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MELANIE KLEIN

ALGUMAS INFORMAÇÕES INTRODUTÓRIAS

- Nasceu em Viena em 30 de março de 1882.


- Melanie Reizes (nome da família do pai).
- Se tornou Klein após um infeliz casamento com Arthur Klein
(engenheiro químico).
- Família de origem hebraica e humilde.
- Queria ser médica, mas casou-se com 21 anos e teve três
filhos: Melitta, Hans e Erich.
- Quando casou-se, mudou para Budapeste em 1910.
- Em 1914 (com 32 anos) – inicia seu contato com a Psicanálise:
ela lê um texto de Freud sobre os sonhos e começa sua análise
com Sandor Ferenczi (teve depressão).
- Em 1918 – participa do 5º Congresso Internacional de
Psicanálise em Budapeste (ouviu Freud lendo um texto sobre os
avanços da teoria psicanalítica).
- Muda para Berlim em 1921 sem a companhia do marido.
- Em 1922 (com 40 anos) – ingressou como membro-associado da
Sociedade Psicanalítica de Berlim (marcando sua entrada para o
mundo da psicanálise mundial).
- Em 1924 fez análise com Karl Abraham.
- Em 1926 muda-se para a Inglaterra e torna-se membro da
Sociedade Britânica de Psicanálise.
- Em 1927 divorcia-se.
- Em 1934 seu filho Hans morre ao escalar uma montanha.
- Em 1960 morre aos 78 anos.

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MELANIE KLEIN, A PSICANÁLISE E O MOVIMENTO
PSICANALÍTICO INTERNACIONAL: DADOS HISTÓRICOS

- Em 1910: começa a atender em casa o próprio filho Erich, que


sofria de inibição de aprendizagem..
- Em Berlim analisou filhos de analistas e elaborou seus primeiros
trabalhos escritos.
- 1921 a 1926 – estabelece a análise de crianças como uma área
legítima da clínica psicanalítica.
- Rivalidade entre as idéias de Melanie Klein e Anna Freud
(Berlim).
- Em 1932 – lança seu primeiro livro: “A Psicanálise de crianças” –
apresenta os fundamentos técnicos da análise de crianças
mediante o brincar, por meio de muitos casos de análise infantil
conduzidos por ela.
- Em 1934 – ainda sob o impacto da morte do filho Hans, produz o
texto “Contribuição para a psicogênese dos estados maníaco-
depressivos” (falava sobre psicose).
- Na Sociedade Britânica de Psicanálise, após a morte de Freud,
formaram-se três grupos:
 Kleiniano – (Ernest Jones)
 Freudiano (Anna Freud)
 Independentes (Winnicott, Balint)

- Melanie Klein teve boa receptividade na América Latina, em


primeiro lugar na Argentina e depois no Rio de Janeiro e
principalmente em São Paulo.
- Em 1950 – instalação definitiva do kleinismo no panorama
internacional da Psicanálise.
- Em 1957 – publica “Inveja e gratidão” – apresentando as
disposições afetivas do ser humano, desde seus primórdios e ao
longo de toda a sua existência.

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MELANIE KLEIN
APRECIAÇÃO INTRODUTÓRIA DO ESTILO DE PENSAMENTO
E DE ESCRITA

- Klein valorizava a experiência pessoal e a observação clínica


para descrever processos psíquicos inconscientes.

- Sua obra versa a respeito da descrição dos mecanismos da


vida mental do bebê e de crianças pequenas (3 a 6 anos de
idade).

- a obra deve ser conhecida não só pelas teses, teorias e


conceitos que a psicanalista elabora, mas também pelo estilo de
escrita dos pensamentos kleinianos.

- O estilo de Klein causou estranheza e choque em boa parte da


comunidade psicanalítica americana e francesa.

- M. Klein começou sua obra a partir de “observações analíticas”


do próprio filho, teorização que começou literalmente em casa,
sem caráter acadêmico. Ela não tinha formação universitária.

- M. Klein sempre valorizou a importância da observação e do


contato direto com o paciente (observando e descrevendo
processos psíquicos profundos).

- Klein fala em “observar a mente de um recém-nascido” (intuição


e contato direto com os processos e fenômenos).

- Seu estilo revela que, desde o princípio, Klein aprendeu a


enfatizar e valorizar a experiência pessoal (mãe de três filhos) –
maternidade como plataforma para sua teoria.

- Sua teoria é essencialmente empirista e clínica.

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- MELANIE KLEIN –

OBRAS COMPLETAS

Volume I – “Amor, culpa e reparação” (1921- 1945)

Volume II – “A Psicanálise de crianças”

Volume III – “Inveja e gratidão” (1946 – 1963)

Volume IV – “Narrativa da análise de uma criança”

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KLEIN. M. “Amor, culpa e reparação”. Rio de Janeiro:
Imago, 1996, Vol. I.

Cap. 9 - “Estágios iniciais do conflito edipiano” (1928).


(p. 214-227)

- É um dos artigos mais importantes de M. Klein.

- Ela defendia a idéia de que o Complexo de Édipo tinha início


antes do que Freud imaginava em “A análise de crianças
pequenas” (1923).

- Freud sugere que o Complexo de Édipo começa quando a criança


está entre os 2 e 3 anos de idade.

- M. Klein diz que começaria bem mais cedo- no primeiro ano de


vida, durante o desmame.

- Klein fala a respeito no artigo “Os princípios psicológicos da


análise de crianças pequenas”:

“ ... tendências edipianas são liberadas como


consequência da frustração sentida pela criança com
o desmame, e que se manifestam no final do primeiro
ano e início do segundo ano de vida; elas são
reforçadas pelas frustrações anais sofridas durante
treinamento dos hábitos de higiene”. (p. 216)

- Segundo a autora, o próximo elemento que influencia de forma


determinante os processos mentais é a diferença anatômica
entre os sexos.

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- O menino - quando se vê impelido a trocar a posição oral e anal
pela genital, passa a ter o objetivo associado à posse do pênis.
Assim ele muda sua posição libidinal e também seu objetivo, o que
permite que ele mantenha o objeto amoroso original (mãe).

- A menina - por outro lado, o objetivo receptivo passa da


posição oral para a genital: ela muda sua posição libidinal, mas
mantém o mesmo objetivo, que já levou à frustração em relação à
mãe. Desse modo, a menina se volta para o pai como objeto
amoroso.

- Desde o início, os desejos edipianos ficam associados ao medo


da castração e a sentimentos de culpa.

- O sentimento de culpa é o resultado da introjeção dos objetos


amorosos edipianos.

- As frustrações orais e anais, que formam o protótipo de todas


as frustrações posteriores para o resto da vida, significam
punições e dão origem à ansiedade.

- O corpo da mãe é visto como palco de todos os processos e


desenvolvimento sexuais (fase de feminilidade).

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KLEIN. M. “Inveja e Gratidão”. Rio de Janeiro: Imago,
1996, Vol. III

Cap. 12 - “Nosso mundo adulto e suas raízes na


infância” (1959). (p. 280-297)

- O comportamento das pessoas em seu ambiente social é


resultado do desenvolvimento do indivíduo desde a infância à
maturidade.

- Descobertas de Freud mostram a complexidade das emoções da


criança e revelam que as crianças passam por sérios conflitos
(melhor compreensão da mente infantil e de suas conexões com
os processos mentais do adulto).

- A técnica do brincar desenvolvida por M. Klein permitiu novas


conclusões acerca dos estágios iniciais da infância e camadas
mais profundas do inconsciente.

- Compreensão da vida mental do bebê – para M. Klein, a vida


mental do bebê é influenciada pelas mais arcaicas emoções e
fantasias inconscientes.

- A hipótese de M. Klein é a de que o bebê tem um conhecimento


inconsciente inato da existência da mãe. Esse conhecimento
instintivo é a base da relação primordial do bebê com a mãe.

- Com apenas poucas semanas de vida, o bebê já olha


para o rosto de sua mãe, reconhece seus passos, o
toque de suas mãos, o cheiro e a sensação de seu
seio ou da mamadeira que ela lhe dá.

- O bebê não espera da mãe apenas o alimento, mas


deseja também o amor e a compreensão.

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- Nos estágios mais iniciais, amor e compreensão são expressos
pela mãe por meio do seu modo de lidar com o bebê e levam ao
sentimento inconsciente de unicidade que se baseia no fato de o
inconsciente da mãe e o inconsciente da criança estarem em
íntima relação um com o outro.

- O sentimento resultante que o bebê tem


de ser compreendido subjaz a primeira e
fundamental relação em sua vida – a relação
com a mãe.

- Nos primeiros meses de vida a mãe


representa para o bebê todo o mundo
externo.

- Dessa forma, tanto o que é bom quanto o que é mau vêm à sua
mente como provindos dela.

- O bebê também experimenta frustração, desconforto e dor,


que são vivenciados como perseguição.

- Tanto a capacidade de amar quanto o sentimento de


perseguição são focalizados primeiramente na mãe.

- Os impulsos destrutivos (frustração, ódio, inveja) despertam


ansiedade persecutória no bebê.

- A agressividade inata é incrementada por circunstâncias


externas desfavoráveis.

- Deve-se considerar o desenvolvimento da criança e as atitudes


dos adultos como resultantes da interação entre influências
internas e externas.

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- Alguns bebês vivenciam um intenso ressentimento frente a
qualquer frustração e o demonstram sendo incapazes de aceitar
gratificação quando esta se segue à privação.

- Se um bebê mostra que é capaz de aceitar o alimento e amor,


significa que ele pode superar o ressentimento em relação à
frustração e recuperar seus sentimentos de amor.

SELF E EGO

- Ego – de acordo com Freud, é a parte organizada do self.

- O ego dirige todas as atividades e estabelece e mantém a


relação com o mundo externo.

- Self - é o termo utilizado para abranger toda a personalidade.

- O self inclui não apenas o ego, mas também a vida pulsional.

- De acordo com M.Klein, o ego existe e opera desde o


nascimento e tem a tarefa de defender-se contra a ansiedade.

PROJEÇÃO E INTROJEÇÃO

- Ambos os mecanismos funcionam desde o início da vida pós-


natal, como algumas das primeiras atividades do ego.

- Introjeção: significa que o mundo


externo, as situações que o bebê
atravessa e os objetos que ele
encontra são levados para dentro do
self, vindo a fazer parte da sua vida
interior.

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- Projeção: há uma capacidade na criança de atribuir a outras
pessoas a sua volta, sentimentos de diversos tipos,
predominantemente o amor e o ódio.

- O amor e o ódio dirigidos à mãe, estão


intimamente ligados à capacidade do
bebê muito pequeno de projetar todas
as suas emoções sobre ela, convertendo-
a em um objeto bom, assim como em um
objeto perigoso (objeto mau).

Objeto bom (seio bom) X Objeto mau (seio mau)

- A introjeção e a projeção fazem parte das fantasias


inconscientes do bebê, que operam desde o princípio e ajudam a
moldar sua impressão do ambiente.

- Os processos de introjeção e projeção contribuem para a


interação entre os fatores internos e externos.

- Essa interação prossegue através de cada estágio da vida e


transformam-se no decorrer da maturação.

- Portanto, mesmo no adulto, o julgamento da realidade nunca é


completamente livre da influência de seu mundo interno.

FANTASIAS

- Uma fantasia representa o conteúdo particular das


necessidades ou sentimentos (por exemplo: desejos, medos,
ansiedades, triunfos, amor ou tristeza), que dominam a mente no
momento.

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- As fantasias continuam ao longo de todo o desenvolvimento e
acompanham todas as atividades. Elas sempre desempenham um
papel importante na vida mental.

- Se a mãe é assimilada ao mundo


interno da criança como um objeto
bom do qual esta pode depender,
um elemento de força é agregado
ao ego.

- O ego desenvolve-se em torno


desse objeto bom e a identificação
com as características boas da mãe, torna-se a base para
identificações benéficas posteriores.

- Essa característica aparece exteriormente no bebê que copia


as atividades e atitudes da mãe, o que pode ser visto em seu
brincar e frequentemente em seu comportamento em relação à
crianças menores.

- Uma forte identificação com a mãe torna fácil para a criança


identificar-se também com um pai bom e, mais tarde, com outras
figuras amistosas.

Tudo isso contribui para o desenvolvimento de uma personalidade


estável.

- Portanto, fica claro que uma relação dos


pais entre si e com a criança e uma
atmosfera feliz em casa, desempenham um
papel vital no êxito desse processo.

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- No entanto, por mais que sejam bons os sentimentos da criança
em relação a ambos os pais, a agressividade e o ódio também se
mantêm em atividade (Complexo de Édipo).

- Esse Complexo existe desde muito cedo e está enraizado nas


primeiras suspeitas que o bebê tem de que o pai tira dele o amor
e a atenção da mãe.

IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA

- Por meio da projeção de si mesmo para dentro de outra pessoa,


ocorre uma identificação projetiva com esta.

- A identificação se baseia na atribuição a essa outra pessoa


de algumas das próprias qualidades.

- Identificação projetiva – colocar partes do self para dentro de


um objeto.

- Por meio da atribuição de parte de nossos sentimentos à outra


pessoa, compreendemos seus sentimentos, suas necessidades e
satisfações (nos colocamos em sua pele).

- Se a projeção é predominantemente hostil, ficam prejudicadas


a empatia verdadeira e a capacidade de compreender os outros.

- Portanto, o caráter da projeção é de grande importância em


nossas relações com outras pessoas.

CISÃO

- Divisão do seio em um objeto bom e um objeto mau.

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- Tendência do ego infantil para cindir impulsos e objetos (uma
das atividades primordiais do ego).

- Necessidade de cindir o amor do ódio.

- A autopreservação do bebê depende da sua confiança em uma


mãe boa.

- Por meio da cisão o bebê preserva a sua crença em um objeto


bom e em sua capacidade de amá-lo, sendo esta uma condição
essencial para manter-se vivo.

- Sem esse sentimento, o bebê estaria exposto a um mundo


inteiramente hostil, que ele teme e o destruiria.

- Os impulsos destrutivos onipotentes, a ansiedade persecutória


e a cisão predominam nos primeiros 3 ou 4 meses de vida e é
denominada de POSIÇÃO ESQUIZO-PARANÓIDE.

VORACIDADE

- A voracidade varia consideravelmente de um bebê para outro.

- Há bebês que nunca estão satisfeitos porque sua voracidade


excede tudo o que possam receber.

- Necessidade premente de esvaziar o seio da mãe e explorar


todas as fontes de satisfação sem consideração por ninguém.

- A voracidade é incrementada pela ansiedade (de ser privado,


roubado e de não ser suficientemente bom para ser amado).

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- O bebê que é tão voraz por amor e atenção, é também inseguro
sobre sua própria capacidade de amar e todas essas ansiedades
reforçam sua voracidade.

INVEJA

- A mãe que alimenta o bebê e cuida dele, pode ser também


objeto de inveja (fantasia que o leite e o amor são
deliberadamente recusados ou retirados do bebê).

- Base da inveja – é inerente ao


sentimento de inveja não apenas o
desejo da posse, mas também uma
forte necessidade de estragar o
prazer que as outras pessoas têm
com o objeto cobiçado
(necessidade que tende a estragar o próprio objeto).

- Se a inveja é muito intensa, essa característica de estragar


resulta em uma relação perturbada com a mãe, assim como mais
tarde com outras pessoas.

- Também significa que nada pode ser plenamente desfrutado,


porque a coisa desejada já foi estragada pela inveja.

- Se a inveja é intensa, aquilo que é bom não pode ser assimilado,


não pode se tornar parte da vida interior e nem dar origem à
gratidão.

- No desenvolvimento normal, com a integração crescente do


ego, os processos de cisão diminuem e a maior capacidade para
entender a realidade externa, leva o bebê a uma síntese maior
dos aspectos bons e maus do objeto.

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- Isso significa que pessoas podem ser amadas apesar de suas
falhas.

- De acordo com M. Klein o superego opera no quinto ou sexto


mês de vida – o bebê começa a temer pelo estrago que seus
impulsos destrutivos e sua voracidade podem causar aos seus
objetos amados. Isso porque ele não pode ainda distiguir entre
seus desejos e impulsos e os efeitos reais deles.

- O bebê vivencia sentimentos de culpa e necessidade de


preservar esses objetos e de reparar os danos. A ansiedade
agora é vivenciada de natureza predominantemente depressiva –
é a POSIÇÃO DEPRESSIVA.

- Os sentimentos de culpa, que ocasionalmente surgem em todos


nós, tem raízes muito profundas na infância e a tendência a
fazer reparação desempenha um papel importante em nossas
relações de objeto.

- De acordo com a sua observação de bebês, M. Klein afirma que


às vezes os bebês parecem deprimidos. Neste estágio eles
tentam agradar as pessoas ao redor (com sorrisos, gestos
divertidos) e até mesmo em tentativas de alimentar a mãe,
colocando-lhe uma colher de comida na boca.

- As crianças maiores expressam necessidade de agradar e de


serem prestativas (expressam não apenas o amor, mas também a
necessidade de reparar).

15
KLEIN. M. “Inveja e Gratidão”. Rio de Janeiro: Imago,
1996, Vol. III

Cap. 10 - “Inveja e gratidão” (1957).


(p. 207-267)

- De acordo com a teoria kleiniana, a relação com a mãe e a


relação com o seio materno é de importância fundamental à
primeira relação de objeto do bebê.

- Esse objeto originário é introjetado.

- Sob o predomínio de impulsos orais, o seio é instintivamente


sentido como sendo a fonte de nutrição e, portanto, num sentido
mais profundo, da própria vida.

- Seio ou o seu representante simbólico (a mamadeira).

- O seio bom é tomado para dentro (introjeção) e torna-se parte


do ego e o bebê (que antes estava dentro da mãe) tem agora a
mãe dentro de si.

- M. Klein considera que uma forte ansiedade persecutória é


suscitada pelo nascimento (experiências desagradáveis do bebê)
– em relação ao sentimento de segurança dentro do útero
materno.

- As circunstâncias externas desempenham um papel vital na


relação inicial com o seio.

- Se o nascimento foi difícil (complicações como a falta de


oxigênio) – há uma perturbação na adaptação ao mundo externo
(dificuldade de experimentar novas fontes de gratificação).

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- Se a criança não é adequadamente alimentada e cercada de
cuidados maternais (se a mãe é ansiosa ou tem dificuldades
psicológicas com a amamentação) – influencia a capacidade do
bebê de aceitar o leite com prazer e internalizar o seio bom.

- A vida emocional do bebê apresenta uma constante luta entre:

Pulsão de vida X Pulsão de morte


Amor X Ódio
Seio bom X Seio mau

- Portanto, a vida emocional arcaica caracteriza-se por uma


sensação de perda e recuperação do objeto bom.

- A capacidade tanto para o amor quanto para impulsos


destrutivos é constitucional.

- O seio não é simplesmente o objeto físico, não apenas a


nutrição real, mas também representa os
desejos instintivos e as fantasias
inconscientes.

- De acordo com M. Klein, o seio bom é o


protótipo da “bondade” materna, da
paciência, generosidade e confiança (tem
raízes na oralidade).

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DISTINÇÃO ENTRE INVEJA, CIÚME E VORACIDADE

- INVEJA: é o sentimento raivoso de


que outra pessoa desfruta algo
desejável.

- Pressupõe a relação do indivíduo


com uma só pessoa (sendo a
primeira relação com a mãe).

-A inveja está intimamente ligada à projeção.

- CIÚME: é baseado na inveja, mas envolve a


relação com pelo menos duas pessoas.

- o amor que o indivíduo sente como lhe sendo


devido e que lhe foi tirado, ou está em perigo de
sê-lo (rival).

- VORACIDADE: é uma ânsia


impetuosa e insaciável, que excede
aquilo que o indivíduo necessita.

- A voracidade está intimamente


ligada à introjeção.

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- O primeiro objeto a ser
invejado é o seio nutridor, pois o
bebê sente que o seio possui tudo
o que ele deseja e que tem um
fluxo ilimitado de leite e amor que
guarda para sua própria
gratificação.

- Quando o seio o priva – ele se torna mau.

- O bebê não consegue dividir e separar o objeto bom do objeto


mau (está sujeito a sentir-se confuso entre o que é bom e o que é
mau) – o que gera um conflito.

-Uma criança com uma forte capacidade de amor e gratidão tem


uma relação profundamente enraizada como o objeto bom e pode
suportar estados temporários de inveja, ódio e ressentimento
sem ficar danificada.

- Ou seja, o objeto bom é recuperado (essa é a base para a


estabilidade de um ego forte).

GRATIDÃO

- É um dos principais derivados da capacidade de amar.

- É essencial à construção da relação com o objeto bom


(apreciação do que há de bom nos outros e em si mesmo).

- Tem suas raízes nas emoções e atitudes que surgem no estágio


mais inicial da infância, quando para o bebê a mãe é o único e
exclusivo objeto.

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-Essa primeira ligação é a base para todas as relações
subseqüentes com uma pessoa amada.

- Sentimento de unicidade com a outra pessoa – ser plenamente


compreendido, o que é essencial para toda relação amorosa ou
amizade felizes.

- Se há a experiência freqüente de ser alimentado sem que a


satisfação seja perturbada, a introjeção do seio bom se dá com
relativa segurança.

- Uma gratificação plena ao seio significa que o bebê sente ter


recebido do objeto amado uma dádiva especial que ele deseja
guardar – essa é a base da GRATIDÃO.

- A gratidão está intimamente ligada à confiança em figuras


boas.

- A gratidão também está ligada à generosidade - a riqueza


interna deriva de o objeto bom ter sido assimilado e o indivíduo
se torna capaz de compartilhar com os outros os dons do objeto
(introjeção de um mundo externo mais amistoso).

- A inveja intensa impede o desenvolvimento da gratidão –


estraga e danifica o objeto bom, que é a fonte de vida.

- O sentimento de haver danificado e destruído o objeto


originário prejudica a confiança do indivíduo na sinceridade de
suas relações subseqüentes e o faz duvidar de estar capacitado
para o amor e para o que é bom.

- As alterações do caráter têm probabilidades de acontecer em


pessoas que não estabeleceram firmemente seu primeiro objeto
e que não são capazes de manter gratidão para com ele.

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- Nestes casos, ocorrem os mecanismos de cisão e
desintegração, existindo um sentimento de destruição
onipotente e a inveja.

- Em todas as pessoas, a frustração e as circunstâncias


infelizes despertam certa inveja e ódio no decorrer da vida, i
que varia é a intensidade dessas emoções e a maneira como o
indivíduo as enfrenta.

- A integração do ego baseia-se em um objeto bom firmemente


enraizado, que forma o núcleo do ego.

- Certo momento de cisão também é essencial para a integração,


por preservar o objeto bom e capacitar o ego a sintetizar os dois
aspectos do objeto.

- A inveja excessiva (expressão de impulsos destrutivos)


interfere na cisão fundamental entre o seio bom e o seio mau, e a
estruturação do objeto bom não pode ser suficientemente
conseguida – mecanismos paranóides e esquizóides que formam a
base da esquizofrenia.

IDEALIZAÇÃO

- A idealização é a necessidade de obter o melhor do objeto


(indiscriminadamente), buscando a perfeição.

- Algumas pessoas têm como


característica a idealização de suas
relações amorosas e de amizade.

- A idealização ocorre no nível da paixão.

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- Essa idealização tende a desmoronar, uma vez que o objeto
amado tem que ser constantemente trocado por outro, pois
nenhum objeto preenche integralmente as expectativas (isso leva
à instabilidade nos relacionamentos e à fraqueza do ego).

- A conseqüência direta da inveja excessiva é o aparecimento da


culpa.

- Se a culpa for experimentada por um ego ainda não capaz de


tolerá-la, ela é sentida como perseguição e o objeto que a
desperta é sentido como um perseguidor.

- Quando surge a posição depressiva, o ego mais integrado e


fortalecido tem maior capacidade de suportar a dor da culpa e
de desenvolver defesas correspondentes, principalmente a
reparação.

- A culpa leva à ansiedade persecutória, com suas defesas


correspondentes (projeção e negação onipotente).

- Uma das mais profundas fontes de culpa está sempre


relacionada à inveja do seio nutridor e ao sentimento de haver
estragado sua “bondade” por meio de ataques invejosos
(destrutivos).

- Há uma ligação direta entre a inveja vivenciada em relação ao


seio da mãe e o desenvolvimento do ciúme.

- No caso do bebê, o ciúme se baseia em suspeita e rivalidade


com o pai, que é acusado de ter levado embora o seio materno e
a mãe.

- De acordo com M. Klein, a rivalidade marca os estágios iniciais


do Complexo de Édipo (quarto a sexto mês de vida).

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- Desta forma, o ciúme é inerente à situação edipiana (ódio e
desejos de morte).

- O seio “bom” que nutre e inicia a relação de amor com a mãe é o


representante da pulsão de vida.

- Um bebê que tenha estabelecido com segurança o objeto bom


pode igualmente encontrar compensação para perdas e privações
na vida adulta.

TERMINAR

A INVEJA NA VIDA COTIDIANA

- Freud falou quase que exclusivamente sobre um único tipo de


inveja, que ele chamou de “inveja do pênis”.

- O significado da inveja foi mais amplamente discutido por M.


Klein.

- O ciúme – envolve um relacionamento entre 3 pessoas.

- Sente-se ciúme porque alguém a quem se ama, ou a quem se


está ligado, pode demonstrar mais interesse ou afeição por outra
pessoa.

- A inveja – envolve basicamente 2 pessoas.

- Inveja-se o que a outra pessoa possui, ou suas capacidades,


conquistas ou qualidades pessoais.

- A inveja está ligada à voracidade (a pessoa que é voraz quer


obter algo).

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- A pessoa invejosa não está interessada em obter algo para si
própria e usufruir isso, mas em tirar algo da outra pessoa, de
forma que se torne parte de si própria.

- A inveja está presente na vida cotidiana: sentimentos de


ressentimento por alguém que está à frente, ou por alguém que
faz melhor.

- Ocorrem a hostilidade, a rivalidade e a competitividade.

- Quando a inveja é muito intensa – conduz a uma crítica


incessante.

- Muitas pessoas demonstram uma necessidade de obter o que a


outra pessoa tem (equivalente ou melhor).

- Uma pessoa verdadeiramente invejosa não consegue suportar e


encarar o sucesso e o prazer do outro.

- Não consegue tolerar que algo de bom lhe seja dado por outra
pessoa, não pode usufruir, não reconhece seu valor e será incapaz
de experimentar e expressar gratidão (portanto, sua capacidade
de amar sofre graves interferências).

- Uma pessoa muito invejosa dificilmente consegue tolerar


escutar o que outra pessoa tem a dizer e tenta parar a conversa,
tomando conta do assunto (não consegue tolerar ouvir coisas
divertidas, experiências e pensamentos interessantes que
venham de outra pessoa).

- A inveja impede que o indivíduo construa relacionamentos bons,


calorosos e confiáveis. Portanto todo o seu mundo interno (e seu
caráter) será influenciado e o sujeito se sentirá inseguro.

- A insegurança incrementa a inveja (círculo vicioso).

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- A pessoa muito invejosa sentirá seu mundo hostil e se tornará
mais paranóide ou desconfiada em suas atitudes e em relação às
pessoas, de modo que seu mundo torna-se desagradável para si
própria e para os outros (elas têm muito pouco prazer real na
vida).

25
KLEIN. M. “Amor, culpa e reparação”. Rio de Janeiro:
Imago, 1996, Vol. I.

Cap. 20 - “O luto e suas relações com os estados


maníaco-depressivos” (1940).
(p. 385 - 412)

- M. Klein se reporta ao trabalho de Freud em sua obra “Luto e


Melancolia” – que afirma que uma parte essencial do trabalho do
luto é o teste da realidade (durante o luto é preciso tempo para
elaborar a perda; quando esse trabalho é concluído, o ego
consegue libertar sua libido do objeto perdido).

- Segundo a autora, há uma íntima ligação entre o teste da


realidade no luto normal e os processos arcaicos da mente.

- Portanto, M. Klein afirma que a criança passa por estados


mentais comparáveis ao luto do adulto, ou seja, o luto arcaico é
revivido sempre que se sente algum pesar na vida ulterior.

- O teste da realidade é o método mais importante que a criança


emprega para superar seus estados de luto.

- A Posição depressiva surge do medo de perder os objetos


amados.

- Durante o luto, o indivíduo passa por um estado maníaco-


depressivo modificado e transitório, vencendo-o depois de algum
tempo – assim ele repete os processos que a criança normalmente
atravessa no seu desenvolvimento inicial.

- O maior perigo que o indivíduo corre durante o luto é o desvio


de seu ódio para a própria pessoa que ele acaba de perder.

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- O indivíduo de luto obtém um grande alívio ao
recordar a bondade e as boas qualidades da
pessoa que acaba de perder. Isso se deve em
parte ao conforto que sente ao manter seu
objeto amado temporariamente idealizado.

- Quando o sofrimento é vivido ao máximo e o desespero atinge


seu auge, o indivíduo de luto vive novamente seu amor pelo
objeto. Ele sente com mais força que a vida continuará por
dentro e por fora e que o objeto amado perdido pode ser
preservado em seu interior.

- Nesse estágio as experiências dolorosas de todos os tipos


estimulam as sublimações e despertam novas habilidades nas
pessoas, que iniciam outras atividades produtivas.

- Qualquer dor trazida por experiências infelizes seja de


qualquer natureza, em algo em comum com o luto.

- Todo avanço no processo do luto resulta num aprofundamento


da relação do sujeito com seus objetos internos, na felicidade de
reconquistá-los depois que eles foram considerados perdidos.

- De forma semelhante, à medida que a criança constrói


gradualmente sua relação com os objetos externos, ela ganha
confiança não só por meio das experiências agradáveis, mas
também pela forma como supera frustrações e experiências
dolorosas.

TERMINAR

27
KLEIN. M. “Inveja e Gratidão”. Rio de Janeiro: Imago,
1996, Vol. III

Cap. 4 - “As origens da transferência” (1952).


(p. 70- 79)

- A transferência opera ao longo de toda a vida e influencia


todas as relações humanas.

- E característica do procedimento psicanalítico, pois abre


caminhos para dentro do inconsciente do paciente.

- É uma ferramenta essencial no processo analítico.

- Seu passado, suas experiências, suas relações de objeto e


emoções vão sendo gradualmente revividos no processo
terapêutico.

-De acordo com M. Klein, quanto mais profundamente


conseguirmos penetrar dentro do inconsciente e quanto mais
longe no passado pudermos levar a análise, maior será nossa
compreensão da transferência.

- A transferência é como uma estrutura na qual algo está


sempre acontecendo, onde há sempre movimento e atividade.

- É importante observar como as relações do paciente com seus


objetos originais são transferidos para a figura do analista.

- M. Klein fala em “situações totais” – que são transferidas do


passado para o presente, bem como suas emoções, defesas e
relações objetais.

28
- Situações totais – tudo o que o paciente traz para a relação –
como o paciente transmite aspectos do seu mundo interior,
desenvolvidos desde a infância.

- Na processo de analítico, os relatos da vida cotidiana dão pistas


para as ansiedades inconscientes estimuladas na situação
transferencial.

- As experiências às vezes não são ditas em palavras, mas podem


ser apreendidas através dos sentimentos provocados em nós por
meio de nossa contratransferência (sentimentos provocados no
analista).

- As ansiedades imediatas do paciente e a natureza de sua


relação com figuras internas emergem na situação total revivida
na transferência.

29
KLEIN. M. “Inveja e Gratidão”. Rio de Janeiro: Imago,
1996, Vol. III

Cap. 8 - “A técnica psicanalítica através do brincar:


sua história e significado” (1955).
(p. 149-168)

- O primeiro paciente de M. Klein foi um menino de cinco anos de


idade (“Fritz”). – 1919.

- O tratamento foi conduzido na casa da criança, com seus


próprios brinquedos.

- Esta análise representou o início da técnica psicanalítica por


meio do brincar.

- Desde o início a criança expressou suas fantasias e ansiedades


(interpretação do seu significado para a criança).

- M. Klein utilizou a associação livre, princípio fundamental da


Psicanálise.

30
- O brincar como meio da criança se
expressar.

- M. Klein também utilizou dois outros princípios


da Psicanálise estabelecidos por Freud: a
exploração do inconsciente e a transferência.

- A autora continuou sua experiência com outros


casos de crianças (1920 a 1923).

- Outro caso importante: tratamento de uma criança de 2 anos e


9 meses (em 1923) – “Caso Rita”.

CASO RITA:

- Rita sofria de terrores noturnos e fobias de animais, era muito


ambivalente para com sua mãe (apegada à mãe, ora ao pai, não
ficava sozinha).

- Rita tinha uma neurose obsessiva e depressão.

- Seu brincar era inibido e não apresentava tolerância à


frustrações.

- Logo na primeira sessão com M. Klein, teve uma transferência


negativa com a analista: a criança estava ansiosa e silenciosa e
logo pediu para sair para o jardim. Klein concordou e foi com ela.

- M. Klein interpretou a transferência negativa de Rita,


associando o fato de estar só com a analista no quarto aos seus
terrores noturnos (uma estranha hostil – medo de que uma
mulher má a atacasse quando estivesse sozinha à noite). Após
essa interpretação, a criança voltou ao quarto.

31
- O brincar de Rita apresentava uma constante inibição (vestia
e desvestia obsessivamente uma boneca).

- De acordo com M. Klein, para realizar a


psicanálise de uma criança, é necessário
compreender e interpretar as fantasias,
sentimentos, ansiedades e experiências
expressos por meio do brincar.

- Se o brincar e as atividades estão inibidas, deve-se buscar as


causas da inibição.

- No decorrer de sua experiência, M. Klein concluiu que a


psicanálise não deveria ser realizada na casa da criança, pois esse
espaço representava uma atitude ambivalente da criança e uma
atmosfera hostil ao tratamento.

- A situação transferencial só poderia ser estabelecida e


mantida se o paciente for capaz de sentir que o consultório ou a
sala de análise de crianças é algo separado de sua vida familiar
cotidiana.

- Sob tais condições ele pode superar suas resistências contra


vivenciar e expressar pensamentos, sentimentos e desejos que
são incompatíveis com as convenções sociais.

- M. Klein sugere os seguintes brinquedos:

 pequenos homens e mulheres de madeira (de dois tamanhos)


 carros, carrinhos de mão
 trens, aviões
 animais
 blocos, casas, cercas

32
 papel, tesouras
 facas
 lápis, giz, tintas, colas
 bolas e bolas de gude
 massa de modelar
 barbante

- Segundo a autora, é essencial serem brinquedos pequenos,
porque seu número e variedade permitem à criança expressar
uma ampla variedade de fantasias e experiências.

- Esse material possibilita chegar a uma imagem mais coerente


das atividades de sua mente.

- M. Klein considera que o consultório de crianças também deve


ser simples:

 chão lavável
 água corrente
 uma mesa, algumas cadeiras
 um pequeno sofá
 algumas almofadas
 um móvel com gavetas

- Os equipamentos de brincar de cada criança são guardados e


trancados em uma gaveta particular e ela assim sabe que seus
brinquedos e o seu brincar com eles são apenas conhecidos pelo
analista e por ela mesma.

- A caixa faz parte da relação privada e


íntima entre o analista e paciente,
característica da situação transferencial
psicanalítica.

33
- Os brinquedos não são o único requisito para uma análise por
meio do brincar (atividades na sala, desenho, escrita, pintura,
recortes, consertar brinquedos, etc).

- Os jogos também são recomendáveis- as criança atribui papéis


ao analista e a si mesma (ex: brincar de loja, médico e paciente,
escola, mãe e criança).

- Segundo M. Klein, a criança muitas vezes assume o papel do


adulto, expressando assim não apenas seu desejo de reverter os
papéis, mas também demonstrando como se sente em relação à
seus pais ou outras pessoas de autoridade (como comportam-se
em relação à ela ou deveriam comporta-se).

- Algumas vezes, a criança dá vazão à sua agressividade e


ressentimento, sendo, no papel de um dos pais, sádica em relação
à criança, representada pelo analista.

- A agressividade é expressa de várias formas no


brincar da criança, seja direta ou indiretamente.

- Frequentemente um brinquedo se quebra,


ataques com faca ou tesoura, água ou tinta
esparramados pela sala.

- É essencial permitir à criança trazer a tona a sua


agressividade (impulsos destrutivos).

- É importante observar suas conseqüências na mente da


criança.

- Sentimentos de culpa podem seguir-se logo após a criança ter


quebrado um brinquedo. Esta culpa refere-se não apenas ao
estrago real produzido, mas ao que o brinquedo representa no

34
inconsciente da criança, como pro exemplo um irmãozinho ou
irmãzinha ou um dos pais.

- Portanto a interpretação tem que lidar com estes níveis mais


profundos também.

- A partir deste comportamento da criança para com o analista,


ela pode mostrar não apenas a culpa, mas também a ansiedade
persecutória, como conseqüência de seus impulsos destrutivos e
a retaliação.

- M. Klein lembra que é necessário manter e delimitar o limite


desses impulsos (o analista não deve permitir ataques físicos por
parte da criança).

- A atitude da criança para com o brinquedo que ela danificou é


muito reveladora.

- Frequentemente põe esse brinquedo de lado e o ignora por um


tempo – isso indica desagrado pelo objeto danificado, devido ao
medo persecutório de que a pessoa atacada (representada pelo
brinquedo) tenha se tornado retaliadora e perigosa.

- O sentimento de perseguição pode ser tão forte que encobre


sentimentos de culpa e depressão que também são despertados
pelo dano produzido.

- No entanto, um dia a criança pode procurar pelo brinquedo


danificado em sua caixa.

- Isto sugere que foram analisadas algumas defesas importantes,


diminuindo assim os sentimentos persecutórios e tornando
possível que os sentimentos de culpa sejam vivenciados.

35
- Sugere também mudanças na relação da criança com o elemento
representado pelo brinquedo, ou em suas relações em geral.

- A ansiedade persecutória diminuiu, juntamente com o


sentimento de culpa, aparecendo o desejo de fazer a reparação.

- A culpa e o desejo de reparar podem seguir-se logo após o


ato de agressão (ex: ternura para com o irmão ou irmã).

- Essas mudanças são importantes para a formação do caráter e


para as relações de objeto, assim como para a estabilidade
mental.

Amor X Ódio
Felicidade X Depressão
Satisfação X Ansiedade persecutória

- O analista não deve demonstrar desaprovação em relação à


criança por ter quebrado um brinquedo.

- O analista deve permitir à criança vivenciar suas emoções e


fantasias na medida em que aparecem (deve compreender a
mente do paciente e comunicar a ele o que ocorre nela).

- A variedade de situações emocionais que podem ser expressas


por meio de atividades lúdicas é ilimitada:

 sentimentos de frustração e de ser rejeitado;


 ciúmes do pai e da mãe; ou de irmãos e irmãs;
 agressividade que acompanha tais ciúmes;
 prazer em ter um companheiro aliado contra os pais;
 sentimentos de amor e ódio em relação a um bebê recém-
nascido ou esperado;
 ansiedade, culpa e reparação.

36
- No brincar da criança também encontramos
a repetição de experiências e detalhes reais
da vida cotidiana, frequentemente
entrelaçados com suas fantasias.

- Há muitas crianças que são inibidas em seu brincar.

- Segundo M. Klein, na análise de crianças pequenas, a capacidade


de insight é bem maior que a de adultos (as conexões entre
consciente e inconsciente são mais próximas em crianças
pequenas do que em adultos e as repressões infantis são menos
poderosas).

- A criança também repete na transferência com o analista,


emoções e conflitos anteriores.

- Interpretação transferencial – levar de volta suas fantasias e


ansiedades para o lugar onde elas se originaram, ou seja, na
infância e na relação com seus primeiros objetos.

- M. Klein propõe uma mudança radical na técnica psicanalítica: as


interpretações deveriam ser profundas (compreensão das
fantasias infantis, das ansiedades e defesas arcaicas).

- Em sua experiência, Klein descobre que o superego surge em


um estágio anterior ao que Freud supunha.

37
- A autora considera que o superego deriva dos estágios nos
quais a criança internalizou (introjetou) seus pais.

- Para M. Klein a atenção do analista deve estar centrada sobre


as ansiedades da criança. Por meio da interpretação de seus
conteúdos é possível diminuir a ansiedade.

- Para tanto utiliza a linguagem simbólica do brincar.

FREUD KLEIN

SONHOS BRINCAR
(interpretação) DA CRIANÇA
\ /
\_____SÍMBOLOS______/

ACESSO AO INCONSCIENTE

- A análise por meio do brincar mostrou que o simbolismo


possibilitava à criança transferir não apenas interesses, mas
também fantasias, ansiedades e culpa a outros objetos
(brinquedos), além das pessoas.

- Desta forma, muito alívio é experimentado no brincar. Este é


um dos fatores que o tornam tão essencial para a criança.

- De acordo com M. Klein, as relações de objeto iniciam-se quase


no nascimento e surgem com a primeira experiência de
alimentação.

38
- Desta forma, todos os aspectos da vida mental estão
intimamente ligados a relações de objeto:

“(...) a experiência que a criança tem do


mundo externo – que muito cedo inclui sua relação
ambivalente com o pai e com outros membros da
família – é constantemente influenciada – e por sua
vez influencia – o mundo externo que ela está
construindo, e situações externas e internas estão
sempre interdependentes, uma vez que a introjeção
e a projeção operam lado a lado desde o início da
vida”. (p. 167)

- Na mente do bebê a mãe aparece primariamente como um seio


bom e um seio mau cindidos. Em poucos meses, com a integração
crescente do ego, os aspectos contrastantes começam a ser
sintetizados (desenvolvimento do ego).

- A ansiedade depressiva surge como um resultado da síntese


pelo ego dos aspectos bons e maus (amados e odiados) do objeto-
POSIÇÃO DEPRESSIVA.

- Esta é precedida pela POSIÇÃO ESQUIZO-PARANÓIDE


(primeiros 3 ou 4 meses de vida) – é caracterizada por ansiedade
persecutória e processos de cisão.

39
RESUMO

MELANIE KLEIN

- O “quantum das pulsões” (vida/morte)

- Conceito de POSIÇÃO – estado mental que se


alterna durante a vida.

POSIÇÃO ESQUIZO-PARANÓIDE (primeiros 3


meses de vida)

- angústia
- cisão
- relação de objeto

POSIÇÃO DEPRESSIVA (após os 3 meses de


vida)

- culpa
- dano
- reparo

40
POSIÇÃO ESQUIZO-PARANÓIDE:
Divide sente-se perseguido
(cisão) (perseguição)

OBJETO BOM X OBJETO MAU (perseguidor)

Frustração (o bebê se dá conta da


sua diferenciação do
outro)

- Angústia: eminência de ameaça do eu.

- Defesa: cisão (divisão do objeto, emoções)

SEIO BOM X SEIO MAU

- Mecanismo onipotente.

- Projeção: colocar dentro do outro partes nossas


(identificação projetiva)

- Relação de objeto: parcial (uma experiência


emocional é vivida como boa ou má).

41
POSIÇÃO DEPRESSIVA:

- Angústia: acrescenta a ameaça de perigo para


os objetos (experiência vivida emocionalmente
com alguém).

- Impulsos destrutivos, agressivos, hostis.

- Defesas: negação
reparação (quer restaurar o objeto)
(culpa – dano)

42
CRONOGRAMA – DTP

1ª Aula – Apresentação da disciplina/ementa/objetivos


conteúdo programático/ estratégias de
ensino/ critérios de avaliação/ bibliografia
básica e complementar.

2ª Aula – Biografia/ dados históricos/ estilo de


pensamento e escrita/ estágios iniciais do
complexo edipiano.

Leitura obrigatória:

ULHÔA, C.E.M. & FIGUEIREDO, L.C. “Melanie Klein,


estilo e pensamento”. São Paulo: Escuta, 2004.

- “À guisa de introdução” (p. 7-21)


- “Apreciação introdutória do estilo de pensamento
e de escrita” (p. 49-58)

3ª Aula – O inconsciente kleiniano: a vida emocional e


mundo interno: fantasia, cisão, projeção,
introjeção, identificação projetiva.

Leitura obrigatória:

KLEIN, M. (1959). “Nosso mundo adulto e suas raízes


na infância”. In Obras Completas: Inveja, Gratidão
e outros trabalhos. R.J: Imago, Vol. III, (p. 280 -
297). (FICHAMENTO)

43
4ª aula – Posição esquizo-paranóide/ Posição depressiva
Reparação/ Inveja/ Gratidão.

Leitura obrigatória:

KLEIN, M. (1957). “Inveja e Gratidão”. In Obras


Completas: Inveja, Gratidão e outros trabalhos.
R.J: Imago, Vol. III, (p. 207 -267). (FICHAMENTO)

KLEIN, M. (1940). “O luto e as relações com os


estados maníaco-depressivos”. In Obras Completas:
Amor, culpa e reparação. R.J: Imago, Vol. I, (p. 385
-412).

5ª Aula – Técnica psicanalítica do brincar.

Leitura obrigatória:

KLEIN, M. (1955). “A técnica psicanalítica através do


brincar”. In Obras Completas: Inveja, Gratidão e
outros trabalhos. R.J: Imago, Vol. III, (p. 149 -168).
(FICHAMENTO)

44
6ª Aula - Transferência e contratransferência / O
pensamento kleiniano sobre sociedade e
cultura.

Leitura obrigatória:

KLEIN, M. (1952). “As origens da transferência”. In


Obras Completas: Inveja, Gratidão e outros
trabalhos. R.J: Imago, Vol. III, (p. 70 -79).

ULHÔA, C.E.M. & FIGUEIREDO, L.C. “A clínica


kleiniana: estilo, técnica e ética”. In: Melanie Klein,
estilo e pensamento”. São Paulo: Escuta, 2004, (p.
171– 188).

ULHÔA, C.E.M. & FIGUEIREDO, L.C. “O pensamento


kleiniano sobre sociedade e cultura: vida
institucional, ética, política e estética”. In: Melanie
Klein, estilo e pensamento”. São Paulo: Escuta, 2004,
(p. 189– 207).

7ª Aula – Prova NP1

45
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