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CHARGE POLÍTICA: UMA ANÁLISE DO DISCURSO

Jesse Kelly Pereira de Souza


Leonardo Santos Pereira
Nadine Gubert Dalla Senta
Paloma Fonseca de Oliveira
Departamento de Letras Vernáculas - Universidade Federal da Bahia

Resumo

Este documento apresenta o trabalho final da disciplina LETA-28 - Introdução a Análise


Textual, ministrada pela professora Dra. Iraneide Costa, na Universidade Federal da
Bahia. Consiste em uma especificidade de um objeto teórico da Análise do Discurso e a
sua aplicação na análise de uma charge. Buscando exemplificar o posicionamento do
sujeito perante a ideologia, nos efeitos de sentidos que ela nos traz e que são
materializados no discurso.

1. Introdução

A construção da Análise do Discurso Materialista (ou Pecheutiana) que temos hoje se


deu através da junção dos três campos do saber: a Linguística, a Psicanálise e o
Marxismo. Ao tratar da Linguística, Pêcheux retoma Saussure e questiona o
posicionamento do Estruturalismo quanto à questão do sujeito e a história. Saussure vai
separar os dois e considerar a língua como um sistema, mas para Pêcheux “a língua
deixa de ser compreendida como tendo a função de exprimir sentido” quando é
colocada na posição de sistema, sendo assim, para a AD a língua não é transparente e
não há separação do sujeito da história. Ao tratar da Psicanálise, Freud será retomado
por Lacan, onde o inconsciente sofre uma “manipulação” da linguagem (a ideologia está
nesse inconsciente) e não é a linguagem sozinha que externaliza como Freud explica.
Por fim, o Marxismo vai ser retomado por Althusser numa releitura de Marx, onde a
ideologia é uma existência material (de onde provém o nome da AD).
A Análise do Discurso vai criticar e refletir sobre a língua, suas manifestações, a
ideologia e seus sujeitos. “Não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o
indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido”
(PÊCHEUX, 1975). Para Pêcheux, a ideologia é a constituição de sentido dos
enunciados e dos sujeitos, ela vai se materializar no discurso e esse, na língua. Ou seja,
a ideologia “não é x é o processo de produzir x” (ORLANDI, 1995) e assim, temos o
conceito de ‘condições de produção’ em que o discurso é o efeito de sentido que tem
entre os interlocutores. O sujeito não é livre, em determinada situação o seu dizer já está
sendo afetado por todos os dizeres que foram se construindo historicamente,
dependendo de sua posição discursiva que pode ocupar em função da sua ideologia.

Então, a ideologia “não é ocultação, mas função necessária entre língua e mundo”
(ORLANDI, 1997) é o que vai estar entre o sujeito e tudo aquilo que influencia na
produção do seu discurso.

2. Ideologia

Segundo MARX & ENGELS (2002), ideologia é conjunto de ideias que procura ocultar
a sua própria origem nos interesses sociais de um grupo particular da sociedade. Para
Marx, ideologia pode ser considerada como um instrumento de dominação que age
através do convencimento e não da força, de forma prescritiva, sendo uma forma de
alienação da consciência humana e de mascarar a realidade. Dessa forma, o conceito de
ideologia aparece em Marx como a falsa consciência, uma ilusão em que a realidade é
maquiada. Essa falsa consciência camufla a realidade para os ideais ou vontades da
classe dominante.

Depois de Marx, vários outros pensadores abordaram a temática da ideologia. Karl


Korsch (1886 - 1961),  filósofo alemão, professor universitário, representante do
chamado "marxismo ocidental" e Georg Lukács (1885 -1971) filósofo húngaro de
grande importância no cenário intelectual do século XX, por exemplo, mantiveram a
concepção original de Marx, mas outros nomes importantes passaram a abordar
ideologia como sendo sinônimo de “visão de mundo”, inclusive alguns pensadores que
se diziam marxistas, como Lênin (1870 – 1924) no Marxismo posterior a Marx, ele foi
um revolucionário comunista, político e teórico político russo, conceituava ideologia
como qualquer concepção da realidade social ou política, vinculada aos interesses de
certas classes sociais particulares.

Segundo ORLANDI (2001), um dos pontos fortes da Análise de Discurso é de re-


significar a noção de ideologia a partir da consideração da linguagem. Por não haver
sentido sem interpretação e para que se chegue a uma interpretação propriamente dita, é
necessário que o indivíduo se questione “o que isso quer dizer?”, dessa forma verifica-
se que cada discurso parte de uma ideologia. Orlandi dá destaque a formas de
esquecimento, esses esquecimentos são considerados importantes por possuírem papel
fundamental na cristalização dos sentidos, responsáveis por criar a ideia de sujeito pleno
e que possui controle no que diz e pensa, provocando o efeito de língua como sistema
transparente e produtor de sentidos evidentes.

Um dos esquecimentos trazidos pela autora é o chamado esquecimento ideológico.


Esse, ocorre quando o sujeito pensa ser a fonte do sentido quando, na verdade, ele
apenas retoma sentidos já ditos antes, esse efeito é fruto do trabalho do inconsciente e
da ideologia. A noção de ideologia de acordo com a autora Orlandi (1997), na ordem
discursiva é “de produzir evidências, colocando o homem na relação imaginária como
suas condições materiais de existência” (p.46). Ao mesmo tempo que produz
evidências, a ideologia, “dissimula sua existência a partir de seu próprio
funcionamento” (p. 46), criando a já mencionada ilusão da transparência dos sentidos a
partir do apagamento da determinante parte da formação discursiva. Dessa forma, “a
ideologia não é ocultação, mas função necessária entre língua e mundo” (p. 47).

A ideologia, por ser uma concepção de mundo do sujeito em um grupo social, época ou
status no qual esteja inserido, materializa-se no discurso e este é materializado pela
linguagem (sendo esta verbal ou não-verbal). As formações ideológicas é que dão
significado às falas dos interlocutores.

3. Condições de produção

As condições de produção são aspectos históricos, ideológicos e sociais que envolvem o


sujeito e o discurso ou que determinam a produção do mesmo. Este conceito parte da
ideia de que já não é mais possível atribuir ao sujeito e apenas a ele a produção de suas
falas, mas também à sua situação social, quebrando assim os paradigmas anteriores que
o centralizavam como fonte do discurso. É importante lembrar que, na Análise do
Discurso, “sujeito” refere-se não ao sujeito empírico, mas ao sujeito discursivo. O
sujeito discursivo deve ser compreendido através de sua historicidade, como uma
entidade dotada de memória e como portadora de ideologia, diferentemente do
empírico, do qual temos uma concepção descontextualizada, atemporal e biológica.
Dessa forma, as relações entre os enunciados e relaç

A noção de condições de produção é norteada por dois conceitos: sentido estrito e


sentido amplo. Em sentido estrito, pode-se dizer que as condições de produção seriam
as circunstâncias de enunciação, aquelas que levariam em conta o contexto imediato, o
aqui e agora. Já em sentido amplo, seriam incluídos diversos contextos, dentre eles o
ideológico, o sócio-histórico e o cultural. Segundo Ferreira (2001), as condições de
produção fazem parte da exterioridade da língua e são responsáveis pelo
estabelecimento das relações de força no interior do discurso, mantendo uma relação
necessária com a linguagem, pois constituem, com ela, o sentido do texto. Mas o que
seriam essas relações de força?

De acordo com Fonseca (2010), relações de força seriam envoltas na proposta


pecheutiana sobre condições de produção, permeando as práticas discursivas. Tais
relações seriam resultado dos contrastes, desigualdades e discrepâncias entre homens
(inclusive aqueles relacionados ao status social, ao poder e aos lugares ocupados),
servindo assim de base para a produção social. No entanto, é importante considerar que
essas relações não são estáticas, imperecíveis, perpétuas. Através das práticas citadas
pelo autor (ruptura, tensionamento, reacomodação e alteração na ordem instituída destes
lugares) (p. 2), é possível instituir figurações e transfigurações das relações de força e
posições de poder, bem como o discurso, ao ser materializado na linguagem, é capaz de
gerar uma ressignificação, uma quebra de paradigmas.

4. Análise

Segundo Orlandi (2001, pág.15) “o estudo do discurso observa-se o homem falando, o


discurso”. Logo, entende-se que discurso é o que move o homem. Sua análise ocorre
considerando a produção de sentido, a partir da relação entre língua, sujeito e a situação
em que se produz o dizer. Orlandi discute a noção de ideologia. Para isso, pontua sobre
o modo que é concebida pelas ciências humanas e sociais. Como essas ciências
consideram que a linguagem é transparente, elas visam os conteúdos ideológicos,
compreendendo a ideologia como ocultação. Assim, essas ciências pensam que se
podem descobrir os “verdadeiros” sentidos do discurso que estariam escondidos; Em
nosso trabalho de análise, não é preocupação e fator primordial encontra o verdadeiro
sentido do texto, ou único, mas analisar e expor os resultados desta minuciosa pesquisa.
No discurso observa-se a relação entre língua e ideologia. Tem-se então, língua-
discurso-ideologia, no qual a ideologia se materializa no discurso e o discurso se
materializa na língua.

A noção de discurso se relaciona a efeito de sentido entre locutores, teremos um


processo de constituição dos sujeitos e produção dos sentidos.

O objeto de estudo, neste artigo, é a Charge, logo abaixo, cuja temática é a política.
Analisou-se, por meio da teoria da Análise de Discurso seus elementos constituintes,
além dos efeitos de sentido produzidos, presentes no texto e aspectos ligados a
exterioridade.

Fonte: https://michellyribeiro.com/2011/06/22/um-pais-que-se-cansou-do-mais-ou-menos/charge-
politica-humor1/
Observa-se na charge uma situação política humorizada, na qual temos um discurso de
um candidato à eleição. Todo e qualquer político nos traz a memória um Sujeito
corrupto, que não cumpre o que diz e que não se pode confiar. Temos dois efeitos de
sentido produzidos pela fala do candidato: primeiro, quando diz “neste bolso nunca
entrou dinheiro público”, dar-se a entender, para aqueles que não conhecem todo o
contexto dos políticos, que este é um político honesto e que jamais iria usar o dinheiro
público para gastos pessoais. O segundo efeito de sentido é justamente quando o eleitor
tem conhecimento do histórico político e sabe que não se pode confiar, isso fica claro na
fala do eleitor na Charge quando diz “tá de calça nova, né?”.

Percebe-se que o sentido não está apenas no texto, mas ligada à exterioridade, nas
condições em que são produzidos. As condições de produção se dão pela relação entre
sujeito, a situação e memória. Podemos perceber na charge a condição de produção no
sentido estrito pelo contexto imediato como observamos, por exemplo, o candidato que
está se elegendo, o local onde acontece esse discurso político, os sujeitos que ali estão e
o momento da propaganda. Podemos identificar o sentido amplo através dos elementos
que produzem efeitos de sentido, tão marcados e identificados em nossa sociedade, por
exemplo: o modo como se elege representante (avaliação de suas propostas, histórico de
vida político e pessoal) e a organização do poder, por meio da hierarquia ou posições.

Por fim, a história, a produção de acontecimentos que tem um significado subentendido


e que afeta o sujeito não está contida de forma explícita na charge, como elementos que
indiquem se o candidato é de direita ou esquerda. Saber isso afetaria e teria um impacto
maior na quantidade de eleitores contra ou favor.

O interdiscurso disponibiliza dizeres que afeta o modo como o sujeito significa em uma
situação discursiva dada (Orlandi, 2001, pág. 31). O discurso ou pronunciamento do
candidato é algo marcado em nossa sociedade como mentiras e promessa que não serão
cumpridas (os sentidos que são mobilizados pelo sujeito que produz tal enunciado), ou,
até mesmo, o sentido por detrás do discurso “neste bolso nunca entrou dinheiro
público”. Quando se ouve do político seu desuso do dinheiro público para fins pessoais,
se torna inacreditável, por mais que se trabalhe em prol da sociedade porque já é
concebido como um discurso falso.

5. Conclusão
A partir do discutido, pudemos observar que as condições de produção, o sujeito,
a ideologia, os efeitos de sentido e todos os demais conceitos da AD acabam por formar
uma “teia” na qual se insere todo e qualquer discurso. Analisar um discurso por um viés
simplista ou acreditar que um discurso não possui uma ideologia e um posicionamento
histórico, social ou cultural é inválido, bem como acreditar que um sujeito, enquanto
inserido numa condição de produção, não esteja também propagando uma ideologia,
que será materializada linguisticamente por meio de um discurso.

Referências

FERNANDES, Cleudemar Alves. Análise do discurso: reflexões introdutórias. 2 ed.


São Carlos: Editora: Claraluz, 2008.

FERREIRA, Maria Cristina Leandro (coord.). Glossário de Termos do Discurso. Porto


Alegre:UFRGS, Instituto de Letras, 2001.

FONSECA, Rodrigo Oliveira. Condições de Produção do discurso e formações


discursivas: uma proposta de abordagem da práxis discursiva. Revista Icarahy, ed. 04,
out., 2010.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã (Feuerbach). São Paulo:


Hucitec, 2002.

ORLANDI, E. P. Discurso, imaginário social e conhecimento. Texto não publicado.


1995.

ORLANDI, E. P. em: As formas do silêncio no movimento dos sentidos. Campinas:


Editora da Unicamp, 1997.

ORLANDI, E. P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas, SP:


Pontes, 2001.

ORLANDI, Eni & LAGAZZI-RODRIGUES, Suzy (orgs). Introdução às Ciências da.


Linguagem. Discurso e textualidade. Campinas, Pontes, 2006

PÊCHEUX. M. (1975). Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio.


Tradução de Eni P. Orlandi [et al.]. Campinas: Editora da UNICAMP, 1995.
TFOUNI, Leda Verdiani; PANTONI, Rosa Virgínia. Sobre a ideologia e o efeito de
evidência na teoria da análise do discurso francesa. Disponível em
<http://www.achegas.net/numero/vinteecinco/leda_e_rosa_25.htm>. Acesso em 30 ago
2017.