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A Gestalt-terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa são enfoques fenomenológicos_

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Revista da Abordagem Gestáltica versão impressa ISSN 1809-6867

Rev. abordagem gestalt. v.15 n.1 Goiânia jun. 2009

ARTIGOS

A Gestalt-terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa são enfoques fenomenológicos?

Are Gestalt-therapy and Person Centered Approach therapy phenomenological approaches?

La Terapia Gestáltica y el Enfoque Centrado en la Persona son enfoques fenomenológicos?

Virginia Moreira Universidade de Fortaleza Endereço para correspondência

RESUMO A questão sobre o fato de serem ou não a Gestalt-terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa enfoques fenomenológicos é controvertida no cenário contemporâneo da psicologia humanista no Brasil. Em 1991, Luis Claudio Figueiredo publicou um livro sobre as matrizes do pensamento psicológico, onde estas duas abordagens não são consideradas fenomenológicas. Este artigo tem como objetivo contribuir para esta discussão estabelecendo um diálogo entre a Abordagem Centrada na Pessoa e a Gestalt-terapia com as matrizes psicológicas tal como concebidas por seu autor.

em nossos dias. Este artículo tiene como objetivo de contribuir para esta discusión. In 1991. que originam uma variedade de modelos e “seitas”. Introdução Luis Cláudio Figueiredo. En 1991.Palavras-chave: Fenomenologia. This article intends to make a contribution to this discussion by establishing a dialog between the Person Centered Approach and Gestalt. Luis Claudio Figueiredo published a book about the main stream psychological thoughts. no Brasil: a Abordagem Centrada na Pessoa e a Gestalt-terapia são abordagens fenomenológicas? . Keywords: Phenomenology. são denominados por Figueiredo (1991). estableciendo un diálogo entre el Enfoque Centrado en la Persona y la Terapia Gestaltica con las matrices psicológicas tal como concebidas por su autor. donde estos dos enfoques no son considerados fenomenológicos. como matrizes do pensamento psicológico. Enfoque centrado en la persona. Gestalt-therapy. Gestalt-terapia. em sua leitura da história da psicologia nestes seus mais de cem anos. Person centered approach. RESUMEN La cuestión sobre el hecho de que sean o no la Terapia Gestáltica y el Enfoque Centrado en la Persona enfoques fenomenológicos es controvertida en el senario contemporáneo de la psicología humanista en Brasil. Por meio de um diálogo entre os escritos dos criadores da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) e da Gestalt-terapia (GT) &– Carl Rogers e Frederick Perls &– e das matrizes do pensamento psicológico propostas por Luis Cláudio Figueiredo. in which both approaches are considered not phenomenological. Luis Claudio Figueiredo publicó un libro sobre las matrices del pensamiento psicológico. 11).se como ciência independente. este artigo tem como objetivo discutir uma questão bastante polêmica nas psicologias humanistas. Palabras-clave: Fenomenología. Esses diferentes modelos e interesses. tendo em vista a diversidade de posturas metodológicas “em persistente e irredutível oposição” (p. Terapia gestáltica. no seu livro Matrizes do Pensamento Psicológico (1991) trata da crise permanente em que se encontra a psicologia para desenvolver. Abordagem centrada na pessoa.Therapy with the psychological main streams as conceived by the author. ABSTRACT The matter of whether the Gestalt-Therapy and Person Centered Approach are phenomenological approaches is controversial in the contemporary scenario of humanistic psychology in Brazil.

receptivos. 11). A matriz vitalista e naturista recolhe. o criativo. do vitalismo energético e da autorrealização aparecem metaforicamente como o “orgon da energia cósmica” nos humanismos de Carl Rogers e de Maslow. a psicoterapia deve facilitar a emergência de indivíduos abertos à experiência. capazes de funcionar como participantes e observadores dos processos vitais. mas permanece presa à divisão entre razão e vida. que reconhecem a especificidade do objeto da psicologia como ciência independente &– atos e vivências do sujeito e seu significado para ele &–. Como parte das matrizes românticas e pós-românticas. identifica o otimismo que caracteriza o pensamento de Rogers e de Perls no que se refere a uma visão de natureza humana na qual “a inteligência é limitada.. 32). para Rogers. se subdividem em outras submatrizes: 1) As escolas e os movimentos psicológicos que têm sua origem em matrizes de pensamento cientificista. É na matriz vitalista e naturista que Figueiredo insere as várias correntes das psicologias humanistas (entre elas.” (p. mas felizmente a intuição é possível. Lembra que. Figueiredo (1991) assinala que a autoatualização estaria identificada. 33). prometendo a cura. assinalando que esta matriz “está profundamente enraizada no senso comum da prática psicológica e nas representações sociais da psicologia” (p. o que supõe uma compatibilidade entre a autêntica realização do individuo e a felicidade coletiva. substituem a inteligência conceitual pela intuição e destacam o fluxo de um élan vital. por outro lado. com a genuína vida comunitária. sendo o objetivo da psicoterapia libertar esta energia e dar-lhe campo para atualizar-se. que tendem a desconhecer a especificidade do objeto da psicologia em favor de uma imitação pretensamente bem sucedida e convincente das ciências naturais. por sua vez. mas que. pela mística da vida autêntica.Matrizes do Pensamento Psicológico Figueiredo (1991) divide o pensamento psicológico em duas grandes matrizes que. o que pode levar à extinção da psicologia como ciência independente para tornarse uma disciplina biológica. Assinala que a mística da liberdade. segundo Figueiredo (1991). sem defesas. Os vitalistas priorizam a vida espiritual. a Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers e a Gestalt-terapia de Frederick Perls e colaboradores). 2) As escolas e os movimentos psicológicos gerados por matrizes “românticas” ou “pós-românticas”. “carecem completamente da segurança que as de índole cientificista de uma forma ou de outra ostentam” (p. e. a reeducação e a solução de problemas e mesclando a figura do psicólogo com a do guru ou do mago.. présocial e pré-simbólica” (p. originando “seitas” psicológicas “unificadas pelo anti-racionalismo. tomando partido em favor da vida e contra a razão. Sempre com uma forte pitada de ironia. 131). encontramos duas matrizes: a matriz vitalista e naturista (na qual se inserem a ACP e GT) e as matrizes compreensivas (onde se inserem as fenomenologias-existenciais).. indivíduos confiantes nos próprios sentimentos e engajados no . o espiritual etc. tudo o que fora excluído das matrizes cientificistas: o qualitativo. nas matrizes românticas humanistas. Figueiredo (1991) trata do humanismo romântico como preconizado por “seitas” que proliferam a cada dia nas grandes metrópoles e são importadas para o Brasil. Por outro lado.

ao abolir crenças ou preconceitos mal fundados. anti-romântica” (p. do sujeito transcendental (. sendo unificadas por visarem a experiência humana inserida no universo cultural. Reconhecendo que o vitalismo representa. eminentemente românticas “na sua acepção mais vulgar de belo. Já nas matrizes compreensivas. confluindo com outras tradições filosóficas e literárias.. 133). a fenomenologia é considerada por Figueiredo (1991) como herdeira do Iluminismo. A existência é um modo de ser que se projeta para o futuro (o homem como projeto de Sartre). Criada para buscar a fundamentação do conhecimento. Essas várias correntes existencialistas unificamse. Ainda segundo Figueiredo (1991). pois se diferencia das matrizes românticas. tanto do cientificismo quanto do historicismo. a fenomenologia surge com Edmund Husserl como uma critica à legitimação naturalista do conhecimento: (. Como matriz compreensiva. “implica na reconstrução do seu mundo. a fenomenologia é um antirromantismo. (p.. que mantêm a mesma separação entre . 36). as vertentes fenomenológicas existenciais enfatizam que o homem é um ser no mundo (como o Dasein de Heidegger. estas três matrizes se inserem numa problemática instaurada pelo romantismo: a problemática da expressão. para Figueiredo (1991). no desvelamento do projeto existencial que subjaz a todas as suas ações” (p. Em termos das contribuições desta matriz. Assim. Os objetos nesta disciplina não são os eventos naturais. realizando o seu destino. que não tem uma essência pré-definida. Figueiredo se refere à fenomenologia do primeiro Husserl. uma reação ao imperialismo mecanicista. a fenomenologia é. vinculado a uma situação. aquela do idealismo transcendental. quando trata da fenomenologia. ou o mundano de Merleau-Ponty). com o intuito de descrever e elaborar as categorias analíticas da existência concreta. Aqui.. que terão influências mais diretas nas várias abordagens psicológicas do que as correntes provenientes da filosofia fenomenológica propriamente dita. Figueiredo (1991) define três grandes linhas: o historicismo idiográfico. deve ser procurado ao lado da consciência pura. ao contrário. sem ambição de rigor e regido pela intuição delicada dos sentimentos. aquilo que se dá à consciência.) o fundamento. de uma fenomenologia da consciência pura. historicamente. uma tentativa de superação. Nesta medida. A fenomenologia (ciência eidética) procura descrever a essência do algo visado pela consciência.. a fenomenologia da consciência transcendental. fantasioso e suave” (p. dito de outra forma. Figueiredo conclui que “o vitalismo reduz-se a uma pura ideologia sem qualquer valor cognitivo” (p. mas os fenômenos. 33). segundo sua leitura. portanto. Figueiredo (1991) acrescenta que a antropologia fenomenológica existencialista proporciona o modelo de sujeito que será investigado pelas ciências humanas empíricas. contribuindo no sentido de explicitar que a compreensão do indivíduo são ou doente. ou seja. está na origem dos existencialismos. na explicitação dos horizontes implícitos que conferem sentidos a seus atos e vivências conscientes. entendendo a fenomenologia como “um dos coroamentos da tradição filosófica racionalista.processo de ser e de tornar-se pessoas. Na medida em que tem como objetivo o esclarecimento do homem como sujeito constitutivo da experiência e da reflexão do mundo. iluminista e. 133) porque renega a racionalidade e o impulso crítico. que tem como cerne a idéia do sujeito responsável por suas escolhas. Como matrizes do pensamento psicológico..). o estruturalismo e a fenomenologia. ou. pois transpira as melhores intenções. A consciência para a fenomenologia seria uma pura intencionalidade: sempre consciência de algo. é visado por ela como pura essência.. 37).

1942/2002). com a qual ele teve um contato mais direto por meio da teoria organísmica de Goldstein. Uma revisão ampliada deste trabalho foi publicada em 1942. Com base nesta concepção. A partir daí se dá o surgimento da Gestalt-terapia enquanto uma proposta diferenciada da psicanálise de Freud. dialogando com ela. tais como da psicanálise. de quem foi assistente no Instituto de Soldados Portadores de Lesões Cerebrais. sem que se coloque com seriedade uma análise das condições concretas que poderiam permitir sua realização” (p. na antiga Tchecoslováquia. um tanto quanto radicais. pela Abordagem Centrada na Pessoa e pela Gestalt-terapia) &– quanto as matrizes pós-românticas compreensivas (representadas pela fenomenologia) produzem. Gestalt-Terapia e Fenomenologia Frederick Perls. 1981). 38). em 1893. publicados postumamente com o título de A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia (Perls. como sua obra seminal: Ego. onde Goldstein estudava as conseqüências comportamentais de tais lesões a partir das noções básicas da Psicologia da Gestalt de Wertheimer. especificamente. apesar de conhecer parte das obras de Wertheimer. no bojo de sua origem eminentemente critica da psicanálise. até seus últimos escritos. que fugia da concepção psicanalítica freudiana onde as resistências eram entendidas como anais. cujo subtítulo foi eliminado na edição norte-americana de 1969 e reintroduzido na tradução de Georges Boris para a primeira edição brasileira (Perls. da Psicologia da Gestalt. um severo crítico da psicanálise. aqui. Parece possível dizer que Perls foi. rompendo com a tradição clássica de que temos órgãos isolados. Goldstein propôs a concepção de organismo como um todo. 2002). Boris. embora ligada a esta. desde sua fria recepção no congresso de 1936. frequentemente. Perls ampliou as bases da Gestalt-terapia. irredutível e intransferível. Koffka e Lewin. Perls esteve preso à psicanálise até o fim de sua vida. Perls teve como um de seus fundamentos principais a Psicologia da Gestalt. Para Figueiredo (1991). Psicanalista de origem. em sua opinião. da análise de caráter de Reich. Tais ideologias legitimam. ideologias pararreligiosas por conta da divulgação de uma experiência única. onde Perls apresentara um trabalho sobre Resistências Orais. tanto as matrizes românticas &– vitalistas e naturistas (representadas.sujeito e objeto que marca as matrizes cientificistas (e contra a qual elas se insurgiram) na medida em que abole a cisão sujeito-objeto. numa inflação inconsequente da subjetividade. da filosofia existencial e do zenbudismo (Tellegen. o retraimento do sujeito sobre si mesmo. da mística de uma liberdade de escolha individual e do seu indeterminismo: “no altar desta nova religião será colocado o ‘indivíduo’ e a ‘liberdade’ e outras imagens do gênero. embora não se tratem de totais inverdades &– vemos na enorme proliferação de vertentes contemporâneas das psicologias humanistas tanto trabalhos consistentes e fundamentados como outros que são passíveis da leitura de Figueiredo &– serão discutidas aqui no que se refere. como dão a entender Araújo (2002) e Frazão (2002). Segundo Boris (2002). Köhler. Fome e Agressão: Uma Revisão da Teoria e do Método de Freud. nasceu em Berlim. acima de tudo. à Gestalt-terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa. na África do Sul. muitas vezes com alguns enganos. Köhler e Koffka. numa família judaica. Era médico e sua proposta psicoterapêutica sofreu várias influências. Estas posições de Figueiredo (1991). tomando por objeto não mais funções . fosse por admiração ou por ressentimento de Freud. 1984. criador da Gestalt-terapia. da teoria organísmica de Goldstein.

a maioria de suas obras da fase norteamericana (. que. Perls imigrou para os Estados Unidos. a característica básica da consciência. 1979. Ainda assim. Holanda & Faria. de Husserl (Col. a concepção de dasein de Heidegger (Col. mas o organismo como um todo em seu funcionamento (Tellegen. que significa configuração. herdada de Husserl via . Os Pensadores. Perls (1979) afirma: “nós somos organismos. tomando. 30). 1995).. 1989). Dessa forma. ao contrário de buscar as causas ou os porquês. derivando na noção de contato. parece possível encontrar no conceito de campo. para a Gestaltterapia.psicológicas isoladas. provenientes da abordagem fenomenológica de campo. a Gestalt-terapia. 1979) e Nietzsche (Col.. entre elas. passando a enfatizar a divulgação da Gestalt-terapia como uma criação sua e negligenciando teoricamente suas raízes filosófico-metodológicas: “assim. Agora podemos ver como suas ações mentais e físicas estão entrelaçadas” (p. tais como percepção. 1981 e 1942/2002) trata do ser humano como capaz de realizar as categorias básicas da existência humana. em seu livro Escarafunchando Fritz. 1978). 1980). Mas é com seu conceito de limite de contato que Perls (1981) mergulha mais fundo sua proposta psicoterapêutica na idéia de campo fenomenal. critica explicitamente as escolas tradicionais de psicoterapia.. portanto. se inspira na fenomenologia de Husserl (Col. Os Pensadores. Os Pensadores. relação estrutural ou todo significativo (Loffredo. da filosofia dialógica de Buber (1974). daí o termo gestalt. estrutura. Um dos princípios da Psicologia da Gestalt afirma que existe uma tendência à organização que se atualiza na dinâmica figura-fundo. no seu livro A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. herdada de Sartre (Col. que continuam a operar em termos da velha cisão corpo/mente. As bases da Gestalt-terapia são. presente na Psicologia da Gestalt. possivelmente influenciada por Kierkegaard (Col. tema. que. os conceitos de encontro e de relação. 2005). Os Pensadores. 21). a fenomenologia proporciona a metodologia básica de todas as abordagens existenciais. a inseriu na matriz vitalista e naturista. por sua vez. a incorporação da noção de intencionalidade. constitui a situação psicológica. que elimina uma interpretação causal entre mente e corpo (Boris. É interessante lembrar que tais bases fenomenológicas apontadas por Loffredo (1994). não são reconhecidas por Figueiredo (1991). a idéia de homem responsável por suas escolhas. e a filosofia de Merleau-Ponty (1945) na sua perspectiva organísmica..” (p. que. 1994). 1978). originado da Psicologia da Gestalt. Os Pensadores. Os Pensadores. Nesta proposta. justamente. 1995) dentre outros gestalt-terapeutas. 1992b). em 1946. Boris indica possíveis influências existenciais e fenomenológicas na Gestalt-terapia de Perls: a crença na subjetividade. se propõem a ir além de uma visão cindida em partes ou funções e buscam uma perspectiva mais integrada e holística de ser humano. princípio que foi utilizado por Goldstein em seus estudos da relação organismo-meio com portadores de lesões cerebrais. o conceito de campo unificado “nos dá um instrumento para lidar com o homem global. e na própria teoria organísmica de Goldstein idéias que.. Segundo ele. Segundo Boris (1992a). 1981 e 1942/2002). 1979. 24). Tellegen (1984) e Boris (1992a. um conceito central na psicoterapia de Perls (1977. é fundamental a concepção de campo organismo-ambiente. particularmente nos anos 60” (Boris. 1994. No entanto. Loffredo. Assim. a abordagem gestáltica pretende captar como ocorre um dado fenômeno. Com relação à crítica que faz Figueiredo de que esta abordagem se mantém presa ao pensamento dualista cartesiano. “o homem não é uma criatura puramente racional” (p.o em sua totalidade e buscando detectar em função de quê se estrutura o todo. em psicoterapia. 1984. mantendo-se presas à concepção de causalidade. como crítico externo da Gestaltterapia. aprendizagem etc.) parece sofrer do pragmatismo característico desta sociedade. assim como as matrizes cientificistas. 1980). Também Perls (1981). quando Perls (1977.

que a Gestalt-terapia tem uma visão dualista de ser humano. seu livre trânsito em experiências e pensamentos menos ortodoxos não faz da Gestalt-terapia uma “seita”. 1979. que. Uma segunda característica criticada por Figueiredo (1991) como própria das matrizes vitalistas e naturistas. quando discute.. (Perls. em seu estilo sempre um tanto quanto estouvado. Por outro lado. No entanto. faria parte de seu pensamento. 31). inserindo-a nesta matriz. psicológicos e socioculturais. tal como assinala Figueiredo. Este tipo de abordagem. “o estudo do modo que o ser humano funciona no seu meio é o estudo do que ocorre na fronteira de contato entre o indivíduo e seu meio. a partir da idéia de vida enquanto um fluxo contínuo. No entanto. 1979. embora o estilo controvertido de Frederick Perls possa dar margem a possíveis associações com a figura de um guru. afirmar que Perls criticava uma visão dualista na psicologia. possivelmente. 1981. 1994). Ainda nesta sua obra mais amadurecida.Psicologia da Gestalt. indicaria a forte influência de Goldstein em todo o seu pensamento.)” (Perls. é possível também observar que seu pensamento se mantém preso ao dualismo consciente versus inconsciente. 1942/2002). nesta mesma obra: “os psicólogos que mantêm uma concepção dualista do homem o vêem operando como forças opostas que partem o indivíduo em pedaços. De fato.. marcada pela eterna crítica à psicanálise. 1981. estabelece problemas de situações que. de alguma forma. a idéia de holismo e a influência do pensamento oriental. englobando aspectos biológicos. esta omissão do campo total. fortemente presentes na Gestalt-terapia de Frederick Perls. Perls. A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Assim. Ainda em sua obra póstuma. entre as quais encontraríamos a Gestalt-terapia. pp. 1977. nós os vemos como aspectos de uma mesma coisa (. Para Perls. neste aspecto. como sugere Figueiredo (1991). neste sentido. 31). na realidade são indivisíveis (p. Loffredo. o que. a grande maioria de seus exemplos de tal interação são metáforas digestivas e fisiológicas. É questionável afirmar. .. Neste caso. interrompe os processos contínuos da vida e se sobrecarrega com tantas situações incompletas que não pode prosseguir satisfatoriamente com o processo de viver” (p. por exemplo. 1984. se posiciona radicalmente contra a cisão sujeito-objeto. o que seria uma característica básica das matrizes românticas. portanto. presentes nos escritos de Perls (1977.) dividiram a experiência em interior e exterior e então se defrontaram com a pergunta insolúvel de se o homem é regido por forças de fora ou de dentro. Frederick Perls foi tudo menos uma figura tradicional. que. 1981.. 1942/2002) como sustentação da sua visão de homem integrado. Apesar de Perls defender constantemente que a interação organismo-meio deve ser entendida de modo plural. É neste limite de contato que ocorrem eventos psicológicos” (p. bem como das demais assim chamadas psicologias humanistas. segundo Figueiredo (1991). Ou. é a idéia de autoatualização. acaba se desenvolvendo fortemente em torno de um eixo biologicista (Tellegen. esta necessidade de uma causalidade simples. por exemplo. o que ocorreria nas matrizes românticas. 36-37). Talvez Figueiredo o faça um tanto preconceituosamente. mais adiante. O vitalismo e o naturismo referidos por Figueiredo (1991) encontram-se. esta questão merece pesquisas mais aprofundadas que esclareçam este tema. Perls (1981) critica as psicologias que (. como o faz Figueiredo (1991). É possível. 38). Figueiredo parece ter razão. Seu estilo agressivo e atrevido é uma marca em toda a sua trajetória profissional. Perls (1981) descreve a neurose como “a doença que surge quando o indivíduo. já que os pressupostos da teoria organísmica de Goldstein envolvem diretamente a idéia de que o organismo tem um movimento natural para o crescimento e a autorrealização.

e o próprio Perls (1977) tenha afirmado considerar a Gestalt-terapia como um dos três tipos de psicoterapia existencial. Seja como for. se não foi explicitada a base fenomenológica da Gestalt-terapia em Perls. segundo ele. com a fenomenologia” (p. Perls (1977) critica pensadores existencialistas que deveriam. Por outro lado. “a de abrir pistas para quem quisesse segui-las” (p. De fato. 45).. o próprio Perls deu margem a tais enganos. idéia marcante no existencialismo.Finalmente. do protestantismo. juntamente com a Logoterapia. Possivelmente. a noção de presença em Heidegger (1989) e Binswanger (1947/1971. 1956/1972) seria sinônima de presentificação ou de awareness. Husserl. apresentadas por Perls (1973/1981. eles dirão que são não conceituais.. 33). 1979) em grande parte de seus escritos. Heidegger. esta é uma das raras passagens. tal como observa Boris (1992a. na matriz compreensiva pósromântica. 33). uma conotação fortemente existencial. conforme Figueiredo (1991). tal afirmação tem. por exemplo. em que Perls referese mais explicitamente à fenomenologia. na linguagem. tal como considerado por Perls (1977. como a “mística da liberdade” (p. de Holanda & Faria (2005) onde a ênfase fenomenológica por meio do diálogo com vários pensadores fenomenológicos e existenciais (entre estes. 1942/2002). como assinala Tellegen (1984). talvez sua função tenha sido. embora sejam possíveis muitas aproximações entre a Gestalt-terapia e a Fenomenologia Existencial. Nietzsche e Merleau-Ponty) potencializa novos caminhos para uma compreensão fenomenológica e existencial dos conceitos da Gestalt-terapia originalmente formulados por Frederick Perls. tanto que não é pouco freqüente o engano de se considerar a Gestalt-terapia uma psicoterapia constituída por uma série de técnicas. 1981. ao descrever. 38)..). sem dúvida. o funcionamento de fuga do contato do neurótico: “perdeu a liberdade de escolha. Binswanger. O mais provável é que o pragmatismo norte-americano tenha tido uma importância considerável no desenvolvimento de sua proposta. um estudo mais cuidadoso e aprofundado no que se refere a tal concepção na obra desses pensadores. Tillich. que se insere. Na verdade. (. em sua obra.. 1977. um terceiro aspecto assinalado por Figueiredo (1991) vale ser mencionado: o homem como responsável por suas escolhas. . 1995). Ainda que a liberdade de escolha mencionada por Perls possa ser compreendida. não pode selecionar meios apropriados para seus objetivos finais porque não tem a capacidade de ver as opções que lhe estão abertas” (p. Sartre. em suas palavras. característica da matriz vitalista e naturista. de Ludwig Binswanger. Tal idéia pode ser encontrada em Perls (1981). Buber. do socialismo. de Müller. de Victor Frankl e a Daseinanálise. Assim. o que não é o objetivo deste artigo. sem dúvida. raramente mencionando a fenomenologia como possível influência ou base metodológica de seu trabalho.Granzotto & Müller-Granzotto (2007) e Gestalt-terapia e Contemporaneidade. do judaísmo. Este tema merece. estar libertos de conceitos externos: “o existencialismo deseja se libertar dos conceitos e trabalhar com o princípio da ‘presentificação’ (awareness). Se vocês olharem os existencialistas. certamente ela é apontada na atual produção teórica da área no Brasil. mas se olharem os indivíduos verão que todos emprestaram seus conceitos de outras fontes: Buber. o que inseriria a Gestalt-terapia mais na matriz compreensiva pósromântica do que na matriz vitalista e naturista. 38). Ainda que Frederick Perls tenha pouco explorado seus fundamentos filosóficos. na psicanálise e assim por diante (p. de fato.) o que é importante é que a Gestalt-terapia é a primeira filosofia existencial que se apóia em si própria (. tal como se pode encontrar nas obras Fenomenologia e Gestalt-terapia.

4) Fase coletiva (1970-1987) (Moreira. sobre Novos Conceitos em Psicoterapia. colocando maior ênfase nos aspectos emocionais do que nos intelectuais. 1973). podendo ser ilustrada na síntese de Loffredo (1994) das principais características do método fenomenológico. Cury. Abordagem Centrada na Pessoa e Fenomenologia A Abordagem Centrada na Pessoa foi criada pelo psicólogo norte-americano Carl Rogers como uma proposta inovadora de psicoterapia a partir de uma palestra proferida na Universidade de Minnesota. 2) buscar insight dentro da estrutura própria ao todo fragmentado que é o campo experiencial da percepção. 5) estar imbuído da ‘atitude fenomenológica’. etc. A partir de então. na argumentação de Loffredo. 4) buscar insight no próprio processo de awareness. tais como educação. ao longo dos anos. a proposta rogeriana assumiu. em dezembro de 1940. Ensino Centrado no Aluno. criando condição de existência do mundo e dando-lhe sentido (p. Encontramos. partindo de uma proposta de atendimento clínico (aconselhamento e psicoterapia) se amplia a outras áreas. 3) voltar-se a um trabalho de experimentação sistemática pra descrever com acuidade a estrutura dos fenômenos implicados. que supõe ser a consciência sempre ‘consciência de’. É possível observar. Terapia Centrada no Cliente. no livro Psicoterapia e Consulta Psicológica (Rogers. etc. Essas idéias foram publicadas. 1998). grupos. enfatizando a situação imediata ao invés do passado do indivíduo e tomando a própria relação psicoterapêutica como uma experiência de crescimento. A palestra versava sobre conceitos que tinham como base o impulso individual para o crescimento e para a saúde. uma apropriação dos conceitos da fenomenologia para a descrição da Gestalt-terapia que potencializa uma compreensão fenomenológica da Gestalt-terapia. mais vulnerável a acusações como a de ser utilizada como “seita”. várias denominações: Aconselhamento Não-Diretivo. até chegar à atual denominação &– Abordagem Centrada na Pessoa &– que. assim. que. 1970. 1983. 3) Terapia Experiencial (1957-1970) (Hart & Tomlinson. que têm sido descritas como: 1) Psicoterapia Não-Diretiva (1940-1950). colocando-se entre parênteses pré-concepções estranhas a este vivido imediato. nos Estados Unidos. diversas fases do pensamento rogeriano. Com base na análise de Segrera (2002). A evolução da denominação expressa um movimento na teoria rogeriana. segundo Rogers (1983b). 2001. é a denominação mais abrangente e que descreve melhor sua teoria.A tradição fenomenológica da Gestalt-terapia brasileira já se desenvolve há alguns anos. deixa para trás uma compreensão meramente tecnicista da Gestaltterapia. que identifica uma proliferação de versões contemporâneas da Abordagem Centrada na Pessoa após a morte de Carl Rogers.. em 1987. poderíamos acrescentar uma quinta fase: 5) Fase pós-rogeriana (a partir de 1987 até os dias atuais). . 2) Terapia Centrada no Cliente (1950-1957). Na medida em que esta vertente se fortalece. que causou uma grande polêmica entre os espectadores. Wood. 1987). 77). 2007) ou Inter-Humana (Holanda. presentes na Gestaltterapia &– na opinião desta autora &– a partir da Psicologia da Gestalt: 1) dar ênfase à experiência imediata aqui-e-agora.

p. 2001. em essência. em sua própria experiência clinica. Rogers propôs a confiança no indivíduo como uma característica da consulta psicológica (Rogers. p. Por intermédio de Kirkpatrick. definida como “um fluxo subjacente de movimento para uma realização construtiva de suas possibilidades intrínsecas (. ou ainda. o conceito central sobre o qual está construída a Abordagem Centrada na Pessoa (Moreira. ele afirma que é a sua experiência que mostra que os clientes são fundamentalmente bons. Cavalcante Jr. de 1957. O trabalho do psicoterapeuta. É bem verdade que. 17). tal como formulada por Figueiredo (1991). fundamentalmente. Em 1942. como é sugerido pela própria denominação. A idéia de que a natureza humana é. congruência e aceitação positiva incondicional: “a terapia (.) uma tendência natural para o desenvolvimento completo” (p.” (Rogers. definida como intrínseca e inerente à pessoa. 16). quando afirma: “deve haver uma disposição para aceitar a criança como ela é (.. Desta forma. sempre se perguntando “se funciona”. A confiança no potencial da pessoa encontra-se presente no pensamento rogeriano desde o início de sua carreira. A teoria rogeriana tem como postulado fundamental a tendência atualizante. 1976. o país do pragmatismo por excelência. 63). que “a abordagem centrada na pessoa baseia-se em uma premissa que a princípio pareceu arriscada e incerta: uma visão de homem como sendo. 2001. quando essa tendência se viu bloqueada” (Rogers. trata-se de um potencial natural de crescimento pessoal inerente à pessoa. Rogers teve contato com a teoria de Dewey. Para Rogers (1977). 1976. ao trabalhar com crianças. 1979).. 1983a) se inserem na matriz vitalista e naturista.Ainda que os interesses de Carl Rogers tenham se modificado. o que situa seu pensamento na corrente funcionalista pragmatista norte-americana.) desempenha um papel extremamente importante na libertação e no processo de facilitação da tendência do organismo para um desenvolvimento psicológico ou para a sua maturidade. (2008) lembra que o pragmatismo foi criado por Peirce. Assim. 1977a).. o homem é considerado como seu próprio arquiteto (Moreira. 247). tanto na compreensão do significado do crescimento como processo contínuo. por algum motivo não esteja fluindo naturalmente em uma direção positiva. Segundo Cavalcante Jr (2008).. o que torna significativa a polêmica se seu pensamento é fenomenológico ou não. todo organismo tem uma tendência para desenvolver suas potencialidades de forma positiva. quanto na ênfase pragmática da experiência. 2007). que se desenvolve sob condições facilitadoras. em 1939. A tendência atualizante é. p. 2007). Ou seja. que fez de Carl Rogers o mais renomado psicoterapeuta dos Estados Unidos. segundo Rogers. em . portanto. as concepções de Rogers (1979.. tem a pessoa como centro das preocupações. a psicoterapia teria como objetivo facilitar o desbloqueio da tendência atualizante quando esta &– que é intrínseca e inerente ao ser humano &–. p. 1976. como uma tendência inerente à pessoa (Rogers. que teve profundas repercussões em seu pensamento. Rogers se referiu à sua experiência pessoal como fonte de seus escritos &– “não posso fazer mais do que tentar viver segundo a minha própria interpretação da presente significação da minha experiência.. um organismo digno de confiança” (Rogers. 38) &–. positiva está baseada.. havendo William James resgatado sua dimensão experiencial.. explicitando posteriormente. 1978. do professor ou do facilitador de grupos é favorecer que a tendência atualizante possa se desenvolver por meio de atitudes facilitadoras &– empatia.) e dar-lhe liberdade para tentar soluções próprias para os seus problemas” (Rogers. foi esta ênfase pragmática. e. Trata-se da tendência atualizante. seu foco se manteve o mesmo ao longo de toda a sua vida: a Abordagem Centrada na Pessoa. Desde o seu conhecido artigo A note on the nature of man. seu professor de filosofia da educação na Universidade de Columbia. ao longo de toda a sua obra.

profundamente interessados em ajudar o outro. Rogers sofreu. apenas quantitativas. dado que seu modelo de ciência era eminentemente positivista.. entendida como a ciência de sua época e de seu momento histórico cultural. terá certeza de que. posteriormente. Portanto. Rogers. Provavelmente seu estilo pragmático. aliado ao seu contexto histórico. de fato. 1976. que. ao contrário do que afirma Figueiredo com relação às abordagens psicológicas que se inserem na matriz vitalista e naturista... criador de seitas ou algo do tipo. para serem reconhecidas como “científicas”.. O compromisso rogeriano com a ciência (mesmo que ingênuo e positivista) torna sem sentido a acusação de Figueiredo (1991) ao relacioná-lo à figura de um guru. tipicamente norte-americano. ainda que se possa considerar Carl Rogers um mestre do pensamento compreensivo contemporâneo.) nos aproximemos dos fenômenos com o mínimo de pré-conceitos possível [em uma atitude de redução fenomenológica. Critica a utilização de tais critérios de êxito psicoterapêutico. afirmando que “o conceito de cura é totalmente inadequado. quando deixa de trabalhar como psicoterapeuta e passa a se interessar prioritariamente por grupos e pela resolução de conflitos internacionais de ordem coletiva. p. o conceito de tendência atualizante e. os escritos de Rogers parecem bastante fenomenológicos. em nenhum momento. Moreira. quando sugere que (. Ao contrário. Não contou com o método fenomenológico ou outro método qualitativo em suas pesquisas pioneiras em psicoterapia. 110). uma maior complexidade. não deixam qualquer margem de dúvida quanto à inserção de seu pensamento na matriz vitalista e naturista. precisaram ser desenvolvidas como investigações positivistas. onde metodologias qualitativas não eram consideradas cientificas. a experiência subjetiva o levara a criar uma proposta inovadora de psicoterapia. quem leu a obra de Rogers mais a fundo e. nos cristais. uma maior inter-relação. 203). Na espécie humana. durante toda a sua vida. p. em sua fase tardia. 2007).) existe uma tendência formativa no universo que pode ser rastreada e observada no espaço estelar. Carl Rogers e seus colegas eram os mais modestos e sérios dos profissionais e estavam. como cientista.. Rogers (1983a) afirma (. contribuindo para o desenvolvimento da psicoterapia e da compreensão do ser humano. o impediu de buscar metodologias qualitativas mais apropriadas para seus estudos clínicos. nunca prometeu qualquer cura. na vida orgânica mais complexa e nos seres humanos. 1976). mesmo se soou fenomenológico no início de sua afirmação] (Rogers. principalmente. Além disso. se angustiava. [e aqui volta a assumir sua vertente naturalista.algumas passagens. que tenha tido a oportunidade de conhecê-lo ou de trabalhar com ele pessoalmente. denominada de “fase coletiva” ou “fase interhumana” (Holanda.. presa da objetividade. para ele. Trata-se de uma tendência evolutiva para uma maior ordem.” (Rogers. 1976. haja vista que.. No entanto. essa tendência se expressa quando o indivíduo progride de seu início unicelular para um funcionamento orgânico complexo. Por exemplo. com o difícil dilema entre pessoa e ciência (Rogers. ele ou qualquer membro de sua equipe de trabalho de La Jolla teve alguma pretensão de ser guru. Assim. colocando entre parênteses idéias préconcebidas?]. No entanto.. na época. que assumamos a atitude observadora e descritiva [sendo a descrição o ponto de partida da fenomenologia para a compreensão da experiência vivida?] do naturalista. tal como formulada por Figueiredo (1991). para um modo de conceber e . nos micro-organismos. ou seja. o conceito de tendência formativa do último Rogers (1983a) que amplia esta tendência positiva ao universo como um todo. não é possível afirmar que ele faça parte da matriz compreensiva fenomenológica. quando. 1998.

provavelmente deu lugar à crítica de Figueiredo (1991) aproximando-a das chamadas terapias alternativas. experiencial.de sentir abaixo do nível de consciência. Amatuzzi. Moreira. “espaço estelar”. na Califórnia. não ter estudado a filosofia existencial. 2007). em La Jolla.. 2007). 1998. se destacam os que buscam relacionar os pensamentos de Rogers e de Buber (Boris. uma abordagem fenomenológica (Spiegelberg. cuja ativação era o foco de sua proposta de psicoterapia. em sua fase experiencial. 1990. ele voltou a se distanciar de uma fenomenologia clínica na década de 1980. considerar toda a psicologia rogeriana como fenomenológica seria um exagero evidente. então. fundada por Gendlin. ou “o bom da vida é interior e não depende de fontes externas” (p. É importante lembrar que apenas em 1951. onde Rogers (1983a) utiliza os termos “interior” e “exterior”: “(. ainda que Rogers tenha adotado um direcionamento fenomenológico na década de 1960. Não é rara a busca. 105). 1987. de fundamentação teórico-epistemológica em filósofos fenomenológicos e/ou existenciais. a não ser que eliminemos os estímulos externos” (p. Introduziu. que proliferam na contemporaneidade.) parece que em nosso mundo interior está sempre ocorrendo algo que absolutamente não conhecemos. no Center for Studies of the Person. por parte de psicoterapeutas humanistas brasileiros. em seu livro Tornar-se Pessoa. A partir do trabalho com Gendlin (1970). como sua primeira tentativa de elaborar teoricamente a relação terapeuta-cliente. pois se manteve preso à idéia de pessoa “interior” como centro (Moreira. Rogers reconheceu seu dilema entre o positivismo lógico e a abordagem existencial. em resposta à insistência dos seus alunos. contribuiu para que Rogers passasse do positivismo lógico para uma orientação existencialista. já no debate público realizado entre Buber e Rogers (1965). A utilização de termos como “consciência transcendente”. Holanda. Em pesquisa que analisou as intervenções clínicas rogerianas nas décadas de 1940. Entre eles. Rogers fez as primeiras alusões à filosofia existencial e fenomenológica. posteriormente. em sua fase coletiva ou inter-humana (1970-1987). na sua fase experiencial. 2001. o filósofo . haja vista que Rogers adotou tal denominação tardia e incidentalmente e nunca tentou praticar. 2007). 2001. explicitamente. no entanto. com a qual tomou contato tardiamente a partir da leitura de Buber e de Kierkegaard. intencionalmente. 1989. Nesta fase. 1987. A visão dualista apontada por Figueiredo (1991) como característica da matriz vitalista e naturista é evidente ao longo de toda a obra rogeriana até em seus escritos mais recentes. 1960 e 1980 mostra-se que. uma vertente atual da Abordagem Centrada na Pessoa. Rogers declarou. passou a ser entendido com base em um movimento universal igualmente construtivo &– a tendência formativa &– a partir das descobertas da física e da biologia (Holanda. 2001. de fato. publicados em Um Jeito de Ser. que. pois mais baseada em sua própria experiência do que em qualquer corrente existencialista. A idéia de uma abordagem centrada na pessoa está associada à concepção de uma pessoa “interior”. 50). 1972. derivou na abordagem experiencial. Em 1961. 67). Moreira. o conceito de campo fenomenal. possivelmente. em harmonia e unidade com o sistema cósmico no qual se inclui a espécie humana (p. para uma consciência transcendente. o conceito vitalista e naturista de tendência atualizante. Rogers sentiu-se atraído pela ênfase na experiência como conceito fenomenológico-existencial. para um conhecimento consciente do organismo e do mundo externo.. No entanto. na primeira edição do livro Terapia Centrada no Cliente (1975). Cury. tal como pode ser encontrado na citação acima. 1998). Seu contato com Gendlin. “cristais” ou “sistema cósmico”.

Afirmar que a fenomenologia influenciou a Abordagem Centrada na Pessoa (Gobbi et al. na fase coletiva ou interhumana de Rogers (1970-1987). ou quando critica o dualismo nas psicologias &– parece se inserir na matriz compreensiva. ainda que partam de seu pensamento. Messias & Cury. No entanto. Heidegger. Tanto Perls quanto Rogers. 2007). 2007). ou no pragmatismo de Perls ao afirmar que sua proposta parte dele mesmo &– se insere na matriz vitalista e naturista. é possível considerar que as fenomenologias existenciais passaram a ter um papel fundamental em muitas das vertentes atuais da Abordagem Centrada na Pessoa. o que não ocorreria na relação psicoterapêutica (Amatuzzi. 1998. 2007.. que em sua fase experiencial (1957-1970) se aproximou da fenomenologia via ênfase no conceito de experiência a partir da influência de Gendlin (Messias & Cury. 2007). 1989. a Gestalt-terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa representam contribuições fundamentais para o desenvolvimento da psicoterapia hoje. Parece possível buscar afinidades entre as bases filosóficas fenomenológicas e/ou existenciais e o pensamento rogeriano como é desenvolvido na atualidade.existencial negou que a relação psicoterapêutica fosse um exemplo de relação EuTu. além de Buber. Belém. Frederick Perls e colaboradores e Carl Rogers. 2008. 2001. bem como de diversos outros (Advíncula. 2006. o que caracteriza a matriz vitalista e naturista. que rompe com o pensamento dualista. Justo & Holanda. em suas obras inovadoras no campo da psicoterapia. Sartre. passaram a ter vida própria nestes mais de 20 anos após a morte de Rogers. seu caráter pragmático e naturalista. o que nunca foi um empreendimento do próprio Rogers. com as matrizes do pensamento psicológico. Merleau. cada um a sua maneira. propostas por Luis Claudio Figueiredo (1991). assume. Moreira. discordando de Rogers por conta da mutualidade que se verifica nesta última. A Abordagem Centrada na Pessoa. que podem contribuir para a sempre polêmica e atual discussão: elas são abordagens fenomenológicas? Este artigo mostra que tal classificação em termos de matrizes psicológicas não pode ser adotada rigidamente nem considerada definitiva. Dutra. 2001. 2006. essas iniciativas devem ser encaradas como desenvolvimentos contemporâneos de psicoterapeutas “pósrogerianos” (que partem de seus pensamentos. 2005. 1991. na medida em que assumiram uma direção fenomenológicoexistencial. Mais do que tentativas de fundamentação teórico-epistemológica de tais psicoterapeutas brasileiros. 2009). reforçando o conceito de tendência atualizante que se amplia no conceito de tendência formativa. mas não devemos nos iludir de que tais filósofos tenham influenciado a teoria rogeriana original. em certos momentos &– na compreensão da vida como um fluxo positivo. . No entanto. A Gestaltterapia de Perls. em outros &– em especial no que se refere ao conceito de campo organismo-ambiente. talvez possamos pensálas como os “múltiplos contornos” que Merleau-Ponty (1960) identifica em sua filosofia com base na pintura de Cézanne (Moreira. como Kierkegaard. 2004. Moreira. Nietzsche. não se pode esquecer. tal como formuladas originalmente por seus criadores. dá lugar a reflexões interessantes. Considerações Finais O diálogo da Gestalt-terapia e a da Abordagem Centrada na Pessoa. Holanda. a interpretações eventualmente um tanto preconceituosas de suas teorias.Ponty. Missel. Fonseca. 1998. Moreira. Tais vertentes “pósrogerianas” contemporâneas. 2005) é um engano. Gobbi. própria do pensamento fenomenológico-existencial. mas realizam um caminho próprio). possivelmente dão margem. Husserl. ao buscar fundamentação em filósofos fenomenológicos e/ou existenciais.

diga-se de passagem. Universidade Federal do Ceará. Fritz Perls: centenário de nascimento (1893. Ou quem sabe a atitude pragmática. (1990). G. fome e agressão: uma revisão da teoria e do método de Freud (pp. Psicologia: Terapia e Pesquisa. Boris. tanto na Gestalt-terapia quanto na Abordagem Centrada na Pessoa. Uma reflexão acerca da consistência teórica das psicoterapias humanistas. (1972). (2002).1993). G. G. (1987). Introduction à l´analyse existentielle. (1989). L. seja em Rogers e se desenvolve fundamentado na fenomenologia existencial em Heidegger. no Brasil. na direção de uma aproximação ou mesmo de um desenvolvimento contemporâneo de uma abordagem humanista. que parte do pensamento humanista. Revista de Humanidades . que tanto tem. 12 (10). Fortaleza.1 Referências Advíncula. 201-214. a aprender sobre o Lebenswelt (mundo vivido). Boris. G.UNIFOR. Gestalt-Terapia e filosofia: onde e como nos perdemos? Como nos (re)encontraremos? Revista de Humanidades . exatamente como uma tentativa de se livrar das acusações de tais abordagens serem teorias alternativas pouco sérias. 34-39. 45-52. Tres formas de la existência frustrada. D. Em F. Boris. Boris. Sobre Fritz Perls e “Ego. ainda que ambas humanistas). Revista de Psicologia. (1992a). Recife. Quem sabe esse movimento aconteça. Perls. (1971). isto é. Revista de Humanidades . O resgate da fala autêntica. Boris. ainda. As várias faces de “Ego. Ego. Amatuzzi. Dissertação de Mestrado. Binswanger. Araújo. 19-33). Boris.Terapia. 7(2). G. Prefácio à edição brasileira. Fome e Agressão”. Belém. (1992b). Abordagem centrada na pessoa: um olhar contemporâneo. 111-124. G. Merleau-Ponty.UNIFOR. (Originalmente publicado em 1956).fenomenológica (Moreira. 2009). Em F. 69-75. Paris: Les Édtions Minuit. M. . Fome e Agressão”. seja baseado em Perls. 11-18).UNIFOR. (1991). (1995). Dissertação de Mestrado. Campinas: Papirus. C. não dê conta da clínica psicológica. 5 (1). Buber e assim por diante. L. Perls. ao desenvolverem suas teorias com base em suas próprias práticas (bem diferentes não apenas em estilo como em teoria. I. O processo de cooperação na psicoterapia de grupo em GestaltTerapia. G. Ego fome e agressão: uma revisão da teoria e do método de Freud (pp. tanto de Rogers quanto de Perls. Tendência atualizante e vontade de potência: um paralelo entre Rogers e Nietzsche. São Paulo: Summus. 7 (5). Abordagem Centrada na Pessoa e Gestalt.É importante observar um movimento similar. (2002). (Originalmente publicado em 1947). Buenos Aires: Amorrortu. Binswanger. (2004). 9 (7). São Paulo: Summus. Universidade Católica de Pernambuco.

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