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Universidade Federal de Santa Catarina

Campus de Joinville
Curso de Engenharia de Mobilidade

Aula 09
Falhas
Profa. Viviane Lilian Soethe

Joinville - SC
02/05/2017

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Conteúdos da Aula/Objetivos
Unidade 3 – Falhas: fratura, fadiga, fluência
Objetivos:
 Compreender os conceitos relacionados com as principais
falhas dos materiais e suas causas.

 Distinguir e identificar problemas de fratura, fadiga e fluência


em materiais metálicos.

 Compreender a importância do conhecimento destes conceitos


dentro da engenharia da mobilidade a fim de evitar problemas
na confecção e utilização de materiais.

2
“Eu não falhei nenhuma vez. Eu descobri centenas de maneiras
que não funcionam. Eliminando as maneiras que não funcionam,
eu me aproximo de conhecer as que funcionam”. Thomas Edison
sobre as inúmeras tentativas realizadas antes de encontrar a
forma correta de desenvolver a lâmpada.
 Conhecer a mecânica dos diferentes tipos de falhas é
importante para o projeto de um componente ou estrutura a
fim de minimizar a possibilidade de ocorrência de danos ao
equipamento quando sujeito a condições extremas.
 Falha: evento quase sempre
indesejável – perda de vidas
humanas, econômicas e de
produtos e serviços.
 O conhecimento das causas
das falhas e do comportamento
dos materiais nem sempre
previne o acontecimento de um
problema.
 Causas: seleção e processamento de materiais de maneira
não apropriada e um projeto inadequado do componente ou
má utilização.
 Responsabilidade do engenheiro: antecipar e planejar
considerando possíveis falhas – caso ocorra: avaliar suas
causas para que não ocorram mais – muito utilizado na
indústria aeronáutica.

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/qantas+cogita+problema+de+projeto+em+falha+na+turbina+de+a380/n1237820269771.html
 Fratura simples: separação de um corpo em duas ou mais
partes em resposta a imposição de uma tensão de natureza
estática e a baixas temperaturas.

Tração Compressão Cizalhamento Torção

Fratura

Frágil Dúctil

Habilidade do material em apresentar deformação plástica


 Processo de fratura envolve duas etapas: formação e
propagação de trincas em resposta a imposição de uma
tensão.
 O modo da fratura é dependente do mecanismo de
propagação de trincas.
Fratura

Dúctil Frágil

Extensa deformação
Propagação rápida das
plástica na vizinhança de
trincas com pouca
uma trinca que está
deformação plástica.
avançando.
Instável: cresce
Estável: não cresce
espontaneamente.
espontaneamente

Desejável Indesejável - repentina


Fratura Dúctil – latão à temperatura ambiente
Fratura Frágil – aço carbono à -190oC
 Compreensão da fratura em um material a partir do
entendimento da propagação de trincas e sistema de
absorção de energia no esmalte do dente: cerâmica.
Metais macios – Au, Pb Fratura mais comum Fratura frágil sem a
em T ambiente, para metais dúcteis – apresentação de
polímeros e vidros fratura é precedida por deformação plástica
inorgânicos. um empescoçamento
Redução da área
virtualmente até 100%.
a) Empescoçamento
inicial; b) formação de
pequenos vazios; c)
coalescência e cavidades
para formação da trinca
elíptica – paralelo ao eixo
principal da trinca; d)
propagação da trinca ao
redor do perímetro
externo do pescoço; e)
Fratura taça ou cone – 45o fratura com cizalhamento.
Aparência irregular e fibrosa –
deformação plástica

Nanoplasticidade –
nanofio de ouro

Fratura taça ou cone


Aumento 3300X – MEV – Aumento 5000X – MEV –
microcavidades esféricas microcavidades parabólicas
devido a tração uniaxial devido a cizalhamento – 45o
• Ocorre sem qualquer deformação apreciável e pela rápida propagação de uma
trinca.
• A direção de movimento da trinca é aproximadamente perpendicular a direção da
tensão aplicada – superfície de fratura praticamente plana.

a) Marcas de sargento (forma V) – seta: origem da trinca;


b) Nervuras radiais em formato de leque – ampliação de 2X.
• Fratura frágil: ruptura de ligações atômicas de forma sucessiva ao longo de planos
cristalográficos específicos – Clivagem
• Fratura transgranular – trincas da fratura passam através dos grãos.

Propagação da trinca no interior dos grãos – MEV Ferro Fundido


• Fratura intragranular – trincas da fratura se dão ao longo dos contornos de grão.
• Resulta após a ocorrência de processos que enfraquecem ou fragilizam as regiões
dos contornos de grãos.

Propagação da trinca no contorno de grão – natureza 3D dos contornos


• Mecânica da fratura: quantificar as relações entre as propriedades
dos materiais, o nível de tensão, a presença de defeitos geradores
de trincas e os mecanismoss de propagação de trincas.
• Historicamente:

EUA – U$ 119 bilhões


s/ conhecimento
Gastos devido a
problemas por 1982
fratura EUA – U$ 56 bilhões
c/ conhecimento
Falhas estruturais

Novas
Negligência
tecnologia

Projeto
Operação
Provocam resultados
inesperados
Construção
Solução: utilização de duplo casco
 A resistência a fratura média para a maioria dos
materiais frágeis é menor que aquela obtida por
meio dos cálculos baseados em energias de
ligações atômicas.
 Explicado pela presença de defeitos e microtrincas.
 Estes pontos apresentam-se como um ponto de
início de uma fratura quando é realizada a aplicação
de uma tensão – concentram tensões.
Concentrador de tensão

A tensão diminui em função da distância com relação a trinca/


defeito – tornando-se a tensão nominal o (carga aplicada a
sessão transversal da amostra pela área)
Considerando-se uma trinca como sendo um furo elíptico vazante a
uma placa que se encontra orientado perpendicularmente à tensão
aplicada, a tensão máxima do material com uma trinca será dada
por:

Tensão nominal

Comprimento de uma
trinca superficial ou ½
trinca interna
Algumas vezes podemos escrever:

Fator de concentração

Medida do grau pelo qual


uma tensão aplicada
externamente é
aumentada na
extremidade de uma trinca

• O efeito do concentrador de tensões é mais significativo em materiais frágeis


que dúcteis (ocorre deformação plástica – melhor distribuição de tensões)
• Para a propagação de uma trinca em um material frágil a tensão crítica deve
ser:
E: módulo de elasticidade
Relação entre a tensão crítica para propagação de uma trinca e o
comprimento da trinca:
Kc – tenacidade a fratura:
propriedade que mede a
resistência de um material a uma
fratura frágil quando uma trinca
está presente.
Y – parâmetro que depende do
tamanho e da geometria da trinca
e da amostra e do modo de
aplicação da carga.

Tenacidade a fratura em
deformação plana – amostras
com espessura grande
Ensaios não destrutivos para detecção e medida de defeitos –
internos e de superfície.
Exemplo: detecção de trincas e vazamentos nas paredes de
tubulações de óleo localizadas em áreas remotas – Alasca –
ultrassom e analisador robótico.
Por meio da análise da fratura observa-se e possilita-se avaliar as
propriedades do material quando sujeitos a altas tensões/
temperaturas em um curto intervalo de tempo
• Forma de falha que ocorre em estruturas que estão sujeitas a tensões
dinâmicas e oscilantes – pontes, aeronaves e componentes de
máquinas.
• Utiliza-se este termo pois esse tipo de falha ocorre normalmente após
um longo período de tensões repetidas ou ciclos de deformação.
• Maior causa individual de falhas nos metais – 90% das falhas – ocorre
de forma catastrófica e repentinamente.
• As tensões podem ser de natureza axial (tração (+) e compressão (-));
flexão (dobramento) e torção.
• A fadiga dos materiais pode ser simulada em laboratório por meio de
um equipamento que simule as condições de tensão durante o serviço.
• O resultado da realização deste ensaio fornece um gráfico da tensão
aplicada em função do número de ciclos até a fadiga.

Limite de
resistência a
fadiga
• Verifica-se uma considerável dispersão nos dados de fadiga
– variação nos valores de N medidos para vários corpos de
prova testados no mesmo nível de tensão.

• Esta dispersão é consequência da sensibilidade da fadiga a


diversos parâmetros do ensaio e do material.

• Parâmetros: fabricação do corpo de prova, preparo da


superfície, variáveis metalúrgicas, alinhamento do corpo de
prova no equipamento de testes, tensão média e frequência
dos ensaios.
• Nos testes metade dos corpos de prova apresentam níveis de tensão
25% menores que os das curvas experimentais.
• Falha por fadiga:

• Iniciação da trinca (forma-se em um ponto com alta


concentração de tensões);
• Propagação da trinca;
• Falha final

• Normalmente se iniciam em algum ponto de concentração


de tensões: riscos, cantos vivos, rasgos de chaveta, fios de
roscas, produção de discordâncias por meio do
carregamento cíclico.
MET de estrias de fadiga no Al
- microscópicas
Marcas de
praia- visíveis
a olho nú

Eixo rotativo de aço


Tensão média

O aumento no nível médio de tensão leva a uma diminuição


na vida em fadiga
Efeito da
superfície
A tensão máxima geralmente ocorre na superfície de um
material e com isso as falhas ocorrem nesta região.
Tratamentos de
Variáveis de projeto
superfície
Melhoria no acabamento da
Redução de irregularidades superfície aumenta a vida em
estruturais, redução de cantos fadiga – aumento da tensão
vivos, arestas, inicios de de compressão – jateamento/
geração de tensão. nitretação
Efeitos do ambiente

Fadiga associada a
Fadiga térmica
corrosão

Devido a altas temperaturas Ação simultânea de uma


oscilantes e restrição à tensão cíclica e de um ataque
expansão e/ou contração químico
dimensional que ocorreria Ambientes corrosivos
naturalmente devido a promovem uma redução da
elevação de temperatura vida em fadiga
Pites: pontos de concentração
de tensões e portanto, sítios
para nucleação de trincas.
As trincas se propagam mais
facilmente em ambientes
Coeficiente de expansão térmica corrosivos.
E – módulo de elasticidade
• Materiais sujeitos a tensões centrífugas e as linhas de vapor de alta
pressão – sofrem deformações denominadas fluência.

• Fluência: deformação permanente e dependente do tempo dos


materiais quando submetidos a uma carga ou tensão constante sendo
indesejável e limitante na vida útil de uma peça.

• Metais: importante para temperaturas 0,4Tf.

• Plásticos e borrachas são sensíveis a fluência.


• Para avaliar a fluência de um material submete-se o mesmo a uma
carga ou tensão constante em uma tempetura fixa – a deformação é
medida em função do tempo decorrido.
• Geralmente são realizados com carga constante – melhor
compreensão dos mecanismos de fluência.
Linear – maior
duração
Inclinação da
curva diminui
com tempo
Equilíbrio
entre o
Aumento de processo de
resistência a encruamento
fluência - e recuperação
encruamento

Aumento na taxa e falha do material –


ruptura – alterações microestruturais e/ou
metalúrgicas
• São geralmente realizados em máquinas universais sob tração uniaxial
com corpos de prova com a mesma geometria que para os ensaios de
tração – metais.
• Para os materiais frágeis frequentemente utiliza-se compressão
uniaxial.
• A inclinação da parte secundária – taxa de fluência em regime
estacionário – levado em consideração para projetos de engenharia
para aplicações a longo prazo.

Fluência com vidas relativamente curtas –


considera-se o tempo para ruptura
Taxa de fluência em função da tensão, k Taxa de fluência em função da tensão e
e n são constantes do material temperatura
Como a fluência é função do tempo é necessário muitas vezes extrapolar os
dados obtidos em laboratório para compreender o fenômeno.

Execução do ensaio sob temperaturas acima da necessária e por períodos de


tempos menores com um nível de tensão comparável.

Larson-Miller

C – constante ~20
T (K)
t – tempo de vida até a ruptura (horas)

O tempo de vida até a ruptura irá variar tal que esse parâmetro permaneça
constante – gráfico da tensão x parâmetro