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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

NOME: Wellington Camargo dos Santos. MATRÍCULA: 09/13642


DISCIPLINA: Fundamentos do Desenvolvimento e da Aprendizagem.
PROFESSORA: Ana Clara Manhães Mendes (Mestranda em estágio
supervisionado) (Orientadora: Profª Dra. Claisy Maria Marinho Araujo)

“Cuidado Escola”, psicologia, marxismo e as identidades: uma crítica sobre o

pensamento social marxista.

O livro “Cuidado Escola” parte de uma ideologia política de cunho marxista para

criticar como se dava a educação brasileira até a década de 80. Os autores partem dessa

ideologia para criticar valores associados ao regime militar e ao sistema capitalista que

estariam presentes nas diretrizes educacionais vigentes. Apesar dos autores do livro

utilizarem inúmeros conceitos trazidos da psicologia, e estarem coerentemente

articulados com a ideologia na obra, em nada colaboram para a elaboração de um retrato

menos caricatural da educação praticada até então. Dessa forma, o sistema capitalista

que perpassa toda a história da sociedade brasileira é criticado de forma radical, críticas

sucessivamente retomadas através da história, mas que propõem medidas que ignoram

as contingências que abrigam nosso contexto histórico-social.

No período em que o livro foi publicado pela primeira vez, o Brasil vivia um

processo de abertura política pós-ditadura militar1, condição que favorecia a circulação

dos discursos políticos de esquerda no Brasil, em oposição aos políticos de direita que

apoiavam o regime militar. Inscrito nesse contexto, o livro aponta características da

educação brasileira que favoreceriam a “submissão”2 de indivíduos, o “respeito pela

1
NAPOLITANO, Marcos. Cultura Brasileira: utopia e massificação (1950 / 1980).
2ª ed. São Paulo: Contexto, 2004. p. 124.
2
HARPER, Babette; CECCON, Claudius; OLIVEIRA, Miguel Darcy de; OLIVEIRA,
Rosiska Darcy de. Cuidado, escola!: desigualdade, domesticação e algumas
saídas. 35ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996. p. 85.
ordem estabelecida”3, com problemas em se expressar e a formação de indivíduos

disciplinados, ao custo de medidas autoritárias, “punições ...castigos”4. Tais

características podem ser rapidamente associadas ao regime militar instaurado em 1964

no Brasil. As violentas medidas do governo militar prezavam pela manutenção da

ordem através da censura5 – que cerceava a liberdade de expressão – e submissão da

população brasileira às forças militares. Tais medidas incluíam punições e castigos

como prisão e tortura.

O livro está repleto de críticas aos valores capitalistas que rodeiam a educação

vigente naquele momento. É criticada uma educação dirigida com a finalidade de

formar indivíduos para o mercado de trabalho. São criticados desde o tratamento

padronizado dos indivíduos6, tanto relativo à metodologia quanto à avaliação aplicada

no ensino, até simples fatos cotidianos do sistema capitalista como o consumo de

produtos ou de serviços7. Critica-se também o próprio objetivo assumido pela educação

de melhor instruir o indivíduo para o trabalho e, simbolicamente valorizar (através do

diploma) aquele trabalho que o indivíduo cumprirá na sociedade8.

Ao criticar os métodos escolares tanto pedagógicos quanto sociais encontrados

naquela sociedade, pode-se perceber no livro “Cuidado Escola” um discurso muito

semelhante às críticas feitas até a atualidade acerca do behaviorismo. As práticas

punitivas – encontradas tanto na pedagogia escolar como na sociedade que viveu o

regime militar de 1964 – em função de extinguir certos comportamentos indesejáveis,

3
Idem, ibidem. p. 86.
4
Idem, ibidem. p. 55.
5
NAPOLITANO, Marcos. Op. cit. p. 81.
6
HARPER, Babette; CECCON, Claudius; OLIVEIRA, Miguel Darcy de; OLIVEIRA,
Rosiska Darcy de. Op. cit. p. 57.
7
Idem, ibidem. p. 89.
8
Idem, ibidem. p. 97.
como livre-expressão, em nome de comportamentos desejáveis, como “em favor da

ordem”, são facilmente associadas ao condicionamento atribuído à concepção teórica de

Skinner9. Pode-se perceber também que ao propor alternativas de mudanças para os

métodos educativos, os autores passam pelas mais diversas concepções psicológicas

desde às inatistas, passando pelas interacionistas – citando Piaget10 e depois a

psicanálise e a psicoterapia11 -, excluindo estratégias que envolvam o behaviorismo ou

maldizendo concepções ambientalistas. Isso indica que as práticas dessa teoria fossem

mal vistas ou talvez incoerentes com o tipo de sociedade ou educação que se ansiava

construir.

Ainda quando os autores do livro defendem alternativas para melhorar a

educação, parecem defender o que chamam de “uma orientação pedagógica preocupada

em reinventar a prática escolar à base da elucidação das necessidades próprias às

crianças”12. Consiste em uma metodologia de base interacionista, ou seja, que considera

que o aprendizado ocorra da interação do desenvolvimento da criança com um ambiente

social e afetivo propício. Porém, vale destacar que os autores colocam as outras teorias

como ineficazes, impraticáveis ou incompletas, tendo em vista aspectos sociais. Mas os

aspectos sociais desenvolvidos em todo o livro são pensados de forma excessivamente

simplista, restrita ao seu caráter social autoritário de hierarquia rígida13 e eficiente. É

ignorado o poder do indivíduo frente às imposições sociais. E a educação é descrita de

9
FADIMAN, J., FRAGER, R. Teorias da personalidade. São Paulo: Habra, 1986. p.
195.
10
HARPER, Babette; CECCON, Claudius; OLIVEIRA, Miguel Darcy de; OLIVEIRA,
Rosiska Darcy de. Op. cit. p. 111.
11
Idem, ibidem. p. 112.
12
Idem, ibidem. p. 111.
13
Idem, ibidem. p. 67.
forma caricatural. Ela é comparada a uma máquina14 e é vista como estanque e

imutável15. A própria organização e dinâmica do processo de conhecimento e

aprendizagem são vistos como rígidos. A escola, apesar de todas as tentativas de moldar

os indivíduos, sempre apresenta brechas, geralmente utilizadas pelos indivíduos para

burlar as regras; e a escola também muda com o tempo, de acordo com novas

necessidades de cada sociedade.

O livro fecha com a idéia de que, no final, para a educação melhorar, uma

mudança radical na sociedade seria necessária: “A reestruturação do modo de produção

e de organização social no qual vivemos é um processo inseparável da reinvenção dos

contextos e das modalidades de aquisição do saber”16. Dessa forma, podemos perceber

uma consciência dos autores quanto à influência que a sociedade tem sobre a educação

formal. Porém, sua proposta se mostra impraticável na sociedade atual. O consenso

quanto a um ideal de educação parece impossível de se obter em qualquer sociedade de

hoje.

Os autores do livro em análise, ao falar de valores, perdem-se entre tratamentos

igualitários, ao propor colocar os valores da ajuda mútua, da solidariedade para todos17;

e tratamentos diferentes, ao propor um método educacional que se adéqüe ao ritmo de

cada aluno individualmente18. Essa incoerência na concepção de seres humanos iguais

ou diferentes mostra como possibilidade lógica a noção de que os valores seriam

também diferentes. Ou seja, cada indivíduo estaria imerso em um meio social que

influenciaria a educação formal de forma diferente, introduzindo diferentes valores

14
Idem, ibidem. p. 40-41.
15
Idem, ibidem. p. 46.
16
Idem, ibidem. p. 117.
17
Idem, ibidem. p. 83.
18
Idem, ibidem. p. 57.
sociais – como os valores de cada classe social, como “classes privilegiadas” e “classes

populares”, categorias que o próprio livro usa19.

E, de acordo com Stuart Hall, o mundo vive hoje uma “crise de identidade” 20, ou

seja, a pertença a um único grupo, ou sociedade, ou nação, se encontra agora

fragmentada21, e qualquer outro sentimento de pertença se encontra frágil, colocando

diferentes ideologias a interpelar um mesmo indivíduo. Dessa forma qualquer consenso

dentro de uma nação, ou no mundo, se mostra impossível, já que as múltiplas

identidades dentro das culturas irão evocar diferentes interesses de forma a dificultar

que qualquer escola ou sistema educacional venha a suprir todos ou mesmo a maioria

dos interesses dos grupos inseridos em qualquer sociedade pós-moderna.

Na sociedade brasileira atual, o discurso da esquerda política ainda tem ampla

disseminação e aceitação na sociedade. A trigésima quinta edição do livro “Cuidado

Escola”, lançado em 1994, sua reimpressão em 1996, e o fato de tal livro estar esgotado

atualmente nas livrarias, são fortes indícios de sucessivas leituras e releituras desse

livro, e da força que o discurso de cunho marxista tem tido no Brasil desde a década de

80, especialmente na educação. Tal discurso acaba por gerar, no entanto, simplificações

– acerca da sociedade e do que é ser humano – que não atendem às problemáticas das

sociedades mais atuais – a crise de identidade, por exemplo. Apesar disso, alguns

trazem uma riqueza teórico-psicológica presentes nas metodologias de ensino-

aprendizagem descritas por alguns autores – como os referentes ao livro analisado aqui

–, contribuições a serem consideradas e pensadas no contexto da atualidade.

19
Idem, ibidem. p. 75.
20
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro:
DP&A, 1999. p. 7.
21
Idem, ibidem. p. 8.