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Exame de Antropologia Inês Martins da Silva

J ANEIRO DE 2010 1º ano Jornalismo

TEMA 1: Distanciamento e Etnocentrismo


1.1 Antropologia, Etnologia e Etnografia: terminologia e posicionamento
disciplinar. Do exotismo ao contexto do antropólogo. A antropologia no
quadro mais amplo das C. Sociais: Sociologia, História, Psicologia Social.
Contribuições da Linguística e da Comunicação.

ANTROPOLOGIA:

- Estuda a diferença entre as diferentes formas de organizar a vida colectiva, o exotismo e


originalidade de cada património cultural, diferenças essas que se comunicam e interagem.
- É a ciência social do outro, que se organiza segundo um sistema próprio, original e com um
modo de categorização próprio, outro este que é preciso conhecer para se poder dominar;
- O objecto de estudo da antropologia são unidades coerentes e de reduzidas dimensões que
ou constituem uma amostra representativa da sociedade global que se deseja apreender ou então têm
uma situação original pela sua subcultura especifica.

Tal como as outras ciências sociais, a antropologia tem uma perspectiva particular sobre a realidade,
pois desenvolve-se autonomamente. A perspectiva antropologia divide-se em cinco fases:
1. Ruptura Metodológica: o método utilizado pela Antropologia é a observação participante, isto
é, fundir-nos com a realidade através da interiorização dos hábitos e costumes das outras
culturas, exercendo assim o comportamento idêntico aos membros dessas culturas, mas sem
provocar um ambiente perturbador na sociedade. Não pode haver quaisquer tipo de
interferências no grupo em estudo, mesmo que inconscientemente.
2. Prioridade do micro sociólogo/ quotidiano: é dada uma especial atenção à vida quotidiana e
ao micro sociológico, isto é, mesmo que estejam interessados no estudo de grandes,
instituições de sociedades, iniciam sempre o seu estudo pela vida social das pessoas. Os
antropólogos especializaram-se nas sociedades ditas primitivas, logo, pequenas sociedades, e
nestas há uma maior personalização das relações, sendo assim mais próximas e genuínas,
tornando-se num dos objectos de estudo da antropologia.
3. Estudar o real enquanto totalidade: para ocorrer o estudo de um determinado objecto à que
isola-lo e aprofundá-lo mas sempre tendo em consideração tudo o que o circunda. Foi nesta
terceira etapa que surgiu o Fenómeno Social Total por Marcel Mauss que diz que cada
elemento isolado só ganha significado a partir de um conjunto cultural e social em que está
inserido.
4. Abordagem Comparativa: somente a partir do conhecimento de outras culturas/sociedades é
que podemos praticar a antropologia, pois o confronto com o outro alarga a abordagem do
mundo e experiências de vida. Esta necessidade de estabelecer comparações é uma ambição
desde os primórdios.
Para ocorrer esta abordagem comparativa é necessário ocorrer o seguinte processo de análise:
 Etnografia: corresponde a um trabalho de campo, de observação e de escrita. Recolha
de dados e de documentos, registo de factos humanos, traduções, simbologias para
uma melhor compreensão da sociedade estudada.
 Etnologia: visa a interpretação e análise de dados recolhidos pelo método etnográfico
e construir modelos para que seja possível uma síntese teórica, para uma posterior
análise comparativa.
 Antropologia: abordagem comparativa
5. Reflexividade e auto-análise da posição do observador: diz respeito à relação entre o
investigador e o objecto de estudo. O investigador tem de fazer um estudo prévio para poder
estar dentro do facto, tornando-se assim sujeito-participante e sujeito-investigador. O
antropólogo provoca reacções nos sujeitos e reage a reacções destes devido à reflexão da sua
posição num dado facto.

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RELAÇÃO ENTRE A ANTROPOLOGIA E SOCIOLOGIA

A sociologia surge no séc. XIX devido à necessidade de reorganização social após as revoluções
política e industrial.
A Antropologia estuda as sociedades homogéneas e de pequena escala, sem história conhecida,
ditas primitivas, tradicionais, sem escrita, enquanto a sociologia estuda sociedades complexas,
heterogéneas, com história, civilizadas, industrializadas, letradas e modernas.
O objecto do sociólogo é mais recente e mais visível do que o do antropólogo. A sociologia
utiliza, como método preferido, o da amostragem sobre um vasto conjunto enquanto a antropologia
prefere elaborar inventários descritivos (monografias) acerca das culturas estudadas.
Contudo, apesar de todas as diferenças, estas duas ciências sociais permanecem ligadas a
teorias e politicas comuns, tendo por isso perspectivas idênticas, semelhantes métodos de comparação
e de crítica.
O interesse de ambos assenta numa análise dinâmica das sociedades actuais.

RELAÇÃO ENTRE A ANTROPOLOGIA E A HISTÓRIA

A Antropologia, tal como já foi dito anteriormente, interessava-se pelas sociedades ditas
primitivas, sem historia e baseia-se no método oral para o seu estudo enquanto os historiadores
exercem o seu trabalho a partir de fontes escritas.
No entanto, as diferenças do passado foram desaparecendo, pois em 1953, Levi Strauss
distingue as sociedades frias (primitivas) das sociedades quentes (civilizadas). E foi a partir daí que a
História começou a relacionar-se com a Antropologia, pois as sociedades ditas frias começaram a
‘aquecer’. Desde esse momento, deu-se a formação da etno-história, que combina as técnicas da
história e da antropologia:
 Relaciona o passado e o presente examinando os valores e linguagem de um grupo visto por
dentro;
 Métodos de investigação orais;
 Investiga minuciosamente o passado das sociedades;
 Estabelece cronologias.

RELAÇÃO ENTRE A ANTROPOLOGIA E A LINGUÍSTICA

Os antropólogos não podem estudar uma determinada cultura sem ter conhecimento acerca da
língua. Por isso, os Antropólogos sempre reconheceram a língua como um código, cujo principal
responsável pela criação desta premissa segundo a sua visão de antropólogo estruturalista foi o Claude
Levi-Strauss.
Outro antropólogo que deteve um papel muito importante quanto à influência da linguística na
antropologia foi Franz Boas, responsável pela fundação da Antropologia Linguística, que afirma:
 Ser possível a coabitação de duas línguas na mesma cultura;
 Haver diferenças fonéticas entre subculturas;
 Quando a língua não possui escrita, então desenvolve-se a memória, expressa pela literatura
oral;
 Existe uma relação entre língua e o estatuto social.

1.2 Passos do pensamento antropológico: Evolucionismo, Difusionismo,


Culturalismo, Funcionalismo e Estruturalismo, Pós-modernismo e tendências
contemporâneas. Etnocentrismo e obstáculos ao conhecimento. Modalidades
etnocêntricas no confronto entre culturas.

EVOLUCIONISMO
O evolucionismo é a única corrente que surgiu no séc. XIX e que se mantém até os dias de hoje. O
primeiro projecto do antropólogo foi estudar toda a evolução Humanidade, para isso era necessário
estudar as formas mais remotas de vida, os primitivos, para que pudéssemos calcular o seu possível
avanço, estudando assim as origens da humanidade e os seus processos de evolução.

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A corrente evolucionista, cujo desenvolvimento ocorreu na segunda metade do séc. XIX, apoia-se no
transformismo de Lamark e nas pesquisas de Darwin sobre a origem das espécies pela via da selecção
natural.
Os pressupostos do Evolucionismo são:
 Os fenómenos culturais regem-se por mecanismos semelhantes aos da evolução biológica (do
simples para o complexo; do primitivo para o evoluído);
 A espécie humana é basicamente inventiva;
 Uma ideia ou um instrumento podem ser inventados mais que uma vez, em diferentes lugares
ou épocas;
 Os seres humanos, por todo o lado, pensam fundamentalmente do mesmomodo (uniade
psíquica da humanidade);
 Logo, as mesmas coisas serão inventadas em diferentes locais por todo globo (determinismo
histórico).

Propostas:
 Unilinear: propõe uma mesma linha evolutiva, independentemente do lugar (Jonh Lubbock);
 Universal: prevê uma evolução coincidente mas apenas em linhas gerais (Gordon Childe);
 Multilateral: prevê múltiplas linhas de evolução consoante as regiões do mundo;
 Sociobiologia: sugere o cruzamento entre dimensões biológicas, genéticas e sociais, na
determinação do comportamento humano.

Autores:
 Darwin
 Lamarck
 Marx
 Lewis Morgan
 E.B.Taylor
 J.Frazer
 Jonh Lubbock
 Gordon Childe

Criticas:
 Não existe trajectória histórica unilinear da humanidade, mas sim formas diferentes de
civilização dispersas no espaço;
 A história humana comporta erros sociológicos e ‘involuções’, logo não se traduz apenas pelo
acúmulo de ganhos;
 As mudanças não se explicam por um factor único.

DIFUSIONISMO
O objectivo da corrente difusionista é estudar a distribuição geográfica das culturas, explicando a sua
presença pela propagação de informação de um grupo para outro.
Os pressupostos do Difusionismo são:
 Ao contrário do evolucionismo, defendem que a espécie humana tende mais a copiar do que a
criar;
 As semelhanças culturais dependem não da passagem por fases semelhantes da evolução, mas
antes da apropriação do conhecimento de outros (os homens tendem a imitar, mais do que a
criar).

Propostas:
 Teoria dos círculos culturais: as culturas existentes derivam de um conjunto reduzido de
centros de onde são originárias as invenções mais relevantes (Antigo Egipto; outros antigos
centos de origem civilizacional);
 Áreas Culturais: relação entre culturas que podem ser definidas a partir do seu contacto
geográfico com um centro (quadros comparativos de base geográfica e não evolucionista).

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Autores:
 Franz Boas (Tem em conta o desenvolvimento interno, admite o dinamismo cultural, e que elementos semelhantes
possam ter sido inventados várias vezes. Ficamos a dever-lhe o estabelecimento dos limites do método comparativo
pouco fiável. Demonstra que elementos culturais viajam sozinhos, isolados e n em pacotes, o q levou a teorizar sobre a
relação entre variabilidade histórica e invariantes culturais e a demonstrar que uma cultura relativamente integrada
não consegue absorver seja o que for)

Criticas:
 A agregação de traços semelhantes pode muito bem não provir da mesma corrente histórica.
 A transferência de um elemento cultural de uma sociedade para outra é sempre ocasião de
perdas, acréscimos e remodelações.

CULTURALISMO
O culturalismo, que teve inicio nos anos trinta, nos Estados Unidos, define a cultura como sistema de
comportamentos apreendidos e transmitidos pela educação, a imitação e o condicionamento
(enculturação), num dado meio social. Ao contrário dos difusionistas, os culturalistas deram ao seu
trabalho uma orientação psicológica e tentaram saber como é que a cultura está presente nos
indivíduos e como é que orienta os seus comportamentos. Desenvolveram também a ideia de que cada
cultura tem uma história particular e padrões próprios daí que o que é comum numa cultura pode não
ser na outra, há diversidade cultural.
Os pressupostos do Culturalismo são:
 Colhem influências de Franz Boas (psicanálise), Niestzche (filosofia), da linguística.
 A cultura tem um impacto determinante na forma de pensar dos que nela se inserem;
 Os membros de uma dada cultura partilham uma personalidade de base, que condiciona o seu
comportamento (partilha das experiencias culturais pelos membros de uma comunidade,
através da educação e da “endoculturação”;

Propostas:
 A noção de padrões culturais tipifica esta modalidade especifica de agir, em função de uma
dada cultura e sob a influencia de uma educação com ela correlacionada;
 Relativismo Cultural (Boas): coerência de cada sistema cultural por si só e recusando a
comparação valorativa;
 Importância do trabalho de campo.

Autores:
 Ralph Linton
 Abraham Kardiner
 Ruth Benedict
 Margaret Mead

Criticas:
 Grande simplificação no problema da formação da personalidade;

FUNCIONALISMO
Paralelamente a estes movimentos, na Inglaterra, nasce o Funcionalismo, que enfatiza o trabalho de
campo (observação participante). Para sistematizar o conhecimento acerca de uma cultura é preciso
apreendê-la na sua totalidade. Para elaborar esta produção intelectual surge a etnografia. As três
noções que contribuíram para o nascimento do funcionalismo foram da utilidade, da casualidade e de
sistema.
Os pressupostos do Funcionalismo são:
 Ultrapassagem do particularismo cultural e descrição etnográfica;
 A sociedade como um “organismo”, cada parte do sistema desempenha uma função;
 Importância das instituições sociais na vida social;
 Comparativismo para evidenciar aspectos funcionais comuns nas várias culturas.

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Propostas:
 Os elementos de uma cultura (traço cultural) servem para satisfazer as necessidades dos
indivíduos em sociedade; cada traço cultural está associado a necessidades básicas (de carácter
biológico, por exemplo a alimentação ou o abrigo) ou a necessidades secundárias ou complexas
(de carácter social, por exemplo, a religião como resposta à incerteza quanto ao futuro);
 Funcionalismo de uma cultura tende a contribuir para uma estrutura social equilibrada, uma
harmonia social;
 Grande importância do trabalho de campo e da observação participante.

Autores:
 Bronislaw Malionowski
 Radcliffe-Brown

Criticas:
 O Funcionalismo não explica nem a génese nem as transformações de uma cultura ou de uma
organização;
 O Funcionalismo não está preparado para mostrar a mudança sendo que temos consciência de
que a mudança é algo constante na nossa sociedade. Esta corrente apenas nos dá imagens
paradas da sociedade.

ESTRUTURALISMO
A Antropologia Estrutural nasce na década de 40. O seu grande teórico é Claude Lévi-Strauss que
centraliza o debate na ideia de que existem regras estruturantes das culturas na mente humana.
Sendo assim, o agrupamento de indivíduos, de acordo com posições, que resulta dos padrões essenciais
de relações de obrigação, constitui a estrutura social de uma sociedade.
Os pressupostos do Estruturalismo são:
 Influência da linguística e da psicanálise;
 Modelo linguístico das oposições binárias ou categorias contrastantes;
 Relação directa entre o sistema social e a estrutura da mente humana.

Propostas:
 A cultura, expressa por rituais, expressões artísticas e símbolos mas também nas suas práticas
quotidianas, não é mais do que a manifestação de uma estrutura mental mais profunda,
inerente a toda a espécie humana;
 Importância do estudo dos mitos e das narrativas simbólicas;
 Sistema de relações e de comunicação (circulação) de base binária (bens/pessoas/ideias);
 Os factos culturais fazem parte de um sistema mais complexo.

Autores:
 C. Levi-Strauss
 M. Douglas
 E. Leach

INTERPRETIVISMO
Os pressupostos do Interpretivismo são:
 Atribuir significados a objectos, pessoas, acontecimentos, comportamentos e emoções é uma
actividade humana essencial, através da qual se torna possível ordenar o mundo e dar sentido
às experiências de vida;
 As culturas são as redes de sentido, diferentes de sociedade para sociedade e formadas por
símbolos e pelos seus significados;

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Propostas:
 A cultura pode ser comparada a um texto literário que carece de tradução para ser inteligível
interculturalmente;
 O trabalho de antropologia é proceder à interpretação das culturas, seleccionar símbolos,
decifrar significados e identificar o sentido que tomam em cada contexto cultural;

Autores:
 Clifford Geertz

PÓS-MODERNISMO
Clifford Greetz além da teoria anterior propunha que houvesse uma atenção especial para uma escrita
etnográfica (produção de informação).
Propõe que se faça uma ‘Think Descriphion’ (descrição densa), descrição recheada de pormenores e
valores. Nesta descrição não devem estar só descrições dos antropólogos mas sim também das pessoas
em estudo na primeira pessoa, pois estes são os informadores.
Esta escrita etnográfica é valorizada e desenvolvida no pós-modernismo que propõe que os
antropólogos escrevam como “realizadores de cinema”. Assim, um livro inspirado nesta base de
trabalho torna-se fácil de ler e pode até ler-se por capítulo como se de cenas de filme se tratasse.
Os pressupostos do Pós-Modernismo são:
 As culturas não podem ser descritas de um modo objectivo e sistemático, conforme
pretendiam os defensores do realismo etnográfico;
 Cada etnografia é um produto único que resulta da interacção entre determinados
investigadores e informantes, fazendo uso de metodologias diversas de trabalho de campo;
 Influência dos estudos culturais e literários.

Propostas:
 Reflexividade: centrar a análise antropológica menos nas culturas e mais na reflexão sobre as
práticas etnográficas e os processos de escrita;
 Polivocalidade: reduzir a autoridade dos etnógrafos, permitindo aos sujeitos analisados
exprimir-se directamente nos textos;
 Ficcionismo: recorrer às observações de terreno para compor retratos ficcionados de
indivíduos e situações que representem as culturas estudadas.

Autores:
 George Marcus
 James Clifford

TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS
Depois de Lévi-Strauss, as tendências contemporâneas causaram um grande impacto na segunda
metade do século 20, estas visavam a interpretação do facto em estudo, procurando as suas
motivações, os seus objectivos, e os seus significados. Não é apenas uma descrição minuciosa, mas uma
leitura, uma interpretação. A análise destes dados deveria então ser feita com base na compreensão
humana e na interpretação de textos escritos.
Na década de 80, o debate teórico na Antropologia ganhou novas dimensões. Muitas críticas a todas as
escolas surgiram, questionando o método e as concepções antropológicas.

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Tema 2: Proximidade e Especificidade da


abordagem antropológica: Etnografia e
Trabalho de Campo
2.1 Passos na ruptura com o senso comum e a emergência do
conhecimento em Ciências Sociais: ruptura, construção, verificação. O
fenómeno social total e a interdependência das dimensões em estudo:
o político, o religioso, o económico, o jurídico, o social. Métodos e
técnicas de investigação: articulações entre abordagens quantitativas e
qualitativas.

SENSO-C OMUM
 É válido mas não é da mesma família do conhecimento científico, cai normalmente num
discurso estereotipado.
 É um saber empírico, útil, que permite organizar o nosso quotidiano;
 Permite organizar ideias, ajudando-nos a construir um posicionamento;
 Todo o Homem, sociedades, culturas, etc, tem uma matriz de conhecimento baseada no senso
comum, sendo por isso visível em todos os agrupamentos sociais;
 Embora o senso comum seja partilhado, este, varia de sociedade para sociedade, sendo
fundamental para viver em sociedade;
 Apesar de opostos, ao senso comum incorporamos conhecimentos científicos. No fundo, o
senso comum é a base de conhecimentos mais avançados e elaborados;
 O senso comum naturaliza-se, incorpora-se com o avançar da idade, pois não podemos estar
sempre a questionar o porquê das coisas, à semelhança das crianças, embora e,
independentemente da idade, tudo seja sempre questionável.
 O senso comum tem, então, um carácter espontâneo, não pensa, é automático. Daí que
quando nos comparamos com outros que não têm a mesma matriz cultural, constatamos que
nem todos têm a nossa raiz de senso comum.
 O senso comum não é perigoso, não é errado e é certo que pode vincular conhecimentos que
contradizem o conhecimento científico, mas não deixa de ser um conhecimento útil à
sobrevivência do Homem.

BARREIRAS DO SENSO COMUM


 O Homem tem dificuldades em reagir com distanciamento e espírito crítico. Logo temos de
criar um filtro ao nosso senso comum;
 O respeito pela objectividade é essencial.
 O facto de o cientista ser um indivíduo, poderá levá-lo a determinados preconceitos que
colocam a fiabilidade da análise em risco.
 O Senso comum leva-nos à categorização e avaliação de pessoas, situações, culturas…
 Tende a criar estereótipos;
 Tendência a explicar fenómenos sociais a partir de características ditas biológicas ou sociais
(naturalismo);
 A experiencia e a afirmação tendem a ignorar e a contestar a existência de condicionamentos
sociais (individualismo);
 O Senso Comum leva-nos ao etnocentrismo.

ETNOCENTRISMO
 Sobrevalorização da nossa sociedade em função de outras; é um mecanismo imediato de todas
as culturas, não nos permitindo compreender de forma exacta os princípios de outros padrões
culturais.

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 Consiste em julgar as formas morais, religiosas e sociais de outras comunidades de acordo com
as nossas próprias normas, e, portanto, em considerar as suas diferenças como uma anomalia,
tendo a tendência para rejeitar, criticar ou desvalorizar os que não são como ele.
 Pode conduzir a preconceitos xenófobos, racistas, chauvinistas, etc.…
 O etnocentrismo existe em todo o ser humano e cultura, sendo no entanto importante para a
sobrevivência de padrões culturais específicos que permitem a reprodução social;
 Existem diversas formas de etnocentrismo, por exemplo, uma comunidade portuguesa no
estrangeiro que preserva o seu património genético, mantendo em território internacional a
língua e hábitos portugueses, é uma forma de etnocentrismo;
 Apesar da dificuldade sentida por muitos dos imigrantes na adaptação à cultura do país que os
acolhe, o contacto com uma matriz cultural diferente é sem dúvida enriquecedora.
 O etnocentrismo acaba assim por funcionar como um obstáculo ao conhecimento científico.


 É importante que nos coloquemos numa perspectiva não etnocêntrica, abertos a novas formas
de agir e de pensar, diferentes das nossas.
 O mundo que nos rodeia não pode ser apenas explicado de acordo com as nossas grelhas
culturais, combatendo a ideia base do etnocentrismo de assumir as outras culturas como
diferentes e anormais.
 O respeito por culturas diferentes é o 1º passo para uma análise mais objectiva do social e para
a sua compreensão, além de ser uma atitude indispensável para o bom entendimento entre os
diferentes povos, conhecer outros padrões culturais é fundamental para que não achemos
determinada acção aberrante.
 Na ciência não há posicionamentos, apenas se tenta esclarecer ou clarificar algo;
 Devemos questionar e desconfiar sistematicamente, mas tendo como base um princípio
científico, assente na objectividade e neutralidade.
 O facto é que para um cientista social assegurar a objectividade não pode estabelecer juízos de
valor;
 Para avaliar, observar, estudar, algo que nos é estranho, não podemos encarar o objecto de
estudo como algo de “estranho”, devemos antes compreender o contexto em que aquilo foi
produzido, de modo a compreender o seu valor (sendo esta a forma de etnocentrismo mais
difícil de ultrapassar).
 Se numa mesma cultura, as pessoas não possuem a mesma visão, a situação acentua-se numa
escala menor.
 O que nós somos é socialmente entendido e culturalmente aprendido.

RUPTURA COM O SENSO C OMUM


 A ciência ocidental diz que as culturas são diferentes e não inferiores, sofrendo apenas uma
transformação, evolução diferentes.
 Se queremos entender as singularidades e especificidades de cada cultura tem de haver uma
ruptura com o senso comum.

PROCESSOS DE INVESTIGAÇÃO

Metodologias Qualitativas – nesta na pergunta de pesquisa esta incluído o nível de analise. Apesar da
metodologia ser menos abrangente é muito mais intensiva.

Metodologias Quantitativas – através de inquéritos e (através daquilo que dizem ou fazem).

O MODELO LINEAR DO PROCESSO DE INVESTIGAÇÃO, compõe-se por:


 Teoria
 Hipótese
 Operacionalização
 Amostragem

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 Colecta dos Dados


 Interpretação dos Dados
 Validação

O ponto de partida do investigador é o conhecimento teórico obtido na literatura ou por resultados


empíricos anteriores. Daí derivam hipóteses, que são operacionalizadas e testadas face a novas
condições empíricas. Os objectos de investigação concretos ou empíricos, como, por exemplo, um
determinado campo social ou pessoas reais, têm o estatuto de exemplares, nos quais são testadas as
relações universais pressupostas (sob forma de hipóteses). A expectativa do investigador é poder
garantir a representatividade dos dados e resultados obtidos, por exemplo com uma amostra aleatória
de sujeitos estudados.
As teorias e métodos são anteriores ao objecto de investigação; são depois testadas e pode ser
eventualmente estabelecida a sua falsidade.

MODELO CIRCULAR DO PROCESSO DE INVESTIGAÇÃO


Em contraste com o afirmado acima, o modelo circular dá preferência aos dados e ao campo de estudo,
relativamente a pressupostos teóricos. Estes não são aplicados à questão estudada, mas antes
‘descobertos’ e formulados, ao tratar do campo e dos dados empíricos que nele se irão encontrar. E o
que determina modo de selecção das pessoas para o estudo é mais a sua importância para o tema do
estudo que a sua representatividade. O objectivo não é reduzir a complexidade, pela sua decomposição
em variáveis distintas, mas antes aumentá-la, pela inclusão do contexto.
Este modo de investigação permite ao investigador adoptar uma atitude que o impede de estar
elucidado apenas aos seus pressupostos e estruturas teóricas, de modo a impedi-lo a descoberta do
‘novo’.
A ideia de elaborar teorias com base na análise do material empírico tornou-se essencial, por direito
próprio, para o debate sobre a investigação qualitativa.
É a imediata interpretação dos dados colectados que constitui a base das decisões sobre a amostra.
Estas decisões não se limitam à selecção dos casos, incluem também as decisões sobre o tipo de dados a
integrar a seguir e, em casos extremos, sobre alterações do método.

MODELO LINEAR VS MODELO CIRCULAR


Por entre algumas questões levantadas ao modelo circular este mantêm-se por ser um método que
obriga o investigador a uma reflexão permanente sobre o processo de investigação, no seu conjunto, e
sobre a interligação de cada um dos seus passos com os outros – pelo menos quando é coerentemente
aplicada.

2.2 Atitudes e metodologias de proximidade: categorias próprias ou


exteriores ao contexto (emics/etics) versus produção de escrita
etnográfica. O caso particular de campo com observação participante: a
presença e a participação. Biografia e Memória. Representações
culturais ou sociais, práticas e discursos.

ABORDAGENS / PERSPECTIVAS DIFERENTES

Emics Etics
 Estuda o comportamento a partir do  Estuda o comportamento a partir de uma
interior do sistema posição exterior ao sistema
 Examina uma única cultura  Examina e compara várias culturas
 A estrutura é descoberta pelo  A estrutura é criada pelo investigador
investigador
 Os critérios são relativos às  Os critérios são considerados absolutos e
características internas universais

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EMIC VS ETIC
 No âmbito das várias construções onde se constroem as perspectivas das ciências sociais.
 É o posicionamento do investigador no início da investigação, no momento da observação.

ETIC:
 Sociologia, Psicologia
 Grelha de análise prévia (pré-definida) e só após esta se começa o estudo

EMIC:
 Antropologia
 Construção do problema de investigação depois de um contacto com o terreno
 A realidade proporciona uma fase exploratória que tem sempre numa fase subsequentes
desenvolvimentos ETIC
 Espírito comparativo e holístico

TRABALHO ANTROPOLÓGICO

- Ao contrário da sociologia, a antropologia não estuda a representatividade (amostras significativas)


recorrendo ao próprio contacto com o Homem.
- Para estudar um fenómeno é necessário analisar um universo repetidamente.
- Sendo o objecto de estudo da antropologia prático, falamos de uma amostra qualitativa, não sendo
possível analisar um único universo.
- Para estudar um dado tema, o antropólogo deverá analisar estudos e documentos já existentes acerca
da matéria.
- Antes da investigação é importante uma reflexão teórica, sendo estabelecidas etapas: definir o tema, a
metodologia, a contextualização teórica, entre outros pormenores.
- O nível de análise é decidido por quem estuda, obviamente se usufruirmos de todas as etapas será um
trabalho muito mais exigente e profundo.
- Por norma recorre-se às práticas, isto é, trabalho de campo, a etnografia.
- Antes de ir para o terreno é fundamental ter já definido o objecto de estudo e o método de trabalho, é
fundamental a flexibilidade, o não ter princípios rígidos no terreno.
- De referir, a teoria não é levada para o terreno, há que estruturar a informação recolhida, á luz da
teoria, construindo-se um discurso explicativo do trabalho recolhido.

Etnografia (trabalho de terreno)


- É o método de investigação privilegiado pela antropologia, uma vez que é o mais adequado para
recolher a perspectiva do Outro.
- Consiste em descrever de uma forma intensiva o que é único, exótico, original, método este que
nasceu das viagens feitas pelos exploradores que descreviam tudo o que visualizam nos seus diários.
- Deste modo, pretende-se entender como os outros se posicionam, pensam, avaliam, vêm o mundo. De
facto, é este o grande contributo deste método que outros não nos possibilitam, a capacidade de “ver o
mundo através dos olhos de outro”, ideia base da antropologia.
- A etnografia é caracteristicamente profunda, intensa, prolongada, o que implica um contacto intenso
entre investigador e investigado, sendo o conceito mimetismo de grande importância, o antropólogo
deverá adaptar-se, confundir-se com o indivíduo em estudo de modo a compreende-lo.
- A etnografia não permite trabalhar universos muito alargados, tem limites, até porque a antropologia
lida com amostras qualitativas.
- Este método visa colocar o sujeito a pensar, acabando por ser um exercício de desconstrução cujo
objectivo é perceber porque as coisas acontecem.
- O trabalho de investigação é feito em conjunto com o sujeito, tendo este um papel activo,
contribuindo tanto ou mais que o próprio antropólogo para a concretização do trabalho.
-Para um trabalho de campo é necessária quer a disponibilidade do sujeito como do antropólogo;
ambos têm de disponibilizar a vontade de pensar e conviver reciprocamente.

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- Muitas vezes o objectivo inicial do estudo é “desviado”, aliás enriquecido pelo contributo extra
oferecido pelo terreno/ sujeito.

Etnologia
- Elabora os materiais fornecidos pela etnografia, que após análise e interpretação, procura construir
modelos.

NÍVEIS DE ANÁLISE NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

 Representações – quadros conceptuais gerais que organizam os nossos discursos; ultrapassam


a realidade individual;
 Discursos – enunciados que descrevem ou se reportam a práticas ou representações (Ex.:
descrições, referencias, relatos ou narrações, textos, iconografia);
 Práticas – abordagem qualitativa (inquéritos, questionários).

COMPARAÇÃO

 Ilustrativa: com um suporte etnográfico, compara as mesmas variáveis identificadas entre duas
ou mais comunidades ou sociedades distintas.
 Controlada: recorrendo a comunidades ou sociedades semelhantes, procurar identificar de que
forma uma variável distinta, entre elas, afecta as distantes.
 Global: Agrupar características e situa diferentes sociedades ou comunidades de acordo com
categorias muito amplas, ecológicas e geográficas.

PROPÓSITOS DE ESTUDO

 Exploratórios: que procuram questionar e determinar o âmbito e as variáveis pertinentes para


uma de área de estudo.
 Descritivos: que procuram descrever, quantitativa e qualitativamente, discursos, práticas ou
representações.
 Explicativos: Através de um modelo, procuram explicar a relação entre discursos, práticas ou
representações e as variáveis que as determinam.

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Tema 3: Identidade pessoal e identidade


colectiva. Processos de constituição das
identidades na contemporaneidade.
3.1 Identidade e alteridade: a construção e a referenciação identitária.
A percepção da diferença e da semelhança como construção de
representações. Identidade Reflexiva.

IDENTIDADE

Transforma um ser biológico num ser cultural – processo de socialização. Tem a ver com a pertença de
certos grupos a respectivas culturas.
Conceito de identidade cultural está desde os anos 50 nas ciências sociais. Surge nos EUA devido à
dificuldade de integração das sociedades.

IDENTIDADE diferente de CULTURA.

Selecção de objectos culturais estrategicamente. Identidade identifica (inclusão) o grupo e distingue-o


(exclusão) dos outros.

As culturas podem existir sem consciência de identidade porque a identidade é do foro da consciência.
Portanto, se os indivíduos não a auto reconhecem nem os outros a reconhecem, é possível existir uma
cultura sem identidade. As identidades são de ordem da manipulação, valoriza-se e fala-se do que se
orgulha. A cultura é o que nós somos e é ‘inconsciente’, enquanto a identidade remete para a
necessidade consciente o que nos permite demarcar mais certas características, valorizar umas e
desprezar outras. Numa época de globalização, a ideia de que nos estamos a tornar cada vez mais iguais
não corresponde à realidade. A nacionalidade não figura no código genético contudo os indivíduos
consideram a pátria o lugar onde nasceram como uma identidade se si próprios.

Resumo:
 O que nos caracteriza pluralmente.
 Narrativas na 1º pessoa, histórias sobre o eu e sobre nós que permitem identificarmo-nos uns
aos outros e a nós mesmos.
 Na base desta construção está o património hereditário.
 No entanto, a identidade constrói-se da interacção que o indivíduo faz com as instituições
(nacionalidade, religião, família, etc), nascendo daqui o nosso património individual.
 Como já foi perceptível, constrói-se da interacção com o meio exterior, sendo este o aspecto
que a diferencia de personalidade;
 Não é inata, ao contrário do que o conceito iluminista de identidade apontava.
 Alguns dos elementos importantes para a formação da identidade (como o género, classe
social), são estáveis e coerentes, pois acompanham-nos ao longo da vida.
 As identidades são:
 Contínuas (constroem-se ao longo da vida)
 Complexas (possuem diversas dimensões)
 Menos rígidas (possibilidade de alterar a identidade)
 A construção da identidade é um exercício solitário, construído apenas por cada um de nós.
 As crises de identidade ocorrem pela diversidade de escolhas, tornando-se estas num problema
devido à necessidade de responder por elas.
 Actualmente, a leitura das identidades não é estável, rígida, em virtude das possibilidades de
escolha, da postura do indivíduo perante as instituições.

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Personalidade – predisposto no individuo e que necessita de desenvolvimento numa interacção entre


interior e exterior;

Identidade Pós-moderna – conceito ambíguo. Vive-se a um ritmo de mudança constante e acelerado,


sendo esta rapidez nova na história da humanidade.

Fragmentação da Identidade
 Num mundo tão complexo, onde as pessoas são constantemente bombardeadas de
informações, onde migrações acontecem a cada segundo, com a globalização mais acelerada
do que nunca, levando o indivíduo a adoptar identidades múltiplas, ele irá familiarizar-se e
identificar-se com várias.
 Num mundo de constante mudança a identidade não é estável, é mutável, considerando-se
mesmo provisória, levando ao discurso de que a identidade acabou.
 Perante isto perdemos a capacidade de explicar o que somos, ficando perdidos face à nossa
própria identidade individual.

Identidade Reflexiva – Actualmente, construímos a nossa identidade nacional a partir de um exercício


de reflexibilidade. Esta não é mais que a capacidade de o indivíduo se libertar das instituições, tendo a
liberdade de escolher a sua própria narrativa identitária.

3.2 Os discursos sobre a identidade colectiva. A consciência de


pertença e a tentativa da substantivação: folclorizações, heróis e
símbolos (bandeiras, hinos, desporto). A invenção da tradição: espaço
e território, história e memória.

 Há dimensões da nossa identidade que são partilhadas a nível social, logo são colectivas, e
dependem da nossa relação com o social (“ser português”é construído de forma partilhada por
todos os portugueses que todos reconhecem como tal).
 Para criar um grupo há elementos que são partilhados.
 Em cada um há algo que faz a distinção.

 A identidade nacional resulta do Estado. Este constrói institucionalmente a história e a politica


de uma nação, criando um discurso a partir do qual possamos identificarmo-nos para além das
nossas diferenças.
 IN – Conjunto de representações sobre ser-se português a partir de material simbólico que
consideramos ser “nosso” confrontando-se as outras nacionalidade;
 É aprendida através da socialização, herdada das gerações anteriores.
 Sentimento de pertença, de coesão social;
 É uma identidade estável, enraizada, que acompanha o povo durante um longo período tempo,
incorporando elementos novos mas metendo sempre uma organização sólida, mesmo rígida.

 Encontram-se denominadores comuns para construir um discurso mais ou menos coerente e


partilhado;
 Cria-se algo (um tecto) que sobrepõe e integra todas as várias identidades regionais (Lisboa,
Porto).
 A identidade nacional marca a identidade pessoal de cada um (certos hábitos são
naturalizados), independentemente de valorizar a sua identidade ou construir uma nova, certos
traços não podem ser eliminados ou dificilmente o são.
 As dimensões da nacionalidade são impostas ao Ser Humano e construídas pelas instituições,
principalmente pelo Estado;

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Como se constrói um discurso sobre a Identidade Nacional, sobre o nós colectivo:

 Língua,
 Gastronomia
 Música (fado)
 Símbolos característicos
 Passado (feitos históricos)
 Origem do país (mito fundador, discurso mítico). De sublinhar, a origem é importante, pois é
única e, é importante saber de onde é oriunda a nossa Nação.
 A origem não muda, apesar de contestada. Alterá-la é complexo, uma vez que a origem é um
dos elementos fundamentais para a centralização de um discurso nacional.
 Ciência histórica, literatura mística – são fontes de informação que acrescentam elementos à
narrativa da nação (tudo aquilo que for considerado património único de uma nação).
 Feitos da Nação (triunfos, heróis…)
 Desastres da Nação (momentos épicos…)
 É-lhes dada ênfase pois são períodos de originalidade histórica que podemos reivindicar como
único.
 Invenção da Tradição
 Uma tradição não é necessariamente um acto antigo, pode ser bastante recente ou mesmo
inventado.
 Tradição inventada é o conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras, de natureza
ritual ou simbólica, que visam estabelecer certos valores e normas de comportamento através
da repetição, implicando uma continuidade em relação ao passado.
 É essencialmente um processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao
passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição.
 Muitas instituições sem antecessores tornaram necessária a invenção de uma continuidade
histórica.
 São também criados símbolos e acessórios inteiramente novos, tais como o hino nacional, a
bandeira nacional e símbolos ou imagens oficiais, no caso de movimentos e Estados nacionais.

As tradições inventadas classificam-se em três categorias sobrepostas:

a) Aquelas que estabelecem ou simbolizam a coesão social ou as condições de admissão de um


grupo ou de comunidades reais ou artificiais;
b) Aquelas que estabelecem ou legitimam instituições, status ou relações de autoridade;
c) Aquelas cujo propósito principal é a socialização, a inculcação de ideias, sistemas de valores e
padrões de comportamento.

 As práticas antigas eram práticas sociais específicas e altamente coercivas, enquanto as


inventadas tendem a ser bastante gerais e vagas quanto à natureza dos valores, direitos e
obrigações que procuravam inculcar nos membros de um determinado grupo.
 Nas práticas inventadas, o elemento crucial foi a invenção de sinais de associação a um grupo
que continham toda uma carga simbólica e emocional.

COSTUMES

 São regras sociais, resultam numa certa convicção de obrigatoriedade, de acordo com cada
sociedade e cultura específica.
 São característicos das sociedades tradicionais.
 Têm a dupla função de motor e volante.
 Não impedem as inovações e até as podem mudar.
 No entanto devem parecer compatíveis ou idênticos ao passado.
 Têm de ser variáveis de acordo com as sociedades.

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COSTUMES VS TRADIÇÕES

Embora se verifique uma certa relação, existem diferenças notórias entre costumes e tradições:
Enquanto o costume é o acto ou a acção concreta, a tradição é o ritual que envolve essa mesma acção.
O costume não possui nenhuma função simbólica nem ritual importante, embora possa adquiri-las
eventualmente.
Qualquer prática social que tenha de ser muito repetida tende a gerar um certo número de convenções
e rotinas, formalizadas de direito ou de facto, com o fim de facilitar a transmissão do costume.
Muitas vezes as tradições são inventadas, não porque os velhos costumes não estão mais disponíveis
nem são viáveis, mas porque eles, por opção dos indivíduos, não são usados, nem adaptados.

Identidades nacionais, como uma construção que ultrapassa as diferenças:

 Património comum;
 Construção partilhada da ideia de vivência em conjunto (pessoas que partilham a nossa
identidade nacional).
 Património herdado – desejo de manter a identidade colectiva;
 Ideia de um Povo Original, Puro, Singular, pretendendo ligá-lo ao território original. É um
conceito “perigoso” pois pode despertar xenofobia. Não existem nações constituídas por um
único povo, sem contacto, nem troca, principalmente hoje em dia. No contexto, ainda h muitos
discursos nacionalistas com base neste argumento. Leva à exclusão de elementos, que resulta
em conflitos.

3.3 Comunidades imaginadas: Estado, nação e estado-nação. A deriva


geográfica e politica dos Estados europeus nos séc. XIX e XX. Nações e
conceito de etnia. O papel da língua, da educação e da mediatização.
Portugal: toponímias, fronteiras, património linguístico, propaganda
nacionalista. A memória da expansão.

COMUNIDADES IMAGINADAS DE BENEDICT ANDERSON:


 É imaginada porque até os membros da mais pequena nação nunca conhecerão, nunca
encontrarão e nunca ouvirão falar da maioria dos outros membros dessa mesma nação;
 A nação é imaginada como limitada porque até a maior das nações, englobando possivelmente
mil milhões de seres humanos vivos, tem fronteiras finitas, ainda que elásticas, para além das
quais se situam outras nações. Nenhuma nação se imagina a si própria como tendo os mesmos
limites que a humanidade;
 É imaginada como soberana porque o conceito nasceu numa época em que o Iluminismo e a
Revolução destruíam a legitimidade do reino dinástico hierárquico e de ordem divina. O Estado
soberano é o garante e o emblema dessa liberdade;
 A nação é imaginada como uma comunidade porque, independentemente da desigualdade e
da exploração reais que possam prevalecer em cada uma das nações, é sempre concebida
como uma agremiação horizontal e profunda. É essa fraternidade que torna possível qe, nos
últimos dois séculos, tantos milhões de pessoas, não tanto matassem, mas quisessem morrer
por imaginários tão limitados.

IDENTIDADE NACIONAL

Nação – construção imaginária.


Estado – existência de fronteiras e formação geopolítica de um território.
- Um estado pode ter várias nações.
Estado-nação – construção da modernidade, uma vez que este conceito é recente. Nova definição
territorial, geográfica, politica, social, que resulta do emergir de um novo território, de uma fronteira
com territórios demarcados, governos com uma constituição própria e autónoma, de uma nova
identidade social.

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ETNIA
 Unidade de análise através da qual é feita o estudo do outro.
 É tudo aquilo que é único, original, numa cultura e que lhe está circunscrito: cultura histórica,
língua, conjunto de regras, valores, origem comum mas diferentes da nossa;

 O conceito etnia sofreu algumas alterações com o passar do tempo.


 Antigamente estes eram os critérios para distinguir etnias: origem (contexto espacial
geográfico de onde são originários, à excepção dos judeus e ciganos que não possuem origem
definida), gastronomia, língua, dança, música, religião, fisionomia, trajes, entre outros.

 Actualmente faz parte de uma etnia quem se auto determina, auto inclui-se, auto assume-se
como tal.
 De referir que há traços que são transversais, isto é, partilhados, devido a encontros culturais
(ex. colonialismo).
 O mesmo território pode ser partilhado por diversas etnias e a mesma etnia pode encontrar-se
em territórios muito afastados.

Tribos Urbanas
 São grupos urbanos que se afastam do tradicional, aproximando-se dos fenómenos
contemporâneos, sendo actualmente estudados pela antropologia pela sua originalidade e por
se encontrarem no mesmo espaço geográfico (graffiters, góticos).
 Uma tribo não tem uma definição étnica, sendo possível pertencer a várias ou nenhumas
tribos. Esta é a grande diferença face ao conceito etnia, uma vez que o indivíduo apenas poderá
possuir uma etnia!

Grupo social = Tribo Urbana que é diferente de etnia.

Minoria étnica - termo minoria diz respeito a um determinado grupo humano e social que está em
inferioridade numérica em relação a um grupo maioritário e/ou dominante. Não implica
necessariamente que sectários ou membros das minorias sejam necessariamente perseguidos ou
dizimados pelo grupo dominante, embora haja numerosos casos de perseguições a minorias étnicas.

IDENTIDADE APLICADA ÀS NAÇÕES:

João Leal e José Manuel Sobral são dois antropólogos que se dedicaram ao estudo da identidade
Nacional.

AUGUSTO SANTOS SILVA, abordou o tema da cultura nacional na sua interrogação “Existe uma cultura
portuguesa?”

Desenvolveu os seguintes vectores que conferem pertinência à expressão “cultura portuguesa”


(legitimam a sua existência):
 Somos possuidores de uma História comum num Estado formado em tempos remotos (à escala
europeia) definido territorialmente desde o séc. XII.
 Temos uma diversidade inter-regional significativa que gera dinâmicas próprias.
 É um país assente sob uma série de inúmeras influências étnicas e civilizacionais.
 Em comparação com a situação europeia, Portugal encontra-se num posicionamento periférico.

Ainda segundo Augusto Santos Silva, os eixos estruturantes da cultura portuguesa concentram-se em:
 Religiosidade  a Igreja é uma força estrutural e presente em Portugal sendo uma instituição
importante desde muito cedo. Existe para além da religiosidade eclesiástica uma religiosidade
popular (entendimento que as pessoas fazem da religião);
 Ruralidade da sociedade portuguesa  é um país ligado à ruralidade onde grande parte da
população portuguesa se encontra ligada à agricultura, possuindo inúmeros trabalhadores

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rurais ao invés de uma classe operária. As tradições e valores que permanecem são os
conectados à vida do campo.
 A diáspora (imigração)  constante ao longo da nossa História é a existência de uma diáspora
planetária: uma dispersão da população à escala mundial (apesar de não existir equilíbrio nesta
dispersão) que coloca nos mais diversos locais do mundo nichos portugueses.

CARACTERIZAÇÃO DO VECTOR LEGITIMIDAOR ENUNCIADO POR A.S. SILVA  O


POSICIONAMENTO PERIFÉRICO DE PORTUGAL:

 Escassez de recursos culturais modernos  fraca urbanização, macrocefalia (densidade urbana


concentrada em espaço limitado, não são comuns as redes de cidades medias (que se
constituíram devido a um esvaziamento de concelhos e rurais e concentrações em capitais de
distrito – cidades médias).
 Fracos níveis de escolarização e qualificação profissional;
 Baixa integração dos padrões culturais urbanos e de classe média;
 Abertura do país à influência das cidades centrais na Europa (nomeadamente em questões de
consumo);

Por outro lado, a par destas características, possuímos (EM CONTRADIÇÃO COM OS CRITÉRIOS DE
PERIFERIA DO PAÍS):
 Património vivo de formas de cultura popular;
 Capacidade de ajustamento e adaptação às situações (através de solidariedades tradicionais e
laboração paralela).

Augusto Santos Silva chama ainda a atenção para a existência de uma cultura popular ao invés de uma
cultura de massas.

Tradicional, apesar de ter sido


alterada após o regime salazarista
e enquadra um aspecto
identitário do país.

 Cultura de massas  dominada pela indústria cultural sobretudo norte-americana (esta


situação é visível à escala global).
 Cultura de elites  o campo de produção intelectual nacional está escassamente reduzido.
 A procura cultural é restringida e dependente de segmentos pequenos da população.
 A criação erudita no nosso país não alimenta alguns ramos como a ciência e a filosofia. A
literatura, em particular a poesia, é o ramo intelectual que vai sobrevivendo.

Segundo o autor José Manuel Sobral, Portugal é uma nação antiga, possuindo uma identidade remota.

CARACTERÍSTICAS / CRITÉRIOS QUE LEGITIMAM A EXISTÊNCIA DE UMA ETNIA NACIONAL (FORMADA


NO PERÍODO PRÉ-MODERNO)
 A existência de um nome próprio;
 A consistência dos mitos de ancestralidade comuns (Viriato, os lusitanos, o sebastianismo, etc.);
 A existência de memórias históricas partilhadas;
 A partilha de vários elementos culturais comuns (a língua, a unidade religiosa, um conjunto de
costumes, a associação com um território, a solidariedade entre segmentos populacionais);

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Tema 4: Globalização e contextos pluriculturais.


Migrações, minorias étnicas. Comunidades
migrantes em Portugal contemporâneo e a
presença portuguesa no mundo.
4.1 Dimensões múltiplas da globalização: Politica, Económica,
Tecnológica, Mediática e Humana. Identidades regionais e nacionais
sob os processos de globalização. Diversidade ou homogeneização?

IDENTIDADES VS GLOBALIZAÇÃO

 Actualmente as identidades nacionais são confrontadas com uma ameaça no contexto da


globalização.
 Hoje em dia, sem grande esforço, estamos em contacto com traços identitários diferentes dos
nossos e alguns mesmo atractivos, que acabamos por integrar na nossa identidade. Logo, não
estamos confinados apenas ao nosso património nacional.
 Isto pode originar uma desfragmentação das identidades.

 A influência de outras matrizes culturais, apesar de enriquecedora, ao nível da identidade é


uma ameaça na medida em que coloca a identidade nacional em algumas gerações extinta,
pelo facto de em diferentes culturas não passarmos de “cópias” de outras pessoas do mundo
inteiro!

 A grande preocupação de quem estuda as identidades é exactamente esta: irá a globalização


homogeneizar as identidades?
o O facto é que a globalização faz-se sentir e está presente em todas as dimensões
quotidianas da nossa vida, mas como é visível ela não conseguiu a descrita
homogeneização cultural.
o A diversidade, originalidade e criatividade cultural demonstra que a homogeneização
não será possível, pois cada vez mais as sociedades valorizam o original e exótico que
possuem, dimensões culturais diferentes das nossas.
o Logo, a tendência da humanidade cai sobre a valorização das especificidades culturais.
o De sublinhar que a globalização não é equitativa, pois os modelos que encontramos
são maioritariamente de países desenvolvidos.
o A exportação de modelos, identitários é desigual.
o No entanto, dentro do mesmo contexto, a globalização não atinge todos os grupos,
pessoas, classes sociais, sexos, géneros, da mesma forma.

 Como interfere a globalização com as identidades culturais, visto que não as homogeneíza?
o Existem traços globais em todo o mundo.
o Há um reforço dos mecanismos de distinção cultural.
o O fundamentalismo, que é uma forma de insensibilização das identidades nacionais,
deixando bem patente as características exóticas salientes e valorizadas.

Nas interpretações da globalização, salienta-se a fragmentação do processo que criou e manteve esta
situação  desequilíbrios que provocaram a desigualdade económica entre países.
Estes processos são, assim, estruturados por estas desigualdades globais que foram explicadas segundo
várias perspectivas teóricas:
 Teoria do Imperialismo  muitas vezes confundida como uma teoria política marxista
associada com a extrema-esquerda, esta teoria pertence, no entanto, a um historiador inglês
de 1900.

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Segundo o autor, o colonialismo deriva de uma tentativa para encontrar novos mercados de
investimento. Os mercados das potências encontravam-se já saturados. O colonialismo tornou-
se também um ponto de colocação de bens o que conduziu à sujeição económica de outros
povos em relação à expansão económica externa.
Juntaram-se os recursos de colónias e potências, o que criou condições desfavoráveis para as
potências enriquecendo o Império e empobrecendo as colónias.
Mesmo no período pós-colonial, os países industrializados continuaram a manter a liderança
económica dos mercados coloniais apesar de já existir uma independência política.
A perpetuação destes privilégios é considerada pelos apoiantes da teoria um neo-imperialismo.

 Teoria da Independência  criada nos anos 70, parte da base da teoria do Imperialismo.
Segundo esta teoria, os países mais desenvolvidos mantinham o 3º Mundo na sua
dependência. A natureza desta dependência variava consoante a colonialização.
A pobreza do apelidado 3º Mundo era o resultado directo da subordinação aos países
industrializados. As riquezas que se acumulam no 1º Mundo resultam da pobreza do 3º Mundo,
sendo estas variáveis as duas faces de uma mesma moeda.

 Teoria do Sistema Mundo  modelo mais prestigiado que foi adoptado pelo autor nacional
Boaventura Santos. Esta teoria foi criada por Immanuel Wallersein entre 74 e 80.
Nesta perspectiva, desde os Descobrimentos que estão em desenvolvimento conexões
económicas e politicas, a uma escala para além das fronteiras-nação. A teoria do sistema
mundo tem por génese esta época. Este sistema mundo é constituído por várias partes:
o Países centrais  aqueles que tomaram a dianteira com o processo industrial a que
mais tarde se juntaram outras economias (E.U.A. e Japão);
o Países semi-periféricos  sul da Europa; países que permaneceram economicamente
estagnados na sequencia da revolução industrial da Europa;
o Países periféricos  franjas do leste europeu que eram fornecedores de produtos
agrícolas ao centro europeu (após a revolução industrial);
o Arena externa  formada sobretudo pela África e Ásia bem como outras áreas que
permaneceram intocáveis. Até tempos recentes estes países permaneciam à margem
das relações económicas.
Hoje, já não existem zonas apelidadas de arena externa mas verifica-se um
engrossamento dos países periféricos.

Todas as teorias apresentadas, embora divergentes, consideram o colonialismo e as suas dependências


económicas como os fundadores das desigualdades. No entanto, há autores que discordam desta
perspectiva dizendo que não é rigoroso atribuir a riqueza dos países centrais a uma reacção causada
pela pobreza dos países de 3º mundo. Alguns investigadores deste âmbito defendem que os factores
que levam à constituição da riqueza dos países centrais têm que ver com situações internas como o
desenvolvimento da tecnologia e ainda a criatividade humana.

Para os críticos da teoria do Imperialismo, o melhor exemplo é o dos chamados dragões asiáticos 
pequenos países como a Coreia e Singapura que conseguiram sair da situação de subdesenvolvimento e
fazem agora parte de economias exportadoras desejáveis.

No entanto, todas as referidas teorias concentram-se exclusivamente em aspectos económicos,


deixando de fora as questões culturais.
Choques culturais que acontecem à escala global onde se verifica uma tendência para a
homogeneização e, por outro lado, uma desordem cultural.
É preciso ressaltar a importância deste aspecto cultural em falta nas análises.

A globalização é pensada como uma ameaça – a imposição de uma cultura única. No entanto, esta será
apenas uma tendência que deve ser desmistificada porque existem processos de reacção às formas de
homogeneização.
Um outro acontecimento inerente é o desenvolvimento de novas culturas transaccionais para além das
existentes: as 3ªs culturas.

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4.2 Mobilidade geográfica/ social e fluxos migratórios: factores de


atracção e repulsão. Dinâmicas de contacto: migrações, turismo,
trabalho, ensino, tecnologia. Emergência de identidades híbridas;
construções identitárias emergentes em contextos cosmopolitas.

Migração – fenómeno multifacetado, complexo, caracterizado pela mudança de biótopo por parte do
Ser Humano.
Migrantes – quem se deslocou de um território para outro.

Uma comunidade migrante não deve ser vista como um conjunto de pessoa que vieram do exterior mas
como uma comunidade bastante heterogénea.
Cada comunidade relaciona-se de forma diferente com as comunidades migrantes.

Fluxos Migratórios:

 Local de origem
 O que leva à migração
 Trajectos dos antepassados com vista a entender os objectivos dos migrantes.
 Estratégias dos migrantes, porque locais do pais de acolhimento se distribuem.

Estratégias de integração – Processo negocial feito em conjunto, não é a comunidade migrante que se
sobrepõe ao terreno de acolhimento nem a comunidade do terreno de acolhimento que vai anular os
princípios da comunidade migrante, se bem que, na maioria das vezes, se pode sobrepor. Esta estratégia
está, constantemente em aberto, enquanto existirem comunidades migrantes.
- Pré-requisito – contextualizar a comunidade migrante (em que país, em que contexto político, situação
económica e social…)

IDENTIDADES HÍBRIDAS

 Uma identidade assimila uma característica, adapta-a, transforma-a e cria assim uma nova
identidade, uma identidade híbrida. Esta não é mais do que o resultado do encontro de duas
culturas. Esta nova identidade não surge do somatório de duas culturas, apenas cria uma nova
identidade baseada em ambas.
 À semelhança de uma tese, quando confrontada com uma antítese, dá origem a uma nova tese
original, única, particular.
 Logo, nós que estamos inseridos numa cultura única, nascemos do encontro entre várias
culturas, como por exemplo a árabe, uma vez que a Península Ibérica foi fortemente
influenciada pelos muçulmanos.
 Actualmente são visíveis paradoxos, isto é, pessoas que assumem uma identidade num país
diferente, construindo deste modo uma nova identidade, evitando o confronto cultural.

- Nova cultura – não se pode ter como exclusiva mas sim como um pouco de tudo ao mesmo tempo.
- Diáspora – processo que permitiu romper com as fronteiras no sentido de que uma cultura não é
enraizada no território.

- Uma cultura não se circunscreve ao território e às suas fronteiras. Há um tráfego cada vez mais intenso
quer da cultura como de gente.
- É importante libertarmo-nos do essencialismo racial, o hibridismo não ameaça a pureza da raça, antes
transforma-a, tornando-a única.

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4.3 Fluxos de emigração e imigração: origens e destinos, redes de


solidariedade, processos de integração e modelos de representação
das comunidades. Multiculturalismo, ‘assimilações, aculturações’.
Análise do processo migratório em Portugal.

Uma das consequências da desigualdade económica entre os diferentes países é o estabelecimento de


correntes migratórias originadas por desequilíbrios económicos.

Região pobre de onde se pretende sair;


São 2 os pólos
intervenientes Região mais rica com maior abundância de empregos essencialmente e muitas
vezes com populações envelhecidas, para onde se pretende ir

As entradas de imigrantes são geralmente benéficas para o país de recepção:


 Representam a mão-de-obra em falta para determinados sectores;
 Tornam-se contribuintes, ajudando a equilibrar as contas e gerando verbas.

Estas correntes migratórias também suscitam alguns problemas nomeadamente relacionados com a
integração cultural que podem eclodir em focos de racismo e xenofobia (essencialmente quando
existem crises económicas nos países de acolhimento).

Estes fenómenos têm sempre um reflexo à escala global (mas também em relação a outras escalas).

Os processos de globalização estão sempre marcados por grandes mudanças sociais.


Na época contemporânea passamos a assistir a ritmos de mudança acelerados (uma característica do
mundo globalizado). As mudanças prendem-se com:
 Crescente envolvimento das sociedades  globalização das relações;
 Dependência de outros países / sociedades;
 Parcerias e investimentos entre outros países;
 Deslocalização económica (mudança de empresas para outros países onde se visa o corte de
despesas e o aumento de vantagens comerciais para as empresas);
 Liberalização do comercio que coloca os países expostos a uma concorrência mercantil
internacional.

São essencialmente estes aspectos económicos e outros políticos que fazem repensar o mundo como
um sistema social único.

MULTICULTURALISMO

 É um termo que descreve a existência de muitas culturas numa localidade, cidade ou país, sem
que uma delas predomine, separadas geograficamente, mas convivendo no que se
convencionou chamar de “mosaico cultural”, onde são estabelecidas fronteiras entre as
pessoas com princípios diferentes.
 É uma politica que parte de um pressuposto base: respeito pela especificidade cultural de cada
um.
 Contrariamente, a maioria dos países adoptou o monoculturalismo que pretende a assimilação
dos imigrantes e da sua cultura nos países de acolhimento. Exemplo disso é o Melting Pot, nos
Estados Unidos, onde as várias culturas estão misturadas sem a intervenção do Estado.

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 A política multiculturalista visa resistir à homogeneidade cultural, principalmente quando esta


homogeneidade é considerada única e legítima, submetendo outras culturas a particularismos
e dependência, sendo apoiada por minorias étnicas.
 A diversidade cultural e étnica muitas vezes é vista como uma ameaça para a identidade da
nação mas também pode ser encarada como um factor de enriquecimento e abertura de novas
e diversas possibilidades ao demonstrarem que o hibridismo e a maleabilidade das culturas são
factores positivos para o enriquecimento do individuo.

Heterogeneidade cultural dos migrantes e suas culturas – estas culturas são maioritariamente tocadas
tanto pela cultura de acolhimento como pelas outras existentes. Há novas regras, novos contextos,
novos ritmos, que contagiam as culturas.
Vai haver uma maior heterogeneidade porque cada fluxo específico vai ter uma adaptação, inserção
diferente.

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Tema 5: Visões do mundo e da cultura:


Ideologias, cosmologias, mitos e rituais. Espaços
e territórios.
5.1 Representação do mundo como uma produção partilhada e
experimentada colectivamente. O discurso ideológico da cosmologia e
o caso particular das cosmogonias. Correspondências entre
macrocosmos e microcosmos.

5.2 Os mitos como unidades discursivas que enunciam e reproduzem


as cosmologias. Mitos de origem e mitos de ordem. A análise dos mitos:
heróis, correspondências, estruturas.

Mito – História com um quê de verdade como factor fantasiador que ao ser herdado de geração em
geração, vai sendo enriquecido com novos factores.
 É ilusório, metafórico, fantástico, criativo.
 Não é cientificamente comprovado:
 Sinónimo de imaginação;
 Antónimo de experiência científica;
 O mito contribui para o reforço, união, solidariedade entre os povos, promovendo a coesão
social.
 É uma tentativa de dar resposta a questões que o Homem sempre se colocou.
 Serve para ensinar regras, condutas, estruturar a vida em colectivo, construir uma unidade em
torno de algo.

Corrente Estruturalista
 Na década de 70, surge nas escolas francesas a corrente estruturalista que propõe que
centremos a nossa análise no conteúdo da narrativa mítica.
 Devido à complexidade das narrativas, seria um disparate não ter em conta a sua riqueza para
compreender as especificidades culturais.
 Centra o seu trabalho na análise de conteúdos do mito, sendo um trabalho mais difícil, pois ao
não possuirmos as mesmas categorias culturais é complicado estudar os outros mitos.
 Estudar o conteúdo da narrativa é entender a estrutura a partir do qual a história é construída
e não a história em si.
 Não há narrativas universais, há apenas aquelas que são partilhadas por milhões de pessoas.
 Este argumento estruturalista, leva-nos a pensar que o seu conteúdo é importante para
compreender uma estrutura social.
 As nossas narrativas míticas fazem sentido no nosso contexto social. Ao pensarmos numa
narrativa temos de ter em conta a sua contextualização de modo a compreende-la e aceitá-la.

Corrente Funcionalista
 Centra o seu trabalho na função do mito e não no seu conteúdo.
 Encara os mitos como narrativas tradicionais.
 É uma narrativa acerca de deuses e heróis, acerca da origem do mundo, é uma narrativa
sagrada.

Narrativa Mítica – reflexão sobre a realidade que não é universal, é abstracta, não é científica, mas
permite-nos conhecer o mundo através da atribuição de significados.
 Pode fornecer informações fundamentais se tivermos em conta que cada povo tem
especificidades próprias na forma de pensar a realidade.

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 Na contemporaneidade, convivemos com o pensamento mítico e científico, encarando-os


como um pensamento legítimo, mas com bases diferentes.

Conteúdo da Narrativa – secundário, desde que seja eficaz no cumprimento da sua função: estabelecer
as normas e regras da união e agregação da nossa sociedade mesmo sabendo que a ciência responde a
várias questões.

 Antigamente a narrativa mítica era um demo do qual devíamos fugir (à semelhança do senso
comum).
 Actualmente é uma forma de conhecer a realidade que nos circunda;
 A antropologia vê o senso comum e mito como forma de reflectir e pensar na realidade, mas
parte de postulados, categorias, metodologias, diferentes;
 As narrativas vão sendo renovadas e criadas, acompanhando a evolução da sociedade, com o
objectivo de fomentar a coesão social, sobretudo perante situações complicadas, de crise, que
nos assustam;

Tipos de Narrativa Mítica

Cosmologia – conjunto de crenças e de conhecimentos que abrangem o universo natural e humano.


Características

 Síntese – apresenta uma visão global do mundo;


 Redutora – para fazer salientar (isola e ressalva) aspectos chave fundamentais para a visão do
mundo.
 Explicativa – tenta dar conta de questões acerca do que nos rodeia (sobretudo o transcendente
e o mito).

Cosmogonia – parte da cosmologia, o que não implica a sua integração nela necessariamente, pois
podem haver cosmogonias para além de cosmologias.
 Centra-se na criação do mundo, abordando também mitos fundadores.

5.3 O ritual como actualização dos mitos e das visões do mundo. A


eficácia do ritual. Rituais contemporâneos. Calendários festivos
(Comunidade/Individuo) e ritos de passagem (Individuo/Comunidade)

RITUAL

- Em antropologia, são comportamentos prescritos pelo social nos quais pouco interfere a nossa
vontade individual.
- Por serem comportamentos fortemente impostos pelo social, não implica que não sofram influências,
sendo que a sua transformação decorre do consenso colectivo.

- Actualmente, determinados comportamentos têm perdido visibilidade nas sociedades


contemporâneas;
- Apesar de pouco interferirmos, o Homem não é obrigado a participar em todos os rituais (casamento,
baptismo…);

- Na contemporaneidade, os rituais continuam a ser determinados pelo colectivo, na generalidade. No


entanto, há uma maior negociação com o ritual.

Exemplo:
 Praxes Académicas, têm elementos próprios e estruturais que se multiplicaram no espaço, mas
no social caracteriza-se do mesmo modo. Perante isto, um indivíduo só poderá alterar o que
está pré – estabelecido após consenso do colectivo.

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Aproveitando o exemplo, é de salientar que o ritual da praxe é eficaz, uma vez que contribui
para a união e incorporação dos alunos na nova instituição de ensino.

Os rituais marcam momentos específicos da vida de cada indivíduo (ritual de celebração do baptismo,
casamento, morte, etc.). Actualmente estes rituais assumem formas diferentes de outrora, mas não
deixam de existir com legados do passado.

Rituais Base do Estudo da Antropologia


Passagem
Festividades
Curativos

Tipos de Rituais de Passagem


Rituais que acompanham o movimento/ passagem de:
▪ Uma categoria social para outra;
▪ Um espaço geográfico para outro;
▪ Um estágio de vida para outro;
▪ Uma colectividade social para outra;

Exemplos de Rituais de Passagem:

O baptismo é supostamente numa idade precoce, sendo o seu ritual estipulado pela igreja católica,
usando uma vela, padre, padrinho, madrinha como elementos indispensáveis.
Este é um ritual de entrada, de mudança de estatuto, assinalando a entrada num novo colectivo.
O baptismo é um ritualizado todos os anos sob a forma de aniversários, mesmo após a nossa morte.

Esta passagem é feita com uma festa, um bolo com velas igual ao nº de anos do indivíduo, amigos,
família, comida, bebida, oferendas.
Parte destes elementos que integram a celebração do aniversário, estão presentes noutros rituais,
noutras culturas. Esses elementos são fulcrais para a criação e recriação do ritual.

A maioridade, marca a entrada na vida adulta, consistindo num ritual de passagem. Contudo, para a
antropologia, adulto é todo aquele que entra para o mercado de trabalho contribuindo para o colectivo.

A mudança marital é sempre celebrada, independentemente de se tratar de uma união de facto ou na


Igreja. Consiste numa mudança de categoria social. O casamento é ritualizado através de uma festa cuja
modalidade já não é rígida. No entanto, há um conjunto de elementos que se mantém fiéis a este ritual,
que marca uma data fundamental na vida das pessoas.

A morte é um ritual fixo, rígido, na cultura portuguesa, organizando-se segundo os princípios católicos.
No entanto, todas as culturas o celebram, caso contrário são “punidas” socialmente. É um ritual
fundamental e que é respeitado ao extremo. É um ritual de passagem entre uma situação e outra.
Exemplo da importância da cerimónia fúnebre é, quando ocorre uma tragédia (tsunami, atentados
terroristas, acidentes aviação), o colectivo faz grandes esforços para recuperar os corpos de modo a que
as famílias possam ritualizar o óbito dos seus entes.

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Tema 6: O circuito da economia e da cultura:


produção, distribuição e consumo. Sistemas de
troca e solidariedade
6.1 A vida social dos objectos. Objectos e rituais. Significado cultural
dos objectos. Produção, consumo e cultura dos consumidores.
Consumo
Fenómeno tanto económico como cultural;
O consumo tornou-se num processo de classificação e diferenciação numa hierarquia social;

Objecto de estudo do consumo


 Relação das pessoas com o objecto, sendo este significativo para o conhecimento de uma cultura;

Objecto
 Os objectos são uma forma de distinção entre grupos;
 A especificidade cultural de um grupo transmite-se para o objecto e este torna-se embaixador
dessa especificidade;
 Logo, os objectos só fazem sentido dentro do contexto em que são produzidos;
 Eles têm simbolismo, estabelecendo uma comunicação não-verbal;
 -Os objectos são mais do que o material de que são feitos:
▪ Têm um significado que nos lhes atribuímos;
▪ Têm um significado na vida social, que evolui ao longo do tempo;
 Os objectos não podem ser tidos como marcadores da identidade social, pois não são fixos/
rígidos, evoluindo, ganhando ou perdendo significado;
 Os objectos têm muito peso nos indivíduos (se nos roubarem um pertence significativo,
sentimo-nos lesados e o sentimento de perda é doloroso);

 Com o capitalismo, de objectos manufacturados passámos a ter objectos massificados;


 As sociedades ditas desenvolvidas têm uma relação com os produtos que circulam no mercado,
consumindo-os sim, mas não por necessidade, mas por razões supérfluas;
 O facto de não organizarmos as nossas práticas de consumo a partir de princípios de
subsistência, não significa que consumamos unicamente por “desporto” ou fruição; No
entanto, fazemo-lo cada vez mais pelo prazer que o acto nos proporciona;
 As pessoas não sabem os componentes, a origem dos produtos, limitam-se a usufruir das suas
potencialidades;
 Os objectos podem não responder a uma necessidade básica, mas respondem a uma
necessidade de comunicação, pois ao consumirmos um objecto, este ajuda-nos a reforçar a
nossa identidade, sobretudo face aos outros;
 Na sociedade contemporânea, as escolhas que se fazem, enquanto consumidor, fornecem
elementos que permitem caracterizar a identidade pessoal;
 Muitas vezes, consumimos por razões de ordem social, nomeadamente para copiar as elites
(classes mais altas)  como forma de manutenção numa classe ou ascensão a outra;
 Os objectos são “manipulados” pelo seu consumidor, de forma a marcar o seu posicionamento
social, delineando a sua integração num grupo específico;

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6.2 Consumos e identidade. Estilos de vida e contextos de consumo.


Como comunica o objecto?
 Género;
 Grupo de pertença;
 Gostos;
 Ajuda os outros a reconhecerem-nos como membros de um grupo;

Os objectos têm uma dimensão expressiva simbólica sendo que nos relacionamos com estes,
construindo o nosso projecto de identidade;

Como nos ajudam os objectos a construir a nossa identidade?


Através da significação dos objectos que o indivíduo possui, está a espelhar aos outros o que de certo
modo é, enquanto pessoa, daí construirmos rapidamente uma leitura acerca dos outros a partir do que
usam e têm;

Muitas vezes a relação com o objecto é estratégica do ponto de vista social, fazendo os outros terem
uma imagem de nós que não corresponde à realidade;
Desta forma, são demarcadas estratégias de distinção e identificação social;

O que nos leva/contribui a consumir?


 As elites exercem “pressão” levando-nos a utilizar os mesmos produtos;
 Aumento dos espaços de consumo (centros comerciais, etc. …);
 Facilidade do acesso ao crédito;
 O papel da publicidade, havendo uma maior preocupação com a aparência dos produtos;
 Sentimentos de perda, leva-nos a consumir, como forma de atenuar/ reparar a dor;

6.3 Trocas e solidariedade. Obrigação de dar, receber e retribuir.


Circulação de bens ou serviços e circulação inversa de prestígio. Troca
generalizada, equilibrada e negativa. Reciprocidade na comunidade e
na família, no grupo doméstico e no agregado familiar.

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