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CURSO DE INTRODUÇÃO À ARBITRAGEM APONTAMENTOS NOTA: Os apontamentos que o Centro de Arbitragem, Conciliação

CURSO DE INTRODUÇÃO À ARBITRAGEM

APONTAMENTOS

NOTA: Os apontamentos que o Centro de Arbitragem, Conciliação e Mediação de Maputo faz chegar aos formandos do curso de Introdução à Arbitragem, ministrado na Cidade de Maputo entre os dias 13 e 17 de Junhoo de 2016, foram preparados com o fito exclusivo de completar o manual distribuído com os restantes documentos, pelo formador.

Os apontamentos foram elaborados com base em dois livros, o «Curso de Resolução Alternativa de Litígios», de autoria da Dra. Mariana França Gouveia e o «Manual de Arbitragem», do Dr. Manuel Pereira Barrocas, ambos editados pela Edições Almedina S.A.

Maputo, 17 de junho de 2016

Jafar Gulamo Jafar

Vice-presidente

INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO

ARBITRAGEM DEFINIÇÃO

Podemos definir arbitragem como um modo de resolução jurisdicional de conflitos em que a decisão, com base

na

Trata-se de um meio de resolução alternativa de litígios adjudicatório, na medida em que o litígio é decidido por um ou vários terceiros. A decisão desses terceiros é vinculativa para as partes.

A

vontade das partes, traduzida na existência de uma convenção arbitral, gera um direito potestativo de

vontade das partes, é confiada a terceiros.

potestativo de vontade das partes, é confiada a terceiros. constituição do tribunal arbitral, por um lado,

constituição do tribunal arbitral, por um lado, retira jurisdição aos tribunais estaduais, por outro, e dá origem a uma decisão arbitral com força executiva igual à da sentença dos tribunais estaduais.

Tem como característica distintiva o facto de ter fundamento contratual e ser uma actividade jurisdicional que conduz a uma decisão com aficácia jurisdicional.

A

decorrente daquela convenção arbitral.

Arbitragem, sob pena de

anulação ou invalidade.

O processo arbitral tem que obedecer às regras prescritas na Lei reguladora da

sentença arbitral tem eficácia executiva, mas o tribunal arbitral tem competência apenas para apreciar o litígio

Em suma, a arbitragem voluntária é contratual na sua origem, privada na sua natureza e jurisdicional na sua função.

É contratual porque a fonte dos poderes jurisdicionais é uma convenção, e jurisdicional devido ao conteúdo dos poderes atribuídos pelo contrato.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

A Arbitragem CNUDCI/UNCITRAL, adoptada em 1985 pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Outra definição, muito

A Arbitragem

CNUDCI/UNCITRAL, adoptada em 1985 pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

Outra definição, muito semelhante à primeira, diz que a arbitragem constitui um modo de resolução de litígios entre duas ou mais partes, efectuada por uma ou mais pessoas que detêm poderes para esse efeito reconhecidos por lei, mas atribuídos por convenção das partes.

Esta definição aplica-se apenas à arbitragem voluntária excluindo a arbitragem necessária e tem como elementos essenciais a função jurisdicional (resolução de litígios), a fonte de que resulta ( a convenção de arbitragem), os titulares da função arbitral (os árbitros) e o reconhecimento legal.

A Jurisdicionalidade

O

uma função jurisdicional reconhecida por lei.

Modelo da

é

regulada pela Lei

nº 11/99,

de

8

de

Julho, que

teve

como

base

a

Lei

pela Lei nº 11/99, de 8 de Julho, que teve como base a Lei acto jurisdicional

acto jurisdicional é aquele que resolve ou dirime um litígio, daí que digamos que o tribunal arbitral detém

O

judiciais, não faz, no entanto, parte do sistema jurisdicional, pois não representa o Estado, nem qualquer órgão de soberania. Exerce uma actividade de natureza privada resultante do poder das partes e não tem carácter duradouro.

NATUREZA JURÍDICA DA ARBITRAGEM

A

arbitragem, que é a fonte da arbitragem voluntária.

tribunal arbitral, tendo como função resolver litígios através de sentenças com o mesmo valor das sentenças

análise da natureza jurídica da arbitragem leva-nos ao estudo da natureza jurídica da convenção de

doutrina considera-a um negócio jurídico. José Lebre de Freitas diz que se trata de um negócio jurídico processual, porque tem como finalidade resolver um litígio.

A

Há quem não concorde com esta asserção, porque o interesse relevante não se limita à mera resolução do litígio, mas contempla igualmente o modo de resolução do litígio, a arbitragem no seu todo.

As

partes têm o poder de convencionar a qualidade da sentença arbitral, de escolher o árbitro em função do

da sentença arbitral, de escolher o árbitro em função do seu perfil técnico, de fixar o

seu perfil técnico, de fixar o prazo de duração da arbitragem, a perservação da relação comercial com a contraparte, a fixação das regras do processo e dos parâmetros jurídicos, económicos ou outros em que a

sentença arbitral se deve situar, o que significa que, no âmbito da autonomia da vontade, não se trata apenas

de

A

lealdade, de boa fé, de cooperação entre elas e os árbitros, com vista a uma solução mais rápida e melhor para

todos.

Os efeitos da convenção de arbitragem estendem-se a terceiros não signatários, tal como acontece nas arbitragens multipartes e podem, elas próprias, ser transmitidas a terceiros, como acontece na cessão de créditos, por exemplo.

Mas, no direito comercial internacional, a situação é ainda mais gritante, pois nenhuma jurisdição estadual tem

o direito de julgar um litígio cível de comércio internacional, sobrepondo-se ou afastando a competência de outras jurisdições estrangeiras, cuja ordem jurídica esteja também conexa com o litígio.

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convenção de arbitragem, por outro lado, tem consequências para as partes, como sejam os deveres de

um negócio jurídico processual.

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Apenas a decisão das partes, ou de uma delas, em conduzir o litígio para uma

Apenas a decisão das partes, ou de uma delas, em conduzir o litígio para uma ou outra das jurisdições estaduais que aceitem competência é determinante na matéria. Aí, a convenção de arbitragem não é um negócio jurídico processual, mas um negócio cujo efeito primeiro é a atribuição à lei de arbitragem de um determinado Estado, de competência para regular a arbitragem pretendida pelas partes.

A convenção de arbitragem é, assim, um negócio jurídico de natureza substantiva, e não processual, embora instrumental da obtenção de um outro efeito jurídico a resolução de um litígio.

TESES SOBRE A NATUREZA JURÍDICA DA ARBITRAGEM

um litígio. TESES SOBRE A NATUREZA JURÍDICA DA ARBITRAGEM Existem, sobretudo, quatro teses : A JURISDICIONALISTA,

Existem, sobretudo, quatro teses: A JURISDICIONALISTA, A CONTRATUALISTA, A MISTA E A AUTONOMISTA

JURISDICIONALISTA: para esta tese, é ao Estado que pertence o controlo e regulamentação da arbitragem. Esta só existe e é reconhecida porque a lei assim o quer. Às partes, só é permitido o recurso à arbitragem porque a lei do lugar da arbitragem tolera que tal suceda. Os árbitros desempenham, assim, uma função pública, recebem directamente da lei o poder de julgar. A diferença entre o juiz e o árbitro reside apenas na nomeação pelas partes deste último.

CONTRATUALISTA: para esta corrente, a arbitragem tem carácter contratual, o Estado não tem qualquer controlo sobre a arbitragem. Só é verdadeira a arbitragem que resulta da vontade das partes. A intervenção do Estado é meramente auxiliar, quer para conferir eficácia ao processo, quer para assegurar a exequibilidade da sentença. Todo o processo, a sua razão de ser, a sua fonte ou origem, a nomeação do árbitro, as regras do processo e o direito aplicável, o impulso processual, tudo reside e tem razão de ser na vontade das partes. A sentença arbitral, também ela, não é mais do que uma emanação indirecta da vontade das partes, delegada no árbitro. Se as partes não cumprirem voluntariamente, pode ser judicialmente executada, não como um sucedâneo, com efeitos semelhantes a uma sentença, mas como um contrato. O próprio árbitro é considerado parte desse contrato que é a sentença arbitral.

MISTA: Combina um pouco das duas teses anteriores, conferindo à arbitragem uma concepção mais consentânea com a sua realidade, aglutinando elementos da tese jurisdicionalista e da contratualista.

concepção mais consentânea com a sua realidade, aglutinando elementos da tese jurisdicionalista e da contratualista.

Para eles, a arbitragem não existe sem a convenção de arbitragem, mas também não funcionaria sem elementos do direito público, que permitem que a sentença arbitral tenha a força de caso julgado, tenha o mesmo valor jurídico que uma sentença judicial e que a função jurisdicional dos árbitros seja reconhecida. O autor desta tese foi Henri Molutsky Études et Notes Sur l`Arbitrage, Écrits, vol II, Dalloz, Paris, 1974.

AUTONOMISTA: Assenta no carácter independente da arbitragem relativamente ao Estado, sobretudo a Arbitragem Comercial Internacional. Lucas Navarrete defende que a arbitragem não tem natureza contratualista, nem jurisdicionalista, mas antes processual, nascida de um negócio jurídico próprio a convenção de arbitragem. Para ele, a convenção de arbitragem não é um verdadeiro contrato que imponha às partes obrigações específicas e direito a uma prestação, tal como é próprio da natureza de um contrato.

Não explica, no entanto, o carácter obrigacional da convenção de arbitragem que liga as partes, no que respeita

à obrigação de cooperação nos trâmites de constituição do tribunal arbitral, a obrigação contratual que se estabelece entre o colectivo das partes e o colectivo dos árbitros, etc

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

A ARBITRAGEM COMO FENÓMENO SOCIOECONÓMICO A arbitragem é um fenómeno sociológico que se impôs aos

A ARBITRAGEM COMO FENÓMENO SOCIOECONÓMICO

A arbitragem é um fenómeno sociológico que se impôs aos legisladores e nos demonstra a existência de um movimento imparável, quer no domínio da arbitragem internacional, quer na doméstica.

Este fenómeno teve origem e desenvolvimento na economia e particularmente no comércio internacional, devido às suas exigências, à globalização dos mercados financeiros e comerciais, à conveniência de submeter a técnicos experientes, escolhidos pelas partes, juristas ou não, a resolução de litígios dentro de certas regras pré- acordadas ou previamente conhecidas, que evite a sua submissão aos tribunais estaduais do país de uma das partes, que seja o mais célere possível e desprovido dos formalismos jurídicos.

A

popularidade da arbitragem na área internacional acabou por influenciar as empresas, no plano doméstico,

acabou por influenciar as empresas, no plano doméstico, confrontadas com o acumular de processos nos tribunais

confrontadas com o acumular de processos nos tribunais estaduais, pela demora na sua resolução e pelo interesse em manter a confidencialidade da lide e, na medida do possível, evitar a carga psicológica do contencioso judicial, bem como a perservação da relação comercial com a contraparte.

A

judicatura (primeira instância, Tribunais Superiores de Recurso e Tribunal Supremo) em decidir os processos num prazo razoável.

A

já não estão limitadas nas suas fronteiras. A internacionalização das relações económicas é global. Sem a arbitragem e outros MARL é difícil conceber a harmonia e a segurança nas relações económicas internacionais. No entanto, para haver arbitragem, é necessário existir cultura de arbitragem e esta só existe se existirem leis actualizadas, instituições arbitrais e árbitros competentes e preparados, bem como a necessária divulgação da arbitragem e dos seus méritos no meio empresarial.

arbitragem constitui, hoje, um instrumento indispensável nas relações económicas. Os Estados e as economias

isto junta-se a crescente dificuldade dos tribunais, sobretudo quando considerados nas três instâncias da

essencial, igualmente, que exista uma relação de abertura e de cooperação com os tribunais estaduais e, sobretudo, com os magistrados da jurisdição estadual.

A

Como se sabe, compete ao Estado, através de órgãos de soberania constitucionalmente definidos, o poder de administrar a justiça em nome do povo.

A

anómalo àquele conceito, de tal forma que só os movimentos revolucionários, como foi o caso da Revolução Francesa de 1789, concederam e propalaram largamente legitimidade à arbitragem como modo de pôr termo

a

poder absoluto do Estado. Vale dizer, no entanto, que foi por efeito, primeiro da Revolução Americana e, logo depois, da Revolução Francesa que o Estado passou a ocupar-se da administração da justiça em nome do povo, através de tribunais estaduais. Até aí, a administração da justiça era feita em nome de senhores feudais, ou do rei, quando o absolutismo dominou a organização monárquica.

litígios, rompendo com os conceitos tradicionais de defesa da soberania dos Estados e, sobretudo, com o

atribuição dessa função a simples pessoas privadas, como sucede na arbitragem, encerra, em si, um desvio

É

como sucede na arbitragem, encerra, em si, um desvio É ARBITRAGEM E O PAPEL DO ESTADO

ARBITRAGEM E O PAPEL DO ESTADO

Saliente-se que a arbitragem foi sempre mal recebida pelos regimes autoritários. Disso é exemplo a regulamentação judicializante da arbitragem no CPC de 1939 e de 1961.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

O fenómeno da deslocalização da arbitragem, em resultado da globalização da economia, coloca cada vez

O fenómeno da deslocalização da arbitragem, em resultado da globalização da economia, coloca cada vez mais

em crise o conceito tradicional de caber ao Estado o monopólio da administração da justiça, quer sob a forma directa de o fazer através dos tribunais estaduais, quer indirecta de a arbitragem carecer da colaboração das instituições estaduais para a tornar eficaz, designadamente através da execução de sentenças arbitrais.

A

internacionalização das relações económicas e jurídicas descentra dos limites de um estado o fenómeno em

si,

reduzindo ou fragilizando o seu poder de controlo.

Apenas a arbitragem pode eficazmente dar resposta a esta perda de soberania nacional pelos estados no âmbito internacional. É certo que a execução das sentenças arbitrais carece da colaboração do poder judicial.do país destinatário da execução, mas, para além do facto de uma grande parte das sentenças arbitrais serem cumpridas voluntariamente, o certo é que o confinamento dos tribunais estaduais, na cena internacional ou transnacional, a meros fiscalizadores ou executores de sentenças arbitrais constitui uma grande redução da sua importância histórica. Este fenómeno deve, todavia, ser visto como um grande benefício para a comunidade e

ser visto como um grande benefício para a comunidade e para a harmonia e bem estar

para a harmonia e bem estar das pessoas. Na verdade, estão ultrapassados os modelos que concediam total predomínio à jurisdição estadual para dirimir conflitos. Os tribunais estaduais, quer no plano doméstico, quer sobretudo no plano internacional, enfrentam cada vez mais dificuldades ou carecem de meios para responder

ao

Por último, os estados e os seus contribuintes fiscais não estão interessados em dispender apreciáveis quantias

do

orçamento nacional para financiar a resolução de litígios internacionais pelos seus tribunais que não tenham

formidável aumento das relações económicas e ao aumento da sua complexidade e tecnicidade.

qualquer conexão ou tenham uma conexão muito ténue com o território ou os interesses nacionais respectivos.

De tudo isto resulta que não existe um sistema judicial com propensão universalista, para resolver litígios internacionais. Esse papel cabe à arbitragem internacional. Este aspecto marca profundamente, hoje em dia, a importância da arbitragem internacional, a qual todavia, na sua essência, não se distingue da arbitragem doméstica, nem quanto aos princípios, nem quanto à sua finalidade. Apenas as adaptações da arbitragem à

peculiaridade da cena internacional e a desnacionalização de culturas arbitrais que são próprias de cada estado

e

de culturas arbitrais que são próprias de cada estado e da sua prática de resolver litígios

da sua prática de resolver litígios justificam algumas particularidades da arbitragem internacional.

CARACTERÍSTICAS DE NOVIDADE DA ARBITRAGEM

A arbitragem aspira a constituir um modo diferente de resolução de litígios através:

- da prossecução de uma justiça diferente;

- da obtenção de harmonia nos julgados; enfim,

- da resolução de controvérsias não essencialmente jurídicas, embora com efeitos jurídicos

Como se conseguem esses objectivos?

Reduzindo o formalismo e as especiosidades dos tribunais estaduais, evitando uma jurisprudência viciada pelo julgamento do julgado precedente e pelo distanciamento à realidade subjacente ao litígio.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

A procura e escolha de competentes julgadores, a melhor compreensão por estes das regras próprias

A procura e escolha de competentes julgadores, a melhor compreensão por estes das regras próprias do

comércio e do modo como é exercido, dos seus usos e da sua tecnicidade constituem, igualmente, argumentos tradicionalmente invocados a favor da arbitragem.

Também se procura no juízo arbitral a exclusão de concepções demasiado formalistas e secamente silogísticas da aplicação da lei, tornando-o mais compreensível e adequado à realidade e à necessidade de bem resolver o litígio concreto. A abertura à equidade como critério de julgamento constitui outro dos campos importantes de que a arbitragem se pode servir.

O

constitui um importantíssimo ponto de viragem na aceitação universal da arbitragem, pese a sua longa história.

impulso dado à arbitragem pela ONU, ao promover a publicação de dois textos em favor da arbitragem,

a publicação de dois textos em favor da arbitragem, Trata-se da Convenção de Nova Iorque sobre

Trata-se da Convenção de Nova Iorque sobre o Reconhecimento e Execução de Sentenças Arbitrais Estrangeiras, celebrada em 10 de Junho de 1958, e da Lei Modelo da UNCITRAL, aprovada em 21 de Junho de 1985.

FINALIDADE DA ARBITRAGEM

A

-

interpretação de contratos;

-

-

-

A

O

critérios de equidade.

A

natureza. A sentença arbitral que determina um determinado sentido interpretativo a um contrato é obrigatória

arbitragem pode ser utilizada para os seguintes fins:

resolução de litígios;

integração de lacunas contratuais

actualização de contratos

resolução de litígios constitui a sua finalidade comum e a mais largamente procurada.

a sua finalidade comum e a mais largamente procurada. árbitro resolve litígios aplicando a lei escolhida

árbitro resolve litígios aplicando a lei escolhida ou, quando as partes assim tenham acordado, segundo

interpretação de contratos pode requerer a utilização da arbitragem sempre que o litígio assuma essa

para as partes, como qualquer outra sentença arbitral.

Igualmente a integração de lacunas contratuais pode constituir outra utilização da arbitragem.

Por fim, a actualização de um contrato de longa duração ou de execução continuada pode constituir outra forma de utilização da arbitragem.

ESPÉCIES

A

arbitragem pode ser institucionalizada ou ad hoc. A primeira é a que se realiza numa instituição arbitral, como

o

CACM, com carácter de permanência, sujeita a um regulamento próprio.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

A ad hoc acontece quando o tribunal arbitral é constituído especificamente para um determinado litígio.

A ad hoc acontece quando o tribunal arbitral é constituído especificamente para um determinado litígio. O

tribunal extingue-se após proferir a decisão, tem carácter efémero.

Os centros de arbitragem funcionam, regra geral, como órgãos administrativos, constituindo-se os tribunais arbitrais para cada litígio. O seu papel é determinante como secretaria e de decisão antes da constituição do tribunal arbitral, bem como em caso de recusa de árbitros. Não interferem, no entanto, na decisão do caso.

EVOLUÇÃO HISTÓRICA

ANTIGUIDADE CLÁSSICA

arbitragem tem uma longa história, de que se destacarão apenas as referências à arbitragem na Grécia Antiga,

em Roma e no Direito Português.

Na ILÍADA, de Homero, há referências a formas de composição de litígios que nos conduzem à ideia da arbitragem. Também Heródoto, no Sec. V A.C. demonstra familiaridade com um bem estabelecido sistema de arbitragem privada separada do sistema público de resolução de conflitos. Mais tarde, os filósofos Platão, Aristóteles, Demóstenes e o historiador Plutarco mencionaram a arbitragem privada como uma instituição bem conhecida.

A

a arbitragem privada como uma instituição bem conhecida. A Na Roma antiga, a arbitragem é substancialmente

Na Roma antiga, a arbitragem é substancialmente referida por muitos autores, dado o seu assinalável relevo no direito processual romano, tais como Cícero, Catão, Juvenal, Plauto, Plutarco, Quintiliano e Séneca. Cícero colocou em contraste a arbitragem e o judiciário, dizendo que a justiça daquela é branda, moderada, enquanto que a do judiciário é exacta e explícita. Menciona no «de Officis», Q. Fabius Labeco como sendo árbitro.

No Direito Romano, distinguia-se entre o arbitrium in viri efectuado por um arbitrator e o arbitrium ex compromisso efectuado por um arbiter. No primeiro caso, o árbitro aplicava o direito. No segundo, as partes celebravam um compromissum para submeter o feito à arbitragem privada para, assim, obterem uma decisão arbitral cujo cumprimento era assegurado por um poena, uma vez que não estava garantida a sua execução pelos órgãos da justiça. O arbitrium in viri constituía uma verdadeira arbitragem jurisdicional privada muito próxima do julgamento pelos tribunais.

privada muito próxima do julgamento pelos tribunais. Na alta Idade Média, a arbitragem privada é referida

Na alta Idade Média, a arbitragem privada é referida por muitos autores, como Acúrcio, Azo, Bártolo e Baldo.

Existem muitos textos que mencionam e continuam a distinguir o arbiter do arbitrator e, por outro lado, o arbitrator do amicabilis compositor e este do arbitrator ex aequo et bono. Quer pelo conceito, quer pela terminologia utilizada, estas fuguras não se afastam das modernas fuguras da composição amigável e da arbitragem de equidade.

A arbitragem constituía uma forma comum de resolução de litígios em Constantinopla, no final do Séc. IX. A legislaçao imperial compreendia mesmo leis arbitrais aplicáveis apenas aos judeus.

De referir que a distinção do Direito Romano entre arbitrium in viri e arbitrium ex compromisso também corresponde, nos tempos mais actuais, à distinção entre arbitragem jurisdicional, ou seja, a que tem natureza jurisdicional, equivalente à justiça dos tribunais estaduais, e a arbitragem contratual, destinada sobretudo a

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

resolver questões tais como a actualização de um contrato, o preenchimento de lacunas, o julgamento

resolver questões tais como a actualização de um contrato, o preenchimento de lacunas, o julgamento aplicando princípios da boa-fé, de justiça natural, e a equidade.

PORTUGAL

A referência aos alvidros começou a surgir na documentação a partir do Séc. XIII. Parece que a sua intervenção

se limitava a integrar lacunas ou a criar normas para suprir deficiências e não a julgar. Dominava o costume e a equidade, segundo os valores normativos da época.

e a equidade, segundo os valores normativos da época. Surgem nos estatutos municipais, os avenidores ou

Surgem nos estatutos municipais, os avenidores ou convenidores, que eram juízes investidos pelas partes. Surge assim, no direito municipal da Península Ibérica a concretização do princípio da subordinação à vontade das

partes da intervenção de árbitros na resolução de litígios, proveniente do Direito Romano e do Direito Visigótico.

garantia da execução da decisão arbitral era frequentemente dada por fiadores, o que afirma o carácter privado da arbitragem.

No Sec. XIII, quer pela influência em Portugal das Sete Partidas, compiladas e publicadas por Afonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela, quer pelas leis e posturas publicadas nos reinados da primeira dinastia de D. Dinis, D. Afonso e D. Duarte já a arbitragem e, designadamente, o papel dos alvidros aparece mais claramente definido na perspectiva do poder central.

A

liberdade de as partes submeter a árbitros qualquer tipo de litígios, cíveis ou criminais, era a regra. Do acordo

A

das partes (compromisso) dependia a submissão do litígio aos árbitros. A escolha dos alvidros, bem como o número deles e a fixação do objecto da arbitragem dependiam totalmente da vontade das partes, os tribunais

ordinários respeitavam esta opção pela arbitragem, abstendo-se de conhecer o litígio.

As ordenações Afonsinas, que vigoraram a partir de 1446, reproduziram, com algumas modificações, o regime da arbitragem descrito, em muitos aspectos não muito distante do modo como hoje é entendida e regulada a arbitragem privada, que contava com o apoio dos tribunais ordinários. Este regime provinha do Direito Romano e, designadamente do Código Justiniano, publicado no Séc. VI, que influenciou o Código Visigótico e, posteriormente, o direito municipal forâneo e o direito régio português.

o direito municipal forâneo e o direito régio português. Estas Ordenações Afonsinas distinguiam juízes árbitros

Estas Ordenações Afonsinas distinguiam juízes árbitros ou alvidros e os alvidradores. Aqueles julgavem ex jure

e

Posteriormente, as Ordenações Manuelinas publicadas em 1520 observaram, em geral, a mesma linha legislativa, embora reduzindo a autonomia da arbitragem e prevendo uma maior intervenção do poder central. As Ordenações Filipinas seguiram o regime das Ordenações Manuelinas, que se manteve em vigor até aos alvores do liberalismo no Séc. XIX.

A Revolução Francesa teve, como se sabe, um grande impacto na arbitragem, em resultado da afirmação da

posição do cidadão perante o Estado e, assim, neste particular da arbitragem, o aumento da importância desta face aos tribunais estaduais.

Os países filiados nas ideias do centralismo iluminista do poder, como foi o caso de Portugal, não permitiram a introdução imediata das ideias e práticas da Revolução Franccesa.

estes últimos segundo a equidade.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Isso só veio a ocorrer com o liberalismo, por acção da Revolução de 1820. A

Isso só veio a ocorrer com o liberalismo, por acção da Revolução de 1820.

A primeira alteração de vulto foi a consagração da arbitragem na Constituição de 1822, regime que veio a ser

seguido na Carta Constitucional dde 1826 e na Constituição de 1838. Em suma, a arbitragem teve a sua

existência reconhecida em todos os textos constitucionais durante o Séc. XIX.

A Carta Constitucional revogou a alteração introduzida pelas Ordenações Manuelinas, permitindo de novo às partes renunciar ao recurso para os tribunais estaduais.

O

próprio nos artigos 44º a 58º. Este diploma procedeu apenas a algumas alterações ao regime anterior, salientando-se a livre submissão a arbitragem de todos os litígios que admitam transacção negocial e a supressão da homologação judicial (exequatur) do laudo arbitral na arbitragem doméstica. A Lei de 1889 criou os primeiros tribunais arbitrais avindores com competência para resolver questões laborais.

Primeiro Código de Processo Civil português data de 1876, que igualmente reservou à arbitragem um lugar

data de 1876, que igualmente reservou à arbitragem um lugar As leis processuais civis do Sec.

As leis processuais civis do Sec. XX, designadamente o CPC de 1939 e o de 1961, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei nº 47.690, de 11 de maio de 1967, expressaram as convicções políticas dominantes na época face à arbitragem.

Assim, a legislação liberal foi mantida até ao CPC de 1939, altura em que a função e a importância da arbitragem foram substancialmente reduzidas. A arbitragem é judicializada, o tribunal arbitral devia ser instalado no tribunal de comarca, o processo era preparado pelo juiz de direito com o apoio dos funcionários estaduais. Os árbitros eram ajuramentados pelo juiz. A função dos árbitros estava assim reservada à instrução da causa e à prolacção do laudo arbitral. Cabiam recursos para os tribunais da Relação dos despachos e da sentença arbitral nos mesmos termos admitidos nos tribunais de comarca.

A

arbitragem no lugar onde se situa no mundo democrático globalizado actual.

partir de 1974, primeiro em 1984, depois em 1986 e finalmente em 2011, Portugal voltou a colocar a

em 1986 e finalmente em 2011, Portugal voltou a colocar a Itália Na Itália medieval, a

Itália

Na Itália medieval, a arbitragem era exercida sob os auspícios da igreja, com destaque para as episcopalis audientia e o papel dos bispos na resolução de conflitos privados. A arbitragem foi largamente utilizada na renascentista Florença, em particular nos litígios relativos ao direito de propriedade.

França

Na Idade Média, os bispos também tiveram um papel importante na arbitragem, para além dos notários e outros profissionais. A Constituição de 1792 garante aos cidadãos o direito de recurso à arbitragem para a resolução de litígios. Característica da arbitragem francesa é a amiable composition, que tende a corresponder à arbitragem de equidade.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Alemanha Existem referências históricas importantes à prática da arbitragem, em algumas cidades como Colónia,

Alemanha

Existem referências históricas importantes à prática da arbitragem, em algumas cidades como Colónia, sobretudo em assuntos tecnicamente mais complexos ou que requeressem conhecimentos contabilísticos. Praticava-se a arbitragem de questões laborais. A igreja e os seus bispos também participavam na arbitragem.

Inglaterra

País de tradição arbitral comercial, conjugada com um sentido prático de encarar a resolução de conflitos favor comercii, são abundantes os exemplos históricos da prática da arbitragem, quer em litígios domésticos, quer internacionais.

No Sec. XIX, a arbitragem constituía o modo habitual de resolução de conflitos. A reforma do processo civil em 1833 modernizou os procedimentos legais de execução judicial de sentenças arbitrais.

legais de execução judicial de sentenças arbitrais. Na primeira metade do Sec. XX, os tribunais estaduais

Na primeira metade do Sec. XX, os tribunais estaduais mantiveram uma função de supervisão da actividade arbitral, mas tentaram não interferir, com o propósito de não prejudicar a eficácia da arbitragem.

A arbitragem e a Igreja Católica

Ao longo da história, a Igreja Católica tem revelado uma atitude muito positiva para com a arbitragem e a mediação, como formas de auxiliar as populações a resolver os seus conflitos e de contrabalançar o poder dos monarcas e seus agentes na administração da justiça.

A

arbitragem comercial, tal como a conhecemos hoje, tem a sua origem e desenvolvimento na segunda metade do Séc. XX.

a

Arbitragem na Segunda Metade do Século XX

do Séc. XX. a Arbitragem na Segunda Metade do Século XX São de referir três áreas

São de referir três áreas de intervenção:

-

que afectam interesses de outro estado. Os acordos que instituíram o GATT e, mais recentemente, a criação da

na resolução de litígios entre estados soberanos. Trata-se de disputas originadas por decisões de um estado

Organização Mundial do Comércio (OMC) contribuíram para o incremento da arbitragem, através de um sistema de resolução dos litígios que pode culminar em arbitragem.

- na resolução de litígios entre um estado soberano e uma empresa privada estrangeira investidora nesse

estado. Os grandes investimentos, quer os contratados entre um estado e uma empresa privada, quer a protecção em geral de investimentos internacionais efectuados num estado, carecem de acentuada protecção concedida àquela, sob pena de poder ficar à mercê do exercício abusivo do poder político pelo estado receptor, com reflexos nas condições de execução do contrato.

A Convenção de Washington de 1965, instituiu o ICSID (International Centre for the Settlement of Investment Disputes), destinado à resolução de litígios nesse âmbito com o recurso a arbitragem.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

As partes podem, em lugar de escolher o ICSID, eleger outra instância de arbitragem, constituída

As partes podem, em lugar de escolher o ICSID, eleger outra instância de arbitragem, constituída ad hoc ao abrigo da Lei-Modelo da UNCITRAL ou uma câmara arbitral internacional.

- na resolução de litígios entre empresas ou entidades privadas em geral. Foi, sobretudo, a partir da publicação de algumas leis de arbitragem, na Europa ocidental e nos Estados Unidos, que a arbitragem teve, no Século XX, na sua segunda metade, o principal impulso para o seu desenvolvimento. A lei inglesa de 1979 sobre arbitragem voluntária e as reformas do CPC francês de 1980 (arbitragem doméstica) e de 1981 (arbitragem internacional) constituíram os catalizadores das leis nacionais europeias sobre arbitragem comercial.

No plano Mundial, a UNCITRAL, criada por deliberação da Assembleia Geral das Nações Unidas de 17 de Dezembro de 1966, tem por finalidade promover a publicação de textos internacionais sobre o comércio internacional. Publicou uma Lei-Modelo de Arbitragem em 1985, alterada em 2006. Ela constitui, simultaneamente, um modelo de lei de arbitragem nacional dos estados que a queiram adoptar ou nela se inspirar e uma forma de uniformização ou de aproximação de textos legislativos dos estados que nela se queiram basear. Posteriormente, a UNCITRAL publicou uma regulamentação de arbitragem ad hoc no âmbito do direito comercial internacional.

ad hoc no âmbito do direito comercial internacional. Tem sido grande a importância dos textos jurídicos

Tem sido grande a importância dos textos jurídicos internacionais preparados e publicados por aquela instituição que muito têm contribuído para a consolidação e desenvolvimento da moderna arbitragem comercial. A UNCITRAL também publicou o Regulamento de conciliação de 1980 e a Lei-Modelo sobre a Conciliação Comercial Internacional, de 2002.

Até data não muito distante, isto é, nos anos sessenta e setenta do Século XX, a arbitragem internacional era vista com muita desconfiança fora da Europa Ocidental e da América do Norte.

Nos Páises da América Latina era considerada uma intromissão na soberania dos Estados. Nos países em vias de desenvolvimento, incluindo países árabes e africanos, uma forma de imposição utiizada pelo capitalismo internacional. Nos países socialistas do leste da Europa, um meio de reolver por via estatizante conflitos comerciais dentro do COMECON e, por vezes, na área internacional. Na China e no Japão, a mediação e a conciliação, por razões de ordem religiosa ligadas à doutrina confuciana, tinham historicamente a primazia sobre os meios contenciosos, incluindo a arbitragem.

ligadas à doutrina confuciana, tinham historicamente a primazia sobre os meios contenciosos, incluindo a arbitragem.

Foi a progressiva abertura de fronteiras comerciais e do aumento do comércio internacional que fez crescer a arbitragem internacional. Para além das questões de direito marítimo e de compra e venda internacional de mercadorias, a arbitragem começou gradualmente a ser utilizada na resolução de litígios em grandes contratos de construção e hoje está generalizada a grande parte dos contratos internacionais.

No futuro, a arbitragem e a mediação assumirão um papel cada vez mais relevante e necessário, quer internacionalmente, quer dentro de cada país. O reconhecimento pelo legislador e pelos próprios magistrados de tribunais estaduais do grande papel da arbitragem e de outros meios de resolução de litígios no descongestionamento da actividade judicial conhece hoje momentos de grande relevo como nunca antes conheceu no decurso da sua longa história.

O futuro passará, inevitavelmente, pelo ciberespaço. Não é difícil de imaginar que os processos arbitrais possam vir a ser integralmente conduzidos por via da Internet, mediante a utilização de recursos electrónicos, como as videoconferências. Recentemente, uma deliberação do Conselho da União Europeia de 22 de Abril de 2013, aprovou um regulamento sobre resolução de litígios online o ODR on line dispute resolution, e a directiva

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

sobre meios alternativos de resolução de litígios entre consumidores de bens e serviços e fornecedores

sobre meios alternativos de resolução de litígios entre consumidores de bens e serviços e fornecedores residentes no território da União Europeia. Perante um espaço geográfico vasto, a Internet e outros meios de telecomunicação auxiliares poderão ser as infraestruturas necessárias para que a mediação e a arbitragem possam ser efectuadas sem implicar a necessidade de longas deslocações de pessoas ou de suportes documentais dos processos que serão totalmente desmaterializados.

OS ANTECEDENTES DA RESOLUÇÃO ALTERNATIVA DE LITÍGIOS

OS ANTECEDENTES DA RESOLUÇÃO ALTERNATIVA DE LITÍGIOS (Na óptica de Mariana França Gouveia) Nota: A evolução

(Na óptica de Mariana França Gouveia)

Nota: A evolução histórica que referi antes foi retirada do livro do Dr. Manuel Barrocas. Por considerar que seria importante acrescentar a perspectiva apresentada pela Dra. Mariana Gouveia, achei por bem incluir o capítulo que se segue, dados os novos ensinamentos nele contidos.

Apenas extraí a parte relativa ao período posterior aos anos sessenta do Século XX.

resolução alternativa de litígios está ligada aos Critical Legal Studies, um movimento crítico da lei que surgiu nos Estados Unidos da América no fim dos anos 60. O movimento tem origem essencialmente poítica, querendo

A

com isto dizer que surgiu da constatação de que o Direito não era um saber neutral (como a Física ou a Matemática), mas carregado de ideologia e programa. Era a expressão de uma vontade todas as opções jurídicas constituíam escolhas políticas.

Esta constatação revolucionária tem consequências importantes ao nível do acesso à justiça. Reconhece-se a insuficiência dos mecanismos oficiais de aplicação do Direito (legislado) e promove-se o conhecimento e a reintegração de mecanismos comunitários de justiça. A auto-composição e os meios para a alcançar são analisados e valorizados, procurando-se colocá-los em plano de igualdade face à justiça tradicional.

a alcançar são analisados e valorizados, procurando-se colocá-los em plano de igualdade face à justiça tradicional.

Em 1976, numa conferência sobre administração da justiça, Frank Sander, professor da Universidade de Harvard, defendeu a ideia da diversidade dos meios de resolução de litígios, lançando a ideia da criação de um tribunal multi-portas, um centro de resolução de litígios com diversas ofertas. O tribunal multi-portas teria diversos serviços de resolução de litígios, como a mediação, a conciliação, a arbitragem ou a investigação dos factos. A proposta de Sander atraiu várias pessoas e movimentos, quer aqueles que procuravam uma solução para a falta de eficiência da justiça, quer aqueles que, em crítica ao direito oficial, buscavam vias alternativas de resolução de litígios.

Assim se transpunha finalmente o pluralismo jurídico para o plano processual, assim se fundava o pluralismo processual.

O movimento não parou de ganhar adeptos nos Estados Unidos da América e na Europa

É neste contexto, de crítica e de crise do Direito, que a resolução alternativa de litígios deve ser primeiramente

colocada. A resolução alternativa de litígios é, antes de tudo, o reflexo processual do pluralismo jurídico. É um

instrumento de diálogo entre as pessoas e as tradições e, por isso, uma via de profundamento da nossa democracia.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Mas há ainda outras razões, para além da evolução do pensamento jurídico e da crise

Mas há ainda outras razões, para além da evolução do pensamento jurídico e da crise da justiça, que contribuem para o aparecimento e desenvolvimento recente dos meios de resolução alternativa de litígios.

O esquema tradicional de Justiça é, por norma e assumidamente, um sistema afastado do cidadão. Em regra,

este necessita de um interlocutor para fazer valer os seus direitos, na medida em que há obrigatoriedade de constituição de advogado em casos de valor não muito considerável. Este patrocínio judiciário obrigatório justifica-se por razões históricas e antropológicas, mas nos dias de hoje a justificação é antes de mais uma

necessidade: dada a complexidade do sistema jurídico é praticamente impossível a um não jurista defender a

sua posição. Assim, mesmo nos casos em que o patrocínio judiciário não é obrigatório, verifica-se cada vez mais

a representação por advogado.

Repare-seque as partes, em processo civil, não podem sequer falar. A única possibilidade de dirigirem palavra ao tribunal é através do depoimento de parte, cuja exclusiva finalidade é a obtenção de confissão. Ou seja, em processo civil apenas tem valor aquilo que as partes dizem contra si próprias.

A

pretendem dominá-los, controlando quer o processo, quer a solução. O mundo em que hoje vivemos terá seguramente defeitos, mas tem a vantagem de ter trazido às pessoas a legitimidade de decidir e a possibilidade de discordar. A autoridade já não é suficiente para a aceitação de uma decisão. O cidadão exige a explicação e exige ser convencido por ela.

consequente marginalização do cidadão tornou-se insustentável cm a evolução social os donos dos conflitos

cm a evolução social – os donos dos conflitos resposta a estas exigências encontra-se em alguns

resposta a estas exigências encontra-se em alguns meios de resolução alternativa de litígios, em especial na mediação, onde as partes são colocadas no domínio do litígio. Não apenas quanto ao seu desfecho, mas também

A

e sobretudo quanto ao processo que a ele conduz.

A adesão das pessoas a sistemas de mediação ou similares tem a ver com a possibilidade de dominar o conflito.

Em conclusão, a razão do nascimento dos meios de resolução alternativa de litígios reside na crise do direito e da justiça oficial e no crescente deejo do cidadão de participar na resolução dos seus conflitos

O

crescimento do mercado e a sua internacionalização progressiva, a partir do Século XIX, trouxe alguma

progressiva, a partir do Século XIX, trouxe alguma dificuldade na imposição de sanções pelo incumprimento

dificuldade na imposição de sanções pelo incumprimento das decisões arbitrais. É apenas neste momento que

os diversos estados começam a intervir na arbitragem, através da aprovação de diplomas que a regulam.

A

dos grandes comerciantes. As duas maiores instituições europeias de arbitragem internacional, a London Court

arbitragem comercial internacional aparece, assim, no período liberal como uma espécie de jurisdição privada

of Iinternational Arbitration e a Câmara de Comércio Internacional, são fundadas precisamente em finais do Século XIX, início do Século XX.

A importância da arbitragem internacional não parou, desde então de crescer, tendo como marco decisivo a

aprovação da Convenção de Nova Iorque de 1958 sobre o Reconhecimento e Execução de Sentenças Arbitrais Estrangeiras.

Estima-se hoje que mais de noventa por cento dos contratos internacionais contêm convenções de arbitragem.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

I – A CONVENÇÃO DE ARBITRAGEM – O COMPROMISSO ARBITRAL E A CLÁUSULA COMPROMISSÓRIA A

I A CONVENÇÃO DE ARBITRAGEM O COMPROMISSO ARBITRAL E A CLÁUSULA COMPROMISSÓRIA

A convenção de arbitragem é o acordo entre as partes de submeter a arbitragem um litígio eventual ou actual.

Tem natureza contratual, por ser um negócio jurídico bilateral. É a convenção que determina a jurisdição do

tribunal arbitral, que só tem competência quando o litígio que lhe é submetido está integrado na convenção de arbitragem.

Em arbitragem. A convenção é de fundamental importância, porque os poderes do tribunal só existem se e onde houver contrato. O tribunal arbitral só tem a competência se o litígio estiver contemplado na convenção arbitral.

A

Como se pode observar, a matéria está dispersa entre dois capítulos e, além disso, intercalada com uma norma,

a

Transcrevemos a seguir as normas acima referidas, para efeitos de melhor nos situarmos:

ARTIGO 4 (Objecto)
ARTIGO 4
(Objecto)

matéria é tratada no Capítulo II da Lei nº 11/99, de 8 de Julho, nos artigos 4, 10, 11, 12, 14 e 15.

do artigo 13, que não parece estar devidamente enquadrada, sistematicamente.

As partes interessadas podem submeter a solução de todos ou alguns dos seus litígios ao regime de

1.

arbitragem, mediante convenção expressa de arbitragem.

2. A convenção de arbitragem pode ter por objecto qualquer litígio actual, ainda que tenha sido interposta acção em tribunal judicial e em qualquer estado do processo designando-se, nesse caso, por compromisso arbitral, ou qualquer litígio eventualmente emergente de uma determinada relação jurídica contratual ou extracontratual designando-se, então, por cláusula compromissória.

3.

As partes podem acordar em considerar abrangidas no conceito de litígio, para além das questões

abrangidas no conceito de litígio, para além das questões de natureza contenciosa, em sentido estrito, quaisquer

de natureza contenciosa, em sentido estrito, quaisquer outras, designadamente as relacionadas com a necessidade de precisar, completar, actualizar ou mesmo rever os contratos ou as relações jurídicas que

estão na origem da convenção.

CAPÍTULO II

Convenção arbitral

ARTIGO 10

(Requisitos da convenção)

1. A convenção de arbitragem deve ser reduzida a escrito

2. Considera-se reduzida a escrito, a convenção de arbitragem constante de documento assinado pelas

partes ou de uma troca de cartas, telex, fax ou outro meio de comunicação que prove a sua existência

na qual a existência de uma tal convenção foi alegada por uma parte e não contestada pela outra.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

3. A referência, num contrato, a um documento que contenha uma cláusula compromissória, equivale a

3. A referência, num contrato, a um documento que contenha uma cláusula compromissória, equivale

a uma convenção de arbitragem, desde que o referido contrato revista forma escrita e a referência

seja feita de tal modo que faça da cláusula uma parte integrante do contrato.

4. O compromisso arbitral deve determinar com precisão o objecto do litígio actual; a cláusula

compromissória deve especificar a relação jurídica a que os litígios eventualmente emergentes

respeitem.

5. Nos contratos de adesão a cláusula compromissória só é eficaz se o aderente tomar a iniciativa de

instruir a arbitragem ou concordar, expressamente com a sua instituição.

ARTIGO 11 ARTIGO 12 (Excepção de arbitragem)
ARTIGO 11
ARTIGO 12
(Excepção de arbitragem)

(Autonomia da cláusula compromissória)

A

inserta e a nulidade deste não implica automaticamente a nulidade daquela.

cláusula compromissória é autónoma em relação as outras cláusulas do contrato em que estiver

1.A convenção arbitral implica a renúncia das partes a iniciar processo judicial sobre as matérias ou controvérsias submetidas à arbitragem, sem prejuízo do disposto no nº 4 do presente artigo.

2.

convenção de arbitragem, se uma das partes o solicitar até ao momento em que apresentar as suas primeiras alegações quanto ao fundo da causa, deve remeter as partes para a arbitragem, a menos que constate que a referida convenção se tornou caduca ou insusceptível de ser executada.

3.

Quando tiver sido proposta, num tribunal judicial, uma acção referida no número anterior do

O tribunal judicial no qual foi proposta uma acção relativa a uma questão abrangida por uma

uma acção relativa a uma questão abrangida por uma presente artigo, o processo arbitral pode, apesar

presente artigo, o processo arbitral pode, apesar disso, ser iniciado ou prosseguir e ser proferida uma sentença, enquanto a questão estiver pendente no tribunal.

4.

Sem prejuízo do disposto no presente artigo, a solicitação de medidas provisórias feitas por uma das

partes a um tribunal judicial antes ou durante o processo arbitral, bem como a concessão de tais medidas pelo referido tribunal não é incompatível com uma convenção de arbitragem.

ARTIGO 13

(Renúncia à arbitragem)

1. As partes podem renunciar à arbitragem expressa ou tacitamente, recorrido à via judicial.

2. As partes renunciam expressamente à arbitragem mediante comunicação escrita dirigida ao

tribunal, observado o previsto na presente lei quanto à formalização da convenção arbitral.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

3. Em caso de renúncia por alguma das partes, não sendo obtido o acordo das

3. Em caso de renúncia por alguma das partes, não sendo obtido o acordo das restantes no prazo de

quinze dias, contados a partir da notificação pelo renunciante, a convenção de arbitragem mantém-

se válida e eficaz.

4. Presume-se renúncia tácita quando uma das partes, sendo demandada judicialmente pela outra,

não oponha a excepção de arbitragem, conforme estabelecido na presente lei.

5. O requerimento de uma das partes ao tribunal judicial para a adopção de medidas nos termos do

nº 4 do artigo 12 da presente lei ou concessão, pelo tribunal, das medidas referidas, não se considera renúncia tácita.

ARTIGO 14 (Caducidade) ARTIGO 15 (Nulidade da convenção)
ARTIGO 14
(Caducidade)
ARTIGO 15
(Nulidade da convenção)

1.A convenção arbitral caduca:

a)se, até à constituição do tribunal arbitral, as partes acordarem a sua revogação;

b) se algum dos árbitros falecer, se escusar, se impossibilitar de exercer as funções ou se a nomeação ficar sem efeito, desde que não seja substituído nos termos do artigo 23 da presente lei;

c) se os árbitros não proferirem a decisão dentro do prazo fixado na convenção ou em escrito posterior ou, quando não tenha sido fixado, dentro do prazo referido no nº 2 do artigo 35.

É nula a convenção de arbitragem celebrada com violação do disposto na presente lei quanto a legitimidade, âmbito e exclusões da arbitragem.

quanto a legitimidade, âmbito e exclusões da arbitragem. NATUREZA JURÍDICA E AUTONOMIA DA CONVENÇÃO DE ARBITRAGEM

NATUREZA JURÍDICA E AUTONOMIA DA CONVENÇÃO DE ARBITRAGEM

A

futuros a um tribunal arbitral. A convenção de arbitragem é um negócio jurídico. As partes podem livremente celebrá-la e, respeitando os limites da lei, podem também livremente acordar o seu conteúdo. É, assim, um acto de autonomia privada, para o qual as partes têm liberdade de celebração e estipulação, a que se aplica o regime geral do negócio jurídico, com as especialidades ditadas pela sua natureza e pela existência de uma regulação legal especial, de origem nacional ou internacional.

É hoje unânime a aceitação do princípio da autonomia da convenção de arbitragem em relação ao contrato

principal. Segundo este princípio, a validade e a eficácia da convenção de arbitragem não são afectadas pelas

vicissitudes do contrato em que está inserida, pelo que os vícios do contrato principal não abrangem automaticamente a convenção de arbitragem. O princípio está consagrado no artigo 11 da Lei nº 11/99, de 8 de Julho.

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convenção de arbitragem é o acordo pelo qual as partes se vinculam a submeter os litígios existentes ou

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

A convenção de arbitragem pode ser utilizada, não só nos casos de invalidade do contrato

A convenção de arbitragem pode ser utilizada, não só nos casos de invalidade do contrato principal, mas o seu

âmbito abrange também as situações em que o contrato ainda não tenha começado a produzir efeitos, nos casos em que se suscita uma arbitragem relativa à validade ou interpretação de um contrato sujeito a uma condição suspensiva que ainda não se verificou ou ainda aos que tenham cessado por resolução ou caducidade.

A autonomia da convenção de arbitragem constitui, para Fouchard Gaillard Goldman, o princípio legal

fundamental das convenções internacionais de arbitragem, que deu origem a outro princípio fundamental, que

é o da competência-competência, previsto no artigo 37 da Lei nº 11/99, de 8 de Julho.

previsto no artigo 37 da Lei nº 11/99, de 8 de Julho. ESTRUTURA E EFEITOS convenção

ESTRUTURA E EFEITOS

convenção de arbitragem deve conter a expressão da vontade das partes de que os litígios sejam resolvidos por arbitragem; a indicação dos litígios entre as partes que serão resolvidos por arbitragem.

Se

A

se tratar de uma cláusula compromissória, basta indicar a relação jurídica da qual o litígio pode emergir. Se

for um compromisso arbitral, deve ser identificada a causa de pedir, ainda que não se identifiquem os pedidos.

Ex: todos os litígios referentes à validade, execução e interpretação deste contrato serão submetidos a

arbitragem

Ou

Todos os litígios emergentes deste contrato serão resolvidos por um tribunal arbitral.

Compromisso Arbitral, Exemplo:

O

do

litígio relativo à indemnização de clientela que a parte x considere ser-lhe devida pela denúncia, pela parte Y,

contrato de agência celebrado entre ambas em 1 de Janeiro de 2014, será resolvido por um tribunal arbitral.

Janeiro de 2014, será resolvido por um tribunal arbitral. ELEMENTOS FACULTATIVOS : - a opção por

ELEMENTOS FACULTATIVOS:

- a opção por arbitragem ad hoc ou institucionalizada;

- a escolha do direito aplicável à convenção de arbitragem;

- a escolha do direito aplicável ao processo arbitral;

- a escolha do direito aplicável ao litígio;

- a atribuição aos árbitros da faculdade de decidirem segundo a equidade;

- a determinação da localização da arbitragem;

- a fixação do número de árbitros;

- a designação ou o modo de escolha dos árbitros;

- a escolha do presidente do tribunal;

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

- o modo de substituição de árbitros; - os critérios de recusa dos árbitros; -

- o modo de substituição de árbitros;

- os critérios de recusa dos árbitros;

- a determinação das regras de processo;

- a fixação dos efeitos da revelia;

- a fixação de uma maioria qualificada para a decisão;

- o prazo para a prolacção da decisão arbitral e o modo de o contar;

a prolacção da decisão arbitral e o modo de o contar; - a possibilidade de recurso

- a possibilidade de recurso da decisão arbitral;

- a língua da arbitragem;

.- a designação ou fixação do modo de escolha dos auxiliares do tribunal;

- a fixação da remuneração dos árbitros ou os critérios dessa fixação;

- o critério de repartição dos encargos com a remuneração dos árbitros e com as despesas do processo.

As partes não investem, em regra, na elaboração da convenção de arbitragem, a qual, em geral, apenas diz que os litígios emergentes de um contrato serão resolvidos por arbitragem ou então, resume-se a indicar o número de árbitros e o modo como são escolhidos, a sede da arbitragem, o regime dos recursos e o prazo da decisão.

Nas arbitragens ad hoc, as partes têm um poder mais amplo para modelar as cláusulas de arbitragem do que nas arbitragens institucionalizadas. Nestas, a remissão para os regulamentos das instituições limita grandemente a liberdade das partes.

É usual os centros de arbitragem sugerirem aos interessados um modelo de cláusula compromissória.

aos interessados um modelo de cláusula compromissória. A Câmara de Comércio Internacional de Paris, por exemplo,

A Câmara de Comércio Internacional de Paris, por exemplo, propõe a seguinte cláusula:

« todos os litígios emergentes do presente contrato ou com ele relacionados serão definitivamente resolvidos de acordo com o Regulamento de Arbitragem da Câmara de Com~ercio Internacional, por um ou mais árbitros nomeados nos termos desse Regulamento».

O London Court of International Arbitration sugere maior pormenor: « Any dispute arising out or in

connection with this contract, including any question regarding its existence, validity or termination, shall be referred and finally resolved by arbitration under the LCIA Rules, which Rules are deemed to be incorporated by reference into this clause. The number of arbitrators shall be (one/three). The seat, or legal place, of arbitration shall be (City and/or Country). The language to be used in the arbitral

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

proceedings shall be (…). The governing law of the contract shall be the substantive law

proceedings shall be (…). The governing law of the contract shall be the substantive law of (…).

A maior parte das vezes, não é prestada a devida atenção à redacção da cláusula compromissória no contexto do contrato. As partes e os seus advogados estão, naturalmente, mais preocupados em utilizar a sua energia negocial para as obrigações contratuais nucleares, não pretendendo, também, dar a ideia de que pretendem incumprir o contrato ou de que vêm a outra parte como incumpridora. A negociação das cláusulas arbitrais é neglicenciada ou deixada para último lugar, sendo por isso, na gíria contratual, conhecidas como as cláusulas da meia-noite ou champanhe.

Esta falta de cuidado pode ter resultados desastrosos, porque, no momento em que surge o litígio, uma cláusula arbitral defeituosa traz, em regra, dificuldades geradoras de atrasos e custos evitáveis. Quando as partes se desentendem, tudo aquilo que puder ser utilizado como argumento contra a resolução do litígio, será seguramente utilizado.

a resolução do litígio, será seguramente utilizado. Requisitos de validade A convenção de arbitragem tem de

Requisitos de validade

A convenção de arbitragem tem de constar de um contrato. Portanto a convenção de arbitragem tem de ser sempre um negócio jurídico bilateral já que esta cria um tribunal para ambas as partes. Deve haver um acordo entre as partes.

Quanto à capacidade, qualquer pessoa capaz pode celebrar uma convenção de arbitragem. Não podem celebrar uma convenção de arbitragem os menores não emancipados, os interditos e os inabilitados.

Em relação aos cônjuges, qualquer dos cônjuges, pode celebrar uma convenção de arbitragem sozinho; o cônjuge que não participa, após a sentença terá meios de se opôr.

No caso do mandato, este não poderá ser um mandato geral nos termos do direito civil. Assim o mandatário deve estar munido de poderes para transigir. O mesmo já não acontece com os gerentes de comércio que podem celebrar validamente uma convenção de arbitragem.

podem celebrar validamente uma convenção de arbitragem. Os grupos de sociedades, porque não têm personalidade

Os grupos de sociedades, porque não têm personalidade jurídica não podem celebrar validamente uma convenção de arbitragem.

Nas sociedades, associações e fundações não é preciso uma deliberação dos sócios, nem da assembleia geral, bastando que actue quem as representem (administradores) para que a convenção de arbitragem seja válida.

O Estado pode de uma maneira geral ser parte numa convenção de arbitragem, podendo no entanto tal participação estar condicionada por exemplo a uma autorização do governo.

No domínio da arbitragem internacional, a capacidade das partes será a que for estabelecida pelo seu domicílio, residência habitual ou estabelecimento principal, salvo se a lei Moçambicana for mais favorável.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Forma Deve revestir a forma escrita, podendo constar de um documento assinado pelas partes, por

Forma

Deve revestir a forma escrita, podendo constar de um documento assinado pelas partes, por fax, telex ou outro meio e comunicação que prove a sua existência. A convenção de arbitragem pode constar de dois documentos distintos, não tem de constar do contrato, podendo estar num documento distinto deste. A forma do contrato não altera os requisitos formais da convenção de arbitragem. Mesmo que para o contrato não se exija a forma escrita, a convenção de arbitragem tem de seguir sempre a forma escrita.

A convenção de arbitragem tanto pode constar do próprio contrato, como de um documento qualquer. Se esse

documento forem cláusulas contratuais gerais, esta questão será resolvida segundo o regime das cláusulas

contratuais gerais.

a convenção poder

A

convenção de arbitragem que não revista a forma escrita é nula, sem prejuízo inicialmente ter forma oral, e depois ser convertida num documento escrito.

de
de

Alterações à convenção de arbitragem

A

de um contrato e esse é alterado, este novo contrato continua vinculado à convenção de arbitragem inicialmente acordada. No entanto, se as partes decidirem fazer novo contrato, então a anterior já não serve para este contrato devendo ser celebrada nova convenção de arbitragem.

convenção de arbitragem pode ser alterada por acordo das partes. Se uma convenção de arbitragem consta

Tempo para a celebração da convenção de arbitragem.

A

celebrado mesmo que já exista o litígio e uma acção judicial a correr no tribunal.

convenção de arbitragem pode ser celebrada até ao aparecimento de um litígio. O compromisso pode ser

até ao aparecimento de um litígio. O compromisso pode ser Quando se insere num contrato uma

Quando se insere num contrato uma convenção de arbitragem após ter surgido o litígio, essa cláusula funcionará apenas como cláusula compromissória. Esta convenção não abrange litígios existentes mas litígios futuros.

Arbitrabilidade do litígio

Para que a convenção de arbitragem seja válida tem que haver um litígio arbitrável. Tal é também condição para

a

Se houver uma sentença sobre um litígio que não seja arbitrável, então esta sentença será anulável. A Arbitrabilidade do litígio é de conhecimento oficioso.

A lei fixa casos em que o litígio tem de ser resolvido pelos tribunais estatais e não pela arbitragem. Outros ainda

em que a lei admite que um determinado litígio possa ser resolvido por arbitragem, mas não por arbitragem voluntária. Também estão afastados da arbitragem aqueles litígios que digam respeito a direitos indisponíveis ou não transaccionáveis.

constituição de um tribunal.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Estão sujeitos a arbitragem todos os litígios de direito privado. Seja matéria de direito civil

Estão sujeitos a arbitragem todos os litígios de direito privado. Seja matéria de direito civil ou comercial bem como matéria que diga respeito à responsabilidade contratual e extracontratual.

A arbitragem interna rege-se pela lei do país. Nos litígios internacionais as partes têm a faculdade de escolher

a lei a aplicar.

As questões de ordem pública podem também ser sujeitas a arbitragem. Os árbitros têm que resolver a questão de acordo com normas imperativas, mesmo que as partes tenham convencionado que a questão será resolvida segundo juízos de equidade.

No âmbito da arbitragem internacional as matérias de ordem pública podem ser sempre ressalvadas pela aplicação de normas de aplicação necessária e imediata, portanto normas do direito público, que têm de ser sempre aplicadas independentemente da lei competente.

de ser sempre aplicadas independentemente da lei competente. Por força do artigo 49 nº2 da Lei

Por força do artigo 49 nº2 da Lei 11/99, a matéria ligada à execução de sentenças é inarbitrável. Portanto as partes não podem submeter a arbitragem matéria sobre a execução. O tribunal arbitral não tem competência para executar as suas próprias sentenças, nem as dos tribunais judiciais. Mesmo em matéria da oposição à execução. O tribunal é incompetente.

Conteúdo da convenção de arbitragem

Temos um conteúdo obrigatório e outro facultativo. São de conteúdo obrigatório aquelas cláusulas pelas quais as partes expressam a sua vontade de submeter um determinado litígio a arbitragem. Pode mesmo ser uma promessa de arbitragem. Por outro lado, com a convenção de arbitragem as partes não precisam de expressar claramente que pretendem afastar a jurisdição estatal, bastando que digam que pretendem submeter o litígio

a arbitragem.

As normas de conteúdo facultativo não fazem parte do conteúdo eventual da arbitragem e na sua ausência funcionam normas que permitem estipulação facultativa.

funcionam normas que permitem estipulação facultativa. Elementos acessórios Nos negócios jurídicos podem ser

Elementos acessórios

Nos negócios jurídicos podem ser integrados elementos acessórios que estão subordinados às regras gerais. Pex podem as partes fazer constar no contrato que antes de o litígio ser submetido à arbitragem terão recurso à mediação e conciliação.

Podem ainda as partes estipular uma caducidade convencional, ao fixar um prazo no qual a arbitragem terá de se iniciar sob pena de caducar o direito. Ou podem ainda estipular a convenção de arbitragem caso uma das partes morra. Pode ainda ser fixado um prazo para que a decisão seja proferida. (ex. artº 14º).

O compromisso arbitral deve determinar com precisão o objecto do litígio. O objecto define-se pelo pedido e pela causa de pedir. Para além disso, no compromisso devem ser determinadas as partes.

A cláusula compromissória deve especificar a relação jurídica a que os litígios eventualmente emergentes digam respeito.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

As partes podem pedir a alteração do pedido ou da causa de pedir, havendo acordo.

As partes podem pedir a alteração do pedido ou da causa de pedir, havendo acordo.

Não havendo acordo, desde que essa alteração não ultrapasse o âmbito de convenção de arbitragem, nada impede que se altere o pedido ou a causa de pedir.

As partes podem, na convenção de arbitragem, fixar elas próprias o objecto do litígio.

Não havendo concordância quanto a este aspecto, podem as partes solicitar a um organismo institucionalizado

a determinação do objecto do litígio.

Embora haja alguma legislação que permita que as partes se socorram dos tribunais judiciais para fixar o objecto do litígio, devemos, sempre que possível, evitar o recurso aos tribunais estatais, a fim de evitar mais demoras.

aos tribunais estatais, a fim de evitar mais demoras. Quanto à cláusula compromissória e ainda de

Quanto à cláusula compromissória e ainda de acordo com o artº10 nº4 da Lei 11/99, esta deve especificar a relação jurídica a que os litígios eventualmente emergentes digam respeito. Por esta razão, a cláusula compromissória deve ter um objecto determinado, não sendo admitida uma cláusula do género. “todos os litígios ocorridos entre A e B serão resolvidos pela via de arbitragem”

A

Em relação aos litígios anteriores à celebração do contrato, a cláusula compromissória não abrange a responsabilidade extracontratual. Logo não se aplica.

cláusula compromissória deve abranger litígios anteriores ou posteriores à celebração do contrato?

Se houver no contrato, mesmo que este seja nulo, a convenção de arbitragem pode abranger os efeitos deste contrato e o tribunal pode mesmo pronunciar-se sobre a validade do contrato. Portanto, a cláusula compromissória abrange todos os litígios que incidam sobre o contrato e aqueles que incidam sobre a responsabilidade pós-contratual, pois, mesmo que cumpridos os deveres principais podem, terminado o contrato, permanecer deveres acessórios, como p.ex. os deveres de não concorrência, ou a obrigação de entrega de documentos.

concorrência, ou a obrigação de entrega de documentos. Unilateralidade ou reciprocidade da convenção de

Unilateralidade ou reciprocidade da convenção de arbitragem

Pode uma ou ambas as partes optar pela arbitragem, portanto, enquanto uma das partes pode conservar a opção pelo recurso aos tribunais estatais, a outra parte pode optar pelo recurso à arbitragem sem que tal seja tido como um tratamento diferenciado. Do mesmo modo, uma das partes tem o direito de vetar o recurso à arbitragem, mesmo que esta já se tenha iniciado. O veto só não é admitido quando haja sentença.

A convenção de arbitragem não tem de ser total, i.é., as partes podem determinar a que parte do litígio se aplica

a arbitragem. Pex: ao incumprimento.

Interpretação de cláusula de arbitragem

A cláusula de arbitragem é um contrato e como tal deve ser interpretada, pelo que tendem a valer os princípios

do artº 287º do C.Civ. sobre a interpretação.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Deve, no fundo, ter em conta o sentido das palavras no ramo do comércio em

Deve, no fundo, ter em conta o sentido das palavras no ramo do comércio em causa. Há ainda que olhar para

as relações existentes entre as partes, pois podem já existir outras cláusulas compromissórias decorrentes de anteriores relações entre as partes e por isso pode-se tirar o sentido que as partes pretenderem dar a uma determinada cláusula.

A Cláusula compromissória, como já foi referido, é inserida no próprio contrato, sendo prevista para a resolução

de litígios que emergirão no futuro. Como tal, a primeira decisão que as partes devem ter em linha de conta será precisamente a de ponderarem sobre a inclusão ou não desta cláusula nos seus contratos.Esta cláusula por

ser autónoma em relação às inseridas no contrato , é válida mesmo que o contrato seja nulo. E, como tal, liberta

partes da incerteza quanto à forma e local de resolução do litígio e permite a estas a obtenção de uma decisão judicial que as force a submeter o litígio a arbitragem.O último aspecto encontra-se consagrado tanto interna como externamente.

as

encontra-se consagrado tanto interna como externamente. as Em relação ao objecto do litígio, a cláusula

Em relação ao objecto do litígio, a cláusula compromissória tem uma eficácia idêntica à do compromisso arbitral, com a diferença que esta versa sobre o pendente e aquela sobre o litígio futuro.

A

Cabe às partes discutir e fixar por acordo o objecto do litígio no acto de nomeação de árbitros resolvendo o juiz

na falta desse acordo.

A capacidade das partes em sentido amplo é o único requisito para que se possa celebrar a cláusula

compromissória

A

prática corrente exige também que tenha os seguintes requisitos básicos: indicação do árbitro ou da instituição arbitral; lugar da arbitragem; direito aplicável ao caso; o idioma a ser usado e a opção entre arbitragem institucionalizada ou ad hoc.

complexidade desta varia de acordo com a vontade das partes . Exige-se que seja feita por escrito sendo que

a

cláusula compromissória tal como o compromisso arbitral vincula as partes à resolução de litígios por árbitros.

No que se refere à cláusula compromissória ad hoc, as partes podem convencionar que as regras sejam as de determinada instituição ou outras legalmente previstas, pois, nesta modalidade, o árbitro não apresenta

previstas, pois, nesta modalidade, o árbitro não apresenta qualquer vinculação de carácter Na arbitragem

qualquer vinculação de carácter

Na arbitragem institucional , as regras são, por norma, as da

instituição onde esta é realizada, e são previamente definidas.

Tratando-se de cláusula compromissória inserida num contrato de adesão , o legislador moçambicano acautelou

a

especificidades do próprio contrato, por isso se justifica que a lei condicione a eficácia da cláusula compromissória ao facto de o aderente tomar a iniciativa de instituir a arbitragem ou, na falta desta iniciativa,

posição do aderente pois não lhe cabe, regra geral, negociar os termos do contrato em virtude das

concordar de forma expressa com a sua instituição.

Na presença de cláusulas aparentemente contraditórias, esta questão pode ser resolvida com recurso à interpretação. Estas cláusulas ambíguas podem surgir em dois domínios:

- existência ou não de uma convenção de arbitragem. Do contrato não resulta claro se as partes querem ou não

o recurso à arbitragem. Pex. num mesmo contrato referir que as partes recorrem à arbitragem e aos tribunais judiciais para dirimir os litígios.

Esta cláusula será nula.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Quando numa convenção as partes inserem a expressão interpretação, quer apenas abranger os litígios resultantes

Quando numa convenção as partes inserem a expressão interpretação, quer apenas abranger os litígios resultantes da validade do contrato. Se usarem a expressão execução, abrange a execução e não execução, i.é., cumprimento e não cumprimento ou cumprimento defeituoso.

A referência num contrato a um documento que contenha uma cláusula compromissória , equivale a uma

convenção de arbitragem, desde que essa referência seja feita em cláusula integrante do próprio contrato. O previsto na lei de Arbitragem sobre a convenção arbitral , especificamente sobre a caducidade e nulidade da

convenção, é aplicável à cláusula compromissória.

da convenção, é aplicável à cláusula compromissória. Compromisso arbitral É e para tal surge no âmbito

Compromisso arbitral

É

e

para tal surge no âmbito da hostilidade preexistente entre as partes. Outra característica é que o compromisso pode ser estabelecido independentemente da existência de anterior cláusula compromissória, inclusive no curso do próprio processo judicial.

Em caso de incumprimento arbitral, anteriormente assumido, deverá a parte lesada pedir ao tribunal judicial a nomeação de árbitros, não havendo lugar a fixação pelo tribunal de qualquer prazo para o seu cumprimento pela parte faltosa . A renúncia à arbitragem só é eficaz quando ambas as partes renunciarem expressamente a esta jurisdição mediante comunicação escrita dirigida ao tribunal. Em caso de renúncia de apenas uma das partes e não havendo acordo das restantes a convenção mantém-se válida e eficaz.

O

compromisso arbitral caduca quanto ao litígio em questão , se a decisão do tribunal arbitral não for proferida

aquele que tem por objecto qualquer litígio actual ainda que tenha sido interposta acção em tribunal Judicial

em qualquer estado do pocesso. Este é menos frequente que a cláusula compromissória e uma das razões

no prazo fixado ou supletivo, renascendo o direito dos interessados à jurisdição comum, mas sem prejuízo da operada extinção da instância.

mas sem prejuízo da operada extinção da instância. Autonomia da convenção de arbitragem Ainda que um

Autonomia da convenção de arbitragem

Ainda que um contrato seja declarado nulo, tal não implica a invalidade da convenção de arbitragem. O tribunal arbitral tem competência para decidir sobre a sua própria competência, aí incluída qualquer excepção relativa

à

existência ou não e à validade da própria convenção de arbitragem. Artº 37º da LACM.

Efeitos de uma convenção de arbitragem

Efeito positivo uma convenção de arbitragem válida possibilita a constituição de um tribunal arbitral.

Efeito reflexo indirecto resulta basicamente do facto de ao ser celebrada uma convenção de arbitragem, os tribunais judiciais serem temporariamente afastados do litígio. A impossibilidade de o tribunal estatal poder resolver o litígio resulta de a outra parte poder invocar a excepção de preterição do tribunal arbitral. Não é do conhecimento oficioso devendo ser sempre invocado pelas partes. Pode ser arguida por uma das partes, a qualquer momento do processo até à contestação. Depois desse momento já não pode ser invocada.

24

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Quando alguém invoca a excepção de preterição do tribunal arbitral, cabe ao tribunal judicial controlar

Quando alguém invoca a excepção de preterição do tribunal arbitral, cabe ao tribunal judicial controlar a existência e a validade dessa convenção.

Estando a acção correr num tribunal judicial e uma das partes invocar a excepção de preterição do tribunal arbitral, o juiz do tribunal judicial deve extinguir a instância e remeter o processo para o tribunal arbitral.

A invocação da preterição do tribunal arbitral pode ser feita a qualquer momento. Mesmo que a acção tenha iniciado num tribunal arbitral, se, entretanto, uma das partes instaurar o processo num tribunal judicial, pode ser invocada a preterição do tribunal arbitral.

pode ser invocada a preterição do tribunal arbitral. Se o processo judicial tiver o mesmo objecto

Se o processo judicial tiver o mesmo objecto do processo arbitral podem ser invocadas duas excepções:

-

a de litispendência, uma vez que estão a correr em dois tribunais duas acções com o mesmo pedido e causa de pedir. A litispendência é de conhecimento oficioso

-

a da preterição do tribunal arbitral

Se as partes decidirem recorrer à via judicial, elas terão de renunciar ao tribunal arbitral. Esta renúncia pode ser expressa ou tácita (cfr. artº13º)

Apesar de haver uma convenção de arbitragem, as partes podem recorrer ao tribunal judicial para ali solicitar medidas cautelares (12º nº4).

II OS ÁRBITROS O ÁRBITRO ÚNICO E O PAINEL ARBITRAL; NOMEAÇÃO DE ÁRBITROS; RECUSA E SUBSTITUIÇÃO DE ÁRBITROS; DEONTOLOGIA DOS ÁRBITROS;

Pertencendo a uma das partes iniciar o processo arbitral, é necessário previamente constituir esse tribunal. Na maioria dos centros de arbitragem, tal como no CACM, na medida em que funcionam como apoio administrativo, os tribunais são constituídos para cada acção.

os tribunais são constituídos para cada acção. A matéria é regulada no Capítulo III da Lei

A matéria é regulada no Capítulo III da Lei de Arbitragem, Conciliação e Mediação (LACM), nos artigos 16 e seguintes

CAPÍTULO III

Árbitros e do tribunal arbitral

ARTIGO 16

(Composição do tribunal arbitral)

1.O tribunal arbitral pode ser constituído por um único árbitro, ou por vários, em número ímpar.

2. Se o número de membros do tribunal arbitral não for fixado na convenção de arbitragem ou em escrito posterior assinado pelas partes, nem deles resultar, o tribunal será composto por três árbitros.

25

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

3. Sendo nomeados vários árbitros, estes, por maioria, elegem entre si o presidente, a menos

3. Sendo nomeados vários árbitros, estes, por maioria, elegem entre si o presidente, a menos que as

partes tenham acordado noutra solução, por escrito, até à aceitação do primeiro árbitro. Não havendo

consenso é designado o mais idoso.

4. O presidente do tribunal designará, se julgar conveniente, um secretário, que poderá ser um dos

árbitros.

ARTIGO 17

(Constituição do tribunal arbitral)
(Constituição do tribunal arbitral)

1.Reportando-se as partes, na cláusula compromissória, às regras de um órgão arbitral institucional ou entidade especializada, a arbitragem deve ser instituída de acordo com tais regras, podendo, igualmente, as partes estabelecer, na própria cláusula ou em outro documento, a forma convencionada para a instituição da arbitragem.

2. Não havendo acordo prévio sob a forma de instituir a arbitragem, a parte que pretenda instaurar

litígio no tribunal arbitral deve notificar desse facto a parte contrária, convocando-a para se firmar compromisso arbitral, no caso de ainda não haver convenção arbitral firmada.

o

3. A notificação prevista no número anterior deve ser efectuada nos termos do artigo 26 e deve indicar

a convenção de arbitragem ou precisar o objecto do litígio, se ele não resultar já determinado da

convenção.

4.

artigo, as partes não chegarem a acordo sobre a determinação do objecto do litígio ou sobre outra matéria considerada pelas partes essencial a firmar-se o compromisso, podem solicitar uma decisão a um organismo institucionalizado de arbitragem ou em quem este delegar.

5.

Existindo cláusula compromissória e havendo resistência quando à instituição da arbitragem, após

Se, no prazo de 8 dias, contados a partir da notificação referida nos números anteriores do presente

notificação referida nos números anteriores do presente o decurso do prazo referido no número anterior, cabe

o decurso do prazo referido no número anterior, cabe ao tribunal arbitral institucionalizado a clarificação de eventuais lacunas ou dúvidas que haja por esclarecer.

6.

O tribunal encontra-se validamente constituído com a aceitação, pelos árbitros, da sua nomeação.

ARTIGO 18

(Designação dos árbitros)

1.Na convenção de arbitragem ou em escrito posterior por elas assinado, devem as partes designar o árbitro ou árbitros que constituirão o tribunal, ou fixar o modo por que serão escolhidos.

2. Não havendo acordo prévio sobre a designação dos árbitros ou sobre a forma da sua designação,

são aplicáveis as regras previstas no presente artigo.

3. Se às partes couber designar um ou mais árbitros, a notificação referida no nº 2 do artigo anterior

deve conter a designação do árbitro ou árbitros pela parte que se propõe instaurar a acção, bem como

o convite dirigido à outra parte para designar o árbitro ou árbitros que lhe cabe indicar.

26

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

4. Se o árbitro único for designado por acordo das partes, a notificação deve conter

4. Se o árbitro único for designado por acordo das partes, a notificação deve conter a indicação do

árbitro proposto e o convite à outra parte para que o aceite.

5. Caso pertença a terceiro a designação de um ou mais árbitros e tal designação não tenha ainda sido

feita, deve o terceiro ser notificado para a efectuar e a comunicar a ambas as partes.

6. Se as partes não tiverem designado o árbitro ou os árbitros nem fixado o modo da sua escolha e não

houver acordo entre elas quanto a essa designação, deve cada uma indicar um árbitro, a menos que acordem em que cada uma delas indique mais de um em número igual, cabendo aos árbitros assim designados a escolha do árbitro que deve completar a constituição do tribunal.

7.

no presente artigo, cabe essa nomeação ao presidente de um organismo institucionalizado de arbitragem escolhido pelas partes ou em quem este delegar e, na falta de acordo quanto à escolha deste organismo, ao tribunal judicial a pedido de alguma das partes.

8.

A nomeação a que se refere o número anterior pode ser requerida passados oito dias sobre a

Em todos os casos em que falte a nomeação de árbitro ou árbitros, em conformidade com o disposto

ARTIGO 19 (Requisitos dos árbitros)
ARTIGO 19
(Requisitos dos árbitros)

notificação prevista no nº 3 do presente artigo ou a contar da nomeação do último dos árbitros a quem compete a escolha, no caso referido no nº 6 do mesmo artigo.

9.

judicial, nos termos do nº 7 do presente artigo, não é susceptível de recurso.

A decisão de uma questão confiada a um organismo institucionalizado de arbitragem ou ao tribunal

10. Quando nomear um árbitro, o organismo institucionalizado de arbitragem ou o tribunal deve ter em conta todas as qualificações exigidas a um árbitro pelo acordo das partes e tudo aquilo que for relevante para garantir a nomeação de um árbitro independente e imparcial e, deve ter igualmente em consideração o facto de que poderá ser desejável a nomeação de um árbitro de nacionalidade diferente da das partes.

de um árbitro de nacionalidade diferente da das partes. A cumpra os seguintes requisitos: designação dos

A

cumpra os seguintes requisitos:

designação dos árbitros deve recair sobre pessoa que no momento da aceitação da sua nomeação

a) ser pessoa singular, maior e plenamente capaz;

b) preencher os requisitos exigidos pela convenção de arbitragem ou pelo organismo institucionalizado

de arbitragem, designado pelas partes, nos termos do nº 1 do artigo 17 desta lei.

ARTIGO 20

(Liberdade de aceitação e fundamentos de recusa)

1.Ninguém pode ser obrigado a funcionar como árbitro mas, se o cargo tiver sido aceite, só será legítima

a escusa fundada em causa superveniente que impossibilite o designado de exercer a função.

27

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

2. Quando uma pessoa for consultada, com vista a sua eventual nomeação como árbitro, deve

2. Quando uma pessoa for consultada, com vista a sua eventual nomeação como árbitro, deve fazer

notar todas as circunstâncias que possam fazer levantar fundadas dúvidas sobre a sua imparcialidade

ou independência. A partir da data da sua nomeação e durante todo o processo arbitral, o árbitro deve fazer notar sem demora às partes as referidas circunstâncias, a menos que já o tenha feito.

3. Considera-se aceite o cargo sempre que a pessoa designada revele a intenção de agir como árbitro

ou não declare, por escrito dirigido a qualquer das partes, dentro dos cinco dias subsequentes à comunicação da designação, que não quer exercer a função.

ARTIGO 21 (Impedimento e escusas) ARTIGO 22
ARTIGO 21
(Impedimento e escusas)
ARTIGO 22

(Deontologia dos árbitros)

1.Ninguém pode, em razão da sua nacionalidade, ser impedido de exercer funções de árbitro, salvo convenção em contrário, das partes.

2.

Aos árbitros designados é aplicável o regime de impedimentos e escusas estabelecido na lei do

processo civil para os juízes, sem prejuízo da eventual responsabilidade dos mesmos por terem aceite

a designação conhecendo o impedimento.

3.

as funções de mediador em qualquer processo arbitral ou judicial relativo ao litígio objecto de tentativa de arbitragem, excepto se a nomeação partir de árbitros designados e se destinar a provir o lugar de terceiro árbitro ou presidente do tribunal arbitral.

4.

sobre a imparcialidade ou independência ou se ele não possuir as qualificações que as partes convencionaram. Uma parte só pode recusar um árbitro que tiver nomeado ou em cuja nomeação tiver participado por uma causa de que apenas tenha conhecimento após esta nomeação.

5.

responde pelos danos a que der causa nos termos da lei.

Um árbitro só pode ser recusado se existirem circunstâncias que possam levantar fundadas dúvidas

Salvo convenção em contrário das partes, não pode ser designado como árbitro quem tenha exercido

não pode ser designado como árbitro quem tenha exercido O árbitro que, tendo aceite o encargo,

O árbitro que, tendo aceite o encargo, se escusar injustificadamente ao exercício da sua função

1.O árbitro não deve:

a) representar os interesses de nenhuma das partes;

b) receber, antes, durante ou depois da arbitragem qualquer remuneração, prémio ou vantagem monetária ou de outra natureza, por parte de qualquer outra pessoa com interesse directo ou indireto no litígio.

2.O árbitro deve:

a)ser desprovido de qualquer ligação familiar, hierárquica, negocial ou de outro tipo de interesse com alguma das partes ou com o grupo a que esta pertence ou revelar às partes imediatamente após a

28

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

existência de ligação, conhecimento ou interesse, da sua existência, não obstante considerar que tal não

existência de ligação, conhecimento ou interesse, da sua existência, não obstante considerar que tal não é motivo para abster-se de arbitrar;

b) proceder, com absoluta imparcialidade, independência, lealdade e boa-fé;

c) assegurar que as partes são tratadas numa base de estrita igualdade nomeadamente, diligenciando

para que em todas as circunstâncias, no desenrolar do processo, cada uma das partes beneficie das

informações utilizadas pelas outras partes.

d) velar pelo direito de cada uma das partes a um processo justo;

ARTIGO 23
ARTIGO 23

(Recusa e substituição dos árbitros)

e) tratar as partes, os seus representantes, as testemunhas e os peritos com diligência, atenção e

cortesia;

f) manter a confidencialidade da deliberação, mesmo em relação à parte que o designou;

g) decidir segundo o direito constituído ou a equidade, mesmo se uma das partes o designou como

árbitro e determinar-se exclusivamente em função dos elementos do litígio revelados pelos debates do

contraditório;

h)

assumir que a aceitação da função de árbitro implica dispor do tempo necessário à arbitragem do

litígio, salvo em caso de força maior em que deverá advertir do seu impedimento legítimo, que poderá

levar à sua substituição, se assim for determinado pelas partes;

i)

seja conduzido com diligência e impedindo qualquer manobra dilatória.

respeitar e fazer respeitar as regras de processo aplicável, ficando adstrito a velar para que o mesmo

3.Em caso de falta deontológica nos termos consignados neste artigo, as partes poderão requerer a renúncia às funções de árbitro, nomeando substituto nos termos do artigo seguinte.

4. Os árbitros são responsáveis pelo exercício desleal ou fraudulento da sua função, pelos danos causados e pelas violações da lei cometidas durante a arbitragem.

e pelas violações da lei cometidas durante a arbitragem. 5.O árbitro que se negue a assinar

5.O árbitro que se negue a assinar a decisão arbitral ou que não fundamente por escrito as razões da sua discrepância ou voto particular, poderá ser sancionado com a perda de honorários.

1.Sem prejuízo do disposto no nº 3 do presente artigo, as partes podem, por acordo, escolher livremente o processo de recusa do árbitro.

2. Na falta de tal acordo, a parte que tiver intenção de recusar um árbitro deverá expor, por escrito, os motivos da recusa ao tribunal arbitral, no prazo de quinze dias a contar da data em que teve conhecimento da constituição do tribunal arbitral, ou da data em que teve conhecimento das circunstâncias referidas no nº 2 do artigo 20 ou do nº 2 do artigo 22. Se o árbitro recusado não se demitir das suas funções ou se a outra parte não aceitar a recusa, o tribunal arbitral decidirá sobre a recusa.

29

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

3. Se a recusa não puder ser obtida segundo o processo convencionado pelas partes ou

3. Se a recusa não puder ser obtida segundo o processo convencionado pelas partes ou nos termos do

número anterior, a parte que recusa o árbitro pode, no prazo de trinta dias após lhe ter sido comunicada a decisão que rejeita a recusa, pedir ao tribunal que tome uma decisão sobre a recusa, decisão que será insusceptível de recusa (recurso); na pendência deste pedido, o tribunal arbitral, aí incluindo o árbitro recusado, pode prosseguir o processo arbitral e proferir uma decisão.

4. Quando um árbitro se encontrar impossibilitado, de direito ou de facto, de cumprir a sua missão ou,

por outras razões, não se desincumbir das suas funções num prazo razoável, o seu mandato termina se

ele se demitir das suas funções ou se as partes concordarem em lhes pôr fim. No caso de subsistir desacordo quanto a algum desses motivos, qualquer das partes pode pedir ao tribunal judicial que tome uma decisão sobre a cessação do mandato, decisão que será insusceptível de recurso.

5.

Se, nos termos deste artigo, um árbitro se demitir das suas funções ou se uma das partes aceitar a

ARTIGO 24 (Encargos do processo)
ARTIGO 24
(Encargos do processo)

cessação do mandato de um árbitro, isso não implica o reconhecimento dos motivos mencionados no

nº 2 do artigo 20 ou no presente artigo.

6.

das suas funções por qualquer razão, quando o seu mandato for revogado por acordo das partes ou em qualquer outro caso em que seja posto fim ao seu mandato, será nomeado um árbitro substituto, de acordo com as regras aplicáveis à nomeação do árbitro substituído.

7.

nomeação pelo árbitro substituto.

8.

Concretizada a substituição, o tribunal arbitral poderá ordenar a repetição da prova oral já

Quando o mandato do árbitro terminar nos termos dos números anteriores, quando este se demitir

A constatação da necessidade de substituição implica interrupção da instância até à aceitação da

realizada, salvo se o árbitro substituto considerar suficiente a leitura dos registos da prova produzida.

suficiente a leitura dos registos da prova produzida. 1.A remuneração dos árbitros e dos outros intervenientes

1.A remuneração dos árbitros e dos outros intervenientes no processo, bem como os outros encargos do processo e a sua repartição entre as partes, deve ser fixada na convenção da arbitragem ou em documento posterior subscrito pelas partes, ou resultar do regulamento de arbitragem escolhido nos termos do nº 1 do artigo 17, sendo aplicáveis, na falta de previsão especial, as regras constantes do presente artigo.

2.

processo e as despesas com a produção de prova.

As custas compreendem os honorários e as despesas dos árbitros, os encargos administrativos do

3. Para efeitos de cálculos de custas o presidente do tribunal ou o árbitro único, fixa um valor ao

processo, correspondente à utilidade económica imediata do pedido formulado pela parte requerente e em função do qual são fixados os honorários dos árbitros.

4. Os encargos administrativos, as despesas dos árbitros e as de produção de prova devem ser determinadas pelo seu custo efectivo.

5.

Para garantia do pagamento de custas deve haver lugar a realização de preparos.

30

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

6. Deve ser prestado um preparo inicial, a efectuar por cada uma das partes, de

6. Deve ser prestado um preparo inicial, a efectuar por cada uma das partes, de montante a fixar pelo

presidente do tribunal arbitral ou pelo árbitro único, que não pode exceder, para cada uma, 35% do

montante total mínimo das custas do processo.

7. No decurso do processo, o presidente do tribunal ou o árbitro único pode ordenar o reforço de

preparos até perfazer o montante total mínimo das custas do processo.

8. Os preparos devem ser pagos no prazo de cinco dias a contar da notificação de cada uma das partes.

9. Não sendo tempestivamente efectuado qualquer preparo, deve a parte ser notificada do facto e

pode realizá-lo, sem juros, nos cinco dias seguintes à notificação que para esse fim lhe será feita.

à notificação que para esse fim lhe será feita. 10. O não pagamento pontual de qualquer

10. O não pagamento pontual de qualquer preparo adicional, dá lugar a pagamento de juros de mora, à taxa legal, sem o prejuízo de o tribunal poder determinar, no caso de a falta ser imputável ao demandante, a suspensão da instância e, no caso de ser imputável ao demandado, a impossibilidade de este intervir na audiência de discussão ou apresentar alegações.

A

constituição do tribunal arbitral inicia-se com a notificação para arbitragem que é feita ao demandado do pedido de submissão do litígio a arbitragem. Esta notificação é o primeiro acto da acção arbitral. Na maior parte dos

constituição do tribunal arbitral é matéria particularmente relevante, em termos práticos. O processo de

processos submetidos ao centro, o requerimento de arbitragem, para além de não mencionar a cláusula compromissória, não contém a indicação do árbitro que a parte deve designar.

Nos termos do artigo 17, nº 2, a parte que pretender instaurar a arbitragem deve notificar desse facto a parte contrária, convocando-a para se firmar o comprommisso arbitral, no caso de ainda não haver convenção arbitral firmada.

O

artigo 18 refere no seu nº 2 que, se às partes couber designar um ou mais árbitros, a notificação referida no

nº 2 do artigo 17 deve conter a designaçao do árbitro ou árbitros pela parte que se propõe instaurar a acção, bem como o convite à outra parte para designar o árbitro ou árbitros que lhe caiba indicar.

A

determinado da convenção.

que lhe caiba indicar. A determinado da convenção. notificação deve indicar a convenção de arbitragem ou

notificação deve indicar a convenção de arbitragem ou precisar o objecto do litígio, se ele não resultar já

Assim, é de todo conveniente que esta notificação inclua:

a) a indicação da convenção de arbitragem;

b) a definição do objecto do litígio (se ele não resultar já da convenção de arbitragem);

c) a designação do árbitro ou árbitros pela parte notificante e o convite dirigido à parte notificanda para

designar o árbitro ou árbitros que lhe cabe indicar;

d) se o tribunal for constituído por um único árbitro, o notificante deverá, na notificação de arbitragem,

propor um árbitro, cuja identificação indicará.

31

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Constituição do tribunal arbitral – Artigo 17 da LACM O tribunal pode ser constituído por

Constituição do tribunal arbitral Artigo 17 da LACM

O tribunal pode ser constituído por um único árbitro ou por mais de um árbitro, sempre em número ímpar. O

número de árbitros pode ser fixado na convenção arbitral ou em escrito posterior por elas assinado. Se não houver estipulação contratual, o tribunal é composto por três árbitros. Podem ser designados como árbitros

pessoas maiores e capazes e que preencham os requisitos fixados pela convenção de arbitragem ou pelos mecanismos institucionalizados de arbitragem.

ou pelos mecanismos institucionalizados de arbitragem. Acontece com alguma frequência que uma das partes se recusa

Acontece com alguma frequência que uma das partes se recusa a indicar o seu árbitro. Nos termos do artigo 18, nº 7 da LACM, em todos os casos em que falte a nomeação de um árbitro, cabe essa nomeação ao presidente de um organismo institucionalizado de arbitragem escolhido pelas partes ou em quem este delegar e, na falta de acordo quanto à escolha deste organismo, ao tribunal judicial a pedido de uma das partes, podendo fazê-lo oito dias depois de ter notificado a outra parte para indicar o árbitro, sem que esta o tivesse feito.

A

lei não prevê nenhum prazo para a decisão, mas refere que a decisão de nomeação não é recorrível.

ESTATUTO DO ÁRBITRO

É

Esta matéria está regulada no artigo 22, com uma referência, no artigo 21 nº 2, para o regime dos impedimentos e escusas, semelhante aos dos juízes dos tribunais estaduais. O Requisito básico é, no entanto definido no artigo 19, de forma muito genérica, remetendo para os organismos institucionalizados de arbitragem a indicação dos requisitos mais específicos.

O

(International Bar Association Rule of Ethics).

o conjunto de direitos e deveres dos árbitros durante o processo.

CACM possui um Código deontológico, sendo importante conhecer, a nível internacional, as regras da IBA

conhecer, a nível internacional, as regras da IBA Apesar de não haver restrições quanto à área

Apesar de não haver restrições quanto à área de formação dos árbitros, o mais frequente é ser nomeado árbitro um jurista.

É

de reter que a escolha do árbitro é fundamental na arbitragem. Costuma-se dizer que « A Arbitragem é tão

boa quanto o árbitro». Esta escolha é difícil, pois além da imparcialidade e independência, o árbitro deve ter outras características, quais sejam a eficiência, a competência, o bom senso e a autoridade moral.

É

normal, hoje em dia, contactar previamente o árbitro, através de uma pequena entrevista aos potenciais árbitros, a fim de melhor entender as suas capacidades.

COMPETÊNCIA DO TRIBUNAL ARBITRAL

Um significativo número de leis arbitrais consagra hoje, expressamente, a competência dos tribunais arbitrais para decretar medidas cautelares. A principal fonte impulsionadora deste movimento foi a Lei-Modelo da UNCITRAL que, já em 1985, ano em que foi publicada, previa no seu artigo 17º a possibilidade de os tribunais arbitrais ordenarem às partes a adopção de medidas cautelares.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Hoje, muitas leis prevêem já esta possibilidade, tais como por exemplo o C.P.C. Alemão, o

Hoje, muitas leis prevêem já esta possibilidade, tais como por exemplo o C.P.C. Alemão, o Côde Judiciaire belga,

o C.P.C. francês, a lei espanhola de arbitragem, o Arbitration Act inglês e a nossa lei de arbitragem.

A LACM, no seu artigo 12, nº 4 refere que « a solicitação de medidas provisórias, feita por uma das partes a um

tribunal judicial antes ou durante o processo arbitral, bem como a concessão de tais medidas pelo referido tribunal não é incompatível com uma convenção de arbitragem».

No artigo 33, a LACM refere expressamente que o tribunal tem o poder de decretar medidas provisórias.

Assim, tanto os tribunais judiciais como os tribunais arbitrais podem decretar medidas cautelares na dependência e em apoio a um processo arbitral.

A

diferença é que, enquanto que nos tribunais estaduais a providência caduca se a acção principal não for

a providência caduca se a acção principal não for intentada no prazo de trinta dias, na

intentada no prazo de trinta dias, na LACM não existe disposição que determine a caducidade da providência cautelar.

Claro que, se uma providência cautelar decretada por um tribunal arbitral não for voluntariamente cumprida pela contraparte, o requerente terá de solicitar ao tribunal estadual a sua execução coerciva.

Ou, pelo menos, tal seria o procedimento a seguir, caso tal estivesse previsto. Não havendo tal previsão legal na LACM, o melhor caminho será o de optar pelo requerimento de providências cautelares aos tribunais judiciais.

As medidas cautelares decretadas pelos tribunais arbitrais não vinculam terceiros, nem têm garantias penais, ao contrário das medidas cautelares estaduais, porque o árbitro não detém poderes de autoridade pública

A

arbitragem entre duas ou mais partes, seja na modalidade de cláusula arbitral, seja na de compromisso arbitral, seja ou não válida ou eficaz e exista ou não convenção de arbitragem, o efeito imediato que resulta da sua celebração é a perda de competência para o conhecimento do litígio pelos tribunais estaduais.

jurisdição arbitral é autónoma, relativamente à jurisdição estadual. A mera celebração de uma convenção de

estadual. A mera celebração de uma convenção de Assim, uma vez celebrada uma convenção de arbitragem,

Assim, uma vez celebrada uma convenção de arbitragem, a jurisdição arbitral adquire de pleno competência para dirimir o litígio a que se refere a convenção arbitral. Isto resulta de dois princípios fundamentais da

arbitragem:

- o princípio do efeito negativo da convenção de arbitragem;

- o princípio da competência-competência

a) o princípio do efeito negativo da convenção de arbitragem tem consagração no artigo 12 da LACM e

traduz-se num comando jurídico dirigido ao tribunal estadual que lhe impõe a absolvição da instância do réu numa acção que contra ele tenha sido instaurada num tribunal estadual em violação de uma convenção de arbitragem vide art. 494 al. h) do C.P.C. O tribunal estadual só não o absolve da instância se verificar que a convenção caducou ou é inexequível.

b) O princípio da competência-competência é referido na LACM no artigo 37, com a designação de (Decisão

sobre questão prejudicial), no Capítulo V, que trata da decisão. Cumpre observar que a matéria deveria estar

33

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

enquadrada no capítulo III, que, aliás, não regula de forma harmoniosa esta matéria. Refira-se que

enquadrada no capítulo III, que, aliás, não regula de forma harmoniosa esta matéria. Refira-se que o artigo 8, que tem por epígrafe (competência do tribunal arbitral), apenas nos diz que só os tribunais arbitrais constituídos nos termos da já referida LACM são competentes para dirimir os conflitos a ele submetidos. Ora, sendo os tribunais arbitrais resultado da convenção arbitral, cujos limites serão a arbitrabilidade do litígio, parece que os tribunais podem ser livremente constituídos, não fazendo sentido aquela disposição.

No que diz respeito ao princípio, traduz-se no poder que o tribunal arbitral tem de, não só decidir o litígio ou abster-se de o fazer, como também decidir sobre os pressupostos da sua própria competência, isto é, se, perante a lei e a convenção de arbitragem, tem ou não competência para decidir o litígio.

tem ou não competência para decidir o litígio. incompetência do tribunal arbitral pode ter como base

incompetência do tribunal arbitral pode ter como base a inarbitrabilidade do litígio, a inexistência, invalidade, ineficácia ou inexequibilidade da convenção de arbitragem.

A

Competência do tribunal para conhecer o litígio

Os factores determinativos ou atributivos da competência são:

- existência de uma convenção de arbitragem;

- capacidade das partes para a ter celebrado;

- arbitrabilidade do litígio;

- licitude do objecto da convenção de arbitragem;

- forma da convenção de arbitragem;

- inclusão do litígio no objecto da convenção;

- vigência temporal da convenção de arbitragem;

- vigência temporal da convenção de arbitragem; - poderes do tribunal dentro dos limites da sua

- poderes do tribunal dentro dos limites da sua competência

O

e

Quando se coloca a questão de competência ou não do tribunal arbitral, podemos estar perante a seguinte situação.

a) o tribunal arbitral declara-se incompetente e extingue-se a instância;

b) se o tribunal se declara competente, pode fazê-lo:

- a título prévio. Neste caso as partes podem recorrer para o tribunal judicial e apesar disso não impedir o prosseguimento do processo.

- pronuncia-se apenas aquando da decisão final. Neste caso as partes podem recorrer através de um recurso de anulação.

tribunal arbitral tem competência para discutir o litígio e, além disso, para apreciar a sua própria competência

a existência e validade da convenção arbitral.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

III – O PROCEDIMENTO ARBITRAL – O REQUERIMENTO DE ARBITRAGEM; A RESPOSTA; A REUNIÃO DE

III O PROCEDIMENTO ARBITRAL O REQUERIMENTO DE ARBITRAGEM; A RESPOSTA; A REUNIÃO DE TRIAGEM; A COMPOSIÇÃO DO TRIBUNAL ARBITRAL; A INSTRUÇÃO DO PROCESSO; A AUDIÊNCIA; AS ALEGAÇÕES; O CARÁCTER INFORMAL DO PROCEDIMENTO ARBITRAL;

CAPÍTULO IV

Funcionamento

ARTIGO 25 (Início do processo arbitral) ARTIGO 26 (Notificações e comunicações escritas)
ARTIGO 25
(Início do processo arbitral)
ARTIGO 26
(Notificações e comunicações escritas)

Salvo convenção das partes em contrário, o processo arbitral relativo a um determinado litígio começa na data em que o pedido de sujeição deste litígio à arbitragem é recebido pelo demandado.

1.Excepto se as partes estipularem de forma diferente, considera-se validamente recebida toda a notificação e qualquer outra comunicação escrita que seja entregue ao destinatário, quer pessoalmente, quer no seu domicílio profissional, na sua residência habitual, no seu endereço postal ou em outro endereço especial indicado pela parte.

2.

Quando não seja possível determinar nenhum dos lugares referidos no número anterior, após

razoável tentativa, considera-se recebida a notificação escrita que haja sido remetida pra o último domicílio profissional, residência habitual ou endereço postal conhecidos, por carta registada ou por qualquer outro meio que prove que se procurou fazer a entrega.

3.

números anteriores.

4.

comunicação que deixe prova escrita.

5.

judiciais.

As disposições do presente artigo não se aplicam às comunicações feitas no âmbito de processos

se aplicam às comunicações feitas no âmbito de processos Considera-se recebida a notificação na data em

Considera-se recebida a notificação na data em que tenha sido efectuada a entrega, nos termos dos

As notificações consideram-se válidas se efectuadas por correio, telex, fax ou outro meio de

ARTIGO 27

(Regras de processo)

1. Sem prejuízo das disposições da presente lei, as partes podem escolher livremente as regras de

processo a seguir pelo tribunal arbitral, bem como sobre o lugar da arbitragem.

2. O acordo das partes sobre a matéria referida no número anterior pode resultar da escolha de um

regulamento de arbitragem emanado de um organismo institucionalizado de arbitragem ou da escolha dessa entidade para a organização da arbitragem.

35

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

3. Se as partes não tiverem acordado sobre as regras de processo a observar na

3. Se as partes não tiverem acordado sobre as regras de processo a observar na arbitragem e sobre o

lugar de funcionamento do tribunal, caberá aos árbitros essa escolha. O lugar da arbitragem será

fixado tendo em conta as circunstâncias do caso, aí incluída a conveniência das partes.

4. Na faculdade conferida ao tribunal arbitral referida ao número anterior inclui-se a determinação

de admissibilidade, pertinência e valor das provas.

5. Não obstante o disposto nos nºs 1 e 3 do presente artigo, o tribunal arbitral pode, salvo convenção

em contrário das partes, reunir-se em qualquer lugar que julgue apropriado para consultas entre os seus membros, para audição de testemunhas, de peritos ou das partes, ou para exame de mercadorias,

outros bens ou documentos.

ARTIGO 28 ARTIGO 29 (Procedimento oral e escrito)
ARTIGO 28
ARTIGO 29
(Procedimento oral e escrito)

(Articulados do demandante e do demandado)

1.

factos que fundamentam o seu pedido, os pontos litigiosos e o objecto do pedido e o demandado enunciará a defesa a propósito destas questões, a menos que outra tenha sido a convenção das partes quanto aos elementos a figurar nas alegações. As partes podem fazer acompanhar as suas alegações de quaisquer documentos que julguem pertinentes ou nelas mencionar documentos ou outros meios de prova que virão a apresentar.

Salvo convenção em contrário, qualquer das partes pode modificar ou completar o seu pedido ou a

2.

No prazo convencionado pelas partes ou fixado pelo tribunal arbitral, o demandante enunciará os

sua defesa no decurso do processo arbitral, a menos que o tribunal arbitral considere que não deve autorizar uma tal alteração em razão do atraso com que é formulada.

tal alteração em razão do atraso com que é formulada. 1. Salvo convenção das partes em

1. Salvo convenção das partes em contrário, o tribunal decidirá se o processo deve comportar fases orais para a produção da prova ou para a exposição oral dos argumentos, ou se o processo deverá ser conduzido na base de documentos escritos ou outros materiais. Contudo, a menos que as partes tenham convencionado que não haverá lugar a um tal procedimento, o tribunal arbitral organizará um procedimento oral num estádio apropriado do processo arbitral, se uma das partes assim o requerer.

2.

arbitral realizadas com a finalidade de examinar mercadorias, outros bens ou documentos.

3. Todas as alegações, documentos ou informações que uma das partes forneça ao tribunal arbitral

devem ser comunicadas à outra parte. Deve igualmente ser comunicado às partes qualquer relatório ou documento apresentado como prova que possa servir de base à decisão do tribunal.

As partes serão notificadas, com antecedência suficiente, de todas audiências e reuniões do tribunal

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

ARTIGO 30 (Representação e falta de cumprimento de uma das partes) 1. As partes podem

ARTIGO 30

(Representação e falta de cumprimento de uma das partes)

1. As partes podem designar quem as represente ou assista em tribunal.

2. Salvo convenção das partes em contrário, se, sem invocar impedimento bastante:

a) o demandante não apresentar o seu pedido em conformidade com o nº 1 do artigo 28, o tribunal

arbitral porá fim ao processo arbitral;

b)

arbitral prosseguirá o processo arbitral sem considerar esta falta em si mesma como uma aceitação

das alegações do demandante;

c)

tribunal arbitral prosseguirá o processo e decidirá com base nos elementos de prova de que disponha.

o demandado não apresentar a sua defesa em conformidade com o nº 1 do artigo 28, o tribunal

ARTIGO 31 (Perito nomeado pelo tribunal arbitral) ARTIGO 32
ARTIGO 31
(Perito nomeado pelo tribunal arbitral)
ARTIGO 32

uma das partes deixar de comparecer a uma audiência ou de fornecer documentos de prova, o

1.

a)

tribunal determinará:

b)

torne acessível, para exame, quaisquer documentos, mercadorias ou outros bens relevantes.

2.

julgar necessário, o perito, após apresentação do seu relatório escrito ou oral, participará numa

Salvo convenção das partes em contrário, se uma das partes o solicitar ou se o tribunal arbitral o

Salvo convenção das partes em contrário, o tribunal arbitral pode:

nomear um ou mais peritos encarregados de elaborar um relatório sobre pontos específicos que o

pedir a uma das partes que forneça ao perito todas as informações relevantes ou que lhe faculte ou

todas as informações relevantes ou que lhe faculte ou audiência em que as partes o podem

audiência em que as partes o podem interrogar e na qual podem fazer intervir, na qualidade de testemunha, peritos que deponham sobre questões em análise.

(Provas)

1.

sem prejuízo do disposto na alínea g) do artigo 2 e no nº 1 do artigo 29 da presente Lei.

2. O tribunal arbitral, ou uma parte com autorização daquele tribunal, pode requerer ao tribunal

judicial assistência para obtenção e provas, sendo os seus resultados remetidos ao tribunal arbitral. O tribunal judicial pode corresponder à solicitação nos limites da sua competência e de acordo com as suas próprias regras relativas à obtenção de provas.

Pode ser produzida perante o tribunal arbitral, qualquer prova admitida pela Lei de Processo Civil,

37

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

ARTIGO 33 (Poder do tribunal arbitral para ordenar medidas provisórias) 1. Salvo convenção em contrário

ARTIGO 33

(Poder do tribunal arbitral para ordenar medidas provisórias)

1. Salvo convenção em contrário das partes, o tribunal pode, a pedido de uma das partes, ordenar a qualquer delas que tome as medidas provisórias que o tribunal arbitral considere necessárias em relação ao objecto do litígio.

2. O tribunal arbitral pode exigir a qualquer das partes que, em conexão com as medidas mencionadas no número anterior do presente artigo, preste uma garantia adequada.

anterior do presente artigo, preste uma garantia adequada. A regras processuais são escolhidas pelas partes ou

A

regras processuais são escolhidas pelas partes ou pelos árbitros. O artigo 27 diz que as partes podem escolher livremente as regras processuais, o que inclui a adopção de um regulamento de arbitragem de um organismo institucionalizado. Caso o não façam, os árbitros podem fazê-lo.

É

Como se pode ver, a liberdade de criação de regras de tramitação processual é grande, o que origina uma oportunidade para escolher normas adequadas ao caso concreto. Muitas vezes, os árbitros são tentados a escolher as regras do C.P.C., o que é contraditório com a natureza alternativa da arbitragem, em que a possibilidade de criar regras processuais flexíveis, que permitam um tratamento célere e adequado do caso é uma das suas grandes vantagens.

aconselhável que a escolha se faça no início do processo, sob pena de instabiidade grave do processo arbitral.

LACM regula apenas alguns aspectos relativos ao processo arbitral. Isto justifica-se na medida em que as

Em arbitragem, está prevista a atribuição aos árbitros de poderes de gestão, por exemplo, no Regulamento de Arbitragem da UNCITRAL e no do LCIA. Noutros centros, como o da CCI e da CAC português, a liberdade que os árbitros têm de tramitar o processo também é ampla, limitada apenas às normas inderrogáveis do Regulamento

e à vontade das partes.

inderrogáveis do Regulamento e à vontade das partes. Assim, as regras processuais arbitrais têm como

Assim, as regras processuais arbitrais têm como característica a flexibilidade, de maneira a que se possa procurar

o

Esta criação de regras, a sua fixação no início do processo, é uma garantia de eficiência e segurança, sem que os árbitros estejam impedidos de as alterar posteriormente, se necessário.

melhor conjunto de regras processuais para o conflito em causa.

Nas arbitragens ad hoc, é costume a remissão para um regulamento institucional, normalmente o do CACM, embora sem conhecimento, nem aprovação deste.

O

estatuindo expressamente que só a Corte pode administrar arbitragens submetidas ao Regulamento CCI.

Mesmo quando é possível o recurso a estes regulamentos, é preciso ter cuidado, porque nem sempre é possível compatibilizar as regras estabelecidas pelo tribunal com o regulamento institucional, principalmente porque, nas arbitragens ad hoc, não existe a estrutura de suporte e apoio que as instituições possuem.

CCI, quiçá o mais importante Centro Europeu de arbitragem, não permite que se recorra ao seu regulamento,

Principais Regulamentos de Centros de Arbitragem Institucionalizada:

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Regulamento de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional de Paris; Regulamento de Arbitragem do London

Regulamento de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional de Paris;

Regulamento de Arbitragem do London Court of International Arbitration;

Regulamento de Arbitragem da UNCITRAL;

Regulamento de Arbitragem da American Arbitration Association;

Regulamento de Arbitragem da Arbitration Foundation of Southern Africa;

Regulamento de Arbitragem do Centro de Arbitragem Comercial da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa;

Comercial da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa; Regras da International Bar Association sobre prova em

Regras da International Bar Association sobre prova em arbitragem.

A

são tratadas questões como o lugar da arbitragem, a língua do processo, os serviços administrativos, as custas,

a

peças processuais, a definição dos pontos a decidir, as disposições sobre prova, as regras sobre as audiências e

a decisão.

São de referir também os princípios de processo civil transnacional, elaborados pelo American Law Institute e pelo UNIDROIT, instituições de harmonização legislativa nos Estados Unidos e na Europa. Trata-se de um conjunto de princípios de aplicação universal que tenta compatibilizar as diversas tradições processuais, em particular a romano-germânica e a anglo-saxónica.

confidencialidade, os meios de comunicação entre as partes e entre estas e o tribunal, o número limite de

UNCITRAL publicou um documento sobre a organização do processo arbitral, uma espécie de check list, onde

De acordo com o artigo 9º destes princípios, um processo deve ser organizado, em regra, em três fases:

Preliminar ou dos pedidos as partes apresentam as suas pretensões e defesas e identificam a prova mais

importante;

Intermédia: o tribunal organiza o processo, estabelece um calendário, aprecia as questões prévias e prepara a produção de prova;

as questões prévias e prepara a produção de prova; Final: produção de prova em audiência e

Final: produção de prova em audiência e decisão do caso.

É

ALEGAÇÕES DAS PARTES

aconselhável arrumar estas opções em cinco áreas, que correspondem às fases comuns dos processos:

FASE INTERMÉDIA

PRODUÇÃO DE PROVA

JULGAMENTO

DECISÃO

39

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

INSTALAÇÃO DO TRIBUNAL Em arbitragem, todas estas fases são precedidas por uma fase típica, que

INSTALAÇÃO DO TRIBUNAL

Em arbitragem, todas estas fases são precedidas por uma fase típica, que é a da instalação do tribunal, particularmente importante, porque, em arbitragem, contrariamente ao que acontece nos tribunais estaduais,

é necessário, em primeiro lugar, constituir e instalar o tribunal.

Depois de escolhidos os árbitros, isto é, depois de constituído o tribunal, é normal que se produza uma acta de Instalação, onde consta o seguinte:

Identificação das partes e seus mandatários;

Identificação dos árbitros;

Identificação do Secretário do processo;

Endereços postais e electrónicos;

Local da arbitragem.

Transcrição da convenção de arbitragem de onde decorre o poder do tribunal;

Descrição genérica do litígio.

Incluem-se regras processuais, em especial as relativas à fase inicial e dos meios de comunicação entre as partes.

fase inicial e dos meios de comunicação entre as partes. Estabelecem-se aí os honorários e os

Estabelecem-se aí os honorários e os encargos ou a forma de os calcular.

Esta acta é muito importante porque estabelece a data a partir da qual se contam os prazos para se proferir a decisão arbitral.

É

um documento que vai definir todo o processo, em cuja negociação e elaboração as partes e os árbitros devem colocar toda a sua energia.

É

também nesta acta que se delimita o litígio, a competência do tribunal arbitral e as regras processuais.

a competência do tribunal arbitral e as regras processuais. Nas Arbitragens da CCI está prevista a

Nas Arbitragens da CCI está prevista a elaboração de uma Acta de Missão ou Termos de Referência, assinado pelas partes e pelos árbitros e que contém, para além da identificação das partes, dos árbitros e do local da arbitragem, um sumário das pretensões, uma lista de questões a tratar e as regras processuais aplicáveis.

Durante a elaboração da acta de missão ou logo a seguir, o tribunal elabora um cronograma do processo, onde determina a duração prevista para cada fase e fixa as datas para as sessões de julgamento.

A calendarização do processo é um instrumento de organização do trabalho de todos, que serve os interesses

das partes e dos árbitros e contribui, decisivamente, para um desenrolar saudável e eficiente do processo

arbitral.

Recomenda-se que, quer nas arbitragens ad hoc, quer nas institucionalizadas, o tribunal defina, logo no primeiro contacto dos árbitros com as partes, as questões a decidir, o calendário processual provisório, os articulados a apresentar, os meios de prova e os prazos para a sua produção.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

A calendarização do trabalho é um instrumento de trabalho importante para todos, determinante para um

A calendarização do trabalho é um instrumento de trabalho importante para todos, determinante para um

desenrolar saudável e eficiente do processo arbitral, mesmo porque os árbitros não são profissionais e as suas diversas ocupações perturbam, se não existir uma calendarização, o bom andamento do processo.

Alegações das partes:

A primeira fase do processo tem como função a apresentação pelas partes das suas alegações dos factos e a

dedução dos pedidos.

Trata-se da submissão do requerimento de arbitragem, que não tem necessariamente que ser articulado, e da contestação ou resposta. Pode ainda haver reconvenção.

contestação ou resposta. Pode ainda haver reconvenção. Note-se que a alteração do objecto do processo é,

Note-se que a alteração do objecto do processo é, em geral admitido em arbitragem, nuns casos durante o curso do processo arbitral. A LACM admite estas alterações, no artigo 28, nº 2, tal como o faz a Lei Modelo da UNCITRAL artigo 23º.

Fase intermédia:

Nesta fase, destinada à organização do processo pelo tribunal, isto é, à análise das alegações apresentadas pelas partes e à preparação da produção de prova. Os árbitros usam esta fase para organizarem e controlarem a fase seguinte, de maneira eficaz, célere e com respeito pelos legítimos direitos e expectativas das partes.

Trata-se de uma reunião entre árbitros e partes para resolver o que puder ser resolvido e preparar o que se segue.

Nos regulamentos das instituições internacionais, é nesta fase que se determinam as questões a decidir, sem a separação entre matéria de facto e de direito, para posteriormente determinar a matéria provada e a provar.

Nesta determinação, pode ser necessário proceder à separação das questões, entre aquelas que devem ser decididas em primeiro lugar e as que dependem daquelas, como por exemplo o julgamento da responsabilidade

daquelas, como por exemplo o julgamento da responsabilidade Prova, julgamento e decisão do montante indemnizatório. O

Prova, julgamento e decisão

do montante indemnizatório. O tribunal, apura em primeiro lugar a existência ou não de responsabilidade e só depois, se a pretensão for procedente, avança para o julgamento dos danos.

e

Esta matéria é de especial dificuldade, quando jogam tradições processuais diversas. Os sistemas continentais e anglo-saxónicos têm práticas diferentes. O sistema romano-germânico admite uma maior intervenção do juiz, enquanto que o anglo-saxónico entgrega completamente às partes a produção de prova. Mas, mesmo dentro de cada sistema, os países têm sistemas que diferem uns dos outros.

Em matéria de prova, o problemas agrupam-se em:

Admissibilidade;

Ónus da prova;

Métodos de produção

41

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

A LACM regula a matéria da prova no artigo 32, dizendo que é admitida qualquer

A LACM regula a matéria da prova no artigo 32, dizendo que é admitida qualquer prova prevista no C.P.C., respeitando o princípio da oralidade previsto na alínea g) do artigo 2 e permitindo ao tribunal arbitral decidir se o processo deve comportar fases orais para a produção de prova ou se vai servir-se de documentos escritos e outros materiais.

Em matéria de admissibilidade, no geral, em arbitragem, podem ser usados os meios de prova que os tribunais arbitrais entenderem, mesmo os não previstos na lei processual.

Não se podem admitir meios de prova que violem os direitos fundamentais ou tenham sido obtidos por meios ilícitos.

O

ordenamento jurídico.

tribunal irá decidir, também, pela aceitação de meios de prova não conhecidos num determinado

de meios de prova não conhecidos num determinado Nos termos do artigo 27º das UNCITRAL Arbitration

Nos termos do artigo 27º das UNCITRAL Arbitration Rules, cada parte tem o ónus da prova dos factos que fundamentam o seu pedido ou defesa.

No que diz respeito aos meios de prova em particular, é importante escalpelizar cada um, isto é, as declarações das partes, a apresentação da prova documental, a produção de prova testemunhal (oral e escrita) e eventuais inspecções judiciais.

Quanto às declarações das partes, o C.P.C. só admite o depoimento de parte, isto é, a confissão. Noutros ordenamentos, também se admite que as partes apresentem factos fabvoráveis.

No direito anglo-saxónico, a solução é mais prática, porque se equipara a parte à testemunha.

No que diz respeito à prova documental, na nossa prática processual, cada parte apresenta os documentos que tem em seu poder, prevendo-se também a possibilidade de pedir documentos que estejam em poder da parte contrária, desde que os identifique.

em poder da parte contrária, desde que os identifique. Mas este pedido é excepcional e limitado

Mas este pedido é excepcional e limitado aos documentos que se sabe existirem.

No direito anglo-saxónico, a regra é de pedir à parte contrária toda a documentação sobre determinado assunto

entre determinadas datas, com o objectivo de tentar encontrar documentos comprometedores. É a chamada discovery americana, que tem a desvantagem de atolar a parte contrária e o tribunal com milhares de documentos irrelevantes. Essa técnica é conhecida como a fishing expedition.

ou

Nas arbitragens domésticas, não faz sentido recorrer ao regime americano, naturalmente. Já nas arbitragens internacionais, as regras dos organismos mais importantes estabelecem que os documentos devem acompanhar as peças processuais iniciais. Pode acontecer, no entanto que as partes pretendam consultar ou requerer outros documentos em poder da parte contrária.

Podem estabelecer-se prazos para este tipo de requerimentos e para a sua entrega, por uma questão de economia na preparação da prova. Aqui, é preciso conciliar os sistemas, podendo aplicar-se algumas técnicas já provadas em arbitragens internacionais, como sejam a de o tribunal realizar reuniões separadas ou conjuntas com as partes para que estas cheguem a acordo quanto às categorias de documentos a pedir.

42

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Outro método de gerir a produção de prova documental é conhecido como a Tabela de

Outro método de gerir a produção de prova documental é conhecido como a Tabela de Redfern, onde são colocadas em colunas as categorias de documentos pedidos, as razões para esse pedido, as razões apresentadas pelo requerido para a recusa desse pedido e a decisão do tribunal.

Uma regra que procura o equilíbrio entre as duas tradições é o artigo 3º das IBA Rules on the Taking of Evidence

in International Arbitration. De acordo com estas regras, após a junção voluntária de documentos pelas partes,

cada uma delas pode submeter ao tribunal um requerimento de produção de mais prova documental, indicando quais os documentos que pretende ver revelados e as razões desse pedido. À parte contrária é conferido prazo para entregar os documentos ou apresentar oposição. O tribunal tem ainda o poder de requerer a qualquer uma das partes documentos que entenda serem relevantes.

É

Também na prova testemunhal se encontram sistemas híbridos, que misturam regras da Common Law e da Civil Law. Desde logo, é frequente que a testemunha deponha por escrito, o que não é admissível no nosso processo civil, mas nada impede que, em arbitragem, tal aconteça.

O

uma mera súmula dos factos a relatar.

tal aconteça. O uma mera súmula dos factos a relatar. preciso, ainda, definir prazos para a

preciso, ainda, definir prazos para a apresentação de documentos, para evitar demoras escusadas.

depoimento pode ser exaustivo nos factos relatados, ou preparatório do depoimento oral, caso em que será

De acordo com o regime das IBA Rules, o tribunal pode ordenar que os depoimentos sejam apresentados por escrito. Se, posteriormente for requerida a presença da testemunha na audiência, a sua falta injustificada implica a não consideração do seu depoimento escrito.

A

não pode ser paresentada sozinha ou isoladamente. No sistema da Common Law, onde o juiz ou o árbitro não tem quaisquer poderes em matéria de prova, cada parte apresenta o seu perito. Não existe a figura do perito imparcial nomeado pelo tribunal.

prova pericial, em arbitragem, tem também muita importância. No nosso direito processual a prova pericial

As regras dos principais organismos internacionais de arbitragem estabelecem a possibilidade de nomeação de peritos pelas partes ou pelo tribunal.

de nomeação de peritos pelas partes ou pelo tribunal. Finalmente, a inspecção arbitral é uma figura

Finalmente, a inspecção arbitral é uma figura que não está contemplada nos regulamentos de arbitragem. É pouco frequente, pelos seus elevados custos, recorrendo-se normalmente a peritos para realizar essas inspecções.

Caso se verifique a recusa da produção de prova por um terceiro ou por uma das partes, pode-se recorrer para

o

Audiência final:

Pode nem sequer acontecer, nos casos em que a prova é toda documental ou em que a questão for exclusivamente jurídica.

A organização administrativa das audiências é tarefa complexa, por vezes, por implicar a escolha de um local

adequado, com espaço para todos, com salas de reuniões mais pequenas para as partes e salas de espera para

as testemunhas. Deve pensar-se na disponibilidade de meios de comunicação e no alojamento de árbitros, testemunhas e peritos.

tribunal judicial, devendo a parte pedir previamente autorização ao tribunal arbittral

43

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Há que determinar se a audiência decorre em dias seguidos, se haverá limites de tempo

Há que determinar se a audiência decorre em dias seguidos, se haverá limites de tempo para inquirir testemunhas e para alegações finais.

Em arbitragem é comum a apresentação de alegações finais escritas, em simultâneo de facto e de direito, devendo prever os prazos para a sua apresentação.

LIMITES ÀS REGRAS PROCESSUAIS Os princípios fundamentais do processo justo

As regras processuais escolhidas têm como limite apenas os princípios fundamentais do processo justo, ou seja,

o

Estes princípios estão referidos genericamente no artigo 2 da LACM e compreendem o da igualdade entre as partes e o princípio do contraditório.

que o processo arbitral tem que respeitar é o princípio do processo equitativo.

tem que respeitar é o princípio do processo equitativo. Eles destinam-se a assegurar os direitos de

Eles destinam-se a assegurar os direitos de defesa das partes e a imparcialidade de julgamento pelo tribunal arbitral. São princípios essenciais que se relacionam com a validação pública de um processo privado. Isto é, o Estado só pode reconhecer que decisões de tribunais privados sejam vinculativas se se cumprirem regras mínimas de justiça processual.

Na arbitragem, o Estado de Direito demonstra-se precisamente astravés das imposições processuais que estabelece. São princípios básicos que têm que ser cumpridos para que uma decisão possa ser reconhecida judicialmente.

Estes princípios são a tradução legal do processo equitativo, consagrado no Código de Processo Civil, que se podem encontrar nos princípios do Processo Civil Transnacional, elaborados em conjunto pelo American Law Institute e pelo UNIDROIT. O documento consagra os princípios mínimos do processo justo, podendo ser utilizado como validação das regras processuais. Se as regras processuais estiverem de acordo com aqueles princípios, o processo obedecerá aos parâmetros do processo justo.

O

princípio do contraditório consiste, essencialmente, na garantia da participação efectiva das partes no

na garantia da participação efectiva das partes no desenvolvimento de todo o litígio. O que importa

desenvolvimento de todo o litígio. O que importa é que ambas as partes tenham a possibilidade de influenciar

a

O

princípio da igualdade de armas impõe o equilíbrio entre as partes. Esta igualdade tem de ser interpretada

decisão, quer em matéria de facto, quer em matéria de prova, quer ainda em matéria de direito.

materialmente e não formalmente, o que significa que não é exigível igualdade absoluta entre meios

processuais, mas equilíbrio global entre as partes.

44

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

IV – A SENTENÇA ARBITRAL - ELABORAÇÃO; ELEMENTOS ESSENCIAIS; FORÇA VINCULATIVA; RECURSO DA SENTENÇA; EXECUÇÃO

IV A SENTENÇA ARBITRAL - ELABORAÇÃO; ELEMENTOS ESSENCIAIS; FORÇA VINCULATIVA; RECURSO DA SENTENÇA; EXECUÇÃO

CAPÍTULO V

Decisão

ARTIGO 34

(Determinação do direito aplicável) ARTIGO 35 (Prazo para a decisão)
(Determinação do direito aplicável)
ARTIGO 35
(Prazo para a decisão)

1.As partes poderão escolher livremente as regras de Direito que serão aplicadas na arbitragem, desde que não haja violação dos bons costumes e dos princípios de ordem política da Lei moçambicana.

2.

Os árbitros julgam segundo o direito constituído, a menos que as partes, na convenção de arbitragem

ou em documento subscrito até à aceitação do primeiro árbitro, os autorizem a julgar segundo a equidade.

3.

que considere convenientes.

4. As partes poderão convencionar que a arbitragem se realize com base nos princípios gerais de Direito, nos usos e costumes e nas regras internacionais de comércio.

Quando as partes não estipulem o direito aplicável, o tribunal arbitral aplicará as regras de Direito

1.Na convenção de arbitragem ou em escrito posterior, até a aceitação do primeiro árbitro, podem as partes fixar o prazo para decisão do tribunal arbitral ou o modo de estabelecimento desse prazo.

2.

do número anterior.

modo de estabelecimento desse prazo. 2. do número anterior. Será de seis meses o prazo para

Será de seis meses o prazo para decisão, se outra coisa não resultar do acordo das partes, nos termos

3. O prazo a que se referem os números anteriores conta-se a partir da data da constituição do tribunal.

4. Em caso de força maior, por acordo escrito entre as partes ou por iniciativa do próprio tribunal, o

prazo poderá ser prorrogado até a dobro da sua duração inicial, para tomada de decisão.

5.

prazo fixado respondem pelos danos causados nos termos da Lei.

Os árbitros ou as partes que injustificadamente obstarem a que a decisão seja proferida dentro do

45

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

ARTIGO 36 (Deliberação) 1.Sendo o tribunal composto por mais de um árbitro, qualquer decisão é

ARTIGO 36

(Deliberação)

1.Sendo o tribunal composto por mais de um árbitro, qualquer decisão é tomada por maioria dos seus membros, salvo convenção em contrário das partes. Todavia, as questões de processo podem ser decididas por um árbitro presidente, se este estiver autorizado para efeito pelas partes ou por todos os membros do tribunal arbitral.

2. Podem ainda as partes convencionar que, não se tendo formado a maioria necessária, a decisão seja

tomada unicamente pelo presidente ou que a questão se considere decidida no sentido do voto do

presidente.

3.No caso de não se formar a maioria necessária, apenas por divergências quanto ao montante de condenação em dinheiro, a questão considera-se decidida no sentido do voto do presidente, salvo diferente convenção expressa das partes.

ARTIGO 37 (Decisão sobre questão prejudicial)
ARTIGO 37
(Decisão sobre questão prejudicial)

1.O tribunal arbitral pode decidir sobre a sua própria competência, aí incluída qualquer excepção relativa a existência ou à validade da convenção da arbitragem.

2.

alegações de defesa. O facto de uma parte ter designado um árbitro ou ter participado na sua designação não o priva do direito de arguir esta excepção. A excepção baseado no excesso de poderes do tribunal arbitral será arguida logo que surja, no decurso do processo arbitral, a questão que se

A excepção de incompetência do tribunal arbitral só pode ser arguida até à apresentação das

considera exceder esses poderes. O tribunal pode, em ambos casos, admitir uma excepção arguida após o prazo previsto, se considerar justificada a demora.

3.

questão prévia, quer na decisão sobre o fundo da causa. Se o tribunal arbitral decidir, a titulo de questão prévia, que é competente, qualquer das partes pode, num prazo de trinta dias após ter sido avisada desta decisão, pedir ao tribunal judicial que tome uma decisão sobre este ponto, decisão que será insusceptível de recurso; na pendência deste pedido, o tribunal arbitral pode prosseguir o processo arbitral e proferir uma decisão. Se o tribunal decidir na sentença, a decisão pela qual o tribunal arbitral se declare competente só pode ser apreciada pelo tribunal judicial pelo meio especificado no artigo 44 da presente Lei.

O tribunal arbitral pode decidir sobre a excepção referida no número anterior, que enquanto

a excepção referida no número anterior, que enquanto 4. Sobrevindo no curso da arbitragem controvérsia sobre

4. Sobrevindo no curso da arbitragem controvérsia sobre direitos indispensáveis e, verificando-se que,

da sua existência ou não, dependerá o julgamento, o árbitro ou o tribunal arbitral deve remeter às partes ao poder judicial, suspendendo o procedimento arbitral.

5. Resolvida a questão prejudicial e junta aos outros a sentença ou acórdão transitados em julgado, a

arbitragem prosseguirá normalmente.

46

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

ARTIGO 38 (Decisão por acordo das partes) 1.Se, no decurso do processo arbitral, as partes

ARTIGO 38

(Decisão por acordo das partes)

1.Se, no decurso do processo arbitral, as partes se puserem de acordo quanto a decisão do litígio, o tribunal porá fim do processo arbitral e, se as partes lhe solicitarem e ele não tiver nada a opor, constatará o facto através de uma sentença arbitral proferida nos termos acordados pelas partes.

2. A decisão proferida nos termos acordados pelas partes será elaborada em conformidade com as

disposições do artigo 39 e mencionará o facto de que se trata de uma sentença arbitral.

ARTIGO 39 (Elementos da sentença arbitral)
ARTIGO 39
(Elementos da sentença arbitral)

1.A sentença do tribunal arbitral é reduzida a escrito e dela deve constar:

a)a identificação das partes;

b) a referência à convenção de arbitragem;

c) o objecto do litígio;

d) a identificação dos árbitros;

e) o lugar da arbitragem, o local, a data em que a decisão foi proferida;

f) a assinatura do árbitro ou árbitros

2.

desde que seja mencionada a razão da omissão das restantes.

3.

fundamentação ou se se tratar de uma sentença proferida com base num acordo das partes nos termos

do artigo 38.

4.

A decisão deve ser fundamentada salvo se as partes convencionarem que não haverá lugar à

No processo arbitral com mais de um árbitro, serão suficiente as assinaturas da maioria dos árbitros,

serão suficiente as assinaturas da maioria dos árbitros, Da decisão deve constar a fixação e repartição,

Da decisão deve constar a fixação e repartição, pelas partes, dos encargos resultantes do processo.

ARTIGO 40

(Extinção do procedimento)

1.As actuações arbitrais terminarão quando for proferida a sentença definitiva, sem prejuízo do previsto no artigo 48 da presente Lei.

2. As actuações arbitrais podem ainda terminar antecipadamente, nos seguintes casos:

a)retirada do pedido pelo demandante, a menos que o demandado a tanto se oponha e o tribunal arbitral reconheça que este tem um interesse legítimo em que o litígio seja definitivamente resolvido.

b)

acordo entre as partes quanto ao encerramento do processo:

47

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

c) constatação, pelo tribunal arbitral, de que a prossecução do processo se tornou, por qualquer

c) constatação, pelo tribunal arbitral, de que a prossecução do processo se tornou, por qualquer razão, supérflua ou impossível.

3. À decisão de extinção é aplicável o disposto o artigo 39 com as necessárias adaptações.

4. O mandato do tribunal arbitral finda com a extinção do procedimento, sem prejuízo do disposto nos

artigos 45 e 48 da presente Lei.

ARTIGO 41

(Suspensão) ARTIGO 42
(Suspensão)
ARTIGO 42

As partes, de comum acordo e mediante comunicação escrita aos árbitros, podem suspender o procedimento arbitral antes de proferida a decisão, por um prazo máximo de um mês, contado a partir da última notificação efectuada no processo.

(Notificação, depósito e divulgação de sentença)

1.O presidente do tribunal mandará notificar a tomada de decisão a cada uma das partes, por carta registada ou outro meio de que fique registo escrito.

2.

encargos resultantes do processo, será um exemplar da decisão remetido a cada uma das partes

3.

decorrido o prazo estipulado nos nºs 1 e 3 do artigo 48, a menos que, na convenção de arbitragem ou em escrito posterior, as partes tenham dispensado tal depósito ou que, nas arbitagens

Logo que se acharem integralmente satisfeitos por ambas as partes ou por qualquer delas os

O original da sentença é depositado na secretaria do tribunal judicial do lugar da arbitragem,

na secretaria do tribunal judicial do lugar da arbitragem, institucionalizadas, o respectivo regulamento preveja outra

institucionalizadas, o respectivo regulamento preveja outra modalidade de depósito

4. O presidente do tribunal arbitral notificará as partes.

5. A sentença só poder ser divulgada com o acordo de todas as partes.

6. Poderá ser feita referência sentença para fins de investigação e estudos, atendendo ao interesse

jurídico do caso, desde que se respeite o anonimato das partes e a confidencialidade do processo.

ARTIGO 43

(Força executiva)

A decisão arbitral, depositada nos termos do artigo 42, produz entre as partes e seus sucessores os mesmos efeitos da sentença proferida pelos Órgãos do poder judicial e, sendo condenatória constitui título executivo.

48

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

CAPITULO VI Impugnação ARTIGO 44 (Susceptibilidade de recurso para os tribunais judiciais) 1.Da decisão do

CAPITULO VI

Impugnação

ARTIGO 44

(Susceptibilidade de recurso para os tribunais judiciais)

1.Da decisão do tribunal arbitral e admitido apenas recurso de anulação

2. A sentença arbitral só pode ser anulada pelo tribunal judicial se:

arbitral só pode ser anulada pelo tribunal judicial se: a) a parte que solicitou a anulação

a) a parte que solicitou a anulação forneceu prova de que

i. uma parte na convenção de arbitragem referida no artigo 4 estava ferida de uma incapacidade, ou

ii.

falta de qualquer indicação a este propósito, nos termos da lei do Estado Moçambicano; ou

iii.

impossível fazer valer os seus direitos por qualquer outra razão; ou

iv.

da cláusula compromissória, ou contém decisões que ultrapassam os termos do compromisso ou da cláusula compromissória, entendendo contudo que, se as disposições da sentença relativas a questões submetidas a arbitragem, poderá ser anulada unicamente a parte da sentença que contenha decisões sobre as questões não submetidas a arbitragem; ou

v.

a constituição do tribunal arbitral ou o processo arbitral não são conforme com a convenção das

a sentença tem por objecto um litígio não referido no compromisso ou não abrangido pela previsão

não foi devidamente informada da nomeação de um árbitro ou do processo arbitral ou lhe foi

que a dita convenção não é válida nos termos da lei a que as partes a tenham subordinado ou, na

partes, a menos que essa convenção contrarie uma disposição da presente lei que as partes não possam derrogar, ou que na falta de uma tal convenção, não estão conforme com a presente lei; ou

b)

de ser decidido por arbitragem nos termos da lei do Estado

o tribunal constatar que:

nos termos da lei do Estado o tribunal constatar que: i. o objecto do litígio não

i. o objecto do litígio não é susceptível Moçambicano; ou

ii.

3.

a sentença contrária a ordem pública do Estado Moçambicano

O recurso de anulação referido no presente artigo tem efeito suspensivo

ARTIGO 45

(Interpretação, fundamentação e prazo)

1.O recurso de anulação é interposto perante o tribunal arbitral que proferiu a decisão, no prazo de trinta dias a partir da sua notificação da decisão que a rectificou, interpretou ou completou.

2. Do recurso e notificado

máximo de quarenta e oito horas, o tribunal arbitral remeterá o processo para o tribunal judicial

competente.

que pode responder no mesmo prazo. Decorrido este prazo e no prazo

49

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

3. O tribunal arbitral deverá recusar o recurso interposto fora do prazo ou cujo fundamento

3. O tribunal arbitral deverá recusar o recurso interposto fora do prazo ou cujo fundamento não

obedece as regras referidas no artigo anterior.

4. Da decisão que indefira o recurso e admissível recurso com com base em incumprimento dos

fundamentos da recusa.

ARTIGO 46

(Tramitação do recurso)

ARTIGO 47 (Direito de requerer a anulação) ARTIGO 48
ARTIGO 47
(Direito de requerer a anulação)
ARTIGO 48

1.Quando lhe for solicitado que anule uma sentença, o tribunal judicial pode, se for caso disso e a pedido de uma das partes, suspender o processo de anulação durante o período de tempo que determinar, no sentido de dar ao tribunal arbitral a possibilidade de retomar o processo arbitral ou de tomar qualquer outra medida que o tribunal judicial julgue susceptível de eliminar os motivos da anulação.

2.

recorrer a meios de prova admitidos pela Lei de Processo Civil.

3.

Findo o prazo referido no número anterior deverá o Juiz proferir despacho podendo, para tal,

Do despacho referido no artigo anterior não é admissível o recurso.

O direito de recurso da decisão dos árbitros e irrenunciável.

de recurso da decisão dos árbitros e irrenunciável. (Rectificação, interpretação e sentença adicional)

(Rectificação, interpretação e sentença adicional)

1.Nos trinta dias seguintes a recepção de sentença, a menos que as partes tenham convencionado outro prazo, uma das partes pode, notificando a outra:

a)

erro material ou tipográfico ou qualquer erro de natureza semelhante;

b)

passagem precisa da sentença.

pedir ao tribunal arbitral que rectifique, no texto da sentença, qualquer erro de cálculo, qualquer

se as partes assim o convencionarem, pedir ao tribunal arbitral que interprete um ponto ou

2. Se o tribunal considerar o pedido justificado, fará a rectificação ou a interpretação nos trinta dias

seguintes a recepção do pedido.

3. Salvo convenção das partes em contrário, uma das partes pode, notificando a outra, pedir ao

tribunal arbitral, nos trinta dias seguintes a recepção da sentença, que profira uma sentença adicional sobre certos pontos do pedido expostos no decurso do processo arbitral mas omitidos naquela. Se julgar o pedido justificado, o tribunal proferirá a sentença adicional dentro de sessenta dias.

50

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

4. O tribunal arbitral pode prolongar, se for necessario, o prazo de que dispõe para

4. O tribunal arbitral pode prolongar, se for necessario, o prazo de que dispõe para rectificar,

interpretar ou completar a sentença, nos termos dos n.s 2 e 3 do presente artigo.

5. O tribunal arbitral pode, por sua iniciativa, rectificar qualquer erro do tipo referido na alínea a) do

nº 1 do presente artigo, nos trinta dias seguintes a data da sentença.

6. Os pedidos referidos nos números anteriores não tem efeito suspensivo.

7. Se o tribunal não puder reunir de novo, o presidente do tribunal arbitral é competente para

interpretar, rectificar ou completar a sentença.

8.

necessarias adaptacoes.

9.

deverá ser notificada as partes.

A decisão que interprete, rectifique ou complete a sentença arbitral é incorporada a esta última e

CAPITULO VII Execução ARTIGO 49 (Execução da sentença) ARTIGO 50 (Tramitação da execução forçada)
CAPITULO VII
Execução
ARTIGO 49
(Execução da sentença)
ARTIGO 50
(Tramitação da execução forçada)

São aplicáveis a rectificação, interpretação ou decisão adicional, as disposições do artigo 39, com as

1.As partes comprometem-se a executar a sentença nos exactos termos que lhes forem comunicados pelo tribunal arbitral.

2.

Vencido o prazo fixado pelo tribunal arbitral para o cumprimento da decisão ou, na falta dessa

definição, decorrido o prazo referido no nº 1 do artigo 45, sem que a mesma tenha sido cumprida, a parte interessada poderá requerer a sua execução forçada, perante o tribunal judicial competente.

execução forçada, perante o tribunal judicial competente. 1.O processo de execução forçada segue os termos do

1.O processo de execução forçada segue os termos do processo sumaríssimo de execução, seja qual for o valor da causa, com as especificidades dos artigos seguintes.

2.

autenticadas dos seguintes documentos:

a)convenção arbitral;

A parte que solicita a execução forçada de uma decisão, acompanhará o seu pedido com cópias

b)

decisão arbitral, sua rectificação, interpretação e decisão adicional;

c)

comprovativo da notificação as partes e do depósito da decisão.

3.

Se a decisão não for proferida em português, deverá ser apresentada uma tradução oficial para esta

língua.

51

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

ARTIGO 51 (Oposicao à oposicao) 1.É admitida oposição a execução forçada no prazo de oito

ARTIGO 51

(Oposicao à oposicao)

1.É admitida oposição a execução forçada no prazo de oito dias, contados a partir da notificação da decisão sobre a execução, com fundamento no cumprimento da decisão arbitral, em anulação ou em pendência de recurso de anulação da mesma. Neste último caso a autoridade judicial suspenderá a execução forçada até que o recurso seja resolvido.

2. É vedado ao Juíz e nulo o despacho que receba oposição fora dos casos referidos no número anterior.

oposição fora dos casos referidos no número anterior. 3. O decurso do prazo para intentar a

3. O decurso do prazo para intentar a acção de anulação não obsta a que se invoquem os seus

funamentos em via de oposição a execução.

4.

Sobre o despacho que decida sobre a oposição não é admitido recurso.

sentença arbitral é amplamente regulada na LACM, que inclui aspectos como o critério de decisão, o prazo, o modo de tomada de decisão por tribunais colegiais ou o conteúdo da sentença.

CRITÉRIO DE DECISÃO

Nos termos do artigo 34, nº 2, os árbitros julgam segundo o direito constituído, podendo, porém, as partes autorizá-los a decidir segundo a equidade.

A

em causa é simplesmente uma visão sobre o modo de conceber e aplicar o Direito. Se entendermos o Direito numa postura positivista, circunscrito à lei, a equidade estará necessariamente fora do seu âmbito. Já se tivermos do Direito uma posição pluralista, de acordo com a qual as suas fontes são várias e de diversa importância, a equidade poderá estar dentro do Direito. Estas concepções reflectem-se, depois, no método de aplicação do Direito. Se adoptarmos uma perspectiva legalista, nenhum papel será tribuído à equidade na descoberta da solução jurídica do caso. Já se seguirmos uma posição pluralista, à equidade poderá ser atribuído um papel moderador na aplicação do direito escrito.

equidade é entendida como sendo, tão simplesmente, um problema de metodologia do Direito. O que está

A

um problema de metodologia do Direito. O que está A As referências à equidade são muito

As referências à equidade são muito antigas, remontando as mais conhecidas a Aristóteles, no seu livro Ética a Nicómaco. É aí, mais precisamente no seu Livro V, que se funda ainda hoje a ideia de equidade. É útil retomar as suas palavras, de uma actualidade e clareza espantosas.

O fundamento para tal função

Para Aristóteles, a equidade «tem uma função rectificadora da justiça legal

rectificadora resulta de, embora toda a lei seja universal, haver, contudo, casos a respeito dos quais não é possível enunciar de modo correcto um princípio universal.»

Esta função rectificadora não se torna necessária por falha do legislador, mas pela própria natureza da lei: «o erro não reside na lei nem no legislador, mas na natureza da coisa: isso é simplesmente a matéria do que está

exposto às acções humanas. Quando a lei anuncia um princípio universal, e se verifiquem resultarem casos que vão contra essa universalidade, nessa altura está certo que se rectifique o defeito, isto é, que se rectifique o que

o legislador deixou escapar e a respeito do que, por se pronunciar de modo absoluto, terá errado. É isto que o

52

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

próprio legislador determinaria, se presenciasse o caso ou viesse a tomar conhecimento da situação, A

próprio legislador determinaria, se presenciasse o caso ou viesse a tomar conhecimento da situação,

A natureza da

equidade é, então, ser rectificadora do defeito da lei, defeito que resulta da sua característica universal.»

A equidade é um instituto próprio dos sistemas jurídicos de raiz romanística. A noção de aequitas, em latim, ou Epieikeia, em grego, correspondem, na essência, ao julgamento segundo a consciência do que é justo e bom no

caso concreto (em suma, do que é ex aequo et bono).

O Tribunal Supremo espanhol, num célebre acórdão de 6 de Maio de 1977, sintetizou de forma clara o que é a

decisão arbitral de equidade:

«A finalidade que o legislador procurou ao criar a arbitragem de equidade, de características muito mais simples do que a arbitragem de direito, tanto no aspecto substantivo como formal, foi a de permitir, com ampla margem, a dirimição de questões que se suscitam entre as partes sem sujeitar o julgamento aos termos rígidos do Direito,

rectificando, assim, a lei, a partir das situações concretas que de cada vez se constituem. (

)

das situações concretas que de cada vez se constituem. ( ) apoiando-se de modo preferencial nas

apoiando-se de modo preferencial nas normas morais ou de consciência do árbitro.»

A

estritos, a normas quer de justiça natural, quer éticas, técnicas ou práticas que encaminhem o árbitro a adoptar,

sob a tutela do leal saber e entender

equidade constitui, na arbitragem, um critério de julgamento que faz apelo, mais do que a regimes legais

com prudência e em vista do justo, a solução mais adequada ao caso concreto, atendendo às condições e circunstâncias prevalentes, valendo-se ou não, quer de princípios gerais de direito, quer mesmo de normas jurídicas estritas se, em sua sã consciência e de acordo com os condicionalismos de ordem jurídica relevante, entender dever aplicá-los.

Características:

- justiça fundada em princípios de igualdade e de justa atribuição do que compete a cada um;

- justiça devida ao caso concreto;

que compete a cada um; - justiça devida ao caso concreto; - moderação na aplicação do

- moderação na aplicação do direito, afastando a sua aplicação rigorosa;

- aplicação de valores da moral, da razão e da utilidade;

- justiça ideal, do Direito Natural, que está acima do direito positivo.

Forma e Conteúdo

Nos termos do artigo 36 nº 1 da LACM, a decisão é tomada por maioria dos membros do tribunal arbitral. A sentença deve ser assinada pelos árbitros, dela deve constar a data e o lugar da arbitragem. A sentença deve ser fundamentada, a menos que as partes dispensem essa fundamentação ou se trate de sentença de homologação de acordo.

Prazo

O prazo para a decisão é fixado livremente pelas partes, sendo de seis meses na falta de estipulação. Este prazo

conta-se a partir da data da aceitação do último árbitro. Esta matéria é regulada no artigo 35 da LACM. O prazo pode ser prorrogado por mais seis meses. O objectivo da estipulação do prazo é o de assegurar que o litígio seja resolvido rapidamente.

53

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

ARBITRAGEM COMERCIAL INTERNACIONAL CAPITULO VIII Arbitragem comercial internacional ARTIGO 52 (Conceito) 1.Para efeitos da

ARBITRAGEM COMERCIAL INTERNACIONAL

CAPITULO VIII

Arbitragem comercial internacional

ARTIGO 52

(Conceito)
(Conceito)

1.Para efeitos da presente Lei, uma arbitragem será de natureza internacional quando ponha em jogo interesses de comércio internacional e, designadamente, quando:

a)

domicílio comercial em países diferentes; ou

b)

estabelecimento:

i. o lugar da arbitragem, se este estiver fixado na convenção de arbitragem ou for determinável de acordo com esta;

um dos lugares a seguir referidos estiver situado fora do país no qual as partes tem o seu

as partes numa convenção arbitral tiverem, no momento da conclusão dessa convenção, o seu

ii. qualquer lugar onde deva ser executada uma parte substancial das obrigações resultantes da relação comercial ou o lugar com o qual o objecto do litígio se ache mais estritamente conexo; ou

c)

conexoes com mais de um pais.

2. Para efeitos do previsto no número anterior, se uma parte:

a)

mais estrita com a convencao de arbitragem;

b)

as partes tiverem convencionado expressamente que o objecto da convencao de arbitragem tem

expressamente que o objecto da convencao de arbitragem tem tiver mais de um domicílio comercial, o

tiver mais de um domicílio comercial, o domicílio a tomar em consideracao aquele que tem a relacao

não tiver domicílio comercial, releva para este efeito a sua residência habitual.

ARTIGO 53

(Regime)

Na falta de estipulação especifica das partes, são aplicáveis a arbitragem comercial internacional as disposições desta Lei relativas a arbitragem em geral, com as necessárias adaptações, sem prejuízo da aplicação das disposições especiais previstas na presente Lei.

54

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

ARTIGO 54 (Determinação do direito aplicável) 1.O tribunal arbitral decide o litígio de acordo com

ARTIGO 54

(Determinação do direito aplicável)

1.O tribunal arbitral decide o litígio de acordo com as regras do Direito escolhidas pelas partes para serem aplicadas ao fundo da causa. Qualquer designação da lei ou do sistema jurídico de um determinado país será considerada, salvo indicação expressa em contrário, como designando directamente as regras jurídicas materiais desse país e não as suas regras de conflitos de leis que ele julgue aplicável na espécie.

2.

de conflito de leis que ele julgue aplicável na espécie.

3.

partes a isso expressamente o autorizarem.

4.

usos do comércio aplicáveis a transação.

Na falta de uma tal designação pelas partes, o tribunal arbitral aplicará a lei designada pela regra

ARTIGO 55 (Capacidade) ARTIGO 56 (Língua)
ARTIGO 55
(Capacidade)
ARTIGO 56
(Língua)

O tribunal decidirá ex aequo et bono ou na qualidade de amiable compositeur apenas quando as

Em qualquer caso, o tribunal decidirá de acordo com as estipulações do contrato e terá em conta os

A capacidade das partes para outorgar a convenção arbitral por si mesmas ou em representação de outra pessoa, será a que seja estabelecida pela lei do lugar do seu domicílio, estabelecimento principal ou residência habitual, salvo se a lei moçambicana for mais favorável a validade da convenção arbitral.

for mais favorável a validade da convenção arbitral. 1.As partes podem, por acordo, escolher livremente a

1.As partes podem, por acordo, escolher livremente a língua ou línguas a utilizar no processo arbitral. Na falta de um tal acordo o tribunal arbitral determinará a língua ou línguas a utilizar no processo.

2.

de uma das partes, a qualquer procedimento oral e a qualquer sentença, decisão ou comunicação do tribunal arbitral, a menos que tenha sido especificado de modo diverso.

3.

da língua ou línguas convencionadas pelas partes ou escolhidas pelo tribunal arbitral.

O acordo ou a determinação referido no número anterior aplicam-se a qualquer declaração escrita

O tribunal arbitral pode ordenar que qualquer peca processual seja acompanhada de uma tradução

ARTIGO 57

(Número de árbitros)

55

Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

1.As partes podem determinar livremente o número de árbitros. 2. Na falta de tal determinação,

1.As partes podem determinar livremente o número de árbitros.

2. Na falta de tal determinação, os árbitros serão em número de três.

ARTIGO 58

(Nomeação de árbitros)

1.As partes podem, por acordo,escolher livremente o processo de nomeação do árbitro ou árbitros, sem prejuizos do disposto nos n.s 3 e 4 do presente artigo.

2. Na falta de um tal acordo:

a) no caso de uma arbitragem com três árbitros, cada uma das partes nomeia um árbitro e os dois

árbitros, cada uma das partes nomeia um árbitro e os dois árbitros assim nomeados escolhem o

árbitros assim nomeados escolhem o terceiro árbitro; se uma das partes não nomear árbitro no prazo

de

árbitros não se opuserem de acordo quanto a escolha do terceiro árbitro dentro de trinta dias a contar da respectiva designação, a nomeação é feita, a pedido de uma das partes, por um organismo institucionalizado de arbitragem escolhido pelas partes;

trinta dias a contar da recepção de um pedido feito nesse sentido pela outra parte, ou se os dois

b) no caso de uma arbitragem com um único árbitro, se as partes não puderem por-se de acordo sobre

a escolha do árbitro, este será nomeado, a pedido de uma das partes, por um organismo

institucionalizado de arbitragem escolhido pelas partes:

3.

acordo relativo ao processo de nomeação estipule outros meios de assegurar esta nomeação se, durante

Qualquer das partes pode pedir ao tribunal judicial que tome a medida pretendida, a menos que o

um processo de nomeação convencionado pelas partes:

a) uma parte não agir em conformidade com o referido processo; ou

b) as partes, ou dois árbitros, não puderem chegar a um acordo nos termos do referido processo; ou

chegar a um acordo nos termos do referido processo; ou c) um terceiro, ai incluída uma

c) um terceiro, ai incluída uma instituição, não cumprir uma função que lhe foi confiada no referido processo.

4.

É aplicável a nomeação de árbitros o disposto nos nºs 9 e 10 do artigo 18 da presente Lei.

ARTIGO 59

(Notificação da decisão)

Proferida a sentença, será enviada a cada uma das partes uma cópia assinada pelo árbitro ou árbitros, nos termos do artigo 39 da presente Lei.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

CONCEITO É um meio jurisdicional privado e voluntário de dirimição de um litígio, de carácter

CONCEITO

É um meio jurisdicional privado e voluntário de dirimição de um litígio, de carácter contratual ou não,

caracterizado pela existência de elementos de conexão envolvendo mais de um Estado, que é susceptível de ser resolvido pela via arbitral e relativa a interesses privados ou a interesses público-privados que não deva ser

submetido, por disposição legal ou por convenção internacional, a tribunais específicos.

Os litígios são caracterizados pela existência de elementos que, pela diferente nacionalidade, localização ou residência habitual das partes envolvendo mais de um Estado ou pela prática ou verificação em mais de um Estado dos diversos actos ou factos juridicamente relevantes na caracterização do litígio (lugar da celebração ou do cumprimento do contrato, etc.) apresentam ligação a mais de um Estado.

O

Caracterização

O

árbitro, na arbitragem internacional, tem um maior grau de autonomia na condução do processo arbitral,

maior grau de autonomia na condução do processo arbitral, litígio deve ser susceptível de resolução mediante

litígio deve ser susceptível de resolução mediante o recurso a arbitragem.

porque, não devendo obediência rígida a um estatuto de arbitragem fixado pela lei de um determinado estado, goza de acentuada liberdade na escolha das normas reguladoras do processo arbitral e da lei aplicável ao mérito

da causa, salvo as que, em atenção à lei arbitral da localização da arbitragem, não possam ser afastadas.

É,

mérito da causa e ou o processo arbitral.

O

ou por ele próprio, no caso de esta lei contrariar aquela. O árbitro deve, igualmente, ter em atenção, na medida do possível, a lei do estado ou dos estados em que seja susceptível a sentença arbitral vir a ser executada, por forma a conferir-lhe um efeito útil.

O

processo arbitral, quer ao mérito da causa. É o caso dos usos comerciais internacionais, do costume arbitral internacional e, em geral, do que modernamente se tem designado pelo Direito Arbitral Transnacional ou lex mercatoria composto pelo costume arbitral internacional, os princípios de direito comuns à comunidade internacional, os regulamentos dos tribunais internacionais de arbitragem e a ordem pblica internacional interpretada ou aplicada pela jurisprudência e pela doutrina dos principais estados que se dedicam à arbitragem internacional.

Em arbitragem comercial internacional, o princípio in favorem validatis ou da presunção de validade da arbitragem internacional encontra, como consequência da sua necessidade ao comércio, o seu campo de aplicação preferencial. Este princípio representa, em suma, um certo benfício pró-arbitragem no caso de se colocarem, postuladas pelas leis de diversos estados potencialmente aplicáveis, soluções antagónicas ou dubitativas, relativas à validade ou à eficácia da convenção de arbitragem. Este princípio é completado pelo princípio in favor em arbitrandum que estende ao processo arbitral e à sentença arbitral o mesmo regime de presunção de vallidade em caso de dúvida. Este regime favorável à arbitragem impõem-se, quer aos tribunais estaduais que podem ser chamados a apreciar, em concreto, a validade da convenção de arbitragem, do

árbitro internacional dispõe de um conjunto próprio de normativos susceptíveis de aplicação, quer ao

no entanto, uma liberdade relativa, porque o árbitro deve aplicar a lei escolhida pelas partes para regular o

árbitro deve ainda observar a ordem pública transnacional, sobrepondo-a à própria lei escolhida pelas partes

transnacional, sobrepondo-a à própria lei escolhida pelas partes 57 Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

processo arbitral ou da sentença arbitral, em caso de dúvida e que, em regra, são

processo arbitral ou da sentença arbitral, em caso de dúvida e que, em regra, são os tribunais da localização da arbitragem, quer aos tribunais do reconhecimento e execução de sentença arbitral estrangeira.

Segundo a lei suíça, que foi uma das primeiras a aplicar o princípio da presunção de validade da arbitragem internacional, a convenção de arbitragem é válida sempre que o seja quer face à lei escolhida pelas partes, quer face à lei reguladora da substância do litígio, em particular a lei reguladora do contrato principal, quer, ainda, se for compatível com a lei suíça. É este o regime do artigo 178(2) da Lei Suíça de Direito Internacional Privado, que oferece um leque de normativos alternativos destinados a considerar válida uma convenção de arbitragem.

A Convenção de Nova Iorque de 1958, no artigo V (1) (a), embora por via negativa, também reconhece validade

(1) (a), embora por via negativa, também reconhece validade à convenção de arbitragem se ela não

à convenção de arbitragem se ela não se mostrar violadora, quanto à capacidade das partes, da lei pessoal

destas e, quanto a outras matérias, se não contrariar a lei escolhida pelas partes, a lei do país em que tiver sido proferida a sentença arbitral.

Em geral, o simples facto de ter sido celebrada uma convenção de arbitragem deve fazer presumir que elas tiveram um interesse real e sério em que sejam árbitros e não juízes a dirimir o litígio.

A

Convenção de Nova Iorque estabelece uma presunção juris tantum de validade e eficácia de sentença arbitral

estrangeira que se pretenda reconhecer num outro país. Apenas nos casos previstos previstos nos números 1 e

2 do seu artigo V é admissível aos tribunais estaduais do estado de reconhecimento e execução recusá-las.

Nos termos do número 1, a parte contra a qual for invocada deve provar:

A

do árbitro, da existência do processo ou a impossibilidade de deduzir contestação; que o litígio não foi objecto da convenção escrita nem da cláusula compromissória, ou que a sentença contém decisões que extravasam a convenção; que a constituição do tribunal foi irregular; que a sentença não se tornou obrigatória para as partes, foi anulada ou suspensa;

incapacidade das partes para celebrar a convenção ou a invalidade desta; a falta de informação da designação

O numero 2 refere que o reconhecimento e a execução poderão ser recusados se a autoridade competente constatar que, de acordo com a lei do país, o objecto do litígio não é susceptível de ser resolvido por arbitragem ou que o reconhecimento e a execução da sentença são contrários à ordem pública desse país.

da sentença são contrários à ordem pública desse país. Estes dois princípios, aliás, estão consagrados na

Estes dois princípios, aliás, estão consagrados na nossa lei de arbitragem no artigo que estipula os fundamentos de anulação das sentenças arbitrais.

Necessidade da Arbitragem Internacional

A arbitragem internacional constitui, hoje, um meio indispensável para resolução de litígios internacionais privados, salientando-se com especial significado os litígios do comércio internacional.

A jurisdição estadual não se afigura particularmente apta para isso, por não ter sido especialmente concebida e

equipada para a resolução de litígios internacionais, nem em regra os estados e os contribuintes respectivos estarem particularmente interessados em suportar os custos da resolução de litígios pelos seus tribunais estaduais que não tenham um mínimo de conexão com o território ou com a defesa dos interesses próprios desse estado, seja por razões de nacionalidade ou da residência, seja por outro elemento de conexão relevante

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

para esse estado. Apenas nos casos previstos nos artigos 62º, 63º e 94º do C.P.C.

para esse estado. Apenas nos casos previstos nos artigos 62º, 63º e 94º do C.P.C. os tribunais moçambicanos se reconhecem internacionalmente competentes para julgar litígios que envolvam mais de um estado, além de Moçambique.

Ao interesse dos estados nesta matéria, acresce o interesse das partes em não submeter o litígio aos tribunais

da contraparte, mas antes a uma jurisdição neutra.

Resulta disto que, sobretudo no domínio do comércio internacional e como sustentáculo indispensável à sua protecção e fluidez, a arbitragem internacional constitui o meio mais apropriado para a resolução de litígios internacionais. Referimo-nos, não a questões como a cobrança de dívidas, fixação e cobrança de montantes indemnizatórios,etc., mas às questões litigiosas em geral das transacções do comércio internacional.

De

tal modo que alguma jurisprudência tem afirmado que o consentimento à submissão de litígios à arbitragem,

o consentimento à submissão de litígios à arbitragem, a celebração da convenção de arbitragem não se

a celebração da convenção de arbitragem não se encontra sujeita a qualquer condição de forma, uma vez que

a arbitragem constitui o modo usual de resolução de litígios no comércio internacional. Esta tese levou mesmo

alguns autores, mais radicais, a considerar que nem sequer se tornaria necessário celebrar qualquer convenção

de

arbitragem, pois a arbitragem é inerente ao comércio internacional

A questão da nacionalidade da arbitragem

A

saber qual o estatuto da arbitragem, isto é, de uma determinada arbitragem em questão.

pergunta é se as arbitragens têm nacionalidade ou podem ser anacionais. Do que se trata, portanto, é de

Esta matéria distingue-se, assim, do estatuto pessoal do árbitro. O árbitro, não é um funcionário estadual, nem titular de um órgão de soberania. O árbitro é um cidadão comum, pode nem ser um profissional da arbitragem

exerce transitoriamente uma função jurisdicional instituída por entidades privadas ou conjuntamente por entidades privadas e públicas para dirimir os litígios que as opõem.

e

e públicas para dirimir os litígios que as opõem. e O estatuto pessoal do árbitro é

O

estatuto pessoal do árbitro é o que resulta da sua vinculação às partes em resultado do contrato de árbitro,

árbitro não administra a justiça em nome do povo nem está sujeito ao estatuto dos magistrados judiciais. O

ppor um lado, e à lei reguladora do contrato.

O

relativas à constituição do tribunal arbitral, aos princípios fundamentais a que o processo arbitral deve obedecer, outras normas adjectivas, à observância do que dispõem as normas de conflitos de leis no espaço e, muito particularmente, a convenção de arbitragem que, vinculando as partes, constitui o esteio da arbitragem.

estatuto da arbitragem levanta diversas questões, que dizem respeito às normas processuais arbitrais

O normativo aplicável ao mérito da causa, quer tenha sido escolhido pelas partes quer pelo árbitro, integra o

conteúdo do pacto de escolha da lei aplicável ao litígio e, como tal, também se liga ao estatuto da arbitragem.

Tendo como pressuposto que, para os estados, as legislações nacionais conferem-lhes competência para regular

as arbitragens que decorram no seu território, a lei do lugar onde sejam praticados os actos ou a lei do lugar onde a sentença arbitral é proferida autoridade soberana para impôr ao árbitro e às partes a sua aplicação dentro do seu território.

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

Mas, por outro lado, é admissível que se diga que a arbitragem internacional não tem

Mas, por outro lado, é admissível que se diga que a arbitragem internacional não tem uma determinada nacionalidade, o árbitro não está obrigado a observar as normas de conflitos de leis de um determinado país. Mas, é sempre de considerar que, uma arbitragem internacional em contacto com mais de uma ordem pública estadual é uma arbitragem multilocalizada e em qualquer delas, a lei nacional respectiva pode chamar a si competência para regular certos aspectos da arbitragem em causa.

Em rigor, uma arbitragem só seria anacional se estivesse completamente desligada de toda e qualquer ordem jurídica nacional, o que seria teoricamente possível, mas o certo é que o árbitro deve ter em conta a lei do estado da localização da arbitragem e a lei do estado de acolhimento da sentença arbitral.

e a lei do estado de acolhimento da sentença arbitral. Fontes da Arbitragem Internacional Apesar do

Fontes da Arbitragem Internacional

Apesar do seu carácter internacional, uma grande parte das normas que lhe dão conteúdo provêm de fonte estadual nacional, ou antes, resultam do modo como o direito nacional dos estados que maior atenção têm dedicado à arbitragem internacional concebem o conteúdo, a eficácia e a importância económica e social da arbitragem na resolução de conflitos internacionais. A arbitragem internacional deve o seu recrudescimento, na década de sessenta do Século XX à tolerância dos estados soberanos em a admitir como meio de resolução jurisdicional de litígios e à constatação, por eles, da sua importância e necessidade no desenvolvimento do comércio internacional.

A

par disso figuram como motor do crescimento da arbitragem internacional algumas convenções

internacionais e outros instrumentos internacionais multilaterais, que expendiram e cristalizaram conceitos e regimes próprios do direito arbitral internacional. Os usos comerciais, as normas regulamentares dos centros

arbitragem internacional, a jurisprudência e a doutrina formaram e consolidaram o que é hoje o direito

arbitral internacional.

A França, de entre os países pertencentes ao sistema do Direito Civil, é o líder no desenvolvimento da arbitragem, devido, principalmente à jurisprudência dos seus tribunais estaduais, que têm assumido uma atitude não restritiva e favorável à arbitragem, e a uma doutrina atenta e esclarecida. O facto de se situar em Paris um dos centros de arbitragem mais importantes do mundo, motiva constantemente a jurisprudência e a doutrina a contribuir para o progresso da arbitragem.

Foi

de

doutrina a contribuir para o progresso da arbitragem. Foi de a reforma de 1981 que consagrou,

a reforma de 1981 que consagrou, pela primeira vez naquele país, normas legais específicas de arbitragem.

Foi ambém esta reforma que estabeleceu, de forma inédita naquela época, a primeira pedra da construção do edifício da autonomia da convenção de arbitragem em relação ao sistema savigniano de conflitos de leis,

atribuindo ao árbitro o poder de escolha do normativo aplicável ao mérito da causa na falta dessa escolha pelas partes. A determinação do normativo aplicável ao mérito da causa deixou, assim, de depenfer necessariamente

da

lei de um estado determinado perante um conjunto de outras leis estaduais aplicáveis para passar a caber

ao

árbitro, o que significa na prática que ele eixou de estar sujeito à aplicação de normativos próprios do

mevanismo conflitual de leis, para ser livre de os aplicar ou não, podendo aplicar, por exemplo os usos comerciais e a lex mercatoria.

O CPC francês faz a distinção, por um lado, entre a arbitragem interna, cujo tribunal arbitral tenha a sua localização em França e em que não estão em questão interesses do comércio internacional, bem como a arbitragem cujo tribunal tenha igualmente a sua localização em França, mas versando interesses do comércio

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Jafar Gulamo Jafar Vice-Presidente Março 2016

internacional, e, por outro lado, a arbitragem cujo tribunal não tenha a sua localização em

internacional, e, por outro lado, a arbitragem cujo tribunal não tenha a sua localização em França. A lei equipara esta última arbitragem que tenha lugar fora de França àquela outra que tenha lugar em França mas diga respeito

a interesses do comércio internacional. Igualmente, ao contrário da sentença arbitral interna cujo mérito pode

ser revisto pelos tribunais estaduais e, bem assim, só pode ser executada no país após obter o exequatur de um

tribunal estadual, a sentença arbitral proferida em França por arbitragem que correu neste país, mas versando interesses do comércio internacional está apenas sujeita a recurso de anulação e não a revisão de mérito.

Em Inglaterra existe uma assinalável tradição de arbitragem, em particular no domínio do direito comercial marítimo e dos seguros.a legislação arbitral de 1950 foi substituída por uma lei de 1996, que está actualmente em vigor. Esta lei não distingue arbitragem internacional da interna. Estão ambas sujeitas ao mesmo regime.

É

condições, é mesmo permitido questionar interlocutoriamente o tribunal judicial sobre determinadas questões isoladas de direito, independentemente do recurso sobre a decisão relativa ao mérito da causa que possa ser interposto da sentença arbitral. É uma lei menos liberal do que a lei francesa, o que é explicado formalmente pelo facto de ser uma lei bem mais extensa e detalhada do que a lei francesa. Teve alguma influência na Lei- Modelo da UNCITRAL. Permite aos tribunais estaduais um maior intervencionismo do que a grande maioria das leis continentais europeias.

admissível o recurso sobre o mérito da sentença arbitral para os tribunais estaduais. Dentro de certas

arbitral para os tribunais estaduais. Dentro de certas A o arbitral, evitando-se assim expedientes anulatórios

A

o

arbitral, evitando-se assim expedientes anulatórios após o final do processo arbitral. não é permitido o recurso

Holanda tem uma lei de arbitragem muito liberal, em vigor desde 1986. Em certas matérias, apenas permite

recurso de anulação da sentença arbitral se a causa de nulidade tiver sido arguida no decurso do processo

de revisão do mérito da sentença arbitral.

Na Suécia, há tradição de utilização da arbitragem institucionalizada organizada pela Câmara de Comércio de Estocolmo, muito usada, na arbitragem internacional, pelos ex-países do bloco soviético dada a neutralidade do país. Ainda hoje, muitas empresas chinesas preferem a arbitragem em Estocolmo. A lei actual data de 1999, prevendo a renúncia pwlas partes ao recurso de anulação nas arbitragens internacionais que te nham lugar na Suécia e não distingue a arbitragem interna da internacional.

A

de 1994 e r