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Principais Técnicas Psicoterápicas

PSICOLOGIA
De acordo com Freud [1905(1976)] o aparelho psíquico está dividido em: consciente, pré-
consciente e inconsciente.

Uma das principais características da psicanálise e da psicoterapia de base analítica é o


inconsciente. Este é regido, segundo Freud [1905(1976)], pelo princípio do prazer e é composto
de ideias desorganizadas (ideias reprimidas, por exemplo). O inconsciente é atemporal e,
portanto, sempre atual. Apesar de não termos consciência dos conteúdos inconscientes,
poderemos vir a ter por intermédio da psicoterapia. Isso pode ocorrer por meio da associação
livre e dos sonhos.

No processo da psicoterapia a comunicação se dá de inconsciente do terapeuta para inconsciente


do paciente. Portanto, estão envolvidos os sentimentos da dupla.

Nesse sentido, dizemos que, em psicoterapia de orientação psicanalítica, assim como na


psicanálise, o inconsciente é o objeto principal a ser trabalhado.

De acordo com Luz (2005) a psicoterapia passa por três fases, sendo elas: início, fase
intermediária e término.

Quanto ao início do tratamento, Luz (2005) salienta que compreende desde o primeiro contato
com o paciente até o estabelecimento da aliança terapêutica, que pode variar de sessões a meses,
conforme cada caso.

Sendo assim, nesse momento o principal objetivo é o de estabelecer e fortalecer a aliança


terapêutica, por meio de um contrato claro e objetivo, identificando os motivos inconscientes do
sofrimento do paciente. A intervenção, portanto, precisa ser de acolhimento e focada na
interpretação das ansiedades paranoides, isto é, na dicotomia confiança-desconfiança (LUZ,
2005).

“É importante que o terapeuta ‘ensine’ o paciente a se tratar, auxiliando-o a despertar seu


interesse pelos conflitos e pelas formas de funcionamento de sua personalidade” (LUZ, p. 257).
Nesse sentido, a postura do terapeuta não deve ser de silêncio exagerado e nem tão amistosa.

O maior risco nessa fase, como aponta Luz (2005), é a interrupção precoce do tratamento. Para
tanto, um recurso útil diz respeito aos conteúdos contratransferências, ou seja, os sentimentos
que o paciente desperta no terapeuta.

As fantasias iniciais, por parte da dupla, são inúmeras. Quanto às fantasias do paciente, este pode
ter medo de entrar em contato com seus conflitos mais infantis porque foram desastrosos, pode
ter medo de ficar dependente do terapeuta. Pode ainda ter medo de perder o controle de suas
emoções ou de aflorar fantasias eróticas. De qualquer forma, cabe ao terapeuta interpretar tais
fantasias, para que deixem de ser um obstáculo ao tratamento, ou seja, deixem de ser resistências
(LUZ, 2005).

Já a fase intermediária da psicoterapia é definida por Luz (2005, p. 258) como a fase mais longa,
que compreende desde o estabelecimento da aliança terapêutica até o momento da alta. O
objetivo desse momento é o de “examinar, analisar, explorar e resolver os sintomas e as
dificuldades emocionais do paciente”. Quanto à técnica, a interpretação das resistências iniciais e
dos conflitos inconscientes do paciente é a principal delas.

Ao comparar o processo de psicoterapia com um jogo de xadrez, Freud [1913(1976)] diz que
existem, basicamente, técnicas para o início e para o fim do tratamento. O decorrer do mesmo é
sempre um desafio. Trata-se da etapa mais árdua, uma vez que é nela que ocorrem as principais
mudanças.

Em relação à temática abordada nesta fase, o foco são os assuntos trazidos pelo próprio paciente
durante as sessões. Geralmente são temas referentes às situações vividas no dia a dia, como
conflitos de relacionamento familiar, no trabalho; ambições, planos e decepções. Enfim,
sofrimentos cotidianos (LUZ, 2005).

Quanto à postura do terapeuta, Luz (2005) recomenda que seja atenta e respeitosa, de modo que
o paciente possa sentir-se à vontade para falar. Dessa forma, à medida que vai surgindo o
momento oportuno, o terapeuta poderá intervir, seja pontuando, assinalando ou interpretando.

Ocorre que, como aponta Luz (2005), na fase intermediária nem sempre o processo evolui tão
bem. Às vezes pode ocorrer uma estagnação temporária, em função das resistências, impasses,
acting out, perturbação da aliança terapêutica, etc.

Em relação à alta, ou ao término da psicoterapia, este não ocorre em uma única sessão. A fase
final perdura por várias sessões, nas quais são trabalhadas as ansiedades de separação. De acordo
com Luz (2005) esta fase inicia com a primeira comunicação da alta e culmina com a última
sessão em que a dupla terapeuta-paciente se encontra.

O objetivo principal é o de trabalhar os sentimentos de luto vivenciados pelo término do


tratamento, bem como avaliar os ganhos e benefícios conquistados durante o mesmo (LUZ,
2005).

A alta é uma questão de comum acordo entre a dupla. Para o terapeuta, alguns indicadores
subsidiam seu trabalho, segundo Luz (2005). São eles:
• A melhora ou supressão do sintoma trazido inicialmente pelo paciente.
• Alguma mudança nos vínculos afetivos, com os familiares.
• Alguma alteração nos processos de trabalho, de modo que possa almejar novos projetos.
• Ampliação dos contatos sociais.
• Maior satisfação na vida sexual.
• Mudança no contato com a realidade, de modo que o paciente a suporte melhor.

Ocorre que nem sempre o processo psicoterápico tem êxito. Então se depara com o fenômeno do
abandono do tratamento, que é sempre indesejável.

Percorrendo a literatura, encontramos algumas explicações acerca do abandono do tratamento


psicoterápico.

Segundo Etchegoyen (2004), na fase do contrato do processo psicoterápico está incluída a ideia
de que o tratamento deve finalizar por acordo de ambas as partes e, por isso, se apenas um lado
decide, não se fala em término da análise, mas sim em interrupção. O analisado tem liberdade
para rescindir o contrato a qualquer momento, assim como o analista.

Em alguns casos, salienta Etchegoyen (2004), pode ser que os motivos que levaram à interrupção
de tratamento sejam de ordem externas, porém não é o mais comum. Os motivos internos são
mais frequentes, e quando isso acontece, chamamos de resistências, que pode vir do analisando,
ou até mesmo do analista, que não conseguiu manejá-la.

De acordo com Laplanche e Pontalis (2008, p. 458) “chama-se resistência a tudo o que nos atos e
palavras do analisando, durante o tratamento psicanalítico, se opõe ao acesso deste ao seu
inconsciente”.

Um segundo fenômeno relacionado ao abandono do tratamento é o chamado acting out.


Chamado por Freud de “agieren” e apresenta o sentido de “atuar”.

Termo usado em Psicanálise para designar as ações que apresentam, quase sempre, um caráter
impulsivo, relativamente isolável no decurso das suas atividades, e que torna muitas vezes uma
forma auto ou hetero-agressiva. Para o psicanalista, o aparecimento do acting out é a marca da
emergência do recalcado. Quando aparece no decorrer de uma análise (durante a sessão ou fora
dela, o acting out tem de ser compreendida na sua conexão com a transferência, e
frequentemente como uma tentativa para ignorá-la radicalmente. (LAPLANCHE e PONTALIS,
2008, p. 6)

Segundo Francisco (1995) o acting out pode estar a serviço ao que Freud chamou de
“lembranças encobridoras”. Ao invés de lembrar, o indivíduo atua, uma vez que se trata de
experiências infantis bastante remotas e que não foram compreendidas na ocasião. Pode se referir
a várias situações que se opõem ao processo analítico, como o silêncio, esquecimento de sessões,
decisão súbita de deixar a análise, dentre outros.

Laplanche e Pontalis (2008, p. 264) definem lembrança encobridora:

Lembrança infantil que se caracteriza ao mesmo tempo pela sua especial nitidez e pela aparente
insignificância do seu conteúdo. A sua análise conduz a experiências infantis marcantes e a
fantasias inconscientes. Como o sintoma, a lembrança encobridora é uma formação de
compromisso entre elementos recalcados e a defesa.

De acordo com Gus (2005) atuações e encenações (enactments) refere-se a sensações e


sentimentos pré-verbais, portanto anterior a palavra, denotando expressões primitivas.

Em um estágio primitivo do desenvolvimento psíquico, narra Gus (2005), quando a linguagem


ainda não existia (pré-verbal), não era possível expressar os sentimentos por meio da palavra.
Sendo assim, o ato é a única forma de expressão de vivências emocionais primitivas e afetos
perigosos da dupla terapêutica. Trata-se de uma obstrução ao processo de crescimento e
desenvolvimento psicoterápico, uma vez que, ao invés de atingir o insight, o indivíduo realiza
um ato.

Entretanto, como aponta Gus (2005), o fenômeno do acting out pode ser útil ao tratamento, desde
que compreendidos e bem encaminhados àqueles pacientes de difícil acesso, em que
predominam o pré-verbal, a desorganização psíquica, o caos e o vazio mental.

A realidade psíquica é resultante das percepções que o indivíduo tem do mundo externo, somado
às fantasias do mundo interno. Portanto, é uma experiência subjetiva, individual e nem sempre
traduz a realidade externa (GUS, 2005).

Sendo assim, afirma Gus (2005) que, no acting out e enactment a realidade psíquica ganha
expressão, por meio do ato, de vivências primitivas dolorosas (como ansiedades persecutórias,
etc.), as quais o indivíduo não se lembra e que podem ser percebidas por meio da transferência e
da contratransferência. Portanto, trata-se de revivências de conflitos primitivos da dupla
terapêutica.

Nesse sentido, Gus (2005) entende que as vivências primitivas são da dupla terapeuta-paciente.
As experiências de fantasias inconscientes destrutivas, arcaicas, de ansiedade persecutória e
situações traumáticas são reeditadas por ambos. Então, o psicoterapeuta também possui papel
fundamental: há que se compreender e manejar adequadamente o fenômeno do acting out e
enactment.

Atualmente há um consenso entre os psicanalistas de que o processo psicoterápico não está


focado apenas no paciente, mas sim na dinâmica do campo analítico. Assim, são levadas em
conta as condições emocionais do terapeuta e do paciente, bem como o inconsciente de ambos
(ZIMERMAN, 2004).

Quando o terapeuta, segundo Gus (2005), consegue compreender a realidade psíquica do setting,
conter e interpretar acting e enactment é possível dar novo significado às fantasias primitivas. Ao
contrário, acrescenta Gus (2005), quando não se compreende a realidade psíquica do par
terapêutico no setting, chega-se ao “ponto cego” ou conluios inconscientes, de natureza
narcísica. Podem ocorrer ainda, piora do quadro clínico, impasses e interrupção do tratamento.

Longos silêncios, faltas e atrasos podem se configurar como acting out, que, caso ocorram de
forma intensa no início do tratamento, podem levar à interrupção do tratamento (GUS, 2005).

Há também o fenômeno do impasse que, segundo Pires (2005) pode estar relacionado à
interrupção no tratamento psicoterápico. Trata-se de uma estagnação do desenvolvimento da
terapia, que implica num cessamento da elaboração, perceptíveis no processo transfero-
contratranferencial, caracterizada por intensas repetições de conflitos não resolvidos envolvendo
a dupla terapêutica.

Quando o impasse não é superado, pode ocorrer a interrupção do tratamento. Torna-se então
inevitável reavaliar o próprio trabalho do terapeuta. De alguma forma, acrescenta Pires (2005), o
paciente confirma a validade das teorias. Nesses casos é importante a supervisão do caso, já que
fica mais difícil o terapeuta, no momento da sessão, ter uma visão mais crítica. Além disso, como
o supervisor não está envolvido diretamente com o impasse, possivelmente terá melhor condição
de ajudar o terapeuta.

O fenômeno do impasse muitas vezes é confundido com o acting out, como sinaliza Pires (2005).
A diferença reside no momento em que ocorrem: o acting out pode ocorrer já no início do
tratamento, enquanto que o impasse geralmente deve ocorrer em fases posteriores do processo
psicoterápico.

Além disso, Pires (2005) afirma que a probabilidade de ocorrer impasse na psicoterapia é menor
que na psicanálise. Isso acontece porque na psicoterapia o número de sessões é menor, o objetivo
é mais focal e as situações extratransferenciais são menos intensas.

Conforme Pires (2005, p. 342), alguns autores defendem a ideia de que, nas situações de impasse
seria indicado marcar a data para interrupção do tratamento. Isso suscita muitos
questionamentos. Entretanto:

[...] em defesa de, pelo menos parte dessa ideia, é preciso dizer que uma interrupção é sempre
mais ética do que a manutenção de um tratamento interminável, pois esta última opção configura
uma espoliação emocional e econômica do paciente por parte do terapeuta.
No decorrer do processo psicoterapêutico duas pessoas estranhas (terapeuta-paciente), numa
relação assimétrica, irão se encontrar frequentemente estabelecendo uma relação única. Para
Keidmann (2000) a experiência com cada novo paciente mobiliza no terapeuta ansiedades,
resistências e outras emoções inconscientes. Pode então ocorrer abandono por erros,
incompetência, hostilidade ou sedução do terapeuta.

Freud [1913(1976)] alerta sobre a oportunidade de aprender com as experiências de pacientes


abandonantes na medida em que se pode pensar sobre o fato, o mesmo que ocorre muitas vezes
quando se perde uma partida de xadrez. Aprende-se com os erros também.

Ferenczi, citado em Freud [1937-39(1976)], afirma que o êxito depende muito do analista ter
aprendido com seus próprios erros e de ter levado a melhor sobre os pontos fracos de sua própria
personalidade.

O tripé clássico da técnica psicanalítica consiste na transferência, resistência e interpretação.

Segundo Laplanche e Pontalis (2008, p. 514) a transferência é um “processo pelo qual os desejos
inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de certo tipo de relação
estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica”.

Dewald (1981, p. 213) define a transferência como “uma forma de deslocamento na qual o
indivíduo dirige para um objeto presente todos aqueles impulsos, defesas, atitudes, sentimentos e
respostas” vivenciados nos primeiros relacionamentos infantis com as figuras parentais.

O fenômeno da transferência refere-se aos conteúdos inconscientes do paciente para o analista.


Já a contratransferência vai do analista para o paciente.

No fenômeno da transferência, parte dos impulsos eróticos do indivíduo vai para a consciência,
dirigida para a realidade. A outra parte fica retida, ou permanece inconsciente. Então, se a
necessidade de amar não está totalmente satisfeita pela realidade, o indivíduo vai aproximar-se
de cada nova pessoa que encontrar. Esta pessoa pode ser até seu terapeuta. Isto é natural, mesmo
porque é a transferência que move o tratamento (FREUD, [1914(1976)]).

Em Psicanálise trabalha-se com a perda de um objeto. Nesse sentido, a transferência ocorre


porque o paciente acredita que o analista é esse objeto perdido. Ele acredita que o analista detém
o saber, sabe algo dele que o próprio paciente não sabe. E esse fenômeno move o tratamento. É
necessário certo “enamoramento”, ou seja, admiração pelo analista, para que o paciente suporte
um longo tempo na terapia. Vai chegar um dia em que, assim como a criança quando cresce
descobre que seu pai não é não perfeito e poderoso quanto pensava, o paciente também vai
chegar a essa conclusão. E nesse momento não vai mais haver motivo para continuar o
tratamento. É quando pode ser dada a alta (FREUD [1914-15(1976)]).

Mas o que o paciente transfere para o terapeuta? Transfere sentimentos inconscientes infantis
vivenciados com as figuras parentais.

A transferência é sempre inconsciente. É o resultado de um desejo. O ser humano tem dois


caminhos: a saúde e o sintoma. Os que fazem sintoma são pessoas que estão doentes. Pode estar
doente porque direciona seu sintoma para uma meta impossível (está sempre esperando,
insatisfeito). Nesse sentido, a pessoa desqualifica a saúde. O trabalho do psicoterapeuta é
conscientizar a pessoa disso.

O sintoma implica num ganho secundário. Funciona como uma “bola de neve”, isto é, quanto
mais o tempo passa, mais fica prejudicial. É uma metáfora de uma resolução sexual e implica
numa homeostase (equilíbrio) do aparelho psíquico. Este equilíbrio é dinâmico (em alguns
momentos é bom, mas em outros é ruim). Acontece que o sintoma toma bastante libido (energia)
do indivíduo, impedindo, assim, que ele não tenha energia para outras coisas.

Então o paciente procura o terapeuta porque essa situação é desconfortável. Mas aí vem a
resistência, pois o sintoma implica em alguns momentos, equilibrar seu aparelho psíquico. Na
medida em que seu sintoma é retirado, há uma piora de seu quadro – e isto é sinal da cura,
primeiro piora para depois melhorar.

Segundo Freud [1914(1976)] a transferência pode ser positiva ou negativa. A primeira refere-se
aos sentimentos amorosos, de amizade e confiança, enquanto que a segunda diz respeito aos
sentimentos hostis, agressivos.

A transferência que move o tratamento é a positiva (o paciente tem confiança no terapeuta,


acredita que ele é o detentor do saber), enquanto a transferência negativa prejudica o tratamento,
pois funciona como resistência. Esta última precisa ser interpretada ou assinalada (FREUD
[1914(1976)]).

Algumas vezes a transferência negativa é silenciosa ou muito sutil. Por exemplo: quando o
paciente chega atrasado à sessão ou falta. Quando no dia do pagamento esquece-se de assinar o
cheque, etc.

A contratransferência, como já foi dito, diz respeito ao “conjunto das reações inconscientes do
analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste” (LAPLANCHE E
PONTALIS, 2008, p. 102).

É fundamental e faz parte da técnica atentar para os sentimentos que o paciente desperta no
terapeuta. Na relação com o paciente o terapeuta pode experimentar diversos sentimentos, como
raiva, prazer, desconfiança, preocupação, etc. (DEWALD, 1981).

Quando se trata de pacientes com quadros psicossomáticos, é comum o psicólogo sentir


sensações físicas, como alguma dor, por exemplo. Prestar atenção nesses sentimentos auxiliará
no processo de avaliação, bem como no momento adequado de interpretar.

O fenômeno da resistência é definido por Dewald (1981, p. 240) como “funções psíquicas do
paciente que se opõem ativamente à tarefa terapêutica de trazer o material inconsciente ao
conhecimento”, e, consequentemente, opondo-se às mudanças.

A resistência expressa à forma de como o ego se mobiliza para enfrentar as suas angústias diante
da vida. Resiste como forma de se proteger contra os ataques que sofreu no passado (carência,
abandono, incompreensão, humilhação, etc.). É o grande obstáculo ao tratamento.

Algumas situações dentro do setting terapêutico podem ser interpretadas como resistência, tais
como: faltas, atrasos, esquecimentos, silêncio, dificuldades em falar sobre determinados assuntos
que causam angústia, etc.

O terceiro componente que faz parte do tripé da técnica psicanalítica é a interpretação. Esta é
uma técnica valiosa, em que o psicoterapeuta permite que seu paciente entre em contato com
seus conteúdos inconscientes, ajudando-o a “traduzir” seus sentimentos (RIBEIRO, 1988). É
nesse momento, para Freud, que é favorecida a mudança. A arte da interpretação identifica as
resistências e as torna conscientes.

Esta é uma técnica que deve ser usada com cautela, uma vez que tem seu momento oportuno. A
recomendação é que o terapeuta possa identificar quando seu paciente estiver próximo de tornar
o conteúdo consciente. É difícil saber se uma interpretação está correta. Mas alguns indícios
podem ser observados. Ao interpretar, é importante avaliar a reação do paciente, o assunto ou
material seguinte que ele vai trazer.

Dewald (1981) discorre sobre a técnica em psicoterapia de base analítica, elegendo a escuta, o
esclarecimento e a confrontação, além da interpretação como formas de intervenção.

Segundo este autor é importante deixar o paciente falar, mas cabe ao terapeuta a função da escuta
especializada.

“A atividade do terapeuta em escutar representa muito mais que a simples recepção passiva e
compilação do material verbalizado pelo paciente” (DEWALD, 1981, p. 198). Esta escuta
significa priorizar o significado dos conteúdos latentes, além de observar o comportamento não
verbal é importante observar o conteúdo que foi dito pelo paciente, mas também o que foi
omitido.

A comunicação na psicoterapia pode ser:


• Verbal: por meio da palavra, linguagem falada.
• Não verbal: por meio de comportamentos como a expressão corporal, por exemplo.

O silêncio também é uma forma de comunicação, que pode simbolizar várias situações:
ansiedade, vazio mental, resistências, etc., podendo ser do tipo paranoide, depressivo, fóbico,
confusional, etc.

Em oposição, tem também aquele paciente que fala muito, como uma espécie de descarga
emocional. Entretanto, deixa de falar o mais importante. Pode ser inclusive, um tipo de
resistência. Segundo Dewald (1981), o esclarecimento é uma forma de intervenção que tem por
objetivo esclarecer alguma situação específica da experiência e do comportamento do paciente.
Está mais no nível consciente e pré-consciente.

Já a confrontação “implica dirigir a atenção do paciente para elementos da experiência ou


comportamento nele observados pelo terapeuta, mas sem retirar qualquer inferência dos seus
possíveis significados” (DEWALD, 1981, p. 202). É interessante apontar diferenças,
semelhanças ou repetições nas experiências vividas pelo paciente. Assim, como o esclarecimento
a confrontação também ocorre a nível consciente e pré-consciente.

Quanto ao uso do divã, este é uma herança do método da hipnose, utilizado por Freud, no início
de seus trabalhos. O divã servia para afastar os olhos do terapeuta e do paciente, já que Freud
atendia muitos pacientes num mesmo dia, e, por sua vez, ficava mais à vontade. Ajudava
também favorecendo a ocorrência dos pensamentos involuntários, já que permitem a associação
livre, além de propiciar a regressão.

O paciente não inicia o tratamento logo deitando no divã. O momento de deitar é aquele em que
de fato inicia-se a análise, ou seja, quando o paciente não tem nada mais para contar sobre sua
história de vida. O ato de apenas descrever fatos não significa necessariamente que está sendo
terapêutico. Há que se avaliar os casos em particular, mas às vezes pode demorar mais de um ano
para iniciar o processo de análise propriamente dito e poder deitar no divã.

Na psicoterapia de orientação psicanalítica o divã não é usado, principalmente porque a


regressão não é tão profunda quanto na psicanálise. Faz-se necessário a interação face a face do
terapeuta e do paciente, especialmente nos quadros psicóticos.

Em relação à técnica, em sua obra “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”,
Freud [1912(1976)] sugere que não há necessidade de memorizar a história de vida do paciente
como datas, nomes ou outros pormenores. O importante é o que está marcado afetivamente, que
pode ser observado por meio dos sentimentos, entonação de voz, etc. O mais importante é a
relação terapeuta/paciente.

Outra recomendação de Freud [1912(1976)] que também se aplica a psicoterapia, diz respeito às
anotações das sessões. É melhor que os registros sejam feitos em outro momento, que não
durante o atendimento. A atenção do terapeuta, ou melhor, sua escuta deve ser o foco, em
detrimento dos registros. Além disso, caso esteja diante de um paciente com personalidade
paranoide, a desconfiança poderá ser reforçada.

Freud [1912(1976), p. 129] dá ênfase na necessidade de o terapeuta realizar sua análise. “Deve-
se insistir, antes, que tenha passado por uma purificação psicanalítica e ficado ciente daqueles
complexos seus que poderiam interferir na compreensão do que o paciente lhe diz”. E
acrescenta: “(...) todos que desejam efetuar análise em outras pessoas terão primeiramente de ser
analisados por alguém com conhecimento técnico” (p. 130).

Uma das funções do psicoterapeuta, conforme aponta Freud [1912(1976)], refere-se à função
especular, isto é, o terapeuta deve mostrar ao paciente somente o que lhe é mostrado. Nesta
mesma linha de raciocínio, o psicólogo deve orientar-se pelas capacidades do paciente e não
pelos seus desejos (do terapeuta), valorizando qualquer evolução do paciente.

A psicoterapia é um processo árduo, em que não há ausência de sofrimento. Muitas vezes, a


fantasia é a de que são ditas apenas palavras de conforto, como se a pessoa quisesse ficar na zona
de conforto o tempo todo, como rege o princípio do prazer. Ocorre que o princípio da realidade é
condição para a superação do sintoma, rompendo o ciclo doentio, patológico. Como afirma Luz
(2005, p. 260), na terapia o paciente “vai sofrer pelo motivo adequado e de forma adequada”.

Para Freud, a doença significa a incapacidade de amar, o paciente vive mendigando amor dos
outros. E a função do profissional é a de ajudar esse paciente a amar. Freud conclui que tem
saúde mental aquela pessoa capaz de amar e de trabalhar, em seus vários aspectos.

A relação com o outro é saudável para a Psicanálise, uma vez que há investimento de libido (ou
energia). Uma pessoa que se isola do mundo reveste-se em seu próprio narcisismo, e
consequentemente, surgirão os sintomas. Todo amor tem sua origem nas fontes primitivas, de
contato com a pele (inicialmente, da mãe com o bebê). Com o passar do tempo, a sociedade
exige que esse amor mude de direção, passando para um amor genital.

Nesse sentido, Freud usou o termo “sexualidade” em alemão “lieben”, que significa “amar”.
Portanto, este autor utiliza esse conceito em praticamente toda sua obra. Nesse sentido, não se
limita ao sexo no sentido genital, como entende o senso comum (FREUD [1910(1976)]).

Ainda com relação à técnica, em sua obra “Recordar, repetir e elaborar”, Freud [1914(1976)],
orienta o caminho do processo psicoterápico.

O processo de recordar tem suas origens na hipnose, método esse utilizado na primeira fase da
Psicanálise. Freud [1914(1976)] diz que recordar não é tão simples, principalmente se forem
experiências muito primitivas, conhecidas como amnésia infantil. Lembrar pode ser
extremamente doloroso, portanto, muitas vezes distorcemos para ficar suportável.

Quanto mais precoce, mais difícil de ser retirada a marca, porque menos recursos têm o ego para
lidar com a intensidade do trauma. Menos simbolismo tem, e maior é a desorganização psíquica.
Quanto mais primitivas as experiências vivenciadas, mais fica em nível das sensações, e,
portanto, não há simbolismo, apenas registro mnêmico.

As lembranças remotas, segundo Freud [1914(1976)], caso não possam ser compreendidas na
ocasião, mas poderão vir à tona quando forem interpretadas.

Recordar significa contar o que sabe da experiência ou evento traumático. Mas Freud
[1914(1976)] salienta que nem sempre o indivíduo recorda de suas experiências infantis, mas as
reproduz por meio da ação (acting out), repetindo-as. Não é tão importante que o paciente se
lembre das suas experiências, porque ele vai repeti-las na terapia.

Mas o que o paciente repete? “Repete ao invés de recordar e repete sob as condições da
resistência” (FREUD [1914(1976) p. 198]). O paciente repete ou atua seus conteúdos reprimidos,
traços patológicos, seu sintoma e as resistências.

A doença do paciente, como sinaliza Freud [1914(1976)], é atual, e dessa forma deve ser tratada.
As origens da doença é que estão associadas às experiências passadas. Portanto, o paciente irá
repetir fragmentos da vida real, atual.
O principal instrumento para trabalhar as repetições em psicoterapia é, para Freud [1914(1976)],
o manejo da transferência. Assim, é possível superar as resistências para então elaborá-las.

Elaborar é trocar a atuação e as repetições por discernimento. É dar um novo sentido ao


sofrimento. Quando o paciente elabora não há mais repetição.

Segundo Freud [1914(1976), p. 202]:


Deve-se dar ao paciente tempo para conhecer melhor esta resistência com a qual acabou de
familiarizar, para elaborá-la, para superá-la, pela continuação, em desafio a ela, do trabalho
analítico segundo a regra fundamental da análise.

Nesse processo de recordar, repetir e elaborar, para Freud [1937(1976)], a função do terapeuta é
a de “completar aquilo que foi esquecido a partir dos traços que deixou atrás de si ou, mais
corretamente, construí-lo” (p. 293).

A técnica da construção diferencia-se da interpretação, segundo Freud [1937(1976)]. A


interpretação é quando o analista interpreta um único fato da vida do paciente. Já a construção
refere-se a vários fatos da vida do indivíduo. É algo final, um processo mais longo.

O trabalho de construção é o objetivo e a etapa final da psicoterapia de orientação psicanalítica.


Trata-se da tarefa de ajudar o paciente a construir uma nova história de vida.

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