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Trabalho apresentado para obtenção do título de especialista em

Gestão de Projetos – 2018

Modelo Canvas aplicado à gestão de escopo de obras residenciais

Rafael Justi Torrezan¹; Hermano Peixoto de Oliveira Junior2


1 Engenheiro Civil. Rua do Cobre, número 1446 - Vila Mollon; 13456-433; Santa Bárbara d’Oeste, São Paulo,
Brasil
2 Engenheiro Eletricista. Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz / Universidade de São Paulo. Avenida

Pádua Dias, número 11; 13418-900; Piracicaba, São Paulo, Brasil


*autor correspondente: rjtorrezan@gmail.com

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Trabalho apresentado para obtenção do título de especialista em
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Modelo Canvas aplicado à gestão de escopo de obras residenciais

Resumo
O cotidiano da construção civil voltada à construção de residências convive com a
dificuldade de ajuste entre o montante declarado do cliente e as características da
construção desejada que, sob a ótica da gestão de projetos, recai sobre a gestão de escopo
da construção. É sabido no meio acadêmico que a moderna gestão de projetos está
fortemente ligada à gestão de escopo. Diante dessa problemática, entende-se como
fundamental auxiliar os profissionais da construção, em especial engenheiros e arquitetos,
no que tange ao ajuste do escopo da residência, com uma ferramenta que sintetize e
contraponha o montante declarado e as definições de escopo, e que também apresente o
impacto de determinadas mudanças de escopo no orçamento global, de modo que cliente e
profissional analisem o impacto de cada alteração no custo global da obra e selecionem as
mudanças cabíveis, gerindo dessa forma as mudanças ao longo do período de construção.
Tendo em vista o hiato técnico entre profissional e cliente e as dificuldades inerentes de
comunicação, pretendeu-se com este trabalho produzir uma ferramenta de gestão de
escopo de fácil compreensão, sintetizadora das alterações do escopo e que apresente o
impacto dessas mudanças no custo global da obra, sendo essa representação em formato
de Canvas, a qual se mostrou peculiarmente útil para esse fim, intermediando o ajuste de
escopo de uma residência.
Palavras-chave: (construção civil; gestão de escopo; comunicação; cliente; Canvas).

Introdução
De fato e historicamente, a construção de uma residência perpassa o imaginário
popular. Construir uma habitação envolve, além de recursos financeiros, ideias, sentimentos
e, sobretudo, emoções. Por sua vez, a realização deste sonho, em mãos de engenheiros e
arquitetos, impõe a árdua missão de prospectar a disponibilidade financeira do cliente e
concatenar esse montante com suas expectativas e ansiedades em relação ao escopo do
produto, em termos de área construída, sistema construtivo, padrão de acabamento, entre
outros quesitos, conduzindo à necessidade de uma gestão adequada do escopo do produto,
conforme preconiza o “Project Management Institute” (PMI, 2013), de forma que profissional
contratado e cliente alinhem o montante declarado a características desejadas e cabíveis da
residência. Para tanto, entende-se como indispensável uma gestão visual e condensada do
escopo, de modo que profissional e cliente dialoguem e convirjam sobre o escopo ante ao
montante declarado inicialmente, pois se reconhece a dificuldade de controlar gastos de
construção sem uma ferramenta apropriada.
Identificada esta problemática, estabelece-se o seguinte panorama: um cliente
deseja construir sua residência e contacta um engenheiro civil que, mediante o uso da
representação da gestão do escopo em formato de Canvas, sintetiza e intermedia o
processo iterativo de convergência entre montante declarado e escopo do produto de forma
visual e inteligível.
Segundo a definição do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
(SEBRAE, 2018), o Business Model Canvas, ou apenas Canvas, é uma ferramenta
largamente utilizada para a representação de modelos de negócios, cujo caráter visual

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facilita a compreensão dos fluxos e processos, áreas de conhecimento e partes


interessadas.
Produzida e empregada esta ferramenta, tem-se como consequência um escopo
bem definido, um orçamento descritivo, um cliente esclarecido e um engenheiro ciente de
que a construção atenderá ao montante declarado.
Objetiva-se, portanto, com este trabalho apresentar uma ferramenta de ajuste de
escopo de obras residenciais frente à disponibilidade financeira declarada do cliente, em
formato de Canvas.

Materiais e métodos
Para os fins deste estudo, primeiramente presumiu-se que a relação entre cliente e
engenheiro seja de mútua colaboração, uma vez que a convergência entre escopo e
disponibilidade financeira ocorre mediante o diálogo e a reflexão, em termos qualitativos e
quantitativos, entre os dois stakeholders em destaque. Para este estudo, assumiu-se como
objeto de construção uma edícula de 24,0 m², a construir-se no estado de São Paulo, em
janeiro de 2018.
Primeiramente captou-se a disponibilidade financeira do cliente, mediante o
montante declarado, valor que o cliente está disposto a aplicar na construção de sua
residência.
Posteriormente, por meio de bancos de dados de índices da construção civil, de
largo uso no meio profissional, foram introduzidas estimativas de custos, primeiramente
expeditas e posteriormente descritivas, para esquematizar a definição do escopo inicial, de
acordo com o montante declarado, entrando-se num processo interativo até que o montante
suporte a caracterização primária da construção.
Uma vez aprovado o escopo inicial da construção, montou-se uma apresentação em
Canvas, representando-se o montante declarado do cliente e os custos expedito e descritivo
da obra. Em seguida, introduziram-se alterações pontuais do escopo, com os impactos
traduzidos em variação do custo global por pacote de serviços, apresentadas no Canvas. A
ferramenta permitiu a análise da viabilidade econômica e abriu campo para uma ferramenta
que se utiliza de processos iterativos de ajuste do escopo. Um sequenciamento de fichas de
Canvas configura-se, desse modo, um documento do histórico de mutação e gerenciamento
do escopo.
Finalizado o Canvas, para o exemplo proposto, apresentou-se a ferramenta como
aplicável a vários portes e finalidades de construção, podendo-se inclusive estender seu uso
a produtos de naturezas diversas.

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Resultados e discussões

Conforme introduzido, a primeira etapa para produção do Canvas é a declaração do


montante declarado do cliente, na qual ele afirma o quanto está disposto a gastar com a
construção. Para fins de simplificação deste trabalho, admitem-se como gastos apenas
aqueles relativos à construção em si, descartando-se considerações a respeito de gastos
com os honorários de engenheiro, gastos cartorários, etc, focalizando este estudo nos
aspectos fundamentais do produto. Outrossim, admite-se que o cliente dispõe do terreno
para a construção.
Desse modo, entrevista-se o cliente a respeito do quanto está disposto a gastar com
a construção, obtendo-se um montante M. Em seguida, realiza-se uma prospecção quanto
às características básicas desejadas para a residência, com a finalidade de quantificar, de
forma expedita, o custo de construção. Este custo pode ser obtido por meio do conceito de
Custo Unitário Básico [CUB], que é um índice dado pela unidade R$ m-2, ou seja, o quanto
custa, em reais, a construção de um metro quadrado. Este índice pode ser obtido através
dos bancos de dados do Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção
Civil [SINAPI], segundo os seus cinco fatores influenciadores da concepção geral da
construção: localidade; data de início da construção; área equivalente construída; projeto
padrão de referência e padrão de acabamento. Aplica-se também o conceito de Benefícios e
Despesas Indiretas [BDI], que agrega ao custo de construção as despesas relativas a
diversos serviços necessários à viabilização da obra e que fogem ao escopo do produto,
sendo este valor em torno de 25%. Portanto, calcula-se o Custo da Obra [CO], conforme a
equação 1:
𝐶𝑢𝑠𝑡𝑜 𝑑𝑎 𝑂𝑏𝑟𝑎 = Á𝑟𝑒𝑎𝑒𝑞𝑢𝑖𝑣𝑎𝑙𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑥 𝐶𝑈𝐵 𝑥 𝐵𝐷𝐼 (1)
Á𝑟𝑒𝑎𝑒𝑞𝑢𝑖𝑣𝑎𝑙𝑒𝑛𝑡𝑒 = Á𝑟𝑒𝑎𝑖𝑛𝑡𝑒𝑟𝑛𝑎 + 0,5 𝑥 Á𝑟𝑒𝑎𝑐𝑜𝑏𝑒𝑟𝑡𝑎 (2)
onde, Áreaequivalente: é a área normalizada de construção; Áreacoberta: é a área externa coberta.
A equação 2 apresenta o conceito de área equivalente, que normaliza a área coberta
em relação à área interna, pois de praxe se assume que o CUB de uma área interna é maior
que o CUB de uma área coberta externa. O fator de normalização empregado comumente é
de 50%.
Assim, definidos o M e o CO, esses valores são comparados e, caso aquele seja
menor do que este entra-se num processo iterativo, no qual o cliente altera os fatores
influenciadores do CUB, até que o montante seja menor que o CO, conforme algoritmo
exemplificado na Figura 1. Se já na primeira análise concluir-se que M>CO, segue-se o
dimensionamento dos custos, caso contrário redefine-se o valor do CO por meio da
redefinição dos fatores influenciadores do CUB, ou seja, redefine-se a concepção geral da

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construção, entrando-se no processo iterativo proposto da Figura 1, sendo de suma


importância a preservação da concepção de construção desejada pelo cliente.
Por prudência, pode-se estabelecer que o CO não ultrapasse 75% do montante, a
fim de garantir que eventuais alterações posteriores do escopo do produto não ultrapassem
o montante declarado.
Uma vez redefinido o valor do CO, saindo-se do processo iterativo, chega-se a um
ajuste claro das características fundamentais da residência, que expressam a construção
que o cliente tem condições de arcar. Desse modo, os passos adiante levam em conta essa
caracterização.

Figura 1. Algoritmo de definição do Custo da Obra ante o montante declarado


Fonte: Resultados originais da pesquisa

Tendo em vista a problemática de que comumente o escopo do produto sofre


variações ao longo da projeção e construção de uma residência, entende-se como
primordial uma caracterização mais descritiva do escopo, com vistas a quantificar por
conjuntos de serviços executáveis os gastos da construção, de modo que, ao analisarem-se
alterações de escopo, analisem-se como se distribuem os gastos por “pacote” de serviços.
Regularmente, uma obra residencial possui os nove pacotes de serviços de construção
abaixo, havendo variações conforme a demanda específica de cada residência:
▪ Serviços preliminares;
▪ Fundação;
▪ Superestrutura;
▪ Esquadrias;

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▪ Instalações hidráulico-sanitárias;
▪ Instalações elétricas;
▪ Pintura;
▪ Acabamento;
▪ Demolições e retiradas;
Assim, definidos os pacotes, o profissional passa ao orçamento descritivo estimativo,
no qual se desmembram os pacotes em seus serviços isolados, com a finalidade de
quantificar o CO de forma detalhada. Para essa estimativa, são consultados os bancos de
dados de referência da construção civil, dentre os quais o já mencionado SINAPI, a
Companhia Paulista de Obras e Serviços [CPOS], a Secretaria Municipal de Infraestrutura
Urbana e Obras da Prefeitura da Cidade de São Paulo [SIURB], dentre outros. Esses
bancos de dados são referência nacional na estimativa de custos da construção, pois, por
meio de composições, estimam, por unidade de aferição, os custos de mão de obra e de
materiais, para cada serviço da construção. A Tabela 1 exemplifica uma composição tomada
do SINAPI (2018), para a quantificação dos custos relativos ao serviço de execução de um
metro quadrado de piso cerâmico, na qual se encontram computados as unidades de
medição dos custos de mão de obra (azulejista e servente) e dos custos de materiais (piso
cerâmico, argamassa e rejunte), parametrizados em torno da unidade de medição m².
Segundo o mesmo boletim, o valor unitário dessa composição é de R$ 43,73 m-2, ou seja,
para o caso hipotético de uma área de 100 m² de piso cerâmico, o custo de execução seria
de R$ 4373,00.

Tabela 1. Composição de mão de obra e insumos para assentamento de pisos


Item Código Componentes un Índice
Revestimento cerâmico para piso com
Piso 93389 m²
placas tipo esmaltado
Insumo 1297 Piso em cerâmica esmaltada m² 1,0800000
Insumo 1381 Argamassa colante AC I para cerâmicas kg 4,8600000
Insumo 34357 Rejunte colorido, cimentício kg 0,2400000
Comp 88256 Azulejista h 0,6400000
Comp 88316 Servente com encargos complementares h 0,2600000
Fonte: SINAPI (2018)

Desse modo, por meio deste artifício, quantificam-se, serviço a serviço, os custos da
construção. Portanto, para estimar o custo global da obra, tabulam-se todos os serviços
necessários à construção, de acordo com as composições dos bancos de dados descritos
acima ou de outros, de reconhecida confiabilidade. Para estimar os quantitativos de
execução de cada serviço, empregam-se memórias de cálculo, que garantem a conferência
desses valores. Sugere-se a Tabela 2, na qual os serviços estão classificados em pacotes,
discriminados pelo código e descrição do item, pela fonte, pela unidade de medição, pelo

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custo unitário do item, pelo quantitativo e pelo custo de execução correspondente ao item,
de acordo com as colunas da tabela. Desse modo, tem-se uma tabulação que discrimina e
quantifica item por item e pacote por pacote os custos da construção, facilitando ao
profissional o processo de cálculo.
Uma vez computado o CO pela primeira vez, chega-se ao primeiro comparativo do
montante declarado com o custo total da obra. Sabendo que o processo de convergência do
escopo é iterativo, elabora-se um mecanismo de análise da influência de alterações do
escopo no custo global, individualizando a influência de cada pacote na variação do custo
global. Seguindo a nomenclatura da Tabela 2, pode-se tabular as variações por pacote,
conforme a Tabela 3, onde ΔC representa a variação do custo global e cada ΔCi representa
a variação do custo dos pacotes da obra, sendo as células preenchidas por valores decimais
ou porcentagens (x100). Ainda, pode-se empregar essa tabulação para analisar o impacto
de sub-pacotes no valor global, refinando a análise.

Tabela 2. Modelo de tabulação do custo global da construção


Continua
Preço Total
Item Código Descrição Fonte un Quant
(R$ un-1) (R$)
1 Serviços Preliminares
1.1
1.i
Total
2 Fundação
2.1
2.i
Total
3 Superestruturas
3.1
3.i
Total
4 Esquadrias
4.1
4.i
Total
5 Instalações hidráulico-sanitárias
5.1
5.i
Total
6 Instalações elétricas
6.1
6.i
Total

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Tabela 2. Modelo de tabulação do custo global da construção


Conclusão
Preço Total
Item Código Descrição Fonte un Quant
(R$ un-1) (R$)

7 Pintura
7.1
7.i
Total
8 Acabamento
8.1
8.i
Total
9 Limpeza
9.1
9.i
Total
Custo total da obra
Fonte: Resultados originais da pesquisa

Tabela 3. Variações do custo global por pacotes de serviços


Δ𝐶1 Δ𝐶2 Δ𝐶... Δ𝐶9
(Δ𝐶-1) x
Δ%1 Δ%2 Δ%... Δ%9
Fonte: Resultados originais da pesquisa

Desse modo, há recursos para analisar os impactos de cada alteração de escopo no


custo total da obra, servindo de guia às tomadas de decisão por parte de engenheiro e
cliente. Assim, passa-se à confecção da representação em formato de Canvas, que para
fins de apresentação e exemplificação, será montado a partir do exemplo de construção de
uma edícula, podendo ser expandido a qualquer tipo e porte de construção.
Conforme mencionado, aplicou-se o modelo apresentado a uma edícula, com a
finalidade de exemplificar sua utilização. A edícula consiste numa construção com quatro
ambientes: sala, cozinha, banheiro e quarto. Esta construção perfaz uma área construída de
24,0 m², sendo a maior dimensão 8,0 m e a menor, 3,0 m. Admitindo que não haja área
externa coberta, a área equivalente de construção é a área a construir, conforme equação 2.
O primeiro passo é prospectar junto ao cliente o montante declarado que está
disposto a gastar com a construção da residência. Admite-se, para esta exemplificação, que
o cliente dispõe de R$ 45.000,00 (M).
O segundo passo é encontrar o CO, a partir da adoção do valor do CUB, para
estimá-lo de forma expedita. Para obter o valor do CUB, adotaram-se os seguintes
influenciadores: obra localizada no estado de São Paulo, área equivalente construída de

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24,0m², projeto padrão de referência CR.1-3Q e padrão de acabamento normal. Com esses
parâmetros, no banco de dados do SINAPI (2018), obtém-se um CUB de R$1214,91.
Assim exposto, calcula-se o custo global da obra, aplicando-se um BDI de 25%:
𝐶𝑢𝑠𝑡𝑜 𝑑𝑎 𝑂𝑏𝑟𝑎 = Á𝑟𝑒𝑎𝑒𝑞𝑢𝑖𝑣𝑎𝑙𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑥 𝐶𝑈𝐵 𝑥 𝐵𝐷𝐼
𝐶𝑢𝑠𝑡𝑜 𝑑𝑎 𝑂𝑏𝑟𝑎 = 24,0 𝑥 1214,91 𝑥 1,25 = 𝑅$ 36447,30
Portanto, a estimativa o CO é de R$ 36447,30 para a construção da edícula. A
seguir, define-se o orçamento descritivo, que fornece uma estimativa mais precisa e
discrimina os custos por pacotes, conforme Tabela 4. Os valores unitários foram retirados do
SINAPI (2018) e do CPOS (2018).

Tabela 4. Orçamento descritivo estimativo da edícula, para janeiro de 2018


Continua
Preço Total
Item Código Descrição Fonte un (R$ un-1) Quant
(R$)
1 Serviços Preliminares
1.1 06.11.020 Reaterro para regularização CPOS m³ 6,81 100,00 681,25
1.i 02.03.260 Tapume fixo espessura 10 mm CPOS m² 72,41 10,00 724,13
Total 3205,30
2 Fundação
2.1 93358 Escavação manual de valas SINAPI m³ 87,18 1,23 106,81
2.i 74156/003 Estaca a trado (broca) d=20cm SINAPI m 62,21 39,00 2426,29
Total 4250,06
3 Superestruturas
3.1 87473 Alvenaria cerâmica (esp.14 cm) SINAPI m² 63,29 24,00 1518,90
3.i 92267 Fabricação de fôrma para lajes SINAPI m² 25,85 19,70 509,25
Total 5698,05
4 Esquadrias
4.1 25.01.360 Caixilho em alumínio maximar CPOS m² 936,39 0,28 262,19
4.i 90844 Porta de madeira 90 cm de vão SINAPI un 999,95 2,00 1999,90
Total 3253,33
5 Instalações hidráulico-sanitárias
5.1 48.02.001 Reservatório fibra vidro 500L CPOS un 306,76 1,00 306,76
5.i 86943 Lavatório louça branca SINAPI un 217,96 1,00 217,96
Total 2556,98
6 Instalações elétricas
6.1 91994 Tomada média (1 módulo), 10A SINAPI un 24,85 10,00 248,50
6.i 97593 Luminária tipo Spot, 1L de 15W SINAPI un 86,14 5,00 430,69
Total 2416,56
7 Pintura
7.1 88486 Pintura PVA teto SINAPI m² 11,19 19,70 220,39
7.i 88489 Pintura látex acrílica paredes SINAPI m² 12,64 98,10 1239,74
Total 1726,11

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Tabela 4. Orçamento descritivo estimativo da edícula, para janeiro de 2018


Conclusão
Preço Total
Item Código Descrição Fonte un (R$ un-1) Quant
(R$)
8 Acabamento
8.1 18.08.090 Piso cerâmico CPOS m² 43,73 19,70 861,48
8.i 95546 Kit para banheiro em metal SINAPI un 126,56 1,00 126,56
Total 5355,68
9 Demolições e retiradas
9.1 05.07.040 Carga e descarga de entulho CPOS m³ 103,25 5,00 516,25
9.i 55.01.020 Limpeza final da obra CPOS m² 11,10 100,00 1110,00
Total 1912,53
Custo total da obra 30374,60
Fonte: Resultados originais da pesquisa
Segundo a Tabela 4, o Custo da Obra é de R$ 30374,60, que corresponde a 83,3%
do montante declarado, desse modo, entende-se que o orçamento está bem dimensionado,
tendo em vista o padrão de construção assumido durante a estimativa expedita do CO.
Caso o CO calculado conforme a Tabela 4 extrapole o montante, ou se aproxime demais,
deve-se reconsiderar o padrão da construção ou a disponibilidade financeira.
Uma vez admitido que o CO é menor que o Montante, têm-se as informações
necessárias para a confecção da primeira versão do Canvas.
Sabe-se que, ao longo da construção de uma residência, suas características podem
mudar conforme interveniências diversas. Para este exemplo, separemos dois itens
geradores de mudanças significativas na estimativa do CO: tipo de piso e ar-condicionado.
Supõe-se que o cliente decide trocar o item “piso cerâmico” por “piso porcelanato”, o
preço unitário de antes R$ 43,73 (CPOS, 2018) e passa para R$ 93,29 (CPOS, 2018),
sabendo que o quantitativo desse item (pacote 8) é de 19,70 m², tem-se que o acréscimo de
CO, para este item, é de:
𝛥𝐶𝑂8 = (93,29 − 43,73)𝑥 19,70 = 𝑅$ 976,33
Já a respeito do ar-condicionado, admitindo o acréscimo de um aparelho Split com
capacidade de 9.000 BTU h-1 (pacote 5), no valor unitário de R$ 2559,58 (CPOS, 2018),
ocorre outro acréscimo de CO:
𝛥𝐶𝑂5 = 1 𝑥 2559,58 = 𝑅$ 2559,58
Desse modo, em posse dessas informações pode-se passar à montagem do
Canvas.

Montando o Canvas da construção da edícula

O Canvas é uma representação utilizada para apresentar o modelo de negócios de


um projeto, com vistas a condensar o plano de negócios num único papel, permitindo que as

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partes interessadas façam uma análise sucinta do plano. Com o mesmo objetivo, utiliza-se
essa representação para a ferramenta de ajuste de escopo proposta. A Figura 2 apresenta a
primeira cartilha do Canvas, passando-se a explicar o significado das informações inseridas,
a forma como se relacionam entre si e orientam a tomada de decisões a respeito do ajuste.
No topo do Canvas, está registrado o título da ferramenta, seguida da numeração da
cartilha. A Figura 2 apresenta a cartilha n°1, admitindo que as alterações de escopo
mencionadas anteriormente configurem o primeiro ajuste de escopo.
Em seguida constam os cálculos e o dimensionamento do custo expedito da
estimativa. Nesse ponto estão arrolados os parâmetros influenciadores dessa estimativa,
como: o valor da área equivalente de construção, que no caso é de 24,0 m²; padrão de
acabamento, que influencia significativamente a estimativa do custo, no caso é padrão
normal; o escopo-base que é uma descrição das características da planta-baixa da
construção, descrevendo-se o tipo de construção e os cômodos; o valor do montante
declarado pelo cliente, para ser o valor limítrofe do custo descritivo; por fim, a duração, em
dias, prevista para a construção.

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Figura 2. Canvas de ajuste de escopo da construção da edícula


Fonte: Resultados originais da pesquisa
Uma vez registrado o custo expedito da concepção geral, passa-se ao custo
descritivo do escopo n°1, que expõe o custo estimado para cada pacote de serviço.

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Conforme nota-se da Figura 2, há nove pacotes de serviços. Empregando-se os


bancos de dados já mencionados, produziu-se a Tabela 4 e esta se condensa no Canvas
nos nove pacotes elencados com seus respectivos custos estimados. Cada pacote abarca
um conjunto de serviços e, por conseguinte, de características da edificação. Somando os
custos dos nove pacotes, encontra-se um custo descritivo da construção, custo da obra, de
R$30374,60 que, comparativamente ao valor do montante declarado, é menor, conforme
razão entre montante e custo da obra, que fornece um índice de 1,20, indicando que há uma
folga de 20% de recursos para possíveis alterações de escopo. Desse modo, explica-se a
primeira metade do Canvas, que é uma declaração financeira do escopo. A segunda
metade traduz-se numa declaração de ajuste de escopo.
Como já discutido, o escopo sofreu alterações, pois o piso cerâmico foi trocado por
piso porcelanato e introduziu-se uma unidade de ar-condicionado, gerando impactos nas
estimativas do custo descritivo. Na ferramenta, os pacotes alterados são indicados com as
respectivas modificações, no caso, pacote 5 (instalações hidráulico-sanitárias) e pacote 8
(acabamento), com os acréscimos e/ou decréscimos de custo. Por meio desse segmento do
Canvas, o engenheiro pode apresentar de forma sucinta ao cliente o impacto isolado de
cada alteração no custo global, levando-o a refletir sobre a viabilidade ou não de cada
mudança. Por fim, tem-se o somatório dos custos das modificações pretendidas, dando uma
visão do quanto custará o ajuste de escopo em relação ao escopo-base anterior. No caso, a
nova relação de viabilidade deu um valor de 1,08, ou seja, ainda existirá uma folga de 8%
em relação ao montante declarado do cliente caso todas as modificações sejam impostas,
mas nada impede que algumas mudanças sejam descartadas, dando uma folga maior a
esse índice.
No exemplo em questão, o cliente autoriza as modificações do escopo, desse modo,
o escopo deve ser ajustado e, portanto, o novo custo descritivo da obra será de
R$33668,79. Desse modo, gera-se uma nova cartilha do Canvas, no caso, cartilha n°2, na
qual o segmento “custo descritivo do escopo n°2” contará com o novo escopo-base, com os
pacotes 5 e 8 já com seus valores reajustados, havendo assim a arena disponível para uma
nova rodada de discussões acerca do escopo da edificação.
Assim, por meio desse procedimento, intermedia-se uma sucessão de discussões
sobre levantamentos de novas necessidades, suas quantificações em termos de custos,
suas avaliações e, por fim, suas decisões. O conjunto de cartilhas que forma um registro
precioso da evolução do escopo ao longo do tempo do projeto, de modo que o profissional
estará seguro de que o cliente participou efetivamente das análises a respeito de escopo e
de custos da construção. De fato, quanto menor o número de cartilhas, mais facilmente será
a execução dos serviços.

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Obviamente existe a possibilidade de o cliente, num dado momento, desejar


alterações que inviabilizem a consecução da obra. Neste caso, caberá ao profissional fazer
uma análise daquelas alterações indispensáveis e daquelas que são superficiais, de modo a
redefinir a alteração de escopo e, assim, obter um novo escopo-base financeiramente viável
e apreciável ao cliente.
Outro caso crítico será quando o cliente desejar uma redefinição da concepção geral
da edificação, por exemplo, passar de uma casa térrea para um sobrado, o que implicará
numa nova cartilha de Canvas.

Conclusão

A construção civil convive com a problemática da gestão de escopo, haja vista que
frequentemente a construção possui restrição orçamentária e, uma vez não gerida
criteriosamente, poderá implicar no congelamento do projeto, cancelamento ou queda no
padrão de qualidade. Desse modo, buscou-se apresentar uma ferramenta de ajuste de
escopo que enfrenta a disponibilidade financeira enunciada de antemão, voltada a obras
residenciais, exemplificando-se sua utilização para o caso específico de uma edícula,
ressaltando-se que esta ferramenta é cabível para qualquer tipo e porte de construção,
dimensionando-se o grau de especificação do Canvas para cada caso.
A ferramenta proposta sintetiza as diversas informações envolvidas na análise da
viabilidade econômica da construção, pois conforme visto, começa-se com o registro da
estimativa expedita do custo da construção, que comparada ao montante declarado, orienta
na idealização do tipo e porte da construção. Em seguida apresenta-se a estimativa
descritiva do custo da construção, por meio da definição do escopo do produto e da
segmentação dos custos por pacotes de serviços. Esta fase permite a discussão
pormenorizada dos materiais e sistemas construtivos, sendo a etapa mais laboriosa, pois ela
é o pontapé do processo iterativo. Uma vez definido esta primeira metade do Canvas,
procede-se com a consecução das discussões, que podem gerar alterações do escopo. A
segunda metade do Canvas apresenta o registro das mudanças pretendidas, com os
respectivos impactos nos custos dos pacotes e, por consequência, no custo global da
construção, permitindo a análise de viabilidade econômica sem, contudo, haver
compromisso de que essas mudanças realmente ocorram. Uma vez aprovadas do ponto de
vista financeiro, as mudanças pretendidas são dialogadas e são assimiladas somente
aquelas que resistirem às avaliações. O histórico de discussões forma um caderno de fichas
que relatam a gestação do escopo do produto, servindo de orientação ao profissional que

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Trabalho apresentado para obtenção do título de especialista em
Gestão de Projetos – 2018

conduz o projeto e guiando-o na tomada de decisões junto ao cliente, permitindo assim a


participação ativa da principal parte interessada.
O Canvas de ajuste também pode ser aplicado a projetos de maior parte e
finalidades diversas, sendo introduzido à gestão de mudanças e permitindo a participação
de todos os envolvidos na matriz de responsabilidades.
Ademais, entende-se que esta ferramenta é aplicável a diversos tipos de produtos.
Por meio do ajuste do escopo, aproxima-se o produto daquelas características esperadas e
inegociáveis do ponto de vista do cliente.

Referências
Companhia Paulista de Obras e Serviços [CPOS]. 2018. Boletim Referencial de Custos –
Tabela de Serviços com Desoneração. Disponível em:
<http://boletim.cpos.sp.gov.br/cns_download_documento/cns_download_documento_doc.ph
p?script_case_init=803&script_case_session=7g601hoka1k9h71qtgjru19ov5&nm_cod_doc=
4&nm_nome_doc=U0VSVklDT1NDRF8xNzEucGRm&nm_cod_apl=cns_download_documen
to>. Acesso em: 15 agosto 2018.

Maximiano, A. C. A. 2016. Administração de projetos: como transformar ideias em


resultados. 5ed. Atlas, São Paulo, Brasil.

Project Management Institute [PMI]. 2013. Um guia do conhecimento em gerenciamento de


projetos (Guia PMBok). 5ed. Project Management Institute.

Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas [SEBRAE]. 2018. Canvas:


como estruturar seu modelo de negócios. Disponível em:
<https://www.sebraepr.com.br/como-estruturar-seu-modelo-de-negocio>. Acesso em: 21
dezembro 2018.

Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil [SINAPI]. 2018.


Custo de Composições - Sintético. Disponível em:
<http://www.caixa.gov.br/Downloads/sinapi-a-partir-jul-2009-
sp/SINAPI_ref_Insumos_Composicoes_SP_01a062018.zip>. Acesso em: 15 agosto 2018.

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