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A metodologia de Bartle para o trabalho

com crianças “desafinadas” por meio do


canto coral: uma prática inclusiva.
Débora Andrade

Resumo
Muitos regentes de coral infantil selecionam seus cantores por meio do critério da
afinação vocal. Essa prática é excludente e revela um despreparo técnico dos regentes
para lidar com diferentes situações de aprendizagem. Este artigo propõe, através da
prática pedagógica de Jean Ashworth Bartle, uma alternativa metodológica para o
trabalho com crianças desafinadas, por meio do canto coral. Além de listar as
possíveis causas da desafinação vocal infantil, este trabalho apresenta sugestões para
as intervenções pedagógicas.

Palavras chave: coral; infantil; crianças; metodologia; desafinação; metodologia;


regência.

“Se você disser que eu desafino amor, saiba que isso em mim
provoca imensa dor.” (Tom Jobim)

Introdução
Entre os regentes de coral infantil, identifica-se uma prática comum preocupante, no
que tange o direito à educação musical: a seleção vocal. Por meio dela, é
selecionado um grupo de crianças que possui mais “aptidão” em relação ao canto,
refletida na precisão das alturas de som. A seleção vocal torna o trabalho mais
cômodo para os regentes, amenizando os desafios em relação às intervenções
técnicas e proporcionando resultados estéticos mais imediatos. Como se pensava no
século passado, “o trabalho de ensinar um hymno [...] torna-se mais rápido, mais
agradável e fácil si, para os primeiros ensaios, dispuser o professor de uma turma de
alunos de melhor voz e mais disciplinados.” (sic) (EUTRÓPIO, 1925a, p.102)
Portanto, identificam-se, nessa prática, dois problemas: a abordagem do canto coral
como uma atividade excludente, sob a perspectiva da existência do dom, e a ausência
de práticas investigativas, que proporcionariam mais recursos para a constituição das
competências docentes.
Essa ideia de existência do dom para o canto é cultivada, no Brasil, desde o advento
do canto orfeônico, expressa em artigos submetidos à Revista do Ensino, sobre o
canto nas escolas, como neste exemplo: “Se alguma criança houver que tenha a


Mestre em Música, Especialista em Educação Musical (em andamento) e Bacharel em Regência pela UFMG.
Professora do curso de Licenciatura em Música do Instituto Metodista Izabela Hendrix. E-mail:
debora.andrade@metodistademinas.edu.br
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vocação para a música, esta aprendizagem mais eficazmente (sic) contribuirá para
consolidar esse penhor, e exercerá assim um papel decisivo no seu futuro (...)”
(EUTRÓPIO,1925b, p.68).
Naquele contexto, os chamados “desafinados” eram postos ao lado do grupo que
conseguia cantar correspondendo às alturas estabelecidas e eram, provisoriamente,
ouvintes (FERRARA, 1947, p.47).
Considerando tudo isso, necessita-se discutir a prática docente de canto coral infantil
sob as perspectivas de prática pedagógica inclusiva e da constante capacitação
docente. Pois, o artifício de seleção de integrantes para um coral infantil, baseado na
seleção vocal, não seria um reflexo das limitações pedagógicas do regente?
Ao falar sobre sua prática pedagógica junto a corais infantis de escolas públicas,
Bourne (2009) afirma ter percebido que as limitações de seus cantores eram o reflexo
de suas próprias limitações como professora e regente. Então, percebeu que era o
momento de observar sua própria formação, rever seus conhecimentos e adquirir
habilidades para o exercício dessa profissão.
Em outras palavras, Bourne precisava adquirir competências docentes específicas à
prática de coral infantil. E, essa noção de competência tem sido estudada e definida
por vários autores como “Demo (1995), Meghnagi (1998), Perrenoud (1999, 2000,
2001), Ribas (2000), Rios (1995, 2000), Shön (2000), Sedrez (1998)”, sem um absoluto
consenso entre os mesmos. Contudo, uma competência que permeia a muitos deles é
a competência do “saber fazer”. Destaca-se, aqui, a competência de organizar e dirigir
situações de aprendizagem, de Perrenoud. (MACHADO, 2003, p. 30).
E, como toda profissão requer competências específicas, a de regente de coral infantil
não é diferente. Bartle afirma que

[...] todas as crianças podem ser ensinadas a cantar se elas


começarem sua descoberta vocal pessoal desde muit o cedo e se
elas são ensinadas por alguém que não apenas acredita que toda
criança pode cantar, mas também possui as competências para
ensiná-la a cantar. Às crianças nunca, jamais, deve ser dito que elas
não podem cantar [...] (2003, p.8)  .

Trabalhar afinação vocal com crianças requer recursos específicos do regente. Esse
artigo explicita alguns deles por meio da metodologia empregada por Bartle.

Delimitando desafinação e suas causas


O termo afinação pode ser definido como um
estado de perfeito acordo entre as notas de um instrumento, de uma
orquestra, de um grupo vocal, de um conjunto musical ou da voz
humana. Ajuste de um instrumento ao tom de outro ou de uma voz.
(HOUAISS, 2001, p. 103.)


All children can be taught to sing if they begin their personal vocal discovery at a very early age and if
they are taught by someone who not only believes all children can sing but also has the pedagogical skills
to teach them to sing. Children must never, ever, e told that they cannot sing (…)
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De acordo com as pesquisas de Sobreira (2002), em termos acústicos, para se obter
sons com a mesma altura, suas frequências devem ser iguais, podendo ser dito que
eles estão afinados. Caso contrário, ouvir-se-á o que se chama de batimentos -
indícios de que os sons não estão afinados. Culturalmente falando, esses batimentos
podem ser tolerados e, até mesmo, desejados. Pois, a escolha e a afinação das
escalas musicais podem variar entre diferentes culturas e épocas. Sob esse ângulo, a
afinação é uma questão cultural. A cultura ocidental costuma organizar a escala
musical em doze sons.

Já em tempos antigos da Índia, a escala era dividida em 22 partes iguais. “Não


podemos fazer de um sistema de afinação uma norma para todos. (...) [Nós, por
exemplo,] “educamos nossos ouvidos para que eles se orientem pela afinação de um
instrumento temperado, como o piano (...)” (HARNONCOURT, 1982, p.76–77). Dessa
forma, a relação entre notas pode soar afinada ou desafinada para um indivíduo,
dependendo do grau de familiaridade que este tem com o sistema de afinação, no
qual essas notas estão inseridas.
Considerando, então, que o conceito de afinação é amplo, múltiplo, variável e cultural,
serão designadas desafinadas, nesse artigo, as crianças que não são capazes de
reproduzir, vocalmente, os padrões sonoros assumidos pela cultura ocidental, baseados
nos padrões de afinação da cultura europeia.

Causas da desafinação
Assim como definir o termo afinação, apontar suas causas tem sido uma tarefa
complexa. No entanto, vários autores têm se arriscado a listá-las.
De acordo com Sobreira (2002), a desafinação pode ser proveniente da falta de
vivência musical, por possível existência de traço genético ou distúrbios neurológicos
no processamento musical.
Falando, exclusivamente, de crianças, os apontamentos de Bartle (2003, p.7 - 8) e
Sesc (1997, p.40) se assemelham, no que diz respeito a problemas orgânicos,
temperamento, repertório inadequado e desconhecimento técnico. Como exemplos, uma
criança pode não afinar vocalmente por possuir voz rouca, com excesso de ar,
estridente, anasalada, não compatível com a idade cronológica, podendo possuir
nódulos ou pólipos, resultantes de maus hábitos vocais e alergias. Pode ser tímida,
sem autoconfiança, inerte ou possuir pequena capacidade de concentração,
comprometendo sua memória auditiva. Além de possuir uma postura corporal incorreta
e respiração deficiente, o repertório ao qual elas são submetidas, cotidianamente,
pode não corresponder à sua tessitura vocal. Ou seja, esse tipo de música não
corresponde ao número de notas da mais grave a mais aguda que as crianças
conseguem cantar com melhor sonoridade, naturalidade e expressividade.

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Bartle (2003, p.8) ainda atribui à desafinação vocal infantil aspectos dos ambientes
que não estimulam a vivência musical afetiva e efetiva. Ou seja, crianças podem nunca
ter escutado alguém cantando com voz de cabeça ou não foram ainda encorajadas a
cantarem sozinhas, fazendo-o apenas em grupo e acompanhadas por um piano. Elas
podem vir de lares cujos pais não têm tempo de cantar com elas e para elas. Ou,
simplesmente, não estão interessadas porque o professor não possui um estilo
envolvente, não oferecendo estímulos por meio de atividades interessantes.
Baseando-se nessa gama de possibilidades, o regente deve ter um olhar mais atento
e investigativo ao se deparar com uma criança “desafinada”, encaminhando-a, se
possível, a um otorrinolaringologista para a realização de um diagnóstico mais preciso.
Caso a desafinação não seja resultado de patologias vocais ou quadros neurológicos
permanentes, o direito a uma orientação vocal, por meio do canto coral, deverá ser
assegurada à criança, que possui interesse pela atividade.

Ajudando crianças a encontrar a altura de som exata


Para trabalhar afinação, Bartle (2003) possibilita o desenvolvimento da voz cantada
das crianças por meio de quatro estratégias: explorando sons vocais, escolhendo o
material de canção apropriado, fazendo-as cantar individualmente e gravando músicas
a serem posteriormente escutadas.
A fim de explorar sons, a regente brinca de imitar som de sirene, de vento, de risada
do Papai Noel e de apito de trem, como na ilustração abaixo, interjeições que
exprimem emoções de dor, satisfação, surpresa e espanto, como “Uau!” e “Ó, não!”.
Semelhantemente, Schimiti (2003) sugere que se produzam frases interrogativas e
exclamativas com alternância de entonações, como “Olá!”, “Como vai?”, “Nossa!”,
“Bem-vindos!”. Dessa forma, passa-se da voz falada à cantada, trabalhando regiões de
som grave, médio e aguda.

Som de Sirene Som do vento Risada de Papai Apito do Trem


Noel

Seguindo o mesmo raciocínio, outra brincadeira sugerida é a que Bartle (2003, p.8)
chama de “Jogo do Círculo”. Para brincá-la, basta posicionar a turma assentada em
círculo e uma criança no centro dele, portando grande e macia bola nos braços. Esta
criança quica a bola no chão enquanto canta uma melodia, construída sob intervalo
de som correspondente a terças menores descendentes, semelhante a esta:


Voz de cabeça é a ressonância utilizada na parte alta do trato vocal (BEHLAU; REHDER, 1997, p. 9.)
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Em seguida, passa a bola para outra criança que se levanta e dá sequência ao jogo.
Este termina, assim que todas as crianças tenham tido a oportunidade de ir ao centro
da roda e cantar a melodia. Outras melodias e textos podem ser inventados e parte
de exercícios vocais já existentes pode ser utilizada, como o primeiro compasso deste
(LECK, 2009, p. 43):

De acordo com a autora, a grande vantagem desse jogo é que cada criança tem a
oportunidade de cantar sozinha e, o fato de sua atenção estar focada no quicar da
bola, ela não se preocupa com a afinação.
A segunda estratégia de Bartle para promover a afinação com crianças é a escolha
apropriada do material de canções. Ela acredita que o sucesso do desenvolvimento
vocal infantil está diretamente relacionado com a escolha do repertório, tonalidade
das canções e com a voz de quem as ensina. Então, sugere que as canções
escolhidas estejam dentro das tonalidades de Ré, Mi bemol ou Mi, tanto no modo
maior, quanto no menor, sem a utilização do piano, pois canções escritas nessas
tonalidades trabalham a região de altura mais adequada para as crianças. As canções
escritas nas tonalidades de dó maior ou dó menor não deveriam ser ensinadas, pois
possuem pouco potencial para que a criança desenvolva o registro vocal agudo,
chamado de “voz de cabeça”.
A terceira estratégia de Bartle é o uso de canções pergunta-resposta, bem semelhante
ao jogo de círculo, pois se baseiam em intervalos sonoros de terça menor
descendente, utilizando as notas Si bemol 3 e sol 3, como este:

Caso, a criança não consiga reproduzir as alturas, a correção não deve ser feita
imediatamente, pois a exposição do erro diante do grupo poderá causar embaraço e

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desconforto. O melhor a se fazer é esperar pelo momento em que ela consiga fazê-lo.
Mas, caso isso aconteça, o professor pode intervir com o seguinte discurso: “Alguns
de nós possui voz grave e outros voz aguda; alguns têm mãos grandes e, outros,
mãos pequenas. Que chato seria se nós fôssemos iguais!” (BARTLE, 2001, p.9).
Essa utilização de jogos vocais utilizando terças menores descendentes parece ter
influência de Orff. Segundo Graetzer e Yepes (1983, p.11) ele sistematizou o ensino de
melodias para crianças de maneira gradual, começando por dois sons (sol – mi), em
seguida, três (lá – sol – mi), quatro (lá – sol – mi – dó) até chegar à formação da
escala pentatônica, ou escala de cinco sons (lá – sol – mi – ré – dó). O motivo de
Orff sempre começar pelo intervalo de terça menor descendente deve-se ao fato
deste intervalo estar presente em várias canções infantis de todo o mundo.
A última estratégia sugerida pela autora é organização de uma fita [um CD] portando
um repertório de quatro ou cinco músicas gravadas nas tonalidades adequadas a
crianças, para serem ouvidas em casa. Pois, elas precisam escutar o modelo de voz
de cabeça regularmente, uma vez que, as músicas que elas escutam, nas TVs e rádio,
costumam ser graves e inadequadas à sua extensão vocal, forçando-as a cantar numa
afinação aproximada da real.
Por fim, “este trabalho requer tato, habilidade, amor e paciência” (BARTLE, 2003, p.9).
E é preciso que se crie um ambiente de confiança de tal forma que nenhuma criança
tenha medo de errar.

Conclusão
Talvez, a pergunta mais importante a ser feita a uma criança em um coral é “Você
quer cantar”, no lugar de “Você sabe cantar”? Obviamente, ninguém deve ser obrigado
a cantar ou a se submeter aos parâmetros de afinação ao qual nossa cultura se
submeteu. Contudo, “toda criança tem direito à educação musical” (LECK, 2009, p.
183) e, se ela deseja fazer parte de um coro, não devem ser excluída, mediantes suas
diferenças.
Então, os professores que desejam e se propõem a trabalhar com canto coral infantil
devem ser encorajados a acolher todos os alunos interessados pela atividade e a
procurar adquirir as competências docentes capazes de fazê-los enfrentar quaisquer
desafios provenientes das diferenças discentes.
Que os testes vocais sejam realizados, mas com a finalidade de se obter diagnósticos
individuais que orientarão o planejamento de intervenções didáticas. Que as seleções
ocorram, mas motivadas por critério de interesse pessoal, e não visando a exclusão
dos “menos habilitados”.
Pois, quem carrega consigo a chancela de educador tem a oportunidade de identificar
problemas e investigar soluções para estes. É imprescindível, então, que o regente
adquira ferramentas de trabalho, como os conhecimentos necessários para auxiliar a
criança em suas descobertas musicais, por meio do canto coral.

Abstract.
Many children choir conductors select members using the criterion of vocal pitch. This
practice is exclusionary and reveals a lack of technical assistant for dealing with
different learning situations. This article proposes, through the ideas of Jean Ashworth

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Bartle, an alternative methodology for working with children tune, through choral
singing. In addition to listing the possible causes of infant vocal discord, this article
presents suggestions for educational interventions.

Keywords: choral; infant; children; methodology; detuning; metodologia; conduct.

Referências
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Canadá: Oxford University Press, 2003.
BEHLAU, Mara; REHDER, Maria Inês. Higiene vocal para o canto coral. Rio de Janeiro:
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LECK, Henry. Creating artistry through choral excellence. USA: Hal. Leonard, 2009.
MACHADO, Daniela Dotto. Competências docentes para a prática pedagógico-musical
no ensino fundamental e médio: visão dos professores de música. 2003. Dissertação
(mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Música, Instituto de Artes da
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SCHIMITI, Lucy Maurício. Regendo um coro infantil... reflexões, diretrizes e atividades.
Revista Canto Coral, Brasília: nº 1, 2003.
SESC. Canto, canção, cantoria: Como montar um coral infantil. 2ª ed. rev e atual. São
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SOBREIRA, Sílvia. Afinação e desafinação: parâmetros para a avaliação vocal. Revista
Augustus, Rio de Janeiro: vol. 7, n.14, p. 58-72, 2002.

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