Pensamento e Ação no Magistério

DE EMÍLIO A EMÍLIA A trajetória da alfabetização

Marisa Del Cioppo Elias

• Formada em Pedagogia e Ciências Sociais pela PUC-SP • Mestre em Educação (PUC-SP) e Doutora em Educação (USP) • Professora titular na PUC-SP, professora de pós-graduação da Faculdade Braz Cubas e pesquisadora do CNPq e da Fapesp

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Elias Marisa Del Cioppo De Emílio a Emilia — a trajetória da alfabetizaçao / Marisa Del Cioppo Elias — São Pauto Scipione 2000 — (Pensamento e ação no magistério) 1 Alfabetizaçao — Historia 2 Alfabetizaçao — Métodos 3 Educação — Historia l Titulo II Serie 00-2556 Índice para catalogo sistemático 1 Alfabetizaçao Metodologia Educação Historia 37241609 CDD 372 41609

Aos meus netos, Gabriela e Gustavo, no momento em que iniciam suas trajetórias de alfabetização

metodologia e. no que se refere à psicogênese ou aos processos pelos quais a criança aprende a ler e a escrever. que não encontram respaldo nas recentes teorias educacionais. DE EMÍLIO A EMILIA A tragetória da alfabetização Emílio e Emilia .Rousseau -. A seguir. do século XVIII.Decroly e Freinet -. participando vivamente de seu desenvolvimento global.A série Pensamento e Ação no Magistério reúne as contribuições teóricas e práticas necessárias a todos os educadores que desejam modificar seu fazer pedagógico no dia-a-dia em sala de aula.ele. Em busca de respostas. A série é dirigida àqueles que buscam interagir com a criança e o adolescente. trabalho na escola. expõe as idéias de dois educadores do início do século XX . a autora revê aqui as contribuições de alguns educadores e nos oferece um painel das principais teorias relacionadas à alfabetização. Editora scipione . ela.são as referências que marcam no tempo este estudo original sobre a alfabetização. O ponto central da obra são as questões de hoje. com seus pontos em comum. a idéia de que toda educação deve levar em conta a vivência e as experiências significativas da criança. personagem de Rousseau. que criticaram a educação de sua época. propondo programas e métodos novos. pesquisadora contemporânea . sobretudo. Começa por um mestre clássico . Emitia Ferreiro. Termina com a apresentação das conclusões a que chegou Emilia Ferreiro. cujas idéias de homem. divergências e aplicação à nossa realidade. infância e conhecimento possibilitaram construir os conceitos de jardim-deinfância.

66 A proposta pedagógica de Decroly. 95 Textos selecionados de Decroly. 17 A proposta educacional de Rousseau.. 195 Bibliografia.... 113 A livre expressão. 161 A proposta pedagógica de Emilia Ferreiro...... 154 4.. 166 Revendo a psicogênese da língua escrita...... 203 .. 92 Decroly e Freinet. 50 Textos selecionados de Rousseau.... 97 3.... 72 Método global. Recuperando Decroly....144 A aula viva: um sonho a ser realizado........ 120 As fases da escrita...117 A sensibilidade do educador... 176 Textos selecionados de Emilia Ferreiro. 15 Rousseau: crítico do passado e precursor da educação moderna.. 69 Programas de ensino: busca da unidade do saber. 109 Em busca do equilíbrio: a escola do trabalho e do pensamento.. 68 As tendências elementares.... 124 Escrita pessoal e livre .. Recuperando Freinet. 116 Motivação: a vida da criança.... Recuperando Emilia Ferreiro..5 1. Recuperando Rousseau..SUMARIO Introdução. 187 Considerações finais. 105 Proposta pedagógica de Freinet... 80 Recapitulando. 63 Decroly e os educadores de sua época .. 149 Textos selecionados de Freinet........ 53 2.... 30 A educação como processo de vida...

quando a vida parece sair dos seus esquemas habituais.] Qualquer que seja o esforço feito para preservar o seu recuo. Quando os tempos são calmos [. aqueles que o presente descontenta ficam igualmente descontentes com o passado.] Mas nos períodos tempestuosos. os historiadores nãopodem libertar-se inteiramente das idéias preconcebidas mais gerais da época em que vivem. p.. [.] O passado é uma espécie de tela sobre a qual cada geração projeta sua visão do futuro e. as histórias novas sucederse-ão... ..] estão normalmente satisfeitos com o passado [. 168-70. 1935.. por tanto tempo quanto a esperança viva no coração dos homens.Cada século reinterpreta o passado de modo que este sirva aos seus próprios fins [.... CARL BECKER.

que precede de uma revisão e renovação do conceito de homem.m não há doutrina pedagogica totalmente original. mundo. Aprender significa conhecer.As grandes doutrinas ou tendências pedagógicas surgiram na história nos momentos em que se preparavam transformações profundas na concepção de homem. revisitamos os teóricos com os quais aprendemos os conceitos de homem. isto é. assimilar. O sujeito interage com o objeto. De Platão a Montaigne. o analisa. educação e ensinoaprendizagem. pisicólogos. ”Doutrina” é a moda de pensar de procedesTodas as doutrinas reproduzem um pensamento anterior. A epistemologia vem desafiando os filósofos durante toda a evolução histórica da humanidade. Para verificar esses pressupostos. Se o sujeito é histórico. não há conhecimento neutro independente do objeto. “Tendência pedagógica’’ tomou-se uma expressão da moda que identifica as idéias e os autores de maior influência sobre o ducador no processo de ensinar ou de buscar uma metodologia própria. O desenvolvimento científico e a organização social dos séculos XIX e XX tem propiciado condições para o debate so5 bre o conhecimento humano. uma vez que uma das principais atribuições do processo educativo é promover a apropriação do conhecimento acumulado historicamente Por “tendência” entende-se a inclinação do pensameto e comportamentos. para fundamentar a prática pedagógica Aristóteles e os gregos. mas algo que se forma no decorrer do processo do saber. temos assistido à ampliaçãodos movimentos em favor da criança e do adolescente em busca da melhoria de metodologias e/ou didáticas. sociólogos contribuem para enriquecer os conhecimentos relativos à ciência pedagógica O compromisso político-pedagógico dos educadores com a democratização do saber exige que se apropriem dos conheamentos específicos dessas ciências para tomardecisões quanto ao conteudoe.INTRODUÇÃO Desde fins do século XIX. acomodar e adaptar os objetos pela ação sobre eles. quanto as finalidades e metodologia de ensinar ou aprender Não se podem aceitar todas as novidades em matéria de educação. de Rousseau a Emilia Ferreiro. E preciso analisar as informações e teorias construir um corpo de conhecimentos sólido (filosofia e psicologia). .chegando-se a conclusão de que só se conhece o que se compreende. entende e reconstrói. conhecimento. Filósofos. Todos proclamam que a missão do homem consiste em realizar sua essência. formularam os conceitos de dialética e aprendizagem.400 anos. Concepções diversas surgem buscando explicá-la. há 2. o conhecimento cientifico não pode ser algo pronto e acabado. biológos lingüistas. Toda doutrina é uma antecipação do futuro. principalmente. e com as estruturas disponíveis no estágio de maturação psíquica em que se encontra o sujeito.

chutar. Conhecer faz parte ”da reação instintiva do homem em busca da modificação da própria prática [. cada indivíduo. ligado à história individual e social. político e social de. passa pela compreensão. responsáveis pela unidade. fizeram avançar o construtivismo mostrando que no processo de aprendizagem participam também.Para Piaget. ele interage com objetos cultunis e. sua corrente de pensamento é denominada genético-estruturalista ou construtivista. em6 bora seja mais conhecido entre os construtivistas e por muitos tidos como o fundador dessa tendênci. o conhecimento deve ser compreendido como processo em movimento e mudança. não é o mais avançado. valores. regras. envolve a relação eni (dimensão sóciohistórica e política). como Leontiev e Luria. dando-lhe sentido e significado”. constrói seu conhecimento (linguagem. Logo. um fazer e e faer que só se transforma em saber quando. descritos por Piáget. Não é considerado um verdadeiro conhecimento uma vez que precisa ser explicado. A educação. Pela explicação que Paget dá de conhecimento. de inovações e de . Piaget. dialética de cada estágio do desenvolvimento.. nessa interação. o conhecimento acontece pela interação que o sujeito desenvolve no processo de sua ação sobre o mundo. ouvimos.). Isso vai acontecer no conhecimento lógico-matemático. esse conhecimento é específico para cada cultura ou grupo social. ”Nossa pedagogia atual é um complexo de tradições. o contexto histórico. como prática social. Como o sujeito é social. enquanto Piáget descreve os estágios universais. auxiliada pelos sujeitos com os quais convive. Embora. antes. O conhecimento mostra-se intimamente ligado às coajdjgões sociais em transformação e aos substratos biológicos do comportamento. não se limitando aos processos de aprendizagem. A criança desenvolve sua lógica pela interação social. mas vivo e dinâmico. in GRISONI & MAGGGIORI O conhecimento não é estáüco. morder. As mudanças sociais e materiais geram mudanças na consciência do homem. No entanto. o lógico-matemático e o social. Portanto. além dos aspectos biológico e psicológico.] o esforço do homem para compreender a realidade onde está inserido. a intuição concorra para o conhecimento. A compreensão permite ao sentir tornar-se saber e ao saber tornarse sentir. esse tipo de conhecimento é construído por meio das operações mentais do sujeito sobre os dados obtidos da experiência em relação ao objeto da aprendizagem. ou seja. transformando-a a partir do próprio trabalho. mediado pelos esquemas motores e perceptivos (tocar. Para eles. pois. O conhecimento físico é obtido pela ação direta do indivíduo sobre o objeto da aprendizagem. vemos. olhar. escutar. GRAMSCI. que a psicológia genética pareceu ignorar. tocamos.. etc. Considera três tipos de conhecimento: o físico.. Vygotsky e outros soviéticos. este é antes resultado da elaboração pessoal. derivada de nossas experiências: do que lemos.) e o transmite para outras pessoas ou grupos (interação social). puxar. trabalhado em nível lógico ou operatório. É um novo enfoque dado ao construtivismo. uma vez que vincula o processo de aprendizagem ao desenvolvimento biopsicogenético do sujeito.. os soviéticos os estudam como produto do processo de desenvolvimento humano. Wallon.

mais expostas a experiências de leitura e escrita. O material e as estratégias para trabalhar com aqueles alunos na aprendizagem da leitura e da escrita teriam de ser significativos e próximos. e formulavam hipóteses sobre sua realidade muito antes de irem para a escola. pois não víamos nelas sentido. HUMBERT. 1964.310. Como pretender ser a única a ensinar? Qual a melhor estratégia para ensinar a leitura e a escrita a quem já tinha uma riquíssima leitura de mundo? Como impor uma cartilha se nenhuma das que conhecíamos fazia parte daquele contexto social e econômico? “A leitura do mundo precede a leitura da palavra [. embora nela fossem buscar informações sobre o código escrito. em que se deu a nossa formação no que hoje é o ensino fundamental e médio (na época.1946 p. vivendo no campo e desde muito cedo ajudando os pais na lavoura.1985. Viam as coisas. nossos alunos da Escola Mista do Bairro Novo Oriente. Disso veio a compreensão de que. não somente para compreender a natureza. Voltamos no tempo para rever a lição de coisas e de ciências do mundo de ontem. que faria reencontrar a leitura do mundo (contexto).” FREIRE. para levá-los à leitura da palavra. ] daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. São Paulo.reações contra a tradição que não pode ser alcançado pelo espírito senão à luz do conhecimento histórico”. mas para desenvolver a lógica e a razão. Sabíamos que os conhecimentos teóricos eram importantes mas também que era preciso questioná-los. . primário.p. os animais. de fugir à regra e não aceitar as receitas da antiga Escola Normal. Procuramos a coerência entre a teoria e a prática para criar estratégias próprias de intervenção pedagógica. ginásio e colegial). Fomos aos mestres clássicos. tinham muito contato com a natureza. Não esperavam esta para se alfabetizar.. E isso nós não havíamos aprendido durante nossa formação. 7 Nas décadas de 50 e 60. a concepção predominante era transmitir à criança uma cultura legítima. Precisávamos pesquisar uma maneira de interessar aqueles alunos diferentes. Era importante conhecer como essas informações ligavam-se à nossa formação e prática docente e à perspectiva psicogenética de aprendizagem da leitura e da escrita. Retomar com eles a leituta do seu mundo. em que somente os mais aptos tinham sucesso. armas eficazes contra o obscurantismo e o enciclopedismo da época. Tal prática não nos impediu de ousar. présistematizada e homogeneizada. zona rural de Mirante do Paranapanema.11-2. O que encontramos? Um Rousseau que já havia advertido os educadores do seu 8 tempo sobre a necessidade de ajudar a criança a observar melhor. do qual os estímulos eram bastante escassos em seu contexto. As leituras apontavam a necessidade de observar melhor nossos alunos.. que apenas nos havia proporcionado estratégias voltadas para crianças da zona urbana.

Internet e televisão. não um método. Diante desses novos e constantes estímulos. Daí a importância de. e assim o fará se oferecermos a ela ambiente apropriado para a observação. que cada educador trazia. muitos educadores buscaram novos métodos para o ensino da leitura e da escrita. Hoje. A influência de Rousseau em nosso trabalho decorre de seu pensamento coincidir com valores em que acreditamos: a criança deve desenvolver-se naturalmente. Essa atitude não ocorre por comodismo. o interesse e a interação com os outros. As técnicas usadas no passado são revivificadas e voltam a ser utilizadas como se fossem novas. visando a ajudar a criança a avançar cognitivamente. muitas vezes. Como nós. À medida que aprofundávamos a leitura. baseia-se na teoria de que o indivíduo já possui todos os conhecimentos. . o trabalho. não deturpada por intermediários.O contexto mudou. muitos professores esperam obter essa teoria nos cursos de formação e/ou atualização. mais a possibilidade de extrapolar e questionar seus conceitos. de forma contextualizada. entenda que a criança (e o adulto). computadores. Nossa cultura não tem memória. de forma mais ou menos explicita. e a tarefa do professor é guiá-lo para que possa redescobri-los. Foi o que procuramos colocar em prática. O professor deve utilizar fatores subjetivos em muitas decisões de ensino. saber se é compatível com os valores assumidos. Como afirma Emilia Ferreiro. Todo método novo procura avançar em relação ao anterior. rebanhos. sozinho. a sua construção. Em educação isso vem ocorrendo com muita freqüência. já possui conhecimentos da língua falada e escrita. principalmente o alfabetizador. Procuramos conhecer os conceitos e teorias em sua fonte opriginaí. chegar ao conhecimento. Não se pode presumir que tudo o que há de novo é o melhor. Foi um período de muitas buscas pedagógicas! Sentíamos que precisávamos nos aproximar das teorias. é que os métodos de ensino resultem sempre de pesquisa sistemática sobre as possibilidades de ensinar/aprender um mesmo conteúdo. plantas. sua proposta metodológica. quando inicia o seu processo de escolarização. é necessário que o educador. e imagina os princípios científicos em que se baseia o seu funcionamento. Eles (os conceitos e teorias) foram a gênese de nossa prática. pois não existem fórmuIas ou receitas que possam ajudar os inexperientes. O importante. Desconhecem que o interesse e necessidade dos alunos é que devem determinar o que é mais favorável à aprendizagem no momento. O método socrático. As filosofias da educação podem produzir um sistema de valores. em textos de fácil leitura. mas é o tempo que demonstra o seu valor e aceitação. mas automóveis. que precisava ser analisada. criando condições para ele. uma ação inovadora em termos metodológicos. Todos os métodos de ensino sofreram modificações em resposta às mudanças de valores da cultura. Não foi a mera intuição que nos levou a aproximar o aluno do objeto a ser co9 nhecido. nossa percepção captava a totalidade do pensamento. a criança não está simplesmente esperando que alguém lhe venha fornecer esse conhecimento. por exemplo. é gerada pela ansiedade de buscar segurança ou pela necessidade de sistematizar o próprio trabalho.. o tateio experimental. A criança não vê hoje flores. para nós. ao se escolher um método.

a Secretaria da Educação instituiu o Programa de Capacitação (PEC) em serviço para professores e especialistas. para possibilitar a mudança da prática pedagógica do professor e da escola. que é por onde se deve começar. descobrir as intenções com que foram formuladas. no início do século XX. ”O grande méri10 to dos filósofos educadores é haver demonstrado plenamente. Assistimos à formação de pequenos grupos de estudo e de trabalho que procuramn aprofundar seus conhecimentos e dar maior embasamento ao próprio fazer. na Europa Exerceu influência na reorganização escolar e nas metodologias de ensino Esta fundamentada na capacidade criadora do aluno. 1946. nossos inspiradores Eles acompanharam as etapas da aquisição da escrita pela criança. com base em nossa história imediata e passado recente. Foi um trabalho isolado.baseada em princípios que ajudam o educando a associar cada novo conhecimento ao anterior. Recentes programas de apoio de Secretarias da Educação no Brasil (Citação: Em 1997. localizá-las no contexto em que surgiram. proposta por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky em obra de mesmo título (1985). superar o erro. recuperamos as propostas de três grandes mestres.) por ignorar as teorias de Vygotsky ou em razão de um conhecimento superficial . que a pedagogia não pode limitar-se a uma idéia técnica da educação. como teoria. senão que essa técica requer imediatamente bases ciêncitficas. do homem e da sociedade. para então revivificá-las e inovar em educação. avançar cognitivamente. Confrontamos seus estudos e conceitos com a psicogênese da língua escrita. à luz do presente. passar do conhecido ao desconhecido. Os escolanovistas. psicológicas e inclusive uma concepção ultracientífica da natureza. como o de muitos educadores que. Tal afirmação representa uma revolução da teoria e da prática. embora em outros contextos. procurávamos estimular e acompanhar seu processo de aprendizagem. o processo de conhecimento não é linear. Em todosos momentos. de suas relações e de seu destino comum " HUMBERT. já estudara a psicogênese e suas idéias estão sendo hoje analisadas.) vêm incitando os adores a investir em sua formação. não desanimam diante da indiferença ou hostilidade dos outros. colocado como centro do universo educacional. Há 200 anos Rousseau já lembrava aos educadores"Sempre acreditei que antes de instruir aos outros era preciso começar por saber o suficiente para si mesmo". individualmente ou em grupo. Vygotsky. o que justifica ir às propostas dos grandes mestres da pedagogia. seja qual for sua escola. (Escola Nova. Para quem ousa inovar. Já no início do século XVIII Herbart e Frobel sustentavam que a criança deve adquirir a idéia da forma e compreender a palavra por meio do objeto. p 42 É preciso resgatar a identidade da educação.310. Os progressos têm sido grandes para a Educação Básica. ROUSSEAU. felizmente. Na natureza é possível descobrir as leis ou princípios em que se baseia a educação. nunca bloqueá-lo. desenvolvido em parceria com universidades e instituições credenciadas de formação de educadores. Exige períodos dedicados a organizar os conflitos e contradições entre a prática e a teoria.P. 1986.Corrente pedagógica que surgiu no início do século XX.

Freinet (o método natural). in FAZENDA. não na leitura. consulte FAZENDA. aquele que compartilha falas. Decroly propõe um método global para o ensino da leitura calcado na observação e associação de idéias. mais que uma reação ao passado ou uma perspectiva para encarar o futuro. antes. são aplicadas pelos professores na sala de aula. espaços. fizeram sua transposição para a prática sem atentar à nova realidade Daí surgem o psicologismo. SEVERINO.(O termo PARCEIRO (do latim partianu) significa ”o igual. século e meio mais tarde. cúmplice”. articular seus interesses com o dominado foi o que levou Célestin Freinet a criar. Suas idéias e metodologia. Montessori (as letras móveis). GRISONI & MAGGIORI. o saber não é estático e unilateral mas deve ser visto como um fazer e um fazer-se. se esforce no trabalho proposto. todos enfatizam a necessidade de conhecimentos para aqueles que pretendem organizar e sistematizar um trabalho pedagógico que leve em consideração o desenvolvimento cognitivo do aluno e a língua escrita. compreendidas e 12 . 1991. Freinet articula a teoria com a prática e encontra uma forma original de trabalhar as possibilidades infantis e o mão educativo: o diálogo entre docentes e a troca de materiais didáticos. por meio do compreender. É preciso analisá-las e aperfeiçoá-las na prática. de modo a identificar o que têm de aceitável e vantajoso. uma revisão do passado com as teorizações adquiridas nesse passado. o sociologismo ou o filosofismo. é um ponto de convergência. É preciso que o educador recupere. Emílio. Ajudar o aluno a compreender.delas. seu método busca despertar o interesse da criança para que esta. p 32 (grifo do autor). Conseguimos recuperar a história dos teóricos da educação. Rousseau critica a educação de sua época. Para mais esclarecimentos. "uma contextualização teórica que lhe possibilite articular o lógico com o real" de modo a "trabalhar com a teoria teorizante e não a teoria teorizada". na atualidade. 11 Para Gramsci. p 327 O significado de recuperar nosso passado foi o de não mais teorizar de fora. na França. que não considerava a importância do conhecimento da natureza da criança — o que ainda hoje permeia a prática de muitos educadores.) Rousseau é o grande precursor da reforma pedagógica contemporânea. O conjunto de idéias. porém revisitadas com os olhos do presente. com vida e movimento. aparecem nas obras de psicólogos e pedagogos de renome e. que distorcem a identidade das teorias de educação. A construção de uma teoria da educação implica que o educador teorize sobre os seus próprios atos. uma escola popular. compreendendo os fenômenos estudados.1999. mas começar a investigar nossa própria história de educadora. Emilia Ferreiro e outros (construtivismo). sua própria identidade para entender os teóricos e a prática de qualquer escola pedagógica. Surgiram muitas propostas inovadoras no início do séculoXX. nossos primeiros parceiros na aquisição de novos conhecimentos. 1973. Partindo do conceito de ”centros de interesse”. Foi um recomeçar.

SCHAFF. A ciência em educação é uma forma de poder porque cria as coisas. Para perceber a totalidade é necessário "isolar" a realidade. principalmente à língua escrita. visando ao progresso. Nessa construção (reconstrução) buscamos novas respostas e novas indagações às investigações mais recentes da psicologia. p. p. abandonadas. as /teorias estudadas e todo conhecimento que cada um já possui. fazer "a cisão do único"e captar "a coisa em si"pelo pensamento. Ao estudar os antigos. cada presente reescreve a história". as incertezas. As idéias dos educadores considerados clássicos apontam caminhos para uma prática interdisciplinar. pois. para que cada leitor tire suas conclusões.. "decompô-la". 18. reconstruir ou recuperar o saber acumulado através dos séculos. "cada presente tem o seu passado. 119. p. Os estudos de Emilia Ferreiro e colaboradores sobre a psicogênese da língua escrita nos ajudaram a entender os processos pelos quais o educando chega às linguagens. impelindo-o a modificar sua prática. a exploração. "o conhecimento não é algo acabado. p. percebemos que muitas teorias e idéias que considerávamos novas já haviam sido enunciadas e praticadas — além de. no rotineiro. significa a compreensão da essência do fenômeno e precisa ser descoberta. nas idéias já expressas.aprofundadas. 1991. construir com integridade profissional e autonomia intelectual o próprio fazer e tomar decisões pedagógicas lúcidas em sala de aula.\DA. . 13 Os textos de Rousseau. lingüística. Como o pintor vê a natureza a seu modo e a fixa na tela. banindo qualquer dogmatismo. a realidade. as mentiras. para Kosik (1976. "O que caracteriza a atitude interdisciplinar é a ousadia da busca. pois "não se manifesta diretamente". etc. )A REALIDADE. aproximar dele nossos educandos (futuros mestres). /Para levar os alunos a aprender o mundo concreto. por razões diversas. Decroly e Freinet visam a dar ao leitor a oportunidade de sentir. do já produzido. para que realizem uma opção crítica a partir das dúvidas e incertezas do que conhecerem: os dados levantados. sociolingüística. Inova-se com base no velho. refletir e fazer a propria interpretação do pensamento dos autores. buscamos recuperar o discurso de educadores que nos antecederam na história da pedagogia. para recriar. psicolingüística. da pesquisa: é ajransfQrmação da insegurança num exercicio de pensar num construir. LÜCKE & AXDRÉ. A ciência é um produto social que convive com a dominação. os interesses. 1986. Não simplesmente expor suas idéias. como afirmam Lüdke e André. Acreditamos ser esse o caminho para conseguir a coerência entre a teoria e a prática. infelizmente. mas chamar a atenção para algumas aproximações e questionamentos que apresentam ao trabalho pedagógico atual. atua por meio do conhecido." FAZE. enquanto outras vão sendo abandonadas. 18. torna o professor um profissional competente. 13-4).) é preciso mergulhar cientificamente no passado. Segundo Schaff. entendida como mundo concreto. 1986. mas uma construção que se refaz constantemente". É preciso aprofundar o estudo dos clássicos e verificar como suas idéias principais permanecem em nossa prática.

] E. não autorizado a isto) — e do caráter ético subjacente a seus (perenes) papéis”. p 20 14 . 1992. mas a simples consciência da perplexidade do homem. enquanto (sempre) fazedor da História — enquanto (sempre) pesquisador (ainda que muitas vezes não consciente ou não investido. o que se pretende não é a eliminação do velho e muito menos da insegurança. ”é importante a percepção de não se desprender do antigo [. na medida em que se faça essa ponte entre o antigo e o novo.. Apud FAZENDA. não preparado.Segundo Bochniak..

metodologia e. como a necessidade de uma nova proposta educacional que priorize a aprendizagem como processo de vida. pois. o conhecimento conforme as necessidades do educando. Revendo Rousseau hoje. elas são desvendadas e julgamo-los pelo que fizeram. a idéia de que toda educação deve partir da criança. Para conhecer os homens. Muitas teorias da educação não priorizam essa relação. do que ela é. não apenas descreve a necessidade do relacionamento homem/natureza. sentimo-nos À reconstruindo a educação. Emílio. infância e conhecimento possibilitaram construir os conceitos de jardimde-infáncia. Nosso fazer didático sofreu influência dos pressupostos rousseaunianos que mostram a possibilidade de uma educação transformadora. Mesmo os seus propósitos ajudam a apreciá-los.. Sua proposta está alicerçada não nas formas da sociedade. na relação educador/educando. é preciso vê-los agir. p 39 Recuperar Rousseau representa a tentativa de esclarecer equívocos pedagógicos que a leitura de um clássico como Emílio suscita. 1990b. trabalho na escola. Ao romper com a proposta de ensino . vê-se o que são e o que querem parecer: quanto mais se disfarçam.(citação: Emílio foi publicado pela primeira vez em 1762. ao preconizar o retomo às origens do homem como ser que naturalmente conhece. ouvimo-los falar. nas tradições sem sentido da escola e na ignorância da infância. como tenta ser veículo que mostra tanto as desigualdades sociais da época. 16 Embora o próprio Rousseau afirme que não é um tratado de educação. mais bem os ficamos a conhecer. Rousseau procura. Emílio é um romance pedagógico que combate as teorias tradicionais de ensino. É considerado um tratado sobre a educação. No mundo. Causou grande revolução nas idéias da época. comparando o que fazem com o que dizem. Nele.1 Recuperando Rousseau.. O verdadeiro amor pelas crianças e pela liberdade nele revelado o tornam um romance pedagógico para todas as gerações de educadores) As formas de relacionamento do homem com a natureza e com a cultura sempre estiveram ligadas às modificações socioeconômicas e políticas. mas no conhecimento da verdadeira natureza do homem. na História. sobretudo. demonstrar como educar cietificamente uma criança. cujo objetivo é atingir. Por várias décadas suas idéias foram vistas como coisas do passado e não como elementos do presente. Emílio denuncia o ensino elitizante. o que leva a um ensino descontextualizado. foi apresentado como um novo sistema educacional. na procura de caminhos para minimizar as injustiças econômicas e sociais — geradas fora da escola mas que nela se refletem e expressam. Suas idéias de homem. quando se pensa na influência que exerceu (exerce?) na educação. Com sugestões simples. gerando inimigos e perseguições a Rousseau propósito de Emílio é forma um homem livre.JEAN-JAC QUÊS ROUSSEAU. ao qual apenas um pequeno grupo tinha acesso. mas. bastante minucioso. fornecendo-lhe os meios para que construa seu próprio conhecimento. mostram os seus discursos e escondem as suas ações.

em quaisquer setores. seria o fim da superstição e da ignorância. em vez de celebrar o ”progresso das luzes”. tem de obter o seu eu para atingir o outro. viessem a ser esclarecidos. pois. rejeitava as velhas idéias e os antigos valores — e começava a confiar no progresso e em um novo mundo 17 que estava para ser construído. florestas e lagos. adotando uma posição que vai influenciar a Europa e todo o Ocidente: acabar com a falsidade social. Melhoram as condições de vida em muitas regiões e a população cresce em proporções nunca antes atingidas. cede lugar definitivamente ao novo. Havia a expectativa de que todos os problemas. Sentindo-se estrangeiro em sua própria época. para ”iluminá-los”. preocupa-se mais com o processo do que com os resultados. Para análise e transformação do mundo. milhares de pessoas deixam a agricultura e entregam-se ao trabalho nos ateliês. Como todo transgressor. é difícil enquadrá-lo aos iluministas. que desse ao homem consciência de si mesmo e de suas potencialidades. Foi o que fizeram os enciclopedistas: o reexame de todos os conhecimentos e problemas do presente e do passado. Rousseau é utópico. principalmente na França. ao moderno. Os avanços técnicos propiciaram o desenvolvimento de uma mentalidade que. Desenvolvem-se grandes cidades. desencadeando a Revolução Industrial. exigindo do educador que ele mesmo construa o processo pedagógico. Embora Rousseau critique a ordem estabelecida. pela urbanização e desenvolvimento da atividade artesanal. O aperfeiçoamento das máquinas de fiação e tecelagem mais á invenção da máquina a vapor e da locomotiva alteraram profundamente a economia. o prazer da renúncia. a poesia das montanhas. iluminados. Inglaterra e Alemanha. A autoridade dos antigos clássicos do pensamento e da arte. abalada desde o Renascimento. Para a filosofia. mostrando a possibilidade de formar um novo indivíduo e uma nova sociedade. o absolutismo dominava a Europa. tornava-se necessária uma nova avaliação do conhecimento acumulado. . ou melhor. O contrato social é um plano para a reconstrução das relações sociais da humanidade. marcada pelo aumento da produtividade no campo. Em Emílio. Rousseau resgata o ”bom selvagem”.vigente. propõe a mesma reconstrução por meio da educação. O homem tem de sair de si para a si mesmo chegar. Nessa época. possibilitados pelo acúmulo de capital no século anterior. afirma que as necessidades criadas eram fontes de escravidão e inimigas da moral: ”Tudo o que distingue o homem civilizado do selvagem é um mal”. por obra do homem. animada pelos êxitos das ciências. ROUSSEAU: CRÍTICO DO PASSADO E PRECURSOR DA EDUCAÇÃO MODERNA Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) viveu num período de grandes realizações intelectuais. Em A nova Heloísa destaca as delícias da virtude. Ao escrever para um aluno imaginário. Rousseau opõe-se à sociedade.

Idéias/propostas pedagógicas — Método de ensino atraente. fundamentadas em valores como o respeito à personalidade.. ridiculariza a educação escolástica e formalista da época. voltado para a formação do homem integral. Foi o precursor do realismo e do naturalismo na pedagogia. além de criar depravação moral. paixão pela justiça e culto à verdadeira ciência. todas as árvores.Mais de trinta anos nos separam da primeira leitura de Emílio e. (citação O século XVIII também é conhecido como o ”século das luzes” ou ”do iluminismo”. E o fez com tanta clareza e originalidade que ainda hoje sua comcepção de educação é bastante atual. todos os metais ocultos em seu seio. — Educação alegre. nesse período. pitoresca no vocabulário e no estilo. que satiriza a educação formalista. criando uma espécie de conformismo histórico. XVII François Rebelais / (1495-1553) Histórico Crítico da escola do seu tempo. 337-436. risonha. etc. todos os pássaros do ar. arbustos e árvores dos bosques. Comenius. muitas outras pedagogias foram objeto de nossos estudos.. à espontaneidade da criança e a inteira confiança na natureza.) (citação) ROUSSEAU. Em todas encontramos enunciados da proposta rousseauniana. p. Com freqüentes anatomias adquirir o conhecimento perfeito do outro mundo que é o homem.) 18 Idéias e propostas pedagógicas de autores dos séculos XV. em ambiente de liberdade: primazia ao desenvolvimento do corpo. Rousseau propõe a simplificação do processo educativo. XVI. Locke e propostas renovadoras para a educação do seu tempo. e cita exemplos de povos aos quais o progresso das artes (ou civilização) corrompeu. principalmente as chamadas Escolas Novas. que iluminaria com a razão o obscurantismo da tradição. Rousseau condena o progresso dizendo que as artes infundem a hipocrisia entre os homens. sendo o primeiro a escrever sobre elas. tudo te seja conhecido. Ele próprio recebeu influências das tronas dos humanistas Rabelais.” Michel Eyquem de Montaigne 1553-1592) . vida ao ar livre e prática de exercícios físicos. — Conhecimento tirado da natureza e não dos livros. obra monumental. influencia e determina aonde a criança deve chegar. todas as ervas da terra. demonstrando grande amor pela humanidade. Montaigne. Suas idéias pedagógicas estão em Pantagruel e Gargântua. baseada na aprendizagem das palavras e submissão às regras. insurgindo-se contra o artificialismo e as convenções da sociedade. Gargântua escreve a seu filho: ”Quero que te dediques a teu estudo cuidadosamente. rio ou fontes cujos peixes não conheças. que não fique mar. Embora tais escolas pareçam libecâs. propõem uma educação que dirige. as pedrarias do Oriente do Meio-Dia. 1983.

mas em assimilá-los. Suas teorias foram ampliadas por Locke.] não conhece de si senão uma aparência obscura e sombria. as ações mais que as palavras. virão depois as palavras. Daí a frase: ”Mais vale um espírito bem formado do que uma cabeça bem cheia”. em 1651. contribuiu para a reforma da educação em vários países. só se formam bons carregadores de livros”. Foi o fundador da Didática e. por acréscimo. as quais exigem que o livro do meu aluno seja o vasto mundo. Influenciado pelas idéias de Bacon e de Ratke. ”Que nosso discípulo esteja bem apercebido de coisas. as lembranças pessoais lhe serviram de orientação para suas críticas e propostas. uma visão incerta e insegura”. o mestre deve mostrar aos discípulos ”o exterior das coisas. fim último a que se deve dedicar a educação. deve-se atentar para a formação do juízo. é o maior representante do humanismo francês. interessou-se principalmente em saber como ele é: ”Outros formam o homem. fazendo-os experimentar. os educadores nunca deveriam esquecerse de que ”não há nada melhor que despertar o prazer e o amor pelo estudo. Trabalhou nas escolas de Lissa (Polônia). Critica o abuso dos livros. Afirmava: ”A ciência começa nos sentidos e neles se resolve”. e Patak (Hungria). A educação pode ser ocasional. sobre os limites de tal ciência: ”A natureza humana [. Suas teorias são profundamente atuais.Histórico Escritor e moralista. em parte. como Janua linguarum (”Pórtico das línguas”). Seus trabalhos chamaram a atenção do mundo contemporâneo. Idéias/propostas pedagógicas — Aprender não consiste em amontoar conhecimentos. escreveu algumas de suas obras principais. escolher e discernir por si mesmos. — O ensino das coisas é bem mais vantajoso que o das palavras. deixando-lhes liberdade de buscá-lo”. em 1654. — Na instrução. sendo o pioneiro em aplicar um método que desperta . a tolice de um criado. caso contrário.. Suas opiniões e princípios nascem de idéias bem definidas só bre o homem. da pedagogia moderna. Nessa época. ”tudo o que se nos mostra à vista é suficientemente livre: a malícia de um pajem.” — A instrução deve ser adquirida pela experiência. Jan Amos Comenius 1592-1670) Histórico Um dos mais notáveis pedagogos do século XVII e um dos maiores da história. e. a famosa Didática magna e Orbis pictus. polemizando contra as escolas da verbosidade. Embora não tivesse experiência direta de ensino. — O conhecimento é apenas um instrumento na formação do juízo. 19 Elogiou a grandeza da condição humana. Segundo ele. Seus Ensaios trazem algumas das páginas mais brilhantes sobre a educação da época. eu o descrevo” É considerado o precursor das modernas tendências pedagógicas. preparando-lhes o caminho.. uma discussão de sobremesa são outros métodos de ensino”.

por ter contribuído para a reforma da educação em vários países. 21 John Locke (1632-1704) Histórico Grande filósofo e não menor psicólogo. teoria empírica do conhecimento. ensine tudo a todos totalmente” (Manacorda. 20 Sua obra sintetiza o velho e o novo da pedagogia: ”A reelaboração de toda a enciclopédia do saber. experimentadas desde o humanismo: areforma escolar dacultura. lendo. que inclui não só as boas maneiras como o domínio das paixões. que. meninos e meninas. cujo conteúdo muito contribuiu no campo educacional. a veneração pela qual a alma do homem se une ao Ser supremo. As universidades destinam-se ao cultivo da alma pela teologia. p. que compreende o conhecimento de todas as coisas. — A escola maternal é fundamental e deve cuidar principalmente do exercício dos sentidos externos. sobretudo no pensamento inglês Escreveu Ensaio sobre a mente humana. salienta Manacorda. 1989. etc. da inteligência pela filosofia. a mão e a língua. do corpo pela medicina e dos bens externos pela jurisprudência.. isto é. médico e professor. e a piedade. humanista. ”Nada há no intelecto que não tenha antes passado pelos sentidos. artes e línguas. da escola maternal à universidade. pintando. ou religião. dividida em oito graus. escrevendo. orbis scihttium. cantando.crescente interesse no aluno. gramática e demais ciências e artes de utilidade prática. propõe uma escola para a vida toda (desde o seio materno até a morte). ricos e pobres. uma escola para todos. — A educação deve atingir a todos. e a sua sistemática adequação às capacidades infantis são o grande tema da pedagogia de Comenius [. • escola única.]. a virtude.” No ginásio deve-se trabalhar o entendimento e o juízo. A escola comum deve cultivar os sentidos internos. medindo. 220-1). todos educados conjuntamente nos mesmos estabelecimentos (antecipa a idéia de escola democrática). dotou-o a natureza de um fino espírito de observação que de muito lhe serviu para adquirir a experiência pedagógica revelada nos seus escritos e para formar idéias que tiveram larga repercussão. Isso pressupunha uma nova sistematização de todo o saber. e Alguns . conforme o desenvolvimento do homem. É conhecido como Mentor das Nações.. • gradação e continuidade da educação. a intuição e a memória — com seus órgãos executivos —. com base na observação e na experiência. Idéias/propostas pedagógicas — São fins da vida e da educação: o saber. pesando. que tentou de vários modos. Comenius propunha a pesquisa e a valorização de todas asmetodologias que hoje chamaríamos de ativas. É necessário buscar a unidade do conhecimento por meio de: • método natural. por meio de dialética. a imaginação. No plano da prática didática. ou bons costumes. da política e da moral.

aos quais devem corresponder três objetivos: vigor do corpo. Lutou pela reforma completa nos métodos de ensino e no preparo de professores. Foi o precursor e inspirador 22 dos reformadores da educação. não se consegue educar os jovens com castigos duros. Pestalozzi. Freinet e outros. para formar professores.pensamentos sobre educação. montou um curso de pedagogia tão completo que permitiu dispensar até os estudos na universidade. conforme mostra o quadro a seguir. Idéias/propostas pedagógicas — Na educação. e antecipou. Fundou em Dessávia o Instituto Philantropium. destinado ao desenvolvimento da . na intuição de Gomenius e na proposta utilitária de Locke. Frõbel. Foi.” O educador deve estar consciente de que ”sua tarefa não é tanto ensinar aos jovens tudo o que os homens podem saber. isto é. ainda que vagamente e em esboço . onde podem conseguir conhecimentos e aperfeiçoar-se. tentou reformar a educação. como ser total e uma totalidade.] E isso. Ao apoiar-se nos paradoxos de Rabefcrê. Ressoueau foi o profeta que denunciou os males do passado. o moral e o intelectual. ”É ela que produz as diferenças entre os homens [.a vino do moderno. virtude e saber. Rousseau ama delineando uma nova concepção de ensino. três são os aspectos a ser considerados: o físico. etc. — Princípio epistemológico: a educação tem grande poder.. a educação como exercício da memória e acúmulo de conhecimento.. muitos dos quais transformaram em procedimentos os seus devaneios: Basedow. mas por meio de jogos adequados podese ajudá-los a aprender a viver. Formulou a teoria empírica do conhecimento. — Inverteu todas as idéias e princípios educacionais da época: saúde e disciplina corporal têm primazia sobre o saber e a eloqüência. Decroly. da experiência. de acordo com a natureza racional do homem. Dewey. ou filosofia baconiana: todo conhecimento vem dos sentidos e do intelecto. Montessori. se quiserem”. As idéias de Rousseau na prática de pedagogos dos séculos XVIII e XIX Jobann Bernhard Basedow 1723-1790) Histórico Notável educador alemão. Locke quem a recuperou. porém. título modesto de uma das mais célebres e originais obras educativas. mas despertar neles amor e respeito pela ciência e colocá-los no caminho certo. mostrando que as raízes do conhecimento devem ser buscadas no próprio homem. bem diferente das escolas do século XIX. Em 1775. Muitos filósofos e educadores antes de Rousseau criticaram o enciclopedismo. na Alemanha. Seus Princípios elementares (1774) constituíram-se num sistema completo de educação primária. cuja influência é notória nos escritores que o sucederam. ampliando as idéias de Rousseau. incluindo o próprio Rousseau. nas delicadas análises de Montaigne.

Toda sabedoria humana ”baseia-se na força de um bom coração. ciências e línguas sem teorias. A filosofia de seu Instituto era a dedicação ao próximo. a geografia vai do quarto à casa. e toda bênção humana está fundada neste sentido da siinpiicidade e da inocência”. 23 Johann Heínrích Pestalozzi (1746-1827) Histórico Pedagogo por índole. música. Em plena Revolução Francesa. no qual já delineava suas idéias sobre a reforma política. em princípio. com conseqüente melhoria de sua situação econômica. um revolucionário cheio de entusiasmo não só pelas obras de Rousseau como pelas de todos os demolidores sociais e políticos. Ainda jovem. • método intuitivo e recreativo. social e moral. Tornou-se conhecido com a publicação do romance Leonardo e Gertrudes (1781). pela educação. julgá-la corretamente e apontar caminhos educacionais que. e influenciaram largamente os métodos de educação da época. ainda são válidos. • cultura utilitária. — Dos 8 aos 12 anos apenas lições de coisas. pintura. a história é despojada de datas e de tudo que se refere à erudição. vivenciou as discrepâncias entre as idéias e a realidade dos problemas sociais. Preferia um caminho mais lento. vê o homem originariamente bom. com visitas freqüentes às oficinas e fábricas. só em aplicações e na natureza. trabalhos manuais e artes (desenho. conhecimento da vida prática: fatos e não palavras.inteligência dos alunos. aboliu a gramática e a retórica. Considerava a instrução menos valiosa que a educação. dois séculos após a sua morte. — Preocupação central: noções de vida real. Entre suas principais obras estão: Manual elementar ott Coletânea metódica dos conhecimentos e Discurso sobre escolas. para uma sociedade mais justa e humana. com total desprendimento pessoal. tornando-se a mais importante experiência pedagógica na Europa (1774-1785). seguir ”a verdade do mais íntimo de sua natureza”. porém mais promissor. obediente à verdade. Se este se orientar ”pelas necessidades de sua natureza”. o paciente educador suíço alcançou reputação universal pelos esforços dedicados a melhorar a educação e a instrução das crianças pobres. Foi. — Valoriza a educação física. Soube perceber a situação política do seu tempo. Era seu aforismo predileto: ”Aprender pouco — e esse pouco. à cidade. educando o próprio filho segundo os preceitos rou&seaunianos. Seu filantropismo influenciou e sugeriu a pedagogia de Pestalozzi. estará no caminho certo e verdadeiro. com pouco êxito Como Rousseau. Na moral: dar bons exemplos e resguardar o educando da prática de maus hábitos. impressionou-se com a leitura de Emílio. dança e até acrobatismo). Idéias/propostas pedagógicas — A pedagogia de Basedow propõe oferecer: • educação nacional e independente das religiões. Seu livro Investigações sobre a marcha da natureza no . sempre brincando”. ao país todo e depois às várias partes do globo.

Fundou. O saber e o saber-fazer. O amor. Vale mais o desenvolvimento intensivo das faculdades do que a extensão dos conhecimentos. colégio conhecido internacionalmente. estou longe do conhecimento dessa ciência. Estabelecendo a relação entre as práticas tradicionais da sua época e o desenvolvimento natural definido por Rousseau. ”Saber e não saber fazer é talvez o presente mais temível que um gênio malfazejo tenha feito à nossa geração. França. elevada a uma ciência constituída pelo mais profundo conhecimento da natureza humana e constituída sobre ele. . Tudo ativo. Sua mais importante obra pedagógica é Como Gertrudes ensina a seus filhos. Inglaterra e Estados Unidos. 4. fornecendo os germes das idéias educacionais modernas. É preciso aliar ao saber o poder. do particular para o geral. ”O pobre deve ser educado” e levado a ”autoeducar-se”. habituemos. alternar os trabalhos manuais e as excursões às montanhas. dizia. As relações entre professores e discípulos devem ser amorosas. — Entre os princípios do método pestalozziano destacam-se: 24 1. essencialmente e em todas as partes. do concreto para o abstrato. é necessário que nossas idéias venham acompanhadas da ação que as exteriorize. Considera que qualquer conhecimento deve ser aplicado a outras situações.” 3. portanto. Influenciou a pedagogia da Alemanha. Idéias/propostas pedagógicas — Seu método dá ênfase à atividade do aluno. reduziu os exageros para reconhecer os fins humanos e o fim social da educação. com os estudos. o Internato de Yverdon.” — Propõe ligação rigorosa entre os ensinos sucessivos. a criança a observar. — ”A arte da educação deve ser.desenvolvimento do espírito humano conferiulhe o renome de pensador e pedagogo erudito. A intuição. Fróbel e Herbart. a mentalidade e a capacidade física. 2. Destaca a importância da formação e não da mera instrução. e seus discípulos as extraíram de seus escritos e processos de ensino. seus colaboradores. base de todo conhecimento. Obviamente. iniciando-o pelo conhecimento de objetos simples até chegar aos mais complexos. em 1805. A missão do educador é ajudar o indivíduo a desenvolver de maneira mais completa sua natureza. Nada de ensino mecânico e verbalista. Seu princípio é a observação. Os exercícios de ginástica devem ser freqüentes e variados. — Todos devem ter direito à educação. Jamais formulou suas idéias pedagógicas. estimulante da atenção. O poder. que deve desenvolver a sensibilidade. De nada vale. juntar o poder com o saber. partindo do conhecido para o desconhecido. Ela se encontra apenas como idéia na minha alma. às noções teóricas a habilidade prática. porque a ”intuição” é tanto mais clara quanto maior número de sentidos a perceberem. aprofundador.

— O ensino da leitura e da escrita era feito por meio do método sintético. levar a criança à compreensão simétrica e ordenada de toda a matéria. desenvolveu sua pedagogia inspirado nas idéias de atividade e liberdade. Ao considerar que ”toda vida é unidade e o homem um criador”. que reformulou e ampliou. antes de conceber abstratamente os números. dos esforços de Pestalozzi em analisar a matéria em seus elementos mais simples e. que administrou com dificuldade. . avelãs. 25 Fríedrich Frôbel (1782-1852) Histórico Educador alemão. O aluno. embora não imediato. Para a leitura. em Griesheim. antes de saber ler e escrever. O educador que considera a humanidade no homem como sujeita a um contínuo desenvolvimento está sempre aberto a novas perspectivas. mas o cultivo da verdadeira humanidade e o desenvolvimento espiritual de cada indivíduo. Os primeiros cálculos eram mentais. ou ”parte-to elaborada por Pestalozzi. fundou. O aluno começava cedo a aprender a ensinar. Ao individualismo do primeiro propôs a doutrina da unidade. A geometria era ensinada experimentalmente. os métodos de nossas cartilhas eram. Mas. — O estudo da aritmética era experimental e feito por meios concretos. sem papel. formavam as sílabas. até bem pouco tempo. aproximadas umas das outras. Suas principais obras são: A educação do homem (na qual desenvolveu os princípios filosófico-antropológicos da sua pedagogia). começando pelo estudo das vogais. algumas merecem atenção. fazia adições de objetos reais — nozes. Foi totalmente independente e crítico. botões. Idéias/propostas pedagógicas — O fim da educação não é a vida prática nem a abundância de valores intelectuais. depois. As famílias educadoras e Vivamos para os nossos filhos Apesar da fragilidade e obscuridade de suas idéias. colocadas num cartão de modo que. delineou os rumos da pedagogia contemporânea. As palestras ou contos da mãe e dois periódicos. empregava letras móveis. etc. não visível a si próprio como o próprio rosto que só pode ser contemplado no espelho. e nunca deixou de pregar a necessidade de respeitá-la. achava indispensável saber falar. resultado direto. o Instituto Uruve sal Alemão de Educação. por aumento gradual de complexidade do material. que intitulou Kindergarten (jardir de-infância). Cada ser é um núcleo necessário e essencial da humanidade: possui o infinito em forma limitada e o eterno em aspecto temporal. É considerado o fundador da pedagogia do brinquedo e do jardim-de-infância. Em 1840. Em geral. Embora influenciou pelas teorias de Rousseau e Pestalozzi. Foi um dos primeiros educadores a buscar um nétodo para a educação da criança pequena. Na observação da infância”. Em 1817. o adulto vê como num espelho sua própria infância distante. apoiado por fanáticos pelo seu saber pedagógico. abriu em Blankemburgo uma escola educação infantil.

” . força social [. dobradura. a reconhecer as relações dos objetos entre si. poesias e contos. A escola e a sociedade e outras serviram de base ao movimento chamado Escola Nova. ”Toda a educação seja socializada: a tríplice unidade moral da escola pode enunciar-se: fim social. apesar de bastante ricos. Só as atividades manuais satisfazem as crianças. A criança gosta de observação e de movimento. porém. modelagem com argila. palestras. ser entendidos como algo concluído. cultura de jardinzínhos. como também o respeito aos homens e a Deus. dignas de respeito. 4. As atividades manuais e a aplicação adequada de objetos concretos. É preciso que exerça seus sentidos com liberdade.. 3. etc. principalmente para as crianças das classes menos privilegiadas. cartões. 5. do cotidiano infantil. tecedura. Interesse e esforço na educação. etc. argolas. pauzinhos. É o criador do chamado Método dos Projetos. mas na formação da justa vida social. mas como uma semente que deve brotar e crescer na alma dos homens. linhas e pontos.. porque são um jogo. criou uma escola experimental famosa na Universidade de Chicago (1894-1904). 2. emprego de sucatas (ervilhas. 26 Princípios gerais: 1. que se propagou por todo o mundo a partir da primeira metade do século XX.). propondo as atividades: caixa quadrangular. que propõe substituir a ação dos professores pela ação dos alunos. tanto de crianças como de adultos. Sua obra acentua as relações e a interação entre a vida social e a vida escolar.] A escola é antes de tudo uma instituição social [. são o melhor caminho para a criança desenvolver-se de modo sadio e natural.— A escola deve levar o educando a reconhecer e adquirir consciência da essência e vida interior das coisas e de sua própria personalidade.. não devem.. filósofo e psicólogo norte-americano.] vida social simplificada [. recorte e colagem. Cada criança tem a sua individualidade e índole.. quer apalpar tudo o que vê.. Frõbel decompõe o sólido em superfícies. A educação deve começar antes dos seis anos. 4. Meios educativos: 1. Seus materiais de jogo e ocupação. ocupações. prendas. brinquedos e instrumentos de trabalho (tudo muito colorido para educar a atenção e orientar os sentidos). caixas de areia. Suas obras Democracia e educação. A criança e o programa escolar. John Drwey 1859-1952) Histórico Educador. ] O professor é empenhado não somente na formação dos indivíduos. jogos e ginástica. 2. acompanhados por cantos que representem cenas da vida cotidiana. 3. Partindo do concreto para o abstrato. — Idéia fundamental em seus jardins-de-infância: os brinquedos e os jogos simbólicos ajudam a exteriorização do pensamento e a construção do conhecimento.

Em 1907. entre a idéia de que educar é fazer expandir as inclinações naturais e não levar o aluno a vencer essas inclinações. Publicou. “Vida. escrever e contar). a escola deve estar conectada com a vida social e com o trabalho de todas as outras instituições. A escola deve assumir a feição de uma comunidade em miniatura. visando a propósitos comuns. Dedicou-se à pedagogia terapêutica e à educação das crianças anormais. é uma das maiores representantes da pedagogia científica moderna. entre outros. realizando numerosas observações antropológicas em escolas primárias. 2. (u)riting (a)rithmetic (ler. 3. 4. A fórmula de sua pedagogia – aprender fazendo – resume a adeqüação dinâmica que propôs a fim de que a escola estivesse voltada para a mudança. ou. exerceram infulência universal. A educação deve ser “uma contínua reconstrução de experiência”. Observando os defeitos das escolas comum. estimando em situações de comunicação e cooperação entre as pessoas. no qual predominava aseparação das matérias e dominava a discriminação e a seletividade. abrindo a primeira Casa dei Bambini. produção e sociedade. Sistema didático: Estabelecer oposição entre dois conceitos: o do que educar é promover o desenvolvimento “de dentro” e não a formação por elementos “de fora”. 28 Estudou profundamente a psicologia experimental. transmitidos por pressões externas. . projetar. muito coerentes. definindo o sistema de insturução tradicional como a escola dos três erres: reading. iniciou a prática. Como sistema social. e educação são o mesmo. As crianças devem ser preparadas para a vida. substituindo-as por hábitos. É comsiderado um dos mais gentis observadores das relações entre educação. Maria Montessori (1870-1952) Histórico Médica e pedagoga.27 Sintetiza a história passada e futura da escola. Deve compreender. Antropologia pedagógica e O método da pedagogia científica. Idéias/propostas pedagógicas Princípios gerais: 1. Suas teorias e práticas pedagógicas. experimentar e conferir os resultados das aprendizagens. em condições integrais. propôe às crianças de inteligência normal os mesmos processos empregados na educação das anormais. Não deve haver nenhuma separação entre vida e educação.

o homem busca compreendê-lo para transformá-lo com base nas limitações de seu estado social. para agir eficientemente sobre o que .. Observação científica do comportamento infantil e realização dos direitos da criança: direito a vida própria.] só a criança é a educadora de sua personalidade [. ”Um homem é aquilo que é. em vez de por passividade e imobilismo. A concepção de sua didática é analítica. Considera que tudo na natureza é ordem e harmonia. fundamenta sua proposta na natureza.] A disciplina deve nascer da liberdade. o que confirma a unidade indispensável entre conhecimento teórico e prático. Guiado em parte por sentimentos pessoais e em parte por simpatia pelo povo. deixa clara a oposição entre indivíduo e sociedade. importante e único.O trabalho faz parte de sua pedagogia. O constante ir e vir do homem. Ao trabalhar tais conceitos. É preciso muita arte. e o homem. As matérias e as lições comportam uma extrema discriminação. na nova maneira de fazer e entender educação — nas quais é tão importante desenvolver o corpo quanto a inteligência da criança. Rousseau nos remete ao que o homem deveria ser. Idéias/propostas pedagógicas Princípios educativos: 1. o educador montessoriano promove o desenvolvimento da criança. para a formação do todo. A concretização desses direitos conduz aos dois princípios básicos do seu método: despertar a criatividade infantil por meio do estímulo e promover a auto-educação da criança. baseando-se em suas experiências e observações. não atuando diretamente por meio do diálogo pedagógico. sendo a realidade um fenômeno objetivo. predomina um ambiente favorável à educação. escolas de ensino fundamental. À semelhança do bom jardineiro de Rousseau. não pelos professores que teve.. a educação por trabalho e ação. A influência de Rousseau ocorre na teoria e na prática de pré-escolas. Ela está presente na obra dos seus seguidores. no homem selvagem e na capacidade deste para realizar o seu próprio bem na vida. produto dessa realidade. Rousseau destaca o poder da educação como construção e necessidade de despertar a curiosidade e o in29 teresse da criança para chegar ao conhecimento. ao preparar o homem desde criança para a vida na sociedade — a qual deve considerar as necessidades e condições que este tem como ser livre.. diz. à liberdade e à autonomia. mas por aquilo que ele mesmo realizou [. uma ”junção impossível” mas que procura recuperar na prática. em que o educador mantém-se em segundo plano. para Rousseau.. propondo a educação do interesse natural em oposição ao esforço artificial. ou seja.” 2. se faz passo a passo. levando-a a aprender a ser dona de si mesma. o conhecimento como desenvolvimento interno e não como acréscimo externo. seu contato com a realidade de forma indireta. Pela ênfase que dá ao sujeito e a sua formação natural. mas da oferta de meios adequados para a autoformação da criança. Tendo encontrado o mundo já construído. O ensino é individual e os estímulos para o desenvolvimento psíquico são externos. médio e superior. fornecendo-lhe meios adequados de trabalho.

Rousseau considera três tipos de educação. muito especialmente. tem condições de viver uma completa felicidade. A verdadeira educação deve encaminhá-la para essa liberdade natural e. os homens e as coisas. Durante séculos. a apropriação e a construção — individual e coletiva — do saber. provenientes de três instâncias: a natureza. toda educação dogmática tende a fnossar Partindo da premissa filosófica de que o ”homem é naturalmente bom”. e ser acompanhado durante todo o processo. a criança e sua formação como indivíduo livre para querer. tem sua própria história. que compreende o que conhece. a iniciativa. com o progresso das ciências e. uma intenção. O verdadeiro indivíduo precisa valorizar-se e equilibrar-se internamente. da psicologia da criança. É uma arte que requer observação constante. Deve haver equilíbrio entre o desenvolvimento físico e o cognitivo. privilegia. não podendo restringirse ao ato mecânico do ensinar. o homem. as pessoas e as coisas. filósofos e pedagogos buscaram métodos e técnicas para ensinar. volta sua preocupação para a própria conservação. ao contrário. sobre as oportunidades que a natureza oferece ao homem de experienciar. limitando sua interferência apenas à manipulação do meio. personalidade preparada. sinal de que a escola ainda não contribuía para os verdadeiros saber e saber-fazer. é um ser concreto e real. da mera transmissão de conhecimentos. vivendo na simplicidade. que. ambiente adequado. Rousseau reconstitui a história da evolução humana. construtiva e crítica. tais métodos têm ajudado a escola a deixar de ser o que era: um campo . O ponto de partida será sempre o sujeito. sem cair no artificial que a sociedade impõe. cultivando o que tem em comum com os animais e plantas. sem o que não conseguirá o equilíbrio externo para enfrentar a vida. que acontece de dentro para fora. e o de chegada. .ainda resta de natural. retornando às origens do homem. a liberdade de expressão. um ser livre. Deve ter início desde que a criança nasce e passa a ter contato com o mundo. com suas características e necessidades. a educação exige ação planejada que propicie ao homem a experiência do real. o trabalho livre e disciplinado. é sujeito a poucos males. ser que naturalmente conhece. para mostrar que o conhecimento é um processo interno. A PROPOSTA EDUCACIONAL DE ROUSSEAU A criança não é um adulto em miniatura. intelectuais e afetivos — o que torna mais complexo o trabalho educativo. uma vez que a criança não entende os valores que se lhe impõem.. etc. Se não há perversidade original no coração humano. físicos e morais. A formação deve levar em conta todos os aspectos. pensar e proceder. reconstruí-la de forma calma. em Emílio. deve demonstrar o quanto o significado dessa história contribui para o desenvolvimento do indivíduo. compreensiva. a educação pode assegurar o livre desenvolvimento das faculdades naturais do educando. ser situado no tempo e lugar. 30 O trabalho educativo supõe um propósito. Se a primeira não depende de nós e a das coisas é em parte dependente. Como exemplo toma o modo de vida do homem primitivo. que desde cedo constrói suas próprias experiências. ao desenvolver seu corpo.

Rousseau. 114-5. Qualquer método que se baseie apenas na memorização não conduz à aprendizagem e está condenado ao fracasso. Rousseau foi o primeiro a perceber isso. As atividades infantis podem e devem ser disciplinadas e orientadas pela educação. se se aproximasse a criança da natureza. e não apenas formar o homem pela inteligência. Para que o ensino concorra para a verdadeira educação. p. Afirmava que. mas não se pode esquecer da natureza humana. por si só ela desenvolveria seus conhecimentos. deixando-a experimentar em vez de fazer por ela. mesmo os mais simples.] A falta da prática de pensar. dois séculos antes. forneceu os determinantes do conhecimento. pois para haver aprendizagem significativa é necessário estimular na criança o desejo de aprender e conhecer. Rousseau afirma a importância de conhecer a criança. sendo sujeito de sua educação. Ao fazer suas experiências. é preciso haver outra relação com o conhecimento e com a sociedade. Contrariá-la. estratégias utilizadas na educação do personagem-título de Emílio. Rousseau reafirmava constantemente a importância do método natural. mantendo-a atenta a si mesma e àquilo que diretamente lhe diz respeito. segundo ele. considerando-a sujeito da própria aprendizagem.] Se o vosso educando não aprende nada convosco. isto é.. valor o que conduz à verdadeira aprendizagem. ao mostrar que ensinar não é só questão de métodos. O ideal consiste em que ”a criança aprenda por si só. 1990ª. que seria descrito por Piaget. retira dela essa faculdade para o resto da vida”. aprenderá com os outros [.ROUSEAU. Em vários pontos de Emílio.31 vastíssimo de ensino pelas palavras. Observando a atividade da criança. a sua faixa etária e observar atividades que experimenta e vivencia. dizia ele. dar es32 paço para a criança ir conquistando a própria autonomia. Ilustração de Gustave de Staalpara uma das edições de Emílio . positivamente.... e só depois definir o tipo de trabalho a ser feito. É preciso estudar bem a criança. As novas propostas pedagógicas mostram que a escola ainda não corresponde (como não correspondia naquela época) aos padrões de qualidade. ou impor-lhe o impossível foi o grande erro da pedagogia tradicional. criando seus próprios conceitos e construindo o próprio conhecimento. onde o livro imperava e a memória era sobrecarregada. o educador saberá o que precisa fazer e quando. se o seu método fosse seguido. Ao educador cabe colocar à escolha da criança os objetos que poderão vir a influenciar. comparação e exploração de objetos e na interação com o meio ambiente. Emílio ia descobrindo a ciência. durante a infância. de não confundir aprendizagem com aquisição de conhecimentos. o seu desenvolvimento. e dizia que o conhecimento precisa ser construído. possuímos conhecimentos. pois todos. que a razão dirija a própria experiência [. desligada do seu conteúdo objetivo. ao propor uma metodologia calcada na observação.

Característica do ser humano: Crescimento das forças Propostas pedagógicas Aprender brincando: sem livros.A relação entre professor e aluno é horizontal. leitura de Robinson Crusoé (história do homem segundo a natureza) Programa de estudos: ciências físicas.Aquisição de conhecimentos. segundo ele. Cuidados físicos. observando seus comportamentos. prática de um ofício. amando-os. escrita. É algo mais importante daí procurar estudá-la em profundidade Divide Emílio em cinco partes. Recursos: supressão de qualquer manual (substituído pelas lições das coisas). natação e cultura dos sentidos. favorecendo os seus jogos e prazeres. o mestre poderá auxiliar na sua aprendizagem e no seu desenvolvimento. segundo o período de vida e as características do ser humano: Emílio: Livro I período de vida:1º ano período: lactância Característica do ser humano: Ser ativo Propostas pedagógicas . (em particular a astronomia). de amigos. ensinar o menos possível. há imposição em vez de educação. nada de história (esta só aos 18 anos) . para cada uma das quais propõe um trabalho pedagógico específico. O aspecto afetivo entre educador e educando deve ser suficientemente forte para um trabalho conjunto. pelo próprio objeto). nas viagens. a geografia (se possível. 33 Proposta pedagógica definida por Rousseau em Emílio. Curiosidade: único motivo e guia. A infância. o aprendizado de um ofício (marceneiro) Nada de gramática. Quando essa relação não se efetiva. como sintetizamos no quadro a seguir. Característica do ser humano: Força corpórea supérflua Propostas pedagógicas . Só convivendo com os alunos. prática do pensar e julgar. na qual ambos aprendem. correspondentes a cinco etapas evolutivas. geografia. higiene Importância do papel da mãe e do pai. conversando com eles. Emílio: Livro II período de vida: 2-12 anos período: Infância Característica do ser humano:Ser predominantemente sensível Propostas pedagógicas Educação sobretudo no campo pela ginástica.Exercícios do corpo e dos sentidos: muita liberdade. etc. história. adquire os primeiros conhecimentos: leitura.Papel do preceptor: manter a criança sempre interessada. Emílio: Livro III período de vida: 12-15 anos período: Adolescência Característica do ser humano: Ser que pensa e julga Propostas pedagógicas . não é apenas um período de insuficiências intelectuais. Período sem lições formais: observação da natureza e lições das coisas. jogos bem escolidos.

educação pela compaixão. uma educação a ser dada apenas no lar ou pela natureza. a criança não pode ter ainda qualquer idéia sobre os seres morais e as relações sociais. na época. a valorização do cultivo do corpo e dos sentidos e a consideração da criança como indivíduo.. .Desenvolvimento do sentimento. Rousseau considera que. com sua própria história de vida. uma educação que permita que a criança descubra por si mesma e construa os próprios conhecimentos.Emílio: lIvro IV período de vida: 15-20 anos período: Mocidade Característica do ser humano: Ser amoroso e sensivel Propostas pedagógicas . joga. Rousseau não via. segundo ele. **Esta parte do livro é consagrada à educação de Sofia. o trabalho é uma forma de a criança obter conhecimento. isto é. A educação deve dar espaço ao educando para conduzir apropria aprendizagem. Rousseau mostra a importância dessa fase da vida do homem. A verdadeira educação. não há verdadeira aprendizagem. viagem. ou dar ao homem a oportunidade de educar-se naturalmente. Rousseau foi o primeiro a encarar a infância de uma nova maneira: período por excelência da plasticidade. sem a qual. Auto-educação e método natural Dedicando as duas primeiras partes de Emílio ao estudo da criança de 0-12 anos de idade. Propõe uma educação puramente negativa. Porém não deixou de reconhecer a necessidade de uma ação pedagógica planejada. dizia. 34 Vemos a importância da observação da criança e do método natural. consiste não em ensinar a virtude e a verdade. futura esposa de Emílio. casamento *Para Rousseau. antes dos 12 anos. O educador é o mediador cuja influência deve ser muito mais voltada para facilitar e aproximar a criança da informação/conhecimento. imita e enriquece o reduzido capital que lhe foi transmitido por herança. daí usar a expressão” prática de um ofício”. amizade e amor Característica do ser humano: Despertar das paixões Propostas pedagógicas Cultivo das letras e dos idiomas estrangeiros Introdução à religião Emílio: Livro V período de vida: 21-25 anos período: Início da idade adulta Característica do ser humano:Ser vigoroso e viril Propostas pedagógicas Entrada no mundo adulto: noivado. mas em ”preservar o coração do vício e o espírito do erro”. durante o qual experimenta. alicerçada na confiança mútua entre educador e educando. a possibilidade de conciliar sua proposta com a educação dada nas escolas públicas (colégios). estudo do homem pela história. A filosofia de educação subjacente à postura rousseauniana é a autoeducação.

repetimos. confiança plena na natureza infantil. O verdadeiro conhecimento. Hoje. como ser. Por ter sido um solitário e vivido pouco com os homens. desde os primeiros anos de vida. segundo ele. retira do homem essa faculdade para o resto da vida. de desabrochar do caráter com plena liberdade de ação. Segundo ele. Cita como exemplo sua própria educação. que a executará com satisfação. Cabe ao professor propor atividades que partam do real. do mundinho da criança e que dirijam sua curiosidade. Mas só poderá fazê-lo. o professor saberá favorecer o mais possível a sua ação sobre o objeto do conhecimento. mas baseada apenas em um acordo com o adulto. Acreditando que a criança é realmente o sujeito da própria aprendizagem. se realmente acreditar ma criança e souber esperar que se aproprie do co•hcdmento. mas um pacto de liberdade. por meio de sua própria ação. o professor precisa aproximar-se da criança. Toda atividade que for do próprio interesse ocupa a criança. busca enfrentar a vida de forma segura. numa época em que se visava apenas à reprodução exata do conteúdo comunicado pelo ”adulto que sabia” para a ”criança que desconhecia tudo”. Para tanto. o ato educativo não pode ser um pacto de simples submissão. É necessário que a criança seja livre para selecionar o que quiser aprender. Em vez de ser o resultado da educação. A natureza não é apenas o meio ambiente. sem nada impor. mas um doutor. fundamentado num projeto pedagógico de amor e respeito mútuo. facilitar as descobertas e sua reconstrução. mais do que nunca. confiar na sua natureza e procurar entender o que ela pensa. a criança educa-se a si mesma e. mas o pior é querer fazer da criança não uma criança.sem imposições. . Hoje percebemos o quan36 to é importante que a criança se descubra. pouco também foi influenciado por seus preceitos. Se lhe déssemos a oportunidade de experienciar. Isso implica não mais esperar que os alunos aceitem passivamente os conteúdos dados (ou esforçar-se para isso). A falta da prática de pensar durante a infância. temos muitos hábitos. para Rousseau. Ela exerce influência positiva na criança. não haveria necessidade de lição alguma. alicerçase no tripé: liberdade. mas o próprio ser em desenvolvimento. Essa é a verdadeira educação. que. É a defesa da liberdade. gozando de liberdade para refletir sobre o que observava e raciocinar sobre os fatos. desejar conhecer e ser estimulada a construir o próprio conhecimento. com liberdade. da experiência. mas aceitar que escolham o aue devem conhecer. Sugere que se observe a natureza e a própria criança antes de lhe dirigir a palavra. interesse e ação. mantendo o interesse e levando ao avanço cognitivo. vai adquirindo os conhecimentos necessários. Recuperar suas idéias na prática do professor continua tão importante como foi no passado. no senti35 do de construção e integração de conhecimentos. com suas capacidades e potencialidades para crescer de forma consciente e ajudar seus semelhantes. compreendendo o que está fazendo e para que serve.

a criança fica reduzida ao silêncio e o professor deixa de transmitir-lhe seus conhecimentos e experiências. é receptiva à comunicação. deve ser uma resposta aos problemas que a ela se colocam. para ele. precisa ser levada a experimentar novos sentimentos. sensações. Em contato com a natureza. O educador deve proporcionar condições adequadas ao crescimento corporal da criança. mas raramente retém as idéias e as relações entre elas. dar-lhe oportunidades de expressar-se emocionalmente para apreender o mundo a sua volta. dizia Rousseau.. Na infância a criança retém rostos. porque qualquer ensino. a metodologia rousseauniana exige treino e observações freqüentes. o educador fará com que ela saiba tirar proveito das informações recebidas. é preciso responder à curiosidade e às necessidades das crianças. o conhecimento deve ser desejado e aceito com gosto. Rousseau propõe que a criança ignore tudo o que não puder descobrir por si mesma. e o conhecimento se constitui. Para ensinar algo. a criança saberá extrair os elementos para sua plena realização e autoconhecimento. imaginação e memória. adquirindo as formas necessárias para avançar no conhecimento até tomar consciência de si mesma. embora as reconheça dependentes entre si. de prazer e dor. Quando a criança já percebe os objetos que estão a sua volta. (citação: Por razão entenda-se o estabelelecimento lógico do raciocínio. puramente afetivas. Uma vez que a criança é ao mesmo tempo a natureza e uma natureza. mas não as relações que os ligam. independentemente de si mesmas. ao dar à criança oportunidade de descobrir o que é realmente útil conhecer. Pouco a pouco. adquirir experiência para sentir a impressão complexa que resulta. Ao ensinar a razão ou o porquê das coisas que observa. Qualquer interferência do educador deve limitar-se a aproximar o educando da natureza. possa lhe interessar que leva a criança a querer conhecer e examinar tudo o que está ao seu alcance. enquanto faz sua leitura de mundo. As . vai percebendo as coisas. simultaneamente. etc. as sensações representativas dos objetos independentes de si mesma. Aos poucos. Quando isso não acontece. começa com as primeiras sensações. para proporcionar avanços. que levam a criança a representar o original e não o papel que ele representa. É a curiosidade natural que todo homem sente por tudo quanto. considerado como conhecimento inteligente) O conhecimento da criança. de todas essas sensações. É preciso deixar de lado a mania de querer ensinar às crianças e impedir que aprendam por si próprias. É esse o motivo pelo qual. deve partir do conhecimento da criança. o método natural é o mais eficiente. as sensações representativas que lhe mostram os objetos vão-se formando. apesar de raciocinar a respeito de tudo quanto conhece e se relaciona com o seu interesse. desde os primeiros dias de vida. e que não busque apenas nos livros ou aprenda apenas por meio das palavras do educador. 37 O tipo de exercício tem importância secundária.Caracterizada pela busca de modelosnão no homem mas na natureza e nos objetos. até chegar à idade da razão. de perto ou de longe. a criança destrói e quebra tudo o que consegue atingir e quer modificar tudo o que vê. Rousseau distingue razão.

pouco a pouco adquire força e aprende a fazer uso dela. a criança tem necessidade de muito movimento para exercitar os membros. em deteminada situação. apesar de inerente à atividade humana. as noções de lugar e distância desenvolvem-se graças ao movimento. O bom hábito do corpo Assim que a criança começa a distinguir os objetos e a interessar-se por eles. Com a recomendação de deixar a criança formar os conhecimentos. com o objetivo de estimular suas operações. Mas o exercício só é bom se leva a adquirir a agudeza do sentido e o bom hábito do corpo. os quais precisam estar em perfeitas condições. Rousseau mostra que a vida intelectual é sensitiva: o que ajuda na construção do conhecimento é o contato imediato com as coisas e não explicações que nem sempre são entendidas. o conhecimento não se forma independentemente do corpo. fontes de conhecimento presentes na natureza da criança. Rousseau mostra que. enquanto os primeiros gritos e movi•iraim são puramente mecânicos. Tal contexto valoriza trabalho e ação. Nos primeiros anos de vida. indiferentemente. em contato com elas. O conhecimento do próprio corpo e de seus movimentos é necessário para a criança vir a saber distinguir o eu do mundo que a rodeia. A maturação orgânica acontece mais depressa quando enriquecida com as experiências resultantes da interação da criança com o meio ambiente ou a natureza. Para pensar utilizamos nossos sentidos e órgãos. Os aspectos físico e motor têm influência sobre o comportamento geral da criança e estão intimamente ligados à atividade mental e às aquisições nos primeiros anos de vida. as sensações experimentadas são os primeiros elementos do conhecimento. A ação consiste em aprender as coisas. Da mesma forma. O importante é o educador fornecer meios para a criança educar-se de maneira natural. começa a imaginar o espaço para atingi-lo. as primeiras devem ser ricas e abundantes. quando forma a imagem do objeto no cérebro e. Embora criticasse a educação precoce das crianças. tão importantes para a coordenação dos movimentos posteriores e o desenvolvimento de habilidades que ajudarão a criança a desenhar e a escrever. a mão para apanhar o objeto que a toca ou que está distante dela. o que a faz aprender. afeta seus sentidos embora não deixe de estar atenta a tudo quanto a rodeia. Pelo exercício. levando-a de um lugar para outro para que aprenda a calcular distâncias. A criança possui ten38 são momentânea somente para aquilo que. quando se põe a criança em contato com a natureza. . No início da infância. É pelo movimento que a criança adquire a idéia de espaço: quando estende. Rousseau nunca o fez em relação aos exercícios físicos.sensações irão se converter em idéias e. deve-se colocar a sua disposição os mais variados possíveis. nos olhos. portanto. primeiro no plano das sensações e do instinto. depois. expressar tudo o que sente.

40 Tratar a criança de acordo com sua idade requer estratégias diversificadas de ensino. 4. saber como agir em cada situação. Esses dois aspectos. É preciso auxiliá-las e suprir o que lhes falta. Rousseau quer que as crianças . levaram Rousseau a elaborar quatro mácimas:ROUSEAU. priorizar o conteúdo a ser ensinado. dado que não é da natureza. O educador precisa considerar o que já foi conquistado. uma vez que todo projeto de educação se define na prática entre professor e alunos. O mérito da psicologia rousseauniana é considerar a criança um ser pensante. “Longe de terem forças. inserir no fazer pedagógico a vida da criança. a fim de que – numa idade em que não sabem dissimular – se possa distinguir. principalmente. sem nada conceder à fantasia nem ao desejo sem razão. É preciso nos auxilios que lhes prestamos. bem como acreditar na sua capacidade. porque naturais. distinto do adulto. em tudo quanto for da necessidade física. fruto do questionamento das das práticas de ensino tradicionais. 1990ª p 53 1. considerar os interesses e a capacidade de aprendizagem da criança. atender às necessidades das crianças. Por conseguinte. Tais máximas mostram a importância teórica e prática e a atualidade de um autor tão criticado e. as crianças nem sempre têm forças suficiente para tudo quanto lhes pede a natureza. nos seus desejos. Recuperá-las significa reforçar a necessidade de o educador conhecer a a criança (educando) para saber como e quando intervir na sua educação. pouco lido pelos educadores. trabalhar todas as linguagens. supérfluas. em inteligência. em força.”. aqueles que vêm diretamente da natureza e os que vêm da opinião. evitar estragar a criança pela educação. 2. prometendo coisas que não se podem cumprir. repensar a questão do erro e da avaliação em geral. Rousseau propôe a liverdade bem-regrada. dende a pensar apenas naquilo que está diante dos olhos e compreender o que pode medir no seu espaço. embora situado na prática social mais ampla. ao mesmo tempo. 3. devemos deixar-lhes a utilização de todas aquelas que elas lhes dá e de que não seriam capazes de abusar. limitar-nos unicamente ao realmente útil. porque a fantasia não as atormentarás se não lhes dermos origem. É preciso estudar-lhes atentamente a linguagem e os sinais. o de sua pedagogia. requer um conhecimento profundo da criança.39 Crianças devem ser crianças A criança por desconhecer o mundo intelectual. valorizando a leitura e a escrita como práticas sociais e. apoiar-se na obeservação da realidade de cada criança para levá-la a refletir e julgar o que vê.

ou chocados diante de uma criança receosa. instaurando um primado da linguagem do adulto (oral e escrita) sobre a infantil. Para atingir uma personalidade integrada — aspectos emocionais e intelectuais —. Esquecemos que o ajustamento emocional manifesta-se por alegria. 41 Sem a pretensão de que a criança saiba muita coisa. É importante deixá-la falar bastante e falar sempre corretamente diante dela. coragem. É importante que o educando determine o que quer aprender e que o educador desperte sua vontade e forneça os meios para satisfazê-lo. a quantidade de conhecimentos está relacionada com a qualidade. recuperá-lo com juros em idade mais avançada.(citação: Por dialeto entende – se a variedade linguistica falada pelas pessoas com as quais a criança interage). é mais importante dar à criança apenas o necessário. Rousseau recomenda dar ensinamento bastante. seja necessário encher-lhe a cabeça de palavras. Propõe um trabalho intenso de linguagem oral e a exposição da criança a modelos corretos de fala. e no momento propício. o homem não pode saber tudo nem saber completamente o pouco que os outros homens sabem. O educador que considera importante o quantitativo é um avarento que perde tempo. positiva ou negativamente. ao conferir valor muito especial às palavras e pressupor que. Para Rousseau. atitudes e comportamentos que expressam a alegria de viver e conviver. Rousseau não desvincula os processos de falar. Segundo ele. para que ela entenda o que o conhecimento representa e possa utilizá-lo. A natureza. pois a inteligência humana tem os seus limites.sejam crianças antes de serem homens. não demasiado. numa prática sem medo ou opressão. ao seu vocabulário. fez as crianças para serem amadas e ajudadas. porque só falando ela aprenderá a falar. para instruir uma criança. é necessário considerar a infância como realmente ela é. tanto quanto possível. prestar atenção ao verdadeiro sentido daquilo que ela quer dizer. segurança. escrever e ler. segundo Rousseau. É preciso sacrificar um tempo para. de início. tristeza. rebelde. isto é. que lhe permita estruturar seu mundo interior. . o ajustamento social e emocional da criança. raiva e carinho. O educador não deve corrigir todos os erros gramaticais que a criança comete ao falar. ler. Assim. o educador deve antes levar-lhe conteúdos que tenham utilidade prática. É importante permitir que. de sentir-se segura. de agredir ou chorar. medrosa e totalmente obediente. o equilíbrio. O trabalho em pequenos grupos é um dos melhores procedimentos que o professor pode utilizar para o desenvolvimento socioemocional do educando. conhecendo melhor a criança. Todas as experiências vivenciadas na escola concorrem para reforçar. satisfação. desenhar A criança fala conforme as regras do seu próprio ”dialeto”. Falar. no momento em que ela necessita. limitando-se. escrever. pois o que se ganha em aparência se perde em profundidade. que quer comandar tudo quanto a rodeia. a linguagem é manipuladora. Ficamos muitas vezes revoltados quando vemos uma criança imperiosa. quando dele necessitar. ela use esse ”dialeto”. por não querer perder nada.

obtemos com certeza e muito rapidamente o que não temos pressa de obter mas que nos é de utilidade social. que aprendem independentemente do método. Rousseau coloca Emílio participando de eventos de leitura e escrita como espectador atento. sem alterações ou afetação. Por isso é necessário criar condições favoráveis. O desejo e o interesse levam o aprendiz a relacionar-se convenientemente com o objeto do conhecimento. Aconselha a distinguir entre a ”boa” e a ”má” linguagem sem impedir a criança de falar. que impedia a criança de falar ou a levava a encolher-se. as crianças das classes populares chegam à escola com uma bagagem de conhecimentos bem diferente da de crianças das classes média e alta. uma vez que a linguagem se desenvolve. passeios ou festas. Qualquer método será eficaz. A diferença está principalmente na ausência quase completa. Como parte da aprendizagem natural. cresce. articulando bem as palavras. achando que não sabia falar. além de aborrecidos. expondo-o a modelos de linguagens de vários níveis e dialetos. da mãe. propõe a liberação das capacidades do aprendiz. desde que tenha hipóteses claras sobre a natureza do objeto a ser aprendido e sobre sua aprendizagem. buscar novos caminhos. condenando o conteúdo veiculado pelos livros da época distante do interesse imediato das crianças. claro. a criança usará com propriedade todas as expressões da língua. porém no tocante à leitura e à escrita os potenciais cognitivos se eqüivalem. O contato com o modelo correto. Hoje. facilmente será levado a dizer o que interessa ao outro. por parte do primeiro grupo. sua leitura não é significativa e ele não entende o conteúdo. açoites da infância. por vezes. por si. o que dificulta avançar da mesma forma e ritmo que com as crianças das classes favorecidas. . Quando alguém se acostuma a utilizar palavras que não compreende. Segundo ele. tentar. a importância do ato de ler. nas quais a criança perceba. Dota42 da de capacidade inata para falar e em contato com modelos corretos de fala. Embora os escritos contenham poucas palavras. Rousseau chega a afirmar que os livros são instrumentos de tortura. quando ocorre é tarde. é preciso que alguém os leia e nem sempre isso é possível. a oportunidade já passou. É preciso ensinar a criança a falar uniformemente. de experiências com materiais e atos de leitura e escrita. Não tenha pressa de ensinar a ler e a escrever. é a oportunidade para a criança atuar sobre esse objeto (língua oral). quando é praticada em situações diversificadas. Embora Emílio faça esforços e até consiga decifrar parte de alguns deles. dos familiares e amigos bilhetes com convites para almoços. segundo Rousseau. 43 Emílio recebe do pai. Às vezes. Rousseau condena o ensino represser da época. formular hipóteses sobre suas formas.É importante relacionar as palavras dirigidas à criança a objetos sensíveis aos quais possa ter acesso e não alimentá-la com palavras inúteis que ela não compreende.

acreditava que o conteúdo dos livros didáticos e a forma como eram trabalhados representavam o flagelo da infância. como o uso de materiais pedagógicos. que a criança possa sentir e acompanhar sem dificuldade. mão mais segura e o conhecimento das relações entre os objetos. que não praticavam atividades 44 lúdicas. e o mesmo fará com as outras linguagens. com melodia simples. como a música. como a palavra (todo) ou a sílaba (parte). mundo que não compreA imobilidade proposta pela educação tradicional fatigava as crianças. O trabalho manual também é visto. pois leva a criança a adquirir golpe de vista. sugere um trabalho de equilíbrio entre as várias linguagens. Para Rousseau. é visto de forma construtiva. Numa época em que a leitura era considerada algo externo ao indivíduo. antes mesmo de Piaget. ou entre a análise e a síntese. pois não aceitava que a criança fosse obrigada a adaptar-se ao social dos mais velhos. O professor deve caminhar devagar. O educador deve utilizar-se das artes. como atividade de preparação para a vida. uma atividade espontânea. trabalhos manuais. que fornece satisfação à necessidade de movimento e de ação. a não ser quando for impossível mostrá-lo. 113 Em vez de ensinar mecanicamente a criança a ler e a escrever. intelectuais e sociais. em diferentes contextos socioculturais. satisfazendo às necessidades afetivas. O sinal absorve a atenção da criança e a leva a esquecer o objeto representado. contribui. O erro. por ele. nunca substituindo o objeto pelo sinal. etc. nesse caso. a linguagem do desenho é uma forma de a criança começar a diferenciar significantes de significados. irá favorecer o domínio pleno do código alfabético.Propõe que a criança é capaz de descobrir caminhos para o uso da comunicação. o bilhar. Rousseau hesita na escolha de um método para o ensino da leitura e da escrita. qualquer pessoa irá borrar muitos papéis antes de obter alguma coisa compreensível. como os jogos e brincadeiras. Rousseau propõe o trabalho como o meio de levar a criança a obter um conhecimento prático e sugere procedimentos metodológicos. Tais jogos orientam e disciplinam. começando pelo trabalho manual. A leitura já era vista por ele como verdadeira arte de comunicar. Insiste na importância destes. Porém. . contribuindo para a aquisição de idéias nítidas e precisas sobre medidas e proporções práticas. a experiência lúdica. preparando cada observação com um objetivo claro. p. motivam e ajudam a criança a assimilar e transformar a realidade segundo suas necessidades. na época. os instrumentos musicais. com cadência e regularidade. o jogo de pela. aos adultos: o arco. Propõe a utilização de jogos de destreza restritos. A leitura de uma partitura musical. o que. pois o homem só aprende bem aquilo que pratica e experimenta. levando o aluno a observar os fenômenos repetidas vezes. Rousseau 1990a. o balão. mostrando a importância que dá à questão da unidade lingüística. Qualquer método que se baseie na memorização não conduz à aprendizagem e está condenado ao fracasso. sem dúvida. Ao desenhar. para os exercícios de composição de frases.

do sistema escrito. historicamente construídas.O desenho. não humilhação para o aluno. comparando-os om os que fez e fará. mas acompanhar o nível de crescimento de cada um em relação aos critérios a atingir. com seu educando. avaliação cooperativa – se não refletir sobre a realidade de seus alunos. como processos de comunicação. se não se esforçar por avaliar com mais qualidade. A avaliação deve ser honesta e sem conotação de punição. considerando aquilo que a criança já conquistou. em marcante contraste com a escola que quer impor uma linguagem escolar. avaliação participativa. deve constituir auxílio e estímulo ao sucesso. o que não significa impedir que se esforce para assimilar as normas convencionais. e quem se propôe a educar crianças deve saber disso. como diz Rousseau saber esperar. avaliando o seu progresso individualmente. ou seja. A auto-avalição porposta não se restringe à descrição do desempenho do aluno. Emílio diariamente depara com textos significativos e variados. Ela não visa a comparar alunos. A auto-avalição deve ser prática permanente entre educador e educando. expressões artificiais e clichês! Rousseau propõe a preservação e a valorização do discurso pessoal da criança. ao propor uma metodologia que concebe a linguagem como ação intersubjetiva e prática. O importante 45 é não apresentá-las antes que a criança tenha construídas as noções básicas que facilitarã essa aquisição formal. mas às medidas tomadas em conjunto com o professor para melhorar o desempenho. se não tornar decisões com base em um aluno concreto. “ser” rival de si mesma. a leitura e a escrita. Rousseau avança. O educador Para Rousseau educar não é tarefa fácil – como mostra seus escritos. é preciso. também são vistos como abertura para a integração social do homem e sua transformação. É importante que a criança não tenha rivais ou concorrentes e que o professor anote os progressos que ela fez. identificar o melhor ou pior. com uso prioritário de termos sofisticados. Rousseau é o primeiro a intuir que não adianta o professor introduzir auterações em sua prática de avaliação – auto-avaliação. Vivendo em uma época em que a leitura era distinta da aprendizagem da escrita e o falar não era permitido. levá-la a querer ultrapassar-se. A avaliação O processo de avaliação deve ser o mais natural possível. 46 . principalmente sua constante preocupação com a formação do mestre. Em vários pontos de Emílio. O magistério é uma tarefa difício. destaca-se a importância da observação constante do educador em todas as atividades. uma vez que é sujeito do próprio desenvolvimento. O professor acompanhará o progresso do aluno para melhor direcionar seu trabalho.

p. ou seja. Para Rousseau. afirmando que este ajuda a direcionar melhor o olhar sobre o objeto: ”o que caracteriza as grandes descobertas e invenções é o fato de seus autores olharem uma parte da realidade sob um ponto de vista bem diferente e assim chegarem a novos conhecimentos”. O professor. AEBLI. A relação entre teoria e prática (por meio dos estágios supervisionados) parece não favorecer esse desenvolvimento. 204. ainda hoje. Segundo Aebli. Ao contrário de outros profissionais. supervisão. de ensino fundamental. professor de pré-escola. o novo educador assume o compromisso com o povo. p. Se ela pergunta é porque quer saber o que ignora. médio e/ou superior. a hora de trabalho pedagógico coletivo.A precária formação do educador. à criança cabe desejar. colocar as curiosidades a seu alcance. Aebli propõe conduzir o aluno a uma melhor percepção do objeto para levá-lo ao verdadeiro ato cognitivo. procurar e encontrar.prática transformadora não só é possível como necessária. 1970. orientação escolar. deve-se dar-lhes tempo para refletirem. que o torne consciente da realidade. em vez de fugir à resposta. explora as contradições que se manifestam no ato educativo. a base comum sem especialização (direção. Numa pergunta bem feita. como a de São Paulo. No entanto. deve perguntar pouco e escolher muito bem as perguntas. o professor deverá evitar tomar posição logo na primeira resposta. o professor recémformado começa o magistério isolado e assim continua. Não faz mal que reine um minuto de silêncio na sala de aula”. embora seja utópico ao imaginar que cabe à educação realizar a transformação estrutural da sociedade (tarefa pedagógica e politicamente impossível). tal pfocedimento é não só inútil. deve tirar de cada resposta o que ela . É uma tendência muito natural repetir. partícularmente no caso de uma pergunta difícil. de horário comum de trabalho para professores da mesma escola. A paciência e a espera precisam acontecer. O professor deve alimentar os questionamentos que a criança faz. fazendo nascer o desejo de conhecê-las e dando-lhe os meios para isso. ”professores muito impulsivos deverão dominar-se e saber esperar depois que fizeram uma pergunta. uma prática que busque criar no educando e em suas relações com o mundo as possibilidades de superação de dificuldades concretas na vida. ao mesmo tempo que o convida à tomada de uma posição crítica frente ao mundo. Na linha de Rousseau. Aebli defende não só a aprendizagem. 1970. uma vez que terá muito o que perguntar. complementar e explicar perguntas que não são respondidas imediatamente. para que o aluno faça as suas. ou HTPC). julgando-a incapaz de compreender.) não possibilita identificação profissional. Por isso. variar. mas também o ensino por perguntas. etc. uma. mas até confunde os alunos ao invés [sic] de ajudá-los. sem feedback do próprio trabalho (embora já existam proposições de algumas Secretarias de Estado da Educação. Ao professor compete pro47 por a criança o que deve aprender. segundo Rousseau.AEBLI. sem contato direto com seus colegas ou com superiores responsáveis por sua iniciação. 197. coloca-o como vítima do processo.

Entretanto.1990ª..] A função da escola é transmitir ao aluno pontos de vista. portanto.ROUSEAU. o despeito e a malevolência naqueles que não os recebem. pela bajulação e promessa. independência significa saber resolver problemas com as próprias forças e ser capaz de compreender e dominar os fenômenos do mundo com os próprios conceitos e operações mentais [. Muitas vezes. uma vez que a obediência lhes traz vantagens e a rebelião lhes é nociva. 294-306.tiver de bom e repeti-la em parte (mas não estereotipadamente). recompensas e castigos. A disciplina Rousseau recupera duas questões presentes no trabalho em sala de aula e. As recompensas têm grande inconveniente: podem desenvolver a vaidade. o orgulho e o egoísmo naqueles que recebem prêmios.. nas crianças ambiciosas. Para a formação equilibrada do indivíduo. mas também quando o educando pratica atos louváveis. O medo tem na vida humana importante ação inibidora.. Para a primeira. os prêmios podem alimentar. atividades de percepção e métodos de trabalho com o auxílio dos quais ele possa agir sozinho. há necessidade de disciplina. não só intelectual como também moral. Quanto à obediência. Um castigo injusto ou excessivo é mais prejudicial que benéfico. aconselha aos mestres que sejam bons e virtuosos. pois educar é disciplinar. na relação professor/aluno. No entanto.. p. No entanto. AEBLI. O receio do castigo leva a obedecer. certos de que procedem bem.] No campo intelectual. que as afastam de uma vida simples. . embora de forma dissimulada”. as crianças fingem estar convencidas pela razão. sempre que se busca obtê-la pela força. Pessoas moralmente educadas desenvolvem o gosto pelo ensino e aprendem. podem despertar o rancor. p. precisa não só de idéias e conceitos reduzíveis. Não é o elogio ou prêmio que Rousseau condenava. pior. por ameaça ou. Para tanto precisa não só saber mas também saber fazer. o valor do exemplo e a necessidade de uma disciplina bem-regrada que forneça parâmetros para solucionar as questões da obediência. mas também de instrumentos mentais”. pois ignoram a própria obediência. sonhos desproporcionais de grandeza. 78. ”escondidos procuram sempre fazer as próprias vontades. Rousseau encarava a disciplina como adaptação a normas e regras. fazer com que o jovem alcance a independência e darlhe condições de dominar o mundo e sua vida com suas próprias forças [. não se deve confundir disciplina com a imobilidade proposta na época. 1970. pois tudo o que fizerem na pré48 sença dos alunos ficará gravado nas suas memórias mesmo antes de penetrarem em seus corações.Aebli concorda novamente com Rousseau: ”A missão do professor é realmente a de tornar-se supérfluo. A disciplina é necessária para a educação. O educador não deve falar em moral apenas quando repreende. Rousseau era adepto do bom exemplo e de considerar a criança pelo que ela é e não pelos defeitos que apresenta. mas a forma como era aplicado na maioria dos casos.

que aparece ao despontar do psiquismo e aumenta até certo momento. o livro didático. 65. o lúdico e o jogo sejam utilizados como recursos para levar ao conhecimento que melhor corresponde às necessidades da criança. Para nós. a regra e a explicação. deve durar toda a vida e encontrar sua significação. o abstrato. Para Rousseau. permitem-lhe notar as diferenças nas divisões das idades das crianças — que. A criança só mente. 1990ª. a educação popular e educação pelo trabalho. Rousseau recomenda o método socrático. Antecipando-se aos psicólogos do século XIX. seu mérito está em ter sabido reuní-las. dizia. que .Quanto à mentira. isto é. em qualquer etapa. de Comenius. ao desconfiar do adulto que a contraria. ROUSEAU. ”O que devemos pensar dessa educação bárbara que sacrifica o presente a um futuro incerto. da importância dos exercícios físicos e da formação do homem integral. vista como defeito. para Rousseau era uma atividade normal. antes que se observe bem a criança. avesso a qualquer disciplina científica. Para muitos. a importância da experiência e da observação para o conhecimento da criança. não num estado futuro mas no próprio processo. ainda estão bem distantes da prática. que sobrecarrega a criança com cadeias de todas as espécies e começa por fazê-la infeliz visando a prepará-la muito tempo antes para uma pretensa felicidade que provavelmente nunca chegará a gozar?”. Os conhecimentos da psicologia infantil. do jogo espontâneo de suas energias psíquicas exuberantes. oferecendo-nos reflexões que ainda hoje nos levam a repensar os métodos e processos de ensino-aprendizagem. isto é. quando se a obriga a obedecer sem saber o porquê ou a importância da obediência. Hoje usamos na escola a palavra. A educação proposta por Rousseau é um processo de vida. que tão bem soube delinearr. da liberdade. sem nunca ter analisado diretamente a psicologia infantil. embora bastante divulgadas na teoria. todo estudo deve ter começos experimentais e o raciocínio não deve chegar antes que tenhamos um amplo fundo de observações acumuladas. ele poetizou magnificamente sobre a infância. o que só foi possível graças a sua inteligência superior e talento estilístico. Sem nunca ter sido professor. 49 A EDUCAÇÃO COMO PROCESSO DE VIDA Pelo estilo sedutor de Rousseau. Não se pode orientar para um caminho seguro sem 50 que o equilíbrio entre as várias linguagens. afirmava que a criança deforma a verdade por força da sua própria natureza. sua maneira de ser. é contraditório e apenas repete verdades já apontadas por pedagogos. P. para se reduzir a proporções mínimas na puberdade. consideramos a criança um recipiente vazio que o professor deve encher com matérias e pontos. exigem que se conheçam suas concepções político-filosóficas. De Rabelais e Montaigne utiliza as idéias de educação segundo a natureza. mostrar sua aplicação prática. suas idéias agora parecem utopia: intranqüilizam. e de Locke. quando se lhe impõe a lei da obediência.

da pesquisa e da ação revelouse praticável. Quanto ao programa de ensino. Em vez de rompimentos construções diferentes e todas consideradas válidas. um mundo de representações que o educador deve conhecer se pretende realizar algo. apenas a lição das coisas. Emílio é divisor de duas épocas na história da pedagogia: o homem na ciência sem pensar no que ele é antes de ser homem. não há perversidade original no coração humano. o corpo deve trabalhar em proveito do intelecto. porque o protagonista dispensou a sociedade. dar ao menino os conhecimentos dos deveres do homem. excetuando o romance de Daniel Defoe. deve confiar na natureza humana e defender a sua liberdade. o aluno deve reinventar a ciência em lugar de repetir fórmulas verbais. as etapas do desenvolvimento intelectual e moral. do pensamento infantil. ao exaltar a infância. vendo o conhecimento como processo interior do indivíduo. do interesse e da verdadeira atividade. Rousseau enraizou em nossa consciência o significado funcional da infância. Nada de mapas e globos. a observação direta. A criança tem maneiras de ver. Nada de ensino dogmático. mas sim um mundo novo. a educação deve estar centrada mais na criança e menos no adulto. pensar e sentir próprias. resgata a natureza e aponta a perversidade da sociedade. Não concordamos com sua concepção de uma educação puramente negativa. mas aquilo que na longa história do pensamento. esquecendo os conteúdos inúteis e decorativos. mas reconhecem quer avancar e aprimorar o seu trabalho. Robinson Crusoé. Rousseau recoloca o processo de ensino. o mesmo processo pelo qual passara a História. deve basear-se na utilidade. As mãos devem ser exercitadas.considera o melhor auxiliar da intuição. Rousseau pode ter sido contraditório. A contradição leva ao avanço. vivendo à custa de si mesmo. auxiliado por inúmeras descobertas. Muitos princípios ou máximas de Rousseau — não os desvios ou excessos. o que talvez aumente seu fascínio. portanto. enfatizando o desenvolvimento dos músculos e a necessidade de a criança se movimentar e adaptar ao meio. Nenhum livro. Segundo Emílio. como também o cérebro. toda aprendizagem precisa ser conquista ativa. destacando a importância da interação entre professor/adulto e aluno. Na geografia local. Ao opor-se à educação que queria formar o espírito antes da idade. e o conhecimento psicológico. Emílio representa mais um processo que uma ruptura com o que até então se falava sobre educação. . e suas idéias propiciaram caminhos e possibilidades que originaram novas teorias para a modificação da prática de ensino. A Educação Nova tem suas origens nas intuições geniais desse mestre que. Foi quem primeiro chamou a atenção 51 para o fato de que a cabecinha da criança não é um recipiente vazio que o educador deve encher com os conhecimentos que domina. Enaltece os trabalhos manuais para ajudar o desenvolvimento físico e psíquico. embora limitado. útil e válido — ainda estão presentes no trabalho diário dos professores em sala de aula.

ser suficiente para si mesma. e o mais sábio é aquele que melhor se sabe servir desse instrumento” Rousseau 1990a. precisa adestrá-lo para si. p. por meio da experiência organizada.] formam-se as plantas pela cultura.. não vêem que a raça humana teria .. ser-lhe-iam prejudiciais. A criança deve crescer segundo as leis da natureza. como nós. raciocinar. antes que ela morra.impedindo os outros de pensar de assistir-lhe. transtorna tudo. porque. mutila o cão. Se o homem nascesse grande e forte. mas o dos homens e dos seus juízos ainda vale mais. e o homens pela educação. SOCIEDADE ”Tudo está bem. 15-9 ”O verdadeiro conhecimento das coisas pode ser bom. como um cavalo de manejo. tentando colocá-los em prática. tudo degenera entre as mãos do homem: força uma terra a nutrir os produtos de outra. Rousseau nos alerta para a massificação a que o homem está sujeito na sociedade. julgar. ao sair das mãos do Autor das coisas. Muitos. abandonando a si mesmo.203 53 CRIANÇA “Cultiva rega a jovem plantinha. não quer nada que seja como o fez a natureza. o mais importante instrumento do homem é o homem. p. os elementos. as estações. os seus frutos farão suas deliícias [. com os homens e com as coisas. como se fosse uma árvore do seu jardim” Rousseau 1990a. questionando a dominação a que a criança está sujeita por parte do adulto. serão alvo de nossa reflexão. 52 Textos selecionados de Rousseau Em Emílio (1990a para o volume l e 1990b para o volume 2). mostrando a importância de trabalhar conteúdos relacionados com a vivência da criança e propondo o trabalho como meio de levá-la a um conhecimento útil à vida. tudo desfigura. gosta da deformidade. sem liberdade para auto-educar-se naturalmente. mistura e confunde os climas. entre eles. partiram de seus ensinamentos e avançaram. o cavalo. Condena os métodos que se baseiam apenas na memorização. onde cada vez mais se torna uma fração do social. aprendendo a prever. e.Rousseau não se preocupa apenas com o indivíduo. Há quem lamente o estado da infância. uma árvore a dar frutos de outra. morreria de miséria antes de ter conhecido as suas necessidades. a sua estatura e a sua força ser-lhe-iam inúteis enquanto não tivesse a servir-se delas. um dia. mas com os vários aspectos da relação professor/aluno. o seu próprio escravo. precisa modelá-lo a sua maneira. dos monstros. Decroly e Freinet. na sociedade humana. A educação deve ter início desde o nascimento e primeiro contato com o mundo. nem sequer o homem.

sem preconceitos. habituamo-las a contentarem-se com palavras vãs. a fim de ganhá-lo. Rousseau. não precisariam ser educadas. produzimos frutos precoces. 212 MÉTODOS E ESTRATÉGIAS DE ENSINO ”O adulto se engana quando pretende que a criança preste atenção a conteúdos distantes de sua realidade.]”. Tudo que não temos quando nascemos e de que precisamos quando somos adultos nos é dado pela educação”. teríeis conseguido um prodígio de educação”. teremos jovens doutores e velhas crianças. começando por não fazer nada.. Se queremos perturbar essa ordem. precisamos de razão. p. falando-se-lhes. desde as vossas primeiras lições. 1990a. ”Adaptai a educação do homem para o homem. A infância tem maneiras de ver.p.” Rousseau 1990a. p.. e há quem pretenda educar uma criança pela razão! É começar pelo fim. 16 “A natureza quer que as crianças sejam antes de serem homens. nada há de mais insensato que querer substituí-las pelas nossas [. 54 ”Será preciso e será possível que uma criança aprenda tudo o quanto é útil para a sua idade. e vereis que todo o seu tempo ficará mais que ocupado. os olhos do seu entendimento abrir-si-am para a razão. EDUCAÇÃO ”A obra-prima de uma boa educação é fazer um homem razoável.. numa linguagem que elas não compreendem. que pudesse contrariar o efeito dos vossos cuidados. sem que ainda se disponha de nenhum sistema chega.” Rousseau. nada teria. 1990a. 78-82 ”A instrução das crianças é um ofício em que é necessário saber perder tempo. sem maturidade nem sabor o que não tardarão a apodrecer. sem que ele soubesse distinguir a sua mão direita da sua mão esquerda.desaparecido. 80 “O intervalo mais perigoso da vida humana é o que decorre desde o nascimento até a idade dos 12 anos. Rousseau 1990a. Se as crianças tivessem razão. sem hábitos. As lições que os estudantes . mas. p. de pensar. 144-5. em si. precisamos de assistência. [. É durante essa época que germinam os erros e os vícios. planta-se-lhes um vício no fundo do coração. e não para aquilo que não é ele. p.” Rousseau 1990a..” Rousseau. desde a sua mais tenra idade. nascemos estúpidos.] A cada instrução precoce que se pretende meter-lhes na cabeça. 192. Rousseau. 1990a. é querer utilizar a obra como instrumento. se o homem não começasse por ser criança. nascemos desprovidos de tudo. se pudésseis conduzir o vosso pupilo. p. precisamos de forças. em breve se tornaria o mais sábios dos homens. são e robusto. e. através de discursos que não compreende e problemas que não lhe interessam. a controlar tudo quanto se lhes diz [. de sentir que lhes são próprias. 1990a.. 84.] Se pudéssei nada fazer e nada deixar fazer. p. Nascemos fracos. Nas vossas mãos.. até a idade dos doze anos. as raízes já são tão profundas que é tarde demais para arrancá-las.

os nossos desejos. ou. p.. se converte num meio a mais de aprender palavras. é preciso sentimentos que ela ainda não experimentou. 1990a.]” Rousseau. p. [.] um lugar agradável.. fazei alguma operação que a leve a dar por eles..] Uma criança só encontrará motivos para ler. É necessária uma experiência que ela ainda não adquiriu. um passeio por ”[. antes de o sol nascer.. esperai. os nossos sentimentos.. quando muito.” Rousseau. p.. que ele não aprenda a ciência: que a invente. 182 e 193.. sem intermediário. as nossas vontades. até lá. não corrijais os seus enganos.. Na época. 55 Sugere. por que motivo haveriam de querer aprender a ler? A arte de falar aos ausentes e de compreendê-los.. o ensino era fundamentalmente individualizado. para poder sentir a impressão complexa que resulta simultaneamente de todas essas sensações. não lhe digais nada.. 1990a.. a arte de lhes comunicar. p. não aprenderia tão bem [. A criança apercebe-se dos objetos mas não se pode aperceber das relações que os ligam entre si.] Se se enganar. 149. ”[. onde o horizonte bem desanuviado permite assistir ao pôr-do-sol [. para se tomar um pouco de ar fresco. o tomareis curioso.. só pode servir para aborrecê-lo [. na casa das próprias crianças.] Uma crian56 . ministrado pelo preceptor. LEITURA E ESCRITA A leitura é o flagelo da infância e quase a única ocupação que se lhe sabe dar.] É no coração do homem que se encontra a vida do espetáculo da natureza. só se interessará e gostará de ler se lhe pusermos nas mãos leituras que incitam o prazer de ler e a sua utilidade.. neste caso. sem dizer nada. Que ele não saiba as coisas porque vós lhas dissestes mas porque ele próprio as compreendeu. até que ela se encontre em estado de se aperceber deles e de corrigi-los. Ponde as perguntas ao seu alcance e deixai que ele encontre respostas para elas. 1990a. 178..aprendem entre si. é uma arte cuja utilidade se pode tornar sensível em todas as idades. [. a distância. [.. para alimentar a sua curiosidade.. ”Em vez de lhes ensinarmos o nosso método.] é preciso que ele [Emílio] saiba ler quando a leitura lhe for de alguma utilidade.” Rousseau. mas. lhes são cem vezes mais úteis do que todas as que se ensinam na classe. faríamos bem se aprendêssemos o delas [das crianças]. nos pátios dos colégios. em breve. num momento favorável. 179. Por que prodígio essa arte tão útil e agradável se teria tomado um tormento para a infância? [. para vê-la é preciso senti-la.. nunca vos apresseis a satisfazê-la.. 149-50 ”Fazei que o vosso pupilo esteja atento aos fenômenos da natureza e. não pode compreender a doce harmonia do seu concerto. 1990a.] No dia seguinte..” Rousseau. num obstáculo para a verdadeira educação [. volta-se ao mesmo lugar.] se assim não fosse.] lera sem saber o que lê e. Se ela nunca se enganasse. em uma bela tarde..

ça não se sente intensamente interessada em aperfeiçoar o instrumento de que se serve para atormentar.] Um meio mais seguro que tudo isso. Rousseau exagera quando afirma que os livros são ”instrumentos de tortura.] transforma-se o quarto de uma criança numa oficina gráfica.] Todos os pequeninos defeitos de linguagem que tanto se receia que as crianças contraíam não têm importância nenhuma. no entanto.” Rousseau. nítidos.. onde nunca deixará de ocupar um lugar de honra.] Emílio recebe de seu pai. a oportunidade. porque. ora se recebem recusas. não só antes de elas poderem compreender o que se lhes diz. 200. ou retribui à criança o pouco de complacência que esta teve para com ele. açoites da infância”. Ao corrigir todos os erros que a criança comete ao se expressar.. Muitas vezes. o 57 aluno ouve o que o professor fala. estamos concorrendo para que ela se cale. durante muito tempo será o único livro a compor a sua biblioteca.. para uma festa aquática. a leitura de Robinson Crusoe: ”Já que temos uma absoluta necessidade de livros.. 1990a. 190-200.] A criança que quer falar só deve ouvir palavras que pode compreender. tímido. 113-5. esse alguém. previnem-se ou corrigem-se com a maior das facilidades. Plínio? Será Buffon? Não. distante da idade infantil. Ai! Se ele soubesse ler! Recebe outros: são tão breves! E tratam de um assunto que interessa tanto! Querer-se-ia experimentar decifrálos. E cita.. Rousseau. para um passeio.. [. e que sempre é esquecido. existe um que. consiste no desejo de aprender. Como se chama esse maravilhoso livro? Será Ariosto! Será. apenas ensinam a falar daquilo que se não conhece”. e ela rapidamente se dedicará a ele. Finalmente. nunca se corrige. Todos se dão a muito trabalho para procurar os melhores métodos de ensinar a ler [. alguém lhe lê o bilhete. o momento passa. Rousseau considera duas máximas inseparáveis: sempre o suficiente e nunca em excesso. de sua mãe. na minha opinião. é o mais precioso tratado de educação natural. cujo conteúdo moral apresentava-se encoberto. explica: ”Desde que a primeira seja bem estabelecida. são claros. dos seus familiares. mas antes que elas possam imitar as vozes que ouvem [. ora se encontra auxílio.. além de aborrecidos: ”Odeio os livros.” Às vezes. para assistir a alguma festividade pública. falase-lhes.] Desde que nascem. ou nem sempre se encontra quando é necessário.] A . bem escritos. analisando todas as suas palavras. Será este o primeiro que lera o meu Emílio. sem entender — e se cala. 1990a. [.. Desse modo. todos os métodos serão bons.] os vossos dados. Dai esse desejo à criança e deixai [. p.. mas já é demasiado tarde. mas àquele que se lhes faz contrair ao tornar o seu modo de falar abafado.. se ela quiser aprender. dos seus amigos bilhetes de convites para um almoço. na véspera. a outra segue-se-lhe necessariamente. as fábulas. É preciso encontrar alguém que esteja disposto a lê-los. Locke quer que ela aprenda a ler com dados [. p. Sobre as duas máximas. confuso... como exemplo. dizer as que consegue articular.. Esses bilhetes contêm poucas palavras. mesmo sem o vosso esforço. é Robinson Crusoé”. p. criticando incessantemente a sua inflexão. [.. Rousseau.. as crianças ouvem falar. mas [deveis] fazer que esse instrumento sirva os seus prazeres.. 1990a. [. Recomenda.

Falai sempre corretamente diante delas [. 147. trinta vezes. p. até agora menos necessário. a fim de que se acostume a bem observar os corpos e as suas aparências. insensivelmente.. nos mais grosseiros desses desenhos.” Rousseau 1990a... E exemplificava como isso poderia ser feito: ”Pegarei no lápis. nas crianças. a valorização das produções infantis e como exemplo cita o que faria com o desenho de Emílio: ”Mando emoldurar os nossos desenhos.. em volta do quarto. o seu perfil. não precisamente pela arte em si.] e ficai com a certeza de que. as suas proporções. p.] manterme-ei sempre a par dele. todos esses pequeninos erros contra o uso [gramatical]. Seu exercício. que. é para Rousseau uma das possibilidades para a criança vir a diferenciar significantes de significados: ”Grandes imitadoras.” Rousseau 1990a. e corporal. no berço... da mesma maneira que.. Dentro dessa perspectiva.. todas as crianças tentam desenhar: desejaria que o meu pupilo cultivasse essa arte.] não deixaremos de espiar a natureza [. tornase da maior importância logo que a criança começa a raciocinar. ponho molduras muito brilhantes. desde o momento em que a casa não é mais que um quadrado quase informe até o momento em que a sua fachada.] É uma pretensão insuportável e um cuidado dos mais supérfluos dedicar-se a corrigir. mas para que a sua vista se torne justa e a sua mão flexível [. escutava a tagarelice da ama. DESENHO Rousseau extrapola o universo da comunicação oral e adentra o universo semântico da linguagem gráfica.. trataremos de imitar os coloridos dos objetos e todo o seu aspecto [.] Nos primeiros. Este aviso. O aluno escuta. reprodução 58 material de um modelo.. ou ultrapassálo-ei tão pouco que sempre lhe será fácil alcançar-me [. como ele.] Disporemos de cores. sem que preciseis de lhes fazer observações.infeliz facilidade que temos para empregar palavras que não compreendemos começa mais cedo do que se pensa. desde que natural. 56-60.. sob os olhos. [... que esboce uma casa vendo uma casa. o palavreado do professor. ”É preciso prestar menos atenção às palavras que ela [criança] pronuncia que aos motivos que a levam a falar. e implica uma função semiótica. 148. na aula.... o desenho é visto como uma imitação da grafia. cada desenho repetido vinte.. a linguagem delas se moldará pela vossa. p. que esboce uma árvore vendo uma árvore.] que adquira a agudeza do sentido e o bom hábito do corpo que se consegue através deste exercício. pois. que esboce um homem vendo um homem.]” Rousseau 1990a. as suas sombras se encontram na mais exata verdade [. p. em cada exemplar. o próprio original e não o papel que o representa. começarei por utilizá-lo tão desajeitadamente como ele [. mando-os cobrir com belos vidros [. e.” Rousseau 1990a. [. com o tempo elas acabam sempre por corrigir por si próprias. e não a considerar como verdadeiras imitações aquelas que são falsas e convencionais.. Recomenda.] Disponho-os por ordem. muito . mostrando o progresso do autor..] Quero que tenha. de pincéis.. 183.

. e que. Rousseau 1990a. ela se habitue a não dar ordens.. se pudesse tornar no . [. “Preparai antecipadamente o reino da sua liberdade e a utilização das suas forças. as crianças só gozam de uma liberdade imperfeita. 7.. Rousseau 1990a.] O capricho das crianças nunca é obra da natureza. a tirar partido de si própria... muito cedo. ela será boa. aquele que tudo pudesse. p. “É essencial que o educador não confunda a liverdade de criança com a satisfação de todos os seus caprichos. tirando inclusive sua própria naturalidade. “Toda a maldade nasce da fraqueza. se possível.. “Não há submissão mais perfeita que aquela que conserva o aspecto da liverdade [.] o preceptor de uma criança deve ser jovem. 52.douradas. p.] lhe ensina tudo.. nem a criança a quem se faz ditoso cm aquela que amima”. logo que tenha alguma”.p.]” Rousseau 1990a. O homem verdadeiramente livre só quer o que pode e faz o que lhe apraz. a saber viver e a tornar-se feliz. 60 RELAÇÃO PROFESSOR/ALUNO Ao ensinar às crianças pequenas palavras ou coisas que ainda não podem compreender ou não servem para nada. fazer a sua vontade. Rousseau 1990a. tudo quanto lhes possa proporcionar um verdadeiro prazer..] Geralmente a criança lê muito melhor no espírito do mestre que o mestre no coração da criança. que os realçam. [.. [. porque não as compreendem”.] É indispensável que. [. exceto a conhecer a si mesma. 71-7. 59 liberdade. prêmios e castigos A educação proposta para Emílio tem por objetivo a formação do homem livre. muito simples. p. Gostaria que ele próprio fosse uma criança. que é a da sociedade.. 117-9.. Rousseau 199a. mas. tornai-a forte... 149.. p... nem aos homens – pois que não é dona deles – nem às coisas.” Rousseau 1990a. dou-lhe apenas uma moldura preta.. [. a criança só é má porque é fraca. p. que passa pelo respeito e pela liberdade da criança.] o maior de todos os bons não é a autoridade. na medida do possível.. mas a liverdade. em tudo.] Mesmo no estado de natureza.. deixando ao seu corpo o hábito natural. 47. recusai-lhes sempre o que só podem por fantasia ou para fazerem ato de autoridade [.] pois isso tranformará o jovem num escravo e não num homem livre: “não há que confundir com a licença com a liverdade. nunca faria mal nenhum”. “[..] Consedeilhes.. pondo-a em estado de ser sempre dona de si mesma e de. [. e mesmo tão jovem quanto o pode ser um homem sábio. mas de uma má disciplina: é porque obedeceram ou comandaram [..] Há duas espécies de dependências: a das coisas. não precisa de outro ornamento a não ser ele próprio. que é a da natureza: e a dos homens. semelhante àquela de que desfrutam os homens no estado civil. É essa a minha máxima fundamental. quando a imitação se torna mais exata e o desenho começa a ser verdadeiramente bom. o educador: ”[.

. nenhuma única palavra! Deixai vir a vós a criança: surpreendida com o espetáculo.” Rousseau 1990a. 42-4. e..] numa idade em que o coração ainda não sente nada. retirar-lhe os meios de. não deixará de vos interrogar. repíto-o.” Rousseau 1990a. tornam-se amigos [. 61 ”Em vez de me apressar a exigir que o meu pupilo pratique atos de caridade. porque. 2935. p.. p. tem-se tempo para preparar tudo quanto se aproxima dela.trar que não sabe o que responder e a confessar os seus erros ao seu pupilo? [. o mal não está no que ele não compreende mas no que ele crê compreender..] pensai bem que raramente compete a vós propor-lhe o que ele deve aprender.. prefiro praticá-los na sua presença. através de ações.] onde está o mestre que esteja disposto a mos. nisso. 197. ”Nunca sabemos nos colocar no lugar das crianças.] Ensinará impedir que alguma coisa seja feita.. me imitar. porque importa que ele não se acostume a considerar os deveres dos homens unicamente como deveres de crianças.” Rousseau 1990a. mesmo.” Rousseau 1990a. ”[. absolutamente nada..] Nada de belos discursos. [. [. p. ”Lembrai-vos de que aquele que se atreve a empreender a formação de um homem precisa começar por se ter feito homem a si mesmo. fazer nascer habilmente esse desejo e fornecer-lhe os meios para o satisfazer. compartilhando as suas distrações. procurá-lo. 62 .. esperando que possam vir a praticá-los por discernimento e por amor ao bem.. 85-7. como se fosse uma honra imprópria para a sua idade. o exemplo que tenciona propor.. [.. e apenas dizer o que é impossível fazer [. a vós compete colocar a curiosidade ao seu alcance...” Rousseau 1990a. Não podereis dominar a criança se não puderdes dominar tudo quanto a rodeia. começai por fazer-vos amar. p.. p. tanto quanto possível...] interessa-lhes fazerem-se amar um pelo outro. Tornai-vos respeitáveis para toda a gente. se não for baseada na estima da virtude [. 193. e essa autoridade nunca será suficiente..] A cada explicação que se quer dar à criança. [. é preciso que encontre. por isso mesmo..]” Rousseau 1990a.. é a ele que compete desejá-lo. e. p.. a fim de que todos procurem agradarvos.] Entre nós. ”É preciso falar.. em si mesmo. Enquanto a criança ainda está sem conhecimento. devemos aceitar que as crianças imitem os adultos cujo hábito lhes queremos incutir. ”Sempre acreditei que antes de instruir aos outros era preciso começar por saber o suficiente para si mesmo [... não penetramos nas idéias delas e emprestamo-Ihes as nossas [.] e todo o mérito que atribui ao seu pupilo é um capital que investe em proveito de seus velhos dias.companheiro do seu pupilo e conquistar a confiança deste. 97-8. uma pequena demonstração que a preceda é muito útil para conseguir que ela preste atenção. 181-2. [. p.] nunca será demais exortar o governante a dar as suas explicações consoante às capacidades de compreensão do pupilo.” Rousseau 1990a. para que os seus primeiros olhares só sejam feridos por objetos que importa que ela veja.] Não deve dar preceitos: deve levar o seu pupilo a encontrá-los. encontrálo.. o fundamento da imitação deriva do desejo de continuamente nos transportarmos para além de nós mesmos.

. sobre psicologia e pedagogia dos anormais: Assistance de I’ enfance anormale. 1905. . doutor em Medicina. e nas idéias de filósofos e pensadores. professor primário.. Propõe coordenar as diferentes atividades escolares. Nasce. fruto do progresso científico em desenvolvimento. readaptar os estudos às crianças. combatendo o adestramento paciente e contínuo ao qual era submetida a criança na escola. Classification des enfants anormaux. e Freinet. La psychologie des enfants anormaux. passando para a história com o nome de Escola Nova. extensa e constituída quase exclusivamente por trabalhos específicos sobre temas complexos. um movimento que atinge todo o mundo. Uma obra rara. 1906. Revue Scientifique. 19031904. na linha do autor de Emílio. 64 •Os trabalhos de psicologia e pedagogia com crianças normais. No século XIX. Archives de Psychologie. principalmente os que trabalham no ramo editorial. com Rousseau. Archives de Psychologie. entre publicações e simples traduções da época. escolhemos os dois nomes mais ligados ao nosso passado de educadora: Decroly.p. A maior parte do material era tão antiga e frágil que foi necessário xerocá-la. estão: •Os trabalhos de 1902 a 1906. conseguimos reunir vários textos. Bulletin de Ia Société de medicine mentale. 1907. Embora por meios diferentes. solicitando a colaboração de amigos. Ovide Decroly (1871-1932) devotou-se ao estudo da educação. Estavam delineados os novos rumos que tomaria a pedagogia! Entre os seus representantes. Entre esses textos. Acreditamos poder respeitar a lógica até o fim e fazer da leitura e da escrita instrumentos. março. fazer da escola um meio onde elas pudessem exercer uma atividade pessoal: a escola para a vida pela vida. Conhecer todos os matizes da obra de quem sempre se negou a colocar em livro o próprio trabalho foi para nós um verdadeiro desafio. como é o seu papel na vida real. em grande parte foi escrita por seus discípulos ou em colaboração. 16. 1906. 1902. Contribution à la pedagogie de la lecture et de I’écriture. 1935. surgem as primeiras instituições escolares de cunho democrático apoiadas na ciência moderna. Lse tests de Binet et Simon pour la mesure de I’intelligence. Année psychologique. a partir de 1906: Quelques considerations sur la psychologie et la pedagogie de la lecture. mais ainda nos originais. Percorrendo bibliotecas e sebos. abril. esses dois educadores aprofundaram estudos sobre a psicologia infantil.2 Recuperando Decroly. julho/agosto. entre os quais JeanJacques Rousseau. OVIDE DECROLY. principalmente sobre a criança com necessidades especiais. de leitura difícil. Rapport au Congrés d’Anvers pour I’ assistance familiale dês alienes. Sua bibliografia.

Sua expectativa era de que. Beltrán. diariamente. uma vez sua proposta pedagógica fosse compreendida e vivificada pelo professor. 65 O interesse por suas idéias. Decroly fazia. 1919. Congrés de neurologie. Beltrán. L. publicados em 1906 e 1907. Tradução espanhola. 1913. ed. Revue de Pédotechnie. verificar como ele. especialmente as de ordem metodológica. Aplicación del método Decroly a Ia enseñanza primaria. Tradução espanhola. 1912. É inestimável poder ler. 1922. 1929. A. Seus discípulos Hamaide. Comunication à Ia Société belge de neurologie. d. da vida infantil. Decroly. este não a deixaria cair na rotina. DESCOEUDRES. 1923. •Os trabalhos escritos em parceria com seus discípulos e publicados em livro: BOON. GUILLÉN DE REZZANO. La autoeducación en Ia escuela aplicada al programa del Dr. Hacia Ia escuela renovada. Beltrán. LLOPIS. M. G. Madri: Espasa Calpe. janeiro. Aplicación del método Decroly a Ia ensenãnza primaria y Ia instrucción obligatoria. 1924. Archives Internationales d’higiene scolaire. Tradução e notas Jacobo Orellana Garrido. 4. 1907. ainda não revisitados por aqueles que querem construir uma verdadeira teoria da educação. 1932. Los centros de interés en Ia escuela Madri: Publicaciones de Ia Revista de Pedagogia. le developpement de l’aptitude graphique. La iníciacíón a Ia actividad intelectual y motriz por los juegos educativos: contribución a Ia pedagogia de los niños y de los irregulares. Tradução e notas Jacobo Orellana Garrido. 8. Prefácio do Dr. . El método Decroly. El método Decroly. C. ”Quelques considerations sur Ia psychologie et la pedagogie de la lecture” ou ”La méthode de la lecture et ses bases”. prólogo e notas de R.d. Madri: Espasa Calpe. La pedagogia Decroly. Tradução espanhola. 1907. s. La iniciacion a Ia actividad intelectual y motriz por los juegos educativos. Les classes homogènes et I’examen mental. humildemente. Madri: F. ainda continua muito ”vivo”. e acompanhar a prática e os estudos que o Dr. Beltrán. RUBIÉS. HAMAÍDE. R. Madri: F. 1919. MONTCHAMP. 1926. abril. porém. Madri: Estúdio. DALHEM. La psycbologie du dessin. ed. Madri: F. 1929. (Estúdios de Psicologia Experimental). Madri: Espasa Calpe. El desarrollo del nino de dos a siete anos. Madri: F. A. ed. La méthode de la lecture et ses bases. por exemplo. DtSCHAMPS. foi compensador. Beltrán. L’École nationale. junho. s. O esforço. 1914. M. Examen mental dês enfants anormaux. L’Éducateur moderne. Claparède. Muito há para ser pesquisado sobre os centros de interesse e a Escola Nova. Tomás e Samper: 8. Madri: Publicaciones de la Revista de Pedagogia. Madri: F. corrigia as próprias opiniões e as minúcias de seu método. Tradução.La mesure de I’intelligence cbez les enfants. A.

Rompendo com as técnicas tradicionais.. para retardados e anormais. na capital belga. possuía idéias comuns sobre o desenvolvimento da criança. procura levar a criança a esforçar-se para compreender os fenômenos estudados. entre outros. a Escola da rua Ermitage. em Ixelles. 1923. naturalmente. p 22 DECROLY E OS EDUCADORES DE SUA ÉPOCA A carreira pedagógica de Decroly começou em 1901. nas necessidades da criança e no conhecimento do meio que a rodeava. Tão rica vivência. de remeter a educação à própria vida da criança. não sem antes fazer infinitas comparações. sobretudo Dewey. a criança se esforçará no trabalho proposto. especulações e experiências que a levarão ao verdadeiro conhecimento. é a manutenção da rotina sobre a qual tão bem soube teorizar. desenvolveram o estudo dos centros de interesse. de ordem essencialmente biológica. pois não se pode deter a investigação científica. Degand. levado por seu grande coração. o pai da educação nova. soube integrar sociedade e natureza. Deschamps. dedicou-se principalmente à educação das crianças de baixa posição social (tal qual idealizara Rousseau). enfim. com o intuito de integrálas à sociedade. Decroly coloca o aluno no meio dos 66 fenômenos que está estudando (o que Rousseau faz o tempo todo em Emílio). Embora tenha aprofundado seus conhecimentos teóricos. uma vez que todos os dias nascem idéias que ampliam as anteriores ou retificam algum erro”. Ao entrelaçar conteúdos. transferido depois para Uccles. Boon. Desde que o interesse tenha sido despertado. para o aprendizado da leitura. . de aprender por si mesmas. para ele. Momento decisivo em sua carreira foi a criação.o positivismo e o pragmatismo . de planejar situações que possibilitem a utilização das vivências. Isso. sua doutrina sobre a importância do trabalho ativo e dos centros de interesse. etc. Decroly trabalha com base na teoria herdada e assimilada. não poderia ter sido mais bem representada. Bruxelas.”todo trabalho do tipo manual corre o perigo de tornar-se ultrpassado. Como a doutora Maria Montessori. e... no interesse. se tivesse sido gravada em livro. dificulta o conhecimento de sua pedagogia. e Pestalozzi e suas idéias de liberdade e espontaneidade. mais que um teórico. de cuidar do meio educativo. O novo. porém. Rousseau. foi um técnico em educação Seus escritos foram influenciados por educadores de seu tempo. do cálculo. onde. como afirmam os que a observaram e registraram.Dalhem. ambos sofreram a mesma influência espiritual . cujo ponto de partida era a Medicina.e ambos propunham a atividade espontânea da criança como ponto de partida para a construção contínua da inteligência. de integrar sociedade e natureza. Decroly criava um método específico. porém. no Brasil. em 1907. Decroly. o método global. que substituiu por uma educação e um ensino baseados na liberdade. Decroly sempre evitou colocá-los em prática. quando fundou o Instituto de Ensino Especial. Montessori se dedicava aos materiais didáticos. Para ele. de sua escola para crianças normais. Apud HAMAIDE. Enquanto. Ambos dedicaram-se aos estudos da psicologia e pedagogia de crianças anormais. Abner de Moura.

deixando a cada professor a tarefa de inferir desses princípios as suas fórmulas pessoais. cada um dando uma parcela para a formação do conhecimento único. mas apenas a totalidade. de tendência atomística e analista. P 6 A PROPOSTA PEDAGÓGICA DE DECROLY O método Decroly acentua a idéia de caráter global da vida anímica. p 14. E é justamente esse conceito que diferencia a sua pedagogia das do século anterior. ainda. partindo do: 67 • conhecimento da própria personalidade: consciência de si mesma. Para Luzuriaga. O grande valor do método de Decroly é propor a globalidade e a integração entre as disciplinas. canalizar a imaginação e a criatividade infantis para um aprendizado no qual venham a ocorrer o imprevisto. indivisível. Sua pedagogia considera que toda educação deve basear-se na atividade da criança e suas necessidades. aspirações e ideal. que. Aponta uma nova atitude em educação. FAZENDA. depois de conhecer bem a psicologia infantil. não de fórmulas”. em que a ação e o trabalho ativo estão impregnados pela observação e análises que a criança faz do que observa e documenta.63. MOURA. levando-as a convergir para um mesmo centro). método de complexos ou. ao sugerir a necessidade de buscar a unidade do saber.p. para renovar os centros de interesse e manter constantemente a comunicação espiritual com os discípulos”. ele antecipa as noções de interdisciplinaridade ao mostrar que um conhecimento evoca outro. A escola que propôs visava à educação geral. Ainda segundo Abner de Moura. programa de idéias associadas. ”o sistema Decroly exige atividade criadora e reflexiva por parte do mestre. obviamente implicarão no efetivo exercício da responsabilidade”. através do desenvolvimento da disciplina com liberdade. Não basta o professor mudar o método ou a técnica de ensino se mantiver a . Ela se baseia no estudo da constituição psíquica de cada criança. de suas necessidades. que ainda não conseguem perceber os fatos isolados e seus detalhes. a atualidade. ao preparo da criança para a vida social. • conhecimento da natureza do ambiente. a ocasião. voltada para objetivos práticos. 193. o qual deve defender e no qual vai agir. principalmente com crianças pequenas ou no início da escolarização (6-7 anos). Decroly ”imaginou um sistema de princípios. Apud MOURA.1980.Seus centros de interesse(Centro de interesse: também conhecido como método Decroly. tinham o objetivo de ”conciliar a aquisição dos conhecimentos previstos pelos programas oficiais com a atividade espontânea dos alunos. para alcançar seu ideal e expectativas e preparar-se para compreender as aspirações e os ideais da humanidade Decroly acreditava ”ter criado um sistema de transicão entre a escola verbalista e [a] da atividade”. consiste numa organização diferente dos programas escolares. à qual acomoda também seus centros de interesse e de idéias associadas. 1931. úteis à vida. que cria um vínculo entre as disciplinas. Rompendo com a rigidez do programa escolar.

Seus vinte anos de trabalho e observação lhe permitiram afirmar que é necessário encontrar meios para tornar prazerosa a permanência das crianças nas escoías. não se deve ficar inerte. desde a fecundação do ovo até a maturidade para reprodução. Decroly pesquisa a evolução ontogenética e as etapas da filogênese.acreditava que a vida espiritual superior é regulada. Propõe a quebra da rigidez do mobiliário escolar e a atividade livre da criança. Embora reconheçamos sua proposta como um tanto utópica. dizia. no jardim. CLAPARÈDE. os programas escolares mas. A reforma que propôs abrange a organização física da escola e da sala de aula. Filogênese – história da evolução das espécies animais e vegetais). na loja. não de um modelo para copiar ponto por ponto. que considerava de grande interesse para a prática educativa . ”Não há necessidade de dizer que esta ex68 posição deve constituir principalmente um magnífico exemplo de um método de vida.FERRIÉRE. ne vartetur. AS TENDÊNCIAS ELEMENTARES Por sua formação em medicina. O pouco que se fizer em prol da mudança da escola já constituirá um avanço. temos que aprender”. Dedica muitos anos à observação da vida instintiva da criança. no prefácio a El método Decroly. na sua maior parte.Ele quer entender os fatores que agem sobre a criança. na oficina.. na linha da escola de Stanley Hall e de Dewey. desde a 69 sua origem. . Propõe diversas medidas. mesmo sendo impossível mudar todas as escolas. dentro e fora da sala de aula. servilmente. A sala de aula.P.1929. ”colocar o espírito da criança em contato com a moral humana”. O próprio Decroly dizia que. Decroly dá grande importância ao ambiente. buscar seu marco natural. os procedimentos metodológicos. visando a desenvolver as capacidades criadoras da criança ou. nos passeios.94-5.. a fim de descobrir as leis do inconsciente. por tendências e impulsos instintivos.1923. No espírito mais que na letra.. está em toda parte: na cozinha. principalmente. como diz Ferrière. in HAMAIDE.mentalidade em relação à educação. acreditar nela e procurar aproximar-se dela o mais possível é condição importante para o êxito do trabalho escolar. e que podem influir positiva ou negativamente no seu desenvolvimento. (citação: Ortogênese – processo de diferênciação e crescimento que se produz durante o desenvolvimento do individuo. prefácio Decroly nunca se conformou com o adestramento paciente e contínuo da criança. uma nova postura do professor sobre o seu papel no processo. no campo. que deverá manter permanente contato com a vida. afirma Claparède. como seria desejável. uma nova maneira de ensinar e de aprender dependente de um novo entendimento. numa escola onde imperava a obediência passiva e não havia preocupação com o desenvolvimento do espírito crítico.

específicos ou sociais). ”Em todos os seres. Até a idade adulta o homem está em contínua evolução. do meio ambiente e do nível de consciência que a criança tem de si mesma. 1939. o medo.Seus estudos trouxeram muitas informações novas para a época. Aponta três fatores que modificam ou moderam as manifestações instintivas: o surgimento das habilidades motoras. exprimindo-os em função de suas necessidades vitais: comer.”DECROLY & BOON. exercem influência sobre a imitação. de defesa (medo e cólera). que provoca reações espontâneas. atitudes sensoriais e motrizes. inconscientes. e agradável. muitas vezes. do pastor ao lavrador primitivo. do industrial ao comerciante. principalmente sobre as tendências elementares da criança: a curiosidade. Logo. É em função das tendências que se organizam as informações e representações. a criança organiza os próprios conhecimentos. como a capacidade de atenção. distante e que provoca reações não-agradáveis) na forma como era organizado na época. P. aproximando-se mais de uma ocupação forçada. de como ele encontra em determinado objeto satisfação para as suas necessidades biológicas e psicológicas. das experiências desenvolvidas. ou seja. vão determinando as atividades das crianças. a relação do eu com o não-eu. movido pelo interesse. 13. proteger-se. do caçador selvagem ao nômade. há manifestações que permitem a conservação da vida e sua adaptação. defender-se e produzir. reprimidas pela vida familiar e social. aos 3 ou 4 anos. cujo objeto é consciente. mostrando o raciocínio como ponto de partida para a reflexão. O meio e outros fatores. Decroly insiste na importância de o educador conhecer bem as tendências. de amor-próprio. desde os bárbaros até a civilização mais refinada. Para Decroly. e necessidades conscientes. Daqui a origem dos centros de interesse. etc. Estabelece a distinção entre as reações espontâneas. Compara o jogo ao trabalho escolar. umas após as outras. e são dependentes das funções mentais superiores. sendo possível associálas. Analisando a sociedade humana. nem tomam o caráter de reflexão. ( citação: Jogo: atividade instintiva. mesmo os mais sensíveis. Decroly situa na base do comportamento da criança instintos que se organizam 70 em sistemas de atração (individuais. As tendências não se manifestam ao mesmo tempo. surgem por simples imitação) não provêm. tirar partido delas e favorecer suas manifestações. Observando a realidade. da educação. Distingue-se do trabalho. de antecipação (imitação e jogo). a agressão. as etapas do desenvolvimento intelectual e a interferência da família e da sociedade. Decroly busca nas reações e interesses das crianças vestígios dessas etapas de desenvolvimento intelectual. Afirmava que o trabalho escolar não correspondia à condição de jogo. uma . da consciência. Os atos instintivos (tendências primárias) e os atos adquiridos (hábitos que. as tendências que não estão voltadas apenas para as necessidades fisiológicas ocorrem mais tarde. isto é. o interesse depende da evolução biopsicológica do indivíduo. necessariamente.

atividade sem nenhum interesse para a criança, nem por si nem pelo objeto que perseguia. As tendências podem combinar-se ou opor-se, provocando antagonismos, ou neutralizar-se, eliminandose umas às outras. Decroly dá como exemplo o antagonismo entre o amor-próprio e o instinto nutritivo: uma criança, ”mesmo tendo fome, não ousa às vezes comer diante dos outros um pedaço de pão porque se sente humilhada por não ter outra coisa que comer; ou, então, não quer comer sentada a uma mesa na qual se acham outras crianças porque estas estão mal vestidas ou porque as considera de uma classe inferior à sua”. DECROLY, 1929, p 57 . É um conflito de sentimentos, isto é, de tendências evoluídas, complexas e submetidas ao controle da inteligência. A educação deveria oferecer à criança oportunidade para expandir os impulsos característicos de cada fase de seu desenvolvimento, com o seu ciclo de instintos e interesses. É uma nova visão. O interesse do educando é valorizado. O processo de formação passa a associar-se àquilo que tem maior relação com o aluno, isto é, ao que lhe pertence, ao que existe no seu ambiente. A natureza primitiva do homem, baseada no instinto, segundo ele, sofre influências do meio, do qual o homem retira os 71 critérios do seu conhecimento. São os instintos, diz Decroly, que se transformam em memória e conhecimento. O educador precisa conhecê-los para adaptar o programa e a organização escolar. Os centros de interesse não visam à simples manifestação dos instintos. Decroly dá grande destaque ao papel da motivação, não só do instinto, mas da gerada a partir da vivência de grupo bastante intensa, nos moldes de uma cooperativa. Esta é uma das razões pela qual seu sistema necessita ser reinterpretado, vivificado pela atividade do professor: não basta a reforma da estrutura física ou da organização da escola, afirmava Decroly, é preciso analisar os erros do ensino, estudar a sua natureza para propor soluções. PROGRAMAS DE ENSINO: BUSCA DA UNIDADE DO SABER Analisando os programas de ensino vigentes na época, Decroly propõe algumas medidas para modificá-los. Propostas de Decroly para reforma dos programas de ensino Defeitos 1 Nenhuma ou muito pouca coesão entre as diversas atividades da criança; Medidas preconizadas - Aplicação de um programa de idéias associadas, estudo da criança e do seu meio, Defeitos 2 Materiais desvinculados dos interesses fundamentais da criança e sua evolução, Medidas preconizadas - Emprego do método dos centros de interesse, Defeitos 3 Muitas lições com assuntos e objetos diferentes,

Defeitos 4 Divisão em disciplinas, sem levar em conta o processo de pensamento da criança; Medidas preconizadas - Divisão das disciplinas de ensino, levando em conta as grandes funções psicológicas: observação, associação e expressão; Defeitos 5 Disciplinas que subestimam a capacidade de assimilação e de memória da maioria das crianças, Medidas preconizadas - Disciplinas apropriadas aos diferentes grupos; Defeitos 6 Predomínio de disciplinas ensinadas por métodos verbais; Medidas preconizadas - Preferência aos métodos intuitivos ativos e construtivos; Defeitos 7 Exercícios que não dão oportunidade à atividade espontânea da criança Medidas preconizadas - Atividade pessoal favorecida pela prática de trabalhos manuais e jogos educativos DECROLY & BOON, 1939. p 33 Decroly discutia com os professores as propostas de reformulação dos programas de ensino, destacando o que era necessário alterar e por quê. ”O principai defeito do programa primário é ter sido elabora72 do por homens muito sábios em suas especialidades mas pouco preocupados com a psicologia infantil. Para eles a criança é o acessório [... ] é necessário dar a todas as crianças cultura geral e comum, desde a escola primária, sem se preocupar se ela convém à criança [...] Tudo o que proponho oferecer com os conhecimentos se encontra nos programas atuais, só que há uma diferença: meu objetivo é criar um vínculo comum entre as disciplinas, fazê-las convergir ou divergir de um mesmo centro; é da criança que tudo se irradia, e este é o fio de Ariadne que permite ao espírito do programa orientarse no dédalo infinito das noções que os séculos acumularam. E, desse modo, tenho em conta que o elemento afetivo primordial é o interesse da criança [...] alavanca por excelência que conduz ao conhecimento.” DECROLY, 1939, p. 65-8. Na linha de Rousseau e outros filósofos da época, Decroly sugere a reforma da prática educativa, sobretudo dos programas e métodos bastante fragmentados. Diferentemente de Rousseau, que propõe isolar o educando, ele considera a convivência com o grupo a forma natural de o educando interagir e cooperar. Sua proposta de trabalho individual e coletivo prevê atividades pessoais e de grupo, equilibradas de modo harmônico, como nos centros de interesse. A escola deve refletir a organização, as ocupações da sociedade, ser uma opção à mudança social, concentrando todo o empenho possível para levar o aluno a beneficiar-se das atividades de ensino, a fim de desenvolver-se afetiva, social e cognitivamente. A criança é imediatista, só compreende o que é objetivo e concreto, e se interessa pelas coisas e pessoas que lhe estão próximas. Por isso, o ensino deve ser baseado nesse egocentrismo, nas necessidades e interesses das crianças e no conhecimento do meio que as rodeia. O programa deve buscar na vida real o conteúdo a ser trabalhado, visando a quatro objetivos:DECROLY, 1939, p. 13-4.

1. Buscar a unidade do saber, a interdisciplinaridade, ou seja, a atitude de quem vê a ciência, o cálculo, a história na sua totalidade, sem divisões. 2. Atingir o maior número possível de educandos. 3. Permitir a aquisição de um mínimo de conhecimentos, os indispensáveis. 4. Favorecer o desenvolvimento integral de todas as faculdades e a adaptação ao meio natural e social no qual a criança passa sua existência. 73 Decroly não explicita as faculdades, isto é, deixa a discussão em aberto, mostrando o quanto era sábio. São outras coisas além de ortografia, leitura ou regra de três que dão valor ao homem. Muitos que a escola considera os melhores nem sempre o são na vida. Para Decroly, na vida há duas categorias de atividades: as pessoais, para o crescimento do sujeito, e as sociais, para o crescimento da cultura. Decroly acreditava que, à medida que os professores fossem mudando sua prática, a escola também se transformaria. Isso exige dedicação, um professor preparado para estimular e acompanhar o trabalho pessoal do aluno, avaliar suas conquistas, ou seja, o processo. Toda educação autêntica reclama a participação efetiva do sujeito em seu próprio aperfeiçoamento; caso contrário, é domesticação e conformismo. O trabalho não será verdadeiramente pessoal e funcional se suas técnicas, ritmo e conteúdo não forem apropriados às características pessoais de quem trabalha. Sua proposta metodológica considera a criança centro do processo e sujeito da própria aprendizagem. O educador precisa conhecer bem o educando, observar seus processos, para perceber os fatos que o rodeiam e que podem servir-lhe de intuição. O conhecimento, para ele, acontece de dentro para fora, dependendo da evolução biopsicológica do indivíduo. Para atingi-lo, isto é, para satisfazer as necessidades do homem, propõe o estudo do meio, dividindo o programa em dois grandes tópicos: • a criança e os outros homens; • a criança e a natureza. No primeiro, analisam-se todos os fatores relacionados ao meio humano: familiar, escolar e social; no segundo, o meio vivo (animal e vegetal) e não-vivo, que inclui a terra (água, ar, solo) e o cosmos (sol, lua, estrelas). A prática consiste em trabalhar cada unidade, tendo em vista a ação do meio sobre o indivíduo e a reação do indivíduo ao meio. Não há limite de idade nem divisões de ensino. Afirmava que o seu programa poderia ser aplicado com crianças pequenas, de 3 ou 4 anos de idade, e com crianças maiores, bastando repetir e ampliar cada centro com outros procedimentos, de forma a levar a criança a aumentar seus conhecimentos. 74 O importante era manter a integração dos conteúdos, uma vez que nos programas da época eles se apresentavam ”de forma arbitrária, sem enlace, sem coesão. As oito ou dez lições diárias que compreende o horário tratam de oito ou dez noções diferentes que não têm entre si nenhuma relação. Além do

caramujos. que a criança seja estimulada a explorar e conhecer materiais diversos.mais. DECROLY apud DALHEM. classificação e associação — e para aquisições ou recordações das aquisições anteriores. afirmava. respondam a perguntas sobre a relação dos objetos apresentados e novos com os objetos familiares ou conhecidos e percebam as analogias para chegar à formação do conceito. cagados. É o que Decroly chama de educação pela inteligência. Parte do princípio de que cada um constrói o próprio 75 conhecimento na interação com o ambiente. associação e expressão. as atividades devem ser planejadas para que os principiantes agrupem os objetos. exercícios de expressão do pensamento. cenoura. Destaca a manipulação dos objetos como meio natural por excelência para conduzir as atividades mentais e os exercícios. observando. 1926. p. As idéias não devem limitar-se a acontecimentos passados. mais criativa e mais reflexiva. etc. mosquitos. se estes forem capazes de interessar as crianças e servirem como ponto de partida para uma observação direta”. o chapéu ou a bota? O material de . compreendendo e interpretando seu contexto.) para que as crianqas acompanhem o seu desenvolvimento. o horário é tão pouco flexível. isto é. É o chamado método de associação de idéias. que é difícil fazer outra coisa”. Decroly propõe a aplicação dos conceitos em todos os seus aspectos ou divisões. Observação Decroly dá grande valor à atividade de observação. 1924.1926.) e animais (caracóis. DECROLY & BOON. É fundamental. A distribuição da matéria mostra a presença da interdisciplinaridade na sua proposta. mas ”podem ser tomadas de acontecimentos atuais importantes. p. de maneira que sejam associados. Seu método compreende três fases: observação. Adverte que. nada acontecerá na prática se não houver mudança de postura do professor. 24. p. não fragmentados mas incorporados à vida. Os conhecimentos trabalhados deveriam convergir para um ponto comum. com exercícios voltados para a aquisição pessoal — comparação. etc. Os exercícios de observação dão oportunidade à criança de trabalhar sobre fatos concretos. para propor o trabalho em sala de aula. Algumas perguntas podem direcionar a descoberta de detalhes e estimular a curiosidade: O que pesa mais. cebola. É necessário nova atitude. embora possa existir integração e até previsão da distribuição das unidades programáticas ao longo do ano letivo. 71. Para Decroly. classifiquemnos. adquirir experiência de vida.DECROLY & BOON. contribuindo para que venha a construir os próprios conceitos. Cada grupo de idéias associadas (que contemplavam todos os conteúdos dos programas da época) compreendia uma série de lições de observação. moscas. para que o aluno chegue à sua construção.74 É importante manter em classe plantas comuns (couve.

a leitura. enriquecem o vocabulário da criança e acostumam-na a expressar o pensamento com precisão. dizia Decroly. Compreende: a linguagem oral. planos e mapas — geografia. mas permitir que a criança chegue a elas.que é feito o chapéu deixa passar o calor? E a luz? É melhor ou pior que o couro da bota? Por que se engraxam as botas e não o chapéu? E assim por diante. a ortografia e os trabalhos manuais (modelagem. as idéias sobre o que foi observado. os motivos para reelaborar seus conhecimentos. Ao fazer comparações sobre fenômenos meteorológicos. Os exercícios de associação ajudam a criança a buscar. As adivinhações. graças à repetição constante de palavras. o espaço. . Tempo presente e tempo passado — exercícios de associação por meio de documentos. com escrita e desenho. Isso exige do professor observação e criação de espaço para a expressão das idéias. sobre peso e valor dos objetos ou outros temas. O professor deverá suprir o que falta em vocabulário e detectar dificuldades para relacionar significados aos signifícantes que podem prejudicar a formação de idéias claras e coordenadas. 2. as noções transmitidas por via oral ou iconográfica. por existir um conhecimento prévio do objeto. 3. 4. não é dar noções prontas. As lacunas. O papel da escola e do professor. teatros e bastante intuição. por ignorar o sentido de alguma palavra da pergunta. a criança. Objetos e fatos da atualidade. ou elocução. etc. colagem e dobradura). Relações de causa e efeito. Decroly divide esses exercícios em quatro grupos principais: 1. são o ponto de partida para os exercícios de leitura e cálculo. 76 a criança se serve dos meios de medida que existem na natureza. desenvolvidas pelas crianças graças às noções adquiridas nos exercícios anteriores — representam o porquê e o como de os fenômenos se tornarem conscientes. para Decroly. reforça Decroly. o teatro. recorte. a linguagem gráfica. podem ser apenas verbais. por meio de formas variadas. com o auxílio de recordações de experiências passadas. a dramatização. Expressão A expressão compreende todo ato que visa a exprimir. Associação Nem sempre a observação é possível e necessária. coordenar seus conhecimentos e promover a passagem gradativa do nível concreto para o abstrato. Exercícios tecnológicos — exame dos materiais brutos e seus derivados e sua aplicação industrial. pode ser incapaz de respondê-la com termos apropriados. absurdas. com utilização de recursos apropriados. As perguntas podem provocar respostas contraditórias. o que permite detectar lacunas ou conhecimentos já adquiridos. visitas a museus.

s. 24-9. Para Decroly. p. mas também para a 78 de outras habilidades e conhecimentos. pois. inclusive os provenientes de classes cultural e economicamente menos privilegiadas. DESCOEUDRES. aprendem a ler e a escrever. Não é. Os trabalhos manuais concorrem não somente para . indivíduo para adquirir a base alfabética da língua escrita) nos mostra de um modo claro que nem todas as crianças podem ser parecidas. em um ambiente propício à experimentação. 22-3. desde que se lhes dê tempo e condições para tal. os trabalhos manuais. mais lentas. Achava que a capacidade da criança para estabelecer relações sociais está intimamente associada à forma como expressa suas idéias. descreve o percurso de cada. [. saber avaliar. o sistema Decroly era.Segundo Alice Descoeudres. DALHEM. ”aprendem independentemente do método e da escola. onde ela possa agir e ter contato com a vida. porém não devemos contentar-nos com essa individualização na prática. Uma intuição genial! Nossa experiência de educadora nos tem mostrado que todos os alunos.. o trabalho do professor deve ser muito mais conhecer em que tipo de atividade seu aluno é mais lento para ajudá-lo a avançar e. alimentos. 45-8 As figuras a seguir mostram como. a necessidade de um ensino apropriado aos interesses da criança. Emilia Ferreiro e colaboradores. 1924. combinam dois fatores: o conhecimento que a criança tem das coisas e do mundo e a relação individual que estabelece com eles. sentindo-se estimulada e desafiada a reagir ativamente no processo de aprendizagem. Para essas é necessário favorecer a aparição destes. Decroly chegou à conclusão da necessidade de individualizar o mais possível o ensino: ”A psicogênese (Citação: O termo psicogênese. tão complexa. apenas o método e a escola que produzem conhecimentos. o café da manhã. a aquisição da leitura e da escrita. porém as crianças de inteligência mediana. com os instrumentos culturais. os jogos ou qualquer atividade criadora.1924. devemos respeitar essa individualização na compreensão e na aquisição dos conceitos”. 1924. utilizando meios apropriados”. acima de tudo. as crianças de inteligência normal. DALHEM. de tal modo que é necessário considerá-las como outras tantas individualidades. por meio de atividades de recorte. sua personalidade —. Ele buscava procedimentos que ajudas77 sem a trazer essas crianças à sociedade. o trajeto à . no mínimo reterão alguns conceitos. colagem e dobradura.. d. Ótimos para conhecer bem as crianças — em suas diferenças. Surpreende a variedade. seus gostos e interesses. Apud DALHEM.p. Decroly vê.] O trabalho livre e pessoal nela é uma aplicação. como Dewey. dizia. de cérebro bem constituído. destinado a crianças anormais. entre as crianças. aos excluídos das escolas ou àqueles que transgridem as regras: os não-normatizados. p. um método que as fizesse aprender. as habilidades básicas para a alfabetização podem ser trabalhadas de forma ampla: utensílios de cozinha. a princípio.

Decroly também utiliza a palavra. A leitura e a escrita devem estar sempre associadas a uma idéia. levando a criança a ver. deve partir do vocabulário da criança. com isso. compreendê-lo. ouvir.escola. O processo de alfabetização. em imitar ações com graus variados de dificuldade: movimentos vistos. perceber formas e estruturas. Autores: Agostinho de Paula/Cira Sanches). O primeiro contato da criança com o símbolo gráfico deve estar associado á imagem visual. sintetizar e compreender as idéias. sem utilizar a linguagem verbal. O caráter global do método Decroly não se /imita ao estudo da palavra. em 1787. etc. por intermédio de atividades rápidas com a participação de todas as crianças. 79 MÉTODO GLOBAL O método decrolyano global ou visual-ideográfico foi adotado durante muito tempo no Brasil. aguçando sua sensibilidade quanto ao meio ambiente. Os jogos dramáticos devem ser introduzidos no horário das aulas. principalmente. p. em 1768. a mesma usada para aprender a língua falada. ”A alfabetização ou o ensino da leitura deve partir do todo. pois concorrem para a globalidade do processo educativo. associadas com rodas cantadas. associam os movimentos às idéias e auxiliam o desenvolvimento dos reflexos e da motricidade. é necessário que seja realmente a experiência do seu pensamento” Apud DALHEM. sugerindo a utilização de sucata ou o aperfeiçoamento do trabalho. . imitação abstrata de memória.1979. como foi proposta pelo abade Radonvilliers. ( figura de uma rua com os carros e casas e figura de uma cena familiar. A criança aprende quando entende ou produz o processo. Tudo está relacionado à criatividade do professor. O desenho e o jogo dramático devem ser igualmente estimulados. podemos ler um texto apenas com os olhos (leitura mental). os avós e os netos. proposta para ser trabalhada como centro da aprendizagem. Decroly recupera a questão da globalidade. o professor recupera a globalidade do ensino. Há sete décadas. O ”todo” era a palavra. Eles dão à criança a oportunidade de interagir com a leitura e a escrita de forma lúdica e prazerosa. a fim de que esta possa opinar. 1924. encenações teatrais. Consistem. porém estabelece uma diferença: as palavras de que faz uso são retiradas do vocabulário de cada centro de interesse. trabalhando as diferentes aprendizagens de forma integrada e não estratificada. os objetos de uso pessoal. os meios de locomoção. com ele. que recomendava seguir a ordem natural. mantendo a idéia principal.52. para posteriormente passar à decomposição”. A visão é o sentido que mais cedo e mais ativamente se desenvolve. para ter sucesso. DECROLY apud BELLENGE. que dá enorme importância à percepção visual no processo de leitura. que deve ajudar a criança. e por Nicolas Adams. Decroly já condenava a cópia como simples reprodução do pensamento adulto: ”Convém que o trabalho da criança não se reduza a uma simples cópia. Eles disciplinam e coordenam os gestos.

e nunca por meio de letras e sons. Para Decroly. a criança vai querer aprender a ler. 1924. a leitura seja ensinada por meio de frases e pensamentos ou como se aprende a falar. melhor será a sua expressão. Piaget é um dos maiores teóricos do construtivismo De acordo com a psicologia genética. “ Não foi porém. A atividade da criança é determinante na construção do conhecimento. quanto mais estímulo e contato a criança tiver com o meio e as coisas que a rodeiam. Decroly considera importante que. desde o início. uma vez que são partes do todo. por meio dos estudos de Emilia Ferreiro. . frase ou palavra significativa — é o concreto para a criança. para o ensino da leitura. ”assento” (análise). sílabas e letras — é um processo natural de aquisição do ensino. a leitura e a escrita são o resultado de um processo de representação de linguagem. preocupação de Piaget investigar ou ligar o construtivismo ao ensino-aprendizagem da leitura e da escrita. que determinam o modo pelo qual o sujeito apreende o objeto do cohecimento. O todo — texto. 53.p 57. nossa escola não considerou a fala. utilizando a leitura e a escrita como critérios de correção da fala. Além do mais (a leitura) é mais rápida que com os outros métodos”. a criança aprende a falar e a entender o que lhe dizem desde muito cedo. com a parte das letras dos sons ou das sílabas. Não é natural obrigar a criança a memorizar sílabas e letras. Por isso Decroly propõe o método global. a pretexto de que é preciso começar do simples para o composto. DALHEM. a última expressão da análise. representam a idéia expressa verbalmente. as letras ou os sons constituem o abstrato para ela. As frases escritas. antes das noções de ”cor”. os quais consideramos bastante avançados. Para ele. As sílabas. ”as crianças aprendem a ler antes de conhecer os nomes das letras. durante muito tempo. ou visual-ideográfico. ”encosto”. confundindo-se o simples com o mais curto. ”O que se constata é que se empregam esses termos de maneira totalmente equivocada.Construir seu conhecimento e não repetir o de outrem! Não é fantástica essa antecipação? O que Piaget viria a caracterizar em 1923 já estava delineado nos escritos de Decroly (principalmente os de 1906 a 1922). Isso só viria a ser feito a partir da década de 70. o conhecimento 80 é organizado segundo as estruturas cognitivas. A leitura Como Piaget. quando exposta ao mundo lingüístico que a rodeia. Decroly dizia que. do concreto para o abstrato. O mesmo processo se dá com a leitura: quando exposta a atos de leitura significativos. que adquire a noção de ”cadeira” (síntese). ” DECROLY apud DALHEM. No entanto. p. por traduzirem pensamentos. no primeiro ano de vida. O educador deve compreender que as questões envolvidas nos atos de ensinar e aprender não são meramente de ordem motora. 81 Partir do que é significativo para a criança e depois passar às partes — palavras. 1924.

Sluys afirmava que. A escrita O mesmo procedimento global deve ser utilizado na escrita. Não se deve precipitar o ensino da leitura. do diaa-dia. a grande inovação do sistema Decroly. com essa opção para o ensino da leitura. 1924. de formação e de enriquecimento do vocabulário. Ele . imprimindo-os em um duplicador. levá-la a observar e experimentar. p 56 ”’Senhor João. Numa época em que as bases científicas sobre a comunicação verbal mostravam-se bastante reduzidas. p. Este trabalho não me divertia e. Deve-se colocar a criança em contato com o ”grande livro” que é a natureza. que extrapola o pretendido nos programas oficiais. afirma Decroly. mas deixá-lo acontecer naturalmente. 57. era comum os métodos apelarem para recursos que pudessem auxiliar o aluno a descobrir e memorizar a relação letra/som. Apud DALHEM. Tinha eu seis anos. No livro que escreveu com Montchamp. Dalhem comenta a tortura de uma lição de leitura: DALHEM. é ele quem faz o trabalho cerebral e proporciona os frutos a seus alunos”. você lera hoje o alfabeto. na realidade. Gostava de belos livros de imagens. Decroly descreve vários deles. para quem dar sons analisados era fazer uma abstração precoce ou antecipar a evolução mental da criança. a escola torna-se pouco atrativa e deixa de ocupar as crianças com exercícios de observação. desenvolvendo a observação e a linguagem oral pelo maior tempo possível. Em seus estudos da psicologia da criança e experiências. Não há limites à imaginação. La initiation a Ia actividad intelectual y motriz por los juegos educativos (1919). o espírito da criança não trabalha. com assuntos de suas vidas. e o conhecimento da linguagem e do pensamento. o professor tem a ilusão de que o aluno tenha conseguido vencer a dificuldade. sem dúvida.” 82 Em 1912. Dizia que. Decroly analisa o processo de abstração simbólica da leitura/escrita. Uma possibilidade é que a criança elabore seu próprio livro de leitura em vez de utilizar a cartilha ou um modelo — isso representaria um grande avanço. Porém me enfastiava e não queria seguir estas largas regras que enegrecem as páginas. que possam ser confeccionados pelas próprias crianças. seu raciocínio também se desenvolverá. Calcado na observação e na associação de idéias. para que suas idéias venham a associar-se intimamente. Buscar um método de leitura completamente novo foi. ”decompondo-se as palavras-chave. porém.’ Ouço ainda esta palavra que me causa nojo. o desprezava.Se esse processo for seguido. em oposição ao que se pensava e aplicava nas escolas. como o jogo para o conhecimento de palavras novas. de acordo com o interesse da criança. portanto. As crianças devem utilizar materiais de leitura significativos para elas. Os procedimentos devem basear-se em jogos simples. 1924. desde o início. a criança não sofrerá restrições e a leitura cumprirá seu objetivo: a expressão. com aquilo que lê. tão pouco explorado.

74. como nos adultos.74. sabendo para que serve a escrita e o que esta representa para ela. dizia que. Exemplifiquemos com uma criança que nunca tenha escrito. Dalhem. uma vez que.” DALHEM. contextualizadas. para a criança desenhar e copiar. essas idéias intermináveis dos mesmos caracteres ou dos mesmos elementos. Por considerarem que essa aprendizagem provém de experiências significativas. p. 1924. O período preparatório para a escrita não era visto por Decroly nem por seus discípulos como etapa necessária ou que devesse anteceder a escrita. do que a treinos de discriminações e percepções.orienta que se escrevam as palavras em tiras de papel. deve evocar a imagem e a idéia de cachorro. p. a quem se dá uma folha de papel. seu sucesso estaria ligado muito mais às oportunidades de a criança operar com a palavra ou o texto escrito — numa totalidade significativa —. A escrita passa a ser um processo de descoberta para a criança. Ao colocar em prática o método Decroly. isto é. não uma simples imagem auditiva associada a uma imagem motora. aprenderá naturalmente a escrever. que não interessam nem divertem e que são sempre mal feitas. Dalhem estava não só rompendo com o que se fazia no ensino da escrita. Aqueles que dão importância ao caderno limpo e bem cuidado devem se abster de fazer esse ensaio. pois foram desenvolvidas numa época em que se privilegiava a posse do código gráfico e o domínio de habilidades perceptivo-motoras. A palavra passa a se constituir num tesouro para a criança. para eles o bonito caderno é o critério do bom ensino. A representação da linguagem não depende do domínio de atividades motoras. ela interage com outros conhecimentos (idéias) a sua volta. por exemplo. As frases e as palavras são consideradas desenhos que deve reproduzir. Quanto às regras gramaticais. A palavra ”cachorro”. como a busca do saber científico. para construir a escrita. esses incômodos exercícios sistemáticos. 1924. estará associando a palavra à idéia (significado e significante). p. 1919. como também valorizando . A escrita deve ser um desenho abstrato como o croqui é um desenho concreto”. precisava antes fazer uma análise e descrição dos fonemas de modo a simbolizá-los. DECROLY & MONTCHAMP. ser o esboço das idéias. Não deixam de ser revolucionárias. Para Decroly. A introdução de jogos e brincadeiras para esse tipo de ensino já demonstra a percepção de que eles constituem uma rotina na vida da criança. Da mesma forma. a cada repetição. por meio deles. sem medo. “Desde o primeiro dia a criança escreve o que lê. que a guarda e utiliza várias vezes. a representação gráfica dos sons da fala segue as mesmas etapas pelas quais a humanidade passou até dominar esse instrumental para comunicar-se. uma caneta e tinta e se manda escrever. perdem os resultados de uma experiência verdadeiramente interessante. Observa Dalhem que os educadores ”podem e devem suprimir. As primeiras experiências com crianças pequenas (fase pré-escolar) datam de 1920 e foram registradas por 83 L. 68. DALHEM. mas de um processo histórico e individual de estruturação de todo um sistema de representação simbólico. A escrita deve derivar da linguagem gráfica.

Etapas de aquisição da escrita As cinco etapas do processo de escrita da criança são muito semelhantes aos resultados dos estudos que Luria. As ilustrações das cinco etapas foram extraídas do caderno de um mesmo aluno. ”Estas etapas de aquisição da escrita correspondem à evolução da linguagem e da leitura. Os três pesquisadores procuram investigar as concepções que as crianças pequenas (com algumas diferenças nas idades) têm em relação à escrita. discípula de Decroly.muito mais o processo de aprendizagem. investigador soviético e discípulo de Vygotsky. a criancinha .. Para Descoeu84 dres. primeira etapa. escritos.desenvolveu na mesma época (década de 20) com crianças que ainda não freqüentavam a escola. histórica e contextualizada: ”Não se deve seguir as recomendações do programa de Bruxelas. 74. DALHEM. realizadas a partir de 1974. ser o resultado de um processo de representação da linguagem oral. Segundo Dalhem. uma mistura de linhas retas e curvas —.. deveria representar idéias ou cenas observadas. pictórica. uma mistura de grafias retas e curvas. mas representar o que ela imagina que é a escrita. 1924. e aos resultados das pesquisas de Emilia Ferreiro. 1924. a aprendizagem deveria ser o mais natural possível. p. a criança não procure apenas copiar. 75-6. Embora não apresentem forma definida — freqüentemente desalinhados ou um conjunto de rabiscos. [. 1924. imagens de idéias. p. os primeiros traçados das crianças já indicam o aparecimento de uma relação funcional com a escrita. Dalhem a considera uma tentativa de imitar a escrita do adulto. a escrita se assemelha a desenhos abstratos dos objetos representados e ainda não é associada ao som. O importante é que. 77 As frases ou palavras eram ditadas pelo professor ou outro aluno. nunca provenientes da cópia de um trecho lido. nessas tentativas. De início. chegando a conclusões bastante semelhantes. p. já têm a intenção de expressar uma idéia ou produzir um significado. retratos esquemáticos das coisas.Dalhem. DALHEM. As tentativas de escrita das crianças pequenas (pré-história da escrita) deixavam de ser vistas como rabiscos. passando a ser consideradas hipóteses — que Daíhem classifica como etapas. uma vez que de uma para outra havia avanços significativos. mas à imagem do que se quer representar. 85 Aquisição da escrita. Devem abandonar as lições sistemáticas com exercícios extensos e demorados sobre os elementos das letras. Na primeira etapa. quando diz: é necessário fazer exercícios especiais graduados. composta por signos. a fim de familiarizar os alunos com as formas gráficas e habituais de traçar corretamente as letras. que exigem a repetição em grande escala com o mesmo elemento”. embora concorde que já corresponda a uma primeira forma de construção real da escrita.] porém inspirar-se sempre na forma com que a criancinha aprende a falar.

. 73 Segundo Luria. ficaremos sem condições ”de observar toda uma série de pequenas invenções e descobertas feitas por ela. Seus estudos reforçam e ampliam os de Decroly. 1988.” DALHEM.. [.81 A primeira etapa da escrita apresentada por ele visa a ”dar à criança alguma tarefa acessível e observar os estágios sucessivos pelos quais ela passa a assimilar a técnica da escrita”. etc. curtas e não-relacionadas umas com as outras”. 1924. é necessário haver pelo menos uma hipótese ou idéia relacionada com a escrita real — ou. 1924.] apresentávamos à criança várias (quatro ou cinco) séries de seis ou oito sentenças simples.). 80-1. nené. [... Isto fica especialmente evidente em casos nos quais o escrever é nítida e sensivelmente divorciado da sentença a ser escrita e começa a desempenhar um papel completamente independente e auto-suficiente [... I988. empreende longas e divertidas conversações.] de forma puramente externa e imitativa [. apontando o fato de que. Não basta reproduzir traços ou rabiscos e identificá-los como escrita. 1988.] Por não compreender o princípio subjacente à escrita. DALHEM.] sugeríamos que tentasse [. p.. mama.. de preferência aquelas que têm sílabas repetidas (papá. Mais tarde. Pouco a pouco se percebem as palavras. ”a conexão entre os rabiscos das crianças e a idéia que representam é puramente externa.] lhe entregávamos um pedaço de papel e lhe dizíamos para tomar nota ou escrever as palavras por nós apresentadas. Luria relata os passos de um experimento: ”[. Dalhem insiste no método natural tanto para o ensino da leitura como para o da escrita... p.p. como Dalhem acrescenta. as sílabas vão se tornando compreensíveis e isoladas. ”precisamente porque apresenta muita analogia com o método usado pelas mães para ensinar seus filhos a falarem”. com uma seriedade muito grande. conside86 rando-a uma imitação puramente externa. se não dermos à criança os aspectos externos da técnica a ser trabalhada.] escrever. quando afirma que o ambiente e as condições de vida concorrem para levar a criança a querer escrever como os adultos. dentro da própria técnica. ”ser imagens de idéias.. dentro de um curto período.] pegávamos uma criança que não sabia escrever e lhe dávamos a tarefa de relembrar um certo número de sentenças que tenham sido apresentadas [. p 148 As conclusões de Luria são muito parecidas com as de Dalhem. a criança toma sua forma externa e acredita-se capaz de escrever. LURIA. LURIA.147-8. Efetuando um paralelo entre as três evoluções (fala. p. retrato esquemático das coisas”. DALHEM. leitura e escrita). antes mesmo de saber o que deve ser escrito”. embora de forma totalmente intuitiva. LURIA. que a capacitava gradualmente a aprender a usar este novo instrumento cultural.. p. 1924. Luria explora essa tendência natural.emite sons disformes. .. Ao considerar que a criança escreve para imitar o adulto. Era nossa intenção fornecer uma análise psicológica do desenvolvimento da escrita desde suas origens e. que são mais fáceis de serem emitidas do que uma sílaba separada. porém totalmente ininteligíveis.. 149-50. acompanhar a transição da criança desde as formas primitivas e exteriores de comportamento até as complexas formas culturais”.

antes ligada. na qual a escrita apresenta características de simples brincadeira. O mesmo acontece com as etapas seguintes. mais ou menos formadas. aparecem palavras isoladas. Nesse estágio. Parece claro que. nos primeiros estágios de aquisição desse domínio. as escritas não apresentam relação alguma (diferença ou semelhança) com os significantes sonoros. Dalhem nota mudanças da primeira para a segunda etapa: uma tentativa de produzir uma escrita com traços bem próximos à escrita cursiva. numa amostra muito semelhante ao estágio que Luria definiu como quarto.Essa primeira fase dos atos imitativos. cortando a cadeia. perguntamos: ”Será que isso significa que agora compreende o mecanismo integral de seu uso?” O mesmo autor responde: ” LURIA. 9. nitidamente. 88 Figura: Aquisição da escrita. conforme registrado por Dalhem. ou seja. o que demonstra certo conhecimento em relação à forma como o adulto escreve. a refletir o conteúdo que a criança deve anotar. observa-se certo crescimento no processo de escrita: embora Luria ainda a considere uma escrita que busca auxiliar a memória. chegarem a diferenciar suas escritas ou fazê-las expressar um conteúdo específico. p 181 Estamos convencidos de que uma compreensão dos mecanismos da escrita ocorre muito depois do domínio exterior da escrita e que. no qual ele considera que a criança já elabora uma produção gráfica definida. reconhece que ela demonstra. semelhante à escrita dos povos primitivos. com grafismos já 87 bem definidos. Aparecem números e palavras isoladas. 9. Dalhem.77 O ingresso na terceira etapa da evolução da escrita. Dalhem. quando as crianças passam a utilizar. 1924. é semelhante à primeira etapa descrita por Dalhem. a criança utilizou grafismos constituídos por linhas onduladas ou em forma de ziguezague. e chega à palavra. segundo Luria. que Luria denomina pré-cultural oupré-instrumental. a criança já conhece letras isoladas. a relação da criança . sem. como elas se unem para registrar um conteúdo. Figura) Aquisição da escrita. segunda etapa Letras reto-altas e retobaixas.78 Como Luria. 1988. Comparando as figuras que ilustram as etapas iniciais. um esforço da criança em aproximar sua escrita (que continua cursiva) da escrita-modelo do adulto. A escrita. separa-se em pedaços. vemos que. 1924. é marcado por maior preocupação com o traçado da letra e as propriedades sonoras do significante. graficamente. no entanto. terceira etapa As letras reto-altas e retobaixas se distinguem claramente. o número ou a quantidade do referencial e a natureza do conteúdo começam a diferenciar-se: o símbolo adquire significado funcional e começa. embora distribuídos em forma linear. nas duas etapas. na primeira. um sistema de auxílios técnicos da memória. Na segunda etapa.

as pesquisas fazem parte da história da pedagogia e precisam ser resgatadas Afirma Emilia Ferreiro: ”Em alguns momentos da história faz falta uma revolução conceituai. no qual ”a criança começa a escrever e ler o que escreve” LURIA. para quem ”escrever é reproduzir traços típicos da escrita que a criança identifica como a forma básica da escrita”. quarta etapa Dalhem. não se apresentam sempre nas crianças na ordem indicada. p 79. Só depois de dominada a escrita. Decroly é parte importante do pás90 sado da alfabetização. Nenhuma revolução conceituai pode ser feita sem que se resgate o passado. Figura:Aquisição da escrita. Além de levar em conta a individualidade da criança. como diria Luria. Ela compreende que pode usar signos para escrever qualquer coisa.78 Figura: Aquisição da escrita. falta-nos o conhecimento do contexto onde ela se desenvolveu. 1986. p. Seu programa e método.1986. Acreditamos ter chegado o momento de fazê-la a respeito da alfabetizacão”. 1924. nem sobre elas. p 41. porém não se escreve geralmente nem entre as linhas de caderno. ] as etapas também não são imutáveis. Assim. ”Distinguem-se as palavras. É o momento. [. Além do mais. sem exercícios prévios nem sistemáticos. alguns alunos apresentam uma evolução mais rápida ou mais lenta que o normal”. 1924. 1924. deverá vir a preocupação com o aperfeiçoamento ortográfico. p 181 A escrita da quarta etapa é considerada intermediária por Dalhem. Decroly propõe que as crianças sejam instruídas a escrever frases e pensamentos. DALHEM. mostram que não se pode privilegiar apenas o atual.79 Bem próximas. aplicados por seus discípulos. p 183 Na quarta e quinta etapas de evolução da escrita. A indivi89 dualidade infantil se destaca desde os primeiros ensaios. pois. mas não entende ainda como fazê-lo. mas é ainda incapaz de usá-la”. para escrever não é necessário que a criança compreenda o processo de escrita.Dalhem. mas deve-se ir . aproxima-se mais de Luria que de Emilia Ferreiro. FERREIRO. é preciso lembrar que se trata de uma pesquisa com crianças francesas. Há. 1988. necessidade de uma quinta etapa. p. quinta etapa O aluno não distingue o o do a. porém sem ainda dominar toda a complexidade da relação fonema/ grafema. FERREIRO & TEBEROSKY.com a escrita é puramente externa. Torna-se assim inteiramente confiante em sua escrita. o que dificulta a análise da lógica interna das produções. a criança já escreve de forma original. às vezes contraditórias. associando as palavras às idéias (significante e significado) Segundo ele. Agrega-se uma etapa de aperfeiçoamento com tendência a evoluir mais ainda na aquisição da escrita.

1924. do qual depende e no qual vai agir. ou seja. o que considerava um método natural. tendem a desaparecer. propôs para o ensino da ortografia. como é o caso das escritas espelhadas — que. exigem observação e conhecimento profundo do aluno. no início. dedicado à prática. aos poucos. as sílabas da frase e recompô-las. começar apenas quando a criança já consegue isolar palavras. Qualquer método por si só não resolve os problemas do ensino. o próprio desenvolvimento infantil. dos simples rabiscos não-diferenciados até a escrita com signos diferenciados. não deveriam ser trabalhadas de início. da fala e da escrita. resgatar contribuições valiosíssimas sobre práticas de introdução da criança na língua escrita que fugiram à rotina tradicional. SAUSENFEIL. de forma que a criança a ela retornasse em diferentes contextos. 1983. o que nos levou a considerá-las inovadoras. Esse discípulo. Decroly defendia o paralelismo entre as evoluções da leitura. uma vez que não se constrói uma língua pela gramática.à fonte primeira. 80-1. com freqüência o a em Ia. muitos fazem entrar uma letra na outra. além da história da civilização. recomendava também a aplicação das palavras mais difíceis. depois em palavras e. percebemos todo o caminho do desenvolvimento da escrita pela criança: da tentativa de imitar a escrita adulta. Todos os métodos dependem da atividade criadora e reflexiva do professor. aspirações e ideais — e do conhecimento do ambiente. Elas seriam adquiridas e. preparando a criança para as exigências sociais por meio do conhecimento que tem de si mesma — suas necessidades. podem aparecer em frases inteiras. Recuperar de escritos o que têm de positivo contribui para aperfeiçoar o nosso trabalho em sala de aula. Recomendava o que chamamos ditado surdo: mostrar a escrita correta alguns segundos para a criança (clichê visual). sobretudo. aponta como naturais aspectos que os professores ainda consideram problema. As regras gramaticais elementares. p. Além disso. Para as frases completas. a criança percorre o mesmo caminho que a humanidade tem percorrido até chegar à obtenção das leis e às conclusões científicas”. Decroly postulou uma visão globalizante das questões ligadas ao processo ensino-aprendizagem. Os experimentos de Dalhem e discípulos confirmam a visão e a prática de Decroly: ”Na aprendizagem da leitura e da escrita. Os princípios da pedagogia decrolyana — respeitar a liberdade e a espontaneidade da criança — foram retomadas das idéias mais avançadas dos . p. 38. Os mesmos princípios que empregou para a leitura e a escrita. sugeria os jogos de paciência: recortar as palavras. segundo ele. Na seqüência das etapas apresentadas por Dalhem. m em ma. a seguir tampa91 la e então pedir que a criança a escreva. em outros textos escritos. se consolidariam pela leitura. ”Quando os alunos começam a escrever palavras (quarta etapa). Retrata.” DALHEM. uma vez que apresentava certa analogia com o método empregado pelas mães para ensinar os filhos a falar. a escola deve fornecer educação geral. Para Decroly. Pouco a pouco se separa dela como uma bolha de sabão se separa do canudo. supera o mestre.

Esse tema deve ser selecionado desde o ponto de vista da criança. que englobem precisamente as atividades principais da vida humana. A observação diária de fenômenos da natureza. O ponto de partida dessa concepção foi rejeitar o manejo de símbolos abstratos. destaca-se o conceito de globalização para o ensino da leitura de idéias e não de sinais gráficos — visão de idéias. O programa de ensino deve ser um faciíitador da individualização e atingir o maior número de crianças possível. de cultura geral. Os exercícios da primeira etapa utilizam-se de materiais palpáveis. deve ainda permitir amplas adaptações ao meio em que vivem. individual e social. leitura. principalmente durante os primeiros anos de escolaridade. muito objetivas. deixando ao professor liberdade para propor. para que a criança chegue a idéias mais gerais. imagens. p 117-91. etc. Das áreas da biologia. formando um todo homogêneo. Decroly considera as três etapas da atividade mental: a recepção ou impressão. Os exercícios da segunda etapa devem empregar materiais mais abstratos: recordações. numa palestra dirigida a professores. somente a representação concreta das idéias com base em coisas ou figuras pode despertar o interesse e orientar o próprio conceito de globalização. as matérias se entrelaçam em torno de uma idéia central. diretamente pelos sentidos e pela experiência imediata com a natureza. etc. ajustado à experiência globalizada e às relações afetivas das crianças. escrita. propondo inverter a ordem tradicional do ensino. Em seus centros de interesse. RECAPITULANDO Em 1907. O conhecimento é adquirido por vias ativas (as mãos. Quanto à divisão em disciplinas. social. Dentre elas. Para Decroly. seres vivos. o propósito é trabalhar por grandes sínteses.clássicos da época (Rousseau e Pestalozzi). separando-se o mais possível tudo o que não tem relação com a sua vida. As disciplinas devem convergir para um mesmo terna (idéias associadas). a criança é o centro do universo escolar e o seu desenvolvimento cognitivo. e não apenas um estabelecimento onde se oferecem rudimentos de instrução. levando-a a experiências sensoriais e motoras. mantém os alunos ocupados e interessados. textos. trabalhos manuais. DECROLY & DEGAND. o contato da criança com o concreto. Para ele. Cabe ao educador ajudar a criança a classificar. Decroly recoloca a questão do interesse do aluno. com as quais a criança pode colocar-se em contato direto — observação. a vista). comparar os . acessíveis aos sentidos. Desejava que a escola pública fosse uma escola de formação. vazios de sentido. vivendo as noções em vez de escutá-las. Seu método respeita as leis fundamentais que regulam o desenvolvimento e a conservação da vida. a elaboração e a expressão. psicologia e sociologia surgiram idéias que acrescentam valor a sua proposta.1910. que contribuísse para o livre desenvolvimento das atitudes naturais do ser humano. usa o poder globalizador ou valorizador. já destacada por Dewey. especialmente no ensino do desenho. Decroly apresentou as conclusões práticas do seu trabalho. físico e emoci92 onal é simplesmente um processo biológico.

93 O terceiro tipo de exercícios. 1968. Decroly retomou essa feliz concepção de Rousseau acerca da originalidade da psicologia inpara nela fundamentar sua proposta. trabalhar. marcenaria). distrair-se. a ortografia. e as ciências. que carac94 teriza como visão de conjunto — mais tarde denominada ”sincretismo” por Claparède (1908). mas de elementos que precisam ser elaborados pela própria criança. A associação permite recuperar as observações no tempo e no espaço e leva à ampliação dos conhecimentos históricos e geográficos. a criança passa. até então.. LEIF & RUSTIN. É importante lembrar que as atividades mentais não se excluem umas às outras. Segundo Leif e Rustin. constituindo um ciclo de atividades mentais sintéticas. Entre os escolanovistas. é a manifestação do pensamento. a associação e a expressão (concreta ou abstrata). etc. um filme. segundo um plano estabelecido. O programa decrolyano propõe nova ordenação às disciplinas do currículo. proteger-se contra as intempéries. uma base. O estudo da peculiaridade do pensamento infantil foi por ele abundantemente desenvolvido e serviu de sustentação para outra convicção: o conhecimento não é construído com base nos elementos trazidos pelo adulto. etc. Os exercícios integram-se numa ordem psicológica. partindo das aquisições do próprio indivíduo e de suas necessidades vitais: alimentar-se. do que lhe é lógico e natural. por exemplo. um foi determinante para a inovação da prática metodológica do início do século: a descoberta de que a vida ammica da criança difere da do adulto. defender-se. ou subtítulos. intervém a observação e a associação. p. ”é dos jogos aritméticos de Decroly que derivam os livros atuais nos quais as noções dos números e das operações são dadas por imagens variadas e nos quais por vezes até os problemas são concretizados e se transformam em jogos”. 264. Os conhecimentos vivenciados devem ser conduzidos com método. inovadora. intervém os mecanismos superiores do pensamento e da expressão. de manipulação. de forma suave. Entre os muitos acertos da nova psicologia infantil..achados atuais com suas experiências ou com as explicações do professor. do concreto para as abstrações materializadas. ou expressão. recorte e colagem. imagens ou leitura. chamado de segunda mão. cada vez mais específicos. e o conhecimento constrói-se sobre a interdisciplinaridade. Decroly vê a sala de aula como uma oficina em que os alunos podem praticar a livre expressão. resultante da apropriação do conteúdo e expresso por meio de trabalhos manuais (modelagem. Os centros de interesse subdividemse em componentes. repousar. É uma forma de estudar as letras. Durante um exercício de observação. mesmo no curso de um trabalho de expressão que se desenvolve com diferentes matérias. linguagem falada ou gráfica. com simplicidade e regularidade para agradar a todos. auxiliadas pelos jogos visuais. sons ou cores (música e pintura). . que compreende: a observação.

DECROLY E FREINET O método Decroly é ainda utilizado no mundo inteiro e influenciou os trabalhos de muitos pedagogos, entre os quais Freinet. As idéias de Decroly sobre delegar ao mestre a tarefa de recriar e refletir sobre os métodos, buscar técnicas e recursos novos para concretizar a tarefa educativa — uma vez que a manutenção da interação espiritual com os alunos, dizia, é sempre incompatível com a rotina tradicional — levaram Célestin Freinet a propor o método natural para o ensino da leitura e da escrita, buscando suprimir o hiato entre a escola e o meio. A pretensão de Freinet era ”contribuir não só com as respostas indispensáveis, além das respostas teóricas cada vez mais fáceis, mas também, sobretudo, com a prova de que as teorias generosas dos grandes pedagogos podem [...] tornar-se realidade”. FREINET, 1975a,p. 14-5. Sobre Decroly, afirmou Freinet que o considerava ”traído por todos aqueles que, tanto na Bélgica como na França, tornaram escolástico o método global”. FREINET, 19’75a, p 14 Freinet propõe uma pedagogia da totalidade, que não pode ser dividida em compartimentos estanques, dos quais cada um retiraria, aleatoriamente, alguns procedimentos. Propõe a associação de conteúdos — os centros de interesse —, porém a aplicação depende da mentalidade do professor, que deve levar a criança a criar, agir e construir um verdadeiro conhecimento. Era uma nova pedagogia para as classes populares, ou massas, calcada na experiência de um professor que atuou nas séries iniciais do ensino fundamental, comprovou a eficiência da aprendizagem da leitura pelo método global e utilizou-se dos conhecimentos da psicologia experimental. 95 Tais práticas e idéias possibilitaram à escola, durante muito tempo, aplicar o método global para o ensino da leitura. No entanto, essa mesma escola esqueceu a vida, esqueceu que a palavra, a frase e o texto precisam estar inseridos intimamente no contexto da vida dos indivíduos. A criança hoje vive em um mundo repleto de escrita, presente na TV, nos jornais, nas revistas, nas embalagens dos produtos, cartazes, letreiros, placas de rua, cartas e bilhetes que recebe. A palavra escrita faz parte do contexto de vida dessa criança, e ela vai fixá-la e procurar reconhecer sua estrutura. Porém, essa palavra só terá sentido no próprio contexto. As constatações de Decroly, como as de Freinet, são clássicas, embora sejam negligenciadas na aprendizagem escolar. Elas valorizam uma dimensão afetiva e humana que consideramos basilar para a reconstrução do conhecimento histórico e social da humanidade. Textos selecionados de Decroly Considerando as já mencionadas dificuldades de acesso a textos de autoria do próprio Decroly (e ainda que sua extensa produção constitua-se mais de trabalhos específicos sobre temas complexos), recorremos, em boa parte, aos escritos de alguns de seus discípulos, principalmente Dalhem, que foi quem aplicou seu método na prática.

CRIANÇA ”A criança precisa possuir a compreensão de si mesma; de seu próprio ser, de suas necessidades, desejos, ideais e propósitos. Precisa saber para que servem seus órgãos, o modo de comer, ler, trabalhar e jogar; como funcionam seus sentidos; como estes a defendem e a ajudam; como se movem seus membros e, especialmente, que serviços lhe presta a mão; por que sente fome, sede e frio, por que se amedronta e encoleriza; quais as falhas e as virtudes que possui. Depois de conhecer-se a si mesma, precisa conhecer o meio natural e o meio humano em que vive, de que depende e onde deve trabalhar a fim de satisfazer suas necessidades, desejos, desígnios e ideais. As necessidades da criança, as que servem de eixo, e tudo o que a sociedade e a natureza, viva ou não-viva, realiza para sua satisfação podem ser objeto de conhecimento na medida em que o cérebro da criança possa assimilá-lo. Em todos os seres, mesmo nos mais sensíveis, há manifestação que permite a conservação da vida e sua adaptação. O homem para viver tem, como todo ser, necessidades essenciais: alimentar-se, proteger-se das intempéries, defender-se contra os inimigos. Deve preparar-se para ser 97 capaz, quando adulto, de bastar-se a si mesmo (funções individuais); para bastar à sua família e para cumprir suas obrigações sociais (funções sociais). [...]Todo ser humano deve possuir um mínimo de conhecimentos que lhe permitam compreender as exigências da vida em sociedade, as obrigações que isso impõe e as vantagens que disso resultam.” DECROLY & BOON, 1939, p. 66-7. EDUCAÇÃO Decroly enaltece e privilegia a conservação da vida, fim último de sua educação. Sua pedagogia, além de ativista — pois considera que toda educação deve apelar em primeiro lugar à própria atividade da criança, às suas necessidades —, volta-se também para objetivos práticos, úteis à vida. ”A escola responderá pela sua finalidade de educacão geral, preparando a criança para a vida moderna. Esta preparação será melhor se iniciarmos a criança praticamente na própria vida em geral e na social em particular.” DECROLY apud DALHEM,1924, p 9-11 ”O destino de um ser qualquer é, antes de tudo, viver [...] a educação deve, pois, ter por fim: primeiro,manter essa vida; segundo, colocar o indivíduo em condições tais que possa conseguir, com um mínimo de tempo e de esforços, o grau de desenvolvimento que implique sua constituição e exija seu meio.” DECROLY & MONTCHAMP, I9i9,p 19 ESCOLA Decroly acreditava que a escola, por não ser uma instituição independente das outras, precisava preparar para a vida individual e coletiva, refletir tanto a organização como as preocupações da sociedade. Para

transformar o ensino, dizia, deve-se iniciar pela modificação na estrutura física da escola. Queria uma escola viva e para todos. ”A escola que os pedagogos da instrução obrigatóo ria desejam impor a todos não é uma escola para a 98 vida, mas uma escola que já não atende aos interesses da maioria devido aos resultados passados por seu atual ensino e às condições ilógicas e anticientíficas nas quais ele se dá [...] Se se tratasse apenas de fazer adquirir a técnica de leitura, da escrita e do cálculo, esse ensino poderia, em rigor,bastar; porém se se pretende, ao mesmo tempo, dar às faculdades e por cima de tudo favorecer a educação, pode-se dizer que o papel que a escola desempenha é bastante insuficiente. [...] há necessidade de progredir com vistas ao futuro e que se leve isso em consideração [as exigências da nova pedagogia] ao construir novos prédios escolares. É necessário pensar em escolas para o povo [...] Uma escola em lugar agradável, pensando-se na rua, rios, bosques, seus habitantes; uma escola onde a natureza variada sirva de modelo para as lições, melhor que as paredes nuas; onde a criança possa observar mais que partes de fenômenos e processos muitos complicados para a sua inteligência, onde possa presenciar o trabalho do homem (lição moral por excelência) [...] Não se pode pretender organizar uma escola para a vida dentro de um quartel sem vida, com um ensino de coisas inertes. [...] Como se pode pretender favorecer a evolução das faculdades da criança, condenando-a à imobilidade e ao silêncio durante as melhores horas do dia e os anos mais formosos de sua existência? [...] Podem-se culpar os métodos e os professores, mas o melhor seria ir mais fundo e recriminar em primeiro lugar a disposição da escola mesmo e o programa imposto. Como modificar este estado de coisas? [...] As reformas necessárias são numerosas [...]” DECROLY & BOON,1939,p 7-29. Sobre as condições das escolas, os programas e métodos de ensino, recomendava: DECKOLY & BOON, 1939, p 31-2 ”— Não passar de trinta o número de alunos das classes comuns, de quinze para a classe de alunos readaptados e doze para a classe de alunos verdadeiramente anormais [,..] — Modificar o programa de maneira que ele leve em conta a evolução dos interesses, do mecanismo do pensamento, das condições locais, das capacidades da maioria para a aquisição de um programa de idéias associadas; — Modificar os procedimentos de ensino desde o 1º grau (termo utilizado por Decroly), aplicando-lhes o método dos centros de interesse; — Dar preferência aos exercícios e à disciplina que favoreçam a atividade pessoal.” 99 APRENDIZAGEM ”[...] aprendem [as crianças] independentemente do o método e da escola, porém as crianças de inteligência mediana, mais lentas, no mínimo

p 60. o que. 4º) Necessidade de atuar e de trabalhar solidariamente. ”1º) Necessidade de alimentar-se.” DECROLY apud DALHEM 1924. para outros. 13-4 No programa. 1939. a necessidade de respirar e de limpeza. em resumo. para uns é um meio de adaptar-se às circunstâncias novas. com o objetivo de organizar as do futuro. p. sobre as que l não podem ser previstas pelo instinto — e sobre os meios de vencê-las. adquirir noções sobre as dificuldades que apresenta a vida — quer dizer.. de um modo natural. BOON.” DECROLY &.] função que permite tirar proveito do passado para prever o futuro. significando aqui. segundo se exerça favorável ou desfavoravelmente. formando um todo indivisível {. ”O que importa não é isso [dar um número determinado de conhecimentos].] as propriedades da inteligência se traduzem nas definições que se tem dado dela. portanto.” DECROLY. Deve também permitir amplas e fáceis adaptações ao meio no qual a criança vive e não encerrar o professor em limites estreitos. deve ser considerada como a função que permite aprender. ou seja. Para essas é necessário favorecer a aparição destes utilizando meios apropriados. aqui uma influência muito marcante.” DECROLY & BOON P 13-8 PROGRAMA DE ENSINO Um programa de ensino não deve preocupar-se com minúcias. à qual se une. para outros. que o fundamentem. se caracteriza essencialmente pela compreensão e a invenção. 1929.” METODOLOGIA ”[O educador deve] dar [à criança] as noções sobre seu próprio organismo não por meio de uma nomenclatura seca e árida. utilizando as recordações das experiências feitas. ”O programa deve buscar a unidade no sentido de que todas as suas partes relacionem-se entre si. p 29 ”[. à qual se junta a necessidade de luz.. solidariedade e inter-ajuda. 2º) Necessidade de lutar contra a intempérie. de recrear-se e de melhorar. A inteligência também é considerada como um meio de assimilar o conhecimento. O papel do meio ambiente pode ter. significa que serve para aprender ou é função que serve para pensar [. ele distingue quatro necessidades básicas do ser humano: DECROLY & BOON. o que significa que faz ressaltar os dados do problema a resolver e permite descobrir os meios de solucioná-las. repouso.. associação.] O programa deve facilitar a mdividualização indispensável se se deseja que o mai100 or número de crianças alcancem o fim que se propôs fazê-las alcançar. àquelas para as quais não serve o instinto comum. esta palavra. enfim.. P.reterão alguns conceitos. ou diretrizes... 18-35. mas fazendo-a . mas possuir algumas idéias gerais. mas dar-lhes o gosto para conhecê-los e a chave para aprendê-los. 3º) Necessidade de defender-se dos perigos e inimigos diversos.

Todo esse material não é necessário estar completo todo o tempo. p.] as primeiras classes são aquelas onde a observação tem maior importância e deve ser mais investigada [. o desenho. conduzamo-lo a investigar [. incluindo neles a ortografia. modelagem.. que são o meio mais poderoso para exaltar e respeitar as individualidades..” DECROLY & BOON. pôr-se ao abrigo das intempéries.. 76-88. porém concebidas de um ponto de vista mais amplo. ”A observação deve ocupar lugar preponderante nas atividades escolares.. Destacamos a importância dos trabalhos manuais. 109. a produção de textos...] de solução de problemas. etc. levando-se em conta os interesses desta.compreender os mecanismos de seu próprio organismo físico e mental. ”[. 18-35.] por último. mas produções pessoais diferentes..] que na realidade são noções apresentadas de forma atrativa. 1939. jogos e trabalhos manuais: ”De um lado.” DECROLY & BOON... dos acidentes e das enfermidades — devem também ser usados para instruí-lo. Por outro lado.. a dramatização e os exercícios físicos [. a modelagem. gráficos. do meio onde vivem. p.. assim como os trabalhos manuais. mãe e cidadã. o canto. 1939. 1939. desenhos. não sob a forma de gravuras.. cidadão.. 1º) a observação representa a lição das coisas e de palavras e as lições de ciências naturais elementares. anotar o resultado por meio de representações objetivas. o jogo. primeiro de exercícios de comparação.] nelas são maiores as possibilidades de se elegerem centros de interesse a partir do estado da própria natureza.. se une 101 também estreitamente às outras disciplinas e sobretudo à observação da forma. mulher. qualquer que seja a matéria. p. repousar. toda lição compreenderá exercícios para firmar o caráter pessoal da criança. próprias. a linguagem oral e escrita. etc. associados à aquisição do vocabulário e portanto dos elementos sobre os quais se referem a leitura e a escrita..] como poderá satisfazer suas necessidades de homem.. pelos sentidos da criança. Não se trata de obter trabalhos idênticos para todas. mas de seres e objetos reais. através de elementos fortuitos que surgem e que se aproveitam para fazê-los objeto de um centro.. p. o ensino absorverá muito material. ou seja. 86-7. prepará-lo para a vida [.” DECROLY & BOON.. quando necessário. dos quais se poderá. Se fará uso de jogos educativos [.] Façamo-lo consciente de sua existência e de sua invencibilidade e mostremo-lhe a contribuição oferecida pela natureza [.]”DECROLY & BOON.] Os mesmos [mecanismos] que o homem usou para satisfazer as necessidades indispensáveis — alimentar-se. depois de medidas com unidades naturais e. que mostrem o grau de ..] Quanto ao cálculo. cada dia se farão pequenos exercícios de observações ocasionais. onde se encontra a escola. por último [. Sobre o emprego de materiais. 1939.. 3º) a expressão compreende todos os exercícios de linguagem. [. Este material deverá ser intuitivo. ”Os exercícios de observação consistem em fazer trabalhar a inteligência sobre materiais recolhidos em primeira mão.. sobretudo no 1a grau (termo utilizado por Decroly)” [. 2º) a associação no espaço e [a] no tempo substituem a Geografia e a História.

. a criança pode imitar o jogo do outro e. [... todos os materiais que se puderem obter: além do papel e da cartolina.] Assim.] é necessário introduzir a leitura desde o primeiro ano. do ponto de vista psicológico. então..] Os dedos são os que devem trabalhar.. 1924.. sobretudo.. vagões... os veículos.] Recordemos que o espírito da criança não é sintético.] Somente este processo segue a evolução mental da criança. que o professor não esperava. locomotivas.. [. é necessário que seja realmente a expressão de seu pensamento. se unem essas partes da mesma forma que faz o carpinteiro... dos sons ou das sílabas. [. [. o que é concreto não pode ser simples. verá que basta uma palavra para designar essa classificação. Convém que o trabalho da criança não se reduza a uma simples cópia. 102 ”[. a letra é mais .] Devem ser empregados. depois. Igualmente. os chapéus.. também.. [. com o partir das letras. quer dizer. A aquisição da linguagem oral é uma prova disso e nós consideramos que a aquisição da leitura e da escrita deve seguir a mesma evolução. Os métodos de ensino devem inspirar-se no princípio de que o que é simples no sentido habitual da palavra não pode ser concreto e.” DECROLY apud DALHEM. uma vez que esta deve basear-se em idéias o mais concretas possível. para quem o simples é a síntese e o composto é a análise. [.)” DECROLY apud DALHEM.). o que dá uma manifestação mais completa das duas tendências. A evolução mental vai da síntese à análise. 29.” DECROLY apud DALHEM. carreteis de linha ou rolos usados de filmes (rodas. As fases de aquisição da linguagem oral nos mostram que é assim [.] o jogo pode associar-se à imitação. [.1924. etc. que para ela a frase é mais fácil que a palavra e essa. prescindindo de toda ferramenta. este último apresenta as características de jogo e o primeiro.] A criança classifica espontaneamente os calçados. Por pouco que a ajude uma execução em trabalho manual.. 1924. não somente do ponto de vista técnico mas.] se recortam os pés.abstração atingido [... e estará criado o conceito.. devem-se usar caixas de fósforos (carrinhos. Nisto.] Nada há de novo em tudo o que eu proponho. [. etc. [.] O mesmo ocorre com a escrita e a leitura... p 45-6 ”O trabalho manual é um instrumento de cultura dos mais importantes. será este superado pelo aluno.. p..] Para mentalidades fechadas. pedestais. para construir uma cadeira [. LEITURA/ESCRITA ”[. p 45.. a criança que imita pode transformar em jogo o que viu outro realizar. Precisamos suprimir a maior parte 103 de abstrações na leitura.] Seu espírito curioso e investigador fará descobrimentos nos símbolos abstratos de urn texto de leitura. Este modo de proceder leva o aluno a classificar e ensina-o a agir com ordem e método em seus deveres. o assento e o encosto e.. mais fácil de compreender que a letra. as de imitação...] O que se constata e que se empregam esses termos de maneira totalmente equivocada. inversamente. confundindo-se o simples com o mais curto...

] um trabalho de criação e não uma cópia servil. manancial de toda a vida. 35. mais que a letra. [.” DECROLY apud MOURA..] cumpre ao mestre renovar a sua mentalidade. p 52.” DECROLY apud DALHEM. p. ”[.. lendo. nosso mais poderoso inimigo.. Para mentalidades infantis.. desde um raio de sol... o que resultará num ensino com maior liberdade. a palavra é mais sensível que a frase. 1931... até o átomo infinito. 1924.. a frase é mais sensível que a palavra e esta. ao micróbio. experimentando aos poucos [. do qual o microscópio apenas se nos permite adivinhar os contornos.” DECROLY & BOON. meditando..] é necessário que a mão seja dirigida pelo cérebro da criança e não pelo professor. p. e [a criança] descobrirá a importância do trabalho pessoal. [. 1939. 104 . fazê-los brotar quando ainda latentes e explorá-los ao máximo quando despertam. PROFESSOR ”[. que produz o calor e a luz.] ter presentes esses interesses espontâneos do escolar.] o professor deve ressaltar em cada oportunidade a união íntima que existe entre todos os fenômenos e todos os elementos do universo. 21.sensível que a palavra.

297. que procurou interpretar e vivenciar com os alunos. individual ou coletivamente. distante da família. inventa e cria. p. do homem da periferia e das classes trabalhadoras. com a sua Escola Ativa e a Prática da Escola Ativa. uma metodologia que não se acomodava com os velhos .. inteiramente inéditas. embora ele mesmo nunca tivesse chegado a considerar os anos de investimento e trabalho como aquisições definitivas. Ferrière. como Decroly. orientou as minhas tentativas”. a criança envereda por outros caminhos. à nossa frente. só pode ser compreendida e orientada mediante uma pedagogia e uma psicologia da construção e do movimento. Há que entrar resolutamente no reino da infância. essencialmente instintivos. certa do concurso dos seuspoderes como o caracol segregando a concha. 1977. que os alunos podiam escolher livremente. e por processos de tentativas. proporcionando ampla gama de atividades. que imagina. Para Freinet. queconsiderava desligada da vida. a criança que a todo instante dá provas dejsuas aptidões criadoras. considerando o erro como possibilidade para aprendizagem. Fundamentados em uma vivência histórico-social situada e em um pensar interdisciplinar mostram a valorização do homem. tinham como suporte as teorias dos grandes clássicos e educadores escolanovistas. Essas idéias. É considerado o primeiro educador a fixar as bases para o desenvolvimento de uma. Freinet procurou fazer da escola um centro de atividades e a tudo recorreu para transformar a situação social que não aprovava. 106 Freinet propõe uma metodologia da ação totalmente diferente da utilizada na época. Nelas acomodava toda a programação escolar. os que lhe são próprios. Seus escritos são o registro vivo do trabalho e das pesquisas que desenvolveu e documentam uma concepção antropológica de educação bastante inovadora. Freinet é filho de sua época. deslocando-se para onde quer. do coletivo. p. sem nos pedir licença. ”Li Montaigne e Rousseau. sem rompimento com o meio. psicologia da ação. Frinet procurou conhecer a maneira de ser e pensar da criança para ajudá-la nas dificuldades quando da estruturação dos próprios conhecimentos. 21. com o qual senti ter grandes afinidades. antes. temos de esquecer a nossa formação escolar em que a objetividade pretendia explicar tudo e as nossas obrigações estritamente pedagógicas se identificavam com a mania de ensinar. Como Rousseau em Emílio. Apesar das dificuldades e limitações do período que mediou as duas guerras mundiais. Seja como for. Encarava-os.3 Recuperando Freinet. e mais tarde Pestalozzi. valorizou a proposta de globalidade da vida anímica. Rousseau 1975a. com o interesse da criança ou com a vida. teórica e dogmatica.. Célestin Freinet (1896-1966) foi exemplo de luta pela transformação da escola. como um grande passo para o conhecimento dialético e humano do pensamento infantil e de suas possibilidades. Celestin Freinet.

Rabelais. p. Semjnenhuma experiência docente e com pouco conhecimento teórico. onde se formaria professor primário. Por meio do fazer. Freinet abriu-se à coooperação. Wundt. como um jardineiro. Inscreve-se como candidato ao cargo de inspetor primário e. é nomeado (1º de janeiro de 1920) professor adjunto de uma classe rural em Bar-sur-Loup (Alpes Marítimos). no processo de construção da cultura. A essa pedagogia experimental dedicou a maior parte do seu tempo. eis a sabedoria [. o que não poderia ser feito sem uma mudança metodológica. e foi assim que descobriu o uso da imprensa na escola. de instrumentos e de técnicas. o homem construiu sua cultura. Sentia necessidade de reaproximar a escola da sua essência.. nas suas necessidades.instrumentos. quando foi convocado para o serviço militar. Para ele. inicia imediatamente o magistério. utilizando o programa proposto 107 para o concurso. Para ele. enfrenta muitas dificuldades. 206. dizia que o educador.” Freinet 1973b. Freinet 1975. . Procura relacionar todas essas teorias com as suas intenções e e com o tipo de ensino e aprendizagem em que acreditava. Ao regressar da guerra. Spencer.] Bem longe de ficarmos satisfeitos com os primeiros sucessos. era preciso não separar a educação da vida ou isolar a escola dos fatos sociais e políticos que a determinam e condicionam. o homem trilhou caminhos diferentes graças a circunstâncias históricas. ”Duvidar do que é certo e não do que é duvidoso. que o ajudaram na edificação de um projeto próprio. por falta de organização. Em vez de isolarse procurou uma forma de trabalhar melhor com os professores. Começou por pesquisar e testar com seus alunos as novas técnicas de ensino. recuperar o homem natural. calcado em reflexões críticas sobre a educação da época. deixando de lado os manuais escolares. Montaigne. pois havia interrompido os estudos no segundo ano da Escola Normal. Ribot. Pestalozzi. nos seus sentimentos e nas suas aspirações mais íntimas. os educadores ”deixavam essa ocupação aos técnicos de base que. Em vez de tirar patente ou guardar segredo da descoberta do material que estaria na base do novo bétodo – o material --. símbolo da pedagogia opressiva.. que nunca deixou de questionar. mas percorreu as mesmas etapas na elaboração e aquisição de conhecimentos. constrangiam-nos as insuficiências e as fraquezas. os ajustamentos materiais e técnicas susceptíveis de tornar mais eficiente todo o nosso sistema educativo.” Freinet 1977a. William James. dirigir o nascimento e crescimento da planta. Freinet voltou a estudar para adquirir a cultura e a formação pedagógica que lhe faltavam. tínhamos consciência das lacunas a eliminar e não deixávamos de procurar. 8. Para construir uma teoria com base na ação. Na linha de Rousseau. Embora ainda em recuperação dos ferimentos de guerra (lesão pulmonar). p. não conseguiam transformar seus sonhos em realidade”. da satisfação das necessidades e interesses. além dos educadores escolanovistas. do tateamento. precisa trabalhar a terra onde a semente deve germinar. reinventando e inventando técnicas e atividades. lê e relê os autores que haviam influenciado o desenvolvimento da Pedagogia e da Escola Ativa: Comenius. mas nada o faz acomodar-se. no sul da França. Rousseau. por tentativas. cuidar pessoalmente de acompanhar. p. ”Está falseada toda pedagogia que não se apoie em primeiro lugar no educador. 17-8.

ele criou muitos princípios novos. organizar. a questão metodológica é de exclusiva responsabilidade do professor. as levem a pensar. tentando explicar suas leis. pode retirar dela seus ensinamentos. mesmo as da periferia e da classe trabalhadora. as técnicas mais adequadas ao objetivo pretendido. PROPOSTA PEDAGÓGICA DE FREINET Freinet chama seu método de natural porque procura aproveitar o meio natural. sim. Para ele. suas técnicas já haviam sido propostas por outros — o que também teria ocorrido com Rousseau e Decroly. Freinet não inventou nada. eram considerados por Freinet como pilares na construção de uma escola viva: a escola moderna. que. pode conseguir resultados satisfatórios Basta saber coordenar. rever a própria formação (possivelmente escolástica e autoritária) é o primeiro passo para a mudança Na classe Freinet. ou seja. até erguer um novo plano cultural. sem técnicas ou material. Depois volta a pesquisar e experimentar. Qualquer criança. com equilíbrio. incentivar a descoberta e aguçar a curiosidade O emprego do método pessoal. suas transformações. sobre si mesmo —. No entanto. a terra. ( Citação: Freinet . sem andaimes. domínio e autoridade. Para ele. da postura de quem quer aprender — sobre o mundo. mas não sem antes querer resolvê-las. propõe um outro papel para a escola e para o professor. isto é. depois. enriquecer ou ampliar as suas experiências.Freinet compara a construção da cultura à de um edifício: sem alicerce. as plantas e os animais. a água. com 109 intuição e sensibilidade. que o homem construiu a ciência? Com boa vontade e muitas idéias. dominá-la. despertando a curiosidade. seu pensamento e sua ação. Para apurar e selecionar. Freinet pesquisou alternativas de ensinar e de aprender que lhe permitiram priorizar o trabalho como meio e a busca do conhecimento integral e interdisciplinar como fim. o professor deve buscar e encontrar as soluções para um born trabalho. deve criar situações desafiadoras que. sem quedas ou erros a humanidade não teria chegado ao ponto atingido nem continuaria a avançar com novas conquistas. uma escola e uma pedagogia que não preparavam para a vida. sobre os alunos. o homem só ousa lançar-se à frente quando se sente apoiado em patamar firme. Sua originalidade está na forma como assimilou esses ensinamentos e na coerência com que os utilizou. organizar ointereses das crianças. Os conhecimentos das crianças. sistematizar. A escola deve colocar à disposição das crianças os meios para. 108 Para alguns. relacionados uns aos outros nas trocas e cooperação mútua. no processo. pois não pára nunca. Freinet nunca negou o que devia a seus predecessores. seu ritmo. até sem preparação especial. Não foi assim. observando a natureza. Freinet não aceitava os procedimentos clássicos ou dicotômicos. A releitura dos clássicos orientou. toda a natureza.

etc. revistas. diária e minuciosamente. a troca de materiais didáticos. Freinet começa por anotar.. comparando. os pontos positivos e negativos do seu desenvolvimento. a Fimem facilita os contatos e auxilia a pesquisa. ”muito naturalmente. a divulgação de experimentos e inovações cooperativas. os progressos dos alunos. comparando o seu comportamento com o dos alunos”. a organização de estágios. Experimentando. Nada lhe escapava’ Conhecedor das personalidades. seminários. p. Freinet erigiu as bases de um movimento hoje conhecido internacionalmente.. É.) Dependendo dos procedimentos que utiliza. Dia a dia. sediada em Bruxelas. a constituição de grupos de trabalho (nacionais e internacionais).empregava muito o termo escolástica com o siguinificado de formação tradicional. para desenvolver a cooperação internacional e o intercâmbio de práticas pedagógicas em todos os continentes. etc. 110 Na prática. caminhos para melhorar a qualidade do ensino. . procura seguir o empenho dos alunos e transformá-los pela livre expressão. Graças à confiança que depositava nas suas crianças e à observação constante. É de lamentar ”qualquer método que pretenda fazer beber o cavalo que não está com sede”. do exagero das tarefas e exames Se o aluno não aprende é porque o ensino de alguma maneira não lhe interessa. A Fimem é uma associação de movimmentos nacionais e grupos regionais de todo o mudo. entre os seus pares. 22-3. Freinet tinha a obstinação de honrar a profissão que escolhera e de buscar.FREINET. encontros. Segundo Élise Freinet. pela vivência coletiva permeada pelo meio ambiente. No braasil. pela ação. 1985. as publicações de jornais. procurava estreitar as relações com o outro e com o mundo. mostras e exposições de trabalhos. há três grupos regionais — Norte/Nordeste/Sudeste e Sul —. tentava captar o momento em que uma criança demonstrava interesse em aprender para imaginar ou inventar novas formas de ensinar. do uso intensivo dos manuais e das composições. sem ambição nem preconceitos. observando. FREINET. Para ele. melhorando. tentou adaptar um ensino livre de formalismos às suas possibilidades físicas limitadas e às reações dos seus pequenos alunos. havia como que um hiato entre as escolas e i vida impedindo que a criança buscasse ou trabalhasse com fatos de sua própria existência e da natureza. foi improvisando. utilizando: a correspondência internacional. o professor pode gerar desprazer e desatenção nas crianças. Como associação. Por meio do diálogo com os professores e com o uso do conhecimento científico. era capaz de apontar o que lhes era necessário. 16 A sua proposta pedagógica exige uma postura diante da \ ida que difere de tudo o que se ensinava nas escolas. P. a organização bienal de um Encontro Internacional dos Educadores Freinet (Ridef). que se inspiram na pedagogia popular e na educação operativa iniciada por ’Freinet. sua esposa e colaboradora. que estão ligados à Fimem. É também reconhecida como organização não-gomamental pela Unesco. 1978. Quarenta e três países estão ligados à Federação Internacional dos Movimentos da Escola Moderna (Fimem). é o caso das longas exposições orais..

Lançaram-se as bases de um movimento pedagógico fortalecido e integrado. boletins. p17. de um ato de vontade frente a um projeto que procura conhecer melhor. lança-se à execução de um projeto interdisciplinar: a organização da primeira cooperativa para divulgação das experiências. espontâneo.desejando ”encontrar uma maneira de trabalhar sem me isolar dos meus colegas”. p. priorizavam-se o meio natural e a atividade construtiva. sem esquecer os espaços livres para os jogos. a luta para adaptar a educação dos seus filhos às suas necessidades específicas. de rochedos.. onde se trabalha e constrói. mas que surja espontaneamente. ao mesmo tempo. a fabricação e a difusão de novos instrumentos pedagógicos. assim. A classe popular começou. que esteja rodeada e reforçada pelo meio 112 natural [. como 111 La Gerbe. no qual todos participam de alguma forma. um esforço .”. são impressos e intercambiados.. FREINET. etc. p. Circulares. se ela não pode estar sempre nas proximidades dos bosques. FREINET.68-9 Sua pedagogia preconiza uma escola viva. No projeto interdisciplinar não se ensina. organização financeira para amparar as publicações. dando significação social ao trabalho. revistas de textos infantis. contribuindo para a produção de um conhecimento gerado da experiência.. Freinet dizia: ”Concebemos a esta instalação material (da escola primária) uma importância mais decisiva do que geralmente se crê no que respeita ao sucesso dos métodos [. o seu aviário. exerce-se. nem se aprende: vive-se. 1975. O importante era mudar os espaços e as mentalidades dar outra abertura ao processo educativo. Nesse sentido. Cooperativa de Ensino Leigo. é indispensável. construções. não lhe forneceram nenhuma solução acabada que pudesse aplicar em sua escola de aldeia. acampamentos. Rompeu-se o isolamento em que vivia o professor e que lhe gerava insegurança.. Visitas a várias escolas comunitárias e participações em congressos. feliz.] com o seu jardim — horta e pomares —. A confiança na criança e a fé na vida foram essenciais para a criação de uma escola do trabalho. Sobre a escola. Nascia a CEL. antes. Aprofundava Conceitos. o seu rochedo. 20-1 Ao descobrir a imprensa escolar. de riachos. ”Um projeto interdisciplinar de trabalho ou de ensino consegue captar a profundidade das relações conscientes entre pessoas e coisas. pelo menos. Considera que a concentração necessária para qualquer aprendizagem deve significar. 1991 a. Ele mesmo começou a traçar suas trilhas pedagógicas. descobria e redescobria técnicas que facilitassem a tarefa de orientar a aprendizagem dos alunos. precisa ser um projeto que não se oriente apenas para o produzir. na qual as crianças se realizavam e onde. 1976b. embora o tenham ajudado.” FAZENDA. o seu prado.] Se a própria escola não estiver no centro da natureza auxiliar. no suceder diário da vida. O exercício da vivência cooperativa é um elemento do processo experimental que Freinet coloca no centro do próprio conhecimento pedagógico e de suas técnicas de vida. de terrenos de cultura.

e o professor. e. as reflexões e o born senso das gerações que caminhavam bem próximas dela. desequilibra e modifica o homem e o meio. As regras não devem ser impostas pelos adultos.. Logo. a pessoa ”mudará o aspecto do mundo. o que não pode ser conseguido num meio escolar diferente do meio vital da criança. comia o mesmo tipo de alimento que havia alimentado.normal. Cabe ao educador conhecer as tendência. EM BUSCA DO EQUILÍBRIO: A ESCOLA DO TRABALHO E DO PENSAMENTO O trabalho. a escola do futuro será a escola do trabalho e do pensameto integrada no processo geral da vida ambiente: a criança torna-se sujeito. com sucesso. e muito. da sociedade à qual a criança pertence e das experiências bem-sucedidas. estimula e facilita sua aprendizagem. aquele que orienta.s naturais da criança para orientar sua intervenção. uma vez que ambas dependem. realizar. ultrapassar a si mesmo e dominar os obstáculos.p 41 O meio é o determinante da mudança: ”Um indivíduo maguinifico à partida. o trabalho pedagógico deve ser dinâmico. respeitando o seu ritmo. proceder de forma que a Teve à plena realização do seu potencial de adaptação à ação. 1976a. FREINET. Comparando o ritmo de vida da criança contemporânea com a de alguns séculos atrás. Ao medir sua força diante do obstáculo. a criança habitava. antigamente. no sentido da sua construção. deve partir da base. FREINET 1976a p. tutelarmente. nos mesmos campos. alimentava-se e trabalhava da mesma forma que as gerações que a haviam precedido. p 75 Para trazer a vida até a escola é necessário mudar a concepção do processo de ensino-aprendizagem Para Freinet. a vida é alterada por uma tecnologia ao inovar. caso contrário estaremos ”no campo da domesticação” e ”domesticação não é educação”. enquanto um ser deficiente pode ser regenerado por um meio mais favorável e mais eficiente”. glorificará o destino do homem”. ele percebeu que. O indivíduo necessita se equilibrar. pode soçobrar rapidamente a um meio hostil e pervertido. dominará a natureza. para não se ’opor à corrente de água mas trabalhar no seu sentido e ritmo. tanto como de avançar. gerações anteriores e usava as mesmas ferramentas. a busca de determinado objetivo que está naturalmente na linha da vida. por envolver integralmente o ser. pela qual a criança herdava naturalmente os conhecimentos. com um potencial máximo de poder e equilíbrio. fornece abertura para a sua realização psicológica. do conhecimento que a criança já domina. não havia alterações profundas e radicais do meio: morava na mesma casa. ao exaltar seu potencial de vida e levar ao outro sua ajuda 113 individual. FREINET. Era uma técnica de vida quase perfeita. 1976a. 44-5 Freinet destaca a importância da integração entre família e escola. . ou seja. é a criança que deve lançar ”os pilares em que vai assentar a sua construção”. para fazer nascer os mesmos grãos e colher os mesmos frutos. isto é. Agora.

sem imposições ou ameaças. . a criança vai querer expressarse. A criança deve ser preparada para o papel de homem e trabalhador ativo ou seja. poderoso elemento do comportamento humano. ela adquire disciplina de forma natural. da geografia. ela concentrase naturalmente na tarefa. os germes para o própno desenvolvimento e realização. A criança quer trabalhar. aceitação e permissão.. fraternidade. sentimentos. FREINET. de comparar. dizia Freinet. Quando a criança trabalha de acordo com seus interesses e necessidades. sua disciplina e passar um saber pronto. surge o equilíbrio necessário.. basta o educador a palavra e proporcionar os meios para que se de forma consciente. de controlar. triunfando ao descobrir as próprias potencialidades. conheça não só o que está a sua volta. a liberdade é necessidade individual e social e. que leva ao verdadeiro conhecimento. Não o fará.44-5. ocorre o estreitamento de relações entre os membros da sociedade. criar. embora relativa. não apenas ensinar-lhe os elementos da história.. E. Usando as próprias 114 vivências.” FREINET. aquilo que lhe vem dos sentidos. desde pequena. a intervenção do professor limita-se à organização do trabalho. razão. mas também o que rio passado ou no espaço. quando a criança executa uma atividade que a envolve. que não chega a ser transformado pelo indivíduo em verdadeiro conhecimento. 1978b. em si. A metodologia é essencial. desenvolvendo o melhor que existe em cada um. p. Da fusão dos dois. realizar — ou simplesmente impor seus métodos. porém. empenhada em uma atividade que a requisite física e psicologicamente.] é constantemente solicitada pela sua necessidade de conhecer. 1978. pois ele (o trabalho-jogo) é tudo. conhecimentos. É.Os jogos devem ligar o interesse da criança às tendências vitais do ser se quisermos um ensino ativo. cabendo ao educador tornar possível o trabalho-jogo. Para Freinet. generosidade são características que estão presentes somente no homem que ”pode conservar o sentido do trabalho-jogo” . Por meio do trabalho-jogo. não se lhe retira o encanto de construir. que privilegie suas atividades criadoras.p. pelo seu desejo de experimentar. Inteligência.. Com o trabalho.] é um processo profundo que exige muito mais que uma simples explicação verbal. O essencial é permitir que a criança. Necessita de um esforço que busca penetrar no objeto para conhecê-lo em profundidade. mas permitir que conheça para enriquecer sua natureza e exaltar seu poder sem limite à imaginação. das ciências ou das matemáticas. bondade. O meio ambiente contribui na medida em que proporciona experiências e ensaios mais ricos.. o homem desenvolve total e afetivamente suas potencialidades. para seu papel social. Como a criança traz. e também pela sua tendência para reproduzir por sua vez pela criação e ação [. pois a verdadeira fraternidade. justiça. se não sentir um clima de confiança. ”é a fraternidade do trabalho”. O trabalho é o único meio de expressão e de exaltação das necessidades de ser. ainda. O educador pode ajudar a criança motivando-a a agir. caridade. faz parte da vida e do trabalho de cada um. o único elo comum entre os membros da sociedade. ” A criança que com efeito se entrega ao trabalho-jogo [. 171..

alunos registram.. É. Há dois conceitos-chave na proposta de Freinet: trabalho e livre expressão. os acontecimentos mais importantes de cada dia da classe).. A documentação representa uma tomada de consciência de alguma experiência realizada. a criação. a correspondência.. O importante é que o desejo de aprendizagem e de conhecer parta da própria criança e ela sinta sem demora o resultado da sua atividade. É. os intercâmbios interescolares. Freinet considera três estágios de aprendizagem.115 A LTVRE EXPRESSÃO O conhecimento é necessário e os indivíduos procuram-no espontaneamente.p 12 Citando Lamarck. do unicelular aos seres superiores da mais complexa fisiologia.] há um único prouni\ersal. 1979. Na Escola Moderna. mas com o processo. a ficha.” FREINET. as fotografias e outros meios e materiais. com a sua construção. A inversão começa quando a escola passa a ver a criança não mais como um ser que não tem conhecimentos e ao qual o professor tudo precisa ensinar. para ensinar. com audácia e segurança. 1979.. No entanto. p 12-3 A experimentação é o eixo em torno do qual giram todas as aquisições infantis. permite que ela se expresse. [. Poderia ajudar a criança que ainda não sabe ler. a criação e a documentação. Como documentar sem aprender ao menos os rudimentos dessas técnicas? (citação: Livro da vida livro no qual os. ela mostra que Freinet desvincula a livre expressão de seu significado parcial e escolar. devolvendo-lhe o verdadeiro sentido e amplitude. a documentação só é obtida por meio de registros como o livro da vida. com desenhos ou fotos. ”A livre expressão foi para Freinet uma aventura. Não há a preocupação com a quantidade de conhecimentos. quase não é praticada nas escolas. Praticar a livre expressão significa inverter o método que a escola utilizava para produzir a aprendizagem. a pesquisa válida no decor116 rer de toda a ascensão universal da vida. Cabe ao professor favorecer e organizar o meio. de forma que seja . o jornal. escrever ou contar. ajuda o conhecimento a avançar até lugares distantes. a vida. que devem se interpenetrar e completar a experimentação. ”a livre expressão não é invenção de um cérebro particularmente privilegiado: é a própria manifestação da vida!” FREINET. Enquanto a experimentação e a criação são atividades mais comuns. exteriorize seus conhecimentos Como afirma Élise Freinet. o professor parte da tendência natural da criança para a ação. pesquisar. ] a criatura se impõe como ator de seu próprio equilíbrio e didotação de sua ação de viver [. às mais altas funções da consciência e da vontade. ] estabelecendo o elo permanente entre os impulsos internos e a crescente multiplicidade dos estímulos externos [.

. O seu campo de experimentação é infinito. não considerou a natureza social e formativa do trabalho. . despertar o interesse e orientar a criança que. Das tentativas experimentais e das combinações conseguidas. O controle e a autoridade do adulto devem reduzir-se a fornecer os meios. FREINET. Freinet também a faz. a criança chega a um mundo em que tudo é mistério para ela. normas e um rol de disciplinas. Preocupada em ensinar. Freinet alerta para a força dinâmica que é o interior de uma criança. p. ”Para a criança.possível a tentativa experimental. .] Intrigado. 1978. incompreendidos pelas crianças. tudo está para ser explorado. para Freinet. em qualquer . uma vez que todo o seu trabalho foi voltado para a criança da classe popular. Novinha. Freinet percebe que esse interesse deve ser trazido para a sala de aula. E nisso também ele inova. ou a escola como continuidade da vida.. a fim de evitar desintegração do pensamento infantil. subestimaram os gestos construtivos e sobre eles quiseram enxertar outros gestos. A motivação é intrínseca. é o interesse que a faz avançar. com gesto devoto.. propondo a desintelectualização dos processos de aprendizagem: coloca na base a ação. 1977a. p. os êxitos são repetidos e se transformam em regras de vida. real ou instintivo. o amigo dos bichos: ”Acabado o recreio [. eleva-se à concepção ideal do devir humano. a vida é uma mesa posta com uma variedade infinita de manjares. É. por si só. da experimentação consciente ou inconsciente e. por meio da imaginação.] e vai ajoelhar-se diante de um muro. Quando prudentemente dirigida. se o homem não o limitar arbitrariamente. flagelo da escola tradicional. Freinet observa Joseph que. Havia no buraco do muro uma lagartixa que prendera o interesse do menino. Élise Freinet conta o caso do aluno Joseph. Joseph. que vinha atrás. que são ”a sistematização dos triunfes. agir e realizar. a escola tradicional não se concentrou no que realmente poderia levar a criança à verdadeira educação. Os educadores tradicionais tomaram por pensamento vital palavras vazias. 43. . diminuindo as falsas manobras e os riscos de erro”. A escola muitas vezes exclui a criança por não lhe proporcionar uma educação efetiva e eficaz. As experiências bem-sucedidas passam a integrar os hábitos de vida e conduzem a novas situações. 25. Esquadrinha as ve117 lhas pedras com o olhar ávido [. É para isso que propõe atividades relacionadas ao dia-a-dia dos alunos. Ela deve trabalhar com prazer. que. ] enquanto a coluna se põe em marcha. à altura dos olhos”. essa força conduz a um beneficio próprio: uma aprendizagem significativa. onde. é parte do interesse sem o qual não se conseguirá concentração e atenção. MOTIVAÇÃO: A VIDA DA CRIANÇA Uma das críticas mais comuns à escola é a excessiva importância dada ao aspecto intelectual. o trabalho e todas as formas de exploração. FREINET. eleva os braços para a parede. sai a correr [. vai querer criar. dinâmica. exigindo atividades vivas ou relacionadas com a vida da criança. substituiu-o por regulamentos. é a educação da vida pela própria vida. enquanto uma criação propriamente dita parte do conhecimento. .

62 A educação não deve ser apenas um verniz espalhado sobre o metal fundido. estimulando experiências pessoais. acompanhando e interpretando suas hipóteses e nunca reduzindo a sua ação a um ensino estreito. p. Os indivíduos que viveram os seus primeiros anos em contato com a natureza têm. Na escola. para satisfazer a necessidade üfc Síwòaòe òa criança. desabrocha. Felizmente. 1976. calcular. exclusivamente escolar e individualista. praticar espontaneamente a mais normal e proveitosa das iniciações. Freinet fugia às regras preestabelecidas pela escola. as explicações. com outro ritmo. Se reduzirmos essa escolha apenas a algumas variedades. 1977a. apenas do mal que lhe fizeram. Os conhecimentos. como também perigoso. diferente do que vive.p. mostram-se mais dinâmicos para a realização do seu destino. compreendia que precisava colher. em que levava os alunos para onde eles se sentiam felizes. Levou os alunos à oficina .momento. os novos elementos para o seu trabalho pedagógico. que mostre fastio ou repulsa. os elementos de base dessa nova educação. Com freqüência. as lições só têm valor se ligados às experiências pessoais. ela encontra alimentos ao seu gosto. sofre como as plantas e as flores. acanhado. Se o educador não tiver paciência.” FREINET. vivência muito mais rica e equilibrada. há preocupação apenas com a quantidade. Ela não pára de comparar. que não só pode ser inútil. pode acontecer que a criança se afaste. não fará mais que um trabalho de superfície. impõe-se a memorização. um mundo de horários e deveres. às cercanias da escola. a criança fora das aulas retoma quase todos os seus direitos. será forçada a procurar. as linhas normais e salutares do seu crescimento”. A solução encontrada foram as aulas-passeio. Em vez de buscar enriquecer o ser humano. a criança precisa encontrar a continuação da vida no lar e não ser transportada para outro mundo. na escola. experimentar. enchem-se cadernos. os conteú118 dos que transmitem são alienados da vida. FREINET. fora das quatro paredes da sala de aula. A criança também participa da vida da natureza: cresce. finalmente. Segundo Freinet. em vez de assimilar os conhecimentos por si mesmas. produzir marcas permanentes. seu marido ”começou por ir buscar à vida da aldeia. a escola e o educador tradicionais têm demasiada pressa. cabe ao professor oferecer modelos. De temperamento audacioso e não se conformando com a passividade que a escola do seu tempo impunha à criança. Para Freinet. Ela deve gravar-se na criança para toda a vida. fazem-no por meio do professor ou para o professor. 216-7. ”a natureza terá que quebrar esta crosta que incomodará e desviará o seu florescimento e porque. não der tempo para o aluno assimilar os conteúdos. que se oponha e bata com os pés no chão. outras regras às quais tem de se adaptar mais ou menos depressa. na própria vida das crianças. pois possuem experiências tateadas na base de seu comportamento atual. Segundo Élise Freinet. em geral. As crianças convertem-se em sujeitos orientados exclusivamente sob o ponto de vista escolar.

27. integrada na vida dos homens. A partir desse dia. ferreiro. fala-lhe constantemente. Não era mais o professor que ensinava.6. inspiração e expiração —. que. FREINET. explorando os arredores da escola. Esta se abrira para a vida pela cooperação. Ela não tinha mais só a preocupação de formar o homem de amanhã. consciente de seus direitos e capaz de cumprir seus deveres no mundo. um círculo grande de profissões havia sido transposto para poemas: marceneiro. todas as combinações que o seu organismo permite — movimento da língua e dos lábios. mas o aluno que procurava aprender. no qual a simpatia e a disponibilidade venham ao encontro das suas iniciativas mais secretas.do tecelão. a criança naturalmente sentiria a necessidade e o desejo de estudar. embora aparentemente lógico e científico. . num meio pedagogicamente favorável. ”A mãe não se contenta em escutar o balbucio do filho. pôs todo o seu saber à disposição do bando juvenil e curioso”. Uma metodologia voltada para o rendimento escolar pode ter boas intenções. 32. A SENSIBILIDADE DO EDUCADOR Um método artificial. etc. Para desabrochar. compôs um poema sobre o tecelão e leu-o aos seus alunos. ação dos dentes. Como a criança aprende a falar experimentando sucessivamente todas as possibilidades fisiológicas e técnicas. integrado com a vida comunitária e social. Freinet pretendia buscar na experiência coletiva os elementos necessários para uma aprendizagem crítica e dialética. porém o rigor do controle a excessiva preocupação com a disciplina exterior atropelam e inibem a espontaneidade da criança. fez um pequeno tear na sala de aula. não nos permite captar toda a sensibilidade infantil. muito obsequiosamente. Logo. 119 Para manter o interesse que a visita havia causado. p. 1976. imitando o adulto. a criança exige um clima de liberdade e confiança. os alunos compreenderam a utilidade dos poemas e começaram a aprender alguns. 120 A expressão livre não é uma simples fórmula que o educador se limita a observar e deixar seguir. pela organização regular do trabalho e pelo estabelecimento de relações mais humanas entre professores e alunos. não permitindo avaliar suas reais possibilidades. padeiro. Toda aprendizagem deve permitir o conhecimento das própias regras que lhe formam a base. Se o trabalho escolar fosse motivado como o comportamento fora da escola. O processo precisava ser natural.” FREINET. deverá ser orientada pela escola a aperfeiçoar mais e mais a sua linguagem. A velocidade e a qualidade da aquisição infantil serão função da riqueza não só formal mas também afetiva do exemplo permanente que ela oferece às suas experiências. mas uma pedagogia ousadamente centrada num trabalho interdisciplinar. p. mas também a de transmitir-lhe a verdadeira cultura. por intermédio de uma pedagogia popular e democrática. 1978.

depois as combina comp. e que não deveria existir.. que dão origem às palavras. sem esquecerse de motivá-la a buscar o próprio aperfeiçoamento. abstrair o objetivo da alfabetização. e cuidadosamente manter afastadas as ervas daninhas. é a da dependência entre mecanização e processo inteligente. Pela pedagogia tradicional. r. o. traduzir as palavras em pensamento. e. Deveis [os educadores] aprender do jardineiro esta integração da vossa ação na harmonia natural e principalmente esta comovente confiança na vida.p 60 Talvez a filosofia que ainda falta ao nosso educador e que Freinet recupera de Rousseau seja a paciência da espera. o processo ocorre de forma diferente: a criança ainda muito nova faz-se compreender muito antes de dominar a técnica da fala. crescerão o e florirão. Portanto. quando chega à escola. tudo devem fazer para não os passar adiante. u —. a questão que se coloca. A criança pode chegar a decifrar sem saber. O desafio é o professor ser formado para entender que a criança. Grita. Leitura e/ou escrita e compreensão são dois momentos distintos da mesma operação. para formar sílabas e sons mais complexos. fatos ou acontecimentos expressivos. ela as modula com habilidade. assusta. folhas e ramos supérfluos. I977a. i. ainda que mecânica. a calma serenidade do Inverno.” FREINET. de forma a construir palavras e frases que chegam a surpreender os adultos. Era preciso conseguir. no entanto. que só cuida das flores do jardim quando elas estão prestes a desabrochar. Na vida.] as vossas pequenas plantas viverão. ”[. que é favorecer o desenvolvimento da comunicação e expressão com ênfase no processo de produção e utilização de textos. Há o mecanismo da leitura ou da escrita e a compreensão do sentido. Mas a questão continua: qual o caminho para diminuir a defasagem entre aquilo que o professor conhece/aprendeu sobre a alfabetização e o modo como desenvolve essa alfabetização em sala de aula? Ao contrário do jardineiro. Embora aalfabetização. permitindo que chegue à planta o máximo de luz. mas segundo as linhas misteriosas da sua compleição. pois. já interage ou tenta compreender que espécie de sinais são aqueles que se utilizam para ler e escrever. cada uma delas.. ar e sol. ela dificilmente estará harmonizada com os pensamentos. s.aperfeiçoar experimentalmente suas técnicas. conforme os caprichos da vossa vontade. na verdade. o melhor possível o apelo profundo do seu destino. Devem começar pela preparação do terreno: oferecer born alimento à jovem plantinha. esta paciência exemplar na presença do lento processo pelo qual se elaboram a riqueza da Primavera e do Verão. Quando dá uma lição ou trabalho ao aluno. a fecundidade do Outono. cumprindo. quer imediatamente verificar o resultado. a criança aprende as vogais — a. os educadores. Mesmo conhecendo apenas quatro ou cinco sílabas e/ou palavras. . t. conscientes dos erros de sua formação. É necessário deixar a criança falar e/ou escrever livremente e a sua maneira as palavras do próprio vocabulário. não. tornando-as mais eficientes diante dos problemas complexos da vida. possa levar a pessoa a ler e escrever sem erro. A proposta de Freinet constituía o início da transição da 121 mecanização (codificar e decodificar) para a construção (ênfase nos conteúdos ou no processo de aprendizagem da escrita). da leitura ou da escrita.

108. ”Todos somos pesquisadores. Hoje. não pode esquecer as riquezas da infância. duram toda a vida. O professor que dá apoio a seus alunos. P. É. O verdadeiro educador deve ser sensível para acompanhar a construção do conhecimento por parte da criança. 1976. desempenhando o papel de catalisador e de confidente. torna-se inteligente ao inscrever-se no processo funcional do indivíduo (permeabilidade à experiência). antes mecânica.p 124. a pesquisa. pesquisar é um processo instintivo através do qual o homem busca o próprio crescimento: tateia porque quer caminhar em direção a um objetivo que serve à vida. 1979. de que estamos a nos ocupar. uma demonstração da sua ciência especial e tudo. conservar a iniciativa e o entusiasmo. ajuda122 os a veneer obstáculos. consiste precisamente em permitir a experiência por tentativas da criança em todos os domínios”. e tende a se reproduzir mecanicamente para transformar-se em regra de vida. Freinet sobre o comportamento processo de pesquisa: FREINET. mas simplesmente de profissionais conscientes do seu papel de educador. de lógico ou de definitivo. surgem algumas dificuldades e perigos. A automatização só acontece como um ato inteligente.” FREINET. segundo Bachelard e os artistas e poeus citados por Freinet. isto é. adverte Freinet: ”A simples explicação teórica e o estudo formal das regras e das leis não bastam para fundamentar algo de sólido. Não devemos assumir uma postura de especialistas que dominam o saber.FREINET. que. nos grafismos infantis. Mas. P. É. quando esses achados chegam à prática e são utilizados por professores reais no contato diário com a criança. 123 )grifo nosso). continua dentro de concepções puramente pessoais. Não são as conquistas que impulsionam o homem para a frente? Escrevia Freinet em sua sétima lei do comportamento: ’Uma experiência vitoriosa enquanto se pesquisa cria como um apelo ao de poder. Nessa aprendizagem. 123 Síntese de É. suas demonstrações e seus raciocínios devem proporcionar uma modificação imediata no pensamento e na ação dos educandos.castiga porque acredita que suas palavras. Acreditam que uma teoria advinda de uma pesquisa em laboratório pode esclarecer definitivamente o que a criança pensa em relação à escrita. antropólogos. (esquema: um fator seguido do outro) humano durante o . para isso. lingüistas procuram estudar e interpretar como a criança constrói o seu conhecimento da língua escrita. no geral. psicólogos. proporcionando-lhes maiores possibilidades de triunfo na vida. 1979. O grande segredo da educação inicial. inúmeros pedagogos. No entanto. Élise Freinet sintetiza as palavras de Freinet pelo esquema que veremos na página seguinte. como em todas as outras. Sistematizam as diligências da criança apenas num sentido ou projetam situações adultas e mais ou menos fantasiosas nas situações simples e ingênuas das crianças. Cada qual a seu modo busca descobrir.

. precisar-se e florescer a sutil expressão gráfica [. porque foi construída no período afetivo da primeira infância. progressivamente vamos ver nascer. Como toda criança normalmente desenvolvida. ao contrário. que nunca conheceu o método tradicional.. desde muito cedo buscou experimentar o seu poder: ”Bal (l ano e 8 meses) viu-me escrever com um lápis numa bela página branca e imediatamente sentiu a necessidade de me imitar.. Para Freinet.] Este primeiro domínio do utensílio é incontestavelmente um progresso e uma vitória”. chegando. contudo. de forma natural. decepção! Não há riscos! Mas do outro — que maravilha! i movimento da mão deixa o seu traço mágico. linhas quebradas ou circulares. que precisa ser constantemente praticada para não ser esquecida. De modo algum. Freinet acompanha o processo de aquisição natural da língua observando longamente sua filha Baloulette (Bal). Como outros pesquisadores. a comparação e o pensamento. podem apresentar-se por meio de grafismos retos ou verticais. Na repetição e conseqüente aperfeiçoamento do grafismo. À medida que melhora seu traçado. constituída de tentativas de exercitar a mão. pode-se considerar que nessa fase é o pensamento que dirige e regula qualquer ato de criação. 1977a. a representar figuras geométricas mais ou menos regulares e até justapostas. a criança tenta justificá-lo com uma explicação posterior. como se pode ver no quadro. às vezes.. há como que uma intenção automática. 124 As linhas duplicam-se. ou nãodiferenciado. A linguagem familiar contrasta com a linguagem aprendida na escola — para fazer os exames ou satisfazer as exigências do currículo escolar —. deste primeiro e informe desenho. pois só assim obterá a unidade do saber. ou uma combinação de vários elementos. FREINET. pega num lápis que agarn desajeitadamente como um cabo. é deste que originalmente nascem a explicação. sem qualquer ensaio de coordenação e. Dependendo de cada criança. A língua materna nunca é esquecida. Em estudo .] O grafismo. À primeira chama fase do grafismo simples. nem uma sílaba sequer. as crianças realizam suas primeiras tentativas de comunicação por escrito. toda tentativa da criança tem um objetivo. Freinet divide em cinco as fases da aquisição da escrita. Deste lado. p 79-80 Nessa fase. para exercitar a mão. diz Freinet. respondem a todas as exigências do indivíduo e favorecem as aprendizagens. a princípio absolutamente informe. uma finalidade — imediata ou não — que precisa ser iluminada por atividades construtivas.Recarga vital → pesquisa → Conquista → Permeabilidade à experiência → Regra de vida O fator: Recarregamento de energia reflete sobre: Permeabilidade à experiência e Regra de vida AS FASES DA ESCRITA O método natural. meandros. a livre expressão e a pesquisa experimentai são o prolongamento da experiência pessoal.. É o indivíduo que deve construir as bases profundas de seu conhecimento. organiza-se lentamente [. cruzam-se ao acaso.

fase . p. Os grafismos começam a se aproximar das formas das letras e dos numerais Nessa fase. seus primeiros triunfbs precisam ser transformados num sólido ponto de partida para uma educação altamente promissora. Para aprender a desenhar. A criança domina e identifica um número razoável de palavras e sabe se comunicar por escrito. 4. afirma: ”Ao nascer.comparativo entre a evolução do grafismo e da linguagem oral na criança. a criança já começa a diferenciar desenho e escrita 125 3ª fase -fase da imitação da escrita: utilização de letras do próprio nome ou nomes conhecidos com repetição e automatização do grafismo conseguido. [.fase da escrita alfabética. grafismos separados ou ligados por linhas curvas ou quebradas. para copiar exatamente um modelo ou para realizar-se. A criança só consegue traçar com êxito uma linha reta ou um oval regular depois de ter rabiscado linhas curvas. Observando seus alunos e sua filha Bal. giz ou esferográfica — que produz o primeiro traço”. por meio da aquisição de mecanismos e conhecimentos. uma realidade material: a possibilidade de dispor de um instrumento — lápis.diferenciado. A criança já percebe que há regras e formas fixas a imitar.p. isto é. 2ª fase . 38) Esta ainda não é uma escrita. quebradas. É o começo da escrita consciente.] O mesmo sucede com o primeiro grafismo. Não é expressão nem comunicação consciente. 1977b. mas um processo de criação como muitos outros. ”Ao primeiro grito corresponde o primeiro grafismo. a criança procura interpretar seus desenhos e sua escrita. I977b.20. da qual a criança não se separará mais. passo a passo. na base. Começa a interpretar e reproduzir textos e a solicitar referências aos adultos. I977b. Esta lhes forneceria as noções técnicas necessárias. FREINET. pois os pais e os educadores afirmavam que as crianças não sabiam desenhar nem pintar e deveriam ir à escola para aprendê-lo. A criança utiliza – se de garatujos. ”Não obstante os ensinamentos dos pensadores e as .fase do graftsmo diferenciado e/ou justaposto. Existe. irregulares.fase da utilização dos sinais convencionais (letras e números). Na época. 5ª fase . uma vez que os sistemas psicológicos e pedagógicos consideravam que a formação do indivíduo devia acontecer de forma cumulativa. mas o primeiro desenho. com ou sem valor sonoro.fase do grafismo simples ou não. suas idéias eram bastante avançadas. a criança desenha. 126 pois a livre expressão e a intuição proporcionam à criança a progressão indispensável para a criação e integração metodológica. a criança grita porque o seu aparelho respiratório e a conformação da sua laringe são tais que produzem sons à passagem do ar. enriquecer-se e crescer. Pelo método natural...” (FREINET.p 37-8 Fases da escrita segundo Freinet: 1ª fase . o trajeto rumo à aquisição da escrita. Suas primeiras garatujas. Freinet descreve. A criança desenha para imitar o adulto.

E o indivíduo quer viver”. Ao relatar. ”antes mesmo de entrar para a escola infantil. O objetivo dessa intervenção era mostrar-lhe exemplos melhores e colocar a sua disposição instrumentos próprios para suas necessidades de criação. Ambos confrontaram 127 suas propostas com as dos métodos tradicionais. como qualquer criança pequena. evidenciando que a prática da alfabetização (como a prática pedagógica em geral) é sempre social e. Freinet mostra o contrário. Freinet indica as formas técnicas desse auxílio que. o fracasso é sempre destruidor e perturbador: ”É a doença. a experiência . do canto. Freinet vê o educador como aquele que medeia a construção do conhecimento pela criança. que seriam os seus elementos constitutivos. ou seja. sinais de qualquer ordem)”. para Freinet. depois à imitação dos sinais gráficos de palavras e de letras. por exemplo. Os meios práticos desta cultura são a memorização. não tinha ainda condição de entender o que são e o que representam a leitura e a escrita. as lições e os fatores de sanção inerentes. para ele. é a tarefa por excelência do educador que quer contribuir para a formação e as aquisições da criança. para desenvolver. à utilização de palavras e sinais. pormenorizadamente. Todo homem tem necessidade de triunfar e. FREINET. serão retomados espontaneamente pelas crianças na aula: o sentido de proibido. dinâmica e dialética. p 44 Alguns desses sinais. \e\s. conhecidos e compreendidos. quando o espaço é demasiado restrito para a circulação sem regras.demonstrações teóricas dos investigadores do passado e do presente. continua persuadida de que não há cultura possível sem um estudo metódico de tegsas e àe. um processo global. o sofrimento e a morte. É uma aprendizagem na qual não há necessidade de lição ou regra. a ”leitura” é global. expressão e relação. Freinet afastou sua filha Bal da tirania dos métodos tradicionais porque ela. etc. que não é pela explicação intelectual. I977c.p. da música. convida-nos a acompanhar a evolução da criança no desenho e na escrita. Freinet. ou pré-silábica. 1977b. mas pelo mesmo processo geral e universal da tentativa experimental (a mesma utilizada para falar e andar) é que a criança construirá o seu conhecimento. que apenas diversifica e acelera o processo. da linguagem escrita.21. A criança evolui naturalmente dos rabiscos ao desenho. os exercícios. estabelece-se um contato entre a criança e o sinal convencional (cartazes. o mesmo que regula a aprendizagem da fala e do andar e que está na base de todos os atos correntes da vida. A primeira fase é semelhante à que Emilia Ferreiro denomina nível I. aos 2 anos. 1977a. seja de que nível for. Nesse momento. FREINET. p 22 Toda aquisição é fruto de tentativa experimental pessoal. pelo recurso às regras e às leis que se faz uma aquisição. no seu método natural. da pintura. Freinet considera que. o esqueleto a que em seguida bastará insuflar vida. em planos sempre mais complexos. a escola.”FREINET. Foi esse o seu objetivo e não o desejo de fazêla viver afastada do mundo. como um novo Robinson Crusoe (citado por Rousseau). ficando entre esta e o objeto do conhecimento. a evolução do processo de aquisição do grafismo pela criança — do desenho à escrita —. Como ela. como tal.

natural e forte”. Estas primeiras formas da ’escrita’ podem estar ligadas ou separadas. sobrepostos ou mesmo circulares. no monento desejado. imtada por ter feito nscos circulares. É o início da segunda fase da escrita. Daí a importância dos estímulos e da paciência. vai querer repeti-lo. porém é importante afirmar o seu poder e alcançar o domínio fisiológico desse êxito. que aperfeiçoará a sua expressão. ou fase do grafismo diferenciado e/ou justaposto. Seus desenhos são um meio de ação sobre o meio. ’A criança. p.] Não tentaremos dotar os passarinhos de asas fictícias para os pôr demasiado cedo fora do ninho. Não sabe ainda como fazê-lo. acaba por dar grandes pancadas com o bico do lápis.” (FREINET.p. Repete grafismos. mas de reinventá-la. Para a criança ascender de uma fase a outra é necessário.. 41) 129 Nascem pontos e manchas que antes não existiam. complicam-se gradualmente com a introdução de linhas quebradas. 1977c p. p. Freinet referese à ilustração a seguir. imitando a forma estabelecida e imposta pelo meio. 40-3. I977c.39-40.parfim. 1977b..45.tentada. certos de que o vôo há de chegar sem falta. A criança que deu um grito. aos 2 anos e 4 meses.fatigaila.Dominique. sobrepostos e circulares. um triunfo mais especializado. ”aparecem sinais diferentes do desenho que a crianca interpreta como sinais escritos. riscos carregadost. aos 2 anos e 4 mesesFREINET.] não basta partir muito cedo e a toda velocidade. Podem ou não acompanhar desenhos”. Da mesma forma. (Desenhos de 2 crianças: Bruno aos 2 anos e 3 meses. p. sem o qual não há razão de ser da escrita. FREINET..) “Os traços inicialmente direitos. segundo Freinet. 119-22 128 Não se trata de inventar a técnica da escrita. ela executa o seu primeiro grafismo.”(FREINET. diferenciando-os em muitos outros elementos. É um novo triunfo. Deixaremos pacientemente que as penas cresçam e se desenvolvam. ao perceber a sua repercussão no ambiente. da mesma forma que acrescentará o grito aos gestos. esboça com gestos mais bruscos traços atiguíosos. 1977a. O importante é o ponto de chegada e o estado da criança nessa chegada. que gradualmente irão se complicando com a introdução de linhas quebradas. FREINET. . Aos riscos arredondados acrescenta pontos e manchas. FREINET. 1977b. I977b. que um novo elemento intervenha. FREINET. Para Freinet. p 44 (Primeiros grafismos de Claude e Netty: diferenciação entre desenho e escrita. [. depois vai repetilo e aparecerão traços retos. é como o desejo ”de dominar o instrumento e orientar o seu uso no sentido de formas que representam já um começo de diferenciação”. de esperar a criança caminhar no próprio ritmo: ”[. Desde os primeiros desenhos ou garatujas das crianças.. 4) Mariette. que a criança vai procurar reproduzir mecanicamente até dominar. 1977b. agora também justapostos.

Depois. a criança ainda não havia tentado explicar o seu desenho. e que a criança consegue reconhecer. “criança esforça-se para reproduzir a mancha negra no meio dos rabiscos. 1977c. se lhe perguntássemos o que desenhara. em cumplicidade com oprimo Alain. vitória traduz por pequenos grafismos isolados. (FREINET. sinais gráficas pessoais para dar os parabéns à mãe. empregando simultaneamente os sinais primitivos. aos 2 anos e 4 meses. E Mariette.p47) A repetição de grafismo conseguido e mais especializado automatizase. ela iria procurar explicar seus grafismos. pois nada significava. 1977c. o sentido e a figura psíquica das palavras. ”a profundidade e a riqueza desta primeira . vai penetrando cada vez mais no reconhecimento dos sinais que. o medalhão da mamãe e até o coração da flor. distingue no desenho uma maçã e uma flor. se o adulto ou as outras crianças lhe derem importância. l e outras (p) — e.O primeiro contato da criança com a língua escrita é pelo seu próprio nome.FREINET. aos 4 anos. 1977b. era apenas uma forma global imitada do adulto. p 46 Leonel (4 anos) copia o nome. como na figura anterior. (FREINET.p. 131 (Figuras) Nicole (aos 2 anos e 5 meses). aos 2 anos e 5 meses. Primeiro. Esse grafismo será particularmente um triunfo.p. Escrita a partir das letras do nome) Bal também aperfeiçoará sua técnica não só do ponto de vista gráfico. (Figura: Bruno. 1977b.” FREINET. simultaneamente. utilizando certas letras desse nome — L.A criança conquistou um um novo patamar.. 130 (Figura FREINET. etc. por tentativas. p. nas quais Nicole e Mariette procuram interpretar os próprios grafismos. 43) Na fase anterior.47: Leonel.1977c. Mariette distingue sobre o papel: um sol. No entanto. n. De início a criança ”lê” as palavras que escreve. p. Para Freinet. f. que a professora escreve nos seus desenhos. a lua. ”Vê-la-emos seguidamente utilizar certos elementos-letras desse nome para ’escrever’. como dois processos simultâneos. após ter tentado escrevê-lo sozinho. mas também da lógica da explicação. a criança familiariza-se com o valor. no seu estojo. uma vez que só escreve aquilo que compreende. É o que está representado nas figuras a seguir. na sua mesa.45) 132 O reconhecimento sincrético e sensível do conteúdo do texto é a única razão de ser da leitura. 44) Na tentativa de interpretar o mesmo desenho.” (FREINET. 1977b. constituirão a verdadeira leitura. mudos ou verbalizados. biscoitos.

p. Bal passa a imitar Freinet na leitura e na escrita. repetindo os êxitos conseguidos.aquisição experimental são o escalão prévio do qual decorrerão a rapidez e a segurança das aquisições ulteriores”. E. primeiro como meio de ação sobre o ambiente e. a flor. etc. ”Ela não faz aquilo como um jogo. depois. um clima favorável à eclosão e ao desenvolvimento da escrita e do desenho infantil.. pelo método natural de leitura a criança começa lendo as próprias palavras que escreve. um texto manuscrito que 133 é o complemento necessário para a explicação narrativa do desenho ou que talvez não seja mais que um ensaio que vai aperfeiçoando na imitação de uma técnica a que o adulto ostensivamente da grande importância ” FREINET.. (FIGURA : FREINET. anúncios. como se eu fizesse uma coisa natural. a criança avança por tentativas. A criança que convive com a escrita e que encontra desenhos por toda parte (em jornais. 1977a. é porque vê nisso uma finalidade. FREINET. diz Freinet.. que reduzem os exercícios a séries de palavras descontextualizadas e que não levam em conta o esplendor das conquistas vivas das crianças. exemplifica com um desenho de Bal: observa que a menina ”desenha grafismos bem definidos na carta que o pai escreve à avó: um pato.) Diferenciação entre desenho e escrita (FIGURA: Bal imita Freinet: ao terminar a página< assina e sublinha. Ele compara essas duas primeiras fases com o treinar a pegar no arco e a fazer gemer as cordas do violino: enquanto não dominar a técnica do grafismo. Cabe ao professor criar. O mesmo acontece com o desenho e a escrita: a criança que vive em um ambiente estimulante — em que vê o adulto escrever e desenhar. convive com adultos que valorizam suas primeiras produções — experimenta com mais intensidade o êxito. Diferentemente do aprendizado da leitura em cartilhas. Tal como para a leitura. na carta à avó sente . ajustando lentamente as suas experiências. isso não a surpreende. na sala de aula. por um lado. Uma vez que é tão fácil ler. tal como ela lê nos desenhos o que está no seu próprio pensamento e apenas isso [. mas porque acredita realmente que aqueles que lêem decifram no papel aquilo que está nele. se a criança tem a tendência de imitar o adulto ao querer inserir uma ação exterior no processo de sua própria tentativa. como forma de expressão. dispõe de lápis e papel. Assim. é muito importante. certamente não é mais difícil escrever [. por outro. embalagens) vai querer escrever e/ou desenhar. embora não tenha ainda qualquer idéia da significação da leitura e do que a escrita representa. ] Bal chegou agora a uma etapa nova: na sua página existe. o automóvel.p. 96. p. pois. Ela vai querer se apoderar desse instrumento social mais rapidamente. 133. novamente. 134 O exemplo. 1971 a. Mas toma consciência da escrita adulta. 93-8. revistas. o desenho e. 1977a.] Bal vê-me escrever com uma grande facilidade. da sua rapidez e dos seus sinais dispostos em linhas..

Observa-se também um regresso ao desenho justaposto e sobreposto com texto a completar a página. 1977 a. com título e assinatura (sublinhados). um degrau vencido que servirá de ponto de apoio para as outras conquistas. produzir beleza.. 1977b. mas não deixa de ser para a criança uma conquista definitiva. é necessário que intervenha um elemento novo sem o qual a escrita não teria razão de ser. 1977a.] O texto manuscrito entregue à sua própria sorte não é mais que um rabiscar sem significação intuitiva nem beleza atraente. para que a evolução prossiga. p 101 Na figura que ilustra a escrita autônoma. p 100) Diferênciação da escrita. o texto precisa ter a função de um instrumento ao qual aquele que escreve sente o desejo de recorrer.. além dos sinais já citados.\ET. é porque o homem nada tinha a dizer para corresponder-se com outros homens afastados. os o ou a diferenciam-se lentamente”. É um primeiro triunfo de uma reprodução fácil e simples.p. um pensamento ou uma ordem”. I9~!7b. grifando-os. Além dos t e dos /. Posteriormente. ] Mas. FREINET. mais rapidamente ela avançará na escrita e entenderá o que é e o que representa. a partir dessa separação. configurando uma nova fase. FREINET. Em nosso século. [. p 103 Enquanto o desenho pode bastar-se a si mesmo. essa escrita é repetida e se diferencia totalmente do desenho. como se pode ver a seguir. por isso. Só ganha o seu valor pela sua função de instrumento. 136 (FIGURA: FREINET. (FIGURA: FXEI. vida. Ao assinar seu desenho.necessidade de reforçar a sua aquisição gráfica com a imitação da escrita. 1977 a.p 48 (FIGURA: Freinet. um meio de expressão até então desconhecido”. há disposição sintética do texto. Se antigamente a escrita era pouco utilizada. ”começa a sua história autônoma. A escola tradicional não descobriu 137 essa motivação e. de intérprete para exprimir um desejo. 49) Desenho de Bal aos 3 anos e 10 meses. O processo empregado para o desenho transfere-se agora para a escrita 135 Se o ambiente favorecer a tentativa experimental da criança. p 101) Escrita autônoma. assegura Freinet. 1977 a. diferenciando-se do desenho Seus caracteres aproximam-se mais das letras convencionais. apoio para novas conquistas. FREINET. que Freinet descreve minuciosamente: ”Vemos aparecer o primeiro sinal diferenciado: a cruz que imita o í. É o alvorecer da verdadeira escrita Quando acontece essa libertação. . [.. cores. Aparecimento do e ou /. impõe um ensino de fora ou pelo constrangimento. Bal usa o mesmo princípio dos grafismos conseguidos e escreve duas vezes o mesmo motivo.

as descobertas e a intensificação dos deslocamentos humanos tornaram mais e mais necessária a utilização de meios de comunicação a distância — e a escola permaneceu, timidamente, no estágio primitivo, sem motivar para a escrita. Hoje, as crianças e familiares recebem cartas com fotografias, convivem com muitos escritos, percebem a razão da escrita e da leitura. Isso é ainda mais acentuado nos lares onde elas são expostas freqüentemente a atos de leitura e escrita. Freinet criou em sua sala de aula um ambiente semelhante ao das crianças da classe média, introduzindo nela o jornal escolar e a correspondência ínterescolar, reproduzindo o mesmo ambiente que Bal vivenciava em sua casa. Escrevendo muitas vezes e em presença da filha, correspondendo-se com parentes distantes, ele vê que a menina também sente vontade de escrever para a madrinha, para a avó ou para as primas. Aos 4 anos e 3 meses, Bal começa a escrever as suas primeiras cartas independentes do desenho, iniciando a utilização dos sinais gráficos convencionais, embora sem valor sonoro ou qualquer diferenciação progressiva e global do conjunto gráfico. (FIGURA: FREINET: 1977ª, p. 106.) Bal, com 4 anos e 3 meses, escreve à prima O documento mostra progresso na escrita linhas quase regulares, margem, uso de sinais convencionais da escrita (t, o, a, e, l) 138 (FIGURA: Freinet, 1977,a, p. 107.) “Bal copia para adquirir o dominío da técnica.” A menina passa a perceber que há regras e formas fixas a imitar. Já escreve o próprio nome e os das pessoas queridas, começando a relacionar o som à grafia. O sentido da escrita, como a ligação entre a língua falada e a escrita, está descoberto e já aparece o entendimento da convenção (emprego de letras e números). Não há mais mistura entre o desenho e a escrita. Começa a quarta fase da escrita ’e é somente nela, diz Freinet, que a criança vai se interessar pelo texto redigido em comum na sala e tentar reproduzi-lo: ”Copia algumas letras ou palavras de um livro ou de um jornal. Aplica-se durante alguns dias a reproduzir números que são sinais nitidamente separados, de uma forma mais geométrica e menos caprichosa do que as letras. Vamos assistir primeiro à evolução destes ’exercícios’ espontâneos ou, antes, continuados, não como obrigação, mas sob o impulso das necessidades nascidas da nossa poderosa motivação”. FREINET, 1977a, p 107. (FIGURA) ”Bal experimenta o seu domínio, utilizando sinais em cujo traçado triunfou anteriormente.” (FREINET, 1977a, p. 108) 139 Os sinais, longe de serem rígidos e quebrados como numa escrita de base analítica, são ágeis e ligados, formando uma espécie de harmonia sintética. Só após atingir o domínio da técnica, a criança começa a estabelecer relação entre o grafismo das palavras e a palavra oral ou o pensamento.

Percebe que as letras e as sílabas são sinais, grafias de sons que ela pronuncia ao falar e que, associados ou combinados, permitem traduzir graficamente, escrever as suas palavras e as suas frases. Durante muito tempo, a criança utiliza essa conquista para pôr a funcionar o novo instrumento adquirido, nomeando desenhos, escrevendo os nomes próprios de familiares: papai, mamãe, vovô, Max, Germaine, Dedé... Essas palavras conhecidas são como que o eixo para todos os grafismos. Começam os pedidos de referência à professora e a sua utilização em frases e expressões. Numa classe Freinet, os textos das crianças são afixados e, depois de impressos, constituem o livro da vida da sala de aula.”[...] a identificação da palavra com o objeto, a compreensão do código e a cópia cada vez mais correta das letras avançam consoante o ritmo de cada criança, mas num ambiente rico e numa atmosfera propícia.” FREINET, 19770, p 49 Aos poucos, as crianças deixam de utilizar essas referências e, com um maior domínio da língua escrita, o sentido do sinal passa a revelar-se na identificação do objetohistória com a expressão escrita (sentido do texto) Quando dominar e identificar um número razoável de palavras, suficientes para compreender o pensamento nelas expresso, a criança conseguirá ler o texto. Bal, comenta Freinet, no dia em que lê a palavra forêt (”floresta”), ”começa por ler ’for-te’... Mas que quer dizer aquiIo? Lê finalmente: Ia forêt, mas precisa ainda um momento para vestir a palavra na sua verdadeira figura, para identificar o grafismo e o som e o sentido que contém. Ah! compreendi, disse ela por fim.. Por vezes lemos sem saber ler Sabemos ler a palavra, mas não sabemos o que ela quer dizer. É como se não soubéssemos ler”. FREINET, 1977a, p 134 As palavras de Bal nos esclarecem sobre o fenômeno da explosão, ao qual os pedagogos davam tanto destaque com sua ingenuidade, a menina fala aquilo que o educador nem sempre consegue dizer. O verdadeiro sentido da leitura, para Freinet, não se adquire por meio de exercícios estéreis de fonetização com base em si140 nais manuscritos ou impressos, “mas pelo reconhecimento do pensamento expresso pela interpretação destes sinais”.FREINET, 1977a, p. 135. No decorrer da evolução novas conquistas vão se juntando, integrando e justapondo às primeiras, de forma mais ou menos lógica. Às vezes, temos a impressão de que a crança regride. É o começo da escrita consciente e da qual ela não se separará mais. Difere da escrita em que a criança é treinada e passa a imitar letras, copiar palavras e frases. (FIGURA: FREINET, 1977a, p. 114.) Bal, aos 5 anos e 6 meses.Novas palavras ou sinais vêm intercalar-se ao texto, totalmente original, ao lado de desenhos explicativos (reminiscências do passado). A copia e o ditado nessa metodoligia tomam outro sentido “A criança escreve todas as palvras que conhece, seja pela cópia imediata de um modelo, seja por uma construção fonética que irá aperfeiçoando até reproduzir o mais exatamente possivel a figura gráfica, por assim dizer, “oficial destas palavras”. FREINET, 1977a, p.134.

Ele convida o educador a abandonar, temporariamente, as preocupações escolares para ver os problemas da construção e uso da língua escrita com mais objetividade. Já no inicio do século. XX, denunciou que o ensino praticado nas escolas impedia a criança de redigir, ao impor prioridade ao dominio do rabiscar com modelos ou pontilhados. “Tais documentos obrigan-nos a ultrapassar as considerações escolares do realismo, as explicações parciais e tão pobres pela habilidade motora da 141 mão, coordenada com a acuidade visual. A criança situa-se para além das preocupações pedagógicas do pedagogo; acha-se imersa num estado de vida total que ultrapassa os seus meios de expressão; arrisca-se integralmente numa tentativa experimental que inflama todas as lenhas; é por si próprias que as energias instintivas se invocam, se disciplinam e se educam para criar.” FREINET, 1977b, p. 380. ”Não lhe virá à idéia, para escrever, de fazer uma aborrecida página de ’i’, depois uma página de ’o’. Reproduzirá à sua maneira os grafismos de que viu os modelos. Esboçará primeiro os gestos rápidos da vossa caneta, que vai e vem, gira como uma formiga atarefada e pára de quando em quando para fazer pontos. Ah! isso mesmo, os pontos e os pequenos riscos serão as primeiras conquistas no seu grafismo, com que semeará a página. Depois deste rabiscar por imitação, sempre emergirão alguns triunfos [...] aos quais a criança ciosamente se afeiçoará, primeiros degraus de onde partirá com segurança e dinamismo para continuar a ascensão.” FREINET, 1977a, p. 73. Na quinta fase, propõe explorar totalmente a livre expressão da criança que, segundo ele, ultrapassa em amplitude o simples globalismo, segundo o qual a criança vê o todo antes de distinguir as partes. Mesmo admitindo as descobertas psicológicas e pedagógicas da época, como as de Decroly, Freinet entende, diferentemente desse, que a criança constrói pelo processo de tentativa experimental, por atos conseguidos, sucessivamente encadeados e subordinados a uma visão central que domina ao mesmo tempo o todo e aparte. Piaget, contemporâneo de Freinet, gostava de repetir: ”Tudo aquilo que se ensina à criança impede que ela o invente. [...] isso porque não há maneira de apropriar-se de um conhecimento sem compreender seu processo de construção, quer dizer, reconstruí-lo”.PIAGET, apud, AMAE, S.D, P.5 Se hoje temos muitas crianças desadaptadas, evasão e repetência, uma das causas, talvez a maior, esteja nos erros metodológicos, na repetição de lições enfadonhas das cartilhas ou manuais, cujos resumos, questionários ou exercícios os alunos precisam decorar. Freinet propõe uma metodologia que restabeleça os circuitos normais com a vida, permitindo que a criança se expresse naturalmente, construa e crie. Propõe partir não do texto do adulto, mas da vida da criança, da sua expressão lê escrita, do seu texto livre; basearse nos princípi142 os das práticas ancestrais que asseguraram o êxito na aquisição da fala, do andar da criança e para os quais todo ato conseguido se reproduz até tornar-se

tal como se ensina um papagaio a falar. Do mesmo modo que adquire a técnica da linguagem escrita. 1977a. Pedimos-lhe paciência pois. Comunica-se com outras crianças ou pessoas familiares e vai sempre aperfeiçoando essa técnica. Comenta Freinet: ”Nossa criança saberá ler e para sempre.p 35 Quanto à questão do tempo. Élise organizou todos os registros deixados por Freinet e publicou-os depois de sua morte. O educador não deve apressar. Mas isso prejudica o seu equilíbrio. que tudo é questão de tempo. Imaginemos se todas as famílias resolvessem apressar seus filhos para que falassem antes de estarem aptos para tal. p. para se comunicar a criança utiliza-se do registro da correspondência. cuja gênese se desconhece. (FIGURA: freinet.51.” FREINET. I977b. Ele costumava repetir que as experiências que nós mesmos construímos são como degraus sólidos de uma escada que nos conduzirá aos andares superiores. 143 O trabalho do professor é acompanhar essa evolução em seus diferentes estágios e registrá-la. FREINET. por um processo autoritário. precisam de vários estímulos. como é o caso das ricas coleções de desenhos dos alunos. Uma vez senhora desse equilíbrio. cada criança tem seu próprio ritmo. enquanto outras demoram mais. 1977c. Embora algumas crianças possam levar dois ou três anos para dominar a escrita. É possível. imposto pelo adulto. mas estimular o processo. com um ano e oito meses ainda não falava. O mesmo acontece com a escrita e a leitura. são ainda uma constante entre os simpatizantes do movimento da Escola Moderna em todo o mundo. ele deve saber esperar. a menina falaria.p 209. Alguns meses depois. poderá então partir para outras experiências. surge com sentido total e verdadeiro. a criança só pensará em dominar o equilíbrio. O tempo que o educador julga ganhar com essa iniciação será perdido. Quando o processo de aprendizagem da leitura e da escrita está ligado intimamente à vida psíquica e social da criança. É o que aconteceu com nossa filha Paula. umas conseguem mais rapidamente apoderar-se de uma experiência e automatizála. ensinar uma criança a ler e a escrever mais rapidamente. frutos quase sempre de realizações coletivas. O registro e a troca de materiais escritos (produções infantis).) Sexta-feira 17 18 de março de 1966 / hoje há sol / hoje as nuvens foram-se embora / ontem brinquei com os meus carros em casa / ontem houve nuvens no lago . viajávamos juntos de carro e mamãe chegou a se irritar porque Paula falava tanto que a impedia de conversar.técnica de vida. ”Enquanto não dominar a marcha. que o trabalho da criança esteja fundamentado na pesquisa e ação próprias (fundamento da investigação científica) e não seja artificial. pois a criança não conseguirá realizar as ligações íntimas que fazem da leitura/escrita uma expressão e não uma eterna e desesperante tarefa. O importante é o educador saber que todos chegam lá. Mamãe chegou a sugerir que consultássemos um especialista. como fazia Freinet. na hora certa. porque esta aprendizagem natural fará corpo com a própria vida e o processo de evolução do indivíduo”.

aquisição de formas escritas. vacila e apaga-se. mas se sabe exprimirse com elegância e sentimento. não copiará. ao associar e ao combinar estes sinais. FREINET.p 124-5. 1977a. mas exprimir-se-á de forma satisfatória para a sua idade. compreensão dos textos e de cartas dos correspondentes. se sabe demonstrar. Freinet mostra a evolução da escrita de sua filha: ”Bal descobriu. escrita espontânea de textos ou de palavras escolhidas pela criança. enchendo páginas e páginas dos seus cadernos. a ’escrever’ as suas palavras e as suas frases”.Aperfeiçoará cada vez mais sua escrita. convencer.] E conseguirá com tanto mais segurança e rapidez quanto o ambiente for favorável e a ajudar”.ESCRITA PESSOAL E LIVRE Freinet fazia o estudo global dos textos que as crianças escreviam livremente e traziam para a sala de aula e dos que elas recebiam dos correspondentes. apenas com a expressão e a compreensão. FREINET. etc. 144 As crianças eram acostumadas a escrever sozinhas. Desse momento em diante. O estudo da Ortografia constitui para a criança uma considerável perda de tempo e contribui para restringir o desenvolvimento do conhecimento humano”. continuarão a aperfeiçoar-se. em palavras —. Freinet valorizava a escrita pessoal e livre que permite à criança expressar seus sentimentos. não se preocupavam com a ortografia. cópia do texto. A criança marcada por um ensino autoritário. Ao condenar os exercicios sistemáticos com que se leva a criança a praticar ortografia apenas pela repetição. É uma nova visão. podendo construir belos textos mesmo com incorreções ortográficas. Não basta saber se a criança é capaz de escrever sem erros — valor especificamente escolar —.. nos dá uma grande lição.. que vai muito além do aspecto puramente ortográfico. de Comeille a Voltaire e o próprio rei Luís XIV. pode chegar a traduzir graficamente. Freinet considera a ortografia como complemento. buscando à sua volta os meios para enriquecer e variar sua técnica. Cita Anatole France: ”Os grandes clássicos. 1977a.. comover. propondo varias atividades: reconhecimento das palavras do texto — com recorte e reconstituição em linhas. em vez de utilizar apenas a lógica e a memória. ainda não há preocupação com a ortografia.p 126. se está em condições de manejar a língua com destreza e habilidade. é como uma chama que. Contrário ao ensino de regras gramaticais e sintáticas na fase em que a criança ainda está aprendendo a língua escrita. portanto que as letras são sinais gráficos de sons que ela pronuncia ao falar e que. atrelada à lição e à cópia. uma flor prestes a desabrochar que murcha e seca. FREINET. a criança tem conhe145 . depois de acesa. ”o caminho à sua frente está livre. Ao vir para a escola.p 224. [. Seu ensino serve para aperfeiçoar a escrita. Sabe escrever: sabe fixar no papel os pensamentos que deseja comunicar. nessa fase. 1977a.. No entanto. afirma Freinet.

não há idade definida para introduzir a criança na escrita. as dificuldades de sua vida. De acordo com Freinet. Nessa fase. com base nos quais poderão criar a própria forma ou marca de escrita.. são incapazes de exprimir. só depois de ter passado pelas mesmas dificuldades dos escritores e dos poetas. elas progredirão com mais rapidez e segurança. as suas alegrias. Segundo Freinet. Desde a escola maternal. que é convidada a copiar o seu texto ou o do 146 coleguinha ou. muitas vezes riscamos o que escrevemos. Continuamos a preparar uma massa de crianças analfabetas.] O essencial é que a criança sinta e mantenha a necessidade de escrever que lhe fará vencer todas as dificuldades”. O texto de Bal mostrado a seguir é uma verdadeira composição livre. mesmo. sem necessidade de regras. Apesar das medidas do Ministério da Educação e Cultura e das Secretarias de Educação — horário integral nas escolas para permanência dos alunos das séries iniciais. FREINET. se não têm idéias e esperam passivamente que o professor ou o livro as forneça. que conta um pouco do seu cotidiano. estes textos assim redigidos são os primeiros exercícios indispensáveis. devemos valorizar os textos infantis. É a criação literária em toda a sua complexidade. ”por mais desajeitados que sejam. Os métodos tradicionais ainda são praticados em nosso país. mesmo sabendo ler e escrever. o que é muito triste.. o professor é o escriba e precisa ser fiel ao pensamento da criança. 1977a. a mudança de postura dos educadores ainda não se completou. A expressão e a criação pessoais são nossas marcas. produzir a própria escrita Começa o trabalho de composição e de criação. Em nossa própria escrita de adulto. por escrito. voltamos a uma expressão e a modificamos. em linguagem coloquial. porque. muito semelhante ao de pessoas com pouca experiência em manejar o instrumento da escrita. começamos tudo de novo. os modelos de textos literários simples. Se os alunos não sabem desenhar nem pintar. do ensino fundamental. Sensíveis à experiência dos outros. é que a criança ganha consciência de suas insuficiências e êxitos e começa a apreciar a arte dos outros. enquanto os exercícios formais estão na razão inversa da atividade criadora. são as primeiras tentativas para montar a bicicleta [.p 261. Para Freinet. Disso resulta termos mais oradores — um domínio no qual ainda não se impuseram regras — que escritores. só depois de o ver escolhido e valorizado pelos coleguinhas. Só depois de ter passado pelo processo de criar a própria frase ou texto. formação em serviço de professores pelo Programa de Educação Continuada (PEC) —. o erro dos métodos tradicionais está em partir dos textos eruditos para ensinar a língua.cimentes que devemos ajudar a ampliar. desgostos ou sonhos. é porque foram marcados por um método que lhes tirou essa espontaneidade para a criação. Bastamlhes os bons exemplos. (FIGURA) . Estamos aperfeiçoando o nosso texto. com todas as suas virtudes arrebatadoras e fecundas.

br. a mesma atenção é dispensada a todas as crianças: todas participam das descobertas. p 55 A escrita deve traduzir o mais exatamente possível o que se pretende dizer. famílias de palavras. sem finalidade. ou seja. trabalhava a análise lógica de forma contextualizada. f. pronomes. s. Conduzida e amparada pela vida coletiva da aula. Nesse exercício de reconhecimento. participa da discussão e pesquisa para a reelaboração.posteriormente. o uso dos adjetivos e dos pronomes demonstrativos e. deve compreender com clareza a maior parte do que se quis exprimir. a criança age sempre por tentativa experimental. homônimos. 1977a. que utilizava para exercícios de aperfeiçoamento (correção): os plurais. a um rápido exercício de reconhecimento das palavras: substantivos.pr. aos 6 anos e 6 meses ”Ontem à noite quando Lucrene e Germaine e Pigeon foram deitar-se ” (FREINET. Quanto ao sentido das frases. principalmente. porém corretos. Propunha exercícios de caça de palavras. O ditado era usado para as crianças avaliarem a si mesmas e aos outros. ar. adjetivos. Faziam a composição de textos e frases na tipografia.. participa da seleção dos textos que serão aperfeiçoados (textos escolhidos por votação entre as produções livres dos alunos) e polidos. 4. mb. seguindo os passos de Freinet: 1. detectava as dificuldades (”erros”). Deve-se ajudar a criança a aperfeiçoar o próprio texto. etc. 6. e o leitor. o uso dos verbos. . I977c. mp. palavras com oi. o estudo ortográfico ou gramatical. Sabendo se ouvida. Todos têm seu texto afixado. a concordância. sem regra especial. A mesma ajuda solicitada ao coleguinha é retribuída com gentileza. Não era um exercício passivo. experiências e achados. ele procedia. 3. mas por meio de um exercício inteligente. verbos. ur. construídos por eles mesmos. O trabalho de ajustamento da forma 147 escrita ao pensamento e à sua expressão só pode começar a partir do momento em que a criança for autônoma na escrita. etc. a criança da classe Freinet trabalha consoante o próprio ritmo ou em conjunto com toda a classe. bl. os femininos. individualmente ou em pequenos grupos. p 130) Começa agora o trabalho de ajustamento da forma escrita ao pensamento e expressão de seu autor. Os alunos copiavam textos vivos. ss.Trecho de um rios primeiros textos livres escritos por Bal. letra por letra. Aperfeiçoado o texto. sintática e gramaticalmente. trabalhar a gramática pelo método natural. num clima de confiança que suscita as trocas e permite o born desempenho das crianças no grupo. As crianças procuravam num texto de seu interesse palavras que ajudariam. todos os dias. es. mesmo não iniciado. sinônimos. 5. Munida da técnica da escrita. juntamente com as crianças. 2. até a linha tornar-se impecável. A cópia só era feita dos textos já aperfeiçoados (corrigidos) no quadro.”Não será isto aprender a escrever e a viver?” FREINET. mas um trabalho motivado.

porque nos lembram de que não se vê o mundo. subestimar e asfixiar seu impulso e seu gênio que nasce. p.p. é o apelo da vida. FREINET. o sonho é um meio de conhecimento e aprofundamento do ser: ”Quem vai ao fundo do sonho 149 encontra o sonho natural. os educadores ficarão maravilhados com o mundo de sensibilidade que ela nos fornece: ”É esta candura sistematicamente revelada que nos deve dar o puro acolhimento dos poemas”. um sonho de primeiro cosmos e de primeiro sonhador. por meio de lições e exercícios controlados e sancionados. de que não se compreendem as palavras. que. a postura de ”caminhar 148 como conquistadores”.Freinet garantia grande espaço às técnicas de trabalho que contribuem para a manutenção e o desenvolvimento dos sentidos matemático. FREINET. o indispensável impulso do homem no sentido do futuro. tu estás zangado. libertar. Então o mundo já não está mudo. FREINET. I977a. científico. valorizar. tão . E acrescenta o de Christian.p. através das nuvens. olha como as folhas estão contentes: estão a esfregar as mãos”. Valorizava. Este ”é como uma claridade que ilumina bruscamente. o intuitivo. 1977a. busca equilíbrio. O sonho poético reanima o mundo das primeiras palavras. 1977a. 1977a. talvez a marca verdadeira da nossa superioridade pensante e atuante”. eu me escondo atrás dos meus olhos”. no futuro. de forma progressiva e inteligente. artístico e poético e. p. de forma metódica e racional. ouvindo um ralho do avô. BACHELARD apud FREINET. baixou as pálpebras e disse: ”Vovô. e cujos êxitos eram ponto de partida para novas superações. e cabe ao professor descobrir. Tudo acontece por tentativas. 283. quando a experiência boa ou má tiver marcado os seres”. ainda. não se adquire nem se cultiva segundo normas escolares.. Freinet encarava as suas crianças como seres criativos procurando a verdade. de que não se abordam as situações aos dois ou quatro anos como se fará mais tarde. aos 3 anos: ”Oh! mamãe. num céu agitado.p. As crianças mostram-se mais criativas quando não há intervenção da autoridade do adulto para corrigir seus erros. A AULA VIVA: UM SONHO A SER REALIZADO O sonho de Freinet era que a escola fosse um dia ua magnífica continuação da infância e sua florescência. 208. Humildemente confessava que também aprendia com suas crianças: ”as próprias palavras das crianças tornam-se para nós ensinamentos. A criança começa a emitir palavras intuitivamente. FREINET. de 4 anos. nos seus pensamentos. Ao dar a palavra à criança. principalmente. a sua frutificação”. que não nasce.. Para Bachelard. Quem lhes deu nome não teria dado nome a si mesmo. 285. tropeça. 1977a. 287. preocupações e primeiros contatos com o mundo. 282. o seu desenvolvimento e. Freinet cita o exemplo de Bal. suprimindo as lições mortas. Todos os seres do mundo se põem a falar segundo o nome que usam.

a imprensa. I977a.. alcançar os frutos do próprio conhecimento (construído).p.p 310-3 Freinet questiona: ”Quando consentirão os adultos que as crianças caminhem pelos próprios passos infantis? Quando verão [. Como seria born se os educandos voltassem a sonhar e conseguissem captar. faz sair uma avalanche de palavras. não vale de muito o intelecto deixado entregue a si próprio.. que poderão ajudar o educador a aproximar o educando o mais possível de uma compreensão crítica àa realiàaàe e dos conhecimentos. As palavras do mundo querem fazer frases. com instrumentos e ajuda se leva a cabo a empresa. o jornal. os métodos são naturais. como a imprensa utilizada por Freinet. a resposta é: quando a sala de aula tornar-se um ambiente em que professor e alunos vivam juntos a mesma aventura de suas vidas. a atividade inte150 lectual só pode desenvolver-se plenamente e dar fruttos com o auxílio de uma multiplicidade de meios: ”Tal como a mão desarmada. não despertará o interesse ou organizará de forma útil a vida da classe no vácuo. nem o mundo nem o sonhador. de linguagem bastante pobre. os pensamentos que chegam de todos os lados! Como seria born se pudessem pôr à mostra toda sua riqueza interior. BACON apud. as aulas-passeio.bem escolhido foi? Uma palavra arrasta outra. Nenhuma metodologia de ensino que priorize a alfabetização pode desconhecer a proposta de Freinet. mesmo dotado de espírito inovador e criativo. a correspondência... Trabalhando num meio popular.p. e de instrumentos e ajuda necessitam tanto o intelecto como a mão”. o ensino que propõe é sobretudo prático. como o texto livre. etc. encontramos a poesia.1979. Todo o processo de integração da criança ao ambiente físico e social que a rodeia já era vivenciado por ele na prática. BACHELARD apud FREINET. uma pedagogia que suscite novas possibilidades de penetração e de poder. A poesia é a criação do ser pela palavra”. No sonho cósmico.] precisa-se de gênios para fazer ramalhetes literários”. Quando a criança pode exprimir com espontaneidade sua fantasia e sentimentos. que favoreça a explosão de talentos e garanta o equilíbrio do ser.. às técnicas. FREINET. Era suficiente um meio estimulador em que abundassem exemplos (perfeitos) para a criança neles se agarrar e subir sempre mais alto. duma palavra que sonha. I977a. nada fica inerte.] a vida das crianças com olhos de crianças?” FREINET. Bacon refere-se a meios materiais. Embora as propostas de Freinet encontrem fundamentação em teorias e experimentos científicos. Tudo vive numa vida secreta de que tudo fala sinceramente. CIARI.p 333 Para nós. Ter os pés bem seguros e firmes no solo . mas que pode adquirir quando se lhe dá a possibilidade de fixar mais profundamente os olhos na realidade.. Freinet propõe-se a melhorá-la por meio de variadas técnicas. criados e desenvolvidos segundo os modos de vida e de trabalho do meio em que a criança vive (meio vivo) entre os seus. um ambiente no qual encontrem oportunidades de vivenciar uma pedagogia libertadora. mesmo que intuitivamente. detectando os instantes privilegiados nos quais a criança se torna sobrenatural Segundo Bachelard. e valores humanos — que não possui por si próprio. 309.21. O sonhador sabe bem que. O educador. 1977a. ”as palavras se atraem e se cortejam [.

Depressa aprendem a distinguir certas palavras: fim. No emprego do método global para iniciar a criança na leitura. reconstituição ativa. receitas traduzidas por eles. Freinet aprofunda o conhecimento da criança por meio da investigação coletiva. analiticamente. A criança aprendia a ler de forma natural. gera a compreensão. dar destaque às formas de comunicação. acolhedor e propício. Coca-cola. no ambiente social e familiar. a criança passa por três fases na aquisição da leitura: global. Todos — crianças. dar exemplos e amor. Juntos. feitos como uma obrigação e segundo regras impostas de fora. Freinet soube utilizar-se da observação e do registro para avançar na compreensão e definição das etapas de evolução da escrita e do desenho. não balbucia. etc. A precisão e a riqueza da leitura dependem unicamente da prática e da compreensão global das palavras desconhecidas do texto. estudar e compreender as produções das crianças. hoje. não procura decifrar a palavra simplesmente pela leitura dos seus elementos. Longe de negligenciá-la. aos poucos. Condena a escola da época. na qual parte dos sinais fonéticos das palavras e expressões que ela própria criou e quer aperfeiçoar (que não deixa de ser um exercício no qual avança.. As palavras desconhecidas ou desligadas do cotidiano conduzem a uma técnica falsa e à deformação do próprio sentido da leitura. A leitura representa uma etapa intermediária indispensável no processo de relações entre a criança e o meio. do elemento para a síntese viva da palavra) e regresso à identificação global. São numerosos. Quando nascida da compreensão. não se detendo apenas num processo estritamente global. Em qualquer lugar está presente um aparelho de televisão. a escola deveria contribuir para o seu aprimoramento constante. Freinet valoriza a leitura. Na rua. passa a reconhecêlas. decisivas. Para Freinet. cantos populares ou parlendas que redescobria com os alunos. mediante experiências e tentativas. jovens e adultos e até mesmo os bebês — ficam a ver com olhos atônitos antes mesmo de poder compreender a signi151 ficacão das histórias que são transmitidas. Freinet é um inovador quando propõe criar um ambiente rico. como uma espécie de anomalia. descarta a cópia e a regra como forma de correção. Acredita na criança pois sabe (por ter trabalhado a prática) que os erros que comete serão corrigidos por ela mesma. Freinet utilizava-se de fichas de leitura para trabalhar pequenas canções e histórias. quando se familiariza com a figura gráfica de palavras que são de seu conhecimento e de frases que quer utilizar de maneira prática. em que a criança. os estímulos à leitura. seus seguidores de todo o mundo levantam e discutem os . muitas palavras reaparecem nos cartazes. A escolha e a busca das primeiras leituras são importantíssimas. isto é.era oportunidade suficiente para triunfar. permitir a contínua construção do conhecimento pela tentativa experimental e nela incluir a cultura e a arte. Por isso. nos outdoors. que impunha ao desenho e à escrita infantil uma finalidade e uma motivação. quando lê. devem-se utilizar palavras já conhecidas. adivinhas. Essa nova realidade vem conduzindo o educador (alfabetizador) a rever suas hipóteses metodológicas sobre a aprendizagem da leitura. A criança. as descobertas e as pesquisas das crianças.. sem significado.

problemas dos alunos. leitura/escrita/desenho. entusiasta — que caminha. com base em uma pedagogia libertadora. Não estão em busca de originalidade ou de novidade. descobrindo os patamares pelos quais o ato conseguido se mecaniza e estrutura em técnica. mas da vida que o produziu. aprendizagem/conhecimento. a raiz.. como trabalhadores esclarecidos e conscientes. Adverte que. mas de vida. Para servir a essa vida. se quisermos enriquecer e garantir a colheita. cwvYveceàotcs q\xt %omos. O fruto será o que fizerem dele o solo. a escola precisa construir as bases. Apóiam-se no velho para construir o novo. eleva-se e que. trazem grande contribuição para a formação de educadores. sugerir a mudança metodológica necessária..] domesticação não é educação. p. criança. conhecedores do valor dos elementos e do esforço exigido Os métodos naturais possibilitam ao mestre acompanhar os processos de tentativa de cada criança. ao seguir em frente. que o jardineiro prudente cuida e prepara o fruto que virá. substituir toda aquisição metódica e j ensino mecanicista. 153 Textos selecionados de Freinet Os escritos de Freinet.. das xcot\a¥> do passado. Se esse fruto é doente. para ser eficiente. 1985. sobre educação. É possível perceber uma profunda preocupação em integrar os aspectos sociais. o ar e a folha. é porque a própria árvore que o gerou estava enferma e degenerada. lançam mão de todos os recursos disponíveis. EDUCAÇÃO ”A educação não é uma fórmula de escola. perceberá a diferença radical da prática metodológica do educador Freinet Seria um sonho que essa aula se tornasse realidade na maioria das escolas públicas do Brasil e do mundo? Talvez possamos realizá-lo antes do que imaginamos. Quem observar o espetáculo de uma aula viva. Não é do fruto que se deve tratar. cabe a nós. Figuram também em seus textos concepções. ou no broto. 152 ação e trabalho. avançadas para a época. Mas. falsamente científico. pela v ida. educadores ao çtesenxe. bastante atuais.. ou seja.” FREINET. É deles que devemos cuidar. . liberdade. enquanto esperamos essa evolução consciente da prática. trabalho e relação professor/aluno. cognitivos e afetivos do funcionamento psicológico humano à consideração que a sua pedagogia tem para com a educação e a escola. transcritos nos decretos ou regulamentos —. 7 ”[. fatalmente atingirá e ultrapassará os objetivos propostos ou impostos pelos programas e discursos oficiais.] É já na semente. mas sim uma obra de vida [.

capazes de desenvolver a personalidade da criança. de dormir bastante e deve ter um horário semanal [de aula] mais curto do que o dos adultos [. na redação. de acordo com as linhas que mais respondem às suas necessidades instintivas.. ao lembrar como aprendi a falar e a andar. a lavrar. 1976a.” FREINET apud É. e como... adaptarse a ela para suscitar seus valores mais ricos. irá aper155 feiçoando as suas técnicas ao máximo: na linguagem.” FREINET. FREINET. na música e em todas as manifestações humanas da cultura. 187... 1977a. 83. permitindo o funcionamento normal da tentativa experimental.. 1977a. p. cada vez mais longe. de correr. ”Ao comparar a eficiência dos métodos escolásticos com as aquisições obtidas experimentalmente através da vida.p.Na educação.] a educação precisa seguir os passos da vida. É este mínimo que é preciso procurar conquistar. o que se encontra. p.” FREINET. 1978.] a criança quer conhecer o que se passa..” FREINET. é a criança que sobe. 1977a. 118-20 ”[. p 75 154 ”Temos que alargar o horizonte da escola. 373.] existe um mínimo de arrumação abaixo do qual a vida de um indivíduo não pode decorrer normalmente.” FREINET. fiquei convencido de que havia necessariamente algo de . se quisermos equilibrar a educação e dar-lhe o máximo de eficácia que a justifique. e a indestrutível riqueza que me ficou. de respirar.] e a introdução de instrumentos e técnicas que permitam um trabalho que corresponda às necessidades funcionais das crianças. no cálculo. p 53. no desenho e na pintura. p 209 CRIANÇA Compara o desenvolvimento da criança com a construção de uma casa: ”[.” FREINET. ”[. o que vive. 1973t>. é a criança que edifica a sua construção.” FREINET. ”[.. pela própria vida.]”FREINET. p.. a pescar à linha. o que cresce. em seguida a cavar. 1976. 130. preparando-a ao máximo para o futuro. A criança. nas ciências. APRENDIZAGEM E CONHECIMENTO ”Se atingirmos uma pedagogia viva e motivada. 1976a. temos que integrar o seu processo no processo da natureza e da vida social. com a ajuda dos adultos. cada vez mais alto [.. ”Basta um ambiente que auxilie e uma tentativa experimental suficiente [... que parte da primeira balbuciação. já não veremos alunos sentirem gosto pela escola em formas de linguagem de expressão ou de ortografia erradas em relação às normas do meio. p..] a única educação efetiva e eficaz é a educação da vida..] a criança precisa de brincar.

..] É preciso..” FREINET..” FREINET. 2.] muito maior relevância do que se pensa.deturpado no processo de ensino da Escola. 1977b. considerava o homem um imitador. com um rendimento ínfimo. conceber ou encontrar outra mais viva e decisiva. Porém.” ”A literatura psicológica sobre a aprendizagem é profusa e diversa. associar sempre teoria experimental a prática experimental. têm muita importância no processo de tentativa experimental ou. É. para uso das pessoas afastadas. pelos mesmos processos.... I977a. como afirma Freinet.p 46.p 134 1.. 1979. Nem mesmo dizemos que se devem empregá-las na classe. São elas que constituem definitivamente as verdadeiras condições determinantes da educação.” FREINET apud É FREINET.p 17 ”O caminho normal da aprendizagem da leitura parece-nos [.] — não dá importância aos seus primeiros gritos.] com o máximo de riqueza. 141-3 As considerações sobre o ambiente. e tende a englobar toda a Pedagogia.p.. que se apropria ”[. servida por um ambiente rico e auxiliar mas com exclusão de qualquer lição pretensamente metódica.. 3. é um meio incomparável de aprendizagem. a máquina funcionasse muito mal. da experiência presente e passada das gerações. ”[. isto é.. Cabe apoiar-se nestas [experiências] bem-sucedidas para estabelecer os próprios pontos de apoio. Reconhecimento destas palavras quando as encontram num texto estranho. com exclusão de qualquer lição formal. levará mais tempo a aprender a falar. essa apropriação opera-se agora à base e em função da experiência pessoal que continua a orientar a tentativa. as reações dos adultos à criança.. Se é raro ouvir conversas ao seu redor. se o ambiente — pais.] ser o seguinte: FREINET. ”Pelo fato do Método Natural tocar as bases profundas e seguras da vida. p 141-3.] por observação ou por leitura da experiência alheia. pois toda classe continua sendo única. Expressão oral das palavras. [. [. como continua sendo única a personalidade de educador.. porque dá uma unidade permanente aos nossos comportamentos e aquisições de saber. mas exclusivamente pelo método natural da tentativa experimental viva. a criança não sentirá tão depressa a alegria de exprimir-se com êxito.. Riqueza do ambiente para facilitar e acelerar esta experiência por tentativas. uma sempre levando a outra. Os métodos naturais são os únicos que corrigem a fragmentação e a dispersão dos conhecimentos científicos [.1979. para nós. na aprendizagem. professores [. sobre os quais talvez seja o único a poder passar. de vocábulos e de frases obtidas [.” FREINET.. vocábulos e frases. pelo intérprete da escrita destas mesmas palavras. Apresentamos todo um conjunto de experiências bem-sucedidas. I977c. Sobre a imitação.] E preciso mudar a técnica de aprendizagem. Expressão. . algo que fazia com que. de 156 técnica e de cultura.] Nunca editamos uma regra intransigente de Pedagogia Freinet...

..] É uma criação exaltante. por que o êxito é tão total. as palavras estão sempre carregadas de pensamento e de vida e por que os mecanismos nunca funcionam em falso.] a escrita. tal como a linguagem. saber demonstrar.. como pensamos. convencer. o seu sentido por assim dizer dialético.. Eis o motivo por que. de maneira a permitir-lhe reproduzir imagens [grafias] cada vez mais próximas da realidade.. [. 103 ”[.” FREINET. somos capazes de aceitar os mais pesados sacrifícios em matéria de liberdade. de aumentar o nosso poder. p.299..] Os erros acidentais de alguns adultos são sempre superados e corrigidos pelas conquistas experimentais da vida. I977a. 93.] a língua escrita.] A privação da liberdade é a .. o cinema e a rádio [e agora... os computadores] estão... estar em condições de manejar a língua com destreza e habilidade.p.” FREINET. [. aliás. as ligações que se estabelecem entre os elementos do pensamento e da ação.” FREINET. na nossa época. Para consegui-lo. [. de triunfar na luta contra a natureza. vida [.. mas a possibilidade maior ou menor que temos de satisfazer as nossas necessidades essenciais. contra os inimigos. não segundo a etimologia ou as regras forjadas arbitrariamente pelos pedagogos. que condiciona amplamente. na aprendizagem da linguagem.] etapa indispensável ao acesso normal à escrita e à leitura. É uma parte da vida. o nosso comportamento e a nossa vida. [. 1977a. Nela as palavras ganham primeiro o seu rosto. fazse apenas por tentativa experimental.. 233-4 LIBEHDADE ”O que conta... comover. de nos elevarmos.] atividades maiores. mas utensílios que o disco. a criança caminha para uma diferenciação crescente dos seus grafismos. 1977b.p.” FREINET. as quais também não são [. 227-8.22-3 ”À medida que se exercita a segurar e a manobrar o lápis. contra os elementos. tal como a língua falada.. sem qualquer dos dramas que acompanham na escola a língua escrita. 157 ”O desenho pode bastar-se a si próprio. mas segundo o seu emprego na frase.. não existe qualquer relação entre estes dois fatos. Ninguém apela para a regra na aprendizagem da ortografia.] poderíamos interrogar-nos se os alunos que têm a melhor ortografia são aqueles que melhor conhecem as regras ou se. as suas recíprocas ressonâncias. Produz beleza. em vias de destronar e de ultrapassar. mas com elegância e sentimento. principalmente quando se enfeita com a magia das cores. p. indispensáveis ao equilíbrio e ao poder. LEITURA/ESCRITA/DESENHO Destaca o desenho como uma ”[.” FREINET.p. em todas as circunstâncias.] Mas saber exprimir-se não só corretamente. 1977a. é uma coisa completamente diferente. não é uma mecânica que se suba sistematicamente. 1977b.[. não é a liberdade em si mesma..

125. [. de criar. no próprio momento em que deles sentir necessidade.. p. esta paciência exemplar na presença do lento processo pelo qual se elaboram a 159 riqueza da Primavera e do Verão. porque a vossa palavra. RELAÇÃO PROFESSOR/ALUNO Na classe Freinet. onde se edifique. ela interroga incessantemente sobre a ordenação e os mistérios da natureza.. [. Dão [os professores da escola tradicional] uma lição aos vossos filhos. Gritam. impõelhes um trabalho e vão verificar imediatamente. por mais decepcionantes que elas sejam por vezes.. FREINET.impossibilidade em que caímos de caminhar assim para a luz. de saber.” FREINET. mas pelo trabalho único criador.p 144-5 158 TRABALHO ”A nossa reforma educativa não deve ser uma regressão. 60-74 (grifos nossos).p. É esta filosofia que lhes falta. o efeito que dali resultou. ”O trabalho [escolar] não é uma coisa que se explique e se compreenda. é o extravio em atalhos sem objetivo onde os nossos inimigos nos dominam incessantemente. a calma serenidade do Inverno. cuja atração sentimos. uma reação.] Prepararemos tecnicamente uma escola onde [a criança] se construa. os vossos raciocínios. mas um progresso.” FREINET. não originaram uma modificação . músculos que funcionam. trajetos que despertam e se reforçam. e também sobre as espantosas maravilhas da máquina e da ciência. despojando os nossos esforços de todo o seu sentido humano. e na sua falta. o professor deverá buscar e encontrar as soluções certas para um born trabalho.” FREINET. principalmente nas vossas práticas diárias. 1977a. assustam. da sociedade atual. 110.. ”A criança que se apercebe de que o seu trabalho tem um objetivo e que pode abandonar-se completamente a uma atividade não já escolar mas simplesmente social e humana sente-se invadida por uma forte necessidade de agir. consciente ou não. castigam. ”Devem aprender do jardineiro esta integração da vossa ação na harmonia natural e principalmente esta comovente confiança na vida. Esse desejo faz parte da sua permanente sede de poder e de conquista. é uma necessidade que se inscreve no corpo. como aqueles pobres citadinos que plantam na terra uma estaca. a fecundidade do Outono.” FREINET. uma função que procura satisfazerse. 1978b. a atividade de onde advirão todas as aquisições. as vossas demonstrações. relações de íntima concordância que se estabelecem.p. uma adaptação às realidades. o motor e a filosofia da pedagogia popular. de procurar. por certos jogos [. com umajniopia de burocrata. 1973a. 113-4.p. a regam apressadamente e vêm ver no dia seguinte se os frutos cresceram. 1978b.] O trabalho será o grande princípio. A criança tem necessidade de conhecer.] Poremos à sua disposição os entrepostos logicamente ordenados onde ela os poderá ir buscar.. não apenas pelo estudo.. 1978b.

] pela nossa intervenção generosa.imediata no pensamento e na ação daqueles que os escutam.. e. científico.. as flores nascerão e a seara ficará cor de ouro.p. sejam quais forem os seus autores anônimos. finalmente. trazer proveito aos vossos filhos? É realmente preciso que os elementos que lhes trazem sejam pacientemente assimilados... I977a.237 ”[Não nos precipitemos] a submeter a criança a nossa norma: deixemola treinar-se a dominar os seus grafismos e a pôr os seus êxitos aos serviços da sua expressão viva e dinâmica. lentamente filtrados. instantaneamente. poético. para o nosso ensino. pela ação. com este expediente. I977b. Ajudamos o indivíduo a realizar-se e a apurar. dissolvidos. [. aliás.p.]”FREINET. já não distinguirão sequer no crescimento a parte especial da vossa intervenção. à criação. vamos sempre mais alto e mais longe [.. Encorajemos mesmo a eclosão de gêneros expressivos que serão como flores silvestres suscetíveis de fazer esquecer por vezes a monotonia e a rigidez dos jardins cultivados demasiado metodicamente. matemático. das tentativas naturais à ação. suba enriquecida. à necessidade de se exprimir e de se exteriorizar. E nesse momento.. o seu sentido artístico latente [..” FREINET. como faz a escola tradicional.. que a criança nada sabe e que ao educador cabe ensinar-lhe tudo — o que é pretensioso e irrealizável — partimos. Mas o essencial não é que o crescimento corresponda aos vossos desejos. [. 88 160 .] Como querem que as vossas lições possam.] nele preservamos e cultivamos o seu sentido literário.] ”Em vez de considerar.. [. incorporados na seiva e que esta.. ao amor do belo.

não falado. Na terminologia hegeliana. sem definição de metas. como queria Decroly. Depois. estudo e reflexão contínuos sobre as experiências acumuladas. É a palavra que é o sentido do universo. adotar uma proposta que permita a todos os alunos desenvolver suas capacidades e aprender os conteúdos necessários para compreender e intervir na própria realidade. preparado para lidar com as novas tecnologias e linguagens. No princípio. É função da escola criar tais condições. A Palavra assumindo visibilidade. a Palavra. Espelho de Deus. dentro do seu silêncio. Exige. para responder a novos ritmos e processos. As pesquisas de Emilia Ferreiro tratam da aplicação da teoria psicogenética de Piaget e dos conceitos da psicolingüística contemporânea na compreensão dos processos de aquisição de conhecimento e da língua escrita. evitando a repetição de rotinas construídas ao acaso. e que emergiu naturalmente no fim do século XX. a objetivação do Espírito. mais especificamente. Reconhece-se a necessidade de preparar o aluno para o exercício da cidadania.. pontos de chegada e marcos do caminho a ser percorrido por professores e alunos. como apontava Freinet. Universo. Também não contaram com a participação do professor e do aluno. ou numa revisão da prática pedagógica. Não é o universo que é o sentido da Palavra. mas não tiveram continuidade. Uni-Verso. Não é o dedo que aponta para a Lua. a prá- . surgiram iniciativas desde há muito tempo. em função dos novos saberes que se produzem e que demandam um novo tipo de profissional. aqueles que deveriam construir a proposta pedagógica e a prática escolar num contexto de mudanças. mudando a maneira de encarar a prática em sala de aula e. o universo. passando de ”como se ensina” para ”como se aprende”. como vimos nos capítulos precedentes. A questão que colocamos.. Rumo a essa reorganização. no sentido de uma reformulação curricular.4 Recuperando Emilia Ferreiro. portanto. qualificando-o para o trabalho e possibilitandolhe amplas condições e oportunidades de aprendizagem. Ao recuperar os resultados dos seus estudos — que sem dúvida contribuíram (e contribuem) para uma revolução conceituai. na qual o eixo central muda radicalmente. É a Lua que aponta para o dedo. (Guimarães Rosa) Os resultados das pesquisas desenvolvidas por Emilia Ferreiro e colaboradores a partir da década de 70 vêm constituindo importante referencial para a reorganização gradativa da prática de sala de aula. Mas qualquer proposta só contribuirá para a melhoria da qualidade do ensino se não se apresentar como uma receita metodológica a ser seguida. Sentido do universo é o verso que jaz escondido. é a construção de uma proposta educacional que leve o aluno a adquirir e desenvolver novas competências.

Ao analisar as propostas para reduzir as altas taxas de retenção e evasão escolar. Freinet e muitos outros filósofos e pedagogos. mas também de várias. houve sensível redução do gasto público em educação. p. descobrir os pressupostos subjacentes a certo modo de descrever ou avaliar um fenômeno ou uma situação. na Tailândia. ”Não adianta a criança freqüentar a escola e ser promovida mediante a exigência de um mínimo de alfabetização. não confundir as expressões verbais utilizadas com as distinções conceituais estabelecidas. 1992. em Havana. Em lomtien. e de outro. Decroly. nosso intuito é tão-somente desvelar a face oculta da alfabetização que Ferreiro. O que encontramos são iniciativas e reflexões individuais. foi assinada a Declaração Mundial sobre Educação para Todos. ou seja. A Unesco declarou 1990 como o Ano Internacional da Alfabeti:ação. 163 Sabemos que. reconhecido como tal não apenas por grupos de uma só tendência política.) Emilia Ferreiro ressalta que a mais básica de todas as aprendizagens continua sendo a alfabetização. ela mostra que o problema principal da alfabetização é político. e que é difícil falar desta sem reproduzir as posturas dominantes: de um lado. 10. Emilia Ferreiro mostra que o sucesso da alfabetização requer a superação da visão estreita que considera a aprendizagem inicial da leitura e da escrita como uma técnica. até a década de 70. como as relatadas nos capítulos anteriores. com o aumento da crise econômica nos países da América Latina. receber apenas a técnica da leitura e da escrita para poder codificar e decodificar textos breves e escrever algumas palavras. (Citação: A partir da década de 80. não trabalhar com informações isoladas. p.162 tica da alfabetização —. em março de 1988). Ao discutir as aprendizagens básicas (na reunião de Consulta Técnica Preparatória. o discurso meramente ideológico da denúncia. destaca como causa e justificativa principal da repetência a não-aquisição dos rudimentos de leitura e escrita. mesmo sem intenção. distinguir entre o dado e as leituras possíveis dos dados. acordo que teve a participação da Unicef do Banco Mundial. ”Ainda que seu discurso não possa ser neutro.” FERREIRO. Como Rousseau. organizada pelo escritório regional da Unesco — Orealc —. o pesquisador deve cumprir com os requisitos elementares de seu ofício: distinguir as afirmações que podem sustentar-se com evidência empírica satisfatória daquelas que só podem apresentar-se como hipótese plausível. inaugurando a década da educação básica. Considera que os pesquisadores não podem ter uma perspectiva estritamente técnica porque a persistência do analfabetismo na região da América Latina e Caribe é antes de tudo um problema político.” FERREIRO. especialmente nos três primeiros anos do ensino fundamental. pois o fato de recitar o alfabeto não . nos deu a conhecer. sem significação real de comunicação ou intenção de atingir a língua escrita para expressar-se. poucos eram os estudos e documentação sobre a natureza dos sistemas de leitura e escrita. 10. mas com a congruência ou a incongruência que resulta das intenções para integrar essas informações. o discurso oficial. 1992.

Considerando que a psicologia genética não é simplesmente uma psicologia evolutiva. isto é. passamos a perceber também que o crescimento intelectual não se dá apenas pela acumulação de uma série de conhecimentos. reestruturação das mesmas informações anteriores. foram os adultos que dificultaram o processo de alfabetização delas”.) À medida que desvendamos a alfabetização. O processo alfabetizador tem uma tradição de séculos ligada à idéia de aprender o alfabeto. memória. nem havia preocupação em identificar os processos cognitivos infantis subjacentes à aquisição da escrita. o desenvolvimento cognitivo é um processo interativo e construtivo. a necessidade de trabalhar ambos. Como ele nos deu a conhecer. Remetendo-nos ao que já foi enfatizado . ser alfabetizado. que o conhecimento é de natureza assimiladora e não simplesmente registradora. Eles nos fazem rever a psicogênese que até então vinha sendo reduzida a uma seqüência cronológica e à noção de estágio ou catálogo de noções. e a de escrever é uma tarefa de ordem conceituai que precisa ser retraduzida. sociais e culturais) e elementos acrescentados pelo sujeito (com a organização de seus esquemas de assimilação). com Piaget. Emilia Ferreiro conclui. como estabelecer a correspondência entre a oralidade e a escrita ou decodificar as grafias em sons — e não acompanhar o processo ou obter informações sobre o que a criança já dominava em relação à escrita e suas hipóteses antes de iniciar a aprendizagem escolar.assegura a ninguém o acesso à leitura ou à escrita. leitura e escrita. de novas linguagens e recursos da tecnologia moderna que precisamos dominar durante toda a vida. além da leitura e da escrita. que só recentemente veio a ser desmistificada. evitando ao máximo a fragmentação do conhecimento. Atualmente. Por meio de organizações parciais o sujeito chega. Os resultados de suas pesquisas apontam. uma vez que todo conhecimento implica a existência de elementos fornecidos pelo objeto (com suas propriedades físicas. existe um universo de conhecimentos. Até então não se dava a mínima atenção ao significado da escrita embutida nos rabiscos artísticos das crianças. a psicogênese da língua escrita. Emilia Ferreiro concluiu que ”as crianças são facilmente alfabetizáveis. A preocupação era como ensinar a ler e a escrever. Também recebia pouca atenção dos educadores a constatação de que. p. que mudam de natureza ao entrar em um novo sistema de relações. obrigatoriamente. mas também por grandes períodos de 164 reestruturação. é a mais conhecida. Ao pesquisar o desenvolvimento das conceitualizações infantis sobre a língua escrita. pensamento) e dos conhecimentos (todo e qualquer conhecimento). ao buscar conhecer a seqüência evolutiva de como se passa de um estado de conhecimento a outro e os elos entre os níveis de conceitualização da escrita. para o início desse processo. FERREIRO: 1992. 17. com base na compreensão de suas funções na sociedade.(Citação: Psicogênese: estudo da origem da mente (representações mentais. ou o percurso de cada indivíduo para adquirir a base alfabética da língua escrita. a momentos de reestruturações totais (uma reorganização completa dos esquemas cognitivos) a partir da ação.

Ao resgatar propostas e resultados de estudos de grande relevância para a educação. . Doutora em psicologia pela Universidade de Genebra. desde 1974 dedica-se à aplicação da teoria psicogenética diretamente na sala de aula. interessados na temática. uma transformação conceituai). A primeira e mais conhecida entre esses pesquisadores é Ana Teberosky. pois propicia a transformação tanto do sujeito (ampliando seus esquemas de assimilação e modificando seus esquemas cognitivos) como do objeto (que pode ser transformação física. enquanto os outros dois (Decroly e Ferreiro) coletaram dados em estudos experimentais. muitos tornaram-se seus colaboradores. Decroly e Emilia Ferreiro sinalizaram a necessidade de proceder a uma revisão completa das idéias sobre a aprendizagem da língua escrita. atualmente. amplamente desenvolvido na escola de Genebra. porém nos restringiremos apenas a alguns. Em mais de um decênio de pesquisa para descobrir qual era o processo de construção da escrita. Argentina de nascimento. Lilíana Tolchinsky Landsmann. Emilia Ferreiro tem entusiasmado pesquisadores de várias partes do mundo. portanto. precisamente porque redefinem a noção de aprendizagem e apontam caminhos para recuperar o prazer de aprender. Como afirma Ferreiro: ”A escrita é importante na escola porque é importante fora dela. com orientações diversas. Os primeiros (Rousseau e Freinet) acharam as suas respostas por meio da pesquisa naturalística. desenvolvendo pesquisas semelhantes em seus países. Rousseau. enfocando o impacto da colaboração de ambientes bilíngües (catalão e espanhol) sobre a alfabetização de crianças. colocam-se como as mais recentes contribuições a rés165 peito da compreensão das funções da língua escrita e sua importância na sociedade. psicóloga da Universidade de Telavive. Freinet. Psicóloga e pesquisadora do Instituto Municipal de Educação de Barcelona. É professora do Centro de Investigação de Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional do México. transformação nas interações sociais ou. Emilia Ferreiro pesquisou os conhecimentos da criança no que se referia às atividades de leitura e escrita. no qual Freinet nos propõe uma pedagogia do trabalho. realizou suas primeiras pesquisas em seu país de origem. 1992. e não o inverso”. a leitura tal como a entende e os problemas tal como os propõe para si. onde investiga o desenvolvimento da leitura e da escrita do ponto de vista do sujeito que aprende. tornase necessário falar um pouco mais das experiências de Emilia Ferreiro e colaboradores.no capítulo anterior. foi orientanda e colaboradora de Jean Piaget. FERREIRO. coletando informações e observando os quadros reais da vida. Estas. planejando e divulgando as situações experimentais em que a criança evidencia a escrita tal qual a vê. Vindos de diferentes épocas e áreas de estudo e. p 21 A PROPOSTA PEDAGÓGICA DE EMILIA FERREIRO Utilizando a abordagem clínica ou método de exploração crítica. Muitos outros podem ser citados. ainda. a ação está na origem de todo conhecimento (não só o material).

cada uma se define em função das outras. que participa do Grupo de Estudo sobre Educação. enfocando o entendimento de como os processos cognitivos se desenvolvem ao longo do currículo e. entender ”o que a escrita representa e como se estrutura esta forma de representação. quase sacralizado. buscando. A escrita deve ser apresentada à criança como o produto de uma prática histórica. de Porto Alegre. 1992 pp 17-32 1. sem a preocupação inicial com detalhes. as normas ortográficas são convenções necessárias para uma comunicação a distância. enunciando os resultados de suas pesquisas para a prática educacional. e aplica o conhecimento da psicogênese na sala de aula. FERREIRO. Os contatos com pesquisadores de todo o mundo. permitiram que Emilia Ferreiro concluísse ser possível encarar de maneira diferente a aprendizagem da leitura e da escrita. a criança procura compreender a natureza desse sistema simbólico de representação e levanta hipóteses sobre ele. em São Paulo. conseguindo. 2. psicóloga e diretora 166 do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento da Universidade de Roma. em especial os latinoamericanos. A . Telma Weisz. assim. nas áreas das disciplinas como ciências naturais e sociais No Brasil. Terezinha Carraher e Lúcia Brown Rego. Metodologia de Pesquisa e Ação. Deve ser feita a distinção (não apenas termiriológica) entre sistema de codificação e de representação. O importante é a criança saber que as letras. colaboram com Emilia Ferreiro: Esther Pular Grossi. ao pensar sobre|’a escrita. em particular. Virgínia Balau e toda a equipe técnica do ciclo básico da Secretaria de Estado da Educação. em Pernambuco. como unidades da língua. entre falantes da mesma língua. um poderoso 167 instrumento nas ações sociais. Clotilde Pontecorvo. como um objeto sobre o qual pode atuar. Alguns aspectos apontados como necessários para entender os objetivos dessa alfabetização são aqui apresentados de forma esquemática. não possuem forma fixa. com diferentes objetivos e variações para sua identificação. basicamente. utiliza as abordagens piagetianas e vygotskianas de pesquisa. evolui. Estes e pesquisadores de muitos outros estados brasileiros utilizam os resultados das experiências de Emilia Ferreiro para um melhor entendimento dos processos cognitivos envolvidos no ato de escrever e vêm provando que as conceitualizações da escrita de nossas crianças seguem uma linha evolutiva similar à das crianças de língua espanhola. tal como a língua oral. 4. e não como um objeto em si.pesquisa o desenvolvimento cognitivo e da linguagem escrita. uma alfabetização de melhor qualidade. uma vez que. a escrita. doutora em psicologia cognitiva. 3. E. importante dentro da escola. mais conhecido como Geempa. A escola (como instituição) deve apresentar a língua escrita para a criança.

considerada como poder. p.” FERREIRO. ”Se pensarmos que as crianças são seres que ignoram que devem pedir permissão para começar a aprender. outras questões importantes: Cf.cartazes na rua. 5. p. p. 1992. 1985. ainda. embalagens de produtos comestíveis ou de medicamentos. justamente as que mais necessitam da escola para se apropriar da escrita ou de informações sobre suas funções na sociedade. o novo código não faz senão encon trar unia representação dife rente para os mesmos elementos e as mesmas relações. e também estimulando seu raciocínio próprio e sua criatividade. gera diferentes expectativas a respeito de o que se pode encontrar nos múltiplos objetos sociais que são portadores de escrita (livros. tanto os elementos como as relações já estão predeterminados. Deve-se considerar que muitas crianças chegam à escola sabendo para que serve a escrita. Interpretar as escritas infantis é um longo aprendizado.invenção da escrita foi um processo histórico de construção de um sistema de representação. ou seja. em uma aprendizagem conceituai”. que requer uma atitude teórica definida. FERREIRO. 17. são vítimas de métodos. o que interessa do erro (ou desvio) é a sua lógica. se for ”concebida como um sistema de representação. Emiliaa Ferreiro esclarece. 7. . manuais ou programas ainda apegados à concepção de que só se aprende algo por meio de repetição. A construção de um sis tema de representação envolve um processo de diferenciação dos elementos e relações reconhecidos ou objeto a ser apresentado e uma seleção daqueles elementos e relações que serão retidos na representação Se a aprendizagem da escrita é concebida como um código de transcrição. Na visão construtivista. p. cópia de modelos de escrita ou mecanização. sua aprendizagem se converte na apropriação de um novo objeto de conhecimento. a obter e ampliar seus conhecimentos sobre a língua escrita.). No caso da codificação. memorização. Para entender o processo construtivo da criança. Para entender essas descobertas. ou o modo de representação da linguagem e sua correspondência com o sistema alfabético de escrita. talvez comecemos a aceitar que podem saber. sua aprendizagem é entendida como uma técnica. 8. Restituindo à língua escrita seu caráter de objeto social. o educador precisa ”cotejar uma série de produções escritas e conhecer as condições de produção. (FERREIRO. (Citação:A escrita pode ser concebida de duas formas: como transcrição gráfica de unidades sonoras ou como uma representação da linguagem. porém. 23-73 • A compreensão das funções sociais da escrita pela criança determina diferenças na sua organização da língua escrita e. Outras. nem os elementos nem as relações estão determinados. No caso da criação de uma representação. embora não tenha sido dada a elas a autorização institucional para tanto. pois tiveram oportunidades de interagir com ela. etc. estaremos ajudando a criança a descobrir a importância da leitura em sua sociedade. 6. 80. o processo de produção e a interpretação final dada pelo sujeito”. jornais. 1985. 12-6)) 168 9. FERREIRO. não um processo de codificação”. 1992. cartas. portanto. e terminam sua alfabetização inicial com sucesso.

dos diferentes registros da língua escrita que aparecem nesses distintos materiais. a construção gráfica. livros ilustrados.Silábico Nível IV . além disso. identificados pela criança como a forma básica da escrita. os níveis de conceitualização da escrita e os da leitura. • É preciso permitir: . para saber o que se diz. Para compreender o desenvolvimento da leitura e da escrita do ponto de vista dos processos de apropriação de um objeto social. instruções. listas.perguntar e ser entendido. cartas. Sua psicogênese da língua escrita distingue cinco níveis: Níveis I e II . os dados textuais. em contextos em que as escritas serão aceitas. conhecê-los por seus nomes específicos: jornais. etc.explorações ativas dos vários tipos de objetos materiais que são portadores de escrita (e. enciclopédias. recibos.o acesso à leitura em voz alta. utilizando inteligentemente os dados contextuais e. • A produção de textos respeita os modos de organização da língua escrita. Consultar ELIAS. jornalísticos.interagir com a língua escrita para copiar formas. para inventar. . • A escrita representa a língua.participar de atos sociais de utilização funcional da escrita. perguntar e obter resposta. Qualquer tentativa de justificar a ortografia com base na pronúncia despreza ou ignora as variantes de fala das populações socialmente marginalizadas e dificulta a aprendizagem dessas crianças. à medida do possível. .).) e para sua realização contribui mais a leitura silenciosa do que a oralidade convencional. receitas. 1992. . cartas. livros de poesias. e não a fala.escrever com diferentes propósitos e sem medo de cometer erros. recados. 169 . Características das escritas pré-silábicas (Nível I) Hipótese central • Escrever é reproduzir os traços típicos da escrita. para julgar. • É preciso estimular na criança uma atitude de curiosidade e coragem diante da língua escrita. livros de canções. para descobrir. livros sem ilustração. . . etc.Alfabético Cada um deles apresenta uma fase de evolução. que procuramos sintetizar em quadros com base em quatro tópicos principais: a hipótese central da criança.antecipar o conteúdo de um texto escrito. telegramas.• A leitura compreensiva de textos fundamenta a percepção dos diferentes registros de língua escrita (textos narrativos. . revistas.Pré-silábico Nível III . informativos. analisadas e comparadas sem serem sancionadas. calendários. Emilia Ferreiro concluiu que há uma série de modos de representação da linguagem. agendas.Silábico-alfabético Nível V . dicionários. ou oral.

mas as crianças as consideram diferentes. • Formas básicas utilizadas: — grafismos separados. coisas pequenas. — a quantidade de grafia é constante.Construção gráfica • Escrita não formada por grafias convencionais. • Presença de letras e números. compostos de linhas curvas e retas e suas combinações (grafia de imprensa). • As diferenças dos significados não são modeladas objetivamente na produção gráfica. — escritas unigráfícas: uma só grafia para cada nome (quantidade constante). sem buscar correspondência entre as partes. Pode ser sempre a mesma grafia (repertório fixo) ou diferente (repertório variável) 170 • Escritas convencionais. • Todas as escritas se assemelham. na qual se inserem curvas fechadas e semifechadas (grafia cursiva). escritas menores. A escrita representa os nomes dos objetos e a criança a imagina como um dos atributos do objeto: coisas grandes devem ter escritas grandes. • Surgimento da ordem linear na escrita (traçado linear de diferentes formas’ ondulados ou descontínuos) • No uso da letra de imprensa aparecem duas hipóteses: — as grafias são variadas. • Formas utilizadas: — grafismos primitivos: predomínio de garatujas ou pseudoletras. —grafismos ligados entre si com uma linha ondulada. • A leitura do nome também é global. Leitura • A leitura é sempre global correspondência do todo sonoro com o todo gráfico. • Ocorrem tentativas de correspondência entre o tamanho do objeto e a escrita. . • Cada um pode interpretar sua própria escrita mas não as dos outros: a escrita é individual e instável. Escrita (níveis de conceitualização) • A criança acredita que a escrita é outra maneira de desenhar as coisas ou que escrever é produzir um traçado que se diferencia do desenho por possuir alguns traços típicos da escrita Há a intenção subjetiva da criança quanto ao significado atribuído à escrita ou existe intenção de escrever. por se encontrarem escritas iguais para palavras diferentes. • Não há definição quanto à orientação espacial dos caracteres. com um número indefinido ou variável de grafismos. mas sem controle de quantidade: sucessões de grafias só interrompidas pelo limite da folha. • A escrita do nome próprio é impossível ou se realiza segundo as características das outras escritas.

• A criança descobre a possibilidade de uma correspondência termo a termo entre cada letra e uma parte do seu nome completo. não lhe basta a intenção subjetiva. que as grafias podem variar na ordem linear e que pode ser mantida a quantidade constante. seriação e ordenação. e que essa diferença pode ser marcada pelo uso de letras diferentes para cada palavra (de seu repertório ou inventadas). Chega à conclusão de que para ler coisas diferentes deve haver diferença objetiva nas escritas. • O nome próprio geralmente é o ponto de partida (primeira forma estável dotada de significação) para o uso de letras na escrita. isto é. cada letra vale pelo todo. • Descobre os antecessores da análise combinatória. • Elabora duas hipóteses: — necessidade de quantidade mínima de grafias para que se possa ler algo. — necessidade de uma variedade de caracteres para que uma série de letras ”sirva para ler”. • As relações entre as partes e o todo não são analisáveis. deve haver uma diferença objetiva nas escritas. Escrita (níveis de conceitualização) • A criança antecipa a hipótese silábica. quando alguém lê. na ausência do modelo não haverá possibilidade de escrita. atribuir significados diferentes. Leitura . • Formas estáveis e fixas de escrita: relacionadas com contingências culturais e pessoais (estas não são usadas para produzir diferenças objetivas na escrita. • Aparecem reações de bloqueio com base no seguinte raciocínio: se aprender a escrever copiando a escrita do outro. que em geral se situa em termos de três grafias ou caracteres. Construção gráfica • A forma dos grafismos é mais definida. 171 Características das escritas pré-silábicas (Nível II) Hipótese central • Para ler coisas diferentes. lê as figuras. as crianças enfrentam necessariamente problemas gerais de classificação.• A representação é alheia a qualquer busca de correspondência entre a pauta sonora de uma emissão e a escrita. ou seja. • A criança pensa que. • Predomínio da escrita de imprensa em maiúscula (influência dos estímulos do meio). A correspondência se estabelece entre as ”partes-palavras” do nome próprio e as letras. mais próxima das letras. mas não entre ”partes-sílabas” do nome próprio e as letras. mas simplesmente para garantir o significado diferente para escritas idênticas). • Ao resolver problemas que a escrita lhes apresenta.

• Leitura global, sem correspondência entre as partes sonoras e gráficas. • Cada letra vale como parte de um todo e não tem valor em si mesma. • A correspondência entre a escrita e o nome é ainda global e nãoanalisável: à totalidade da escrita corresponde o nome. 172 Características das escritas silábicas (Nível III) Hipótese central • Tentativa de dar um valor sonoro a cada uma das letras que compõem a escrita. Construção gráfica ’ • Podem aparecer grafias distantes das formas das letras e também grafias bem diferenciadas • Escnta de letras com ou sem valor sonoro convencional. • Uso da primeira letra da palavra, cujo valor sonoro é importante. Escrita (níveis ãe conceitualização) • Tentativa de foneüzação da escrita: a criança estabelece uma livre (simples) correspondência entre aspectos sonoros e gráficos em sua escrita. Porém, os valores atribuídos às letras não são fonéticos, mas silábicos • Ao atribuir a cada grafia o valor de uma sílaba, a criança antecipa progressiva e regularmente a quantidade de grafias e escreve tantas letras quantas forem as sílabas das palavras. • As escritas são construídas com base na análise silábica da palavra, mas em alguns casos podem apresentar mais grafias do que as exigidas, como para os monossílabos e dissílabos. • Quando a criança começa a trabalhar com a hipótese silábica, a exigência da quantidade de grafias (três letras) pode desaparecer. • Uma vez instalada a hipótese silábica, a exigência de variedade volta a aparecer. • Conflito cognitivo entre a quantidade mínima de caracteres e a hipótese silábica, por ocasião da escrita de dissílabos ou monossílabos. • Esses conflitos obrigam a criança a abandonar progressivamente a hipótese silábica em favor de uma análise fonética mais exaustiva da palavra. • Utilização sistemática da hipótese silábica aplicada ao nome próprio. Leitura • Na leitura, a criança tenta passar da correspondência global para a correspondência termo a termo, isto é, do todo para as partes da expressão oral (recorte silábico do nome). • Na leitura de monossílabos e dissílabos nos quais sobram letras, a criança tende a atribuir significados complementares à interpretação da palavra ou à sua omissão na leitura. • A mudança qualitativa em relação ao nível anterior justifica-se por:

— superação da correspondência global entre escrita e expressão oral, que passa a ser recortada (sílabas orais) para expressar-se em partes do texto (cada letra); f — pela primeira vez a criança trabalha a hipótese de que a escrita representa os sons da fala. , • As formas fixas aprendidas do meio geram novos conflitos quando a criança propõe a ^ leitura destas em forma de hipótese silábica. O mesmo acontece com relação à leitura do ’ nome (forma fixa recebida do meio). Esses conflitos ajudam a criança a ”ir mais além” da sílaba para encontrar uma correspondência satisfatória. • A leitura tende a limitar-se ao nome (sem sobrenome), a não ser nos casos dos nomes dissílabos ou quando há sobra silábica na leitura (correspondência de uma sílaba para cada letra). 173 Características das escritas silábico-alfabéticas (Nível IV) Hipótese central • Coexistência de duas formas de corresponder sons e grafias, fonemas para algumas partes das palavras e sílabas para as outras. Construção gráfica • Escritas diferenciadas com valor sonoro inicial. • Quantidade e repertório variáveis • Escrita na qual algumas grafias representam uma sílaba e outras, um fonema. Na perspectiva da psicogenética, não se trata de omissão de letras, mas de um tipo de escrita que procura incorporar grafias rumo a escrita alfabética • A construção total não é determinada por uma intenção de correspondência sonora. Escrita (níveis de conceituallzação) • A criança abandona a hipótese silábica e descobre a necessidade de fazer uma análise que ”vá mais além” da sílaba. Surge um conflito entre a hipótese silábica e a exigência de quantidade mínima de grafias (conflito entre uma exigência interna e uma realidade exterior ao próprio sujeito). • Passo intermediário entre a ausência de correspondência sonora e o começo dessa correspondência ou passagem da hipótese silábica para a alfabética. • As escritas aparecem com a característica de ”omissões” de letras pela coexistência das hipóteses alfabética e silábica. • A letra que inicia cada escrita não é fixa nem aleatória- é uma das letras que correspondem ao valor sonoro da primeira sílaba da palavra. • Surgem perguntas e pedidos de ajuda em relação a qual fonema ou sílaba usar. • São feitas seguidas análises sonoras das palavras. • É típica a mistura, na leitura do nome, da hipótese silábica e de um começo da hipótese alfabética.

Características das escritas alfabéticas (Nível V) Hipótese central • Compreensão de que. — cada som (fonema) corresponde a uma letra; — as letras combinam-se para formar sílabas e palavras. 174 Construção gráfica • Escrita alfabética com valor sonoro convencionado. Escrita (níveis de conceitualização) • A criança compreende que: — os caracteres da escrita correspondem a valores menores que as sílabas (antecipação quantitativa); — devem-se escrever tantas grafias quantos fonemas tenha a palavra. • A criança elabora sistematicamente uma análise dos fonemas das palavras que vai escrever. • Esse nível constitui o final da evolução, pois a criança já compreendeu o modo de construção do código. • A partir desse momento, a criança já compreendeu o modo de construção do código. • A criança não terá problemas de escrita (no sentido estrito, conceituai), mas se defrontará ainda com duas dificuldades. — a ortografia das palavras, — a separação entre palavras, pode escrever orações (frases) sem deixar espaço entre as palavras ou fazer cortes que não correspondem à separação convencional da escrita. Leitura • A criança já lê alfabeticamente. • A escrita e a leitura do nome próprio operam sobre os princípios alfabéticos, aparecendo, no entanto, problemas ortográficos. A leitura de partes do nome já não oferece nenhuma dificuldade. Por meio de seus numerosos livros e artigos, Emilia Ferreiro permite-nos conhecer as conclusões a que tem chegado utilizando como informação básica as descobertas sobre a psicogênese da língua escrita, tanto na criança como no adulto. Esses escritos contribuem para o aprofundamento de pontos fundamentais do construtivismo e do processo de alfabetização. Embora não seja nosso objetivo discutir o construtivismo, sabemos que o pensamento ocidental moderno, marcado desde Rousseau pelo conflito entre o racionalismo e o empirismo, vem sendo revitalizado com as teorias de conhecimento de origem construtivista. Mencionaremos alguns pontos necessários para um melhor entendimento da psicogênese da língua escrita e dos processos de aprendizagem. (Citação: Racionalismo-teoria epistemológica que valoriza a razão, ou o pensamento, como fonte de conhecimento. Empirismo: teoria epistemológica segundo a qual o conhecimento vem de fora, dos objetos, por meio das sensações ou experiências, e o sujeito as

a principal questão levantada pelos teóricos é a de que o construtivismo é. As contribuições de Vygotsky. por sua vez. Incorporando a proposta de educação para Emílio. pela ótica de como se . no entanto. a matéria do conhecimento é variável de um objeto a outro. Nuttin e outros vieram imprimir dimensão cultural ao objeto e histórica ao sujeito. a epistemologia genética. quando afirma que o conhecimento deve-se dar na relação entre o sujeito e o objeto e por meio dela. Wallon. mas a forma. Logo. Este. 42. tentou casar as duas visões díspares do conhecimento: a visão de que a análise lógica das ações e objetos conduz ao aumento do conhecimento e a visão de que a experiência individual de alguém gera novo conhecimento. Todo objeto é 176 cultural e se apresenta na sociedade. Não há sujeito sem objeto e não há objeto sem sujeito que o construa. construtivismo é ”um sistema epistemológico que fundamenta a construção da mente e do conhecimento sobre bases anteriores. antecipa Piaget. sendo imposta ao objeto pelo sujeito. do empirismo comportamentalista fbehaviorismo) e do associacionismo (em razão dos condicionamentos e das associações estímulo-resposta). num processo extremamente dinâmico e reversível de equilíbrio majorante”. O sujeito não está simplesmente situado no mundo. Luria. Foi. uma nova visão de mundo e da natureza humana — embora ainda seja considerado por muitos educadores um métov do de ensino (talvez pela própria necessidade de encontrar uma forma ou caminho para melhorar o rendimento escolar). Para Kant. p. p. na constituição do conhecimento. 1996. MATUI. Ao considerarmos a interação entre sujeito e objeto uma estrutura bifásica. deixa claro que não concorda com nenhum dos dois reducionismos (que consideram o conhecimento em função de um dos elementos da relação sujeito/objeto). mas o meio (o objeto) entra como parte integrante do próprio sujeito. Rousseau já percebera o erro das filosofias da época que analisavam apenas. visto depender do objeto.) 175 REVENDO A PSICOGENESE DA LÍNGUA ESCRITA No século XVIII. Se retrocedermos no tempo para acompanhar um pouco mais da discussão sobre a construção do conhecimento (o que é fundamental para entender o construtivismo). o papel do sujeito (no caso do racionalismo) ou do objeto (no caso do empirismo). E a maneira de captá-lo ou assimilá-lo é pelo diálogo. de Jean Piaget. antes de tudo. 32. 1996. veremos que as idéias de Rousseau de que o sujeito recebe as impressões do mundo exterior (sensações) e deve trabalhá-las para chegar aos conceitos (que dão forma aos objetos) foram retiradas de Kant. Leontiev. e a forma. MATUI. ”conhecer é dar forma a uma materia. e é claro que a matéria é a posteriori. será reencontrada invariavelmente em todos os objetos e por todos os objetos”. Segundo Jiron Matui. como matéria e conteúdo cognitivo e histórico. vemos que esses elementos são inseparáveis quando se trata da construção do conhecimento. A psicologia recebeu grande influência. com efeito. Em seu tratado sobre educação. a príori.recebe passivamente.

Da mesma forma.1977. Para Marx. estes têm sua gênese (origem) no ser humano por internalização e reconstrução.1996. FREIRE. Sendo de formação histórica. p 75. 1987. em nenhuma instância. 1996. 1983.” MATUI. universidade e necessidade. pois.p 78. Essa integração produz-se como conseqüência dos conflitos que surgem quando os esquemas existentes encontram-se com outros em novos contextos e mostram-se impossíveis de ser relacionados e aplicados. 33. e de que. SINCLAIR. o homem os constrói. tanto da pessoa como da mente. está pronto. nível de desenvolvimento e participação na sociedade. para pronunciá-lo. Sendo. fazendo parte dela conceitos de totalidade. isto é. BECKER. e por força de sua ação constrói conhecimento. o pensamento. não se esgotando.” RAMOZZI-CHIAROTTINO. ou seja. mediatizados pelo mundo. definindo-o como o ”encontro dos homens.45. histórico e social. . acabado. na relação eu-tu”. Sinclair e Bovet. MARX. com base em estudos experimentais. concluem que. corresponde ao conjunto dos elementos e à relação contínua e dialética destes entre si. que se constróem no tempo. especificamente o conhecimento não é dado. o conhecimento prolonga-se em função das múltiplas relações existentes na sua realidade material e toma a forma de ”uma espiral que se amplia infinitamente em altura”. que nos deu a conhecer essa nova visão sobre o processo de interação entre sujeito e objeto da aprendizagem. ”não é a consciência que determina a vida mas a vida é que determina a consciência”. de acordo com os seus esquemas. MATUl. Para Piaget. Daí a necessidade da interação social. portanto. da cultura a que pertence. INHELDER. ”Não ocorrerá a construção de novos conhecimentos se não ocorrer a reconstrução de velhos conhecimentos. p. a essência do sujeito surgem como ”emanação direta do seu comportamento material.p 77 (Citação: Estrutura. a rigor. enfim. PIAGET. Se considerarmos o desenvolvimento cognitivo um (processo interativo e construtivo. 1971. Inhelder. a consciência. alcançando as características intemporaís das estruturas lógico-matemáticas. como algo terminado”. como afirmamos acima. Freire destaca a importância do diálogo. reconstrói e internaliza. p.origina o conhecimento científico na criança. ao mesmo tempo que têm uma gênese. em situação de dialogicidade. 1983.p. chegam a um estado de equilíbrio perfeito. p 88-9. como ”forma privilegiada de acesso à informação/ao objeto de conhecimento”. o sujeito não nasce com o pensamento ou os conhecimentos. concluiremos que se trata de um processo dinâmico e dialético. participando da prática social de sua comunidade. durante toda a vida. equüibração e transformação) Em Genebra.” O ser vivo interage com o meio físico e social. ”As estruturas mentais.1972. 22. BOVET. Daí a afirmação de Becker 177 de que o construtivismo significa que ”nada. É. juntamente com outras pessoas. com base em conhecimentos anteriores que são reestruturados a cada nova informação recebida. os pesquisadores de Emilia Ferreiro. cada nova estrutura forma-se mediante a integração e coordenação de esquemas jáexistertes.

Inicialmente. filmes. que seria o refletir (espelho). nas palavras de Piaget. a ação é internalizada. fotos. para as quais faltam os nexos lógicos de explicação que ocorrerão em outro plano. Em segundo lugar. ela transpõe para um plano superior aquilo que retirou do plano anterior. fenômenos e acontecimentos (representações simbólicas) Ao vivenciá-los em grupo (por meio do diálogo). Essa reconstrução no plano B é um estabelecimento de relações entre as representações. a criança formará imagens mentais (mas não conceitos) dos objetos. em situação de aprendizagem. ou verdadeiro conhecimento. e aquelas que já existiam em B com certa organização. É quando ocorre a elaboração interna. ou. como a que se deve realizar num ambiente escolar. Os conhecimentos construídos nesse segundo plano chamam-se conhecimentos físicos e são formados de características e propriedades do objeto.p 69 A passagem da ação para a conceituação é que per mite a construção do conhecimento. deve-se levar em . RAMOZZI CHIAROTTINO. em ”esquema antecipador ou procedural”. recomenda-se que as funções sociais da linguagem e da escrita sejam vivenciadas interindividualmente. paladar. Daí a importância de proporcionar o contato com símbolos (figuras. Daí a constatação de que. recriada de forma didática. A essa reorganização Piaget chama reflexão. o sujeito age sempre de forma integral. discurso interior (Vygotsky). Freinet si178 tua no tateio experimental o patamar inicial dessa construção.vivenciando as funções sociais da leitura e da escrita. audição. Transforma todos os seus esquemas de pensamento em ação. Piaget chama a isso réfléchissement. como um ser total. ação sobre ação ou experiência lógico-matemática (Piaget). O discurso interior evo179 lui. A ação da práxis humana.1972. Em primeiro lugar. que é a construção do saber de forma global. ou formas novas. pensar a palavra. ou experiência de experiência. atingindo o patamar da abstração reflexiva. olfato) e dos sentimentos com o objeto do saber. o ato de pensar as palavras é o próprio desenvolvimento do discurso interior (metacognição). constituído — como para Piaget — pelos primeiros contatos dos sentidos (visão. deve possibilitar a produção dos conhecimentos. Para conhecer. descobertas mediante ação direta do sujeito sobre o objeto. patamar da reflexão e abstração lógico-matemãtica. etc ) quando for impossível o contato direto com o objeto No caso da alfabetização. em nível mental. na construção do conhecimento. devemos entender a abstração reflexiva em dois sentidos complementares. ou metacognição Para Vygotsky. Segundo Ramozzi-Chiarottino. As escritas ainda não são verdadeiras construções. tato. o sujeito reconstrói sobre o plano das formas ou das representações (plano B) aquilo que é retirado do plano das ações (plano A). que a criança aprende sobre esse objeto de conhecimento. alimentado pela aprendizagem e pelo desenvolvimento dos conceitos científicos.

” 180 Cada estrutura cognitiva é um esquema operatório ou sensório-motor que capacita o sujeito para a aprendizagem de novos conteúdos e faz parte de um conjunto estruturado de respostas ou sistemas. permite à criança escrever. Os elementos que serão conhecidos fazem parte de um todo que se regula e se transforma de forma dialética. aquisição da estrutura própria de cada nível do desenvolvimento e da própria aprendizagem. ambos consistem em . que consiste não mais em reunir entre si os indivíduos considerados como equivalentes (como em 1). mas em ligar as relações assimétricas que expressam suas diferenças. uma ordem de sucessão. de início. que são. Um segundo agrupamento elementar põe em prática a operação.ideográfica). PIAGET. 1971. p. Observa. Repousa ele numa primeira operação fundamental: na reunião dos indivíduos em classes e das classes entre si. equilibração (ou auto-regulação) e transformação. As estruturas não derivam ”exclusivamente da sensação ou da percepção. desenho e escrita se confundem. PIAGET. determinam a aprendizagem e permitem a ampliação dos conhecimentos. totalidade. De um lado. sendo uma imitação gráfica. mas também dos esquemas de ações ou dos esquemas operatórios de diversos níveis. 71 (grifo nosso). p. contínua. 1996. 2. e o agrupamento constitui. Daí a importância dos resultados das pesquisas de Emiíia v. A reunião dessas diferenças supõe. Na Psicogênese da língua escrita ela mostra que. colocando em ação todas as suas estruturas. por exemplo.consideração as estruturas mentais. entendida como a possibilidade de diferenciar significantes de significados. espontânea. mas comporta uma organização ativa.marcas ou traços visíveis sobre o papel. a criança avança para novos conhecimentos. por conseqüência. ”o desenho. E exemplifica: ”l. uma seriação qualitativa. de agrupamento. Ferreiro. a própria percepção não consiste em simples leitura dos dados sensoriais. . denominado. uns e outros irredutíveis à mera percepção. o sujeito age de forma integral. Diante de uma situação nova. que no início da representação gráfica infantil. na qual intervém decisões e pré-inferências e que é devida à influência. pela primeira vez. ”A hipótese silábica. 1973. então. O conhecimento é construção da função simbólica.” MATUI. que é uma verdadeira revolução dentro do processo de alfabetização. Na perspectiva de Piaget. O modelo completo é construído pelas classificações zoológicas ou botânicas. 92. consegue escrever o que pensa (imagem mental) por meio da escrita (embora. a cada hipótese cognitiva.O agrupamento lógico mais simples é o da classificação ou encaixamento hierárquico das classes. 118. No caso da alfabetização. São elas que. Quando a criança constrói a hipótese de que o texto está no lugar do desenho. quando desenvolvidas. por Piaget. p. reprodução material de um modelo. A estrutura pressupõe um conjunto de elementos e suas relações. cada hipótese que a criança elabora sobre a leitura/escrita permite-lhe adquirir novos conhecimentos. sobre a percepção. para Piaget. implica a função semiótica. Considera [Piaget] que a função semiótica aparece durante o segundo ano de vida. do esquematismo das ações ou das operações”. o som que ouve e não mais escrever a idéia que pensa.

Um fato observado por Emilia Ferreiro durante suas pesquisas sobre as hipóteses das crianças com respeito à escrita. um significante que mantém relações muito estreitas com o desenho e com a linguagem — embora não seja transcrição desta nem derivada daquele. concluindo que o processo de aprendizagem da criança pode acontecer por vias insuspeitadas para o docente e. Ao ler as imagens.1986. etc. p 64 Os textos que contém estão distribuídos de forma diferenciada pelas páginas que o compõem. ao mesmo tempo que solicitam do adulto a leitura de histórias ou revistas. cartas. gráficos) e estão 181 impressos em diferentes tipos de letras As crianças também deparam. bilhetes. de forma irregular (21). sejam estes símbolos individuais ou sinais sociais”. A linguagem. cartazes. a imagem mental e a expressão gráfica envolvem a função semiótica. Percebeu-se que as crianças de 4 anos esperam encontrar no texto o nome do objeto desenhado. crianças de classe baixa. com outros textos que não do livro didático: jornais. Entrevistadas no começo. São elementos novos que podem contribuir para a organização do trabalho em sala de aula. as crianças aprendem muitas das coisas que as cercam. livros de história. a criança é capaz de usar significantes diferenciados. Na posse dela. as crianças deram indícios que permitiram a Emilia Ferreiro agrupar as questões. acompanhados ou não por ilustrações (desenhos. fotografias. todos eram de famílias de baixa renda. mais especificamente. em outro nível. em relação ao construtivismo sob o enfoque pedagógico. a criança já possui várias jconcepções sobre a escrita e é preciso procurar sua gênese em idades mais precoces. eram 17 meninos e 13 meninas. alguns dos quais freqüentavam pela primeira vez uma escola (7 crianças) e outros haviam cursado ou o jardim-de-infância ou a pré-escola. e que lhe causou preocupação.1986. não começam do zero na primeira série. desde muito cedo. foi como conciliálas em função da imagem e a realidade das propriedades do texto. p. Aos 6 anos. é algo que serve para olhar e para muitos. 64 A escrita também é um objeto simbólico. capazes de ampliar. panfletos. O ”livro. as ações sensório-motoras iniciais. enciclopédias. com efeito. FERREIRO & TEBEROSKY. desenvolver leitores comprometidos. para si. por acreditarem que este representa o nome do objeto total presente no desenho Esse e outros mal-entendidos. o jogo simbólico.continuando. a imitação diferida. por outro lado. p 37 . FERREIRO & TEBEROSKY. Emilia Ferreiro procurou desfazer com exemplos tirados de suas pesquisas.para ler”. no meio e no final do curso. com idades variando de 5 a 11 anos no início da pesquisa. A experiência relatada a seguir foi realizada^çQni urna amostra de 30 crianças argentinas nos anos de 1974 a 1976.1986. quando esta viesse acompanhada de imagem. durante o período escolar. o problema suscitado foi: em que momento a escrita se constitui em objeto de conhecimento? As sondagens feitas por Emilia Ferreiro indicam que até por volta dos 4 anos as crianças espontaneamente fazem perguntas do tipo como se escreve? ou o que se diz?. os significados traduzidos em linguagem escrita. inclusive as da pesquisa. FERREIRO & TEBEROSKY.

O sistema gráfico por eles utilizado era.. tais como: Por que todos devem escrever com a mesma ortografia? Por que é preciso caprichar na letra? Por que a língua escrita tem regras de acentuação? Por que a gramática da língua escrita nem sempre corresponde à da língua oral? Outra tarefa louvável é transmitir aos alunos a idéia de que a escrita é um instrumento fascinante que a humanidade levou séculos para criar. paciência e maturidade. pode ajudá-los a encontrar respostas para questões que. O conhecimento de uma pesquisa sobre a história da escrita. Como o trabalho no papiro exigia muita minúcia e paciência. eles se fazem quando precisam realizar tarefas impostas pelos professores e para as quais nem sempre encontram sentido. Os egípcios foram também os inventores do papel. portanto. Naquela época.. sua medicina. realmente. o deus da sabedoria na mitologia egípcia. feita com os alunos. tantos séculos depois. o aprendizado da escritura estava impregnado de magia. não significam que não tenha aprendido. como ilustra a história relatada a seguir: ”Para os antigos egípcios. gastronomia. e é possível que essa preocupação comece muito antes. uma das primeiras civilizações a adotar a escrita como disciplina escolar. a descobrir uma arte encantadora exercida por poucos eleitos e que atribuía ao seu aprendiz poderes supremos. aliados a uma combina183 cão de signos para exprimir idéias). de certo modo. uma escrita dos deuses — a palavra ’hieróglifo’ significa ’grafia sagrada’ — e era composta de magníficos desenhos admiravelmente estilizados. Os escribas. O educador precisa ter claro que a criança primeiro aprende a escrever para só depois dominar a ortografia. mitologia e literatura. É preciso compreender as causas do erro para levá-la a superá-lo com base em um trabalho de conhecimento da forma ortográfica correta. formavam a casta mais poderosa da sociedade e exerciam grande influência sobre os faraós [. em sua forma mais arcaica. astronomia. detentores deste conhecimento e responsáveis por ensiná-los aos jovens. havia criado o sistema da língua escrita e presenteado os homens com esse novo saber. Ao contrário do que educador e criança esperam quando esta inicia sua escolaridade. Era a época da crença na magia da palavra. certamente. A originalidade e complexidade dessa escritura contém três tipos de signos’ os pictogramas (desenhos representando coisas ou seres. formando belíssimos poemas visuais que. o aprendizado da escrita requer tempo.182 Ferreiro afirma que o interesse pela escrita não começa quando a criança atinge determinada idade cronológica. . o papiro. em função dos sujeitos e das condições ambientais. os fonogramas (desenhos que representam sons) e os determinativos (os signos que permitem saber a que categoria pertencem as coisas e seres em questão). As incorreções que comete. Thot.] Foi graças ao seu rigor que os antigos egípcios puderam registrar sua história. permanecem extasiantes. aprender a ler e a escrever eqüivalia. em encantamentos secretos cuja eficácia não era jamais posta em discussão.

C. avisos. sobretudo. p. cópias e ditados. por meio de experiências significativas. portanto. no ônibus. colocando-o à sua disposição para 184 que. na Grécia se falava uma língua muito diferente e que não era capaz de transcrever os alfabetos existentes. dezessete consoantes e sete vogais. É desse alfabeto que nasce nosso alfabeto latino. representada por todos os gêneros: poesia. suas estratégias ainda freqüentam muitas salas de aula contemporâneas. outdoors”’. Foi nessa época que os gregos tiveram uma idéia simples e genial — para anotar suas vogais. desconsiderar as informações que a criança domina e exigir dela o que não tem.C. O — ômicron. luminosos. com a invenção do alfabeto grego. Todas as formas de leitura são importantes e devem ser valorizadas. tabuletas cobertas de cera sobre as quais os alunos traçavam as letras com um estilete e que depois podiam apagar. ROCCO. que se distingue de outros sistemas de escrita por permitir escrever tudo que se desejar com uma pequena quantidade de signos. As letras maiúsculas eram utilizadas para gravar em pedras.” CAVALCANTI. rezava um provérbio da época. Y— ipsilon. . O ato de ler. conhecer o momento do processo de compreensão da língua escrita em que está a criança e resgatar com ela esse objeto de conhecimento. A escola não pode.criou-se a escrita cursiva. o alfabeto grego já existia contendo vinte e quatro signos ou letras. Em meados de VIII a. E — epsílon. ela possa interagir com ele e compreender seu significado e uso. o caminho da alfabetização era um tanto árduo. Precisa. p. quando os egípcios ainda traçavam hieróglifos e na Palestina já se utilizavam escritas alfabéticas.. 5. surge nos séculos V e VI antes de Cristo uma das mais ricas literaturas de todos os tempos. No século V a. Os alunos com mais facilidade de aprender eram escolhidos pelos escribaspara que prosseguissem com os estudos até a idade adulta. justificando a prática de bater com varas nas costas das crianças que por ventura dessem um pequeno sinal de distração durante as aulas. mais fácil de ser aplicada sobre esse suporte e que contribuiu para a popularização da escrita. Como se vê. no metrô. mas lê-se também nos bancos das praças. As questões relativas à leitura e aos gestos de ler ”vêm sendo discutidas já há mais de duas décadas. o indivíduo recebe outras mensagens escritas: placas. nos aviões. Os gregos haviam inventado as ’ardósias’. nas ruas. teatro. as crianças custavam alguns anos a alfabetizar-se. hoje acontece em todos os lugares. Para uma criança egípcia. ao passo que as minúsculas eram usadas para escrever sobre o papiro. 5. 1996. Lê-se em casa. leitura. Sabe-se também que esse alfabeto podia ser escrito em letras maiúsculas ou minúsculas. história e filosofia. ’O melhor ouvido da criança são suas costas’. Assim nasceram o A — alfa. antes restrito a ambientes fechados. tomaram emprestado do alfabeto aramaico diversos signos que representavam caracteres inexistentes na língua grega. Ingressando na escola aos dez anos de idade. O método utilizado pelos mestres egípcios consistia em exercícios de memorização. E além de textos nas mãos. 1996.

está marcada por documentos escritos. entre outros requisitos. Isso. aprofundando e ampliando o domínio dos níveis de leitura e escrita. tenha preparo teórico e metodológico para selecionar textos interessantes. isto é. da metodologia do processo ensino-aprendizagem entendido como prática social transformadora e democrática. uma vez que cada um deles é marcado por novas características de desenvolvimento que auxiliarão o nível subseqüente. a . Todo professor precisa ter um born preparo profissional que garanta. Podemos exemplificar com a experiência de Piaget sobre o transvasamento de um líquido. principalmente nos últimos dois séculos. de um recipiente baixo e largo para outro estreito e alto. aos quais a leitura está intimamente associada. como processo específico e intencional de organizar e propor situações para que ocorra determinada aprendizagem.A vida do homem. Cabe à escola estabelecer relações entre leitura/escrita e criança/adulto. baseando-se em procedimentos que assegurem uma aprendizagem significativa e prazerosa. tempo. espaço. seriação. em que o nível de líquido sobe. O professor só pode trabalhar se os alunos e seus desejos estiverem presentes: é o prazer de dar significação às coisas e ao universo que move o ensino-aprendizagem. seja paciente para ouvir as leituras que fazem dos textos estudados e/ou que venham a produzir com a expressão ”preparo teórico e metodológico”. Só quando tiver adquirido a reversibilidade de pensamento. A condição primeira para que isso aconteça é que o professor também goste de ler. acaso. A aprendizagem é provocada mediante um problema que toque realmente cada aluno. deles entre si e deles com o conhecimento. etc. uma vez que a psicogênese é evolucionista ou um ramo do evolucionismo. o professor vinculará os conteúdos de ensino à realidade. Ciente de que conhecimento. no âmbito da escola. o domínio do saber e do saber-fazer. prevendo interações com os alunos. que acontecem por construção e interação. estamos nos referindo às questões do ensinar e aprender. Piaget chama nível intermediário de desenvolvimento (corresponde à área de desenvolvimento proximal de Vygotsky). classificação. embora apoiada nas já existentes (funções mentais previamente 185 amadurecidas). Seus estudos sobre conservação de número. Algumas vezes. ou contradições que levam a um desequilíbrio. auxilia o nível seguinte. Essas aprendizagens são o ponto de partida para a conclusão de um ciclo de desenvolvimento ou amadurecimento das estruturas mentais. Isso mostra a importância de conhecer o nível de desenvolvimento de cada aluno para poder orientar sua aprendizagem. leia para e com seus alunos. Categorias ou estruturas mentais surgem e se desenvolvem durante toda a vida do indivíduo Cada desenvolvimento corresponde a uma possibilidade de aprendizagem nova. Ao período que vai da inexistência de uma estrutura até sua existência. características do nível anterior se conservam (desenvolvimento real) e surge um conflito. em vez de prejudicar. e orientar a escolha dos materiais de leitura. desenvolvimento e aprendizagem são processos relacionados entre si. fazem parte da busca de entendimento maior dos níveis intermediários.

Sua preocupação como pesquisadora volta-se. 122. escola. portanto. conforme mostra Emilia Ferreiro. Para Piaget. . mas que estuda o processo que percorrem aqueles que se apropriam de leitura e escrita. professor. que considera a criança um sujeito do conhecimento que. O nível silábico-alfabético é um exemplo típico dessa afirmação. (Citação: Estrutura e desenvolvimento são por nós utilizados como sinônimos. em que o outro desempenha um papel mediador fundamental. conhecimento. a criança depende das solicitações culturais do mundo em que vive. A psicogênese da língua escrita. passa necessariamente por etapas. trechos que ilustram seu pensamento em relação a criança.” MATUI. segundo a autora. um nível de desenvolvimento potencial (desenvolvimento que a criança pode alcançar) e uma área de desenvolvimento proximal (distância entre o nível real e o potencial). situados entre a teoria de Jean Piaget e a sala de aula. a seguir. nesse processo. variando apenas em função da idade. conforme descrevemos no quadro da página 174. eles desvendam a história da pré-escrita. para o caminho que percorrem aqueles que se apropriam da leitura e da escrita. Todo professor que alfabetiza deve ter consciência de porque a criança precisa ser alfabetizada. há um nível de desenvolvimento efetivo ou real (desenvolvimento das funções psicointelectuais da criança). uma vez que. quando fracassa. em seus escritos.criança irá compreender que o líquido se conservou. ”A passagem [de um nível a outro] se completa pela tomada de consciência. significando o produto do processo de construção ou da aprendizagem. como ser histórico. quando deve ser alfabetizada e que tipo de alfabetização é necessário. porém conserva as características da escrita silábica (uma letra para cada som). uma vez que não se acrescentou nem retirou líquido. é um tratado sobre as hipóteses cognitivas e os conflitos presentes nos níveis intermediários do processo de construção da escrita e da leitura pela criança..) 186 Textos selecionados de Eimília Ferreiro Desde 1974. 1996. linguagem escrita/leitura. de modo independente da camada social. métodos/ metodologia. principalmente em situações de grupo ou atividades interindividuais. A alfabetização. Apresentamos. aprendizagem. As etapas são iguais. uma vez que apresenta as características do nível alfabético (sílabas de consoantes e vogais). Os estudos de Emilia Ferreiro sobre a psicogênese da língua escrita são suficientemente fundamentados. Emilia Ferreiro vem afirmando que não construiu nenhum método de alfabetização. p. mostrando como. o desenvolvimento das estruturas mentais é que produz a aprendizagem Para Vygotsky. nunca da condição social da criança. Afirma com clareza. avaliação. chegando à conclusão de que existe a mesma quantidade. o faz por causa de uma inadequada proposta escolar ou por ter uma bagagem de conhecimentos muito diferente da trabalhada pela escola.

”Propõem-se à criança orações para ler e para copiar que constituem uma afronta à inteligência infantil. problemas gerais de classificação e ordenação.. divertidas ou importantes. APRENDIZAGEM ”As crianças iniciam o seu aprendizado de noções matemáticas antes da escola.] A criança que cresce em um meio ’letrado’ está exposta à influência de uma série de ações. 188 Há crianças que chegam à escola sabendo que a escrita serve para escrever coisas inteligentes. Essas são as que terminam de alfabetizar-se na escola. Felizmente. criamse as condições para a inteligibilidade dos símbolos. através da possibilidade de entrar em contato. [. quando se dedicam a ordenar os objetos mais variados (classificando- . [.. mas começaram a alfabetizar-se muito antes. 1985. E quando dizemos ações. Essas práticas escolares. Estão construindo objetos complexos de conhecimento e o sistema de escrita é um deles. 65.. neste contexto. estaremos supervalorizando as capacidades da criança. adulto/criança e crianças entre si. p. p.” FERREIRO. p. não lhes permitem apropriar-se de nada: acabam por ser meras reprodutoras de signos estranhos. 59-61. queremos dizer interações. de descobrir respostas para eles. ”A criança se vê continuamente envolvida.. 22-5. ESCOLA ”A instituição social criada para controlar o processo de aprendizagem é a escola.187 CRIANÇA ”A criança é também um produtor de textos desde tenra idade. Através das interações adulto/adulto. No esforço de compreender o mundo que as rodeia..” FERREIRO & TEBEROSKY.[.] que necessitam da escola para apropriar-se da escrita. 181-190.1986. levantam problemas muito difíceis e abstratos e tratam. por si próprias. Logo. Desde que nascem são construtoras de conhecimento.” FERREIRO.” FERREIRO. a aprendizagem deve realizar-se na escola. de interagir com a língua escrita. no mundo ’letrado’. p. que pode estar longe de ter descoberto sua natureza fonética. as crianças enfrentam. entretanto. necessariamente. como agente e observador.. Descobrir que duas ordens diferentes dos mesmos elementos possam dar lugar a duas totalidades diferentes é uma descoberta que terá enormes conseqüências para o desenvolvimento cognitivo nos mais variados domínios em que se exerça a atividade de pensar.] Tratando de resolver os problemas que a escrita lhes apresenta.. as crianças de todas as épocas e de todos os países ignoram esta restrição. Porém há outras crianças [.. 1985. Nunca esperaram completar 6 anos e ter uma professora à sua frente para começarem a aprender. 1992.] Se pensarmos que a escrita remete de maneira óbvia e natural à linguagem.

mas como uma necessidade social.. p 24 CONHECIMENTO ”Sabemos perfeitamente que o conjunto de conhecimentos que um indivíduo adquire no curso de seu 189 desenvolvimento depende das exigências do meio cultural em que cresce. elas necessariamente transformam o conteúdo recebido. Quando tentam compreender. mas não é o único (nem sequer é o mais importante).” FERREIRO. assim como as informações sociais. também há reconstrução do conhecimento da língua oral que a criança tem para poder utilizá-lo no domínio da escrita. Este é o significado profundo da noção de assimilação que Piaget colocou no âmago de sua teoria. 1992.. sem dúvida. na medida em que a participação na sociedade global (não apenas nacional. não são recebidas passivamente pelas crianças.” FERRíIRO. de algum modo. Iniciam o aprendizado do uso social dos números. 1992. p. p 578 (grifo nosso) ”Os processos de construção sempre supõem reconstrução. [. o que é que se reconstrói? É preciso reconstruir um saber construído em certo domínio para aplicá-lo a outro.” FERREIRO & TEBEROSKY1986. A cultura do campo exige conhecimentos diferentes da cultura da cidade. 275. A tão comentada ’prontidão para leitura-e-escrita’ depende muito mais das ocasiões sociais de estar em contato com a linguagem escrita do que de qualquer outro fator que seja invocado.os ou colocando-os em série).” FERREIRO. os indivíduos podem exigir o direito à alfabetização. quer dizer. na medida em que esses conhecimentos são transmitidos de maneira privilegiada através de textos escritos. e não aprendizagem de uma técnica. em um ambiente social. portanto. ” Dizemos apropriação de conhecimento. participando de diversas situações de contagem e das atividades sociais relacionadas aos atos de comprar e vender. a falta de capacidade para manejar os sistemas simbólicos de uso social põe qualquer indivíduo em situação de carência.” FERREIRO. 1980. Mas as práticas sociais. 87. quando o reconstituiu internamente. o que não pode ser entendido como uma opção individual. . aqui como em qualquer outro domínio da atividade cognitiva: um processo ativo de reconstrução por parte do sujeito que não pode se apropriar verdadeiramente de um conhecimento senão quando compreendeu seu modo de produção. Aprende-se mais inventando formas e combinações do que copiando. p 98 102 ”O desenvolvimento da alfabetização ocorre. há reconstrução de um saber construído previamente com respeito a um domínio específico para poder adquirir outros conhecimentos do mesmo domínio que. Além do mais. no entanto.] A cópia é um dos procedimentos usados para apropriar-se da escrita..p. O funcionamento da sociedade global requer indivíduos alfabetizados. com tudo o que essa apropriação significa. [. e.. mas também internacional) requer o domínio dos conhecimentos que são ’essenciais’ em uma cultura urbana. têm sido registrados sem poder ser compreendidos. a fim de registrarem a informação.] Contudo. 1985. elas a transformam.

convencional. o conjunto de hipóteses exploradas para compreender este objeto. anúncios da tevê. descobrir por si mesma. Ninguém espera que. 66. No mundo circundante estão todas as .) ou em termos de letras ’de mais’ ou ’de menos’. quer dizer. Ninguém tenta retraduzir o que a criança escreveu. Todos tentam compreender o que a criança disse supondo que quis dizer algo. p. Impedindo-a de escrever (isto é. sem compreender sua estrutura) a impedimos de aprender. 27-30. etc. os adultos que rodeiam a criança manifestam entusiasmo quando ela faz suas primeiras tentativas para comunicar-se oralmente. e a maneira na qual se representa. a sintaxe seja perfeita. um esquema conceituai que permita processos de inferência acerca de propriedades não observadas de um determinado objeto e a construção de novos observáveis. curva fechada. quando parece necessário.p 274-5 191 ”A língua escrita é um objeto de uso social. [. Quando as crianças vivem em um ambiente urbano.. desde as primeiras combinações de palavras que tente produzir. com uma existência social (e não apenas escolar). e a ortografia.] a evolução da escrita que nós evidenciamos não depende da maior ou menor destreza gráfica da criança.. a emissão infantil (isto é. 190 LINGUAGEM ESCRITA/LEITURA ”No caso da aprendizagem da língua oral. desde a primeira palavra emitida.). Quando corrigimos sua escrita-cópia em termos de relações espaciais (barra à esquerda. deixamos de lado o essencial do texto: o que se quer representar.1986. Implica a construção de um esquema conceituai que permita interpretar dados prévios e novos dados (isto é. 1992. a pronúncia seja correta. Ninguém tenta compreender o que a criança quis escrever. quer dizer. p. a repetir o traçado de outro. etc. Ninguém espera que. encontram escritas por toda parte (letreiros da rua.” FERREIRO. que possa receber informação e transformá-la em conhecimento). de explorar suas hipóteses no ato de produção de um texto) e obrigando-a a copiar (isto é. e dão feedback lingüístico ao responder as suas perguntas parafraseando. 1985. mas sim do que chamamos seu nível de conceitualização sobre a escrita. de sua maior ou menor possibilidade de desenhar letras como as nossas. duas barras no lugar de três.. retraduzindo no código adulto o significado identificado na emissão infantil).. na base do que se antecipou e do que foi verificado. “[.] Quando a criança faz suas primeiras tentativas para escrever é desqualificada de imediato porque ’faz garatujas’. porque se supõe que não possa escrever nada até ter recebido a instrução formal pertinente (na realidade: é melhor que não escreva até saber grafar de modo conveniente). Desde as primeiras escritas o traçado deve ser correto.” FERREIRO & TEBEROSKY. vasilhames comerciais.” FERREIRO. propagandas.”A construção de um objeto de conhecimento implica muito mais que mera coleção de informações. porque lhe nega o direito de aproximar-se da escrita por um caminho diferente do indicado pelo método escolhido pelo professor.

Todas as letras em uma grande quantidade de estilos e tipos gráficos. FERREIRO. São provavelmente essas práticas (mais do que os métodos em si) que têm efeitos mais duráveis a longo prazo. o professor precisa ser tão ativo quanto seus alunos. 26. pelo outro. 1992. Há práticas que levam a que o sujeito (a criança neste caso) fique de fora’ do conhecimento. Conforme se coloque a relação entre o sujeito e o objeto de conhecimento. imutável e não modificável. requer uma justificativa teórica. tão criativo quanto eles.” FERREIRO. e conforme se caracterize a ambos. Há práticas que levam a pensar que ’o que existe para se conhecer já foi estabelecido. Porém. no domínio da língua escrita como em todos os outros. 192 certas práticas aparecerão como ’normais’ ou como ’aberrantes’. p. . 1985. ”É útil se perguntar através de que tipo de práticas a criança é introduzida na língua escrita.” FERREIRO.. É aqui que a reflexão psicopedagógica necessita se apoiar em uma reflexão epistemológica. como um conjunto de coisas fechado. processos que tal ou qual metodologia pode favorecer.p. e como se apresenta este objeto no contexto escolar..p 37-8. deve estartão interessado em ajudá-los quanto eles em aprender coisas novas. Ninguém pode impedir a criança de vê-las e se ocupar delas. como espectador passivo ou receptor mecânico.p.) ”O que sabemos é que os professores que se atrevem a dar a palavra às crianças e a escutá-las descobrem rapidamente que seu próprio trabalho se torna mais interessante (e inclusive mais divertido). 1985.letras. MÉTODOS/METODOLOGIA ”No que diz respeito à discussão sobre os metodos. 50-2. a menos que conheçamos quais são os processos de aprendizagem do sujeito. já assinalamos [.] que essa querela é insolúvel. estimular ou bloquear. certamente. por um lado. sem nunca encontrar respostas aos ’porquês’ e aos ’para quês’ que já nem sequer se atreve a formular em voz alta. Nenhuma prática pedagógica é neutra. essa distinção entre métodos de ensino. mas com a freqüência que cada uma delas tem na escrita da língua. não em uma ordem preestabelecida. 30-1. E escutar é infinitamente mais importante do que falar.” (Anotações nossas em palestra de Emílio. Todas estão apoiadas em certo modo de conceber o processo de aprendizagem e o objeto dessa aprendizagem.” FERREIRO & TEBEROSKY. Os professores que começam a entender a alfabetização como um processo falam menos e escutam mais. embora seja mais difícil porque os obriga continuamente a pensar.1986. Há práticas que levam a criança à convicção de que o conhecimento é algo que os outros possuem e que só se pode obter da boca dos outros. sem nunca ser participante na construção do conhecimento. e processos de aprendizagem do sujeito.” PROFESSOR ”Para que uma proposta construtivista possa se realizar em sala de aula. Ferreiro. sagrado.

. não aprendem. sendo pertinentes apenas em alguns casos. cada um ao seu nível [. um par de ouvidos.”A transformação destas práticas é que é realmente difícil.39-40.. sem criar inibições. [. supondo que só se aprende através da reprodução correta. que por sua vez desempenham papel de primeira importância na evolução. Definir semelhanças apenas na base dos resultados é . nem ler. já que obriga a redefinir o papel do professor e a dinâmica das relações sociais dentro e fora da sala de aula. A escola fala em texto livre.] A correção sobre a ortografia não se deve confundir com a avaliação da língua escrita que está por trás.. todos podem ler e escrever. sem levar em conta o processo de construção. A conseqüência inevitável é a inibição: as crianças não tentam ler nem escrever e. Alguns desses conflitos entendemos muito bem. às vezes.] o professor não é mais o único que sabe ler e escrever na sala de aula. se não se está em condições de evitar o erro.. ou. [. ”Em uma visão construtivista o que interessa é a lógica do erro: trata-se às vezes de idéias que não são erradas em si mesmas.” FERREIRO. mas simplesmente em atividades que permitam ao professor ver o que a criança pode fazer. [. p. produzido espontaneamente pelas crianças... Uma das coisas mais proibidas é a escrita es193 pontânea.JTemos uma imagem empobrecida da criança que aprende: a reduzimos a um par de olhos.. ainda que seu texto não tenha erros ortográficos.. esperamos entender melhor outros em um futuro não muito distante.. p. [.] É através desse material. uma mão que pega um instrumento para marcar e um aparelho fonador que emite sons. 1985. 1992.. Eu não estou dizendo que a escola deva ignorar o erro ortográfico. 1992.p. 31. considerando unicamente os resultados. ”Em língua escrita todas as metodologias tradicionais penalizam continuamente o erro. 82-3. E quando digo avaliação não estou pensando em prova específica. [.” Anotações nossas em palestra de Emilia Ferreiro. que devemos acompanhar o processo de aquisição da língua escrita. apenas que deve saber qual o momento certo para fazê-lo. idéias que geram conflitos..] Uma das coisas que sabemos hoje em dia com maior clareza é que a correção ortográfica fora de tempo pode inibir a língua escrita. não se dá conta de que algumas crianças chegam sabendo mais do que outras... Só a consideração conjunta do resultado e do processo permite-nos estabelecer interpretações significativas. mas aparecem como errôneas porque são sobregeneralizadas. [. Porque eu me nego a chamar de alfabetizada a criança que produz apenas estereótipos. ”[. AVALIAÇÃO ”Como a escola não faz avaliações do nível inicial. portanto. mas proíbe textos livres como representação da escrita da melhor maneira que o sujeito é capaz de conseguir em cada momento de sua evolução. ou de idéias que necessitam ser diferenciadas ou coordenadas..” FERREIRO.” FERREIRO..] Uma das coisas mais reprimidas na escola tradicional tem sido a escrita.] é muito difícil julgar o nível conceituai de uma criança.. e que é melhor não tentar escrever.] precisamos adotar o ponto de vista do sujeito em desenvolvimento.

823.privilegiar nosso próprio ponto de vista. Esta é uma das razões pelas quais é tão difícil fazer uma análise psicogenética coerente. 1985. 194 .” FERREIRO. p.

Freinet e Emilia Ferreiro. As preocupações dos educadores do passado são as mesmas de hoje. Por que não as revisitar? Constatamos que Dalhem (discípulo de Decroly) e . para que o conhecimento avance. p 6 Buscar respostas a questões presentes em nosso saber-fazer pedagógico. dando lugar a uma nova teoria: teoria teorizada e não teorizante.] que constitui a base do saber-fazer pedagógico O professor-educador se forma a partir de uma base sólida de conhecimentos da prática refletida. E é esse instrumental teórico. a qual se efetiva com a conquista da cidadania. Decroly. as experiências que procuram acompanhar a evo196 lução da aquisição da escrita pela criança contribuem para o aprofundamento e o entendimento das questões do ensinar e do aprender e também para a construção de uma teoria de alfabetização. exige investimento permanente em recursos humanos e materiais. nos textos de estudiosos e educadores do passado e do presente. em informações ligadas a nossa prática. mesmo. mas também do instrumental teórico que o professor recebe durante o processo de sua formação. Não nos satisfazia apenas analisar as teorias.Considerações finais A eficiência da ação docente depende não só da consciência crítica da realidade. para surtir efeito. Toda medida. ousamos recuperar os clássicos da pedagogia que mais nos influenciaram: Rousseau. não sendo possível ignorá-los. e disso se originará a nova teoria e prática. 1986. Só assim poderíamos entender por que muitas teorias ainda são tão pouco divulgadas ou apreendidas tão superficialmente no curso de formação. Seu conhecimento passou a ser fragmentado e. econômicas. Neste livro. pois não se enfrentam as causas da retenção e da evasão nem se analisa por que a escola continua não sendo atraente para o aluno. que não cessa nunca. deturpado. cientes de que suas propostas representam uma busca para o processo particular de apoderar-se da escrita. da consciência crítica da realidade e do papel da escola dentro deste contexto. sentíamos que precisávamos captar nelas a totalidade do que havia sido pensado e produzido.. representa uma inversão dos procedimentos que utilizávamos para teorizar sobre educação. As teorias aqui resgatadas priorizam a criança e a construção do seu conhecimento. como se não tivessem ligação com a prática pedagógica. permanecendo alheias aos profissionais. Conforme ocorrem as mudanças sociais. fundamentado nos vários campos do conhecimento [. A problemática da alfabetização continua. políticas e culturais. a teoria em que se fundamenta a prática pedagógica também se modifica e precisa ser reelaborada. Para conhecer como nosso fazer pedagógico vem sendo estruturado. Ninguém constrói uma verdadeira teoria da educação sem antes rever as teorizações já realizadas.. precisávamos recuperar a identidade dos primeiros teóricos ou a origem de suas idéias. Certamente é porque lhe falta vida! A democratização da sociedade passa pela democratização do ensino e do saber. Eles fazem parte de nossa formação e de nosso processo de conhecer. NICOLAU & MAURO. Para haver avanço é preciso entrelaçar o passado e o presente.

Em suas propostas. ainda privilegiava o método. mas vinculado à experiência para. O educando (criança ou adulto) não é passivo. para desejar — e de estímulo. cabendo à escola não anular essa vivacidade e esse interesse com imposições e. abstrato. Logo. não consideram a escrita processo isolado. sem conhecimento e adaptação metodológica. Esses professores desconhecem algo que a própria Emilia Ferreiro procura esclarecer. mas voltar-se para a prática. que seus estudos são experimentais e voltados para entender e explicar o processo pelo qual a criança constrói o conhecimento da língua escrita (sua psicogênese). da lingüística. Nossos teóricos nos ensinam muitas coisas sobre a criança e sua educação. por Emilia Ferreiro e colaboradores — e que. tudo quer conhecer. são tão pouco conhecidas e divulgadas. considerando a leitura e a escrita objetos de instrução sistemática. com passos e seqüências a seguir. diferentemente. não deve ser vazio. O conhecimento não deve esgotar-se na compreensão. sílaba por sílaba. na década de 80. que exige compreensão de como se ensina e como se aprende. os educadores começam a ter uma visão mais clara dos processos cognitivos envolvidos nessa aprendizagem e das características de cada etapa dessa evolução. avançam no tempo e nos deixam um grande ensinamento: o educador é um agente político que precisa estender sua esfera de atuação para além dos limites da sala 197 de aula. no entanto. . Ao proporem um trabalho em que todos possam expressar-se socialmente. até atingir a totalidade ou viceversa. A educação deve fundamentar-se na natureza. palavra por palavra. Chegam a utilizá-las como se fossem um método. em suas palestras: que não criou nenhum método de alfabetização. da sociologia. mas está em constante atividade. que os conteúdos devem ser buscados no meio em que a criança vive e se desenvolve. sim. ação pedagógica. Os autores estudados. interesses e tateios experimentais da criança constituem o ponto de partida para a. Mostram que atividades. hoje. linear. aplicar essas pesquisas em sala de aula. Hoje. As de Emilia Ferreiro têm o mérito de haver contribuído para a gradativa mudança da prática pedagógica dos professores alfabetizadores. Alguns professores tentam. A maioria das pesquisas e estudos que analisaram a psicogênese da língua escrita é proveniente da psicologia.Freinet chegaram a algumas conclusões bastante semelhantes às apresentadas. por meio das várias linguagens. cujo somatório levaria o educando a avançar letra por letra. já estavam embutidos os fundamentos do construtivismo de Piaget. mero receptor. Este só é verdadeiramente construído quando a criança dispõe de liberdade — para selecionar o que quer aprender. ao serem divulgadas pelas universidades e órgãos centrais da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. da sociolingüística e de outras ciências. no homem e na sua capacidade de construir o conhecimento. o verdadeiro conhecimento tem como alicerces o trinômio liberdade/interesse/ação. Elas apontam aos educadores um novo entendimento da prática da alfabetização — que. ativá-los constantemente.

Cabe ao educador motivá-la para a leitura e a escrita. Não se pode esquecer da relação afetiva: educador e educando precisam ser amigos. o educador deve propor problemas. construindo conhecimentos novos mediante conceitos. a sala de aula. em ambiente desestimulante. idéias. em que todos aprendem e ensinam — possibilita que o educador se torne educando. Somente um clima em que todos selecionam conteúdos. conversando com eles. acompanhado e interpretado. deve ser um espaço acolhedor e estimulante. mas busque o verdadeiro sentido do que diz/escreve O processo de alfabetização deve ter conteúdos reais e próximos da criança. Aprender não consiste apenas em somar informações. mas para a vida. inventar e criar. possibilitandolhe atingir a livre expressão na escrita e a plena autonomia para agir. A leitura e a escrita não se aprendem mediante regras. progredir cada vez mais. provocar desequilíbrios. Muitas vezes. A aprendizagem deve ser significativa. enquanto aprende. Assim. assimilam. aceitação e compreensão. com disponibilidade dos instrumentos para satisfazer essa necessidade de criação. perguntando. afastado de situaçõesproblema que os motivem e desafiem. a criança reformula seus mecanismos cognitivos. para saber estabelecer relações entre os conteúdos em um processo interdisciplinar Cabe ao educador partilhar com os alunos a análise de suas produções para juntos reconhecerem seus avanços e . Combina o novo com o já conhecido. Ao dar a palavra à criança. Como media198 dor da aprendizagem. para a busca de objetivos da vida por meio do trabalho-jogo. acompanhar e interpretar a evolução do seu grafismo. com eventos de leitura e escrita. Deve conviver com os alunos. os alunos aprendem (ou tentam conviver com) uma realidade escolarizada. observando seus comportamentos. levar a criança a reformular idéias anteriores. sendo interrogado e com eles realizando experiências para auxiliar sua aprendizagem e desenvolvimento. solta e sem significado. nunca apresentando as soluções.posteriormente. conferem significado — isto é. educador. Deve catalisar as informações para ajudar a criança a vencer obstáculos. avançá-la. em que exista uma rotina diária que favoreça a organização das atividades individuais e grupais Um ambiente no qual se possibilite ao aluno ler e escrever não para a escola. em que a criança tenha oportunidades de falar e escrever sem que o educador se preocupe em adivinhar o que ela quer dizer/escrever. numa relação horizontal. e o educando. no qual tanto a linguagem oral como a escrita sejam aprendidas no uso e na interação com as pessoas. representações. num clima de confiança. na qual o aluno possa compor e ampliar seu repertório de significados. processam. expressão e relação É preciso valorizar o repertório e as experiências de vida da criança. a escola passa uma experiência estranha. lançar desafios. descobrir. realizar um trabalho de forma cooperativa. Vista como oficina de trabalho. do registro e da expressão livre. um espaço natural. mas por tentativa experimental. interpretam. sem imposições. Os fracassos da escola em transmitir conhecimentos residem sobretudo no divórcio entre ela e a vida. em diferentes contextos socioculturais. descobrirá que nela existe um mundo de sensibilidade a ser estudado.

detectar-lhe as tendências poéticas. desenvolvendo neles a consciência dos progressos feitos em relação às situações anteriores.” FREINET. 199 O professor deve ter clareza do cotidiano da aprendizagem de seus alunos para saber onde e como intervir a fim de que avancem na direção desejada. Não dará mais que 5%. p 288 200 Como transmitir aos alunos a varinha mágica que nós próprios perdemos? Deixando emergir nossas reações profundas e não somente intelectuais. A rotina de uma sala de aula Freinet consiste em levar a criança a. a criança tem oportunidade de exprimir os pensamentos que dominam sua vida. dizendo que ”uma classe onde não floresce a poesia é uma aula onde o professor não conseguiu ainda libertar-se”. • ler os textos e cartas recebidas dos correspondentes. ”Se esta atividade de expressão criadora motivada pudesse ser representada na vida escolar. sobretudo. Vejamos três deles: . comunicados e conferências. Freinet conferia grande importância à poesia. uma menina de 5 anos e meio. Para entender a criança. visando a melhorá-la. trabalhando a gramática em conjunto. Só funciona a 20%. aluna de Freinet. muito curtos. sem correspondência e sem jornal. traçado individualmente. Não funciona senão a 50%. Deve colocar à disposição deles todos os recursos necessários para que aprendam. e eliminar bloqueios. de acordo com o plano de trabalho semanal. a orientação do professor. o mecanismo de aprendizagem natural funcionaria a 100%. com o auxílio das experiências e das tentativas de sucesso. • escrever aos correspondentes. eles nasciam espontâneos e dispensavam correção coletiva. textos para serem comunicados e conferências. FREINET. • rever e aperfeiçoar o texto selecionado para ser impresso. • escrever textos livres para ler durante as aulas e selecionar alguns para serem impressos. mapas. todos esses recursos devem estar a serviço da aprendizagem efetiva. cartazes e outros materiais e. O erro é visto de forma construtiva. • redigir. Cabe a ele ajudar a criança a refletir sobre sua escrita. temos de nos aproximar muito delas. mas ouvia atenta a fala dos coleguinhas Logo que conheceu algumas palavras. a disponibilidade de livros. corrigido pela criança. 1977a. as que vibram em nosso ser como batidas de coração. A organização do tempo e do espaço. se se fizer texto livre sem tipografia. 1977a. • registrar no livro da vida os acontecimentos mais importantes. mas que agradavam bastante. p 283 A sensibilidade das crianças dará harmonia às frases e ao texto todo. começou a escrever seus próprios textos. não gostava de se expressar em voz alta. Nady. se apenas se fizer um texto livre sem repercussões escolares e extra-escolares. Por intermédio do trabalho com textos. se apenas se fizer texto livre.suas dificuldades.

Les oiseaux Les oiseaux sont mignons Malheureux Comme des pauvres gens lis s’en vont vite. . / lua de prata. Nuit mignonne. /lua de prata. / noite negra e azul. 294-295. beau. nuit noire et bleue. étoiles d’or. lune d’argent. Os pássaros / Os pássaros são bonitos / Infelizes /Como gente pobre / Depressa se vão embora. Je me cache et je dors sous le ciei bleue et noir de Ia nuit noire et bleue. / Escondo-me e durmo / sob o céu azul e negro / da noite negra e azul. Ob! Qu’ils sont pauvres dans Ia pluie et dans lê vent.Ao educador cabe fornecer condições de trabalho e ação./ Noite bonita. se quisermos modificá-la A elaboração e o desenvolvimento do conhecimento estão ligados ao processo de conscientização que condiciona pensamento e ação. / Oh! Como eles são pobres/na chuva/ao vento. Beau./Se fosse ande/seria feio. aproximar a criança da realidade para . Beau. FREIRE. S’il ètait grand il serait laid. 201 Não existem receitas ou modelos A realidade nos desafia a cada momento. lune d’argent./Belo. Nuit Nuit mignonne nuit bleue et noire étoiles d’or. 1977a. belo. Belo. Nuit mignonne. beau. / estrelas de ouro. /Noite bonita. pp. e é preciso responder de forma original. belo. étoiles d’or. mon texte est tout petit./o meu texto é pequenino. lune d’argent Nuit mignonne. Noite / Noite bonita / noite azul e negra / estrelas de ouro.

é um ser concreto e real. pois depende do ambiente social em que a criança vive.p 11. livre para querer. em conseqüência. ao fornecer elementos estimulantes. daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele”. conhecimentos do mundo. nos diz Paulo Freire. desafia o sujeito a pensar sobre a língua escrita como sistema de representação de significados contextuais. 1985. Não há possibilidade de alfabetização sem relação escritamundo. realiza. ”A leitura do mundo precede a leitura da palavra. Para Decroly. reconstruí-la e reinventá-la. Todos os nossos autores concordam em que. apresenta diferenças. todas as crianças são capazes de conhecer. a criança tem a sua própria história. sentir. A alfabetização passa a ser um processo que se inicia muito antes da entrada na escola — processo que. transcendendo a simples esfera da apreensão Para Rousseau. 202 . ela constrói conhecimentos sobre a escrita e a leitura e. mais que do desejo ou intenção das pessoas que com ela convivem. Quando a criança é estimulada por materiais escritos. age. escrita-contexto.desvelá-la e criticá-la. cria. cada uma a seu modo. é uma individualidade — o que exige um trabalho diferenciado Todos aprendem com ritmo e estímulos diferentes Para Freinet. pensar e proceder. FREIRE. progredir e tornarse autônomas. ritmo e tempo. a criança possui os germes do próprio desenvolvimento e realização Quando motivada e orientada. disciplina-se sozinha. evidentemente. O ambiente alfabetizador.

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