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FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE

DO PORTO

Seminário de Projeto

O Perdão nas Relações Diádicas de Intimidade

Ana Isabel Mendes Teixeira


Orientadora: Professora Doutora Cidália Duarte

Mestrado Integrado em Psicologia Clínica e da Saúde

Porto
2016

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1. Introdução

“We pardon to the extent that we love”

- François La Rochefoucauld (1665-1668)


Reflections: maxim 330

O Homem é um ser genuinamente social e relacional que desde o nascimento


necessita da interação com os seus semelhantes para o alcance de um desenvolvimento
pleno. Já Bowlby (1978) postula, na sua teoria da vinculação, a necessidade humana
universal de os indivíduos desenvolverem ligações afetivas de proximidade com outros
significativos ao longo da existência. O percurso que fazemos, desde o berço até à
morte, é pautado pelas interações diádicas, sejam estas complementares - com os
progenitores - ou recíprocas - com os amigos, namorados, cônjuges… Das inúmeras
relações que estabelecemos ao longo da vida, as relações românticas emergem como as
mais significativas. Estas relações de intimidade não são estáticas e imutáveis, mas
antes, pautam-se por diversas experiências, por prazeres e desprazeres. Como tal, torna-
se impossível conceber uma relação em que não haja divergências (Costa, 1998), pelo
que no seguimento destas divergências facilmente surgem mágoas. Efetivamente, é na
relação com que mais se ama que facilmente se é ofendido (Allemand, Amberg,
Zimprinch & Fincham, 2007), talvez, diria, por ser o contexto relacional onde mais nos
revelamos.

A importância do perdão para a saúde física e mental passou a ser amplamente


reconhecida (e.g. Harris & Thoresen, 2005; Toussaint, Williams, Musick, & Everson,
2001; cit in Fincham, Hall & Beach, 2006), pelo que diversos investigadores têm
revelado que o perdão pode proporcionar não só uma maior saúde emocional como
relacional (Enright & Fitzgibbons, 2000). Embora seja um processo complexo, o perdão
está na vanguarda das relações humanas, do desenvolvimento emocional, espiritual e
físico (Hill, 2001). Tal como Aponte (1998) sugere, o amor incondicional é a fonte
espiritual do perdão, pelo que, deste modo, torna-se de extrema importância estudar que
papel o perdão poderá ter no seio das relações românticas, consideradas por muitos
como o alicerce da vida humana e onde o vínculo emocional existente é o maior que
possa existir (Dillow, Malachowski, Brann & Weber, 2011).

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2. O conceito de perdão
2.1. Da religião à psicologia
O interesse pelo estudo do perdão é relativamente recente. Tradicionalmente, o
perdão foi sempre compreendido como um conceito puramente teológico e uma
componente essencial para melhorar a saúde espiritual das comunidades (Newberg,
d’Aquili, Newberg & Marici, 2000; cit in Neto, Ferreira & Conceição, 2006). De facto,
o perdão tem sido, ao longo dos séculos, uma componente chave dos ensinamentos
religiosos (Jacinto & Edwards, 2011). Já Fitzgibbons (1986; cit in Barnett &
Youngberg, 2004) especulava que investigadores e psicoterapeutas evitavam o estudo
do perdão por ser um conceito reservado primordialmente aos teologistas. Só
recentemente, teóricos sociais começaram a estudar o construto e os seus processos,
tendo Gartener (1992; cit in Neto, Ferreira & Conceição, 2006) referindo o perdão como
sendo um objetivo de investigação fundamental tanto para os especialistas em assuntos
religiosos como para psicólogos. Tal como Worthington (1998, 2005; cit in Rique &
Camino, 2009) informa, só a partir de 1968 é que publicações sobre o tema começaram
a surgir, com um crescimento significativo durante as décadas de 1980 e 1990,
permanecendo o interesse sobre o tema desde então (Rique & Camino, 2009). Ainda
assim, é possível identificar já na década de trinta artigos teóricos e trabalhos empíricos
desenvolvidos para compreender minimamente alguns aspetos relacionados com o
comportamento de perdoar (McCullough, Pargament & Thoresen, 2001). Deste modo,
dois períodos na história do perdão podem ser destacados. O primeiro período foi de
1932 a 1980, refletindo várias discussões teóricas e investigações empíricas modestas
destinadas a lançar uma luz sobre certos aspetos do perdão como um conceito (ibidem).
Já o segundo período, de 1980 até o presente, demonstrou “uma reflexão mais intensa e
séria do conceito de perdão” (ibidem, p. 3).

2.2. O que não é o perdão: diferença entre perdão e outros construtos

Uma das grandes questões que caracteriza o estudo do perdão está relacionada
precisamente com a definição deste construto, sendo que atualmente não existe uma
definição consensual sobre o que é o perdão (Hill, 2001), pelo que alguns autores
interpretam esta falta de acordo como um dos problemas mais importantes do campo
(Elder, 1998; Enright & Coyle, 1998; Enright, Freedman, & Rique, 1998; Enright,
Gassin, & Wu, 1992; cit in Santana & Lopes, 2012). Curiosamente, parece existir mais

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consenso sobre o que não é o perdão, existindo diversas distinções realizadas por
autores entre perdão e outros conceitos frequentemente confundidos como sinónimos,
tais como desculpa, esquecimento, reconciliação e aceitação.

Apesar de em Portugal não existir uma distinção clara entre o conceito de


desculpa (excusing) em contraponto com o de perdão (Soares, 2014), sendo
provavelmente dois conceitos bastante confundidos pelo senso comum, o termo
desculpa sugere que o ofensor possui uma justificação para ter cometido a ofensa. No
entanto, mesmo que exista uma razão, perdoar não é simplesmente compreender que
não existiu intencionalidade (Enright e Coyle, 1998; cit in Santana & Lopes, 2012).

Em relação ao esquecimento, este traduz a ideia de que a memória da ofensa foi


removida da consciência, pelo que perdoar vai mais além do que não pensar ou recordar
a ofensa (Fincham, Hall & Beach, 2006). Aliás, segundo Fincham (2009), perdoar
implica o reconhecimento da ofensa, ao invés de uma posição passiva.

No que respeita à reconciliação, esta sugere a renovação ou restauração do


relacionamento. Segundo Fincham, Hall e Beach (2006) o perdão não exige
necessariamente a reconciliação, sendo que este apenas aumenta a sua probabilidade
(Hall & Fincham, 2006). Como tal, é possível a existência de perdão sem reconciliação
e vice-versa, pois embora os relacionamentos possam continuar depois de uma ofensa,
isso não significa necessariamente que a ofensa seja perdoada. Por outro lado, a decisão
de terminar o relacionamento não impede que os parceiros se perdoem (Fincham, Hall
& Beach, 2006). Esta distinção é particularmente importante, pois muitos leigos
(Kearns & Fincham, 2004; cit in Fincham, Hall & Beach, 2006) e alguns estudiosos
(e.g., Hargrave & Sells, 1997; cit in Fincham, Hall & Beach, 2006) acreditam que a
reconciliação é uma componente importante do perdão. No entanto, a maioria dos
estudiosos alega que o perdão não exige a reconciliação (e.g., Enright, 1996; Enright &
Coyle, 1998; Enright et al, 1998; Freedman, 2000; cit in Fincham, Hall & Beach, 2006).

Relativamente à aceitação, enquanto esta implica que a vítima mude o seu ponto
de vista relativamente à ofensa, o perdão não exige que a transgressão seja vista como
algo menos do que é, ou seja, que a vítima mude a sua visão acerca da ofensa,
considerando-a menos repreensível do que verdadeiramente é (Fincham, Hall & Beach,
2006).

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O perdão também difere de outros construtos relevantes, tais como a negação,


que indica uma falta de vontade para perceber o dano da ofensa cometida, e a
absolvição, a qual é concedida primordialmente por um representante da sociedade, tal
como um juiz (Fincham, Hall & Beach, 2006).

A realização destas distinções parece particularmente útil no campo da


intervenção, uma vez que crenças negativas sobre o perdão e concetualizações erróneas
podem levar a que os clientes hesitem em trabalhar no sentido do perdão, assim como
os próprios terapeutas podem abster-se de o incentivar (Fincham, Hall & Beach, 2006).

2.3. Da ofensa ao perdão

Para que o perdão ocorra é necessário que exista, previamente, algum tipo de
ofensa ou transgressão que leve o outro a sentir-se magoado. Deste modo, torna-se
relevante definir num primeiro momento o conceito de transgressão. Segundo
Worthington, Maezzo e Carter (2005), a transgressão leva a uma violação dos limites
morais, físicos ou psicológicos pela não correspondência do ofensor às expectativas que
a vítima possui para determinada situação ou acontecimento dentro do relacionamento.
Após sofrer a ofensa, a vítima tem a escolha voluntária de perdoar ou não (Martín,
González & Fuster, 2011). Então, o que é o perdão? Etimologicamente, o verbo perdoar
tem origem no verbo perdonare do latim vulgar (Santana & Lopes, 2012). Através de
uma leitura do Glossarium Mediae et Infimae Latinitatis (Du Cange, 1850; cit in
Santana & Lopes, 2012) é possível constatar que os significados iniciais do verbo
perdonare seriam os de dar/conceder. O prefixo per possui o sentido de por (através de)
e de plenitude, sendo que, desta forma, do ponto de vista etimológico o perdão pode ser
concebido como um superlativo do conceito de doação (Santana & Lopes, 2012). O
perdão não é algo a que o transgressor tem direito, mas é, no entanto, concedido, o que
levou alguns estudiosos a descrevê-lo como um presente altruísta (e.g., Enright,
Freedman, & Rique, 1998; Worthington, 2001; cit in Fincham, Hall & Beach, 2006) ou
como o cancelamento de uma dívida (Exline & Baumeister, 2000).

2.4. Perdão: um fenómeno controverso


Com o interesse crescente pelo estudo do perdão, torna-se compreensível o
surgimento de diversas definições e perspetivas que muitas vezes são contraditórias

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entre teóricos, suscitando pontos de desacordo sobre o construto. Efetivamente, três


pontos de discordância visam sobre o perdão (McCullough et al., 2001): (1) se é um
fenómeno intrapessoal ou interpessoal, (2) se está mais relacionado a abrir mão de
sentimentos, pensamentos e comportamentos negativos ou se inclui também o
acréscimo de fatores positivos ou a substituição daqueles por estes, e (3) em que
extensão o perdão é um evento especial ou algo bastante comum na experiência
humana.

Em relação ao primeiro ponto, há teóricos que descrevem o perdão como um


processo intrapessoal, que ocorre interiormente no indivíduo e que conduziria a
mudanças ao nível das cognições, emoções, motivações e comportamentos da pessoa
ofendida, pelo que estudos a partir desta perspetiva focam-se essencialmente na pessoa
ofendida, processos através dos quais as pessoas perdoam e consequências resultantes
para as mesmas (McCullough et al., 2001). Já outra linha de investigação concetualiza o
perdão como um processo interpessoal. Neste sentido, Exline e Baumeister (2001)
chamam a atenção para o facto de que as transgressões envolvem frequentemente
pessoas próximas, como familiares, amigos, colegas de trabalho ou cônjuges. Também,
Madanes (1990; cit in Barnett & Youngberg, 2004) postula que o perdão não é uma
qualidade individual, mas antes uma interação entre indivíduos, desenvolvida ao longo
da vida e mantida no contexto familiar. Desta perspetiva, é o relacionamento, em vez da
pessoa ofendida, a unidade de análise dos estudos do perdão. Ainda, há autores que
defendem que o perdão possui elementos tanto intrapessoais como interpessoais. Neste
sentido, McCullough e colaboradores (2001) propuseram uma definição que fosse
suficientemente ampla e capaz de englobar os aspetos intra e interpessoais envolvidos
no processo de perdoar. Segundo os autores, o perdão corresponderia a uma “mudança
intra-individual, pró-social em direção a um transgressor que está situado dentro de
um contexto interpessoal específico” (ibidem, p. 9).

Relativamente ao segundo ponto de divergências, o que se tem verificado é que


comum à maioria das definições de perdão está a ideia de uma mudança em que uma
pessoa se torna menos motivada para pensar, sentir e comportar de forma negativa em
relação ao infrator (Worthington, 2005). Deste ponto de vista, o perdão adquire uma
visão unidimensional, com o foco na diminuição da negatividade face ao ofensor. É
exemplo de Gordon e Baucom (1998; cit in Martin, González & Fuster, 2011) que
concebem o perdão como uma diminuição dos sentimentos negativos e vontade de punir

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o ofensor. Estudos recentes, porém, têm desafiado esta visão unidimensional, que
predominou numa fase mais precoce da investigação do construto, e destacado uma
dimensão positiva adicional ou benevolência, que envolve agir de boa vontade para com
o ofensor (Fincham, 2000; Fincham & Beach, 2002; Fincham et al, 2004; cit in
Fincham, Hall & Beach, 2006). Ainda neste sentido, Enright e o The Human
Development Study Group (1991) destacaram a importância de se considerar a natureza
multidimensional do perdão ao tentar definir o constructo, propondo que quando uma
pessoa perdoa, ocorrem mudanças nos sistemas afetivo, cognitivo e comportamentais.
As emoções negativas, como a raiva, o ódio, o ressentimento e a tristeza, são
abandonadas e substituídas por emoções mais neutras e, eventualmente, por afeto
positivo (Yaben, 2009). Também na mesma linha, Watkins e colaboradores (2011)
postulam que o perdão possui dois processos distintos mas convergentes entre si: o
perdão decisional (ou comportamental), que diz respeito à escolha voluntária por parte
do ofendido para diminuir os comportamentos negativos face ao ofensor e,
possivelmente, renovar os comportamentos positivos, e o perdão emocional, que
implica a experiência interna de substituir emoções negativas por positivas.

Na verdade, o perdão pode ser unidimensional em relacionamentos não


contínuos (Worthington, 2005), mas parece conter tanto elementos positivos
(benevolência) como negativos (falta de perdão) em relações próximas. Também
Fincham e Beach (2002) postulam que reduções na dimensão negativa do perdão podem
elicitar menos evitamento por parte dos parceiros, mas só esta mudança não levará
necessariamente a comportamentos de aproximação, fundamentais para retomar a
intimidade de uma relacionamento próximo. Deste modo, e embora as definições do
perdão na literatura variem entre si, o campo de estudos está a mover-se no sentido de
uma definição mais consensual, pelo que no centro das várias abordagens está a ideia de
uma transformação na qual a motivação para procurar a vingança e evitar o contacto
com o ofensor é diminuída, e a motivação pró-social em direção a este é aumentada
(Fincham, Paleari & Regalia 2002). Assim, e tendo em conta a perspetiva da vítima, o
perdão diz respeito a uma diminuição dos julgamentos, sentimentos e comportamentos
negativos em relação ao ofensor, existindo, ao mesmo tempo, um aumento dos
sentimentos, julgamentos e comportamentos positivos (Rique & Camino, 2009).
Também Enright e colaboradores (1998) procuraram estudar o perdão a partir da
perspetiva das vítimas, tendo definido este construto como “uma atitude moral na qual

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um indivíduo considera abdicar do direito ao ressentimento, julgamentos negativos e


comportamentos negativos para com a pessoa que ofendeu injustamente. E, ao mesmo
tempo, nutrir a compaixão, a misericórdia e, possivelmente, o amor para com o
ofensor” (p. 46-47). Dir-se-á, então, que estes processos são complementares e
indissociáveis. Note-se, ainda, que a redução dos elementos negativos sem o aumento
dos positivos não significa um perdão genuíno, mas, possivelmente, uma etapa do
processo (Enright & The Human Development Study Group, 1991). Deste modo, uma
questão pertinente poderá ser levantada: será então exequível perdoar de forma
completa ou incompleta? Neste sentido, Fincham (2009) faz a distinção entre indivíduos
que perdoam completamente (completely forgivers) e os que perdoam de forma
incompleta (uncompleted forgivers), fazendo, ainda, a divisão entre perdão explícito e
implícito, sendo que para o autor o perdão completo/genuíno só é conseguido quando se
alcança ambos.

Quanto ao terceiro ponto de divergência, McCullough e colaboradores (2001)


afirmam que é importante notar que teóricos que definem o perdão como algo pouco
comum têm focado, sobretudo, em vítimas que experienciam transgressões intensas,
pelo que há que ter em conta que as ofensas entre significativos no quotidiano são
certamente mais frequentes, pelo que podem elicitar formas de perdão mais vulgares.

3. Modelos teóricos do perdão


Na literatura é possível encontrar quatro grandes modelos sobre o perdão:
modelos baseados em teorias psicológicas particulares, modelos processuais
descrevendo tarefas envolvidas no ato de perdoar, modelos baseados na estrutura do
desenvolvimento moral e tipologias do perdão (Denton & Martin, 1998). Contudo, os
modelos que atualmente mais prevalecem são, aparentemente, os modelos processuais
(Orathinkal, 2006), pelo que de seguida serão abordados alguns destes modelos.

3.1. O perdão enquanto processo

Devido ao interesse crescente pelo estudo do perdão, vários modelos têm sido
desenvolvidos no sentido de compreender que tipo de processo subjaz ao perdão, pois a
compreensão das possíveis fases subjacentes a este processo parece ter particular
relevância no âmbito da intervenção. Apesar de ainda não ser consensual a definição das

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fases deste mecanismo, é de acordo comum que o perdão é melhor visualizado como
um processo em vez de um ato específico (e.g., Enright & Fitzgibbons, 2000; Fincham,
2000; cit in Fincham, Hall & Beach, 2006), pois tal como Patton (1985, p.16; cit in Hill,
2010) afirma “O perdão humano não é fazer algo, mas descobrir algo – que eu sou
mais parecido com aqueles que fizeram-me mal do que diferente.”

Worthington (2006; cit in Worthington, Jennings & DiBlasio, 2010)


desenvolveu um modelo psicoeducacional do perdão composto por cinco passos, os
quais o ofendido tem que concretizar para alcançar o perdão: num primeiro momento,
este deve recordar a mágoa provocada pela ofensa (R-Recall of the hurt); em seguida,
deverá existir uma tentativa de empatizar (E-Empathize to emotionally replace), que
consiste na substituição de emoções negativas por positivas; o passo seguinte toma a
forma de um presente altruísta (A-Altruistic gif), em que por meio da humildade e
empatia o ofendido decide emocionalmente experienciar o perdão; já o quarto passo
envolve o compromisso (C-Commit), com o objetivo de consolidar a experiência
emocional anterior e a decisão de perdoar; por fim, a preservação (H-Hold) toma lugar,
havendo a conservação da decisão de perdoar ao longo do tempo.

Para Enright, o crucial na sua definição é a visão do perdão como um processo


que integra as esferas do comportamento, da cognição e do afeto (Worthington, 2005).
A partir desta perspetiva, Enright elabora um modelo heurístico de como os indivíduos
perdoam, constituído por vinte passos que se agrupam em quatro fases (Santana &
Lopes, 2012): fase da descoberta, onde o ofendido se confronta com a própria mágoa;
fase da decisão, que engloba uma análise detalhada dos vários fatores envolvidos; fase
do trabalho, a qual está subjacente um esforço de compreensão e reflexão acerca do
ofensor e da ofensa; e, por fim, a fase dos resultados, onde o perdão é alcançado. Note-
se, porém, que tais etapas não são imperiosas, pois o processo é singular para cada
indivíduo (ibidem).

Já Hill (2001) fornece um paralelismo interessante, sugerindo que as etapas


subjacentes ao processo do perdão não são diferentes das tarefas básicas do luto. Assim,
o ofendido deve reconhecer a realidade da perda, experienciar a dor que precede o
perdão, fazer os ajustamentos necessários e reinvestir a energia emocional, com vista a
potenciar a reconciliação (ibidem). Na mesma linha, Coleman (1998) declara que todas
as ofensas envolvem a perda, pelo que o processo de perdão começa quando a pessoa é
capaz de identificar a perda específica que ocorreu; a segunda fase do processo abrange

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a confrontação do ofensor, “para confirmar que a vítima está profundamente magoada


e deixar claro que a ofensa não pode ser ignorada” (ibidem, p.89); na terceira fase, o
ofendido deve procurar dar sentido ao sofrimento, o que muitas vezes implica um
diálogo entre ambas as partes; por fim, a quarta fase corresponde ao alcance do perdão,
que Coleman descreve como a renovação da confiança no relacionamento.

Ainda, é de destacar o modelo proposto por Gordan, Baucom e Snyder (2000),


um modelo de três etapas que postula que a vítima deve lidar com o impacto da ofensa,
encontrar um sentido para a transgressão e, em seguida, avançar com um novo conjunto
de crenças relativas ao relacionamento. Este modelo parece mais apropriado para
transgressões que Gordon e colaboradores (2000) denominaram de trauma interpessoal,
como infidelidades. De facto, intervenções empregando este modelo têm mostrado
sucesso preliminar em ajudar casais com questões de infidelidade, havendo uma
diminuição da angústia emocional e conjugal e um aumento do perdão (Gordon,
Baucom & Snyder, 2004).

4. Os determinantes do perdão
Como tem sido possível constatar, o perdão é um construto complexo,
influenciado por características intra e interpessoais. Como tal, será de esperar que o
processo de perdoar seja único para cada indivíduo, até porque perdoar envolve uma
decisão voluntária, pelo que é possível que no final deste processo a conclusão mais
viável seja a de não perdoar. Como um processo que engloba diversas fases, poder-se-á
esperar que estas etapas possam ser influenciadas por diversos fatores, facilitando ou
não o alcance do perdão. Neste sentido, McCullough, Rachal, Sandage, Worthington,
Brown e Hight (1998) introduziram um modelo em que postulam a existência de quatro
determinantes do perdão: determinantes sociocognitivos, determinantes relacionados
com a transgressão, determinantes do relacionamento e determinantes associados a
características de personalidade da pessoa ofendida. De acordo com o modelo, as
variáveis sociocognitivas estão relacionadas com a forma como a vítima pensa e sente
em relação ao ofensor e à transgressão (por exemplo, atribuições ou emoções
empáticas), sendo os determinantes mais proximais do perdão (Fincham, Paleari &
Regalia 2002). Em comparação com as variáveis sociocognitivas, determinantes da
transgressão, como a severidade percebida da ofensa, a intencionalidade do ofensor e o
pedido de desculpas, são vistos como menos determinantes do perdão e, assim, moldam

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o perdão indiretamente através das variáveis sociocognitivas (Fincham, Paleari &


Regalia 2002). Ainda, mais distal do que os determinantes sociocognitivos são os
determinantes do relacionamento em que a transgressão tem lugar, como a satisfação
relacional, compromisso, proximidade da relação e o nível de intimidade (Fincham,
Paleari & Regalia 2002).

4.1. Determinantes sociocognitivos

Relativamente aos determinantes sociocognitivos, há o destaque para o papel das


atribuições e da empatia. Em relação às atribuições, uma série de estudos tem
demonstrado que as atribuições ou explicações para o comportamento ofensivo
predizem o perdão, nomeadamente as atribuições positivas, que estão associadas a
níveis maiores de perdão do que atribuições negativas (e.g., Boon & Sulsky, 1997;
Bradfield & Aquino, 1999; Weiner, Graham, Peter, & Zmuidinas, 1991; cit in Fincham,
Hall & Beach, 2006). Entre cônjuges, Fincham, Paleari e Regalia (2002) encontraram
que atribuições benignas predizem o perdão quer de forma direta como indiretamente,
através de uma diminuição das reações emocionais negativas face à ofensa e pelo
aumento da empatia face ao parceiro (Fincham, 2000). Ainda, é de referir que uma
robusta literatura sobre as atribuições conjugais tem sugerido que atribuições positivas
tendem a estar associadas com casamentos mais satisfatórios (Bradbury & Fincham,
1990; cit in McNulty, 2008).

No que toca à empatia, esta é uma variável que tem sido alvo de grande atenção
na comunidade científica, embora no que respeita ao perdão seja uma variável ainda
pouco estudada (Fehr, Gelfand & Nag, 2010). De facto, a empatia é um construto
relacional que aparenta possuir um papel importante no processo de perdão
(McCullough et al., 1998), constatando-se que comportamentos de perdão são
facilitados por afetos pró-sociais, dos quais se destaca a empatia perante o ofensor
(Worthington & Wade, 1999). No mesmo sentido, a meta-análise de Fehr, Gelfand e
Nag (2010) aponta a empatia como um relevante preditor do perdão, sugerindo que
quanto maior a capacidade de empatizar com o ofensor, mais facilmente o ofendido
perdoará. Uma vez que a empatia implica a capacidade cognitiva de se colocar no lugar
do outro, poderá então esperar-se que a tomada da perspetiva permita ao ofendido uma
maior compreensão das motivações que levaram à ofensa e, como tal, elicite uma maior
probabilidade de perdão.
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Por fim, será interessante referenciar um estudo realizado por Fincham, Paleari e
Regalia (2002) com casais sobre o papel da qualidade conjugal, atribuições e empatia, o
qual revelou que enquanto as atribuições de responsabilidade foram mais fortemente
relacionadas ao perdão nas esposas, a empatia emocional era mais fortemente associada
com o perdão nos maridos.

4.2. Determinantes da transgressão

Ao nível dos determinantes da transgressão, destaca-se a severidade da ofensa.


Tem sido demonstrado que quanto maior a severidade da ofensa, maior a culpa por
parte do ofensor e menor a vontade de perdoar por parte do ofendido, promovendo a
criação de impressões negativas do ofensor (Boon & Sulsky, 1997; cit in Taysi, 2010).
Por outro lado, a literatura demonstra que a severidade da ofensa pode aumentar a
procura do perdão por parte do ofensor (Riek, 2010). Também, a literatura tem
evidenciado que quanto maior for a responsabilidade ou a intenção do ofensor, menor
será a probabilidade de existir perdão (Fehr, Gelfand & Nag, 2010). Um estudo
realizado por Taysi (2010) com 80 casais de uma cultura não ocidental, onde o perdão
foi examinado no contexto das atribuições, da satisfação com o relacionamento e da
severidade da transgressão, revelou, tal como esperado, que quanto maior a severidade
da ofensa, menor o perdão. Ainda ao nível da severidade da transgressão, o estudo
demonstrou a existência de diferenças de género, no sentido em que mulheres casadas
afirmam serem mais ofendidas do que os seus maridos, o que é consistente com a
literatura (ibidem). Uma possível explicação para tal poderá estar relacionada com o
facto de as mulheres casadas ruminarem mais as dificuldades do casamento e, portanto,
perceberem a transgressão dos maridos mais severamente (ibidem).

Por fim, torna-se também relevante abordar o papel do pedido de desculpas, uma
vez que a literatura evidencia uma relação positiva entre este pedido e o perdão, ou seja,
o uso do pedido de desculpas como uma tática de reparação, com o intuito de modificar
as perceções do ofendido, aumenta a probabilidade de o ofensor ser perdoado pela
ofensa cometida (Fehr, Gelfand & Nag, 2010). Já McCullough, Worthington e Rachal
(1997) postulam que a relação entre estas duas variáveis possa ser compreendida pela
tomada de perspetiva, ou seja, pelo aumento da empatia por parte do ofendido. Ainda,
no contexto das relações íntimas, indivíduos que estão mais satisfeitos nas suas relações
são mais propensos a considerar o pedido de desculpas dos seus parceiros como
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expressões autênticas de arrependimento do que indivíduos menos satisfeitos


(Schumann, 2012).

4.3. Determinantes do relacionamento

No que respeita aos determinantes relacionais, de acordo com Huston e


Vangelisti (1991), desde meados do século XX que pesquisadores têm vindo a examinar
os fatores que contribuem para a satisfação conjugal. Como Bradbury, Fincham e Beach
(2000) observaram, a razão para o estudo da satisfação conjugal deriva da sua
centralidade no bem-estar conjugal e familiar (Stack & Eshleman, 1998; cit in
Orathinkal, 2006), dos benefícios que advêm para a sociedade quando casamentos fortes
são formados e mantidos (Laub, Nagin, & Sampson, 1998; cit in Orathinkal, 2006) e da
necessidade de desenvolver intervenções empiricamente validadas para adultos que
permitam colmatar possíveis problemas conjugais (e.g., Baucom, Shoham, Mueser,
Daiuto, e Stickle, 1998; cit in Orathinkal, 2006). Dada a centralidade da satisfação com
o relacionamento na literatura mais ampla, não é de estranhar a atenção substancial dada
à relação entre a satisfação conjugal e perdão (Fincham, Hall & Beach, 2006).
Efetivamente, vários estudos têm documentado uma associação positiva entre satisfação
com o relacionamento e perdão (e.g., Fincham, 2000; Gordon & Baucom, 2003;
Kachadourian, Fincham, & Davila, 2004; Paleari, Regalia, & Fincham, 2003; cit in
Fincham, Hall & Beach, 2006). Apesar de robusto, o mecanismo subjacente à relação
entre satisfação e perdão permanece obscuro, existindo várias questões por resolver,
nomeadamente se a relação é causal e, em caso afirmativo, qual a direção de possíveis
efeitos (Fincham & Beach, 2007). Como tal, McCullough e colaboradores (1998)
propuseram vários mecanismos possíveis, incluindo uma maior probabilidade de
confissão e pedido de desculpas em relacionamentos íntimos satisfeitos, levando a
níveis maiores perdão. Ainda, parece que a associação entre o perdão e a satisfação com
o relacionamento possa ser bidirecional; há uma evidência emergente de que a
satisfação conjugal prediz o perdão (Paleari, Regalia & Fincham, 2003), bem como os
dados que dizem que o perdão prediz posteriormente a satisfação conjugal (Vaughan,
2001; cit in Fincham, Hall & Beach, 2006).

Tendo em conta a perspetiva dos próprios parceiros, Fenell (1993; cit in


Fincham, Paleari & Regalia 2002), ao examinar as características de casamentos de
longo prazo, encontrou que os cônjuges reconheceram que a capacidade de procurar e
13
Seminário de Projeto

conceder o perdão é um dos fatores mais importantes que contribuiu para a longevidade
e satisfação conjugal. Já Gordon e Baucom (1998; cit in Orathinkal, 2006) encontraram
que, quanto mais os cônjuges perdoam, mais fazem suposições conjugais positivas,
sentem igual equilíbrio de poder nos seus casamentos e têm relações conjugais
próximas e bem-ajustadas. Também, os terapeutas conjugais têm vindo a realçar que o
perdão é uma parte crítica do processo de cura para as principais transgressões de
relacionamento, como a infidelidade (Gordon, Baucom, & Snyder, 2005), bem como no
lidar com as mágoas diárias da relação (Fincham, Beach, & Davila, 2004).

Já em relação à proximidade da relação, a literatura evidencia o seu papel


facilitador, no sentido em que quanto maior a proximidade, maior será a probabilidade
de se perdoar (Fehr, Gelfand & Nag, 2010). McCullough e colaboradores (1998)
postulam que subjacente a esta relação está a maior motivação do ofendido para
preservar a relação. No entanto, esta variável não tem apenas influência na vítima, mas
também ao nível do ofensor, pois quanto maior for a proximidade relacional, maior será
a probabilidade de procura do perdão por parte do ofensor (Riek, 2010).

Na mesma linha, o compromisso parece também desempenhar um papel


relevante, no sentido em que um maior compromisso na relação tem sido associado a
níveis maiores de perdão, provavelmente pelo facto de parceiros mais comprometidos
nas suas relações permaneceram, também, mais motivados nas mesmas e investirem
mais (Fincham, 2009).

Por fim, mas não menos importante, é também de realçar, no que toca aos
determinantes relacionais, o papel da intimidade, tida como principal componente das
relações românticas. O que a literatura demonstra é que a existência de níveis elevados
de intimidade no relacionamento faz com que o perdão perante uma ofensa seja muito
mais provável (Rusbult, Hannon, Stocker & Finkel, 2005).

4.4. Determinantes da personalidade do ofendido

No processo de perdão, determinados aspetos de personalidade da pessoa


ofendida parecem assumir, também, um papel relevante. Segundo alguns teóricos,
experienciar “cognições quentes”, como a raiva e ruminar sobre a ofensa, aumenta a
disposição para procurar a vingança junto do ofensor, diminuindo assim a procura do
perdão (Bies & Tripp, 1996; Worthington e Wade, 1999; cit in Fincham, Paleari &

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Seminário de Projeto

Regalia 2002). De um modo bidirecional, estudos empíricos têm apoiado a relação entre
atos individuais de perdão e redução da raiva (Huang & Enright, 2000; Weiner,
Graham, Peter, & Zmuidzinas, 1991; cit in Yaben, 2009). De facto, experienciar raiva
parece ser natural e inerente às fases mais precoces do processo de perdão, pois segundo
Freedman (2011, p.334) “A ideia de que o perdão pode ajudar indivíduos que foram
profundamente magoados, implica que estes tenham o direito de sentirem e
expressarem raiva, de aprenderem novas formas de lidar com emoções negativas e de
seguir em frente.”. Por fim, Fehr, Gelfand e Nag (2010) na sua meta-análise revelam
que quanto mais elevados forem os níveis de raiva, quer enquanto traço, quer enquanto
estado, menor são os níveis de perdão.

Já em relação aos cinco grandes fatores da personalidade, investigadores têm


colocado como hipótese de que o perdão está negativamente associado com o fator de
personalidade neuroticismo (Ashton, Paunonen, Helmes, & Jackson, 1998;
McCullough, 2000; cit in Yaben, 2009), pelo que quanto maior forem os níveis de
neuroticismo, menores serão os níveis de perdão. Já a afabilidade, enquanto tendência
do indivíduo para se relacionar bem com os outros, encontra-se positivamente
relacionada com o perdão (Fehr, Gelfand & Nag, 2010).

O ajustamento psicológico e os níveis de depressão são também outros fatores a


considerar. Na meta-análise de Fehr, Gelfand e Nag (2010), os autores indicaram que
quanto maior forem os níveis de humor negativo na pessoa ofendida, mais difícil se
torna a procura do perdão. Ainda, níveis baixos de autoestima parecem influenciar
negativamente o alcance do perdão, ao distorcer negativamente reações afetivas face a
transgressões (ibidem).

5. O perdão nas relações íntimas românticas: transgressões e motivações


As relações íntimas satisfazem as nossas necessidades afiliativas mais
profundas, mas também são fonte das nossas maiores mágoas (Fincham, Paleari &
Regalia 2002). Devido à sua importância nas relações íntimas românticas, o perdão
começou a ser investigado em casais (Fincham, 2000; Fincham, Paleria, & Regalia,
2002; Tsang & Stanford, 2007; cit in Taysi, 2010) e relacionamentos românticos (Boon
& Sulsky, 1997; Fincham, Jackson, e Beach, 2005; cit in Taysi, 2010) nos últimos anos,
investigação alimentada pela visão de que o perdão é a pedra angular de um casamento
bem-sucedido (e.g., Worthington, 1994; cit in Fincham, Hall & Beach, 2006). Se o

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Seminário de Projeto

estudo do perdão na psicologia é recente, o estudo dentro das relações íntimas


românticas ainda o é mais (Fincham, 2009).
É inevitável que no seio das relações românticas os parceiros tendam a ser,
simultaneamente ou em alternativa, autores e vítimas de transgressões (Leary, Springer,
Negel, Ansell & Evans, 1998), e estas podem ser o resultado de uma variedade de
causas, tais como preferências incompatíveis, estratégias de resolução de conflito
inadequadas, fontes externas de stress e, ainda, relações extraconjugais (Finkel, Rusbult,
Kumashiro & Hannon, 2002). Nos últimos tempos, a investigação tem caminhado no
sentido de desenvolver diversas e novas intervenções conjugais que enfatizam o papel
do perdão particularmente no contexto da infidelidade conjugal (e.g., Gordon, Baucom,
& Snyder, 2005; cit in Fincham & Beach, 2007), uma vez que a infidelidade tem sido
considerada como a ofensa mais grave no contexto do casal (Abrahamson, Hussain,
Khan e Schofield, 2012). Segundo Enright e Fitzgibbons, (2015), em contexto de
infidelidade o cônjuge ofensor terá de envolver-se num conjunto de passos essenciais,
nomeadamente ser totalmente transparente com o cônjuge ofendido, admitir todas as
suas inconfidências, desculpar-se com sinceridade e potenciar o seu autoconhecimento,
pois o parceiro ofendido só será capaz de reconstruir a confiança se o ofensor mostrar
remorso significativo, juntamente com a compreensão e compromisso de trabalhar
conjuntamente sobre os conflitos que originaram a infidelidade. No entanto, há
situações em que a infidelidade é o resultado da extrema solidão na relação, pelo que o
cônjuge envolvido na traição poderá sentir mais raiva do que o seu parceiro, por sentir
que este último não transmite mais carinho, amor e respeito (ibidem). Nestas situações,
é a pessoa que cometeu a infidelidade que possui maior dificuldade em perdoar e é o
parceiro ofendido que precisa de fazer o trabalho árduo de crescer na capacidade de se
entregar mais emocionalmente ao outro (ibidem).
Com efeito, a resolução de conflitos é essencial para um relacionamento bem-
sucedido e pode-se argumentar que o ressentimento face a transgressões do parceiro é
suscetível de alimentar os conflitos e impedir a sua resolução bem-sucedida (Fincham,
Beach & Davila, 2004). Em contraste, perdoar o parceiro pela ofensa é um dos meios
possíveis para encerrar o ciclo de reciprocidade negativa e preparar o terreno para a
reconciliação (ibidem). No mesmo sentido, Barnett e Youngberg (2004) afirmam que o
perdão é um recurso eficaz no evitar da escalda no seio conjugal, pois na ausência de
perdão é relativamente fácil o surgimento de cadeias de reciprocidade negativa, com
níveis crescentes de agressão e abuso psicológico que culminam na opressão dos

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Seminário de Projeto

aspetos positivos do relacionamento (Fincham & Beach 2002). O perdão pode, portanto,
ter implicações substanciais para a relação, quer a longo prazo, como a curto prazo.
Especificamente, quando um dos parceiros opta por ficar fora do ciclo de interação
negativa, é menos provável que o outro parceiro continue o seu comportamento
negativo (Fincham, Beach & Davila, 2004).
É ainda possível que a incapacidade dos cônjuges em se perdoarem não tenha
apenas impacto na relação de ambos; em vez disso, as dimensões do perdão podem
exercer influência sobre vários âmbitos do funcionamento familiar mais amplo (Gordon,
Hughes, Tomcik, Dixon & Litzinger, 2009). De facto, a literatura evidencia que a
incapacidade de perdoar um parceiro pode contribuir para padrões parentais pobres e
expor as crianças ao conflito parental, o que acarreta implicações negativas para o
funcionamento da criança e suas perceções parentais (e.g., Gottman & Katz, 1989;
Grych & Fincham, 1990; cit in Gordon, Hughes, Tomcik, Dixon & Litzinger, 2009).
Por fim, importa compreender que motivações possam levar o parceiro ofendido
a passar por todo o processo de perdão. Kelly (1998; cit in Fincham & Beach, 2002)
constatou que, em narrativas sobre o perdão envolvendo relações próximas, subjacente
às motivações para perdoar o parceiro estavam o amor, a restauração do relacionamento
ou o bem-estar do parceiro. Além disso, a necessidade do envolvimento no processo de
perdão pode resultar de tentativas individuais para reconstruir ou modificar antigas
crenças sobre o seu parceiro e da relação, bem como de esforços para recuperar a
sensação de segurança interpessoal no relacionamento (Gordon, Hughes, Tomcik,
Dixon & Litzinger, 2009).

5.1. Intervenção: perdão como essência de todas as relações conjugais?


A terapia de casal pode beneficiar em muito com a introdução de intervenções
centradas na promoção do perdão (Allemand, Amberg, Zimprich & Fincham, 2007). De
facto, a terapia do perdão no âmbito de transgressões conjugais tem-se revelado
significativamente associada quer com a esfera da satisfação conjugal, quer com a
esfera mais ampla do funcionamento familiar, nomeadamente a aliança parental e
perceções das crianças e adolescentes sobre funcionamento conjugal dos pais (Gordon,
Hughes, Tomčík, Dixon, & Litzinger, 2009), tal como supracitado. Ainda, um estudo
sobre cônjuges que sofreram abuso emocional nos seus casamentos mostrou que aqueles
que se envolveram numa terapia do perdão tiveram melhorias significativamente
superiores em relação à depressão, ansiedade-traço, sintomas de stress pós-traumático e

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Seminário de Projeto

autoestima, do que os participantes que se envolveram em programas de tratamento


alternativos (Reed & Enright, 2006; cit in Enright & Fitzgibbons, 2015).
DiBlasio e Benda (1991) sugerem que o perdão pode ser implementado em
contexto terapêutico como um ato cerimonial, sugerindo, através da expressão
simbólica, que a ofensa percebida foi perdoada. Um ritual de dar e receber perdão
poderá ser iniciado em contexto terapêutico, estabelecendo-se o processo de perdoar em
etapas que podem ser ensinadas ao casal e ser levadas a cabo por este fora desse
contexto (Barnett & Youngberg, 2004). O uso do perdão como um ritual inclui
simbolismos e prescrições específicas que ajudam o casal a movimentar-se de padrões
que perpetuam interações negativas para novas ações e diálogos mais positivos
(ibidem).
Em contraponto, as limitações do perdão como intervenção terapêutica são ainda
pouco conhecidas (Sells & Hargrave, 1998). Quando é que o perdão poderá ser
prejudicial e impedir o progresso relacional? Será o perdão um elemento chave para
todas as relações conjugais? Segundo um estudo longitudinal efetuado por McNulty
(2008) investigando os efeitos da tendência de 72 casais heterossexuais para perdoar os
seus parceiros, ao longo de um período de dois anos, verificou-se que o perdão
acarretava custos a longo prazo quando moderado pelo papel da negatividade e do
contexto em que o perdão ocorria, incluindo a frequência de infrações do cônjuge. Os
efeitos benéficos do perdão pareceram ser mais prováveis entre os cônjuges que
raramente se envolviam em comportamentos negativos, ao passo que o perdão parecia
revelar-se prejudicial ao longo do tempo para os cônjuges cuja relação é marcada por
elevados níveis de conflitos, existindo, consequentemente, uma detioração na satisfação
conjugal (ibidem). De facto, a diminuição do perdão para os parceiros em que o
comportamento negativo era frequente revelou-se benéfica ao longo do tempo (ibidem).
Esta pode ser uma razão para o esforço relacional exercer um papel mediador entre o
perdão e a satisfação com o relacionamento (Braithwaite, Selby & Fincham 2011), pois
quando apenas um parceiro faz investimentos na relação, a probabilidade de sucesso
relacional é reduzida (McNulty, 2008). Tais descobertas têm levado Worthington,
Witvliet, Pietrini, e Miller (2007) a salientar que "O perdão de estranhos é
fundamentalmente diferente do perdão a um ente querido." (p. 292).
Em suma, se o perdão pode ser um meio para oferecer a longevidade, saúde e
regeneração dentro dos relacionamentos, então, adicionar esta componente como âmbito
de intervenção psicoterapêutica para ajudar casais a reforçar a sua satisfação com o

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Seminário de Projeto

relacionamento, é, sem dúvida, digno de consideração (Aalgaard, Bolen, & Nugent,


2016), pois a capacidade de perdoar um parceiro pode ser um dos fatores mais
importantes na manutenção de relacionamentos românticos saudáveis (Fincham, 2009).

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