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Atributos da linguagem jurídica

Emerson Ike Coan

COAN, Emerson Ike. Atributos da linguagem jurídica. Revista Jus Navigandi, ISSN
1518-4862, Teresina, ano 14, n. 2076, 8 mar. 2009. Disponível
em: https://jus.com.br/artigos/12364. Acesso em: 26 abr. 2020.

O ensaio trata da linguagem jurídica a partir de uma análise inter-relacional de


seus traços característicos, quais sejam, discursivo especial ou profissional, técnico-
científico, lógico, em nível culto, claro, preciso, conciso, harmônico e estético.
"dir-se-á que o discurso jurídico pode ser reconhecido como tal se comportar,
de maneira recorrente, certo número de propriedades estruturais que o diferenciam
ao mesmo tempo dos discursos cotidianos de qualquer natureza e dos discursos
segundos que possuem outras propriedades específicas" (GREIMAS, Algirdas Julien.
"Semiótica e Ciências Sociais", p. 76).

1. INTRODUÇÃO

Este ensaio pretende versar sobre a linguagem jurídica a partir de uma análise
inter-relacional de seus traços característicos, quais sejam, discursivo especial ou
profissional, técnico-científico, lógico, em nível culto, claro, preciso, conciso,
harmônico e estético.

2. CARACTERÍSTICAS DA LINGUAGEM JURÍDICA

Verifica-se inicialmente o seu caráter discursivo especial ou profissional.A


linguagem jurídica é utilizada por determinadas pessoas em situações específicas
devido à necessidade de, no exercício profissional, terem de conceituar fenômenos
relacionados ao Direito, bem como de estabelecer as suas correspondentes noções,
que em regra não têm o mesmo ou não encontram qualquer significado no uso
corrente.
Sobre isso, é bem de ver que

"Se a sociedade fôsse perfeitamente homogênea, as palavras teriam sempre a


mesma significação, mas, na aparente homogeneidade de uma nação existe completa
heterogeneidade de grupos sociais, grupos profissionais, cientistas, religiosos,
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agricultores, industriais, comerciantes, militares, etc. Cada grupo dêstes, vivendo a


sua vida de grupo especializado, toma o têrmo geral da língua e o acomoda à
transmissão também especial da sua idéia própria, restringindo-lhe a significação (...)
Os grupos profissionais criam a sua língua especial que consta, ou de têrmos gerais
com significação própria e restrita para aquêle ofício, ou de têrmos criados pelo grupo
e, naturalmente, desconhecidos da língua geral" (sic).

2.2 – Técnico-científico

Tal ocorre em razão de seu aspecto técnico-científico, uma vez que o


aproveitamento semântico (acepção) de uma palavra (lexia) para o campo teórico-
prático do Direito revela um problema de vocabulário, pois a primeira dificuldade, que
existe em qualquer ciência e precisa ser convenientemente enfrentada, é sem dúvida
a da nomenclatura ou a da exatidão, devendo o termo técnico ser empregado, porque
absolutamente indispensável não só para a compreensão rápida das ideias, pela
economia de tempo, como também para a mais perfeita identificação dos fenômenos
que se discutem.
É de se observar, outrossim, que nenhum termo estará de todo dissociado de
sua significação comum ou lexical (da língua, da linguagem natural ou do código
abstrato), via de regra estabelecida a partir de sua etimologia, e que, quando se
observar qualquer descontinuidade semântica ou quando se estabelecer (ou se optar
por) um sentido mais específico, é a verificação contextual (por exemplo, a que se
refere ao plano histórico-evolutivo, i.e., todo um trabalho conceitual que está por
detrás de cada vocábulo utilizado) que identificará a forma mais precisa ou técnica (da
fala, da linguagem artificial, do universo de discurso ou do código concreto).
De fato: o Direito é uma ciência, aplicando-se-lhe a máxima onde quer que
exista uma ciência, existe uma linguagem correspondente. E, por isso, detém
vocabulário refinado e específico, com terminologia própria, sem, porém, se afastar
totalmente dos sentidos originários anotados nos verbetes dos dicionários, pois com
estes devem estar em harmonia no sentido de similaridade representativa das ideias
entre emissor/receptor. Vale acrescentar:
"A linguagem técnica caracteriza-se pelo inventário léxico típico das diversas
comunidades menores compreendidas na comunidade extensa onde se desenvolve
a linguagem comum. A terminologia científica busca, sofregamente, a aquisição de
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um inventário léxico definido, preciso, ou mais exatamente, usado num sentido


unívoco em oposição à multivocidade e imprecisão conceitual que é característica do
uso cotidiano e corrente do léxico."
Associa-se, como se verá, à ideia de jargão profissional.

2.3 – Lógico

Ademais, em sendo a linguagem expressão do pensamento, é de rigor atribuir-


lhe um caráter não só informativo, mas também racionalmente ordenado, assim, como
expõe Goffredo Telles Júnior, a Lógica é a ciência da argumentação (ou do produto
do raciocínio), diretiva da operação de raciocinar e, para se compreender a linguagem
jurídica em todo o seu universo discursivo, esse dado lógico-formal (mais detidamente
dedutivo ou silogístico) é necessário, e tão-somente seu ponto de partida, no sentido
de um instrumento para uma construção organizada ou sistemática de um discurso.
Ora, ao se caracterizar por sua logicidade, a linguagem jurídica deve se
desenvolver dialeticamente, como discussão, em todas as suas expressões
normativas ou modelos (legislação, contrato, jurisprudência, costume e ensino-
aprendizagem), assim como o Direito em sua necessária interdisciplinaridade interna
e externa, sobremaneira em consideração ao componente ético que lhe serve de
fundamento nas causas humanas, com vistas à exposição do pensamento o mais bem
dirigido e fundamentado possível, de acordo com o que se mostrar, pela experiência e
pela técnica, a decisão mais razoável.
Não se pode olvidar que, embora um texto possa ser compreendido como um
conjunto de significações possíveis que se estruturam e se estabilizam no sentido final
que emerge da leitura do intérprete (com sua bagagem cultural, sua visão de mundo,
seu ponto de vista e sua subjetividade; na sua trajetória semasiológica, i.e., de buscar
os significados dos signos linguísticos), os limites da interpretação estão fixados no
momento em que se deva decidir racionalmente, ou seja, em que se deva conduzir
uma exposição fundamentada cientificamente dos tópicos argumentativos visando à
persuasão.
Isso tudo se coaduna com a moderna Teoria da Argumentação Jurídica, assim
se pronunciado Alaôr Caffé Alves:
"Por isso, a Lógica Formal jamais poderá orientar a ação ética dos homens. Por
consequência, ela não pode ser a lógica dominante nos assuntos humanos, devendo
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ser, a teoria da argumentação retórica, a única forma de justificar os valores e os atos


morais dos homens. A argumentação retórica, ao contrário da Lógica Simbólica ou
Matemática - caracterizada por ser universal e, por isso, impessoal, neutra e
monológica - supõe sempre o embate (dialético) de opiniões ou o confronto das
ideologias e consciências no interior de situações e circunstâncias históricas
determinadas e particulares. A Teoria da Argumentação, portanto, é uma reflexão e
uma formulação sistemática sobre a regularidade dos discursos concretos
destinados à persuasão, pressupondo sempre a multiplicidade dos sujeitos envolvidos
num processo essencialmente dialógico". E destaca: "Do mesmo modo que não existe
uma objetividade pura, pois isso seria uma formalidade pura, não existe uma
subjetividade pura, pois isso levaria à irracionalidade, ao arbítrio imprevisível. O
problema todo é o controle dessa subjetividade pela objetividade. Esse é o ponto
fundamental".
E também se pode depreender que o discurso jurídico, visto na sua totalidade,
ao privilegiar os aspectos comportamentais da relação comunicativa, tem por centro
diretor da análise o princípio da interação, i.e., a pretensão de se ocupar do ato da
fala como uma relação entre emissor e receptor mediada por signos lingüísticos em
que se constate, por parte do primeiro, a construção de um texto com intuito de
suscitar reações no segundo (que, na qualidade de interlocutor/cientista/técnico,
conhece ‘as regras do jogo retórico/lingüístico’), para que diante de uma questão
(implícito, pois, o elemento dubium) possa dar-lhe uma solução (decidir), e assim
reciprocamente.
Esse caráter dialógico do discurso jurídico é explicado por Tércio Sampaio
Ferraz Júnior:
"Tanto a teoria dogmática da aplicação do direito quanto à teoria da
argumentação jurídica mostram um quadro em que a decisão aparece como um
sistema de procedimentos regulados em que cada agente age de certo modo porque
os demais agentes estão seguros de poder esperar dele um certo comportamento.
Não se trata de regularidades lógico-formais, mas por assim dizer, ideológicas (...) não
é só um discurso informativo sobre como a decisão deve ocorrer, mas um
discurso persuasivo sobre como se faz para que a decisão seja acreditada pelos
destinatários (...) se preocupa não propriamente com a verdade, mas com a
verossimilhança."
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2.4 – Nível culto

Acrescente-se que para esse trabalho persuasivo/interpretativo será exigido


o nível culto da linguagem (rebuscado; ritualizado, inclusive), devendo o seu operador
demonstrar capacidade para se expressar com grau de formalidade adequado ao
assunto e a seu interlocutor, pois não se valerá, como cediço, do mesmo modo
discursivo para tratar de temas técnicos e de temas familiares, bem como não utilizará
o mesmo padrão ou registro de linguagem para se dirigir a um amigo e para se
comunicar com uma autoridade. Assim, a correção, na busca de se atender às normas
gramaticais, sobremaneira no padrão escrito, é uma preocupação diuturna do
operador do Direito no exercício de seus misteres. Tanto é assim que o Código de
Processo Civil (Título V – Dos atos processuais, Capítulo I – Da forma dos atos
processuais, Seção I – Dos atos em geral) determina no artigo 156 que "Em todos os
atos e termos do processo é obrigatório o uso do vernáculo".

2.5 – Clareza e precisão: implicação necessária para a consolidação do


vocabulário jurídico

De outro turno, se a clareza corresponde ao uso semântico adequado das


palavras a fim de evitar vagueza, ambigüidade ou obscuridade na mensagem, ela não
poderá ser estudada sem que esteja correlacionada com o atributo precisão.
O conhecimento dos significados dos termos exige que estes estejam sempre
em seus devidos lugares (the right word on right place – "a palavra certa no lugar
certo") e, se o vocabulário reserva-se ao uso do falante com a seleção e o emprego
de palavras pertencentes ao léxico (correspondendo a um inventário fechado),
o vocabulário jurídico reserva-se ao uso dos operadores do Direito no exercício de
suas funções, com a seleção e o emprego de palavras pertencentes ao léxico, bem
como de termos técnicos, correspondendo a um inventário fechado (o jargão
profissional), necessário para sua eficiência.
Cabe ao operador jurídico determinar e esclarecer o sentido e o alcance dos
vocábulos, observando a característica técnico-científica de sua linguagem. Essa
incumbência exigirá sempre uma avaliação contextual, pois, em que pese busque a
ciência jurídica a univocidade em sua terminologia, não pode olvidar dos vocábulos e
verbos equívocos ou plurissignificantes, quer em relação ao léxico, quer dentro do
próprio repertório fechado do Direito e, por iguais razões, dos análogos, que possuem
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um núcleo comum ou equivalência de significação (campo semântico ou família


ideológica), mas cada um dos termos com sua significação específica, enfim, com sua
feição ou tonalidade própria.
Exemplos desses tipos de vocábulos jurídicos são: "comoriência" (hipótese na
qual se dois ou mais indivíduos falecerem na mesma ocasião, não se podendo
averiguar, para fins de sucessão, quem precedeu aos outros, presumir-se-ão
simultaneamente mortos); "furto" (subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel
– art. 155 do Código Penal); e "roubo" (subtrair, para si ou para outrem, coisa móvel
alheia mediante grave ameaça ou violência, depois de reduzir a resistência da pessoa
– artigo 157 do Código Penal). Esses são unívocos (monossêmicos) por força da
constituição histórica do instituto ou de disposição legal.
Já no caso dos termos "competência" (sentido comum: erudição, aptidão,
preparo intelectual; sentido técnico: âmbito de atuação de um órgão público delimitado
por lei); "invenção" (comum: produto da criação intelectual; técnico: ação de achar ou
descobrir o que estava oculto, com a obrigação de restituir o invento, quando não
saiba a quem pertence, à autoridade policial, ou ao próprio dono da coisa perdida,
quando o descobre); e seqüestro (no direito penal: privar alguém de sua liberdade de
locomoção; no direito processual civil: apreender judicialmente bem em litígio), são
equívocos em relação à língua, assim como dentro da própria linguagem jurídica.
Entretanto, em relação aos verbos: "propor" (ingressar em juízo por meio de
ação – ex.: ação de despejo por infração contratual); "interpor" (ingressar em juízo por
meio de recurso a ser julgado por um Tribunal – ex.: apelação, que é cabível para o
reexame de uma sentença, dada, por sua vez, por um juiz de primeira instância);
"impetrar" (ingressar em juízo por meio de remédio jurídico constitucional –
ex.: habeas corpus, cabível em hipótese de ameaça ou efetiva privação de liberdade
por ato arbitrário ou ilegal, praticado por autoridade pública); e "oferecer" (ingressar
em juízo apresentando defesa – ex.: contestação – ato pelo qual o réu, no processo
civil, expõe suas razões, refutando as alegações do autor, i.e., daquele que lhe propôs
ação) são análogos, pois, embora possuam um núcleo de significação comum, qual
seja, "ingressar em juízo", cada qual possui um sentido específico.
Problemas esses atinentes à Semântica (ciência das significações e das leis
que presidem às transformações dos sentidos) e destacados em virtude do caráter
polissêmico das palavras, corrente não só no plano da língua, mas também, visto
acima, no da linguagem jurídica.
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Além disso, o usuário jurídico deverá se ocupar de outros fenômenos ou fatos


semânticos, tais como: homonímia (identidade sonora e/ou gráfica de duas palavras
que não têm o mesmo sentido) - exemplos: "cessão" (ato de ceder); "sessão" (reunião)
e "seção" (repartição); paronímia (semelhança sonora ou gráfica entre palavras ou
expressões de sentidos diversos) - exemplos: "mandato" (contrato civil, cujo
instrumento é a procuração) e "mandado" (forma substantivada do particípio passado
do verbo "mandar", que, na acepção processual, designa ordem judicial); arcaísmos
(pelo emprego de palavras ou expressões caídas em desuso, justificado por força do
estilo jurídico: tradicional, conservador e formal) - exemplos: "acórdão" (decisão
emanada por Tribunal – forma substantivada do presente do plural do verbo "acordar"
na forma arcaica); e "defeso" (proibido); estrangeirismos (no sentido de utilização de
palavras de outro idioma em sua forma original quando não há correspondente
adequado na língua portuguesa, em especial, na atualidade, o anglicismo).
Em artigo denominado "A importação de Modelos Jurídicos", o professor José
Carlos Barbosa Moreira, ao expor sobre a evolução histórica do ordenamento jurídico
brasileiro, fixa que "Na Segunda metade deste século, e de modo particular nas
últimas décadas, é que a infiltração anglo-saxônica se expande e, em determinados
setores, parece destinada a modificar de maneira mais abrangente a índole do
ordenamento pátrio (...) Segundo facilmente se compreende, a importação assume
proporções mais notáveis no terreno dos atos relacionados com a vida econômica e
financeira, onde mais se faz sentir o peso norte-americano. Incorporam-se figuras
jurídicas que, pelo menos de início, são designadas entre nós pelas próprias
expressões inglesas de origem; nem sempre se encontra (ou sequer se procura) para
cada qual locução correspondente em nosso idioma, ou então acham dificuldade em
firmar-se na linguagem usual as locuções correspondentes propostas. Para ilustrar a
afirmativa, aí estão, entre tantos outros, termos como leasing, factoring, franchising,
hedging, joint venture, comercial paper, spread (...) Uma das mais pitorescas é a
expressão green shoes, usada para designar o plus de ações a serem lançadas no
mercado, além do limite normal".
Os demais fatos semânticos: neologismos (transformação do material
preexistente na própria língua pelos processos de derivação/composição ou por
empréstimos - na forma original, bem como na forma de calcos - tradução -
lingüísticos, a partir de regionalismos, gírias e línguas estrangeiras, incluindo o grego
e o latim). Exemplos: ver nota 15 (supra) quanto à palavra "formidável"; o adjetivo
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"draconiano" (pertencente ou relativo a Drácon, legislador de Atenas - séc. VII a.C. -,


famoso pela dureza cruel das leis a ele atribuídas) no sentido de excessivamente
rigoroso ou cruelmente severo; sem contar a vernaculização dos citados
estrangeirismos e latinismos.
Os latinismos, a seu turno, são diversas reminiscências e palavras empregadas
na forma latina. Cuida-se de formas e construções de origem latina que não se
adaptaram ao gênio da língua portuguesa. No particular aspecto dos latinismos
lexicais, distinguem-se dos vocábulos eruditos (ou arcaicos) por se manterem dentro
da estrutura mórfica latina inteiramente, sempre, frise-se, sem qualquer sinal gráfico
de uso da língua portuguesa (acentos, hífen), merecendo, assim como qualquer termo
estrangeiro, destaque (aspas, itálico, negrito, sublinhado etc.); ex.: habitat, deficit, sic,
ibidem, idem, habeas corpus, fac simile. Na língua escrita são usuais termos e frases
feitas, como: a) indicações convencionais, em regra em abreviatura (ex.: v.g., verbi
gratia; i.e., id est; etc., et cetera; op. cit., opus citatum; P.S., Post Scriptum); b) citações
tradicionais (ex.: sui generis, sponte sua, lato sensu, stricto sensu).

2.6 – Concisão

Outro atributo da linguagem jurídica, a concisão, ou objetividade, é a busca da


forma breve, incisiva para o pensamento, prevalecendo sempre o essencial daquilo
que se pretende expor de conformidade com o adágio latino non multa, sed multum, ou
seja, "não muitas palavras, mas o muito significativo". Aliás, como se pode notar, o
emprego de locuções e de máximas (brocardos, aforismos, provérbios) latinos
exprimem, além do fato semântico latinismo, como visto, formas concisas que auxiliam
no conhecimento e aplicação do Direito, sendo os brocardos, na expressão de
Ronaldo Caldeira Xavier, "insubstituíveis, muitas vezes sequer traduzíveis, e que vale
o estudo do latim por treino sem similar em busca do raciocínio breve, completo e
lúcido." Outros exemplos de locuções latinas: ad judicia (procuração válida apenas
para o juízo); data venia (com a devida licença para discordar); e mutatis
mutandis (mudado o que deve ser mudado). Outros exemplos de brocardos
jurídicos: pacta sunt servanda (os acordos devem ser cumpridos – ao fundamentar
todas as normas tradicionais do Direito das Obrigações e Contratos); nullum crimen
sine lege (não há crime algum sem lei – ao fixar princípio orientador de todo o Direito
Penal: o da legalidade).
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Sob o aspecto da sintaxe, cumpre destacar o trabalho de Othon Moacyr Garcia,


que para o campo da fraseologia e da estilística da frase é ímpar. Esse autor cuidou
dos diversos tipos de frases, classificando-os conforme suas construções sintáticas
coordenativas e subordinativas, e indica que aquilo que se mostra esteticamente
apropriado para o fazer literário nem sempre o é para o fazer científico. Tudo isso
enfatizando que para escrever corretamente é preciso, antes de tudo, organizar bem
as ideias, para, assim, se exprimir de forma clara e concisa, com emprego natural das
regras combinatórias.
No que diz respeito ao período composto por coordenação, estatui os
tipos: frase de arrastão (em que o parágrafo vai se arrastando pelo uso pouco variado
de conectivos coordenativos "e, mas, aí, mas aí, então, mas então" – como a
expressão infantil ou dos menos cultos); frase de ladainha (como variação da anterior,
com o excesso do conectivo "e", com a ressalva de seu uso estilístico na Bíblia ou no
discurso oral, como gradação); frase entrecortada, chamada de telegráfica, asmática,
soluçante, pontilhada ou "picadinha" (veja-se o ex.: "O réu entrou na sala. Estava
abatido. Sentou-se. Colocando as mãos na cabeça. Ela estava abaixada. Ele parecia
desanimado. Ele previa o resultado adverso. Ele esperava a condenação."), todas
impróprias ao discurso jurídico, que exige uma escrita mais rebuscada, com uso na
medida certa dos períodos compostos.
Quanto ao período composto por subordinação, são inviáveis à comunicação
técnico-científica do Direito: frase fragmentária, significa dizer aquela que se
apresenta com rupturas na construção frásica, com incompletude sintática (ex.: "O
povo carioca pode gabar-se dos seus quatrocentos anos de vida. Vida bem vivida.
Tendo por prêmio a natureza e o clima ameno."); frase labiríntica ou centopeica, que,
"embaraçada nos seus numerosos ‘pés’", não leva a lugar algum, uma vez que, ao
alongar a expectativa (prótase) em demasia por uma série de membros que afastam
o desfecho (apódose), faz com que o interlocutor se disperse em razão da prolixidade
e dos circunlóquios, não se podendo identificar a idéia nuclear; e frase caótica ou fluxo
de consciência, mais comum na feição de monólogo interior, pela qual um narrador
faz com seu personagem descreva suas reações íntimas de forma livre e espontânea,
numa composição frasal desorganizada, sem logicidade semântico-sintática. No que
diz respeito a esses dois últimos, pela fácil identificação conceitual (e também pelo
fato de não exigirem alongadas linhas, já que inaceitáveis na escrita jurídica), ficam
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dispensados os exemplos, podendo os interessados consultar as obras indicadas nas


notas de rodapé e nas referências bibliográficas.

2.7 – Harmonia

Já a harmonia corresponde àquilo que alguns autores tratam por "estrutura


arquitetônica do texto".
Para que tal atributo possa se firmar, porém, é necessária uma análise dos
elementos extrínsecos e intrínsecos das frases (estrutura superficial e estrutura
profunda, respectivamente), passando-se por uma verificação mais ao nível textual
devido à necessidade de coesão, ou seja, nexo seqüencial de idéias entrelaçadas, e
de coerência, vale dizer, uma seqüência de idéias que deve se dirigir a outras a elas
pertinentes, com adequada relação sintático-semântica, para, assim, se identificar a
unidade global da mensagem, que nesse discurso especial, por ser técnico-científico,
tem por pressuposto uma logicidade formal (impessoal ou neutra), porém,
retoricamente estipulada (incluindo, pois, aquilo que lhe seja ideologicamente
subjacente), porquanto sempre em relação ao alter, enfim, ao outro lado do pólo
comunicativo, com vistas a uma tomada de posição.
Desse modo, o operador do Direito, como enunciador que é, deve tratar de um
tema de sua área científica com a capacidade – sobretudo na modalidade redacional
dissertativo-argumentativa – de empregar adequadamente vocábulos e segmentos na
construção de um texto (enunciado) com o uso apropriado de verbos, pronomes,
conjunções, locuções, elementos de ligação (aditivos, opositivos, afirmativos,
exclusivos, enumerativos, explicativos ou conclusivos), entre outros dêiticos, para que
seu interlocutor, como enunciatário que é, possa partilhar da mensagem com
aproveitamento eficiente da significação dos termos no contexto situacional em que
se encontra.
Essa qualidade pode ser entendida como resultante da soma das outras
propriedades e como desencadeante do próximo atributo a ser analisado. Em outras
palavras, o operador do Direito procura, de forma rebuscada, dar uma impressão
precisa dos fenômenos, dialogando com outras áreas do saber, inclusive (aqui
residindo a intertextualidade ou, como já assinalado, interdisciplinaridade). E, a partir
dessa pretensa imparcialidade, busca ser claro, preciso e conciso, ao produzir um
texto agradável, pois manejado com polidez, residindo aí a sutileza
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do persuadere retórico (ao mesmo tempo encantatório e autoritário) do discurso


jurídico e, em certa medida, o seu componente estético.

2.8 – Estética

Por fim, a estética está associada à elegância jurídica.

Vale lembrar as palavras de Miguel Reale, para quem:

"Os juristas falam uma linguagem própria e devem ter orgulho de sua linguagem
multimilenar, dignidade que bem poucas ciências podem invocar (...) antes exige os
valores da beleza e da elegância" e devem "ter vaidade da linguagem jurídica, uma
das primeiras a se revestir de forma científica, continuando a ter, desde as origens,
o Direito Romano como fonte exemplar e ponto de referência."
Ora,
"Como toda a manifestação da Cultura, o direito carece também de meios
materiais de expressão. Exemplos: a linguagem, o trajo, os símbolos, os edifícios.
Como todos os meios de expressão material, também aqueles que o direito utiliza são,
portanto, susceptíveis duma valoração estética. Mais: como todos os fenómenos que
conhecemos, o direito pode ser também matéria de arte e entrar deste modo no
domínio da Estética. Pode mesmo falar-se duma Estética do direito" (sic).
Deve-se acrescentar a esses dados que, em sendo o Direito, por excelência,
ciência da palavra, para o seu operador, verificado o trinômio da linguagem colocado
pelo poeta latino Horácio, qual seja, recte, bene et pulchre (reta, boa e bonita), ela é
o seu cartão de visita.
Tal sucede, como enfatiza Regina Toledo Damião, pois a organização frasal
(ou relações sintagmáticas – combinação sintática ao nível da fala dos elementos in
praesentia, a partir da seleção e escolha de idéias mais condizentes à intenção
comunicativa, provenientes de associações livres ou mnemônicas de idéias ao nível
da língua para um determinado assunto – as relações paradigmáticas ou associativas
dos elementos in absentia)deve partir da escolha lógica das palavras adequadas à
proposta temática (recte – reta), deve estar sintaticamente correta (bene – boa) e deve
ser revestida de recursos estilísticos que a tornam mais atraente e persuasiva
(pulchre – bonita), v.g., emprego moderado da ordem inversa com caráter imperativo
("cumpra-se a lei"; "cite-se") ou como fórmulas estereotipadas (Meritíssimo Juiz;
Egrégio Tribunal), uso da voz ativa ("O réu matou a vítima"), bem como critérios
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estilísticos pertinentes à expressividade do período simples e do período composto


(por coordenação ou subordinação). Isso tudo sem falar na apresentação física do
trabalho (petições, requerimentos, contratos, defesas, sentenças, recursos, acórdãos,
monografias, teses acadêmicas etc.), devendo ser limpo, com espaçamento razoável
entre assuntos e parágrafos etc.
Busca, ademais, o operador do Direito, em sua prática de sentido, realizar o
mais possível a justiça, como valor que constantemente persegue, sempre tendo em
vista a pessoa como valor-fonte de todos os valores em sua dignidade existencial
neste mundo, para assim assumir, por razões de origem e fim, feição verdadeiramente
científica.
Portanto, considerando esse imperativo ético, observa-se que a linguagem
jurídica, tendo como atributo a estética, revela nítida vinculação do Direito com a Arte
(vale recordar a expressão do jurisconsulto romano Ulpiano - em colaboração com o
também jurisconsulto Celso, "o direito é arte do bom e do eqüitativo" - "jus est ars boni
et aequi", isto é, como adverte Reynaldo Porchat, "a arte de discernir o bom e o justo"),
no aspecto de expressão total da alma na permanente busca de se ver realizar a
justiça, sendo que o dado estilístico - a elegantia juris - de suas composições textuais
deve traduzir uma preocupação formal e, em mesmo nível, um cuidado material, de
conteúdo e sentido, já que o profissional do Direito age dessa maneira não por mera
vaidade ou egoísmo, mas para atender aos anseios mais altos da sociedade.

3. CONCLUSÃO

Dessarte, a linguagem jurídica é um meio comunicativo especial, técnico-


científico e lógico, utilizado pelos operadores do Direito no exercício de suas
funções, em nível culto, com clareza, precisão, concisão, harmonia e estética.

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