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OBJETO SOCIOLÓGICO E PROBLEMA SOCIAL

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OBJETO SOCIOLÓGICO E PROBLEMA SOCIAL Remi Lenoir 1 . Sociologia seria a ciência dos problemas sociais? 2 .

Primeira dificuldade do sociólogo: as representações pré-estabelecidas de seu objeto de estudo. 3 . O ponto de partida de qualquer pesquisa é um conjunto de representações que são como um véu que se interpõe entre as coisas e nós e acaba por dissimulá-las tanto melhor quanto mais transparente julgamos ser esse véu (DURKHEIM, 1895:16): • • • • • • Pré-noções Conceitos grosseiramente produzidos Imagens sensíveis Falsas evidências Categorias empíricas arraigadas Problema social

4 . A força do senso comum está no seu caráter funcional, no ajustamento prático que ele proporciona. 5 . O problema social se institui nos instrumentos formadores da visão corrente do mundo social – organismos e regulamentações destinados a resolvê-lo e categorias de percepção que lhe correspondem. 6 . A incidência e peso das definições instituídas, que comandam as condições de observação e as explicações dos fenômenos estudados pelos sociólogos. Os exemplos das categorias de acidente de trabalho e de suicídio – como as teorias sobre o real constituem as causas do que elas explicam. 1 . Realidade pré-construída e a construção do objeto sociológico 1 . Blumer e a ideia de que os problemas sociais não existem em correspondência com o real – eles são socialmente (historicamente, espacialmente e culturalmente) definidos: • • A pobreza nos Estados Unidos O racismo

2 . Motivos variáveis pelos quais um fenômeno social se transforma num problema social. Exemplo da velhice, uma categoria vista como natural e evidente:

orientação sexual. corpos de profissionais. profissão. através de associações constantes com características negativas e pontos de tensão social (desemprego. Fundamentos sociais das categorias pré-construídas 1 . doença. Essas categorias sociais impostas funcionam como as representações coletivas. Uma categoria natural: a idade 1 . dificuldades de integração). 1. igrejas. Exemplo das idades e o que é apropriado em cada faixa etária como resultado da ação de instituições e agentes especializados (76): a) A invenção da primeira infância e da adolescência corresponderia ao nascimento da indústria do pré-escolar (maternal) e do prolongamento da vida escolar. idade. O exemplo da imposição da categoria imigrantes – uma categoria que vai sendo construída como problema. 2 .• • O destino das pessoas pobres – a dependência. atritos culturais. Os critérios de classificação correspondem a instituições e agentes que fazem deles sua força-motriz e condição de existência: o sistema escola. O desequilíbrio demográfico e a relação entre gerações e os sistemas de aposentadoria 1 . os governos. a atuação dos atores institucionais e não institucionais. Categorias construídas pelo pesquisador e as resultantes de um trabalho social de atores em luta pelos seus interesses. nacionalidade. (77) 5 . (75) 3 . naturalidade. tornam-se realidades parcialmente autônomas. Essas representações coletivas serão tão mais eficientes à medida em que tenham base na objetividade dos fenômenos sobre os quais se . O caráter social da construção dos princípios de classificação social: raça. no sentido durkheimiano – uma vez constituídas. A tarefa da sociologia é fazer a sociologia da construção das categorias socialmente construídas – as lutas. sexo. 4 . o mercado de trabalho. renda. os processos. 6 . atuando sobre a realidade pela explicação. formulação e informação. 3 . Halbwachs e a linha do tempo como elemento para trazer à tona a gênese social do problema social 2 . b) A terceira idade corresponderia à emergência de atores especializados na gestão e tratamento da velhice e às pressões do sistema de aposentadoria e de saúde. 2 .

2 . 1. As pressões do sistema capitalista que tende a descartar os considerados incapacitados para a produção – associação com invalidez. A pressão do sistema estatal de aposentadoria e o surgimento do mercado das aposentadorias privadas (caixas de aposentadoria). 2 . Número significativo de pessoas atingidas e elevação do estatuto social dos doentes – condições básicas para que um problema se transforme em um problema social. diminuindo os de camada superior e inferiores c) Os homens passam gradativamente a ser mais atingidos que as mulheres. espaços geográficos e no tempo. (79) 3 . • . Há que haver uma base objetiva a partir da qual o trabalho social dos agentes interessados se realiza.constituem – nem tudo pode se constituir num problema social. O exemplo da velhice: • • • Envelhecimento demográfico. Recrudescimento da conjuntura econômica na França e dificuldades concretas das famílias cuidarem de seus idosos. A velhice está longe de ser uma categoria natural. Ver como essas diferenças se relacionam a contextos mais amplos de análise: a) Como evoluem os modos de encargos da velhice (até se chegar à forma asilo). Transformações morfológicas e econômicas 1 . (79) • 4 . na França (78): a) A LCC reúne representantes de todos os setores importantes da hierarquia social b) Aumenta o número de indivíduos atingidos. ligada à idade biológica dos indivíduos – estratégia para romper com as definições socialmente produzidas a respeito dela: • Discutir a relação dos grupos grupos sociais com seu objeto – como o fenômeno se constitui diferentemente nas diferentes classes. O exemplo da invenção do câncer enquanto um problema social – o estabelecimento acadêmico da oncologia e da Liga Contra o Câncer (LCC).

7 . experts e o estabelecimento de semânticas substitutas (exemplo dos idosos – a eufemização da velhice na expressão terceira idade. uma operação de mobilização. as possibilidades de saída dos mais jovens os dotam de poder de barganha para que os pais se aposentem e renunciem ao controle da propriedade.b) As transformações das relações de força no interior das famílias (os modos de solidariedade entre indivíduos nos diferentes grupos – o problema durkheimiano dos elos que unem os indivíduos) 5 . permitindo sua expressão legítima e legal. e a diminuição do poder dos pais. 8 . designação oficial dessas necessidade. Para que um problema seja construído como um problema social são necessárias duas etapas: o reconhecimento e a legitimação – além das condições objetivas acrescenta-se um trabalho de enunciação pública. A GÊNESE SOCIAL DE UM PROBLEMA SOCIAL 1 . . No campo. As condições sociais dessa mobilização constituem um outro ponto a ser analisado sociologicamente. nos critérios para a ocupação das posições de poder e de distribuição de bens – mediação de diplomas e concursos – e mudanças nas relações intergeracionais na família: • • • • • Guarda de filhos confiada desde cedo às escolas Acesso dos jovens ao mercado de trabalho mediado por agência e na dependência de diplomas e concursos Empréstimos a casais jovens por financeiras Manutenção da velhice pelos estabelecimentos especializados sistemas de aposentadoria e As transferências de responsabilidade. Mudanças na divisão de tarefas. 3 . Um conjunto de necessidades brota das transformações objetivas – o trabalho político consiste na nomeação. O trabalho de formulação pública pode surgir: • • • • do campo político (aposentadorias na França). 6 . com variações entre classes. através dos intermediários (porta-vozes). artístico (romancistas sobre trabalho das mulheres). e do aborto – interrupação voluntária da gravidez: IVG ) 2.

3 . Demanda social aos especialistas das ciências sociais: racionalizar e justificar das decisões políticas e administrativas. protestos. 6 . redação de folhetos. médicos de asilos ou de centros de saúde. - O PERCURSO DO PROBLEMA AO PROBLEMA SOCIAL TRANSFORMAÇÕES NO COTIDIANO DAS PESSOAS – de acordo com o grupo social FORMULAÇÃO PÚBLICA – EVOCAÇÃO/IMPOSIÇÃO/LEGITIMAÇÃO – especialistas e governo . reuniões. o vocabulários que os experts estabelecem sobre a velhice tem a função de redefinir um setor da população que fora desclassificado. 2 . 4 . veiculadores e instâncias de disseminação. 5 . mobilização de redes sociais. A passagem da preocupação com a velhice dos pobres para a velhice como uma questão relativa à reprodução nacional corresponde à mundança do perfil dos especialistas e atores mobilizados para resolver o problemaI (de assistentes sociais. 7 . A visibilização do problema: criação de grupos. especialistas das elites das diversas disciplinas científicas liderados pelos gerontólogos). A consagração estatal como uma instância do trabalho de legitimação do problema enquanto problema social. A ação dos especialistas (gerontólogos) sobre o mercado do lazer confirmam-se as necessidades que suas pesquisas e análises afirmam. responsáveis por órgãos beneficentes para personalidades públicas incontestáveis. campanhas publicitárias. Força do discurso e forças sociais 1 . manifestações 3 . estigmatizado. Analisar os especialistas e instâncias governamentais em que se elaboram leis e políticas para o enfrentamento do problema social – o exemplo da velhice: reconhecimento pelo governo e pelos experts de diversas áreas do conhecimento – a Comissão de Estudo dos Problemas da Velhice. Além de acompanhar as condições objetivas. A análise dos discursos de mobilização para a legitimação do problema enquanto um problema social implica na análise de seus produtores.

família. 2 . distribuição.) – a atenuação dos conflitos entre atores sociais. A mediatização de um corpo de técnicos especializados na formulação e execução das políticas sociais. 5 . A institucionalização de uma nova moral 1 . Os sistemas de aposentadoria e de seguros como maneiras de lidar com problemas sociais constituídos desde o final do século XIX na França – a mudança da esfera da família para a esfera do mercado. b) O discurso dos demógrafos e dos administradores dos sistemas de aposentadorias. políticas públicas. Funções sociais da nova gestão de idosos (e gestão da culpa da família e o apelo para a não culpabilização por parte dos idosos – a ordem é não ser um peso. Os novos atores que disputam. a serem atendidas pelos novos profissionais no campo).INSTITUCIONALIZAÇÃO – sistemas de retribuição. uma faixa etária. O exemplo dos discursos das diversas disciplinas que vão constituindo o fenômeno que estudam (a velhice).a velhice se torna uma categoria médica. possibilitando que seja evitado o trabalho teórico-epistemológico e a crítica das palavras. equipamentos A burocratização das relações sociais 1 . elaborados por instituições e agentes interessados contribuem para transforma uma representação mental da realidade na própria realidade – a chegada de novos atores no campo do tratamento da velhice e a emergência da quarta idade (com novas necessidades. O positivismo do estado . A formulação grosseira das noções de velhice. Esses discursos. para os demógrafos e uma categoria social. c) O discurso dos cientistas sociais e a questão da inserção social dos idosos – a morte social. O discurso de delegação dos gerontólogos e a redefinição das relações intergeracionais na família – as funções do parecer dos especialistas para a internação em asilos e a administração da culpa da família. nesse modelo de gestão da população. a imposiçãi desta ou daquela regra. para os sociólogos: a) O discurso gerontológico da decadência orgânica e a constituição de um quadro de médicos especialistas e de profissionais cuidadores. emprego e o agrupamento amplo de indivíduos. 2 . 4 . 3 . o qual vai evoluindo como camadas geológicas . 3 .

1 . o que desautoriza a crítica. A constituição de um problema social possibilita o estado se apresentar como racional e no controle. A categoria ideologia e a sociologia como crítica ideológica. já que se tem a impressão de que a situação incômoda está equacionada. . As categorias que servem de base para a construção da realidade social são o resultado de lutas. 2 . CONCLUSÕES 1 . na medida em que instituições reconhecidas os legitimam (a ciência e o Estado). 2 . A constituição de problemas sociais possibilita o apagamento de eventuais contradições no espaço do debate público.

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