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INCIDÊNCIA DE Escherichia coli EM UROCULTURAS ANALISADAS NO SETOR


DE MICROBIOLOGIA DE UM HOSPITAL PARTICULAR DA CIDADE DO
NATAL-RN
João Luiz Guimarães Viana Júnior¹ Keyte Rodrigues de Oliveira²

RESUMO: A maioria das infecções do trato urinário (ITU) ocorridas na comunidade e das infecções
nosocomiais está associada aos bastonetes Gram-negativos pertencentes à família Enterobacteriaceae,
destacando-se a Escherichia coli, muito estudada por sua patogenicidade e alta incidência nessas enfermidades.
Com o objetivo de verificar a frequência de isolamento desta bactéria, analisando a faixa etária e gênero mais
acometido, realizou-se um estudo retrospectivo de 3.312 uroculturas analisadas em um Hospital particular da
cidade de Natal – RN, no período de 01 de janeiro a 31 de dezembro de 2013, onde apresentou 26% de
uroculturas positivas (n=861), sendo que 83% (n=715) para pacientes do sexo feminino na faixa etária de 22 –
49 anos sexualmente ativas. Em 62% (n=534) das amostras, apontaram a E.coli como agente etiológico das ITU.
Desta forma, pode-se concluir que por ser presente na microbiota intestinal do ser humano a E.coli tem maior
frequência nos casos de ITU e que o exame bacteriológico de urocultura é imprescindível na identificação deste
e de outros microorganismos causadores dessas ITU por apresentar um diagnóstico preciso importante para a
aplicação do tratamento e possíveis profilaxias, uma vez que, a incidência dessas infecções urinárias pode variar
de acordo com o sexo e a idade do paciente.

PALAVRAS-CHAVE: Urocultura. Escherichia coli. ITU.

INCIDENCE Escherichia coli FROM URINE CULTURES ANALYSED IN THE


MICROBIOLOGY SECTOR OF A PRIVATE HOSPITAL IN THE CITY OF
NATAL-RN
ABSTRACT: Most urinary tract infections (UTI) in that community and nosocomial infections are associated
with Gram-negative rods belonging to the Enterobacteriaceae family, especially the Escherichia coli, very
studied for its pathogenicity and high incidence in these diseases. In order to check the frequency of isolation of
this bacterium, analyzing age and gender most affected, there was a retrospective study analysed 3,312 urine
cultures in a private hospital in the city of Natal - RN, from 1 January to 31 December 2013, which showed 26%
of positive urine cultures (n = 861), and 83% (n = 715) for female patients aged 22-49 are sexually active years.
In 62% (n = 534) of the samples showed E. coli as the etiologic agent of the ITU. Thus, it can be concluded that
by being present in the intestinal microflora of the human E. coli is most frequently in the cases of UTI and
bacteriological examination of urine culture is essential in identifying this and other causative organisms such
that it has a UTI accurate diagnosis important for the application of treatment and prophylaxis possible, since the
incidence of these urinary infections may vary according to the sex and age of the patient.

KEYWORDS: Urine culture. Escherichia coli. UTI.

¹Pós-Graduando Latu sensu em Microbiologia e Parasitologia do Centro Universitário Facex (UNIFACEX).


Contato: katze_tb@hotmail.com
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Pós-Graduanda Latu sensu em Microbiologia e Parasitologia do Centro Universitário Facex (UNIFACEX).
Contato: keytebio@hotmail.com

Orientadora: Doutora Daniele Bezerra dos Santos. Contato: danielebezerra@gmail.com


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1 INTRODUÇÃO
Infecção do trato urinário (ITU) pode ser definida como sendo a invasão e
multiplicação de microorganismos nos tecidos do trato urinário, podendo ser assintomática ou
sintomática, e quando sintomáticas, podem apresentar disúria, polaciúria, dor lombar,
calafrios, urgência miccional, nictúria, urina turva (pela presença de piúria) ou avermelhada
(pela hematúria) (PIRES et. al., 2007).

A prevalência das infecções urinárias está relacionada com a idade e o sexo do


paciente. Nos neonatos e lactantes a infecção é mais incidente no sexo masculino por estar
relacionada às anomalias congênitas, especialmente a válvula de uretra posterior. Durante a
infância e a fase escolar, as meninas têm maior prevalência, sendo que 48% das mulheres
apresentam pelo menos um caso de infecção urinária ao longo da vida. A mulher é mais
suscetível à infecção por conta da proximidade do ânus com o vestíbulo vaginal e uretra -
que é mais curta. (THOMPSON; MILLER, 2003).

Em geral, essas ITUs, são causadas por bactérias Gram-negativas aeróbicas presentes
na flora intestinal. Nas infecções urinárias agudas sintomáticas existe nítida predominância de
Escherichia coli, enquanto que nas infecções crônicas ou adquiridas em ambiente hospitalar
ou relacionadas com anomalias estruturais do trato urinário existe uma incidência mais
equitativa das diferentes enterobactérias, com o aumento da prevalência de infecções causadas
por Klebsiella sp., Proteus sp., Pseudomonas sp., Enterobacter sp., e por gram-positivos,
como Enterococos e Staphylococcus. (DALBOSCO, et. al., 2003).

Neste contexto, o objetivo deste trabalho foi destacar a incidência da E.coli como
agente etiológico responsável pelas infecções do trato urinário dos pacientes de um Hospital
Particular da Cidade do Natal/RN, por idade e sexo, através da análise retrospectiva dos
prontuários de uroculturas realizadas, no período de 01 de janeiro a 31 de dezembro de 2013.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

O sistema urinário é composto pelo trato urinário superior (rins, pelve renal e ureteres)
e trato urinário inferior (bexiga urinária e uretra), os quais em conjunto formam e expelem a
urina. A urina é um meio apropriado para o desenvolvimento de microrganismos, que sofre
variação quanto a proliferação de acordo com as concentrações de ureia e ácidos, pH e
hipertonicidade. (VERONESI, 1996).
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O trato urinário é um sítio anatômico estéril, com exceção do meato uretral e uretra
distal, que são regiões colonizadas principalmente por estafilococos, difteróides e outros
microorganismos comensais (TORTORA, G.J, 2005). Dessa forma, a Infecção do Trato
Urinário (ITU) é definida por grande parte dos autores, como a colonização microbiana com
invasão tecidual de qualquer parte do trato urinário desde a uretra até os rins. (NICOLE,
2001).

Do ponto de vista clínico, a infecção do trato urinário (ITU) pode ser dividida em dois
grupos: ITU inferior, onde a presença de bactérias se limita à bexiga (cistite), e do trato
superior (pielonefrite), que se define como aquela que afeta a pélvis e o parênquima renal.
(AMADEU, 2009). Tanto a infecção urinária baixa como a alta pode ser aguda ou crônica e
sua origem pode ser comunitária ou hospitalar. (STAMM, 2001). A contaminação do trato
urinário pode ocorrer por três vias: a ascendente, a partir da flora fecal e uretral, a
hematogênica, em que a bactéria contamina o sangue e infecta secundariamente o aparelho
urinário e a linfática, que é uma via duvidosa de disseminação da infecção urinária que poderá
ter, contudo, algum papel nas infecções crônicas. (POLETTO; REIS, 2005).

As infecções do trato urinário podem ser complicadas ou não complicadas, as


primeiras ocorrem em um aparelho urinário com alterações estruturais ou funcionais que
apresentam maior risco de falha terapêutica o que propicia a ocorrência da infecção.
(NABER, 2000).

No homem, acontece com mais frequência durante o primeiro ano de vida, devido a
grande incidência de más formações congênitas do trato urinário, principalmente na válvula
da uretra posterior e a partir dos cinquenta anos de vida, quando há a presença de prostatismo,
que o torna mais suscetível à ITU. (NICOLE. 2001). Nos homossexuais masculinos as taxas
de ITU são bem maiores, estando relacionadas à prática frequente do sexo anal sem o uso de
preservativos. (BARNES, 1986). Nos indivíduos portadores do vírus HIV, a queda dos níveis
dos linfócitos CD4+ torna a infecção, por si só, um fator de risco para ocorrência da ITU.
(BISHARA, 1997).

Nas meninas a infecção urinária ocorre principalmente na fase pré-escolar quando a


frequência dos casos varia em torno de 10 a 20 vezes mais em relação aos meninos. Na fase
adulta essa predominância da ITU se eleva e se mantém em mulheres sexualmente ativas, que
fazem uso de certas geleias espermicidas, que realizam uma higiene deficiente, que têm
condições socioeconômicas precárias, que se encontram na menopausa e / ou que são obesas.
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Esse conjunto de fatores é responsável por 48% das mulheres apresentarem pelo menos um
episódio de ITU ao longo da vida (NICOLE, 2001; FIHN, 2003).

A susceptibilidade no sexo feminino é maior porque, anatomicamente a mulher


apresenta a uretra mais curta e a proximidade do ânus com o vestíbulo vaginal e uretra é
maior tornando-as mais vulneráveis às infecções ascendentes do trato urinário. Enquanto que
nos homens o comprimento uretral e o fluxo urinário são maiores e o fator antibacteriano
prostático são protetores, além de que, a menor ligação das enterobactérias à mucosa do
prepúcio pode exercer proteção contra ITU. (RUBINSTEIN, 1999).

Na fase gestacional, a frequência das infecções urinárias varia cerca de 5 a 10%.


(ANDRIOLE, 1992). Isso porque, as transformações anatômicas e fisiológicas que ocorrem
no trato urinário durante a gravidez ocasionam a compressão extrínseca dos ureteres e a
redução da atividade peristáltica provocada pela progesterona, dilatam progressivamente as
pelves renais e ureteres o que aumenta o débito urinário, levando à estase urinária. Esta estase
urinária é favorecida também, pela diminuição do tônus vesical, com subsequente aumento da
capacidade da bexiga e seu esvaziamento incompleto, facilitando o refluxo vesicoureteral.
(STENQVIST, 1989). A Além disso, o rim perde sua capacidade máxima de concentrar a
urina, reduzindo sua atividade antibacteriana e passa a excretar quantidades maiores de
glicose e aminoácidos, favorecendo a proliferação bacteriana causando pielonefrites.
(ANDRIOLE, 1992). O arsenal terapêutico antimicrobiano e as possibilidades profiláticas
mais restritas levam ao aumento das infecções urinárias em mulheres grávidas, pois se
considera a toxicidade das drogas para o feto.

Em indivíduos hospitalizados o sistema de drenagem de urina aberto e fechado


mediado pelos cateteres, resultam em bacteriúria com percentual de 100% e 10%
respectivamente, sendo considerada a principal causa de bacteremia por bacilos gram-
negativos nos hospitais, totalizando 50% dos casos de ITU. Essas infecções hospitalares são
denominadas de infecções nosocomiais. (HEAD, 2008).
Das infecções urinárias adquiridas pela comunidade geralmente os agentes etiológicos
são bactérias da microbiota intestinal normal, onde a maior frequência são das bactérias
aeróbicas Gram-negativas (em forma de bastonetes) como é o caso da Escherichia coli,
Klebsiella sp. e várias espécies de Proteus sp. (CORRÊA, 2003). Em seguida, encontram-se
os cocos Gram-positivos, como as bactérias do gênero Staphylococcus sp., Streptococcus sp. e
Enterococcus. Quando se encontra apenas um germe patogênico, as infecções podem ser
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agudas e quando são detectados dois ou mais microorganismos patogênicos participando do


processo infeccioso as infecções são crônicas. Geralmente os pacientes com disfunção vesical
grave de origem neurogênica, que permanecem muito tempo cateterizados são acometidos por
infecções urinárias crônicas. (GRAHAM, 2001).
Bishara (1997) relata que dentre os agentes etiológicos mais frequentes cerca de 70% a
85% das infecções do trato urinário adquiridas na comunidade são causadas por E.coli.
(BISHARA, 1997).

A E. coli pertence a família das Enterobacteriaceae, com apenas um gênero bacteriano


para uma espécie, e em torno de mil tipos antigênicos que habita comensalmente o trato
gastro intestinal do homem e outros animais endotérmicos. Os sorotipos são determinados
pelos antígenos somáticos (O), flagelares (H) e capsulares (K). (JOHSON, 1991). Esta
bactéria possui função biológica de suprimir bactérias nocivas e participar da síntese de
vitaminas, como a vitamina K, importante na formação de cabelos, pelos e unhas e plaquetas
sanguíneas. (WASTESON, 2012)

O pediatra e bacteriologista alemão Theodore Escherich realizou os primeiros estudos


sobre a E.coli em 1885, quando a encontrou no intestino grosso (cólon) de seres humano e de
animais homeotérmicos, verificando que esta constituía aproximadamente 80% da flora
aeróbia; recebeu inicialmente o nome de Bacterium coli commune (WASTESON, 2012).

A Escherichia coli, possui um mecanismo de aderência conhecido por pili tipo I ou


manose-sensitivo, que se adere à receptores de manose na superfície celular do intestino,
vagina, intróito vaginal e urotélio, numa interação particular entre bactéria e hospedeiro que
favorece a sua multiplicação e colonização, invadindo a uretra e bexiga desencadeando assim
a infecção urinária. Estes pili (pêlos) são dotados de uma proteína antigênica que estimula a
formação de anticorpo pelo hospedeiro, impedindo, eventualmente, a aderência microbiana,
por mecanismo imune. (PEREZ, 2004)

As fímbrias tipo P são pili que aderem a outros sítios celulares existentes nas células
uroteliais e que são abundantes na E. coli o que explica a sua grande habilidade em ascender
ao trato urinário e causar 90% de todas as pielonefrites agudas não-complicadas. Essas
enterobactérias, uma vez aderidas, começam a se multiplicar, dependendo de condições
locais, temperatura, pH e características da urina. Durante o processo de multiplicação a
E.coli produz uma substância que facilita sua invasão chamada hemolisina um polipeptídio
que lisa os eritrócitos e causa dano a outras células, incluindo as do urotélio. Se não houver
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aderência entre a bactéria e as células do hospedeiro, essas bactérias serão expelidas na


micção. (CORRÊA, 2004).

Infecções urinárias podem ser identificadas no exame do sedimento urinário, pela


microscopia direta, pela coloração através do método de Gram, e pela urocultura, sendo esta a
melhor forma de diagnóstico que não só permite a quantificação dos germes existentes na
urina, como define o agente etiológico da infecção. Na uroanálise, inclui o exame
microscópico da urina, identificando a presença de bactérias na análise do sedimento urinário
(bacteriúria) sendo fundamental na avaliação de pacientes com suspeita de infecção do trato
urinário. Essa análise do sedimento urinário pode resultar em falso-negativos para bacteriúria,
mesmo na presença de infecção ativa. Assim como, resultados falso-positivos decorrentes da
contaminação da coleta. (KOFF; FONSECA; MATTOS, 2004).

O indicativo de contaminação a partir do intróito vaginal ou do prepúcio é marcado


pela presença de quantidades expressivas de células epiteliais escamosas na microscopia do
sedimento urinário. (PEREZ, 2004). O achado de leucocitúria ou piúria no exame do
sedimento urinário, com mais de 4 a 5 leucócitos por campo de grande aumento, é indicativo
de inflamação, apesar da presença de leucócitos na urina nem sempre indicar infecção. Na
maioria dos casos de infecção urinária o achado de leucocitúria vem acompanhado pela
presença de bacteriúria, mas, a presença de bactérias na análise do sedimento urinário
apresenta algumas limitações de sensibilidade e especificidade que só serão confirmados pela
urocultura. (ROCHA; CARVALHAL; MONTI, 2004).

A urocultura é considerada o padrão-ouro do diagnóstico laboratorial de um quadro de


infecção urinária. Considera-se que uma urocultura é nitidamente positiva (bacteriúria
significativa) quando a contagem bacteriana é superior a 100.000 unidades formadoras de
colônia (UFC) por ml de urina. Esta contagem de colônias é mais específica para infecção
urinária, uma vez que raramente amostras contaminadas produzem contagens tão expressivas
de bactérias. (LOPES HV, TAVARES W – 2004)

Para minimizar as chances de contaminação da amostra, a urina deve ser coletada e


processada no menor tempo possível (idealmente em até 20 minutos); caso contrário, a
mesma deve ser refrigerada logo após a coleta e semeada nos meios de cultura, no máximo
em 24 horas do momento da refrigeração. (KOFF; FONSECA; MATTOS, 2004).
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A urocultura quantitativa indica a ocorrência de multiplicação bacteriana no trato


urinário permitindo o isolamento do agente etiológico (bactéria e/ou fungo) e o estudo de sua
sensibilidade aos antimicrobianos através do antibiograma. (MARTINO, 2002). Dessa forma,
os testes de sensibilidade a antimicrobianos nem sempre são necessários para o tratamento de
infecções agudas não complicadas, mas são guias úteis para o tratamento de infecções
recorrentes, crônicas e complicadas. A correlação entre os testes de sensibilidade
antimicrobiana e a eficácia clínica costuma ser excelente. No entanto, há casos em que o
paciente responde ao tratamento clínico mesmo na presença de organismos resistentes aos
antimicrobianos utilizados, isso ocorre porque os testes de sensibilidade geralmente utilizam
níveis de concentração plasmática dos antibióticos, em vez das concentrações urinárias
atingidas pelos mesmos. (ESMERINO; GONÇALVES; SCHELESKY, 2003).

3 METODOLOGIA
Para realização deste estudo, foi adotada a metodologia usual de pesquisa bibliográfica
com dados coletados na biblioteca da UNIFACEX e na Biblioteca Central Zila Mamed da
UFRN, em bancos de dados como Scielo (Scientific Electronic Library Online), Google
acadêmico, RBAC (Revista Brasileira de Análises Clínicas), Agência Nacional de vigilância
Sanitária e Links da Revista Panamericana de Infectologia, Revista Ciber Saúde, Jornal
Brasileiro de Nefrologia, Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, dentre outros.
O estudo foi realizado a partir de análises de amostras de urina para Urocultura
encaminhada ao Laboratório de Microbiologia de um Hospital Particular da Cidade do
Natal/RN. Foram analisadas 3.312 uroculturas no período de 01 de janeiro a 31 de dezembro
de 2013, os dados foram coletados a partir de um relatório gerado pelo sistema Medicware do
programa Smart, onde os exames são digitados. Neste relatório serão encontrados: data do
exame, registro e nome do paciente, resultado (se positiva: nome do microorganismo), idade e
sexo.
A urina foi coletada em jato médio no frasco asséptico, pelo menos duas horas após a
última micção. Em pacientes cateterizados com sistema de drenagem fechada, deve-se coletar
a urina puncionando o látex na proximidade da junção com o sistema de drenagem,
procedendo à desinfecção do local da punção com álcool 70%. Não colher urina de bolsa
coletora. A coleta deve ser feita pela manhã, preferencialmente na primeira micção do dia, ou
então após retenção de urina de duas a três horas enviando imediatamente ao laboratório ou
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encaminhar a amostra ao laboratório no prazo máximo de uma hora mantendo refrigerado,


entre 2 a 8ºC, até o transporte, se necessário.
As uroculturas foram realizadas com semeadura em alça calibrada (1:1.000) em placas
de Petri contendo meios de cultura Agar Cled e Agar McConkey, após a devida
homogeneização da urina. Foi introduzida a alça fazendo movimentos para baixo e para cima
no sentido vertical. A alça carregada foi utilizada para inocular em cada meio de cultura. As
placas foram incubadas de 35 a 37°C durante 18-24 horas e posteriormente analisadas, tendo
sua positividade considerada com o isolamento de microorganismos com mais de 100.000
UFC/ml (MURRAY, P.R.1999).
Os microorganismos foram identificados pelo kit API20E (BIO MERIEUX) para
bacilos Gram negativos e através de provas como catalase, coagulase, sensibilidade a
novobiocina, crescimento em cloretado, caldo cloretado, bile esculina, e teste de CAMP para
cocos Gram positivos. No Kit é observado o metabolismo das provas bioquímicas pela sua
coloração onde a ocorrência de E.coli será determinada pelas provas de Indol (positivo - rosa),
Lisina (positivo-vermelho/alaranjado), Glucose (positivo amarelo/amarelo acinzentado) e
Citrato (negativo – azul esverdeado), com o código obtido de todas as provas tem-se a
identificação da bactéria.

4 RESULTADOS
Este foi um estudo retrospectivo, realizado através da análise de prontuários de
pacientes atendidos em um Hospital Particular da Cidade do Natal/RN, no período de 01 de
janeiro a 31 de dezembro de 2013.

Do total de 3.312 prontuários de uroculturas analisados, 861 (26%) foram positivas.


Os resultados negativos somaram 2.451 amostras, 74% do total analisado. Das 861
uroculturas positivas, 715 amostras (83%) eram de pacientes do sexo feminino, enquanto que
o gênero masculino apresentou 146 amostras (17%). A faixa etária mais acometida pela ITU
no sexo feminino foi compreendida entre 22 a 49 anos, com 343 pacientes. Enquanto que o
masculino encontrou-se entre 50 a 94 anos, totalizando 77 amostras. A distribuição destes
valores está representada em forma percentual na Tabela 01 para o gênero feminino e na
Tabela 02 para o gênero masculino.
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GÊNERO FEMININO – 2281 AMOSTRAS ANALISADAS = 87%

IDADE PRONTUÁRIOS CULTURA % CULTURA %


ANALISADOS NEGATIVA
POSITIVA

0 - 21 720 100 11,6% 620 25,2%

22 - 49 1268 343 39,8% 925 37,6%

50-94 893 272 31,5% 621 25,2%

TOTAL 2.881 715 83 % 2.166 88%

Tabela 01: Distribuição de culturas positivas e negativas por faixa etária de pacientes do gênero
feminino atendidas no período de 01 de janeiro a 31 de dezembro 2013.

GÊNERO MASCULINO – 431 AMOSTRAS ANALISADAS = 13%

IDADE PRONTUÁRIOS CULTURA % CULTURA %

ANALISADOS POSITIVA NEGATIVA

0 - 21 107 37 4,3% 70 3%

22 - 49 121 32 3,7% 89 4%

50-94 203 77 8,9% 126 5%

TOTAL 431 146 17 % 285 12%

Tabela 02: Distribuição de culturas positivas e negativas por faixa etária de pacientes do gênero
masculino atendidos no período de 01 de janeiro a 31 de dezembro 2013.

Dentre as 861 uroculturas positivas analisadas, a Enterobactéria com maior


prevalência foi a Escherichia coli, seguido por outras Enterobactérias Gram-negativas como:
Klebsiella sp., Staphylococcus sp., Pseudomonas aeruginosa, Proteus mirabilis, Enterobacter
cloacae, e as Gram-positivas como: Staphylococcus sp., Streptococcus sp., entre outras
bactérias encontradas mas que não foram citadas devido, sua distribuição ser abaixo de 1%
para cada bactéria por urocultura positiva, sendo eles: Proteus penneri, Klebsiella ozeanae,
Staphylococcus saprophyticus, Providencia rettgeri, Proteus vulgaris, Enterobacter
aerogenosa, Providencia alcalifa, Citrobacter freudii, Klebisiella ssp, Hafnia alvei,
Providencia stuarttii, Enterobacter gergoii, Enterobacter sakazak, Citrobacter koseri, uma
Pseudomona: Acinetobacter bauman e uma Burkholderiaceae: Bukholderia pseudom,
totalizando apenas 8%.
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PERCENTUAL DE MICROORGANISMOS ISOLADOS

MICROOGANISMO CULTURA POSITIVA %

Escherichia coli 534 62%

Krebsiela sp 86 10%

Staphylococcus sp 43 5%

Pseudomonas aeruginosa 43 5%

Proyeus mirabilis 34 4%

Strptococcus 26 3%

Enterobacter cloacae 26 3%

Outros 69 8%

TOTAL 861 100%

Tabela 03 – Prevalência de E.coli, em 861 Uroculturas positivas analisadas, no período de 01/01 a


31/12/2013.

Na compilação dos dados analisados das uroculturas positivas a Escherichia coli foi a
Enterobactéria Gram-negativa de maior incidência em ambos os sexos, representando 534
casos (62%) do total pesquisados. A Tabela 04 expressa a distribuição detalhada deste
microorganismo por gênero e faixa etária. É notável a maior incidência nas mulheres que
apresentaram 454 casos de urocultura positiva causadas pela E.coli o que equivale a 85% do
total compilado destacando-se as que se encontram na faixa etária de 22-49 anos apresentando
219 casos ou 41% das ITU entre homens e mulheres.

DISTRIBUÍÇÃO DE E.coli POR SEXO E IDADE


IDADE MULHERES % HOMENS %
0-21 64 12% 27 5%
22-49 219 41% 16 3%
50-94 171 32% 37 7%
TOTAL 454 85% 80 15%
Tabela 04: Incidência de Escherichia coli entre o sexo masculino e feminino de acordo com a faixa
etária no período de 01/01 a 31/12/2013.
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5 DISCUSSÃO

Na presente pesquisa as uroculturas positivas apresentaram uma prevalência de 83%


em pacientes do sexo feminino, principalmente na faixa etária que compreende a idade fértil.
Resultados semelhantes, foram observados no artigo de Lo et al. (2010), onde 76% das
amostras positivas são de pacientes do sexo feminino. Na menopausa as mulheres apresentam
menor produção de estrógeno e isso tende a facilitar a remoção das bactérias através do
estímulo de crescimento e proliferação da mucosa da vagina. Fatores como: a condição
socioeconômica, a presença de diabetes melitus, falta de higiene após as relações sexuais, uso
descontrolado da automedicação, anormalidades anatômicas do trato urinário ocorridas
durante a gravidez, conforme já citado e respaldado pela literatura consultada contribuem para
a elevada incidência de infecção do trato urinário no sexo feminino. (MENEZES, 2003).

Das uroculturas positivas apresentadas pelos homens neste trabalho destaca-se 77


casos (8,9%) na faixa etária de 50-94 anos. Segundo SILVA J. C. O e outros (2007) este fato
pode estar relacionado a problema de próstata, cálculo vesicular, procedimentos invasivos e
diabetes mellitus.
No que se refere à etiologia, as Enterobactérias classicamente são responsáveis pela
maioria dos casos. (AMADEU, 2009). Os resultados obtidos neste estudo concordam com a
literatura, demonstrando que a grande maioria das bactérias isoladas eram bacilos Gram-
Negativos entéricos, destacando-se a Escherichia coli, espécies de Klebsiella e Proteus
mirabilis. Vários são os autores que confirmam a Escherichia coli como principal responsável
por ITU. De acordo com HEILBERG, I. P (2003) este microrganismo pertence à flora normal
do intestino humano e pode contaminar colonizar e, subsequentemente, causar infecções
extraintestinais, sendo um dos principais agentes etiológicos de septicemias, meningites e
infecções do trato urinário.
Entre as uroculturas positivas, a ITU foi encontrada em todas as idades, o que
concorda com trabalhos realizados (HEILBERG, 2003 e VIEIRA, 2007).

6 CONCLUSÃO
Desta forma, pode-se concluir que por ser presente na microbiota intestinal do ser
humano a E.coli tem maior frequência nos casos de ITU e que o exame bacteriológico de
urocultura é imprescindível na identificação deste e de outros microorganismos causadores
dessas ITU por apresentar um diagnóstico preciso e importante para a aplicação do tratamento
e possíveis profilaxias desta enfermidade, uma vez que, a incidência dessas infecções
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urinárias pode variar de acordo com o sexo e a idade do paciente, bem como o estado em que
o mesmo se encontra.
Trabalhos como esse devem ser realizados periodicamente, por conta da frequência
dos agentes etiológicos, sendo mais uma ferramenta no combate das infecções do trato
urinário e nosocomiais sendo uma porta de entrada para outras pesquisas (como a resistência e
sensibilidade a antibacterianos).

7 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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