têm apontado as mais diferentes vias de solução e. as mais prementes questões. o seu padrão de julgamento profissional e de avanço baseado na Economia Matemática. sobretudo. mais precisamente. por exemplo Paul Samuelson14. Também não é raro inexistir acordo sobre quais são as causas de grandes problemas econômicos enfrentados pelas sociedades.. 8 . não raras vezes. habitado por criaturas imaginárias e com regras e axiomas declarados pelos economistas. a 14 Blatt (1983) defende que o livro Fundamentos da Análise Econômica de Paul Samuelson. caracterizado por uma profunda crise.15 2. SOBRE O ESTADO ATUAL DA CIÊNCIA ECONÔMICA E A PERTINÊNCIA DA MATEMATIZAÇÃO DE SUA TEORIA Toda esta transformação metodológica que se iniciou nos anos 70 do século XIX e intensificou-se no pós-guerra está hoje no bojo das discussões em torno ao estado atual da ciência econômica. Mas. em 1959. imprimiu o “tom” da teoria econômica pura posterior. é lógica e inteiramente desconectada de suas interpretações”. O ponto axial do debate tem sido a “formalização” em geral e.viii). no estrito senso. Diante de uma variada sucessão de questões. (Debreu . Isto levara ao desenvolvimento de um mundo próprio..].instrumento da Economia Matemática foi aperfeiçoado por muitos. uma definição clara de como devem ser abordadas. Constantemente. 1959. Não é incomum se observar uma grande insatisfação com muitos aspectos da análise econômica. tanto do ponto de vista teórico quanto prático. Aplicou-se a matemática à revolução keynesiana. do livro Theory of Value de Debreu. publicado pela primeira vez em 1948. Não há. os economistas têm experimentado uma sensação de impotência ao constatarem as discrepâncias entre o que se observa na realidade e o que preconizam as teorias. 15 Debreu afirmou em seu Prefácio: “A teoria do valor é tratada aqui com os padrões da escola formalista contemporânea de matemática [. porque este não se adaptava à sua imaginação matemática. portanto. p. Muitos autores costumam indicar o final dos anos 1960 como ponto de partida desta nova crise.

várias justificativas para a utilização da formalização em geral e. 19). para resumir os principais méritos da formalização: auxilia no esclarecimento dos problemas conceituais e na construção de fundamentos lógicos. (Samuelson. no alcance de um nível mais elevado de objetividade. 20). A primeira. Eventualmente toma-se o artigo de Suppes16.“matematização” da economia. possibilitando a resolução de problemas e enigmas de grande complexidade. se quisermos que as ciências progridam” (PARETO. 1. 1997. p. 10). entendida enquanto paroxismo do emprego da matemática na investigação do fenômeno econômico. no estabelecimento de condições precisas requeridas pela análise a ser considerada e na obtenção de pressupostos mínimos necessários para a exposição da análise. Apenas nas outras ciências sociais é que ainda há quem se obstine em raciocinar sobre palavras. pelo menos em grande parte. é preciso desembaraçar-se desse método. que foi largamente utilizada pelos protagonistas da revolução marginalista.] métodos simbólicos tem sido de ajuda para esclarecer o pensamento e estimular o progresso da análise. Cournot e Jevons entendiam que muitas das formas de raciocínio em economia são de natureza matemática e Walras acreditava que ser cientista é também ser matemático (Katzner. Mirowski (1986) sintetiza as justificativas históricas levantadas em prol do uso da expressão matemática em economia em torno a duas grandes defesas. Aqueles que usaram essa linguagem abstrata foram forçados a formular seus conceitos sem ambiguidade [. p. no entanto. 1991.. na apresentação de significados explícitos de conceitos. na possibilidade de desenvolvimento de uma visão geral sem a intromissão de detalhes não essenciais. 119). Também a Economia Política chegou a esse ponto. em especial através dos recursos da computação. The Desirability of Formalization in Science. especialmente. Samuelson concebia que o uso dos “ [. Woo (1986. p. p. Pareto afirmou em sua obra Manual de Economia Política: “Todas as ciências naturais chegaram agora ao ponto no qual os fatos são estudados diretamente. a matemática têm sido apontadas por diversos economistas. é aquela de que o objeto da economia é 16 Como por Katzner (1991. 2.. 20) e Woo (1986. p. Em Defesa da Formalização e do Uso da Matemática na Economia Ao longo da história da análise econômica. 9 . de 1968. na padronização da terminologia e métodos. 1987..]”. 10) menciona também a maior facilidade de manipulação dos sistemas formais.. p.

o surgimento da teoria neoclássica. Porém.2 Críticas à Formalização Matemática em Economia Considerando-se as ciências em geral. creditando-a a Schumpeter. o debate em torno ao uso das matemáticas tem uma longa história. Esta concepção foi proferida por Samuelson em Economic Theory and Mathematics. a simplicidade e a generalidade. 17 10 . O rigor matemático propicia bases mais seguras para a exploração em novas direções. A segunda grande defesa do método matemático é o apelo ao seu rigor lógico. Também a discussão em economia não é recente. Ela está presente desde. Mayer (1993. enquanto que a atividade econômica exige uma visão periférica. (1986. que teria afirmado: “o objeto de estudo (da economia) apresenta-se na forma quantitativa” . modelos são mais difíceis de serem lembrados do que explicações intuitivas.“naturalmente quantitativo”17. isto é. inclusive com grande economia de meios. v) a ambiguidade pode ser “uma reflexão apropriada e útil de uma realidade complexa”. os três atributos principais do raciocínio matemático como sendo o rigor. 123-25) aponta como custos da modelagem matemática: i) Redução do tempo que os pesquisadores tem disponível para outros aspectos de seus papers. iii) Pode tornar mais complexo o que poderia ser dito de maneira mais simples. como afirma o próprio Mirowski. então. ii) Muitos modelos publicados apenas “matematizam” o óbvio. bem como o Diálogo de Galileu entre Simplício. 2. Ele coloca. Acaba-se escolhendo aquelas variáveis mais fáceis de serem incluídas no modelo. pelo menos. Ademais. Podemos aqui relembrar a divergência entre Aristóteles e Platão. dão uma visão de “túnel”. parece haver um abuso da matemática para ocultar a falta de idéias. 181). ela estava presente entre os fundadores da teoria neoclássica. iv) Os modelos “estreitam” a visão. e conforme já dissemos. Debreu (1984) enfatiza que as conclusões derivadas pelo raciocínio matemático impedem a interferência de interpretações prévias e que os seus pressupostos explícitos possibilitam um julgamento mais correto sobre a extensão pela qual eles se aplicam a uma situação particular. p. Sagredo e Salviatti. Outro aspecto de defesa por parte de Debreu é de que a linguagem matemática permite uma melhor comunicação entre os economistas. consoante Mirowski. Entre seus principais propagadores estão Tjalling Koopmans e Gerard Debreu. p.

de que a irrealidade dos pressupostos não é significativa para o valor da teoria (perspectiva mais tarde denominada por Paul Samuelson de F-Twist). O que se argumenta é que se a capacidade descritiva e empírica dos axiomas matemáticos não é confiável e a dedução a partir deles pode não ter validade empírica. na qual o rigor analítico como entendido no departamento de matemática é tudo e a relevância empírica (como entendida no departamento da física) não é nada”.2. 1986. p. condena os excessos ocorridos na profissão econômica.19 Os economistas matemáticos contra-argumentam que toda representação do mundo real requer algum nível de abstração e que as distorções da realidade promovidas pelos axiomas são considerados na interpretação final dos modelos. Então. Georgescu-Roegen (1980) observa que muito da economia tem se resumido a “exercícios vazios com símbolos”. Primeiro. um jogo intelectual. investimento.1 Excessiva abstração – os axiomas da matemática versus os pressupostos da teoria econômica Esta crítica aponta que a teoria econômica tem se distanciado da realidade à medida que a “matematização” impõe a adoção de pressupostos adaptáveis aos axiomas matemáticos. 12). a questão passa a ser se é possível corrigir tais distorções e se isto é efetuado pelos economistas matemáticos? Hutchison (1994) denominou esta situação de “crise de abstração” e embora também considere a necessidade de algum grau de abstração em qualquer estudo científico. 19 A maior oposição a esta crítica foi a argumentação de Friedman. a dimensão pela qual os pressupostos se distanciam da realidade. Em outras palavras. em seu artigo The Methodology of Positive Economics. de maneira crescente. tais como poupança.2. “a forma dita o conteúdo de investigação e a disponibilidade de certas técnicas determina a escolha de problemas” (Woo. o que ele designou 18 Afirmação semelhante já havia sido proferida por McCloskey (1991). os quais não se conformam ao mundo real. Segundo.18 Há pelo menos dois aspectos a serem analisados. 11 . a questão de até que ponto a correspondência destes pressupostos com a realidade é relevante. em que “Economistas têm gradualmente convertido o objeto em um tipo de matemática social. Blaug (1998) afirma que a economia tem se tornado. capacidade produtiva e assim por diante.. seguindo Beed & Kane (1991). tornando-se mais difícil esta constatação em função de que estes símbolos são nomeados com termos afetos à atividade econômica. A este respeito. de 1953.

dizem os críticos. pois mesmo quem trabalha com dados pode ser descuidado ao levantá-los. mal. democracia. afirma McCloskey (1991. A maior implicação disto. “A pesquisa em muitos campos da economia não acumula. deu continuidade ao trabalho de Leontief em Theory Versus Empiricism in Academic Economics. p.como “aritmomania”. Ou ainda. quanto no Economic Journal. Morgan comparou estes números com outros periódicos importantes de ciência política. tais como. 1991. o problema é de retórica. p. ou seja. ou ainda. 2. Para McCloskey (1991). mas ao invés disso. bem. Ou seja. pode 12 . De qualquer forma. 587). observando que estes mostraram percentuais de 18. aqueles que melhor se enquadram em suas normas.2 Alienação da realidade e validação empírica da teoria A segunda grande crítica dirigida à Economia Matemática é decorrente da primeira. é fruto do raciocínio “dialético”. para corroborar tal assertiva. onde investigou os artigos publicados entre 1982 e 1986 tanto no American Economic Review. Neste trabalho. isto também seria discutível. em 1988. sociologia. se a expressão matemática do fenômeno econômico se assenta em pressupostos irrealistas. ou seja. as previsões que deles resultam não podem ser empiricamente relevantes (Beed & Kane. mas sim no formalismo e observa que mesmo os economistas não-matemáticos têm se voltado ao longo do tempo à existência de teoremas e um “espírito matemático” já está presente nos escritos de Ricardo. inviabiliza-se o uso deste para previsões ou propostas políticas. o conhecimento pode se dar através da “análise” ou pela “dialética”. Segundo este autor. a qual se restringe à descrição da realidade através de conceitos “aritmomórficos”. é que muito do que é produzido pela teoria econômica não está sendo testada pelos dados do mundo real. Ela circula”. Contudo. A fascinação do argumento matemático levou os economistas a acreditar que “poderiam provar ou rejeitar grandes verdades sociais apenas escrevendo em um ‘quadronegro’”. 1. a matemática passa a determinar quais os aspectos da realidade podem e merecem ser abordados. Leontief analisa os artigos publicados no American Economic Review entre 1972 e 1981. que se utiliza de conceitos “dialéticos”. concluindo que mais de 50% eram modelos matemáticos sem qualquer dado e que. 10-12). em 1982. química e física. A compreensão do mundo não pode resultar da “análise”. ao mesmo tempo. este número apresentava uma tendência crescente em relação a análises empíricas. Morgan. constatando que o percentual de modelos matemáticos sem dados empíricos havia reduzido para 42% no primeiro. este autor argumenta que o problema não está exatamente no uso da matemática. entre os quais se enquadram a maioria dos nossos conceitos fundamentais.20 20 Alguns autores citam a pesquisa desenvolvida por Leontief. enquanto aumentara para 52% no segundo.2. etc. respectivamente. justiça. na medida em que a matemática pode até mesmo restringir o conteúdo comportamental de um modelo. 0 e 12%. Segundo os partidários desta crítica.

estes “devem ser considerados a partir de muitos pontos de vista. 13 . para que a economia permaneça uma disciplina viva. p.3 Até que ponto o objeto da economia é “naturalmente quantitativo”? A terceira crítica se contrapõe à concepção historicamente retomada de que a economia é uma ciência “naturalmente quantitativa”. sendo portanto um “esforço desperdiçado”. a fim de que novos discernimentos sejam conseguidos”. termos a sensação de que o que importa. Daí. Katouzian (1980. Em decorrência das duas críticas anteriores.. se a Economia Matemática depende de pressupostos que não são válidos empiricamente e se não fornece previsões testáveis. A grande dúvida permanece sobre até que ponto a matemática molda os problemas a serem abordados e se estes.. Ao contrário. que são prontamente manipuláveis pelas técnicas matemáticas”.2. Beed & Kane (1991.. seus praticantes devem ser capazes de incluir todos os aspectos-chave do problema em sua apresentação para o decision maker. não se tornam limitados para a melhor compreensão da realidade. Ou. p. a partir do imperativo da matemática. que também têm margens de arbritariedade maiores do que nós gostaríamos de pensar. a alegação de que muito do que a Economia Matemática produz é apenas a formalização e “redescoberta” do que já se conhece na economia literária.2. 67). p. pode levar a uma concentração crescente de análise teórica em problemas remotos e enigmas imaginários. Assim. não é procedente. 590) destacam que. uma vez que. 590).]”. isto é. estão sendo tratados por “teorias informais.].. argumentando-se que a matemática acaba afastando a atenção dos economistas dos problemas qualitativos. não é raro. p. (Beed & Kane. 167) destaca que isto pode “encorajar a exclusão de importantes problemas. é também possível supor que o simbolismo matemático não é realmente tão apropriado para tratar os processos econômicos. que “os fatores são expressáveis matematicamente somente quando são descobertos”. 21 Uma argumentação contra tal crítica está em Klein (1980. estórias e observações comportamentais e que os modelos formais são exibidos ex-post [. pode-se supor que suas teorias não têm apreendido as complexidades do mundo real. por tratar de problemas “inerentemente difíceis”.21 2. as quais não são facilmente suscetíveis à manipulação matemática da investigação teórica [.4 O problema da tradução Uma quarta crítica ao uso da expressão matemática argumenta que a “tradução dos processos econômicos de uma linguagem natural para a utilizar dados de censos. categorias ou variáveis.2. Segundo este autor. 1991. os aspectos de fato relevantes.

queime 3. 697). Como é o caso dos conceitos qualitativos. a “matemática não é uma linguagem. Para Dennis. p. como as teorias evolucionistas não podem ser tratadas pelo simbolismo matemático. p. 74). p. 691). afirmou McCloskey (1996. 4) então ilustre com exemplos que tenham importância na vida real. A discussão levanta o problema de se esclarecer expressões como “mais claro” ou “mais preciso”. aqui somente conta a Verdade.1906. 2. 3) traduza para o inglês. neutra. 14 . precisão e possibilidade de demonstração. “As matemáticas parecem para alguém de fora o exemplo da objetividade. Sem dúvida. E. 6) se não teve êxito em 4. (Carta a A. A análise matemática é somente adequada para conceitos “aritmomórficos”. segundo as regras: 1) Use Matemática como uma linguagem estenográfica. e eu prossegui. é também a fonte de alguns problemas bastante sérios e inevitáveis” (DENNIS. Uma grande quantidade de intelectuais acredita que aqui estão os fundamentos. mas um campo (ou vários campos) da lógica” (Dennis. a autoridade última”. de 27. 591). Bowley. L. que afirma: “a tradução é um passo vital na construção e avaliação de teorias econômicas. 22 Marshall comentou em uma carta: “Um bom teorema matemático relativo a hipóteses econômicas era altamente improvável de ser boa economia. teorias que utilizem conceitos “dialéticos”.2. uma vez que a matemática não é uma linguagem natural. 5) queime a Matemática.matemática pode ser ingênua e ilegítima” (Beed & Kane. 1982 a. 2) empregue-a até que se obtenham resultados. 1991. que não são apropriados para o uso da expressão matemática. apontados por GeorgescuRoegen (1980). antes do que como um instrumento de investigação. argumentandose que tais definições também não são possíveis de maneira objetiva. não as palavras humanas. precisão e concisão à expressão econômica. citada em Strauch. 1982a. O denominado “problema da tradução” tem sido objeto de investigação por parte de Ken Dennis. 1982).02. não é apropriada para expressar a série completa de ações e relacionamentos humanos. O rigor normalmente atribuído à Economia Matemática torna-se dependente da veracidade da tradução da linguagem literária para o simbolismo matemático e da acuidade com que a matemática é manipulada no processo de análise econômica. Desde os primeiros proponentes da aplicação da matemática à economia há uma crença de que existe uma equivalência dos símbolos matemáticos e palavras literárias”22 e a discussão em torno ao problema da tradução ganhou força através dos escritos de Samuelson e Stigler. Infelizmente. p. Isso tenho feito com freqüência”. Portanto. cada vez mais. ou “dialéticos”.5 O grau de precisão da economia matemática Esta crítica se contrapõe à visão bastante comum de que a matemática propicia maior clareza.

1991. a análise não-matemática poderia ser suficiente para determinado objetivo. 2. 595). Segundo Kline. não é mais possível afirmar que um teorema de matemática está corretamente provado. Segundo o “teorema de incompletude de Gödel”. rigoroso. concisão.pois sempre envolverão o julgamento humano. validade. Esta perda de certeza resultou de questionamentos iniciados na década de 30 com o teorema de incompletude de Gödel (de 1931)23. ao mesmo tempo. devido à irrealidade e em função da “incompletude”.6 A consistência lógica da matemática Aqui o que está em discussão é se a matemática é um sistema de lógica mais consistente do que o raciocínio em linguagem comum. a dedução matemática pode ser incapaz de definir teoremas que representem o sistema real. como Davis & Hersh. . Este fato acabou enfraquecendo o argumento de que a matemática é necessariamente mais consistente logicamente. Se o grupo de axiomas não descreve o sistema a ser analisado. simplicidade. 23 15 . elegância. A evolução histórica do processo que levou aos questionamentos quanto à consistência do raciocínio lógico das matemáticas faz parte do estudo de Morris Kline. O ponto a se destacar é que nenhuma destas afirmações significam que a matemática deveria ser abandonada e nem que a expressão matemática apresenta as mesmas condições da expressão literária. de 1980. mesmo assim não seria possível afirmar sua “superioridade”. o que ele designou por “perda da certeza” (Beed & Kane. O que isto realmente implica é que existe um grau de incerteza maior na expressão matemática do que normalmente se acredita ou que se costumava reconhecer antes de 1930. mesmo que se pudesse concluir que a análise matemática é “mais simples” ou “mais precisa” do que outros métodos em alguns casos da economia. etc. Desta visão também compartilham outros filósofos da matemática hoje. o qual foi seguido por uma sucessão de outros teoremas que minaram a confiança absoluta na matemática. Porém. verdadeiro”.2. Este problema é similar à alegada irrealidade dos pressupostos neoclássicos. tais como os teoremas de Lowenheim-Skolem 1920-33 e Church 1936. Mas. Mathematics: The Loss of Certainty. científico. nenhum grupo de axiomas pode ser especificado para definir completamente a realidade de qualquer fenômeno. Pode haver divergência quanto ao “significado e aplicabilidade” de termos tais como “precisão. Por exemplo. Os últimos 70 anos foram marcados por questionamentos sobre o caráter indubitável da matemática. p. não se consegue comprovar o contrário.

Uma razão levantada é que a matematização lhe confere cientificidade. mas que é somente forma sem substância empírica. é externa e associada às demais. como eles relacionam o curto e o longo prazo. Outro ponto da crítica diz respeito à reificação e mitificação do assunto. A maior parte do trabalho de um cientista físico é dispendido na busca de dados ou na sua criação para a construção de um aparato experimental. a facilidade na matemática torna-se uma regra prática para entrar e promover-se dentro da profissão. p. Forma-se uma hierarquia na profissão. informações sobre como os homens de negócio tomam decisões. ao invés de dedicação à pesquisa empírica. Entre estes modos. servindo para aumentar a complexidade de socialização na profissão econômica. Muitos têm contestado este argumento. tem-se suscitado especulações sobre o porquê do alto prestígio da matemática na economia hoje. mas pelos dados que podem ser usados por outros pesquisadores. como eles reagem quando o taxa de câmbio cai. 601). institucionalistas. Em função de uma base fraca para avaliar e comparar publicações entre economistas. Por exemplo. tal exigência tem dificultado a comunicação entre os economistas e destes com os demais segmentos da sociedade. quando imprescindível. por exemplo Katouzian (1980). etc. Muitos papers publicados nas ciências físicas angariam prestígio não por suas proposições teóricas.7 Outros propósitos da matematização Esta última crítica. contrariamente a outras ciências sociais. dificilmente se busca dados na experiência antes da elaboração dos modelos. behaviouristas. pois “quanto mais aritmetizada e restrita uma ciência. As críticas apontam que a matematização tem propiciado o ocultamento do fato de que a economia tem produzido previsões que raramente se confirmam na prática e que a matemática dá à disciplina a impressão de ciência. Ou ainda. McCloskey (1986) e Mirowski (1989). como eles encaram o risco. Além disto. A coleta de dados empíricos em economia é quase o oposto do que ocorre nas ciências físicas.2. a matemática tem tido especial destaque. além de vários papers de pós-keynesianos. utilizar os dos serviços de estatísticas governamentais. estão inseridas as análises sobre os modos de persuasão e esquemas retóricos utilizados por economistas. distinguindo-se das acima citadas. com o status vinculado à facilidade em abstração formalista. Nesta. elaboram-se 16 . Normalmente. há uma tendência a não se usar dados ou. Maior destaque é dado para mais publicações por unidade de tempo.2. 1991. Eichner (1983). mais extenso é seu programa de iniciação e mais ela busca se distanciar das preocupações e crenças de todo dia por enfatizar treinamento profissional e manipulações aritméticas” (BEED & KANE. austríacos e marxistas. como defende Eichner (1983). Ainda. ao mesmo tempo que permite um estatuto de maior rigor a suas previsões. Em economia.

Ademais. de 1927. reforçou a desconfiança no senso comum e no raciocínio lógico. tem-se afirmado que o rigor matemático é provavelmente mais fácil de ensinar e examinar do que o rigor verbal. deve-se levar em conta que tal método refletiu a ascendência de uma concepção de cientificidade hoje bastante controversa. Como se tem enfatizado aqui. A entropia na economia.pressupostos estilizados e arbitrários. abriram espaço para novas formas de conceber o mundo. A teoria da relatividade e a mecânica quântica revolucionaram os conceitos da física. A investigação sobre as origens históricas da “matematização” da teoria econômica revela-nos que. além de propiciar outros modos de abordagem e novas técnicas. estudos levaram à “perda da certeza”. a uma contextualização. Estas. 3. (Beed & Kane. comporta a investigação de duas dimensões superpostas. Por último. se não colocaram em dúvida aquele caráter inquestionável atribuído a tais ciências. mas também a própria polêmica sobre a legitimidade e exeqüibilidade dos diferentes caminhos adotados para torná-la uma “ciência”. é muito salutar. Sem nos referirmos aqui aos desenvolvimentos internos à disciplina que se mantêm à margem por não se coadunarem com o imperativo do método eleito e preservado pela ortodoxia. 1991. desde que se estabeleceram como paradigmáticas. remetem-se ao plano histórico. não consideradas pela corrente principal de nossa disciplina. ou como conseqüência. não só a constituição e as vias de concretização do projeto da economia como um ramo distinto do saber. assim como a concepção de ciência dos positivistas lógicos. no mínimo. mais uma vez. CONSIDERAÇÕES FINAIS A discussão metodológica presente em nossa ciência procede ou. a física e a matemática passaram por transformações importantes. iniciada com o teorema de incompletude de Gödel de 1931. O “cientificismo” tem sido amplamente questionado. os desenvolvimentos no pensamento epistemológico consideram a necessidade de novas formas de se conceber o conhecimento. na medida em que se procura defender a hegemonia metodológica. Na matemática. além da questão relacionada à incorporação em uma ciência social de métodos utilizados por campos do conhecimento considerados exatos. isto é. é certo que. em especial pela corrente denominada “growth of knowledge”. O determinismo do sistema newtoniano foi colocado em xeque. 603-604). no que respeita ao debate em torno à pertinência da “matematização”. A primeira reflete as transformações no 17 . que envolve as mudanças no pensamento filosófico e científico. O “princípio de indeterminação” de Heisenberg.

pensamento científico e filosófico. A segunda é interna e consiste na insatisfação de muitos de seus praticantes com os rumos da disciplina. Esta se vincula à premência de se fazer frente à imprecisão ou ausência de respostas da ciência a muitos dos problemas do ambiente econômico. 18 .

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