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CHAUVEAU, Agnes; TETART, Philippe. (org.). Questões para a história do presente.

Bauru, SP: EDUSC, 1999.


Questionar a história do presente de maneira exaustiva exigiria, entretanto, um verdadeiro
aprofundamento comparativo das diferentes vias de pesquisa próprios a epistemologia, à
historiografia ou à metodologia de nossa especialidade. p.08.
Tal estudo demandaria igualmente a intervenção de não-historiadores, pois as coisas não
podem ser descritas somente de seu interior. Enfim, seria necessário considerar o
individualismo metodológico de cada historiador, particularismos das escolas, dimensão
extranacional. p.08.
O objetivo deste estudo não é, antes de tudo, o de lhe fornecer um instrumento teórico, mas o
de propor-lhe uma percepção renovada da historia do presente. Além disso, esse deveria
permitir melhor mensurar a presença do historiador em seu tempo, assim como as
consequências dessa relação, que nos declinaríamos de modo interrogativo: climas
ideológicos, modas historiográficas, culturais, orientações cientificas. p.08.
Comecemos por debruçar-nos sobre a historiografia e a genealogia da história do presente.
Dois eixos determinam esta primeira observação: de um lado a dimensão epistemológica e
metodológica, de outro o aspecto historiográfico, universitário e social da afirmação do
presente. p.09.
Para o primeiro ponto, e inevitável constatar que, no fim dos anos 70, a investigação
metodológica e epistemológica voltou-se essencialmente para o estudo da Nova História,
herdeira dos Annales de Lucien Febvre e Marc Bloch. p.09.
Mas o problema ultrapassa largamente o dos tempos históricos. Questão de hegemonia ou
exclusivamente de escolas? Incompreensão ou desinteresse? Todos esses elementos puderam
contribuir para a situação de ruptura entre o presente e a escola histórica dominante, além de
que, durante os anos 70, o domínio da história do presente era, sem dúvida, muito novo, ou
muito pouco cristalizado no plano editorial, por exemplo, para ir contra esse estado de fato.
p.10.
Foi, portanto, a despeito de um interesse inicial convicto que a Nova História ignorou o
presente, deixando-o "sob controle"- para retomar a expressão de René Rémond. p11.
Jacques Le Goff reafirmava, entretanto, que a história do presente é frequentemente melhor
feita pelos sociólogos, politólogos, alguns grandes jornalistas, do que pelos historiadores.
p.11.
Em decorrência dessa divisão bastante paradoxal, evitou-se largamente a problemática do
presente e há um desequilíbrio entre o estudo dos tempos históricos em geral e o do nosso
tempo e das questões que lhe são inerentes. p.11.
Com efeito, num movimento que não se pode dissociar dos "retornos" (retorno do fato,
retorno do político), emergia uma preocupação crescente com o estudo do passado próximo e
com o imediato. Ora, esse movimento finca raízes bem antes destes anos 80. p.12.
Podem-se fixar algumas referências cronológicas representativas dessa dupla afirmação do
imediato e do presente. Depois que muitos universitários e intelectuais inauguraram o
costume das análises imediatas na imprensa, no centro dessa abundância de revistas e
periódicos do pós-guerra, foi a vez da Universidade de patentear o presente. No meio dos anos
50, o trabalho inovador de René Rémond sobre as direitas, por mais isolado que fosse, recebia
uma acolhida favorável e emblemática. Sabe-se, aliás, qual e o papel de René Rémond na
promoção e na defesa da história do presente. p.13.
Nesse processo, o estudo do político, o retorno da história política tiveram e tem ainda um
papel aglutinador e dinâmico. Entretanto, o presente e o imediato não podem nem devem
limitar-se a história renovada do político, mesmo que esta aja como um agente dinamizador.
p.14.
Antes de tudo, a história e mutável, e não se pode limitar a interrogação sobre o presente
somente aos campos, aos métodos, as teorias do político. Qualquer obra sobre o político e a
historia política não pode trazer senão respostas parciais. p.14.
Alias, em numerosas abordagens de historiadores, o político leva ao cultural, a opinião, etc.;
inversamente, o econômico e o social podem determinar um desvio para o político, que
aglutina o presente. Cada campo conexo guarda, entretanto, sua autonomia. Mais
simplesmente, não se deve esquecer que os historiadores do político constituíram a vanguarda
da historia do presente. p.14.
O retorno do político desempenhou, pois, cientifica e intelectualmente, um papel essencial na
afirmação da história do presente. p.15.
Como mostrava recentemente Jean- Pierre Rioux, a afirmação da história do presente e um
fenômeno de geração. p.15.
Um fator e comum as diferentes profissões: o impacto dos acontecimentos deste último século
sobre os homens e sobre sua vontade de "reagir", isto e, de tentar explicar o presente. Mas
pode-se também determinar fatores próprios a cada profissão. p.15.
Para os historiadores, trata-se, sobretudo, como dizíamos acima, da germinação de um
pressuposto metodológico maior: a história não e somente o estudo do passado, ela também
pode ser, com um menor recuo e métodos particulares, o estudo do presente. p.15.
Essa evolução induz uma novidade essencial que não se pode omitir na observação da história
do presente: a concordância cronológica entre a "banalização" dos estudos tratando do
período posterior a 1945 e o fato de que hoje os historiadores não se recusam mais a trabalhar
sobre os acontecimentos que puderam viver. p.16.
Essa questão nos ajuda na definição da historia do presente e, integrando uma dimensão "da
geração", permite antes de tudo refletir um percurso cientifico no tempo. Por enquanto,
lembremos que essa concordância corresponde ao fenômeno cientifico, historiográfico e
institucional cujos contornos traçamos. p.16.
Hoje em dia, a história do presente e do imediato é traduzida por uma vasta produção
editorial, jornalística e por uma difusão que ultrapassa os meios exclusivamente
universitários. p.16.
Em vinte anos, portanto, a história do presente se impôs, e desde o fim dos anos 70, uma
reflexão metodológica e epistemológica foi naturalmente empreendida. Pode-se lembrar
especialmente a jornada dos correspondentes departamentais do IHTP, em 1980, consagrada
aos Tempos Atuais. p.18.
Hoje em dia, só Pour une histoire politique pode responder a expectativa dos historiadores do
presente. Mesmo se essas respostas permanecem parciais - como vimos, e quase a única
baliza historiográfica e epistemológica desses dez últimos anos. p. 19.
O estudo historiográfico, metodológico e epistemológico dos tempos atuais está apenas
desbravado. Não podemos ficar nisso. A história do imediato e a do presente demandam uma
definição mais precisa, em seu próprio funcionamento, a fim de ser melhor e recebidas,
individualmente, e uma em relação a outra. p. 19-20.
Historia do presente, história próxima, historia imediata: estas três locuções não fazem
referencia as mesmas cronologias. Entretanto, esses três tempos históricos pertencem ao
campo do "muito contemporâneo", o do século XX amputado de seu primeiro terço. p.20.
A história imediata é a que mais suscita desconfiança, pois é a que parece engendrar o maior
paradoxo fazendo rimar dois termos contraditórios: imediato e história. Pode-se falar de uma
história do imediato? Essa história é legitima? p.20.
Mas não e um sofisma dizer: escritos no calor do acontecimento? Para ser fundamentado, a
análise, mesmo a mínima, implica "tempo" necessário a consulta e a síntese dos documentos
logo disponíveis. Por consequência, porque o ato de escrita e analise imprime um certo recuo
em relação ao acontecimento, a leitura imediata pertence ao presente antes que ao imediato
em sua definição primitiva de instante. p.21.
Mais precisamente, o estudo do jornalismo histórico e instrutivo, porque a história do
imediato foi primeiro marcada pelo selo jornalístico. De certa maneira, ela e mesmo filha da
imprensa. De fato, foram a pressão jornalística e a demanda social conjugadas que impuseram
o principio da história imediata a partir da metade dos anos 50. p.22.
De fato, o procedimento da história imediata e mais parecido com as técnicas jornalísticas do
que com as da ciência histórica. Os fatores conjugados que lhe deram nascimento não
resultam, em primeiro lugar, do principio inicial da história: o recuo, o desprendimento com
relação ao fato. Isto não implica, aliás, que a história imediata seja exclusivamente
determinada por essas técnicas e que não seja tributaria da pesquisa cientifica. p.22.
Vista como objeto, a história do imediato é testemunho. Este e seu valor intrínseco. Esse
testemunho pode tomar a forma de uma análise que, hierarquizando uma primeira vez as
questões, os fatos, fornece conjuntamente arquivos, depoimentos, pistas de pesquisa e esboços
de interpretação. Ainda que mantenha um aspecto cientifico, a história do imediato permanece
principalmente uma matéria para reflexão, como todas as histórias, e verdade, mas ao preço
de uma releitura18. p.24-25.
Certamente, aquele que escreve história imediata e testemunha e historiador (enquanto (d)
escreve a história), ele nunca ignora o rigor cientifico. Mas ele e igualmente ator, esta em
relação direta com seu tema. Ele pode ser passivo ou ativo, neutro ou engajado, e sua obra
pode se tornar tomada de posição ideológica, moral, benevolente ou combativa. p.25.
Apesar de sua imperfeição, de sua inexatidão virtual, a história imediata tem uma função
social. Ela e o complemento da história do presente. Ambas formam um todo. As duas são
vetores da legibilidade do presente para um público ampliado e solicitante: a história do
imediato como a história do presente respondem a essa demanda. p.27.
Antes de ser analista, o historiador e homem, cidadão, ator ou espectador, e ha alguns anos,
tanto em seus escritos como em seus cursos, ele reivindica ou reconhece cada vez mais seu
próprio pertencimento a história, - e esse olhar que não foi necessariamente o do historiador,
mas talvez o do inocente ou da testemunha, engajado ou não. O estudo da historia do presente,
a interrogação epistemológica sobre seu valor, não dizem respeito ao questionamento de sua
existência social ou cientifica, nem a pertinência de sua denominação, mas a seu próprio
funcionamento. p.28.
Essa imersão do historiador do presente em seu tema distingue-se, parece-nos, da relação
natural que todo historiador tem com seu tema, seja ela passional ou não. Jamais um
medievalista ou um modernista poderá "viver" o que descreve. Ele deve recompor uma
realidade que lhe escapa fisicamente. Não e senão no presente, por reverberação de sua
relação no presente, que ele pode (re)conhecer ou imaginar aquilo de que fala investindo-o de
uma presença física "real". p.31.
A presença do historiador em seu tempo evolui, portanto, em função da própria história. Não
há nada de novo nisso. Em compensação, a evolução da relação com o acontecimento, a
mutação dos engajamentos ou não-engajamentos intelectuais e políticos marcam uma ruptura
com as gerações precedentes de historiadores. p. 33.
Na hora em que a questão cultural se sobrepõe por vezes a questão política, constata-se que a
história adota também um modo de análise centrado sobre a noção de cultura; e que a nova
geração de historiadores do presente se atem primeiro a uma explicação sócio- cultural,
enquanto que no seu inicio, seus antecessores favoreceram em primeiro lugar o político. p. 33.
Se nos ativermos à ordem que adotamos nesta apresentação, o historiador e sua disciplina
constituem um primeiro eixo de pesquisa, e a história do presente deve ser estudada por meio
de três temas: os novos problemas, os novos campos e as novas apresentações. p.34.
Quer seja em sua relação com a testemunha, com o arquivo oral, o que mostra Robert Prank,
quer seja na sua relação com o publico, com o jornalismo, como nos descreve Jean-Pierre
Rioux, o historiador e cada vez mais parte integrante do contemporâneo - porque a forca da
historia passadista, factual e historicista se esfumaça diante de uma demanda social insistente,
resolutamente ancorada no presente e no modo "interpretativo". Em sua intervenção pública, a
história, como a medicina ou a ciência da ecologia, e um fator de compreensão do presente e
vetor de opinião para o corpo social. Convém, portanto, saber como e por que essa relação
entre a ciência e a sociedade funciona. p.35-36.
O historiador deve, pois, abstrair-se o mais completamente possível das interferências da
ideologia e da subjetividade, estudando-as e procurando apreender verdadeiramente seu
objeto alem de uma acepção puramente histórica. A epistemologia da história do presente
consiste, portanto, em interrogar a historia a fim de propor novos dados que aumentarão sua
capacidade de explicitação e de sugestão. p.36.