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Unidade II

Unidade II
5 DIÁRIO DE CAMPO, ESTUDO SOCIAL, ESTUDO SOCIOECONÔMICO

Neste momento, serão abordados os instrumentais utilizados no cotidiano do assistente social.


No entanto, o profissional não deve ter a sua prática reduzida aos instrumentais, mas não se pode
depreciá‑los. Os instrumentais são basais à categoria. Eles auxiliam o profissional no processo de
sua prática de trabalho, na efetivação dos direitos sociais, além de imprimirem a necessidade social
da profissão.

Assim sendo, o estudo será focado nos instrumentais técnico‑operativos, ou seja, os dispositivos
dos quais nos valemos para dar concretude à ação profissional. Mas quais são eles? O diário de campo,
a entrevista, os estudos sociais e socioeconômicos, o laudo social, a observação, o parecer social, a
perícia social, os relatórios e as visitas domiciliares e institucionais. Também será discutido o trabalho
com grupo e com as comunidades, a educação popular e a elaboração de planos, programas e projetos,
incluindo a compreensão para a elaboração de orçamento público.

5.1 Diário de campo

Certamente, você já ouviu falar do diário de campo. Ele é um instrumental do profissional que está
atuando, que tanto pode ser usado como um elemento para registro e reflexão quanto por profissionais
que já estão habilitados.

Saiba mais

Para conhecer um pouco mais sobre o diário de campo, leia o texto a seguir:

ARAÚJO, K. S. R. da S.; KIAZURA, M. A. Análise da prática do estágio


em serviço social. In: I SIMPÓSIO DE PESQUISA SOCIAL E I ENCONTRO
DE PESQUISADORES EM SERVIÇO SOCIAL, 2018, Curitiba. Anais [...].
Curitiba: Uninter, 2018. Disponível em: <https://www.uninter.com/
cadernosuninter/index.php/humanidades/article/view/787/557>. Acesso
em: 8 jul. 2019.

Nele temos o relato de experiência de estágio que cita o diário de


campo e demais elementos que estão presentes na vivência do estagiário
de serviço social.

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ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

O diário de campo é um documento em que se relata cotidianamente as ações do estagiário ou do


assistente social. O que é registrado no diário de campo vai depender, em grande medida, da situação
vivenciada no momento, ou seja, se estagiário ou se profissional em um dado contexto específico.
Em tese, o diário de campo faz menção a “[...] uma forma de registro de observações, comentário e
reflexões para uso individual do profissional e do aluno” (LIMA, MIOTO, DAL PRÁ, 2007, p. 99). No
entanto, há alguns aspectos que precisam ser observados na elaboração do diário de campo, os quais
aplicam‑se tanto ao profissional habilitado quanto ao aluno ou estagiário de serviço social.

Em sua análise sobre o diário de campo, Fraga, Gaviragui e Goerk (2015) indicam que um critério
importante para tal documento é a redação. Isso porque o diário de campo pressupõe a descrição de
situações vivenciadas no cotidiano das práticas profissionais ou de formação. Assim, um bom diário
de campo é aquele em que o autor descreve, de forma clara e contextualizada, uma experiência.
Para ser elaborado, o diário de campo não precisa de uma linguagem composta por uma série de
palavras rebuscadas, diferenciadas, mas sim de um texto que transmita o conhecimento àquele que
o lê. Ou seja, não há necessidade de termos incompreensíveis, mas, observa‑se a norma culta e a
construção de sentido.

Observação

O analfabeto funcional é aquela pessoa que, apesar de alfabetizada, não


consegue decodificar os textos, apresentando grande comprometimento
em sua interpretação até mesmo de textos simples.

Os autores chamam a atenção para os vários fatores que comprometem negativamente a redação
de um texto dessa natureza. Dentre eles, apresentam a dificuldade de interpretação a que alunos e
profissionais estão submetidos cotidianamente. No caso, os autores precisam que a dificuldade dessa
natureza está vinculada a deficiências nos anos iniciais da escolarização, ou seja, a pessoa não vivenciou
de forma positiva seu processo formativo antes de ingressar na universidade. Dessa forma, é esperado
que o profissional apresente maior dificuldade para escrever e interpretar ou decodificar símbolos. Aliás,
essa deficiência, gestada em anos de escolarização precária, emerge na universidade, mas representa
um longo ciclo evolutivo de degradação da educação brasileira. Interessante que os autores destacam
o conceito de analfabeto funcional, que seria a pessoa que conhece o alfabeto, mas não sabe fazer uso
dele quando necessário, sobretudo, na leitura de um texto. É a dificuldade de interpretação. Por outro
lado, seguindo o caminho dos autores, pode‑se inferir que aquele que tem dificuldade de interpretar,
que não consegue ler texto, também apresentará dificuldade para a escrita.

De acordo com Fraga, Gaviragui e Goerk (2015), aqueles que chegam às universidades com essa
dificuldade podem minimizá‑la, sendo que para isso é importante a realização das leituras. Os autores
até indicam que têm ciência de que o cotidiano dos universitários e também dos profissionais acaba
dificultando que eles façam leituras que os ajudem a superar essas deficiências. Para tanto, eles indicam
que a realização de leituras seria o único caminho para a superação das dificuldades comumente
apresentadas na escrita e, por conseguinte, na elaboração do diário de campo. Claro que a leitura não
influencia positivamente somente nesse aspecto, mas em toda a produção de alunos e profissionais.
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Lembrete

Aos que possuem dificuldade, a leitura amplia a capacidade de


interpretação e de escrita, aos que não possuem dificuldade, a leitura
amplia o repertório e a capacidade intelectiva, então é sempre bom tentar
conservar o hábito de ler.

Além de uma boa redação e de leitura, para elaborar o diário de campo, também é necessário
que o autor desenvolva uma postura investigativa, a qual requer que o assistente social sempre
busque manter‑se informado, atualizado e fortalecido no sentido do aprimoramento intelectual.
Aliás, o Código Profissional de Ética do Assistente Social apresenta o aprimoramento intelectual dos
profissional como um direito do assistente social, considerando‑o como algo basal para a efetivação
dos princípios indicados no referido código. No momento em que apresenta os direitos do assistente
social, o Código indica, no item f, “[...] aprimoramento profissional de forma contínua, colocando‑o a
serviço dos princípios desse código” (CFESS, 1993, p. 26). Apesar de o Código estar orientado para os
profissionais habilitados, é importante que os alunos também observem esses aspectos vinculados ao
Código, buscando incorporá‑los já durante seu processo formativo e sempre usando em seu benefício
para melhor qualificação constantemente.

Já no sentido da elaboração escrita, Fraga; Gaviragui e Goerk (2015) oferecem também algumas
indicações para a elaboração do diário, como, por exemplo, a necessidade de relatar o que aconteceu
no dia de trabalho ou de estágio. Mas, para isso, os autores indicam que é necessário não perder a
sensibilidade diante das situações com as quais os profissionais se deparam (FRAGA; GAVIRAGUI; GOERK,
2015). Portanto, citar autores, analisar os fenômenos à luz de um referencial teórico é muito válido e
importante, mas ficar preso a esse formato de relato e não expor a perspectiva do autor do diário de
campo torna este processo mecânico, comprometendo a capacidade crítica do autor. Por outro lado, na
elaboração do diário de campo, é importante “[...] usarem a sensibilidade, escutarem o que sentem [...]”
(FRAGA; GAVIRAGUI; GOERK, 2015, p. 266).

É preciso estar à vontade com a escrita, estar envolvido com esse processo, o qual deve ser um
momento de reflexão, que permita a junção entre teoria e prática. Portanto, não deve ser elaborado para
atender à necessidade dos supervisores, ou seja, não deve ser escrito de forma a “agradar” supervisor
acadêmico ou supervisor de campo, mas sim deve ser elaborado para que o estagiário consiga realizar
uma análise dialética da realidade. No caso do profissional habilitado, também é importante que o
registro não seja condicionado a interesses que lhes são superiores, de instâncias superiores, mas que, de
fato, represente a realidade vivida no espaço de trabalho. Esse tipo de documento, por sua vez, representa
a identidade profissional. Ou seja, ao ler um documento desse formato, temos muitas informações a
respeito do profissional que as elaborou ou mesmo do aluno.

No caso específico do estagiário, o diário de campo é um instrumento de supervisão, mas também


pode ser usado como um recurso de pesquisa, indicando possíveis temas para a elaboração do TCC. Para
o profissional, trabalhador, o diário de campo pode oferecer elementos para a análise crítica das ações

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realizadas e, consequentemente, para o planejamento de ações futuras. O diário de campo é, em ambos


os casos, o registro de memórias de uma trabalho realizado.

O diário de campo é um instrumento que nos possibilita retornar a uma


situação já passada e nela perceber determinações que constituem o
presente. Também nos permite assimilar mais facilmente a continuidade
de uma intervenção que está sendo ou já foi objeto de sistematização da
intervenção profissional, colaborando com a memória profissional e com a
qualificação das ações [...] (COSTA; GUINDANI, 2012, p. 270 apud FRAGA;
GAVIRAGUI; GOERK, 2015, p. 266).

O diário de campo se constitui ainda como um dispositivo de reflexão sobre a questão social, além
de ser um instrumento que mobiliza o autor à pesquisa. Ele é:

[...] um instrumental qualitativo que fornece dados empíricos e


subsídios para a análise e reflexão da prática, e potencialmente pode ser
transformado num espaço de mediações teórico‑práticas e elaborações
teóricas, isto é, num instrumento de pesquisa e investigação sobre o
cotidiano profissional (COSTA; GUINDANI, 2012, p. 273 apud FRAGA;
GAVIRAGUI; GOERK, 2015, p. 270).

Ou seja, não é um instrumental aleatório, mas congrega, em tese, a capacidade teleológica do


profissional que, por meio de uma análise, consegue rever as ações do passado e projetar ações futuras.
Afinal, o fato do diário de campo se consolidar como um instrumento de pesquisa e de investigação
profissional é condição imprescindível para que o estagiário ou o profissional possa reorganizar
intervenções futuras. Lima, Mioto e Dal Prá (2007) destacam que há profissionais que fazem o registro
das atividades relacionadas aos processos de trabalho e há outros que o utilizam especificamente com
a finalidade de realização de pesquisa. Assim, há casos de pesquisadores, escritores e todo um público
específico que utiliza o diário de campo somente como uma metodologia de pesquisa.

Nesse sentido, Lima, Mioto, Dal Prá (2007) enfatizam que a documentação incorpora um importante
aspecto do trabalho do assistente social. A sistematização da documentação é um dos elementos da
ação profissional. Dito de outra forma, apesar de os documentos de ação profissional serem flexíveis e
dinâmicos, eles permitem ao profissional uma revisão da ação, bem como o planejamento da intervenção
futura. De qualquer forma, a documentação, assim como o diário de campo, são elementos integrantes
do exercício profissional do assistente social. Assim, “[...] a documentação pode ser considerada como
um elemento constitutivo da ação profissional, uma vez que ela lhe dá materialidade ao compreender a
realização da ação” (LIMA; MIOTO; DAL PRÁ, 2007, p. 95).

Tanto Lima, Mioto e Dal Prá (2007) quanto Fraga, Gaviragui e Goerk (2015) nos advertem quanto ao
fato de que tanto profissionais atuantes quanto estagiários apresentam dificuldades em registrar suas
atividades todos os dias. No entanto, ao incorporar a documentação como um elemento constitutivo
da ação profissional, com o tempo, essa e outras dificuldades, como a de elaboração do relato, acabam
sendo suprimidas. No entanto, isso só é possível a partir de muito treino e leitura.
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Dentro dessa compreensão, os autores ainda indicam o diário de campo como um exemplo de
documentação, que representaria a “inteligência coletiva” (LIMA, MIOTO; DAL PRÁ, 2007, p. 95) da
categoria. Outrossim, quando é escrito um diário de campo e realizada a análise dos fenômenos
estudados à luz de uma teoria, que foi produzida ao longo dos anos pela categoria profissional, não é
uma análise com base em argumentos individualistas, mas sim com recorrência a saberes produzidos
e acumulados ao longo dos anos pelos assistentes sociais.

Mas Lima, Mioto e Dal Prá (2007) realizam ainda orientações mais específicas, sobre quais aspectos
devem ser observados quando elaboramos o diário de campo. Na verdade, alguns deles já salientamos
aqui, como a capacidade de escrever os relatos com clareza. As orientações de Lima, Mioto e Dal Prá
(2007), no entanto, oferecem um mapa de como elaborar o diário de campo. A primeira orientação
dos autores é que o diário seja elaborado todos os dias. Somente dessa maneira é possível uma “[...]
sistematização e detalhamento possível” (LIMA; MIOTO; DAL PRÁ, 2007, p. 99), conforme requer um
registro dessa natureza. Aliás, os autores ressaltam que, mesmo com todas as dificuldades, somente o
registro diário permite captar maiores detalhes e dados da realidade, até porque, quando não é feito
esse registro no dia, corre‑se o risco de acabar esquecendo de alguns detalhes e comprometendo
a descrição. Ao fazer o registro todos os dias, o profissional está com a memória mais recente e
fará o detalhamento das situações com as quais se deparou durante suas atividades. Uma indicação
interessante de Lima, Mioto e Dal Prá (2007) nesse sentido é que o diário de campo deve ser datado.

Observação

O diário de campo deve ser composto por três itens: descrição,


interpretação do observado e registro das conclusões preliminares, dúvidas,
imprevistos etc.

Mas, afinal, o que deve conter em um diário de campo? Quais são os elementos que o integram? O
que o compõe? Nesse sentido, o trabalho de Lima, Mioto e Dal Prá (2007) é extremamente válido, uma
vez que as autoras indicam como elementos‑chave do diário de campo a descrição, a interpretação
e o registro das conclusões preliminares. Dessa maneira, não apresentam um modelo rígido para
a elaboração da documentação, mas sugestionam sobre elementos que podem ser usados como
referência para a elaboração do diário de campo. Veja a seguir:

[...] (1) descrição; (2) interpretação do observado, momento no qual é


importante explicitar, conceituar, observar e estabelecer relações entre
os fatos e as consequências; (3) registro das conclusões preliminares, das
dúvidas, imprevistos, desafios tanto para um profissional específico e/ou
para a equipe, quanto para a instituição e os sujeitos envolvidos no processo
(LIMA; MIOTO; DAL PRÁ, 2007, p. 99).

A interpretação deve vir assentada em valores e parâmetros defendidos pela profissão. Outrossim, a
análise deve ser construída com base no conhecimento acumulado pela categoria, e não com respaldo
do senso comum. Além das atividades cotidianas, rotineiras, o diário deverá ainda registrar debates
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ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

e embates que por ventura foram vivenciados durante o trabalho. Além disso, informações sobre a
economia, a realidade social e demais dados que ajudem a contextualizar o espaço onde a intervenção
acontece são vitais para o entendimento de todo o contexto em que a ação está acontecendo. Dessa
maneira, também é possível compreender como a realidade externa afeta as intervenções do serviço
social, além de um rol amplo de aspectos afins.

Lembrete

O diário de campo deve possuir a descrição das atividades desenvolvidas,


seguida de análise.

A elaboração do diário de campo pressupõe ainda a interação entre o autor e o instrumento de


registro. Para facilitar a apresentação de informações no diário de campo, é proposta a utilização de um
esquema de cores para identificar e separar informações descritivas e analíticas. Ou seja, para que após
a elaboração do instrumental, este seja revisitado pelo autor que o elaborou e possa, assim, facilmente
identificar as informações que descrevem o espaço da intervenção e para que possa também encontrar
com maior facilidade os dados que compuseram a análise. Aliás, interessante ressaltar que a análise,
sempre que possível, deve acontecer à luz de uma referência teórica, além dos parâmetros que regem a
profissão. Dessa forma, o diário de campo se consolida, de fato, como um instrumento de reflexão, de
crítica e de avalição das intervenções desenvolvidas.

As informações descritivas correspondem ao relato de todos os aspectos que abarcam o exercício


profissional, ao passo que as anotações analíticas correspondem à crítica atribuída aos fenômenos
apresentados. Ou melhor dizendo:

[...] as anotações descritivas realizadas em diário de campo pretendem


transmitir com exatidão a exposição dos fenômenos sociais – requisito
essencial da pesquisa qualitativa e de uma intervenção profissional
preocupada não somente com ações imediatas, mas com o planejamento
destas. Consiste, portanto, em um primeiro passo para avançar na explicação
e compreensão da totalidade do fenômeno em seu contexto, captando seu
dinamismo e suas relações. Já as anotações de cunho analítico‑reflexivo,
surgidas da observação dos acontecimentos e dos processos, indicam
quais questões devem ser aprofundadas a partir de maiores informações
ou indagações, pois se entende que estas reflexões avançam na busca de
significados e explicações dos fenômenos apreendidos, tanto na realização
de uma pesquisa, como em situações de atendimento no cotidiano da
intervenção profissional (LIMA; MIOTO; DAL PRÁ, 2007, p. 100).

Por isso, as informações precisam ser registradas todos os dias e, sempre que possível, com o
máximo de dados que for possível. Afinal, o que caracteriza um diário como um material de qualidade
são os dados que ele apresenta. O detalhamento de informações é condição indispensável para um
diário de campo com qualidade. Claro que o diário de campo elaborado por aluno será diferente
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daquele que é feito por um profissional já atuante. Ao menos, espera‑se maior maturidade profissional
e intelectiva por parte do profissional. No entanto, é necessário ressaltar que nada disso é inato. Não
nascemos sabendo fazer diário de campo, mas vamos aprendendo. E só podemos aprender quando
tentamos várias vezes fazer uma atividade. Por isso, não importa, nesse momento, se você ainda têm
dificuldade, se acha o processo difícil ou cansativo demais. Importa é que você é capaz, mas, para isso,
é necessário treino e repetição.

5.2 Entrevista

A entrevista sempre será uma das técnicas mais utilizadas pelos assistentes sociais. Trata‑se de um
dispositivo de intervenção que está presente em praticamente qualquer área de atuação do assistente
social. No entanto, um dos livros mais populares da categoria, o qual discute os instrumentos e as
técnicas utilizados pelos assistentes social, foi inicialmente idealizado pensando na intervenção desse
profissional junto à área jurídica.

Saiba mais

Selma Marques Guimarães é assistente social do Tribunal de Justiça do


Estado de São Paulo. Grande parte da produção da autora discute a questão
dos instrumentos e técnicas usados por assistentes sociais no Judiciário.
Observe o texto a seguir, em que a autora figurou como colaboradora e no
qual há muitas indicações sobre a prática profissional do assistente social.

TJSP; ESCOLA PAULISTA DA MAGISTRATURA. Material da capacitação


técnica das varas da infância e juventude do estado de São Paulo. São
Paulo: Escola de Magistratura, 2011. Disponível em: <https://www.tjsp.
jus.br/Download/Corregedoria/pdf/Material_Capacitacao.pdf>. Acesso
em: 8 jul. 2019.

Lewgoy e Silveira (2007) nos dizem que a utilização da entrevista como abordagem do serviço social
é algo muito recorrente. Os autores dizem que a entrevista foi proposta como abordagem dos assistentes
sociais por Mary Richmond, nos anos 1950, com sua obra Diagnóstico Social. Nessa época, a entrevista
era defendida como uma conversa inicial, por meio da qual o assistente social conseguiria alcançar seus
objetivos profissionais.

No entanto, conforme Magalhães (2006), fazer uma boa entrevista demanda ao assistente social
a observação de alguns aspectos basais, dentre os quais as posturas que devem ser fortalecidas pelo
assistente social e outras que devem ser evitadas. Então, podemos inferir que o assistente social deve
sempre demonstrar uma posição atenta e não paternalista, compreendendo, sempre, que o sujeito
entrevistado é portador de direitos.

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ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

Magalhães (2006) ainda coloca que, durante a entrevista, cabe ao profissional ouvir mais do que
falar. Apesar desta dever ser usada como um meio de reflexão do usuário, é preciso evitar as críticas
aos atendidos. Quando critica‑se um entrevistado, pode haver o afastamento dele com relação às
intervenções, perdendo‑se o sentido do trabalho do assistente. O profissional deve sempre falar de
forma com que o usuário o compreenda, porém, não deve usar a mesma linguagem dele. Aliás, há um
grande reforço para que sempre façamos uso da linguagem culta, ou seja, evitar vícios de linguagem ou
falar de forma não condizente com a norma culta da língua portuguesa.

Para o direcionamento da entrevista, é possível usar um roteiro, sem, obviamente, ficar muito preso
a ele. Ele ajuda a conduzir a entrevista aos objetivos e finalidades. No entanto, ele não é uma camisa de
força. Pode‑se alterá‑lo a depender da necessidade. Em todo caso, é comum que, durante a realização
de uma entrevista, o assistente social precise anotar alguns dados e informações dos atendidos, e é
importante que o entrevistado tenha ciência do porquê de tais anotações. No caso, o técnico deve
explicar ao atendido a metodologia que utiliza para que o entrevistado não se sinta envergonhado
(MAGALHÃES, 2006).

Já Lewgoy e Silveira (2007) dizem que o primeiro passo para a realização de uma entrevista é
planejá‑la, defendem ainda que todas as ações do assistente social demandam um planejamento e
organização prévia. Cabe ao assistente social, nesse processo de planejamento, identificar para qual
política social a entrevista está sendo realizada. Depois disso, o profissional precisa delimitar o objetivo
da entrevista e como será feita a coleta de dados. Por fim, o terceiro passo corresponderia a decidir
horário e local em que a abordagem será realizada.

Após o planejamento, passa‑se à execução, que também tem etapas a serem desenvolvidas, quais
sejam: inicial, coleta de dados, contrato, síntese (registro) e, por fim, a avaliação. A etapa inicial é
aquela em que o entrevistador dá início à intervenção, explicando ao entrevistado o objetivo da
entrevista. Os demais procedimentos em questão são assim definidos pelos autores:

A coleta de dados requer habilidades do entrevistador na identificação


e na seleção das necessidades e demandas apresentadas pelos
entrevistados. As informações colhidas servirão de subsídios para
a avaliação das prioridades e definição das situações que, ao longo
da(s) entrevista(s), serão questionadas e aprofundadas, tendo como
referência os objetivos definidos anteriormente, ou (re)definidos no
seu processo [...].

O contrato pode ser traduzido como a manifestação de um acordo de


vontades entre as partes; por isso a necessidade de explicitar os objetivos da
entrevista e dos serviços disponíveis em relação às expectativas do usuário.
Nas entrevistas de seguimento, o contrato pode reformular‑se [...].

A terceira etapa é a do registro da entrevista, que se fundamenta no direito


do usuário em ter a evolução do seu atendimento documentado e no acesso
aos dados registrados, sendo este intransferível. O registro também tem como
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objetivo contribuir para a integralidade do atendimento e compartilhar o


conhecimento com os demais trabalhadores da instituição [...].

A avaliação da(s) entrevista(s) é o momento de retomar os objetivos e as


expectativas do usuário, revisão dos diferentes momentos e de planejamento,
conjunto de novas estratégias. É o momento também de organizar as ideias
para o registro [...] (LEWGOY; SILVEIRA, 2007, p. 237‑238).

Após essas etapas, é necessário que o profissional registre as informações do procedimento realizado.
Aqui também não há uma sequência flexível, mas sim indicações de como o processo de entrevista pode
ser conduzido no cotidiano das práticas profissionais de assistentes sociais.

Lewgoy e Silveira (2007) ainda colocam que há técnicas que devem ser observadas pelos
assistentes sociais quando estes realizam uma entrevista. São elas que garantem que o profissional
consiga alcançar seus objetivos profissionais, além de tornar a realização da entrevista um processo
de humanização da relação firmada entre assistente social e o sujeito entrevistado. Os autores ainda
colocam que a primeira técnica que deve ser utilizada no momento da entrevista é o acolhimento,
o qual consiste em uma aproximação que o técnico faz com aquele que irá atender, podendo ser
descrito pelas seguintes práticas:

[...] cordialidade e a preservação das regras de educação. Na primeira


entrevista, o entrevistador apresenta‑se com clareza, solicitando que o
usuário também o faça. Também é o momento em que ambos devem dizer
por que estão ali. O entrevistado diz por que veio e o(a) assistente social
explicita qual o seu objetivo (LEWGOY; SILVEIRA, 2007, p. 240).

Essa técnica deve ser usada pelo assistente social logo que ele inicia a abordagem, buscando
fazer com que o entrevistado se sinta bastante à vontade e confiante com o processo em que está
inserido. Os autores chamam a atenção para que os vícios de linguagem (como “mãe”, por exemplo)
sejam evitados, fortalecendo a necessidade de usar os nomes das pessoas; aliás, isso é vital para o
acolhimento se efetivar.

Outra técnica que seria de grande importância a essa abordagem é o questionamento. Afinal, não há
como realizar uma entrevista sem fazer perguntas para aqueles que estão sendo atendidos. Para definir
as questões a serem realizadas, é preciso ter muita clareza dos objetivos e também amplo conhecimento
do caso pelo profissional. “O questionamento tem de ir ao encontro da finalidade da entrevista, o que
exige do assistente social estudo e conhecimento para tanto” (LEWGOY; SILVEIRA, 2007, p. 245).

Vinculado ao processo de questionamento vem a reflexão, momento em que o técnico viabiliza a


análise da situação vivida pelo atendido. A entrevista não pode ser usada como um meio do técnico
impor ao atendido a sua perspectiva, mas deve funcionar como um dispositivo de reflexão ao próprio
usuário. Para tanto, existe a técnica de clarificação, que consiste em deixar o conteúdo da entrevista
compreensível ao atendido, ou seja, deixar claro e bem explicado tudo aquilo que fora discutido.

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ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

Durante a realização da entrevista, o assistente social é conduzido a realizar uma exploração


ou aprofundamento, que é momento de repensar sobre quais áreas o usuário demanda maior
intervenção por parte do fazer profissional. “A exploração é uma técnica pela qual o assistente
social procura investigar áreas da vida do usuário que requerem exame mais profundo” (LEWGOY;
SILVEIRA, 2007, p. 246).

As autoras ainda indicam outras técnicas que podem ser usadas quando realizamos uma entrevista,
como, por exemplo, o silêncio sensível, pois há momentos em que é necessário não interferir nas
expressões do entrevistado. Indicam ainda a apropriação do conhecimento como outra técnica por
meio da qual o profissional obtém as informações de que precisa para intervir da melhor forma
junto ao caso atendido, buscando sempre resguardar os direitos dos usuários. E, por fim, destaca
a síntese integradora como a metodologia final para a realização da entrevista, que consistiria
em: “O encerramento da entrevista é introduzido pela elaboração da síntese integradora daquele
momento e não pode ser confundida com resumo” (LEWGOY; SILVEIRA, 2007, p. 248). Ou seja,
são passos que estão presentes em todas as entrevistas e, por meio das colocações de Lewgoy e
Silveira (2007), nos auxiliam na realização de uma boa entrevista. Magalhães (2006) não indicou
tantos aspectos de forma tão pormenorizada, mas ofereceu informações genéricas. No âmbito
da especificidade, para tanto, são extremamente relevantes as colocações da autora sobre os
tipos de entrevista.

Para Magalhães (2006), há quatro tipos de entrevista, a saber:

• Livres: são abordagens em que o entrevistador traz à tona o tema a ser debatido e partindo do que
o entrevistado diz, orienta o atendimento.

• Dirigidas: intervenções em que o entrevistador conduz toda a entrevista, buscando esgotar um


assunto específico.

• Semidirigidas: são aquelas técnicas em que o entrevistador deixa que o entrevistado tenha maior
liberdade para falar, discorrer e, somente partindo de suas falas, vai conduzindo o processo de
atendimento. Essa seria uma junção da entrevista livre com a dirigida.

• Devolutivas: são intervenções em que o entrevistador confere uma devolutiva ao entrevistado de


uma abordagem realizada, a qual é orientada a dar um retorno ao atendido de uma situação que
tenha sido constatada pelo entrevistador.

Todas essas modalidades de entrevista estão presentes no cotidiano dos assistentes sociais.
Em grande parte, elas provêm da demanda contemplada pelo profissional.

A seguir, é apresentado um quadro com a síntese dos conteúdos, para que fique simples a diferenciação
entre esses instrumentais.

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Quadro 4 – Síntese de conteúdos

Características – entrevista Características – diário de campo


Presentes em várias áreas de atuação profissional Elaborado diariamente, com datas
Figura como abordagem do assistente social ao Escrito por assistentes sociais e estagiários de
longo dos anos serviço social
Possuem formatos diferentes: livres, dirigidas, Composto por descrição, interpretação e conclusão
semidirigidas e devolutivas
Devem sempre preservar o indivíduo e a Apresenta informações descritivas e analíticas
efetivação dos direitos sociais
Dependem do objetivo do profissional e também Usado para a pesquisa e para o registro de dados
do serviço a que ele está vinculado relacionados ao trabalho

5.3 Estudo social e socioeconômico

Outro instrumental que é largamente utilizado pelos assistentes sociais é o estudo social ou estudo
socioeconômico. O estudo é compreendido como uma “[...] análise sobre algo que se quer conhecer
por meio da observação e do exame detalhado, ou seja, é a pesquisa sobre determinado assunto”
(MAGALHÃES, 2006, p. 50). O estudo em tese está presente em todos os momentos do fazer profissional.
No entanto, a história nos mostra que no contexto do surgimento do serviço social no Brasil, o estudo era
nomeado com o termo socioeconômico. Neste momento, serão estudados os aspectos que demarcam
essa mudança terminológica, bem como a postura dos assistentes sociais.

Observação

Mary Richmond é considerada uma das grandes referências do serviço


social de casos, método de abordagem que trouxe ao Brasil.

O termo estudo surgiu no serviço social brasileiro por influência do aporte ao serviço social de
casos individuais, trazido por Mary Richmond no contexto dos anos 1950. Inicialmente, o estudo era
usado visando ao conhecimento do indivíduo e seu consequente ajustamento à ordem social vigente.
No entanto, a incorporação do termo socioeconômico adveio da utilização desse dispositivo para
viabilizar o acesso a elementos materiais, ligados à sobrevivência dos atendidos (MIOTO, 2000).

Em tese, a abordagem proposta por Mary Richmond pressupunha o estudo do caso, seguido pelo
diagnóstico, no qual o assistente social deveria identificar informações individuais e ambientais do caso
atendido e os recursos para corrigir a situação apresentada. Assim, os recursos não eram restritos às
situações econômicas, mas incorporavam também a mobilização de aspectos ligados à subjetividade dos
atendidos. Caberia ao assistente social analisar caso a caso que lhe era apresentado por meio do estudo
e, quando necessário, também realizar o estudo socioeconômico.

Mioto (2000), no entanto, aponta muitas mudanças na categoria ao longo dos anos; dentre as quais,
o movimento de reconceituação do serviço social, que proporcionou à profissão uma profunda revisão
de sua base teórica e metodológica. Dentre as alterações processadas no interior da categoria, temos a
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ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

alteração do termo estudo socioeconômico para estudo social. Isso porque se passou a compreender
que o termo estudo socioeconômico restringia a ação do assistente social a uma análise financeira,
pontual, ao passo que o estudo social busca evocar para a profissão uma análise alicerçada na noção
de efetivação dos direitos sociais e que, sobretudo, vai além da demanda econômica apresentada pelos
usuários. Assim, não houve apenas uma mudança terminológica, mas sim alterações na forma de
compreender como abordar um indivíduo.

Hoje, o estudo social tem como missão a realização de uma análise ampla, crítica e calcada na noção
de totalidade junto aos indivíduos. Conforme salienta Mioto: “[...] o estudo social tem por finalidade
conhecer com profundidade, e de forma crítica, uma determinada situação ou expressão da questão
social, objeto da intervenção profissional especialmente nos seus aspectos socioeconômicos e culturais”
(FÁVERO, 2004, p. 42 apud MIOTO, 2000, p. 6). Ou seja, trata‑se de estudo e pesquisa de questões e
situações específicas, mas compreendendo‑as ligadas à noção de totalidade.

Via de regra, os estudos sociais são desenvolvidos em vários serviços públicos e privados, e, em grande
parte, estão ligados ao acesso aos benefícios por parte da população. Dentre esses benefícios, podem
ser citados os materiais e os financeiros. Nesse espectro, pode‑se citar como exemplo da utilização
desse instrumental a prática desenvolvida nos plantões, em que há concessão de benefícios financeiros.
Porém, o estudo social também tem sido cada vez mais usado para subsidiar decisões judiciais. Nesse
sentido, junto ao Judiciário, é comum que os profissionais confiram o estudo social em face do caso que
lhe foi apresentado, sendo usado como referência para as decisões judiciais em casos específicos.

A definição de Mioto (2000, p. 9) sobre o estudo social chama a atenção para o fato de que esses
dispositivos condensam atos do profissional, que são realizados de maneira consciente e que devem
estar alicerçados nos princípios éticos da nossa categoria. A autora assim o define:

Os estudos socioeconômicos/estudos sociais, como toda ação profissional,


consistem num conjunto de procedimentos, atos, atividades realizados
de forma responsável e consciente. Contêm tanto uma dimensão
operativa quanto uma dimensão ética e expressa, no momento em
que se realiza a apropriação pelos assistentes sociais dos fundamentos
teórico‑metodológico e ético‑políticos da profissão em determinado
momento histórico (MIOTO, 2000, p. 9).

Pode‑se inferir também que todos os instrumentais, assim como as técnicas usadas pelos assistentes
sociais, devem ser condicionados ao Código Profissional de Ética. O texto a seguir é bastante interessante
e apresenta relação com o conteúdo que estudamos.

Benefício BPC‑Loas do INSS: valor pode ser pago para quem nunca contribuiu

É possível que a pessoa que nunca pagou o INSS tenha direito a um benefício da Previdência
Social? A resposta é sim. Mas apenas tem direito a este benefício quem tem mais de 65 anos
de idade ou, de qualquer idade, se tiver alguma incapacidade de longa duração.

55
Unidade II

O benefício é uma ajuda do Governo Federal, no valor de um salário mínimo, para as


pessoas de família de baixa renda.

Lembrando que além da idade ou da incapacidade, o interessado ao benefício deverá


provar também que a família não tem condições de manter este idoso ou esta pessoa com
deficiência, que pode ser de natureza mental, física, intelectual ou sensorial.

É como se fosse uma aposentadoria?

Exatamente isso. Na prática, é um benefício da Lei Orgânica da Assistência Social


(LOAS), conhecido como Benefício de Prestação Continuada (BPC). A diferença é que as
aposentadorias e pensões têm o décimo terceiro e o BPC não tem.

Tem direito ao BPC o brasileiro, nato ou naturalizado, e as pessoas de nacionalidade


portuguesa, desde que comprovem residência fixa no Brasil e renda por pessoa do grupo
familiar inferior a ¼ de salário mínimo atual. Além disso, devem se encaixar em uma das
seguintes condições:

• Para o idoso: idade igual ou superior a 65 anos, para homem ou mulher;

• Para a pessoa com deficiência: qualquer idade – pessoas que apresentam


impedimentos de longo prazo (mínimo de 2 anos) de natureza física, mental,
intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem
obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições
com as demais pessoas.

Etapas para realização desse serviço:

• Efetuar o cadastramento do beneficiário e sua família no Cadastro Único de


Programas Sociais do Governo Federal – CadÚnico.

• As famílias já inscritas devem estar com o CadÚnico atualizado (máximo de 2 anos da


última atualização) para fazer o requerimento no momento da análise do benefício.

• Solicitação do benefício através de um dos seguintes canais de atendimento:


meu.inss.gov.br/Telefone 135/Aplicativo Meu INSS: Google Play, App Store/Agência
de Previdência Social.

Como o INSS avalia se a pessoa é de uma família de baixa renda?

A avaliação será realizada através de um assistente social. Para isso, será necessário que
o interessado leve no INSS, no dia do protocolo do pedido, um estudo social feito por um
assistente social.

56
ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

Como conseguir um estudo social?

É necessário procurar um assistente social no Centro de Referência de Assistência Social


(CRAS). Toda cidade tem pelo menos um CRAS (encontre o CRAS da sua cidade). A família
deve estar inscrita e atualizada no Cadastro Único de Programas Sociais do Governo Federal
(CadÚnico) antes da apresentação de requerimento à unidade do INSS.

Fonte: Moreira (2019).

É possível verificar que o estudo social é apresentado como um elemento basal para acesso ao
benefício de prestação continuada. Nesse sentido, pode‑se dizer que o estudo social é um meio de
afirmar a importância da profissão, fortalecendo a noção de ser uma atividade socialmente necessária.

O estudo social deve ser planejado e organizado previamente e sempre deve partir das necessidades
apresentadas pelos sujeitos, compreendidos como sujeitos de direitos. Os estudo sociais não podem
observar apenas o indivíduo de forma isolada, fragmentada, mas considerar a família na qual está inserido
o atendido. Para Mioto (2000), é basal identificar aspectos relacionados ao domicílio dos atendidos, seus
parentescos e afetos. Após a realização de toda essa análise, a qual deve ser essencialmente construída
de maneira dialógica com aqueles que são atendidos, é necessária a emissão de um parecer.

Observação

O estudo social é concluído quando o profissional emite um parecer.

Mas como realizar o estudo social? O técnico deve recorrer a abordagens individuais, grupais,
assim como aos instrumentais: entrevista, observação, reunião, visita e análise documental. Ou seja,
deve se valer de todos os elementos que estejam a sua disposição e assim identificar todos aspectos
possíveis em relação aos atendidos. No entanto, toda e qualquer intervenção do assistente social
deverá ser desenvolvida considerando‑se o projeto ético‑político e os documentos que embasam a
ação profissional.

A seguir, a síntese do que foi discutido anteriormente.

Quadro 5 – Síntese de conteúdos

Estudo social/socioeconômico
Assentado na noção de totalidade
Utilizados em empresas públicas e privadas
Podem ser usados para concessão de benefícios materiais e como apoio para decisões judiciais
Desenvolvidos por meio de abordagens individuais e grupais

57
Unidade II

6 LAUDO SOCIAL, PARECER SOCIAL, PERÍCIA SOCIAL, RELATÓRIOS, VISITA


DOMICILIAR E VISITA INSTITUCIONAL

Agora serão vistos outros instrumentais que são largamente utilizados por assistentes sociais: os
laudos e os pareceres. Dada a sua especificidade, laudos e pareceres ainda provocam muitas confusões
entre os profissionais. Na sequência, tal conteúdo será esmiuçado.

6.1 Laudo social

Em matérias de serviço social, é importante ressaltar que laudos, pareceres e perícias são atribuições
privativas dos profissionais habilitados na área. Conforme indicado pela lei que regulamenta a
profissão, são atribuições privativas do assistente social: “IV – realizar vistorias, perícias técnicas,
laudos periciais, informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social” (BRASIL, 1993). Ou seja,
somente assistentes sociais podem emitir tais documentos que discutam matéria de serviço social.
Outros profissionais podem emitir laudos, relatórios ou pareceres, porém, em matéria de serviço social,
somente assistentes sociais.

Visando orientar o trabalho dos profissionais, a Resolução CFESS nº 557/2009, de 15 de setembro de


2009, no artigo 1º, fortalece que a emissão de tais documentos é uma prerrogativa para o trabalho do
assistente social. Nos artigos seguintes, a resolução indica que o técnico deve ter autonomia para emitir
pareceres, laudos e demais documentos, incluindo quando estiver inserido em equipes multidisciplinares
ou multiprofissionais. Além de reforçar a necessidade de que exista respeito às demais profissões, a
resolução indica ainda a eminência, que sejam respeitadas também as atribuições privativas do
assistente social e assevera que as discussões sobre dados casos podem ser coletivas, mas a emissão de
laudos e pareceres deve destacar a perspectiva do assistente social, enfatizando‑a. Assim, não há como
um assistente social emitir um parecer sobre conteúdos afetos à psicologia, e o parecer ou o laudo do
assistente social precisa estar orientado apenas às discussões que sua formação o permitem fazer.

Tendo tais colocações arroladas, segue‑se ao estudo do laudo social, o qual é “[...] um documento
escrito que contém um parecer ou opinião conclusiva do que foi estudado e observado sobre determinado
assunto” (MAGALHÃES, 2006, p. 60). Ou seja, o laudo só pode ser realizado se anteriormente a ele o
técnico realizar um estudo amplo sobre o assunto que lhe foi requerido.

Após o estudo, o laudo social deve apresentar uma análise da situação, seguida por uma opinião
técnica. Em alguns casos, é preciso que o emissor do laudo social, via de regra, um perito, possa até
mesmo responder a quesitos já previamente formulados em forma de análise conclusiva. O laudo deve
incorporar ainda diretrizes e sugestões de ação, as quais sempre devem ser fundamentadas.

Os laudos sociais são mais comuns para os assistentes sociais que atuam junto ao Judiciário ou ao
INSS. No entanto, para a emissão de um laudo social, é preciso que o profissional tenha domínio do
assunto. Obviamente, o laudo é emitido somente após a realização de um estudo. Mas, como documento,
precisa ser sistematizado e deve demonstrar que o profissional tem compreensão daquilo que está
fazendo (MAGALHÃES, 2006).

58
ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

Magalhães destaca ainda que, via de regra, os laudos devem possuir cabeçalho, indicando dados do caso e
a quem se destina o documento. Deve apresentar ainda os instrumentos usados na construção do documento
e os sujeitos que dele participaram. Além disso, Magalhães (2006) salienta que há instituições, citando como
exemplo o INSS, que já possuem um modelo específico de laudo social, denominado laudo impresso, porque se
trata de formulário já previamente elaborado para que o profissional faça o preenchimento. Esse documento
deveria ser elaborado de maneira democrática, mas nem sempre isso é possível.

Já Mioto (2000), que parte de uma análise mais voltada para a utilização do laudo social no sistema
Judiciário por assistentes sociais, fortalece a noção de laudo social como um instrumento, um dispositivo
que pode ser usado como prova perante uma situação processual. Assim, um laudo, ao final, pode
apresentar um parecer conclusivo emitido pelo profissional que realizou o estudo. A autora assim define
o laudo social:

O laudo é o registro que documenta as informações significativas, recolhidas


por meio do estudo social, permeado ou finalizado com interpretação e
análise. Em sua parte final, via de regra, registra‑se o parecer conclusivo, do
ponto de vista do serviço social. Conclusivo no sentido de que deve esclarecer
que, naquele momento e com base no estudo científico realizado, chegou‑se
à determinada conclusão. Para a efetivação desse registro, o profissional
vai ter como referência conteúdos obtidos por tantas entrevistas, visitas,
contatos, estudos documental e bibliográfico que considerar necessários
para a finalidade do trabalho (MIOTO, 2000, p. 28).

Para ser elaborado, o laudo demanda que o técnico recorra a outros instrumentos e técnicas, os
quais servem de sustentação para a realização do estudo social. O laudo social também deve incorporar
as noções e referências que são usadas e defendidas pela categoria profissional.

Além de enfatizar que o laudo social precisa ser escrito em norma culta, Mioto (2000) ainda destaca o
fato de que no laudo não é necessário fazer descrições muito detalhadas das intervenções desenvolvidas,
uma vez que isso cabe aos relatórios. Para melhor orientar a elaboração dos laudos sociais, a autora
propõe também um modelo para a elaboração desse documento, composto pela estrutura: introdução,
identificação dos envolvidos, metodologia de ação e os conceitos usados, conduzindo para a emissão de
um parecer conclusivo.

Sua apresentação geralmente segue uma estrutura constituída por: introdução,


indicando a demanda judicial e objetivos do trabalho; identificação das
pessoas envolvidas na ação e que direta e indiretamente estão incluídas no
estudo; a metodologia utilizada para a efetivação do trabalho (entrevistas,
visitas, contatos, estudos documental e bibliográfico etc.) e a definição breve
de alguns conceitos utilizados, na medida em que o receptor da mensagem
contida nesse documento não necessariamente tem familiaridade com os
conhecimentos da área do serviço social (MIOTO, 2000, p. 29).

Escrita clara, estruturada e bem elaborada são requisitos basais para a elaboração de um laudo social.
59
Unidade II

6.2 Parecer social e perícia social

O parecer social é um apontamento que o profissional pode fazer ao final do relatório ou


do laudo social. Também pode ser emitido para responder a quesitos específicos, não sendo
inserido ao final de nenhum documento. Em geral, o parecer social é uma manifestação sucinta
sobre uma dada situação apresentada. Pode ser feito em decorrência de decisão judicial que o
requisitou e, nesse caso, deve ser considerado todo o processo e demais informações do caso
(MAGALHÃES, 2006).

Já no caso de emissão de parecer com base em um estudo social, todas as informações


necessárias ao caso devem ser consideradas para a emissão do documento. Em tais documentos,
o parecer funciona como uma espécie de finalização, de caráter conclusivo ou indicativo.
Conforme Magalhães (2006), o parecer também pode apresentar propostas de intervenção ou
recomendações afins.

Agora será abordado o conceito de perícia social. Em tese, a perícia é descrita como “[...] a vistoria ou
o exame de caráter técnico especializado” (GOMES, 2018, p. 7). Pode‑se inferir que uma perícia requer
que aquele que a realize possua domínio de conhecimento. Essa premissa é válida para qualquer área
de conhecimento, incluindo o serviço social. Não podemos atuar com perícia social se não possuirmos
domínio de conhecimento.

Além disso, a perícia é requerida para subsidiar uma decisão. Em grande medida, a perícia social é
solicitada no Judiciário, sendo comum também no INSS e outros órgãos como a Defensoria Pública, por
exemplo. Independentemente do local de atuação do assistente social, ao realizar uma perícia social, é
fundamental que esse profissional esteja assentado no saber que fundamenta a sua profissão. Por outro
lado, é igualmente validada a premissa de que o assistente social não pode atuar como perito em temas
que não estejam vinculados a sua área de formação.

Ao buscar deixar clara a noção de perícia social vinculada ao serviço social, Gomes (2018, p. 8) indica
dois conceitos de perícia social, sendo o primeiro:

[...] um processo através do qual um especialista, no caso assistente


social, realiza o exame de situações sociais com a finalidade de emitir
um parecer sobre as mesmas. A autora ainda destaca os eixos de
sustentação da perícia social como: competência técnica, competência
teórico‑metodológica, autonomia e compromisso ético (MIOTO, 2001,
p. 141 apud GOMES, 2018, p. 8).

Ou seja, a perícia é compreendida como uma atuação que requer um especialista, um saber
específico para a emissão do parecer. Além do saber específico do assistente social, é necessário ainda
o desenvolvimento de competências nas áreas técnica e teórico‑metodológica, além de autonomia e
compromisso ético. Somente com essas características o profissional poderá desenvolver uma ação
realmente de qualidade e efetivadora de direitos.

60
ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

Outra definição interessante, apresentada por Gomes (2018), refere‑se ao seguinte conceito:

Perícia social trata‑se de estudo e parecer cuja finalidade é subsidiar uma


decisão, via de regra, judicial. [...] a perícia é o estudo social, realizado
com base nos fundamentos teórico‑metodológicos, ético‑políticos e
técnico‑operativos, próprios do Serviço Social [...] (FÁVERO, 2005, p. 44 apud
GOMES, 2018, p. 8).

Apesar de ambas as autoras concordarem que a perícia social é usada para subsidiar uma decisão,
e que os parâmetros que regem o exercício do profissional devem ser considerados no processo de
elaboração da perícia social, para Mioto (2000), a perícia social é construída por meio do estudo social,
ao passo que, para Fávero (2000), a perícia social é o estudo social.

Em que pese as divergências das autoras, pode‑se inferir que o perito é aquele que detém um
saber específico e que emite um parecer com base nos parâmetros da sua profissão, da sua formação.
Independentemente do fato de o estudo anteceder a perícia ou de o estudo se constituir na perícia,
é necessário que o assistente social faça uso dos seus instrumentos e técnicas. Assim, a perícia pode
requerer visitas, entrevistas e outros instrumentais afins.

Fávero (2000) ainda nos coloca que a perícia social deve ser construída pelo assistente social seguindo
dois passos básicos: o primeiro seria o conhecimento amplo da situação, e no caso de perícia judicial,
isso importa conhecer todo o processo. No caso de perícia social desenvolvida fora do espaço judiciário,
esta demanda o conhecimento de todos os dados e documentos da situação analisada. No segundo
passo, seria necessária a definição dos instrumentos que serão utilizados para a realização da perícia,
ou seja, quais instrumentos e quais técnicas permitirão ao assistente social uma maior aproximação da
realidade analisada.

A perícia social demanda competência teórico‑metodológica, além de compromisso ético‑político,


aliás, elementos imprescindíveis para a atuação do assistente social em qualquer área profissional. Ela
ainda deve, por conseguinte, estar relacionada a qualquer conteúdo do serviço social. Pode ser emitida
por meio de documentos como o laudo social, por exemplo. Como visto, são muitos os instrumentos
e técnicas que podem ser usados pelos assistentes sociais. Para facilitar a apreensão desses conteúdos,
veja o quadro a seguir:

Quadro 6 – Síntese de conteúdos

Laudo social Parecer social Perícia social


Emitido por aquele que tem domínio Demanda domínio de conhecimento
Manifestação sucinta
do tema por parte do perito
Inserido ao final dos documentos ou Vinculada à fundamentação teórica da
Pode ser usado como uma prova judicial resposta a quesitos categoria.
Pode ser construído em modelos Finalização do documento de caráter Requer competência teórico‑metodológica
impressos e previamente elaborados conclusivo e indicativo e compromisso ético.
Pode ser feito em razão de determinação Demanda a utilização de instrumentos
Pode apresentar um parecer social ao final judicial ou para outras atividades e técnicas do serviço social

61
Unidade II

6.3 Relatórios

Há uma infinidade de abordagens no serviço social que buscaram, e buscam, ainda delimitar aspectos
relacionados aos relatórios que existem em nosso cotidiano profissional. A perspectiva metodológica
usada para elaborar o presente livro‑texto recorre à análise de Magalhães (2006), uma vez que essa é
uma literatura corrente e amplamente utilizada pela categoria.

Saiba mais
Observe um modelo de relatório que foi incorporado a um artigo
científico por meio do acesso ao texto no link a seguir:
ORTIZ, M. C. O relato de um caso. Psicol. cienc. prof. Brasília, v. 8, n. 1, p. 26,
1988. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid
=S1414‑98931988000100016&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 8 jul. 2019.
O relatório apresentado foi elaborado com nomes fictícios e usa uma
experiência prática desenvolvida junto ao Judiciário.

A autora define o relatório elaborado pelo assistente social como uma forma de descrever a “[...]
pesquisa e a apresentação de atividades desenvolvidas em determinado setor, a visitas realizadas”, sendo
também possível a elaboração de relatórios que descrevam providências tomadas diante do caso ou à
situação que motivou a elaboração do relatório.

O relatório também deve ser construído usando‑se como referência princípios teórico‑metodológicos
e ético‑políticos que norteiam o exercício profissional. Demandam ainda competência técnica e domínio
da língua culta. Martins (2017, p. 91‑92) assevera também a importância das capacidades do assistente
social na elaboração dos relatórios:

Os relatórios são registros descritivos sobre as situações da intervenção,


utilizados para fixar aspectos importantes dos fenômenos enfrentados
pelos profissionais. Relatar supõe o preparo do locutor para dialogar com
o destinatário da informação, seja este um assistente social, membro do
Judiciário, gestor ou um agente de outra profissão (MARTINS, 2017, p. 91‑92).

Os relatórios que são elaborados para arquivo de um dado serviço devem ser elaborados consoantes
com os aspectos indicados anteriormente, ou seja, norma culta e vinculação aos parâmetros difundidos
pela categoria. Aliás, Martins indica que os relatórios não devem ter uma suposta neutralidade científica,
mas sim defender os parâmetros da categoria. Assim,

[...] escreve‑se a partir de um ponto de vista, de um conjunto de valores


e experiências sociais e pessoais que condicionam o texto. Nesses termos,
relatar é também avaliar, escolher o que comporá ou não a narrativa
elaborada (MARTINS, 2017, p. 92).
62
ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

A própria elaboração do relatório deve ser um processo de análise crítica do profissional sobre a sua
conduta e sobre o objeto de sua intervenção.

Observação

A visita de inspeção ou institucional é realizada pelo assistente social


junto a alguma instituição ou serviço.

Magalhães (2006) nos apresenta quatro tipos de relatórios, a saber:

• Informativo: é aquele que o profissional descreve dados ou fatos importantes e encaminhamentos


simples, apenas com o objetivo de participar aos interessados sobre as ações desenvolvidas.

• Circunstanciado: é elaborado tendo em vista a atenção de uma determinada situação de


emergência, podendo ser acompanhado com um pedido de providência emitido em um parecer,
indicando a urgência do caso.

• De visita domiciliar: apresenta informações, descrições de aspectos observados e analisados


durante a realização de visita domiciliar.

• De inspeção: é aquele em que há a descrição da análise realizada por meio da visita às instituições
de atendimento.

Quadro 7 – Síntese de conteúdos

Relatórios
(características)
Descrevem atividades desenvolvidas, visitas
realizadas e providências tomadas
Demandam vinculação do assistente social aos
parâmetros de sua profissão
Observação da linguagem culta
Há vários tipos de relatórios, e cada um deles se
destina a descrever um tipo de ação desenvolvida
pelo assistente social

6.4 Visita domiciliar e visita institucional

Neste momento, serão apresentadas duas técnicas que são basais aos assistentes sociais: a visita
domiciliar e a visita institucional. Interessante pontuar que essas atividades não são atribuições
privativas dos assistentes sociais. Em tese, vários outros profissionais podem usar a visita domiciliar ou
institucional como método de ação. Isso depende muito das orientações e normativas de cada categoria
(MAGALHÃES, 2006; PEREIRA; SOUZA, 2016).

63
Unidade II

No entanto, é uma técnica de abordagem muito usado pelo serviço social com o objetivo de
conhecer um pouco mais da realidade observada. De acordo com Pereira e Souza (2016), as visitas
surgiram no contexto de seu surgimento no Brasil, porém alicerçadas na perspectiva de possibilitar
ao assistente social a realização da fiscalização e da moralização de determinados segmentos. Nesse
contexto, vemos que a profissão era orientada pela ótica de que as ações profissionais deveriam
alterar os comportamentos dos desajustados, ajustando‑os às necessidades capitalistas. A visita surge
nesse momento, mais voltada a indivíduos e famílias, sendo apresentada como uma especialização do
método de serviço social de casos, uma ação que viabilizava de maneira mais adequada o ajustamento
de condutas dos atendidos. No contexto dos anos 1980, no entanto, perante as mudanças processadas
no interior da categoria, a visita domiciliar passou a ser compreendida como um instrumento de
conhecimento do público‑alvo das ações dos assistentes sociais, e não mais como um instrumento
de fiscalização desse segmento.

Lembrete

O método de serviço social de casos que objetivava o ajustamento de


condutas foi idealizado por Mary Richmond e exerceu grande influência
junto aos assistentes sociais brasileiros.

Atualmente, a visita domiciliar tem sido compreendida como um meio para “[...] clarificar
situações, considerar o caso na particularidade de seu contexto sociocultural e de relações sociais”
(MAGALHÃES, 2006, p. 54). Ou seja, um modo para ampliar os dados que o técnico possui sobre
uma dada situação, visando assim melhor qualificar sua ação não mais com o objetivo de impor
normas de conduta aos atendidos. A visita domiciliar permite a apreensão da singularidade da
vida dos atendidos, além de ser um meio que possibilita a intervenção do assistente social sob um
determinado aspecto, bem como é um espaço de reflexão em que o próprio profissional revê suas
práticas e estimula os usuários atendidos em fazer o mesmo processo. A visita domiciliar pode ser
assim compreendida como:

[...] um instrumento de trabalho que visa ao conhecimento aprofundado do


modo e da condição de vida da população usuária, realizado diretamente no
espaço de residência e/ou vivência dos sujeitos, propiciando uma aproximação
com o seu cotidiano e com a realidade socioterritorial vivenciada pelos mesmos.
Este instrumento é balizado por uma dimensão investigativa que possibilita
apreender os processos sociais singulares em conexão com a dinâmica
societária, juntamente com uma postura ético‑política comprometida com
o atendimento das necessidades sociais e com o respeito da liberdade e da
autonomia. Além disso, a visita domiciliar – como um instrumento interventivo
– é desenvolvida em articulação com técnicas como a de observação,
acolhimento, questionamento e reflexão, visando uma abordagem que tem
como centralidade o diálogo e o estabelecimento de vínculo entre o profissional
e a população usuária [...] (CLOSS; SCHERER, 2017, p. 5).

64
ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

Assim como os demais instrumentos e técnicas aos quais o serviço social recorre, a visita domiciliar
também deve ser utilizada valendo‑se de parâmetros que orientam a ação do assistente social na
contemporaneidade, motivo pelo qual abordagens invasivas e que deixam os usuários em situações
desagradáveis devem ser refutadas. A definição anterior indica ainda que, apesar de a visita domiciliar
buscar melhor compreender uma dada situação específica e singular, sua realização não pode ser
desenvolvida de forma dissociada do todo. Assim, ao analisar uma determinada situação, deve‑se
considerá‑la como resultado de questões econômicas, sociais e políticas que influenciam a vida dos
seres humanos. Melhor dizendo, ao realizar uma visita domiciliar, é basal considerar o contexto histórico,
político e societário vivenciado.

Closs e Scherer (2017), assim como Magalhães (2006), colocam que as visitas domiciliares devem
ser planejadas previamente, mas a utilização desse instrumental e sua organização irá depender
muito do contexto em que ele será utilizado. Aliás, quanto a isso, é interessante atentar‑se ao fato de
que a visita domiciliar é um instrumento muito utilizado por assistentes sociais, independentemente
da sua área de atuação.

Nessa direção, Closs e Scherer (2017) colocam que a visita domiciliar possui três etapas a saber:
planejamento, execução e registro, sendo que cada uma delas apresenta especificidades que as definem
e são basais para que os profissionais desenvolvam uma abordagem positiva e que seja promotora de
direitos, e não um meio de fiscalização dos usuários atendidos.

Observação

A recomendação é que as visitas domiciliares sejam agendadas


previamente, além do planejamento da intervenção.

A fase do planejamento seria aquela em que o assistente social analisa se há a necessidade de


relação da visita, sendo também nesse momento que o técnico define outros aspectos dentre os
quais qual é o objetivo da abordagem, quais as informações prévias que temos sobre esse objeto
de ação, quais dados já possuímos sistematizados e qual a data que a abordagem será realizada.
Na segunda fase, temos a execução. Nela, vemos que o técnico, de fato, coloca em prática a visita
domiciliar já programada. Na execução, o técnico firma um contrato com o atendido, buscando
acolhê‑lo e fortalecer o vínculo entre o usuário e o assistente social. Também é na execução que
o técnico realiza a coleta de dados, sempre considerando o objetivo pactuado para tal abordagem.
É o momento da investigação no sentido do conhecimento. E, por fim, chega‑se então ao registro,
uma vez que a abordagem só se consolida após o técnico registrar por sistemas de comunicação
escrita a abordagem desenvolvida.

Magalhães (2006) ainda propõe que, na visita domiciliar, seja possível observar situações singulares,
mas nunca tentar julgar aqueles que são atendidos segundo nossos parâmetros de vida. Além disso, a
autora recomenda não realizar procedimentos invasivos e que comprometam a relação com os usuários.
Como algo inerente à prática do assistente social, a visita deve, essencialmente, ser usada como meio de
efetivação de direitos sociais e nunca como uma forma de fortalecimento da submissão dos atendidos.
65
Unidade II

Saiba mais

Acesse no link a seguir o guia para realização de visita domiciliar elaborado


pelo Ministério de Desenvolvimento Social para o Programa Criança Feliz.
Apesar de não ser específico para assistentes sociais, é muito interessante dar
uma lida nesse material, o qual define parâmetros voltados à realização de
visita domiciliar junto a famílias vinculadas à assistência social.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Criança feliz: guia


para visita domiciliar. Brasília: MDS, Secretaria Nacional de Promoção do
Desenvolvimento Humano, 2017. Disponível em: <https://www.mds.gov.br/
webarquivos/arquivo/crianca_feliz/guia_visitador_PCF_versoweb_2.pdf>.
Acesso em: 1º jul. 2019.

O material na sequência é extremamente válido e orientado para a


abordagem de visita domiciliar desenvolvida por assistentes sociais. Ele
pode ser acessado no link a seguir:

CONSELHO REGIONAL DE SERVIÇO SOCIAL (CRESS). Termo de orientação:


realização de visitas domiciliares quando requisitadas a assistentes sociais.
Rio de Janeiro: Cress. [s.d.]. Disponível em: <http://www.cressrj.org.br/
site/wp‑content/uploads/2013/07/VERS%C3%83O-FINAL-Termo-de-
Orienta%C3%A7%C3%A3o-Visita-Domiciliar.pdf>. Acesso em: 1º jul. 2019.

Por fim, há a visita institucional. Importante salientar que Magalhães (2006) a nomeia como visita de
inspeção. Também nesse caso não é uma abordagem privativa do assistente social, mas pode ser realizada por
qualquer profissional que dela necessite. A visita institucional ou visita de inspeção “[...] tem como finalidade
verificar o trabalho desenvolvido nas instituições, bem como se suas instalações físicas atendem aos
objetivos aos quais elas se destinam” (MAGALHÃES, 2006, p. 56).

Assim, muitas dessas visitas são realizadas por assistentes sociais para verificar o serviço
desenvolvido por instituições, não com o objetivo de empreender críticas ou julgamentos ao
serviço disponibilizado, mas com o enfoque de analisar se o serviço atende às prerrogativas legais
ao público para o qual se destina. Aliás, Magalhães (2006) cita como exemplo a visita à instituição
que atende crianças e adolescentes. Quando o técnico faz essa abordagem, precisa observar se o
serviço está de acordo, por exemplo, com as prerrogativas que Estatuto da Criança e do Adolescente
preconiza. No caso da identificação de falhas, cabe ao profissional participar aos responsáveis, para
que possam ser realizados ajustes.

Dessa forma, a visita domiciliar destina‑se a situações específicas, envolvendo sujeitos e famílias,
ao passo que a visita institucional ou de inspeção é orientada para serviços institucionalizados. Para
consolidar esse conteúdo, segue o quadro síntese:
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ESTRATÉGIAS EM SERVIÇO SOCIAL

Quadro 8 – Síntese de conteúdos

Visita domiciliar Visita institucional ou visita de inspeção


(características) (características)
Observa‑se a singularidade, porém vinculada à Destinada às organizações
noção de totalidade
Devemos nos respaldar em legislações e
Não devemos nos valer de juízos de valor orientações específicas sobre os serviços
Falhas e deficiências devem ser apresentadas
Comporta fases (planejamento, execução e registro) visando à mudança
Não é atribuição privativa do assistente social Não é atribuição privativa do assistente social

Resumo

Foram vistos alguns dos principais instrumentais que são usados pelos
assistentes sociais nas mais variadas esferas de atuação. Assim, nesse
conteúdo inicial, foram abordados alguns conceitos, como o de diário de
campo, o estudo social, o laudo social, o parecer social, os relatórios sociais,
além das visitas domiciliar e a de inspeção ou institucional.

Em que pese todas as diferenciações de cada um desses instrumentais,


observa‑se que, dada a variedade de autores consultados, o que é comum
na grande massa de teóricos, é que todos asseveram a necessidade
de o assistente social estar vinculado aos parâmetros de atuação que
são defendidos pela categoria profissional como um todo. Além disso,
domínio da norma culta para a estruturação dos documentos, assim
como o desenvolvimento de competências, são basais aos assistentes
sociais contemporâneos.

Dessa forma, somente quando é oferecido um trabalho de qualidade


é que, de fato, o assistente social colabora com a efetivação dos direitos
sociais. Conhecer os instrumentais e bem elaborá‑los é, portanto, uma
maneira de efetivar direitos sociais dos segmentos mais vulneráveis.

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