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MORRER: A PLENITUDE DO NASCER CONFLITO DOS EXTREMOS Dewet Virmond Taques 1 Ao refletir sobre

MORRER: A PLENITUDE DO NASCER

CONFLITO DOS EXTREMOS

Dewet Virmond Taques 1

Ao refletir sobre estas ações humanas nascer/morrer - nos deparamos com realidades paradoxais. Dois extremos. Opostos que se unem no mistério vital, dualidade unificada no “mysterion” da vida. Verdades que se interagem e se completam. Dois verbos inconjugáveis experiencialmente no tempo presente. Em ambos não somos, realmente, sujeitos e sim objetos de contemplação. Não guardamos em nossa lembrança o nosso nascer e não sabemos do nosso morrer. Não temos a experiência do nascer, embora tenhamos a do “nascido” e não temos, no ato de morrer, nem o de “morrido”. Vivemos “nascidos”, na experiência do viver, e como sujeitos do processo do morrer, não vivemos a experiência da morte, e sim, a suposição dela, afinal, dispomos de consciência (cf. MORIN, 2003, p. 36). Contemplamos o morrer no outro e inter-projetamos o fato em uma síntese da vida, refletindo sobre nossa limitação, subjetivando a morte, absolutizando-a como fim em si mesma, sobejando o processo de morrer. No mistério da vida ao caminhar a experiência existencial, galgamos degraus diferenciados, pois ao “morrer, participa-se da tragédia cósmica; pelo nascimento, participa-se da aventura biológica; pela existência, participa-se do destino humano” (MORIN, 2005, P. 48). Desta realidade não é possível haver exclusão, nada pode modificar o fato histórico/existencial, pois, “o ser mais rotineiro e a vida mais banal participam dessa tragédia, dessa aventura, desse destino” (id.). Na unidade da pessoa a dualidade da vida, nascer/morrer; na unidade do indivíduo a dualidade existencial, existir/desaparecer; na unidade da humanidade a dualidade imanência/transcendência; na unidade da criatura a dualidade, temporal/eterna, na unidade pneumatológica, a dualidade profano/sacro.

“Somos filhos do cosmo, mas, até em conseqüência de nossa humanidade, nossa cultura, nosso espírito, nossa consciência,

1 Membro do Núcleo Arquidiocesano de Bioética

tornamo-nos estranhos a esse cosmo do qual continuamos secretamente íntimos” (MORIN, 2033, p. 38). Vivemos

tornamo-nos estranhos a esse cosmo do qual continuamos secretamente íntimos” (MORIN, 2033, p. 38).

Vivemos incertezas. Incertezas cognitivas e incertezas históricas, da própria existência. O grande princípio que rege a incerteza maior, talvez seja a incerteza de caráter epistemológico, que “decorre da crise dos fundamentos da certeza (cf. id.,

p. 59). Perde-se ao longo da história, confunde-se no horizonte do tempo o conceito da existência do ser, “para os primórdios da interpretação humana o ser, a vida se encontrava por toda parte, e o ser confundia-se com o ser vivo” (JONAS, 2004, p.

17).

Sabe-se

somente

que

o

(MOLTMANN, 1976, p. 23).

“homem”

é

criador

e

criação

da

civilização”

O NASCER Nascemos sem nossa intervenção, sem nossa apreciação. Eclodimos na total obscuridade de nossa consciência. Não houve um consentimento livre e esclarecido de minha parte, para minha existência nem coube um discernimento. Na minha autoconsciência me vi como que “jogado” neste mundo com a responsabilidade de “viver”. Não pedi, não tinha planos e nem havia expectativa para meu “aparecimento” nesta luta vivencial. Parece que somos apresentados à existência como alguém que é colocado montado no potro da vida, um animal indócil, perigoso e cheio de surpresas e no palco do mundo, um ambiente, muitas vezes hostil, inóspito e árido. Ignoro se queria nascer, sei que não pedi a vida e nem sei como aconteceu. Tudo foi à revelia de meu querer. Tudo aconteceu à margem de minha vontade. Não fui perguntado e nem me deram espaço para opinar sobre minhas características genéticas ou mesmo sobre a escolha da paternidade/maternidade, enfim, não fiz opção de minhas raízes e nem quem seriam meus familiares. Não participei da escolha de meu eu. Percebo-me como alguém que recebeu, por gratuidade, o dom da vida e oportunidade de vivenciar as realidades do viver. Não celebrei a glória de minha própria fecundação. Não registrei os momentos de minha mórula/gástrula. Não contemplei meu desenvolvimento e não

guardo na lembrança as divisões celulares enquanto embrião e nem me dei conta das transformações

guardo na lembrança as divisões celulares enquanto embrião e nem me dei conta das transformações morfo/fisiológicas enquanto feto. Ao nascer iniciamos o processo do morrer, nos tornamos de imediato sujeitos passivos do definhamento imutável que o processo da vida nos acarrea. Nascemos, fato que indica o marco inicial do processo da vida, passo remoto para a vivência do processo de morte. Existimos para, um dia, deixar de existir. No processo de viver, fatalmente vivemos o processo de morrer. Ao se “oferecer” a vida, na concepção, se oferece em contrapartida o final dela, na morte. Na doação da vida se acarreta ofertar o princípio da morte. O impacto ao refletir sobre o fato de que os progenitores não pensaram ou imaginaram sobre as características genéticas da prole, é algo que extrapola o entendimento humano. Não se tem controle sobre este fato, não se conduz e nem se opina sobre a carga genética existente nas células germinativas e muito menos se interfere na combinação genética com as mutações e manifestações dominantes e recessivas dos genes. Fica-se fora do controle das bilhões de combinações protéicas e nem se está livre das influências da carga genética mitocondrial.

O VIVER Estágio intermediário, espaço histórico/sócio/biológico no qual a existência será celebrada, ou suportada, dependendo da interação e integração das informações, quer no estágio da socialização primária como no âmbito da socialização secundária.

Viver na expectativa do “sopro do alto”, infusão de Vida Nova, a gestação do Criador, parece oferecer sentido mais profundo do existir, isto é, celebrar com intensidade litúrgica o sentido do ser. Sou quem sou, percepção que aquilata a essência da criatura filial. Sou parte integrante do pensamento do Criador que se faz Pai em minha limitação de criatura. Sou destinatário dos cuidados e da compaixão na minha própria origem, do princípio de mim mesmo que se amalgama com a vontade e pensamento da essência do Criador, na sua realidade trinitária.

N’Ele existo desde sempre: “nasci” do pensamento d’Ele, n’Ele plenifico minha existência pois com Ele

N’Ele existo desde sempre: “nasci” do pensamento d’Ele, n’Ele plenifico minha existência pois com Ele vivo o mistério existencial; por Ele entrego o viver experienciado no processo de morrer e para Ele consumo meu inexistir. Sou seu “mysterion”, seu “sacramento”, seu veículo de comunicação. Sou seu sistema cérebro/hormonal para com a humanidade.

Sou a episteme d’Ele, a verdade comprobatória de Sua existência; Ele mesmo é o objeto de minha reflexão em minha própria existência em toda sua dimensão, pois Ele mesmo se revela, se mostra e se deixa encontrar, e neste processo me faz encontrar minha própria revelação, minha própria realidade, perfazendo o método que deve ser utilizado neste relacionamento intra/inter-pessoal. Neste sentido Ele passa a ser, agora, minha “episteme”, minha

verdade. Assumo a filiação por Ele proposta. Sou Seu filho, parte Sua,

destinatário de Suas características genéticas/divinas. Meu patrimônio genético está impregnado das “orientações” do Alto. Minha consciência será formada na Verdade. Serei Sua Verdade, na medida em que vivenciar esta realidade maior, transcendente. O humano/divino já pré-figurado antes de todos os tempos, por unção do “alto” estabelece em minha vida seu tabernáculo, sua morada. Existo para que esta Verdade seja conhecida, revelada, pois nesta, incorporará a minha.

O MORRER Comporta um ato impessoal, solitário e silencioso; é uma abominação e algo que se deve repelir (cf. KÜBLER, 2005, p. 6), comportamento do humano desde tempos mais remotos estudados. Em nosso inconsciente, algo indelével está marcado como um conceito firmado: não morremos, “somos” mortos!

A senilidade, o desgaste normal que a vida nos reserva, a conseqüência da violência, a

A senilidade, o desgaste normal que a vida nos reserva, a conseqüência

da violência, a subnutrição, a falta de afeto, carinho e atenção, passam a ser a protagonista desta verdade.

O ápice do processo de morrer, a morte consumada, passa a ser a

experiência mais profunda da solidão do ser. O moribundo fará a experiência da morte

de uma maneira pessoal, individual e solitariamente, pois, por mais que estejam próximos os seus familiares e amigos ele estará irremediavelmente só. Experimentamos estar sós ao nascer embora não guardarmos lembrança deste fato. Em face desta verdade, tomamos consciência de que findaremos

nossa vida da mesma maneira: Sós! Nada e ninguém poderão acompanhar-nos pelos

meandros deste processo.

O nascer e morrer, dois acontecimentos vivenciados somente pelo

protagonista do evento; dois fatos experimentados individual e solitariamente; algo que

se faz só, sem companhia e que num primeiro momento nos leva a pronunciar: - “Pai, por que me abandonaste?” Tudo isso nos leva a negar a existência da morte, parece que “quanto mais avançamos na ciência, mais parece que tememos e negamos a realidade da morte” (op. cit. p, 11). Além da própria enfermidade, outros fatores acarretam no indivíduo enfermo uma situação triste, “pois quando se está doente, não raras vezes é tratado como alguém sem direito a opinar, pois quase sempre é outra pessoa quem decide sobre se, quando o onde um paciente deverá ser hospitalizado” (cf. id), torna-se objeto, perde o sentido de pessoa, sufoca-se o humano, ignora-se a autonomia!

O processo de morrer, atualmente nas pautas dos diversos comitês,

médico/hospitalares, ultrapassa o simples fato de se presenciar o expirar do enfermo, o fim de uma vida, e tem-se extrapolado nos subterfúgios nefastos das “thanásias”, com todas suas variantes etimológicas gregas, tentando definir o ato de morrer de acordo com o tempo em que decorre entre o início do sucumbir à existência até a sua

consumação, como se isso encerrasse a discussão trazendo a justificativa dos dilemas atualmente vivenciados.

Parece que a falta de compaixão e a ausência da proximidade humana, nestes momentos sublimes

Parece que a falta de compaixão e a ausência da proximidade humana, nestes momentos sublimes da vida trazidos pela desenvoltura da biotecnociência e recursos terapêuticos nos têm forçado a vivenciar este sofisma quanto ao final da existência. A morte passa a ter uma conotação quase de “disputa” moral e assunto específico da área da bioética, pois nos encontramos envolvidos em situações difíceis de serem resolvidas. Não se consegue elaborar um conceito claro sobre a morte e longe se está de um consenso, uma vez que, embora assunto do âmbito das ciências biológicas, jurídicas e sociais, não está claro nem o momento real de sua ocorrência. Não se pode estabelecer um momento, para este acontecimento que faz parte de uma transição gradual e não de algo instantâneo. É um caminhar, ocorrências do processo vital, algo dinâmico e não simplesmente um ato. Não é algo isolado, é vivência experiencial ao longo do curso da existência. A morte está implícita no processo do morrer e este, estabelece o cume do processo da vida. Em uma visão transcendente, na comunhão dos diferenciados, a lembrança do ente querido, o convívio com os valores por ele deixados ou a recordação de sua existência histórica, passa a fazer parte de um memorial e como tal

o manterá presente entre os de seu convívio. Sua vida jamais findará com sua inexistência.

simplista

biológica/social/jurídica e sim com na perspectiva que o sagrado produz.

Não

se

discute

este

acontecimento

em

uma

ótica

O profano/temporal que morre com a falência funcional, tendo seu início com a morte encefálica percorrendo todos os degraus da cito/histologia, danificando os órgãos vitais, muito aquém está da consumação sagrado/eterno do ser imagem/semelhança do Criador da vida. É do humano/divino que se fala. É da humanidade iluminada pela força do “sopro da vida”, que se dirige, não daquela que tem seu início com o encontro das células germinativas e seu fim com a auto-destruição do organismo, mas, com a que

se origina da nova gestação causada pelo pneuma divino.

Tem-se fracionado a morte a ponto da medicina legal conceituá-la, como “morte clínica” o marco

Tem-se fracionado a morte a ponto da medicina legal conceituá-la, como “morte clínica” o marco definitivo na etapa do processo de morrer, tornando-se um critério definitivo e determinado. Perdeu-se o sentido humano da morte! Suprimiu-se a dignidade do morrer, pois na tentativa de uma busca conceitual da morte consumada obscurece-se a separação humana do convívio fraterno, da doação do dom de si, da interação relacional.

O ANTÍDOTO

O maior antídoto para o sucumbir da existência, principalmente para a

consumação da mesma, é o sentir-se amado, pois, é no processo de morte que as dúvidas sobre a natureza e significado da própria existência vem à tona, tentando responder e justificar o sofrimento, não só da própria morte consumada como da separação do indivíduo no fato do desaparecimento existencial.

O sentido da transcendência levará, sem dúvidas, o enfermo a viver a

certeza de que é amado, querido e que faz parte de um plano de amor e sabedoria. Verdades, na esmagadora maioria das vezes, sufocada pelos sofisticados aparelhos de última geração trazidos pela Biotecnociência, aos quais está ligado; aos diagnósticos

complicados, apresentados com a retórica dos médicos frente ao inevitável fracasso profissional bem como as terapêuticas intensivas, quase sempre “importadas” e de impossível acesso ao cidadão comum.

A própria “idolatria biológica”, passa a ser uma busca rastreada de

órgãos salvadores e de esperança de uma vida plena aos que ficam. Promessas as quais sentem-se excluídos a grande maioria que almeja por essa terapia revolucionária.

Todo relacionamento intra-pessoal, toda intra-interação, se dá tanto

ao nível de orientação de fenômenos neuro-químicos como de função hormonal.

São duas as correntes de comunicação e informação psico/funcional. Não se tem respostas no sentido de que a informação levada pelos hormônios, na circulação sangüínea, mantida em atividade por motivos óbvios, mesmo

na morte encefálica, estaria ativa confirmando a consciência, ou esta estaria deteriorada com o encerramento

na morte encefálica, estaria ativa confirmando a consciência, ou esta estaria deteriorada com o encerramento das atividades neurológicas? Perguntas difíceis de serem respondidas! Glândulas endócrinas morreriam ao mesmo tempo da morte encefálica? A epífise (ou corpo pineal), tão mal conhecida e estudada, continuaria a fornecer informações à hipófise? Sabe-se que esta glândula, diminuta e insignificante em sua aparência “regula” e “conduz” atividades como repouso e vigília, ou mesmo “fornece” sentido harmônico da sexualidade, talvez não esteja, até a “consumação” da morte, com o silêncio de “todos” os órgãos, “em atividade comunicativa”? Não estaria mantendo a consciência de que somos criaturas do

“cosmo”, filhos da transcendência e que justamente este “tempo” seria o de inter-agir na auto-determinação e auto-conhecimento para pronunciar a frase: _ ‘Pai em suas mãos entrego meu espírito”? Não será nesta última introspecção o resgate definitivo, numa derradeira ação humana, a consolidação da auto-consciência da realidade existencial, mistério corpóreo/espiritual, somato/pneumatológico que nos levaria a plagiar as palavras de Saulo de Tarso, quando exclama: - “Combati o bom combate, terminei a minha

carreira, guardei a fé

?”

(Bíblia Sagrada, 2ª Timóteo, cap. 4, v. 7).

Perguntas difíceis de serem respondidas, pelo menos alicerçado na epistemologia das ciências biológicas. Mantêm-se o mistério da vida, e por esse

motivo, para compreendê-la será necessário estarmos em comunhão conosco mesmo, com os demais, com o mundo criado e com o Criador. REFERÊNCIAS

1- HANS, Jonas. “O Princípio Vida”, Ed. Vozes, Petrópolis, 2004.

2- MOLTMANN, Jurgen,. O Homem Mistério a Desvendar”, Ed. Paulinas, São

Paulo, 1976 3- MORIN, Edgar. “O método 5, A Humanidade da Humanidade”, Ed. Sulina, Porto Alegre, 2.005

“A Cabeça Bem-Feita”, Ed. Bertrand, Rio de Janeiro,

4-

2.003.

5- KÜBLER, Elisabeth Ross. “Sobre a Morte e o Morrer”, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2005