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A Atuação do Psicólogo Clínico: Ética e Técnica em Discussão

Resumo: O presente artigo aborda a discussão ética e técnica na atuação do psicólogo


clínico, fazendo reflexões sob o ponto de vista ético do profissional, considerando a
relevância da formação acadêmica, sendo a teoria e a técnica instrumentos constituintes
da clínica e a ética como definição do fazer clínico. A metodologia utilizada neste
trabalho foi pesquisa bibliográfica. Nesse sentido, baseia-se no pensamento e nas idéias
de autores e estudiosos da Psicologia, como Figueiredo, Dutra, dentre outros. Portanto,
propomos uma revisitação ao legado da clínica psicológica com um profundo
compromisso ético e técnico teórico, considerando as diferentes Psicologias. Refletimos
e discutimos sobre o dilema ético e técnico diante das dificuldades na clínica
psicológica pós-moderna. Pensamos sobre os desafios do psicólogo clínico no contexto
atual. Discutimos sobre a postura ética do psicólogo e o uso da técnica. Consideramos a
discussão sobre ética e técnica pertinente a todos que estão comprometidos com a
clínica psicológica e compreendemos que esse tema está em pauta nos dias atuais.
Repensamos sobre a importância do uso da técnica enquanto instrumento promovedor
do exercício da clínica psicológica ética e questionamos o desafio ético da nossa cultura.
Como enfrentá-lo e qual será esse desafio?

Introdução

Este artigo trata da problemática da ética e da técnica na atuação do Psicólogo clínico,


considerando a relevância dos mesmos para o exercício profissional. Várias questões
estão em pauta na atualidade e suscitam discussões em diversos campos da Psicologia,
porém o estudo está mais voltado para a clínica. Com isso, se discute a relevância da
ética na clínica como critério fundamental para sua definição e sustentação e a técnica
que sem dúvida se constitui numa das ferramentas que constrói o espaço clínico. Nossa
intenção é suscitar discussões em torno da clínica e sobre a formação do psicólogo
clínico, entendendo que a formação ética e técnica deve fazer parte do processo
formativo profissional que irá se constituir em um fazer clínico, com atitude
comprometida com a alteridade, indo em direção ao reconhecimento das singularidades
e respeito às diferenças.

Figueiredo (2004), em suas considerações preliminares a respeito das teorias e práticas


na Psicologia clínica, faz a seguinte colocação: “é comum se fazer distinção entre
Psicologia básica e Psicologia aplicada, que nos currículos corresponde à distinção entre
formação básica e formação profissionalizante”. Nesse caso, o mesmo coloca que o que
se deduz dessa dicotomia é a tese de que o conhecimento da Psicologia básica – um
conhecimento acadêmico – deve ser convertido em procedimentos técnicos de forma a
ser aplicado às atividades do psicólogo. Contrário a essa visão que ele chama de
excessivamente simplista, pois isso não corresponde às atividades práticas do Psicólogo,
argumenta que essa modalidade unidirecional nunca esteve nas obras técnicas, nem no
exercício efetivo de autores como Freud, Jung, Rogers, dentre outros. Questionando a
experiência prática como algo incompatível a mera aplicação do conhecimento básico, o
autor coloca as relações da teoria e prática como bastante complexas.

É pertinente ao aluno formando fazer questionamentos sobre a formação básica e como


aplicar o conhecimento na prática, haja vista que, durante a graduação que é generalista,
são estudadas múltiplas abordagens do pensamento em Psicologia, sendo a mesma uma
área muito ampla que possui diversas orientações teóricas como cognitivista,
comportamental, humanista, psicanalista, sócio-históricas, dentre outras. É inegável a
necessidade de formalizar uma escolha, porém nossa compreensão é a de que essa
escolha se dá inicialmente por questões identificatórias, sendo reflexo da subjetividade
do aluno.

Partindo do problema de que, na atualidade, há uma exigência da eficiência mais


pragmática, ao primado da técnica se requer o dever e a obediência. Porém, é preciso
colocar as seguintes indagações: é possível fazer uma clínica sem o ethos? O
profissional iniciante na clínica terá uma definição clara de quais instrumentos e
abordagens teóricas são recomendáveis para dar suporte a sua intervenção?

Para Figueiredo, a clínica é o espaço da escuta do excluído, do interditado. “A clínica


define-se, portanto, por um “ethos”, em outras palavras, o que define a clínica
psicológica é a sua ética: ela está comprometida com a escuta do interditado e com a
sustentação das tensões e dos conflitos.” Figueiredo (2004,p.63). Será que isso tem sido
uma realidade?

Dividiremos este trabalho em três partes. Na primeira, contextualização histórica da


Psicologia como ciência; na segunda, mostraremos a problemática da técnica e da ética
no campo da Psicologia clínica. E, por fim, destacaremos a importância do ethos na
clínica. A metodologia utilizada para as argumentações e considerações deste artigo será
a pesquisa bibliográfica qualitativa.
Contextualização Histórica da Psicologia como Ciência

Segundo Sundfeld (1995), a Psicologia aparece em meados do século XIX, no período


dominado pelo ideal positivista de ciência proposto por Augusto Comte, o qual se
ocupava da descoberta de leis invasivas que ordenavam os fenômenos e opunha-se a
qualquer tipo de especulação metafísica. Todas as investigações deveriam estar
submetidas ao controle experimental e os fatos deveriam ser compreendidos sob um
ponto de vista analítico. De acordo com Sundfeld (2002), nesse período, a Psicologia
encontrava-se no seu inicio, ainda relacionada com a filosofia e, portanto, considerada
uma matéria reflexiva, marginal dentro do território que ia se concretizando como
hegemonia do ideal positivista de ciência. Entretanto, já havia estudiosos interessados
em produzir uma Psicologia científica, com o auxilio da fisiologia ou mesmo da
matemática. (Sundfeld apud Japiassu, 1995)

Para Freire (2002), o nascimento da Psicologia apresenta dois nomes que disputam sua
paternidade. São eles Fechner e Wundt. O primeiro está relacionado com a publicação
de sua obra “Elementos da Psicofísica”, publicada em 1860. Já o segundo, está ligado à
publicação de seu livro Elementos de Psicologia Fisiológica, em 1864, e a criação do
primeiro laboratório psicológico, em Leipzig, Alemanha, em 1879. A afirmação da
Psicologia, enquanto autônoma e experimental, liga-se a esses dois fatos e dão a Wundt
a sua paternidade. Seguindo o autor, Wundt reúne e classifica em grupos os elementos
da vida mental, determina o seu objeto e objetivo, enuncia os seus princípios e os seus
problemas, estabelece os métodos de estudo, enfim, estrutura e normatiza a Psicologia.
Com isso, dá à Psicologia também, uma nova definição. A Psicologia deixa de ser o
estudo da vida mental e da alma e passa a ser o estudo da consciência ou dos fatos
conscientes. Assim, estruturada e sistematizada, a mesma passa a ser uma ciência
autônoma, não mais um apêndice da filosofia ou da fisiologia.

Continuando nessa perspectiva, no início do século XX começa a estruturação da


Psicologia através dos estudos, reconhecimento, análise e crítica da nova ciência que
desabrochava com força total. Vê-se surgir as mais diversas e novas ramificações, as
quais foram resultado de uma reorientação ou aglutinação de diversas tendências e
resultaram na formação das cinco escolas psicológicas, que estruturaram e
caracterizaram a Psicologia no seu nascimento. Foram elas o Estruturalismo, o
Funcionalismo, o Behaviorismo, a Gestalt e a Psicanálise. Cada escola se caracterizou
pela sua definição de Psicologia, pelos seus conteúdos específicos e pelos métodos que
empregavam no desenvolvimento de suas atividades.

Segundo Freire, o estruturalismo define a Psicologia como ciência da consciência ou da


mente, definição dada por Wundt. A mente seria a soma total dos processos mentais. O
maior representante do estruturalismo foi Titchener, que desenvolveu seu trabalho em
Cornell, nos Estados Unidos, para onde levou o estruturalismo de Wundt, seu mestre.
Ele partia do pressuposto que cada totalidade psicológica compõe-se de elementos. A
Psicologia tinha como tarefa descobrir qual o verdadeiro conteúdo da mente.

Por outro lado, o funcionalismo foi a primeira escola norte americana. Teve, como
norte, ideias do evolucionismo de Darwin, Psicologia do ato, fenomenológica e o
naturalismo de Rousseau. Seus representantes foram Dewey, Angel, Carr. William
James lançou as suas bases ao criticar o atomismo associacionista, que considera a vida
psíquica como um agregado de elementos simples, como defende o estruturalismo. O
funcionalismo surge como a primeira reação organizada e sistematizada contra a escola
de Titchener. Para os funcionalistas, as operações e processos mentais seriam
instrumentos da adaptação e se expressariam claramente nos comportamentos
adaptados. Através da observação desses comportamentos, a mente poderia ser
estudada.

O Behaviorismo, ou chamada Psicologia do comportamento, foi a escola americana


mais influente, que nasceu com Watson. A mesma recebeu influência do hedonismo, da
teoria darwiniana, de Thorndike e dos reflexologistas russos, sobretudo, Pavlov. Tal
escola trouxe relevante colaboração à educação, elaborando princípios da
aprendizagem. Entre outros pontos, formulou a lei do exercício, o qual afirmava que,
quanto mais frequente, recente e fortemente um vínculo é exercido, mais efetivamente
será fixado. Estabeleceu, também, o princípio do ensaio e erro na aprendizagem. O
behaviorismo radical foi desenvolvido pelo psicólogo americano Skinner. O mesmo
defendia que as experiências subjetivas não têm nada de imediato, ou seja, são sempre
construídas pela sociedade. O sujeito não é livre, nem mesmo em suas percepções mais
íntimas, sendo o mundo privado uma construção social. A forma de sentir, pensar,
desejar, dentre outros sempre depende de como isso é ensinado socialmente.

Em relação ao movimento Gestalt, o mesmo surgiu na Alemanha, no início do século


XX. Seus representantes principais foram Wertheimer, que elaborou os primeiros
conceitos da Psicologia gestáltica, os quais posteriormente foram ampliados por Koffka
e Kohler, seguidores e sujeitos de experimento da Gestalt. A Psicologia da Gestalt é
mais conhecida como Psicologia da forma. Seu ponto de partida foi a percepção.
Wertheimer estudou a percepção visual do movimento. Se, dois ou mais objetos
apresentados contiguamente eram observados, num espaço de tempo curto, percebia-se
uma continuidade nas figuras- as figuras eram vistas como num todo. À medida que o
intervalo de tempo aumenta entre a apresentação de uma figura e da outra, as figuras
vão sendo percebidas ou vistas separadamente. Partindo desse método, descobriram que
os fenômenos mentais eram vividos pelo sujeito sob a forma de estruturas, isto é, sob a
forma de relações entre partes que faziam com que a forma resultante fosse mais do que
a suas somas.

Contudo, a Psicanálise nasce na mesma época do funcionalismo e da gestalt e,


igualmente a estas, se contrapôs á Psicologia clássica de Wundt e Tetchener. A
Psicanálise se distanciou das outras escolas, pois teve início com a hipnose e, aos
poucos, foi buscando outra metodologia. Freud abandonou a hipnose e, através de
estudos, desenvolve o método da conversação. Assim se inicia um método
verdadeiramente psicológico – o da conversação - com a interpretação do psicanalista.
Daí em diante, Freud evoluiu e chegou à livre associação. Com ela, o paciente fala
espontaneamente de todas as lembranças, quaisquer que surjam, incluindo sonhos,
recalques, desejos reprimidos que sejam fontes ou causas das neuroses. Freud distingue
três graus: o consciente – quando se tem pleno discernimento dos fatos; o inconsciente –
como a própria palavra indica, contém, mais os fenômenos dos quais não se tem
nenhum conhecimento, mas são passíveis de ser atingidos, revividos e analisados; e o
pré-consciente que se situa entre o consciente e o inconsciente e contém fatos, ora mais
próximos, ora mais distantes da consciência. Seriam esses os níveis ou graus de
consciência no psiquismo humano. O nascimento das grandes escolas psicológicas
aconteceu no final do século XIX e início do século XX.

Nesse sentido, cada escola formava um sistema fechado que, no entanto, possuía pontos
comuns e divergentes em todas elas. Em meados do século XX, as escolas perdem a sua
força como centro de estudos teóricos. A Psicologia, daí em diante, caracteriza-se pela
sua abertura e tolerância aos diversos caminhos de pesquisa, os quais foram tão
volumosas, diversificadas e profundas que levaram ás especializações e à formação de
microssistemas, sendo o Behaviorismo e a Psicanálise as escolas que continuaram sua
influência por mais tempo.

De acordo com Sundfeld (2002), é perceptível a fecundidade de ideias que


acompanharam a consolidação da Psicologia no meio científico e acima de tudo a
coexistência de divergentes pontos de vista que posteriormente semearam diferentes
abordagens. Entretanto, o rigor científico definiu a exclusão do elemento subjetividade e
restringiu a Psicologia, daquele período, apenas aos fenômenos observáveis. O
cientificismo que dominava era garantia de um discurso de uma única significação sobre
a natureza, que se apoiava na exploração exaustiva das partes, na explicação causal e
objetiva dos fatos. No entanto, a Psicologia se constituiu como ciência no contexto da
Modernidade, período de ênfase na razão, ordenação do mundo através da exclusão da
ambivalência, da nomeação, classificação e controle dos fenômenos.

Figueiredo (2002) apresenta, por outro lado, uma visão panorâmica e crítica da
Psicologia contemporânea. Coloca que é muito recente o conceito de ciência como é
usado hoje e que a elaboração dos primeiros projetos de Psicologia como ciência
independente é ainda mais recente. Assim, segundo o mesmo, foi a partir da segunda
metade do século XIX que surgiram homens que pretendiam reservar aos estudos
psicológicos um território próprio. Só então a figura do Psicólogo passou a existir e
foram criadas as instituições voltadas para a produção e transmissão de conhecimento
psicológico.

De acordo com Malvezzi (2010), ao longo dos últimos 150 anos, a Psicologia criou um
campo fértil de conhecimento sobre a pessoa, evidenciado pelo seu visível e contínuo
desenvolvimento, amplamente reconhecido pelas inegáveis contribuições para o
progresso da ciência. Hoje em dia, a conscientização das pessoas sobre a vida pessoal e
comunitária, sobre a saúde, o bem-estar e sobre a própria participação na construção do
futuro pessoal e da sociedade como um todo, é fruto das teorias e dos conceitos sobre os
processos psíquicos e do trabalho dos psicólogos. Estes ofereceram explicações sobre o
funcionamento psíquico do ser humano, inspiraram e fundamentaram projetos e
atividades que contribuíram para o desenvolvimento da qualidade de vida, fato
observado na contemporaneidade.

Continuando com o autor, em mais ou menos cinquenta anos, o psicólogo tornou-se


presente em vários países, integrado ao repertório profissional dos serviços técnicos
requeridos por diversos setores da sociedade. Hoje, inicio do século XXI, a profissão de
Psicólogo é regulamentada, é um território institucionalizado e integrado à dinâmica da
sociedade por significativa e uma crescente demanda comercial. Com o domínio do
campo dos processos psíquicos, os psicólogos mergulharam em afirmativas que
construíram estruturas e modelaram vários processos de diversas intervenções. Isso
significa dizer que a profissão do Psicólogo é um dos resultados mais positivos e
promissores do desenvolvimento da Psicologia no Brasil. O reconhecimento da
profissão de Psicólogo em sua potencialidade é hoje um fato em toda sociedade. A
origem dessa profissão como espaço técnico e especializado de conhecimento está bem
clara nos diversos campos de atividades acadêmico, jurídico, social, da saúde, do
trabalho e da educação, como já dito antes, desde a segunda metade do século XIX. A
seguir, destacaremos a problemática da ética no campo da clínica.

A Problemática da Técnica e da Ética no Campo da Psicologia Clínica


Formação do Psicólogo Clínico

Dutra (2009), em seus questionamentos sobre a formação do psicoterapeuta, coloca que


pensar na formação do Psicólogo clínico é bastante complexo, importante e crucial.
Reconhecendo a diversidade da Psicologia, pergunta se podemos pensar em habilidades
e competências do psicoterapeuta, considerando que existem perspectivas teóricas e
metodológicas bastante divergentes, o que é algo pertinente a Psicologia desde seu
início. A mesma diz que, se se perguntasse a psicoterapeutas de orientação analítica,
humanista e cognitivo-comportamental sobre as características de um bom
psicoterapeuta, certamente teríamos respostas muito distintas. Isso mostra que a
concepção de formação e de psicoterapia varia muito, dependendo da abordagem teórica
e metodológica de onde se origina.

A autora, pensando sobre a problemática da técnica e ética, coloca que a formação não
envolve somente o aprendizado de técnicas e o modo de como se fazer um rapport,
dentre outros. No entanto, a autora não exclui essas dimensões da formação,
considerando também necessárias. Diz ainda que a formação do psicólogo transcende a
aprendizagem formal, teórica e técnica e que esta se relaciona mais com o
desenvolvimento de uma atitude. Ou seja, “envolve um modo de ser, um modo de ver e
de estar no mundo, o qual se assenta num ethos, que, resumidamente, pode ser definido
como abertura a alteridade”. (DUTRA 2009, p.61). Nesse sentido, a autora faz a
colocação de que os profissionais, professores e supervisores são afetados naquilo que
estão fazendo e produzindo, seja na direção de tal atitude, seja em outra direção. Fala de
uma atitude ética e política que deve ser transmitida, não só pelos saberes teóricos e
metodológicos, mas, sobretudo, por uma forma de estar no mundo, refletida nos saberes
e fazeres do campo da Psicologia e na vida.

Continuando, interroga-se se aprendizado de ser terapeuta seria exclusivamente através


do ensino das teorias e das técnicas ou mesmo pela ética enquanto valores morais. A
mesma, colocando o pensamento de Neubern, de que é “importante que o psicoterapeuta
desenvolva a possibilidade de se reinventar, no sentido de aprender a dialogar e
questionar suas próprias teorias e não simplesmente se submeter a elas como um
escravo” (DUTRA apud NEUBERN 2008, p.6) discorda da ideia de que o
psicoterapeuta deve perseguir o aprendizado de várias e inúmeras técnicas e teorias,
pois poderá transformá-lo num dispositivo objeto. Em sua opinião, é mais importante
que o profissional em formação desenvolva consciência crítica, capacidade de refletir e
atuar sobre a realidade na qual está inserido. Propõe que se deve pensar, não na direção
da ética que se confunde com a moral, mas no ethos, no sentido etimológico que é
compreendido por Andrada como “designando posturas existenciais e/ou concepções de
mundo capazes de dar acolhimento, assento ou morada à alteridade” (DUTRA apud
ANDRADA, p.44).

Dutra (2009) sugeriu, através dessas ideias e pensamentos, uma sistematização de


parâmetros para a formação do psicoterapeuta que envolve diversos aspectos. Diz ainda
que é importante e necessário tentar se chegar a pontos comuns e consensuais ou, pelo
menos, satisfatórios para a maioria dos profissionais desse campo. Como sugestão,
coloca alguns critérios, como, para exercer a psicoterapia, o psicólogo deverá ter
realizado seu estágio na ênfase clínica ou área clínica; deve permanecer em supervisão
durante determinado período, a ser definido pela categoria e pelo sistema conselho; o
psicoterapeuta em formação deve se submeter à psicoterapia, não somente em função
das suas demandas, mas pelo que isso representa em termos de responsabilidade e
cuidado, principalmente, com o outro; as instituições formadoras devem valorizar a
inserção de disciplinas que promovam a discussão dos aspectos éticos, políticos, sociais,
culturais e históricos das práticas psicológicas nas grades curriculares dos cursos de
graduação; os cursos de formação deveriam ser objetos de discussão pela categoria, no
intuito de se pensar formas de legitimá-los formalmente enquanto instâncias
formadoras. Reconhece que hoje vivemos em um contexto histórico e político em que
os saberes e práticas “psi”, exigem um esforço conjunto no sentido de continuarmos a
construir uma Psicologia que esteja sintonizada com as demandas atuais.

Figueiredo (2004) nos fala da preparação do psicólogo, sua formação e treinamento,


mostrando insatisfação com a preparação dos Psicólogos para o exercício profissional
nas universidades. Essa insatisfação é pertinente aos alunos e professores e a raiz disso
diz respeito à natureza da nossa área e de nossa arte. O mesmo se reporta a Winnicott
quanto á relação mãe bebê, dizendo ser a mãe suficientemente boa àquela que deixa a
desejar e propicia a sustentação e proteção indispensável para que o bebê se constitua
fisicamente e psiquicamente. Tomando essa concepção como inspiração, nos fala da
formação do Psicólogo, supondo que naturalmente um currículo suficientemente bom
não acompanha os alunos ou os dirige ao longo de toda preparação profissional, pois a
preparação profissional não termina nunca. “Se ele for capaz , contudo, de efetivamente
deixar a desejar, caberá dali por diante a cada um assumir sua própria preparação.
Deixar a desejar seria, exatamente, instaurar um campo de instalações mobilizadoras do
trabalho pessoal do aluno”. (FIGUEIREDO,p.150,151,2004).

Dificuldade de Estabelecer a Relação Teoria e Prática

Figueiredo (2004), fala da relação teoria e prática na Psicologia clínica, a qual o mesmo
considera bastante complexa. Apresenta as formas de conhecimento e fala da
contribuição decisiva de Polanyi que consistiu na formulação do conceito de
conhecimento tácito ou pessoal em oposição ao que chamou de conhecimento explícito,
o qual poderíamos designar, de forma apropriada, de conhecimento representacional ou
teórico. Diz que, segundo Polanyi, tácito é o conhecimento incorporado às capacidades
afetivas, cognitivas, motoras e verbais de um sujeito e que tal conhecimento é
caracterizado por ser de natureza pré-reflexiva e oferecer certa resistência aos discursos
representacionais objetivadores. Etimologicamente, quer dizer calado, silencioso.

O autor faz referência sobre as teorias e práticas na clínica psicológica e psicanalítica e


coloca que as práticas psicológicas estão impregnadas e orientadas por conhecimentos
tácitos. Quanto a isso, não cabe discussão. Reconhece as experiências pessoais do
aprendiz, as quais vão além do que o mesmo pode aprender nos livros e com os
melhores professores. Entende o conhecimento tácito como um saber do ofício, de
natureza artesanal e questiona sobre o que se pode esperar das relações desses
conhecimentos adquiridos com os sistemas representacionais e, em especial, com as
teorias. Fala da necessidade de desfazer a ilusão e que seria possível e necessário
elaborar um conhecimento explícito, objetivo e reflexivo que fosse uma reprodução
perfeita da experiência.

Contudo, o autor em seu pensamento acredita ser realmente necessário levar a sério a
ideia de que a experiência incorporada, o conhecimento tácito e pessoal entranhado no
corpo, não se vê convertido em teoria. Também, afirma que o inverso também é fato, ou
seja, os sistemas representacionais nunca serão totalmente incorporados ás práticas. No
entanto, o mesmo fala que seria errado dispensar as formas e modalidades de
conhecimento explícito, por ser perigoso confiar cegamente no conhecimento pessoal,
sendo este muito vulnerável a rotinização e à repetitividade. Sugere manter as relações
entre conhecimentos tácitos e conhecimentos explícitos, entre experiências e discursos
representacionais em um ótimo nível de tensão.
O que supõe, no exercício desta escuta, uma subjetividade descentrada e capaz de tirar
partido do seu próprio descentramento. É dessa oscilação que podem emergir os
insights. Em outras palavras “as teorias, se bem apropriadas pelo clínico e mantidas
em uma tensão ótima com o saber de ofício, valoriza o conhecimento tácito e, em
última análise, é esta valorização o que realmente importa”. Figueiredo (2004.p.127).
A Relação Intrínseca Entre Ética e Técnica
Coelho Júnior (2007), desenvolvendo seus argumentos sobre ética e técnica em seu
artigo Ética e técnica em Psicologia: Narciso e o avesso do espelho, nos leva a repensar
que essa relação começa durante a formação. Entende que as prescrições de normas e
técnicas no decorrer do curso devem fomentar a formação de atitude ética no futuro
profissional e que existe uma preocupação por parte dos alunos expressa em seu
comportamento e na sua fala com relação ao futuro no exercício profissional. Por existir
um mercado claramente pragmático, no qual a eficiência profissional é, por vezes,
avaliada pelo primor da técnica, compreende-se que em Psicologia, por razões da
diversidade e multiplicidade, não é uma tarefa simples. Contudo, cada teoria traz em,
seu bojo, princípios éticos e técnicos, nos mostrando suas verdades e
incompatibilidades.

O mesmo, citando Figueiredo (1996), coloca de forma clara seu argumento sólido com
respeito à escolha da ética ou técnica a ser feita. Diz ser essa escolha uma questão
“ética”, pois deve-se fazer reflexões sobre a forma como cada teoria e técnica abre-se
para o diferente e como se propõe a acolher ou não a alteridade, assim como quais as
concepções éticas que sustentam cada uma das teorias psicológicas. Falando sobre a
concepção de técnica, o autor nos diz que esta costuma ser estabelecida por oposição à
ao conhecimento teórico e que, por vezes, acaba sendo considerada uma forma de
aplicação de certo saber. Explicita em sua visão que toda técnica deve ser ética e que
não deveria ser possível separar ética de técnica.

Coelho Júnior (2007), ainda argumentando sobre as concepções de ética e técnica,


coloca que ética e moral possuem etimologicamente o mesmo significado. Ética, no
grego ethikós e moral, no latim mores, referem-se a costumes. No entanto, ética assumiu
um sentido abrangente de juízo e apreciação relacionada às condutas humanas
suscetíveis de qualidade do bem e do mal. Porem, o autor entende ética no sentido para
além do significado etimológico. No que diz respeito à clínica a ética é uma posição de
morada, postura fundamental, modo de escutar e falar ao outro e do outro na sua
alteridade, compreendida como abertura e respeito ao outro. É como algo que não tem a
ver com “moral” e que jamais será um código de prescrições e proibições. É fato que o
autor está se referindo, nesse sentido ético, muito mais a uma disposição ao convívio
acolhedor, o que não significa ser tranquilo, considerando o inesperado e o irredutível
que caracteriza a alteridade.

O autor diz que o desastre que pode ocorrer pelo primado da técnica é o de nos
aprisionar no mundo da atividade e do fazer, sem deixar espaço para nossa possibilidade
de ação passiva, própria da atitude do “pro-duzir”, agir e se colocar em repouso à espera
do surgimento de algo. Ainda citando, “a técnica não é, portanto, um simples meio. A
técnica é uma forma de descobrimento”. Acrescentando, o primado da técnica, no
contexto marcado por um pragmatismo selvagem, deixa de lado a possibilidade de uma
reflexão mais efetiva sobre as metas de toda e qualquer ação humana. (COELHO
JÚNIOR apud HEIDEGGER,2002, p.27). Em seguida falaremos da importância do
ethos na clínica psicológica.

A Importância do Ethos na Clínica


O Cuidar Constitutivo da Clínica
Costa (2010), no livro por uma ética do cuidado, faz menção da fábula de Higino que
trata do cuidado como condição do humano. Higino foi autor latino que viveu em Roma
entre os séculos I a.C e I d.C, e que, a partir dos mitos gregos e latinos, sintetizou uma
fábula que fala sobre o cuidado.
Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma idéia
inspirada. Tomou um pouco de barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto
contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter. Cuidado pediu-lhe que soprasse
espírito nele. O que Júpiter fez de bom grado. Quando, porém Cuidado quis dar um
nome á criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu
nome. Enquanto Júpiter e o cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis
também ela conferir o seu nome á criatura, pois fora feita de barro, material do corpo
da terra. Originou-se então uma discussão generalizada. De comum acordo pediram a
Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu
justa: “você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois de volta este espírito por
ocasião da morte dessa criatura. Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto,
também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer. Mas como você, Cuidado,
foi quem, primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. E
uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu: esta
criatura será chamada homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil.
(COSTA, p.30, 2010)

Plastino (2010), em suas argumentações sobre a dimensão constitutiva do cuidar, faz


referência ao cuidado como sendo algo mais do que uma ação. Essa ação deve ser
caracterizada por uma atitude e que, na ausência desta atitude, que expressa a
consideração pelo outro e por suas necessidades, as ações do cuidar perdem sua
motivação ética, não valendo nada. Nessa perspectiva, o cuidar mostra sua dimensão
ética, que esta no reconhecimento da alteridade, na diminuição do narcisismo e da
onipotência. Isso é reconhecido e expresso na própria etimologia da palavra grega
“ethos”, da qual deriva ética, tendo dois sentidos: morada e pátria. A primeira refere-se
a um lugar para viver, a segunda sublinha os laços sociais através dos quais emergimos.
“A palavra ética refere-se, assim, às condições necessárias ao acontecer humano, isto é,
ao que permite a cada sujeito “morar” no mundo inserido numa comunidade”.
(PLASTINO apud SAFRA, p.26 2004).

Silva, (2001) argumentando sobre ética na Psicologia clínica, nos fala sobre o cuidado,
colocando que o encontro na clínica não se trata mais apenas de receber o paciente
tendo a cura como promessa, não “tratando apenas da realidade interna, remetendo todo
e qualquer sentimento de mal-estar existencial para o território da falta e reduzindo o
inconsciente á sua dimensão familiarista-edipiana.” (SILVA apud RODRIGUES, 1998,
p 68). Não se procura mais em descobrir a patologia que o sujeito possui. O mesmo
continua dizendo que devemos estar em busca de um fazer clínico que efetue
intervenções nas vidas e nas relações e subjetividades das pessoas, reconhecendo que o
sujeito busca algo que o cure. Este algo é uma modalidade de relação, modo de se
relacionar com o mundo e com o outro, uma ética, pois passamos por momentos críticos
e precisamos clinicar com o cuidado.
Cuidar é responsabilizar-se pela beleza e sofrimento clinicados. Cuidar é inventar
ações desnaturalizantes para a nossa Psicologia: ciência e profissão. Mas, sobretudo,
cuidar é acolher o sujeito que busca neste habitat do psicólogo a clínica, uma clínica
de transformação á existência. Aproximando-se de Naffah Neto (1994), pode-se propor
que o cuidado é o que há de mais importante no processo psicoterapêutico, pois é este
que vai garantir assento, morada, espaço de vida e transformação ao sujeito acolhido.
(SILVA, p 8, 2001).

Para Dutra (2004), o diferencial da escuta clínica está na qualidade da escuta e acolhida
que se oferece a alguém que apresente uma demanda psíquica, um sofrimento,
representando uma certa postura diante do outro, entendendo-o como sujeito que pensa,
sente, fala e constrói sentidos nas relações de subjetividades. Significa “outorgar à
psicoterapia um lugar diferente dentro de outros campos de atividade profissional do
psicólogo” (DUTRA apud GONZÁLES-REYS p.212 2001). Continuando, a autora faz
considerações sobre o sofrimento psíquico na contemporaneidade, argumentando sobre
o desamparo que o ser humano carrega intrinsecamente consigo, por sua existência
solitária e finita, num mundo tendo que fazer escolhas e se construir no seu devir e
lidando com as contradições da vida moderna. Cada vez mais o sujeito vê-se esmagado
pela cobrança que a sociedade contemporânea exerce sobre sua subjetividade. A mesma
constata que, na vida do homem contemporâneo, diante da realidade que lhe é imposta,
à Psicologia é exigida uma reflexão a cerca dos seus saberes.

Kupermann (2008) menciona no livro Presença sensível, cuidado e criação na clínica


psicanalítica, que, a partir de Ferenczi, as concepções que regiam a técnica psicanalítica
mudaram e deram lugar à hospitalidade, à empatia e à saúde psíquica do analista,
surgindo assim novas categorias éticas do cuidado em psicanálise. As contribuições
teóricas ferenczianas foram baseadas na concepção de que a subjetividade é constituída
a partir das vivências corporais e afetivas experimentadas no contato com o Outro.
Levaram a criar um estilo clínico marcado pelo acolhimento empático e pela presença
sensível do terapeuta, que a partir de então passa a se oferecer como suporte afetivo. A
hospitalidade se apresenta, assim, como o primeiro dos princípios da ética do cuidado
na psicanálise, mudando assim as concepções que regiam a técnica psicanalítica como a
abstinência e a neutralidade do analista. A empatia se apresenta como segundo princípio
para uma ética do cuidado na psicanálise. O terceiro princípio é a saúde do analista.
Para cuidar do outro é preciso cuidar de si.
Alteridade e Clínica Ética
Freire (2010), apresentando o contexto histórico da civilização ocidental em seu livro o
ponto de vista do outro, argumenta que esse contexto é marcado pelo cristianismo e
caos, nos mostrando o mal-estar na cultura. Deixa claro que a partir da perda de valores
morais, filiados ou não a doutrinas espirituais, decorrente da laicização ou secularização
dos valores morais judaico-cristão, pode-se dizer que estaríamos abandonando tudo que
nos ligava ao passado. Segundo o autor, a partir de então se instaura a decadência da
ética e moral nas esferas sociais. O mesmo reconhece a amplitude desse assunto e fala
de forma sucinta sem nenhuma pretensão de explorá-lo de maneira extensiva. Porém,
sustenta que a extensão dos problemas que foram presenciados não comprometeu, em
todo caso, até agora, nosso discernimento moral, sugerindo que esse discernimento seja
parte integrante do ideal de pessoa que cultivamos.

Continuando, o autor diz que moralidade não é um fato testável por procedimentos
científicos, mas é algo que concerne ao sentido da vida, e o “sentido da vida” não é
quantificado nem corroborado ou falsificado por observadores independentes em
diversos tempos e lugares da realidade. O mesmo diz que a partir do culto à
racionalização, o sagrado foi profanado e então sumiram os mistérios e maravilhas, com
isso, também o sentido da vida. Em decorrência desse fato na história, o sujeito passou,
a partir desse momento, a queixar-se dos vícios e maldades de seus respectivos tempos e
também da falta de sentido. O mesmo nos fala que na vida cotidiana, a falta de sentido
em geral aparece por nos acharmos despreparados para lidar com necessidades
concretas e circunscritas. O autor, dizendo de outra maneira, fala que “a falta de sentido
surge quando há contradição entre a motivação para obedecer à lei e a motivação para
contrariá-la, sem que se possa invocar um imperativo irrevogável como fiador da
decisão tomada”. (FREIRE COSTA p.21,22. 2010).

O autor, fazendo menção à questão ética fala que ela não é a aplicação irrefletida de
regras.
Ética é a relação com um outro singular que sempre exige adendos aos códigos
racionais ao espirituais de orientação de condutas. O outro, em sua irrepetível
originalidade, pede uma resposta “ visceral” ás suas interpelações e não a consulta
burocrática ao manual da lei instituída, por mais abrangente ou indulgente que seja. O
confronto permanente entre as vísceras e o código estaria, assim, na base das queixas
atuais sobre a falta de sentido. (FREIRE COSTA, p.22, 20100)

Figueiredo (2010), fala sobre as diversas faces do cuidar, fazendo considerações sobre a
clínica e a cultura. Nos mostra as dimensões do cuidado com o outro e as figuras da
alteridade e dos modos do agente cuidador se apresentar como presença implicada. O
autor argumenta sobre uma forma decisiva do cuidar que não envolve o fazer e coloca o
agente cuidador como presença em reserva. Mostra algumas modalidades da presença,
implicada do cuidado, em que cada uma destas modalidades corresponde a uma figura
da alteridade, um modo do “outro” se apresentar. Começando com a intersubjetividade
transubjetiva, o outro que se apresenta é englobante. Apresenta então o sustentar e o
conter onde. Pode-se identificar duas dimensões dessas funções: a função de holding,
sustentação (Winnicott,1960), garantindo a continuidade, e a função de containing,
continência (Bion,1970), que proporciona as experiências de transformações. Para o
autor, a experiência da continuidade quanto a de transformação e a presença implicada
do outro são importantes e indispensáveis.

Continuando, o mesmo apresenta uma segunda figura da alteridade que é o reconhecer


que aparece na intersubjetividade. Há dois sujeitos frente a frente, exercendo um para o
outro, sendo a responsabilidade especial de reconhecer função do agente cuidador. Na
Psicanálise, Winnicott e Kohut deram ênfase a esta função desdobrando-a em dois
níveis, o do testemunho e o do refletir/espelhar, sendo a segunda dependente da
primeira. O autor coloca que “muitas vezes, cuidar é basicamente ser capaz de prestar
atenção e reconhecer o objeto dos cuidados no que ele tem de próprio e singular, dando
disso testemunho e, se possível, levando de volta ao sujeito sua própria imagem”
(FIGUEIREDO, p. 127, 2010).

O mesmo fala sobre interpelar e reclamar, apresentando a figura da intersubjetividade


“traumática”. Trata-se do “outro” diferente, que é marcado pela diferença e
incompletude, o outro sexuado e ele mesmo desejante e vulnerável. Diz serem esses os
traços exigidos para o agente do cuidado, ainda que pareça estranho. Porém, é a partir
daí que se pode exercer a função de interpelar, seduzir (LAPLANCHE,1992) ou
reclamar. Alvarez (1992) termina dizendo que, sem esses traços, o objeto dos cuidados
não acede à vida e à humanidade por se tratar de uma forma de recepção ativa
equivalente a uma intimação.
O outro que interpela e reclama funciona como agente do confronto e do limite,
fazendo com que o sujeito entre em contato com os fatos da existência: morte, a
finitude, a alteridade e a lei. Ambas as funções – chamar à vida, chamar às falas e
chamar à ordem – são tão necessárias aos processos de constituição psíquica e
narcísica quanto às funções do acolhimento e do reconhecimento. (FIGUEIREDO,
p.128, 2010).

Considerações Finais

A partir dos argumentos expostos, consideramos esta discussão pertinente a todos que
estão comprometidos com a clínica, especificamente àqueles que estão em formação na
área da psicologia clínica. A discussão sobre ética e técnica que desenvolvemos neste
artigo, objetivando interrogar o fazer do Psicólogo clínico em sua formação e atuação
ética, é algo que está em pauta nos dias atuais. Compreendemos que, em meio à
multiplicidade de abordagens, pode-se dizer que nenhuma formação psicológica atual
poderia deixar de lado a compreensão psicanalítica. Dentro da psicologia podemos falar
de várias linhas, como a sistêmica, a gestáltica, a cognitiva, a comportamental ou a
fenomenológica – existencial. E dentro da corrente psicanalítica, temos o estilo clássico
freudiano, o lacaniano, o kleiniano, o junguiano e pós- freudiano, entre outros.

Levantamos questões atuais do âmbito da clínica psicológica e seu ethos que define e
constitui o fazer clínico segundo Figueiredo. Foram feitas importantes discussões em
torno da clínica e também sobre a formação do psicólogo clínico. Consideramos que a
atitude ética na clínica é que vai nos direcionar a alteridade e, antes de qualquer
formação, a ética é perpassada por uma concepção de mundo, de como se relacionar
nesse mundo. Daí, então, essa concepção somada à formação acadêmica, a qual tem a
função informativa do conhecimento que é indispensável para o exercício prático do
profissional enquanto agente constituinte do espaço da clínica, direciona esse
profissional com certo saber teórico, técnico e metodológico ao fazer clínico.

A clínica é um desafio e, portanto, um espaço de aprendizagem e troca, que realça o


encontro intersubjetivo no setting. A dimensão do cuidar é, no meu entendimento,
proporcional a ética clínica que o psicólogo deve ter, desenvolvendo a empatia na
relação paciente psicoterapeuta. No que concerne ao psicólogo clínico, este também
deve fazer uso do cuidado, pois um dos princípios da ética do cuidado é a saúde do
psicoterapeuta, pois, para cuidar do outro, é preciso que o psicoterapeuta disponha do
cuidado de si.

Vimos que cada abordagem traz um princípio ético, porém existe um ethos na clínica
que a define. Segundo Figueiredo, o mesmo está comprometido com a escuta do
interditado e a sustentação das tensões e dos conflitos. É uma realidade que o psicólogo
clinico ético deve conhecer e se apropriar com afinco no ofício do fazer psicoterápico.
Penso em uma clínica ética, que é dirigida a alteridade, que se amplia na atitude do
cuidar, como postura única enquanto espaço de instituição do humano e se efetiva na
relação intrínseca do encontro intersubjetivo.

Ainda, penso em uma clínica que reflita sobre ética e que possibilite de forma mais
ampla o convívio, o acolhimento e o reconhecimento do outro, diante do que é
estrangeiro daquilo que nos difere como pessoas, considerando a singularidade subjetiva
de cada um. A Psicologia, embora seja plural em sua diversidade de abordagens, nos
permite pensar sobre algo em comum, o cuidado com o ser humano. Isso acontece no
diálogo com o outro, em que a clínica pode e deve ser um espaço para efetivação do
cuidar. Cuidar este, direcionado através da teoria e técnica de forma ética, considerando
o ser humano em sua dignidade de sujeito e cidadão.

Sobre a formação do Psicólogo e sua atuação na clínica psicológica, compreendo que é


bastante complexo a realização do exercício prático profissional sem pensar na ética e
na técnica como algo que deve estar diretamente ligado. A psicologia é realizada em
várias áreas e campos de abordagens, por isso fazer uma discussão sobre a relevância e
complexidade da clínica contemporânea na pós-modernidade traz á tona uma demanda
considerável de questionamentos das situações do cotidiano e de ordem moral e social
presentes nessa época de transgressões e perversões sociais e culturais. Entao, como
atender essa demanda de forma ética e técnica numa sociedade onde o que importa é o
que acontece no momento e depois não fica nada? Onde as concepções, conceitos e
sentimentos que parecem críticas evidentes do crescimento e organização social não são
levados a sério?

Na atualidade, o que permeia a sociedade pós-moderna são comportamentos


individualistas, narcísicos, pragmáticos e niilistas dentro do panorama da globalização e
o desenvolvimento tecnológico reflexo do capitalismo selvagem e racionalização
humana. Sociedade essa adoecedora e perversa em seu modo de impor seus valores
crenças e classificações sociais, na qual a utilidade do objeto, de certa forma, está
vinculada ao descartável. Tudo só é bom e válido enquanto dura, ou seja, até quando
tiver valor e investimento de energia e envolvimento da ação humana dentro de um
pensar hedonista. Assim, a atitude de acolher essa demanda, através de um olhar que
possa contemplar e alcançar a singularidade das existências dos desejos humanos que
revelam sua condição de ser-no-mundo, seria a ética na postura da clínica.

Fonte: A Atuação do Psicólogo Clínico Ética e Técnica em Discussão - Psicologia


Clínica - Atuação - Psicologado
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psicologo-clinico-etica-e-tecnica-em-discussao#ixzz1pHdJ8bMp