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Intervenção Psicológica em
uma Unidade de Transplante
Renal de um Hospital
Universitário

Psychological assistance of the renal transplantation


departament at a university hospital

Maria Lúcia
Pinheiro Garcia,
Universidade Estadual do Ceará

Ângela Maria
Alves e Souza
Universidade Federal do Ceará

Teresa Cristina Holanda


Hospital Universitário Walter
Cantídio, da Universidade
Federal do Ceará
Experiência

PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2005, 25 (3), 472-483


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PROFISSÃO, 2005, 25 (3), 472-483
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Resumo: Este artigo relata um caso acompanhado no ambulatório de pré-transplante e na unidade
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de transplante renal de um hospital universitário, pela
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psicóloga vinculada ao projeto de Extensão
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de Capacitação em Psicologia Hospitalar pela12345678
Universidade Federal do Ceará. Utilizamos, como
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suporte teórico, a abordagem sistêmica e a técnica
12345678 de psicoterapia breve, focalizando doença,
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internação e alta. Observamos que o processo12345678
de receber e de doar, no transplante renal, perpassa
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pela dinâmica individual do doador, do receptor e da família, ativando conflitos inconscientes que
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influenciam na decisão e no equilíbrio emocional do paciente.
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Palavras-chave: transplante renal, assistência12345678
psicológica,
12345678 apoio, psicoterapia breve.
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Abstract:This present paper is a case report from the pre-transplantation out-patient service of the
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renal transplantation department at a university hospital in Northeastern Brazil, followed by a
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psychologist, as part of a training program in12345678
Hospital Psychology by the Federal University of
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Ceará. The theoretical framework included systemic
12345678 approach and brief psychotherapy and was
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focused on disease, hospitalization and discharge.
12345678In renal transplantation, it was observed that
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the process of donating and receiving involved the individual dynamics of donor, recipient and
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family, activating unconscious conflicts capable of affecting the patient’s decision-making ability
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and emotional balance. 12345678
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Key words: renal transplantation, psychological assistance, support, brief psychotherapy.
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Em janeiro de 2000, a primeira autora foi Unidade de Transplante Renal do Hospital
selecionada para atuar como extensionista no Universitário. Em seguida, discorreremos sobre
Projeto de Extensão de Capacitação em um estudo de caso com o objetivo de mostrar
Psicologia Hospitalar pela Universidade os diferentes focos das intervenções
Federal do Ceará, supervisionado pela psicológicas realizadas durante o
psicóloga chefe (terceira autora) do Serviço acompanhamento, que respondeu aos
de Psicologia do Hospital Universitário Walter
diferentes momentos existenciais surgidos no
Cantídio (HUWC). O Projeto de Extensão de
ambulatório de pré-transplante, na enfermaria
Capacitação Hospitalar tinha como objetivo
e no ambulatório de pós-transplante, no total
desenvolver o Programa de Assistência
Psicológica (PAP) na Unidade de Transplante de quinze atendimentos, correspondente à
Renal. O PAP visava ao atendimento às duração do processo de transplante, ou seja,
pessoas com deficiência renal em qualquer da primeira consulta médica à alta, de junho a
estádio do tratamento - na avaliação e dezembro de 2000. O tempo cronológico,
acompanhamento psicológico para dar início portanto, correspondeu às exigências
aos exames pré-transplante ou na enfermaria, institucionais, um dos fatores importantes a
por qualquer tipo de intercorrência pré e/ou ser considerado para a atuação do psicólogo
pós-transplante. em um hospital, o que, no entanto, não o
impossibilita de realizar um trabalho
Neste estudo, faremos algumas considerações
satisfatório. Selecionamos oito atendimentos
sobre o papel do psicólogo na instituição
que ilustram o contexto psicológico pelos quais
hospitalar e apresentaremos a abordagem
teórica, os recursos técnicos utilizados e a passaram o doador, o receptor e a família,
descrição das atividades desenvolvidas na inseridos na sua realidade social.
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Intervenção Psicológica em uma Unidade de Transplante Renal de um Hospital Universitário

A escolha desse caso correspondeu ao principalmente durante a primeira consulta,


interesse da psicóloga, primeira autora, em pois a quantidade de informações e
investigar a dimensão relacional familiar no esclarecimentos realizados tanto pelo médico
contexto de transplante com doador vivo. como pela enfermeira ocasionava uma
mobilização emocional em que o paciente
O psicólogo na instituição tinha a oportunidade de integrar mencionadas
hospitalar informações ao atendimento psicológico.
Quando, após a avaliação psicológica, o
Segundo Angerami (1997), quando estamos acompanhamento se fazia necessário, este era
inseridos no âmbito hospitalar, estamos realizado nesse mesmo local.
diretamente determinados por limites
institucionais, pela instituição em si – o Antes da primeira entrevista psicológica, o
hospital –, caracterizado por normas, rotinas, paciente tem um contato com a enfermeira
condutas específicas, dinâmicas que devem que lhe dá as orientações quanto aos exames
ser respeitadas e seguidas, limitando as nossas a serem realizados e quanto ao transplante -
possibilidades de atuação. duração, procedimento, anestesia, possíveis
complicações -, além de particularizar a
No HUWC, interagimos com a equipe de necessidade e o objetivo dos exames indicados.
saúde, adequando nossas ações e Também discorre sobre a importância das
estabelecendo fluxos de comunicação, em consultas pós-transplante e as vantagens e
virtude da necessidade de dar múltiplos desvantagens do transplante e limitações na
enfoques para o mesmo problema, pois, além vida do transplantado.
da demanda vir de várias direções - do
paciente, da família, da equipe -, a delimitação O preparo psicológico para o transplante é
do tempo interfere diretamente na prática do necessário porque as reações são as mais
psicólogo pela grande rotatividade dos leitos, diversas possíveis e dependem da significação
pela gravidade da doença, dentre outras. No que o paciente dá ao órgão substituído, suas
caso de atendimento na enfermaria, experiências, preparo para adaptar-se às novas
utilizamos técnicas que possibilitaram o condições de vida, ao conhecimento real ou
atendimento emergencial e focal, e, no caso fantasioso do que está acontecendo, dentre
de atendimento ambulatorial, tentamos outras variáveis.
marcar o retorno para acompanhamento
psicológico, associado ao retorno médico Lidamos com um paciente que apresenta
porque, em algumas intervenções de sofrimento psíquico sobreposto ao sofrimento
esclarecimento, é necessária a sua presença, físico. É necessário entendê-lo na sua
além de levar também em consideração as totalidade, num contexto de mal-estar, de
dificuldades financeiras e a localização seqüelas do tratamento, de hospitalização
residencial do paciente. Observamos, (Chiattone, 2000). No HUWC, levamos em
também, o tempo (seis meses) de que o consideração o momento do indivíduo e todas
paciente dispunha para os exames físicos e as características da situação especial e crítica
psicológicos para dar entrada na fila de doação da deficiência, do transplante, hospitalização
de rim. e reabilitação: é a esse momento de crise na
história da pessoa que nos atemos. No
O ambulatório de pré-transplante do HUWC atendimento hospitalar, o paciente não faz uma
segue uma rotina iniciada pelo escolha para ser atendido como acontece
acompanhamento do médico, da enfermeira quando do tratamento clínico tradicional, uma
e da psicóloga. Esse atendimento vez que é a equipe de saúde que faz a
multiprofissional se mostrou vantajoso, indicação. Precisamos estar atentos ao manuseio

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das intervenções para que, à condição do padronização e organização circular indica que
paciente, não sejam acrescentados medos e nenhum evento ou parte de um
ansiedades. comportamento causa outro, e, sim, que cada
um está ligado, de maneira circular, a muitos
Os recursos teóricos utilizados podem ser outros eventos e partes de comportamentos.
determinantes para a condução do processo Ao longo do tempo, os padrões constantes
terapêutico, visto ter o contexto hospitalar suas funcionam para equilibrar a família. O papel
peculiaridades. O psicólogo hospitalar se do terapeuta é identificar esses
diferencia muito do psicólogo clínico, porque comportamentos, inclusive o sintoma e sua
atuar nesse contexto é estar atento a todas as função dentro do sistema (Papp, 1992).
relações que o paciente desenvolve com a
equipe multiprofissional, com ele mesmo e Satir (1988) enfatiza a importância da
comunicação no comportamento interacional
com a família, dentro de uma fragilidade física.
e postula a idéia de que a doença familiar é
É nessa teia relacional que as intervenções são
derivada de métodos inadequados de
realizadas e acontecem em um espaço de
comunicação entre os membros da família.
tempo muito breve, enquanto o paciente está
Os membros de famílias funcionais se
no contexto hospitalar.
manifestam com clareza, deixando aparecer
abertamente o que pensam e sentem; tratam
Recursos utilizados para as a presença das diferenças mais como As famílias
intervenções - abordagem oportunidades de aprender e crescer do que
funcionais
empregam
sistêmica familiar, teoria de como ameaça ou sinal de conflito. efetivamente seus
recursos para
crise e técnica de psicoterapia As famílias funcionais empregam efetivamente solucionar os
breve de apoio seus recursos para solucionar os problemas do problemas do
grupo familiar; ao
grupo familiar; ao mesmo tempo, preocupam- mesmo tempo,
Para a leitura e o manejo dos conflitos que se com as necessidades emocionais de cada preocupam-se
emergiram nesse caso, foi buscado apoio na membro. com as
necessidades
literatura, por intermédio dos autores Minuchin emocionais de
(1982), Papp (1992) e Satir (1988), que Para Minuchin (1982), a estrutura familiar é cada membro.
desvelam as relações na abordagem sistêmica um conjunto invisível de exigências funcionais
familiar. Foram utilizadas, também, a teoria que organiza as maneiras pelas quais os
de crise de Caplan (1960) e a técnica de membros da família interagem. A origem
dessas expectativas está mergulhada em anos
psicoterapia breve de apoio (PBA).
de negociação explícita e implícita entre os
membros da família, freqüentemente, em
Para Papp (1992), “...o que é assinalado por
torno de pequenos eventos do cotidiano.
teoria dos sistemas, em terapia familiar, é uma
Assim, o sistema oferece resistência à
imprecisa série interligada de conceitos
mudança. Quando surgem situações de
enraizados na teoria geral dos sistemas e na desequilíbrio no sistema, é comum que os
cibernética” (p. 22). membros da família façam reivindicações de
lealdade familiar e manobras que induzem
Os conceitos-chave do pensamento sistêmico culpa. O que se espera de normalidade é que
têm estreita relação com a totalidade, a a família se adeque às mudanças internas e
organização e a padronização. As idéias centrais externas, adaptando-se às novas circunstâncias
dessa teoria são as de que o todo é sem perder a continuidade.
considerado maior do que a soma de suas
partes. Uma mudança em qualquer uma das Caplan (1960) define crise como um estado
partes altera as outras e o todo se regula para de perturbação, usualmente associado a
manter o sistema equilibrado. O conceito da sentimentos de desconforto, tais como
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angústia, medo, culpa ou vergonha, que ocorre Algumas das principais intervenções empregadas
quando o indivíduo é exposto a um problema na técnica da PBA são: sugestão, controle ativo,
insuperável pelos seus meios habituais de reasseguramento, aconselhamento, ventilação
solução, durante um certo tempo, e outros (desabafo), educação, clarificação, confrontação
métodos não lhe parecem disponíveis. (Cordioli, 1993).

Os critérios para alta são: indicação de que o


A técnica de PBA, já definida para o
paciente diminuiu a ansiedade, melhorou os
desenvolvimento do Programa de Apoio
sintomas perturbadores, apresenta relativa
Psicológico, é também um recurso utilizado
compreensão interna das fontes de ansiedade
na abordagem sistêmica familiar para
e/ou de conflitos e mecanismos de defesa
operacionalizar o planejamento das sessões inadequados, aumento na capacidade de
porque possibilita promover, no menor tempo tolerar frustrações; aumento da capacidade de
possível, a elaboração de mudanças, auto-observação, dentre outros.
conscientização de situações inconscientes e
modificações de condutas dentro de pontos Descrição da intervenção
de urgência previamente selecionados no
psicológica na unidade de
momento da entrevista admissional
(Lemgruber, 1997). No contexto da assistência
transplante renal - ambulatório
psicológica hospitalar no qual se inscreve este de pré-transplante, enfermaria
estudo, os pontos de urgência previamente e ambulatório de pós-
selecionados foram a doença, a internação e transplante
o tratamento.
O paciente renal crônico (PRC) tem seis meses
Gouvêa (2000) denomina psicoterapia breve para realizar exames físicos e psicológicos para
de apoio uma forma de tratamento que utiliza dar entrada na lista de espera de doador de
medidas diretas para manter ou restabelecer rim, quando sua escolha é aguardar um rim
o funcionamento anterior do paciente por de cadáver. Na situação de doador vivo, a
meio da melhora ou supressão dos sintomas, avaliação psicológica inclui o receptor e o
e para manter, restaurar ou aumentar a auto- doador do rim. O acompanhamento
estima, visando a um aumento do nível de psicológico é realizado com todos os envolvidos
funcionamento do paciente, levando-o a ter no processo emocional: doador, receptor e
o controle de estratégias para lidar com suas família.
dificuldades. O principal foco da PBA são as
Na situação de doador-cadáver, este precisa
circunstâncias atuais de vida do paciente.
ser de uma pessoa que estava em estado
saudável até antes da morrer, de preferência
Para Chiatonne (2000), a psicoterapia de apoio
jovem e com os órgãos em condições de
também é indicada a pacientes que passam
doação.
por sobrecarga emocional crônica, como
processos orgânicos irreversíveis ou incuráveis. O doador vivo ideal é aquele espontâneo, que
Em ambos os casos, a tarefa no hospital não é alvo de pressão de nenhuma ordem. É
objetiva, fundamentalmente, auxiliá-lo a importante levar isso em consideração, pois,
atravessar o período crítico em que se muitas vezes, a doação é feita como forma de
encontra, determinado pelo processo de o doador expiar alguma culpa, sentir-se
doença e hospitalização, permitindo-lhe buscar compensado por ajudar alguém ou como fuga
a elaboração e integração subjetiva dos para satisfazer a incapacidade de resolver seus
acontecimentos. problemas (Uryn, 1992).

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A entrevista psicológica com o doador tem o paciente renal, possibilitar apreender suas
objetivo de investigar os sentimentos e as vivências, facilitar a elaboração do seu
fantasias quanto à doação, esclarecer quanto momento atual.
ao processo cirúrgico e recuperação e prepará-
lo para uma possível rejeição do rim por parte Na entrevista psicológica com a família, é
do receptor. observado se há alguma alteração na sua
dinâmica frente à deficiência do paciente, pois
A primeira entrevista psicológica com o isso pode ser fator de apoio ou de dificuldade
receptor tem por objetivo conhecer a na reabilitação deste. No estudo de caso a
motivação do paciente e suas expectativas seguir, foi observado que a comunidade se
relacionadas ao transplante, auxiliando-o a mobilizou emocionalmente e que isso
clarificar as fantasias relativas ao transplante e repercutiu nos conflitos do paciente diante da
a sua deficiência renal. Analisa também suas doação.
emoções e a percepção que tem de si após o
diagnóstico da deficiência; examina, ainda, os Segundo Angerami (1996), quando a família
esclarecimentos procedidos, tanto pelo médico tem ganhos secundários com a patologia,
como pela enfermeira, relativos ao processo poderá querer manter o status quo da doença,
cirúrgico e cuidado pós-transplante, checando, dificultando a reabilitação do paciente. Outra
a partir do seu discurso e suas manifestações possibilidade é se estruturar de forma que
emocionais, se as informações e orientações apóie o paciente na sua reabilitação. A
foram efetivamente compreendidas. O ocorrência de uma ou de outra situação vai
objetivo é possibilitar a diminuição da depender da forma como a família se
ansiedade diante do processo cirúrgico, mas estruturou em suas relações. A atitude que o
o que acontece, muitas vezes, é a paciente tem diante da doença e dos que o
manifestação de sentimentos e fantasias rodeiam também influencia. Fongaro &
latentes relativos à rejeição da deficiência renal Angerami (1996) citam dois tipos de
e ao tratamento de hemodiálise. É a primeira tendências nas quais o indivíduo se posiciona
oportunidade que o paciente está tendo para em relação à valoração da própria vida: postura
entrar em contato com a carga de sofrimento de necrofilia (morte) ou biofilia (vida), que
diante de todo o seu tratamento. Faz-se mister dificultam ou potencializam a recuperação
oferecer a possibilidade de confronto do quando associadas à estrutura egóica.
paciente com sua angústia e seu sofrimento
diante de sua deficiência, buscando superá- A entrevista psicológica com a família (mãe e
la, para que ele possa integrar as fantasias a irmã) tem como objetivos: investigar as
atribuídas ao transplante renal com a realidade mudanças ocorridas no cotidiano após o
do tratamento. problema renal, tomar conhecimento das
reações da família ante o problema renal e o
O psicólogo hospitalar, junto ao paciente transplante, saber quais restrições o paciente
crônico, procurará compreender o indivíduo sofreu com o problema renal e quais as
na sua dinâmica existencial, pois, segundo vantagens (se houver) em tê-las; saber se existe
Santos e Sebastiani (1996), ser portador de conhecimento e fantasias a respeito do
doença crônica ocasiona problemas, angústia processo cirúrgico e cuidados pós-operatórios;
em nível existencial, tanto para o paciente observar o interesse da família na realização
como para seus componentes familiares. do transplante.
Dependendo dos procedimentos e contatos
com a equipe multiprofissional, é modificada A intervenção psicológica na enfermaria, de
toda uma estrutura de vida pessoal e familiar. uma forma geral, ocorre diante de solicitação
A atuação do psicólogo, no HUWC, visa a médica ou por necessidade observada pelo
aprofundar o significado da experiência do próprio psicólogo. Os focos das intervenções
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são bastante diferenciados, pois, nesse local, As intervenções com a equipe multiprofissional
estão os pacientes em recuperação pós-cirúrgica, têm como objetivo a discussão de casos de
os pós - transplantados que apresentam alguma acordo com a necessidade da equipe, discussão
intercorrência e os que ainda não realizaram o de atitudes na relação médico-paciente se o
transplante, mas necessitam de algum cuidado foco for a doença. Independentemente do foco
médico. – alta, óbito – internação, a atuação se dá na
facilitação do vínculo médico-família, para
Com os pacientes pós-cirúrgicos, a intervenção esclarecimento à família acerca de
procedimentos relacionados ao paciente.
psicológica tem objetivos diferentes, de
acordo com o foco. Se este for a alta
hospitalar, é dado apoio para a reabilitação do
Estudo de caso
paciente e retorno ao ambiente familiar,
Dados de identificação
possibilitando o afloramento de conteúdos
emocionais, com o objetivo de reduzir a
L.A.S, do sexo feminino, procedente de
ansiedade gerada diante de possíveis perdas; Mossoró/RN, é o 5ª rebento de uma prole de
no caso do foco na doença deficiência renal, oito (idades: 30 , 29, 28, 24, 22, 21, 20, 18
deve-se clarificar alguma fantasia relacionada anos). Nasceu em 23.08.78. Fez transplante
à deficiência e recuperação, auxiliar na com doador vivo, o irmão, dois anos mais novo.
desvinculação da hemodiálise praticada
regularmente antes do transplante, Metodologia
estimulando a continuidade do tratamento;
se houver óbito, é favorecido o apoio à família O foco para esse estudo de caso foi o processo
diante da perda do ente querido e o apoio à emocional pelo qual passou o paciente renal
equipe de saúde diante desse momento. crônico diante do transplante: ela, o doador e
Quando o foco está em torno da internação, a família.
o psicólogo estuda a implicação emocional,
na família, decorrente da hospitalização do Para descrição do caso, são utilizados nomes
paciente, esclarecendo sobre a sua situação , fictícios para o doador, o receptor e seus
suas possibilidades e limitações. familiares, respeitando o anonimato: Maria é
a receptora, José é o doador, a mãe de Maria
As intervenções com a família, focalizando a é Clara, e sua irmã é Júlia.
alta parcial, acontecem com a investigação de
O acompanhamento psicológico foi iniciado
medos, fantasias, concepções errôneas da
no ambulatório de pré-transplante, ou seja,
deficiência, relação de dependência e
antes da cirurgia, e continuado na enfermaria,
sofrimento que envolvem o doente e a família,
após o transplante.
com esclarecimento sobre as condições
necessárias para o restabelecimento físico e Os atendimentos ocorreram da seguinte
emocional do paciente. forma:

Com os pacientes pré e pós-transplantados ● individual - realizado no início do processo,


que estão na enfermaria, a intervenção com Maria (receptora) e José (doador), para
direciona-se para os pontos de urgência, que investigar melhor os conflitos como também
são as repercussões emocionais no processo para a elaboração das emoções e expectativas
de transplante (especialmente se paciente mútuas diante do processo da doação/
pré-transplante), investigando a mobilização recepção;
emocional para recuperação e incentivo ao
paciente. ● em dupla com José e Maria - quando ficou

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explícito o conflito entre eles, momento em Segundo Chiattone, 2000, a atuação do


que foi focalizada para Maria e José a psicólogo hospitalar está diretamente
importância de serem expostas suas dúvidas, determinada por limites institucionais, pela
angústias, expectativas e fantasias, um diante instituição em si – o hospital –, caracterizada
do outro, relativas à doação e ao pós- por regras, rotinas, condutas específicas,
transplante; dinâmicas que devem ser respeitadas e
seguidas, limitando as possibilidades de
● a família (mãe e irmã) - no dia anterior ao atuação do profissional.
transplante, com esclarecimentos e facilitando
a elaboração das fantasias relativas ao processo A seguir, é relatado o processo emocional dos
do transplante e às limitações e autonomia do envolvidos - doador, receptor, família,
paciente renal crônico. representada pela mãe e irmã - no processo
de doação.
Descrição e análise do caso
Processo emocional de Maria,
No estudo de caso descrito adiante, as de José , de Clara e Júlia
intervenções com a paciente na enfermaria
focalizaram a continuidade do tratamento. A alta Primeiro atendimento psicológico: Maria, que
foi focada tanto com a paciente como com a saíra há pouco tempo da consulta com o
família, representada pela mãe e a irmã. médico e havia recebido as orientações da
enfermeira, apresentou-se com fantasias de
O atendimento à família já era uma demanda cura diante do transplante renal e forte rejeição
da paciente surgida durante o seu à hemodiálise. Foram feitos esclarecimentos
acompanhamento pré-transplante, pois esta sobre as limitações e possibilidades do
percebia o quanto a mãe se culpava diante da transplante, com o objetivo de auxiliar Maria
sua deficiência renal, sendo que esse fato a elaborar suas fantasias.
dificultava a relação entre ambas.
Segundo Chiattone, no hospital, a capacidade
Os atendimentos descritos serão o de antecipação do psicólogo hospitalar ao A intervenção é
1°,4°,6°,7°,10°,11°,14°,15°. Em sua maioria, foram paciente reflete a coerência dessa prática, norteada pela
realizados com o receptor e doador, com dentro de uma lógica pautada pela prevenção terapia breve e/ou
exceção do 4° atendimento, efetivado somente de emergência,
do sofrimento psíquico. Além disso, segundo
de apoio e suporte
com José, e o 10° atendimento, desenvolvido as normas fundamentais da prevenção, quanto ao paciente,
com Clara (mãe) e Júlia (irmã). mais precoce for a intervenção, menores as considerando-se o
Os atendimentos psicológicos (até o 10° momento de crise
possibilidades de agravamento e maiores as
vivenciada pelo
atendimento) ocorreram no ambulatório de pré- expectativas de recuperação psíquica dos indivíduo na
transplante, no mesmo horário do atendimento pacientes.(...) A intervenção é norteada pela situação especial
médico e das orientações de enfermagem. O terapia breve e/ou de emergência, de apoio e e crítica de
doença e
11° atendimento aconteceu na enfermaria, após suporte ao paciente, considerando-se o hospitalização.
o transplante. O 14° e o 15° foram realizados no momento de crise vivenciada pelo indivíduo
ambulatório pós-transplante. na situação especial e crítica de doença e
hospitalização.
A periodicidade dos atendimentos psicológicos
foi variada. No início, ocorreu um atendimento No caso, foi expressa a disponibilidade do
por mês, coincidindo com os retornos à consulta acompanhamento psicológico e ela o aceitou.
médica, aumentando para um atendimento Logo em seguida, foi realizada a entrevista com
semanal quando despontou a crise relacional José, que se apresentou otimista e decidido
com o doador e até o momento do transplante. na sua posição de doador.
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Quarto atendimento psicológico: José, que se submeter às vontades de José, de ser


apresentou tranqüilo no início dos controlada por ele, ficar em dívida eterna com
atendimentos individuais, decidido diante da o irmão pelo fato de ter recebido seu rim.
doação, com total apoio e incentivo da família José sempre foi agressivo com ela e acha que
e da comunidade para tal, dando apoio ele vai querer controlá-la pelo fato de doar o
psicológico à irmã, começou a indicar sinais rim, e não quer isso para a vida dela. Está
de conflitos com ela. Esses conflitos haviam recebendo pressão familiar como de toda a
sido sinalizados pela irmã em seus sua cidade, para aceitar o rim do irmão; sua
atendimentos individuais. Disse que a razão vida está pública, e todos exigem que seja grata
é a rejeição que a irmã tem por ele desde pela atitude do irmão. Está chateada com essa
criança. Acha-a “mal-agradecida”, orgulhosa cobrança. Está pensando que o irmão quer doar
e prepotente por não aceitar o seu rim. Não porque a mãe não tem condições de mantê-
aceitar seu rim é rejeitá-lo como irmão. la em Fortaleza fazendo hemodiálise. Tem
medo de decepcionar a família se não aceitar
Sexto atendimento psicológico: Maria se a doação. Repete que Clara se sente culpada
apresentou confusa e em dúvida quanto ao por Maria ter adoecido aos 12 anos. Maria está
transplante. Não sabe se o fato de ter pensando em continuar na hemodiálise e
conhecido uma budista - que disse que sua esperar um rim-cadáver, mas tem medo
deficiência era um castigo por seus pecados quanto ao percentual de rejeição, caso receba
nessa ou em vida anterior - levou-a a ter a um rim-cadáver. Sente-se desamparada e
fantasia de ter provocado a deficiência renal desencorajada a conversar com José sobre sua
e a sentir-se culpada: um aviso para não fazer decisão.
a cirurgia. Foi-lhe esclarecido quanto à origem
e ao processo da deficiência renal crônica, A intervenção estimulou ambos ao confronto
auxiliada pela nefrologista que se encontrava de suas expectativas e à clareza das emoções
no ambulatório. diante dos conflitos em virtude da doação/
recepção do rim, haja vista que José também
Maria disse que, durante a semana, fica já havia manifestado seus sentimentos em
confusa com o que ouviu e se organiza durante sessão individual anterior. Após escutar José
o atendimento. “ Quando estou mal, não novamente, em separado, o momento seguinte
consigo ver as coisas boas que digo ter e que foi o do atendimento com ambos, pois José
você confirma. Fico dizendo a mim mesma também demonstrou a necessidade de se abrir
que estou mentindo e me enganando, como com Maria. Foi possibilitado o confronto entre
cheguei hoje aqui. E, depois, que fico menos os dois diante de suas defesas, valorizando as
confusa, aí essa idéia passa e me vejo mais funções egóicas individuais; criou-se um apoio
capaz, menos ruim, mais madura”. mais adequado para lidar com o momento. O
resultado foi considerado positivo.
Sétimo atendimento psicológico - com José e
Maria: Maria chegou confusa diante de várias Watzlawick (1999) enfatiza que toda relação
situações que a perturbavam. Expressou que é comunicação. É impossível não comunicar.
estava com medo de se abrir para a psicóloga, Os membros da família se interligam, se
com receio de que suas afirmações fossem relacionam, influenciam e são influenciados
entendidas pela profissional como uma através das relações que mantêm entre si.
negativa do transplante. Os conflitos
cotidianos com José estão exacerbados, Décimo atendimento psicológico - com a
levando a paciente a apresentar dúvidas família - Clara e Júlia estavam presentes para
quanto ao transplante com doador vivo. Está acompanhar a internação pós-transplante. A
com medo de perder sua autonomia, de se paciente e o irmão haviam adiantado a

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dificuldade da mãe em aceitar a deficiência atitude materna lhe passa a sensação de


renal. inutilidade. Sente que as pessoas de sua cidade
lhe cobram um reconhecimento pelo apoio que
Segundo Campos (1995), quando a doença deram através de orações e esperança. Essa
se instala no indivíduo, muitas vezes, em cobrança lhe dá a sensação de estar sendo
conseqüência, surge um desajustamento do ingrata para com todos.
grupo familiar, tornando-se necessário o apoio
psicológico aos membros da família.(...) O Além do medo de perder o rim, tem vários
psicólogo ajudará a família, conscientizando-a outros: de não conseguir retomar sua vida,
da real situação do doente e da necessidade principalmente retornando para casa, onde a
de tratamento e hospitalização. Os vários família inteira vai “ sufocá-la”, superprotegê-la.
aspectos devem ser aclarados para os familiares, Está feliz por ter a possibilidade de uma nova
pois estes precisam sentir-se apoiados e vida e triste pelo esforço necessário para mantê-
seguros, com suas dúvidas esclarecidas. la. Percebe, agora, que os conflitos entre ela e
o irmão são normais. Está aprendendo a
No atendimento com Clara e Júlia, conversou- expressar seus sentimentos para com todos.
se sobre a deficiência renal e a alteração que
causa no cotidiano, cientificando-se a mãe Décimo quinto atendimento - o último
Além do medo de
quanto aos limites e à autonomia de sua filha. atendimento com Maria foi uma reflexão sobre perder o rim, tem
A mãe, que, no início do atendimento, se o passado, o presente e o futuro, suas diferenças vários outros: de
recusava a falar de suas emoções frente à no cotidiano; a fase de luto que passava pelos não conseguir
retomar sua vida,
deficiência renal da filha, conseguiu refletir planos que fizera para sua vida e precisavam
principalmente
sobre as expectativas e planos inconscientes ser readaptados; esclarecimento do processo retornando para
que alimentara, razão dos conflitos entre emocional e incentivo a decodificar as emoções: casa, onde a
ambas, os quais já haviam sido referidos por o fato de negá-las ou reprimi-las não tira sua família inteira vai “
sufocá-la”,
Maria em seus atendimentos. existência. É necessário “escutá-las” para obter superprotegê-la.
os benefícios de sua mensagem. Elas nos levam
Décimo primeiro atendimento - (primeiro a refletir sobre perdas, ganhos e conduzem a
atendimento pós-cirúrgico, na enfermaria): pensar sobre as opções possíveis.
Maria está tranqüila e cheia de planos.
Agradece a presença da psicóloga e as Torna-se mister ressaltar que, segundo
orientações recebidas. Chiatonne, 2000, a situação de crise caracteriza-
se como um momento de instabilidade psíquica
Décimo quarto atendimento - primeiro que pode resultar em amadurecimento,
atendimento no ambulatório pós-transplante: crescimento psicológico, pelas oportunidades
Maria expressa sua confusão diante da vivenciadas pelo paciente na busca de soluções,
dinâmica familiar, alterada para melhor. Seu como também um momento gerador de
pai, que nunca demonstrou afeto, está mais soluções mal adaptativas e que o colocam em
atencioso, mais carinhoso com todos os filhos um nível inferior de funcionamento, com o
e os netos. “É só festa na minha casa”. Termina aparecimento dos sintomas. Maria agradeceu
seu discurso com uma pergunta: “Precisava o apoio que teve durante o seu processo e diz
eu ficar doente para acontecer tanta coisa boa? ter tirado muito proveito, inclusive sua família.
E por que eu fui a escolhida para ficar doente? Para todos, foi um aprendizado.
Por que passar por tanta dor e sofrimento para
mudarem?” Considerações finais
Sente que a mãe quer superprotegê-la, por Pode-se considerar que, nesse acompanhamento
isso não quer voltar para Mossoró,RN. Essa psicológico, o processo de receber e de doar
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Intervenção Psicológica em uma Unidade de Transplante Renal de um Hospital Universitário

passou pela dinâmica individual do doador, das limitações impostas pela deficiência e a
do receptor e da família, ativando conflitos descoberta de opções para conviver com ela.
até então inconscientes, mas que O apoio, através do espaço psicológico
influenciavam na decisão e no equilíbrio acolhedor e seguro, permitiu à paciente
emocional do paciente, que queria submeter- perceber que ela tem uma deficiência renal e
se ao transplante. Ainda foram ativados que sua história existencial não se limita a ela.
conflitos naqueles que, de forma direta, A elaboração de fantasias, as informações
estavam envolvidos com o decurso da cirurgia sobre a deficiência renal, sobre o transplante,
e seu período anterior e posterior. viabilizados pelas intervenções da PBA,
possibilitaram um descobrir-se emocional-
Fazendo um caminho do processo emocional mente em suas várias relações.
de Maria, pode-se observar o alívio da pressão
emocional interna, abertura para o diálogo Essa experiência como extensionista trouxe
franco e esclarecedor das suas emoções com uma percepção clara da fronteira que
seu irmão, gerando espaço para confiança diferencia a atuação do psicólogo clínico e a
mútua e cumplicidade. Isso permitiu uma do psicólogo hospitalar. A abordagem teórica
decisão mais madura pela recepção do rim do psicólogo clínico, que o auxilia na
interpretação da dinâmica do paciente e nas
do irmão, culminando com o sentimento de
suas intervenções, se torna insuficiente para o
esperança no sucesso do transplante.
contexto hospitalar. É necessário o acréscimo
Possibilitou também, ao doador, alívio dos
de informações sobre a dinâmica da própria
conflitos internos da relação fraternal da
instituição hospitalar, pois esta, através de suas
infância e adolescência, levando-o a uma
normas, define, de forma direta, os settings
opção consciente da doação. O doador foi
terapêuticos nos quais se dá a atuação do
capaz de reconhecer a influência psicológica
psicólogo. O profissional precisa, então, ser
que a família e a comunidade exerciam sobre
flexível e ter recursos técnicos (como a PBA)
ele.
para desenvolver seu trabalho. A supervisão
com a psicóloga, também hospitalar, se fez
O espaço psicológico criado para responder
necessária para iluminar a cultura da instituição,
à demanda de preparação para o transplante clarear possíveis obstruções nos canais de
evolui para um processo existencial, no qual comunicação entre os membros da equipe,
afloram conflitos intra e inter-relacionais. Com entre a equipe e o paciente e entre o paciente
a elaboração desses conflitos, o objetivo e sua família, além de possibilitar ao psicólogo
inicial, o transplante, transcende para o perceber possíveis fatores que podem
autoconhecimento. A deficiência renal pode sobrecarregá-lo psiquicamente e impedi-lo de
significar, portanto, uma ponte para o realizar uma atuação eficaz.
enfrentamento da própria vida ao lidar com
fragilidades e medos. Também possibilita O projeto de extensão em capacitação
descobrir fortalezas, coragem e perseverança, hospitalar no serviço de transplante renal do
notando que é ele, paciente, o grande HUWC foi avaliado como satisfatório e
condutor da sua história. resultou na criação de uma vaga para psicólogo
concursado nesse serviço. Isso demonstra a
A utilização da técnica de psicoterapia breve seriedade do trabalho desenvolvido e o
de apoio e o conhecimento da dinâmica da respeito pela pessoa portadora de deficiência
instituição hospitalar foram determinantes na renal, que traz um sofrimento psíquico
condução do processo, possibilitando a prática sobreposto ao sofrimento físico. Além disso,
interdisciplinar e a realização de intervenções demonstra que o psicólogo tem instrumentos
que resultaram em redução de sofrimento teóricos e práticos para desenvolver assistência
psíquico na paciente. Houve o enfrentamento no âmbito hospitalar.

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Maria Lúcia Pinheiro Garcia,Ângela Maria Alves e Souza & Teresa Cristina Holanda PSICOLOGIA CIÊNCIA E
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Maria Lúcia Pinheiro Garcia


psicóloga clínica, Mestre em Saúde Pública – UECE
Rua Pedro Firmeza, 1422 - Cambeba - Fortaleza/CE
CEP: 60822-380.
E-mail: branca@secrel.com.br

Ângela Maria Alves e Souza


Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Curso de
Graduação e Pós-graduação em Enfermagem da UFC.
Rua João Sorongo, 1891-Rodolfo Teófilo – Fortaleza/CE
CEP: 60430-440 E-mail: amas@ufc.br

Teresa Cristina Holanda


Psicóloga do Departamento Materno-Infantil do Hospital
Universitário Walter Cantídio, da Universidade Federal do Ceará -
UFC. Mestra em Saúde Pública. Professora do curso de Psicologia
da Universidade de Fortaleza

Rua Rafael Tobias, 2801 - Casa 20 – Edson Queiroz - Fortaleza/CE


CEP: 60833-680 E-mail: teresa@unifor.br

Recebido 05/01/04 Aprovado 03/11/05

Referências
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ANGERAMI. V.C A Ética na Saúde. São Paulo/SP: Pioneira,1997.
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