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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIISIE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESErsíTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
I

274
Tercelra lnstru?áo Sobre a Llturg

Divorciados e Comunháo Eucarísti

"Aborto..."

"A Pobreza, Riqueza dos Povos'

I Chlng

"O Negro e a Igreja"

• I)
A Filósofa Hipada

"O Día Segulnte"

Maio-Junho — 1984
PERGUNTE E RESPONDEREMOS
MARQO-ABRIL — 1984
Publicando bimestral N? 273

Dlretor-Responsável:
SUMARIO
D. Esléváo Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia
"CAMINHA E CANTA: ALELUIAI" .... 177
publicada neste periódico
Em vista da dignidade do culto:
Diretor-Administrador
D. Hildebrando P. Martins OSB TERCEIRA INSTRUCAO SOBRE A
LITURGIA 178

Administracao e distribuido: Problema candente:


DIVORCIADOS E COMUNHAO CUCA-
Edicoes Lumen Christi
RISTICA ig7
Dom Gerardo, 40 - 5? andar, S/501
tel.: (021)291-7122 Dols Irvros em voga:
Caixa postal 2666 "ABORTO..." 205
20001 - Rio de Janeiro - RJ
Intuicáo corajosa:
"A POBREZA, RIQUEZA DOS POVOS" 219
Pagamento em cheque nominal visado ou
Urna técnica chfnesa:
Vale Postal (para Agencia Central/Rio),
enderecado as: I CHING 230

Edlcoes Lumen Christi Um ÍTvro destemido:


Caixa Postal 2666
"O NEGRO E A IGREJA" 240
20001 • Rio de Janeiro - RJ
No século V:

E O CASO DA FILOSOFA HIPACIA


TRUCIDADA POR, UM SANTO? .... 248
RENOVACÁO OE ASSINATURA
ATÉ DEZEMBRO: Um filme de "suspense":
Sendo paga até 30 de "O DÍA SEGUINTE" 255
junho Cr$ 6.000,00
LIVROS EM ESTANTE 262
Sendo paga após 19 de
julho Cr$ 8.000,00'
Anteriores a 1984 Cr$ 450,00
Números avulsos de 1984 Cr$ 1.000,00
NO PRÓXIMO NÚMERO
RENOVÉ QUANTO ANTES
A SUA ASSINATURA
275 — Julho-Agosto — 1984
Aínda a ressurreicfio logo após a
COMUNIQUE-NOS QUALQUER morte. — Educacáo sexual hoje. — A
MUDANCA DE ENDERECO Eucaristía, misterio da fe. — A Confissio
Individual e freqüente. — Igreja e Maco-
narla. — Paciente terminal e suicidio.
Composlcáo e tmpressao: "O Nome da Rosa" (U. Eco).
"Marques Saraiva"
Santos Rodrigues, 240
Río de Janeiro
Com aprovacáo eclesiástica
«CAMINHA E CANTA: 'ALELUIA!'»
(S. Agostiriho)

Os meses de maio e junho sao marcados pela alegría da


Ressurreigáo do Senhor, que o Aleluia costuma exprimir. Para
o cristáo, em meio aos altos e baixos da vida presente, há sem-
pre um inabalável motivo de alegría: esta nao provém de pri
vilegios recetados, mas, sim, da certeza de que o discípulo de
Cristo há de superar a morte como Cristo a superou; a última
palavra será a da Vida.
Por isto mesmo, a alegría do cristáo é um tanto singular:
é alegría de peregrino, que no deserto caminha em demanda
da Térra Prometida, certo de que lá chegará, se for perseve
rante. Muito a propósito dizia S. Agostinho: «Caminha e
canta: 'Aleluia!'». Quem caminha, sabe que deve estar vigi
lante; sofre as amea^as dos desvíos, dos assaltos, dos possíveis
desfalecimentos... Canta com a consciéncia de que ainda nao
chegou ao termo.
A S. Escritura recorre freqüentemente a outra imagem
para significar a alegría que caracteriza o cristáo: propóe a
figura da mulher que dá á luz. Sao palavras do Senhor Jesús:
«A mulher, quando está para dar á luz, senté tristeza porque
é chegada a sua hora; mas, depoís de ter dado á luz o menino,
já nao se lembra da aflicáo, pelo prazer de ter vindo ao mundo
um homem» (Jo 16,21).
Com efeito. O caminhar do cristáo, sob outro aspecto, pode
ser assemelhado a urna gestacáo. É, sam dúvida, penosa, mas
prenhe da alegría que resulta da consciéncia de que urna
vida nova está em formasáo. Formar o Cristo em seu íntimo
(cf. Gl 4,18), eis urna fórmula que sintetiza, a seu modo, a
vida do cristáo. Tal processo requer capacidade de renuncia
para que a vida nova nao seja ofendida, mas, ao contrarío, se
possa desenvolver sadiamente; ao mesmo tempo, nao pode dei-
xar de ser fonte de alegría..., alegría contida ... Alegría
comparável também á que suscita a aurora, quando a luz de
novo dia comeca a despontar ñas trevas por tras das monta-
nhas ou do mar do horizonte.
Os santos experimentaran! vivamente tal alegría. Percor-
rendo a hagiografía, encontraríamos muito testemunhos, dos
quais vai aquí assinalado o de S. Hilario (t 367), perseguido
por ser fiel á Palavra de Deus; «Considero-me feliz pelo exilio
que me coube; agradece» alegremente ao Senhor, porque a ple-
nitude da mensagem evangélica se fírmou irremovivelmente na
minha alma> (Do Trinitate).
Possas também tu, ó leitor, gozar de semelhante felicidade!
E.B.
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XXV — N? 274 — Maio-Junho de 1984

Em vista da dignidade do culto:

Terceira Instrucáo Sobre a Liturgia


Em síntese: Vai, a seguir, publicada a Terceira (e última) Instrucáo da
Santa Sé sobre a S. Liturgia. Datada de 1970, está vigente até hoje, embora
nem sempre respeitada. A publicacáo do texto tem por objetivo ajudar o clero
e o povo de Deus a discernir, entre as múltiplas formas de Liturgia que
atualmente se praticam, o certo e o nao certo, o aceitável e o nao aceitável.
A S. Igreja deseja guardar o caráter hierático ou sagrado do culto divino;
por isto rejeita a celebracao sem paramentos, as inovacóes subjetivistas
ñas Oracóes Eucarlsticas, o recurso a textos e cantos que pouco ou nada
tenham a ver com a respectiva celebracao, a substituicao da S. Escritura por
escrituras meramente humanas...

Recordar estas normas será útil a todo o povo de Deus.

É grande o número de pessoas que se dirigem, por carta


ou oralmente, á nossa revista comunicando inovagóes na cele-
bragáo da Liturgia Eucarística e do culto divino em geral.
Muitas dessas inovagóes, confrontadas com as normas ofi
ciáis da Igreja, evidenciam-se inadequadas ou mesmo arbitra
rias». Deixam o povo de Daus, nao raro, perplexo e desedifi
cado, em vez de lhe acarretar beneficios espirituais. Muitos
dos que nao concordam com tais atitudes subjetivas, atri-
buem-nas ao Concilio como se fossem a expressáo do pensa-
mento conciliar — o que é erróneo (os abusos se devem a fal
sas interpretagóes dos textos conciliares).

Há, porém, quem tencione justificar tais inovagóes, ale


gando estarmos numa fase nova da Igreja, propensa a mais
profunda encarnagáo do ritual católico.

Ora, a fim de que se perceba exatamente até onde vai a


flexibilidade das rubricas da Liturgia e o que esta conserva de
rígido e intocável, vai, a seguir, transcrita em tradugáo brasi-
leira a Terceira Instrugáo sobre a S. Liturgia datada de 5 de
setembro de 1970.

— 178 —
TERCEIRA INSTRUCAO SOBRE A LITURGIA 3

Como se vé, este documento nao é novo. Todavía está


vigente até os nossos dias. Resulta, como diz o próprio texto,
de «seis anos de trabalho de renovagáo gradual da Liturgia»
em aplicacáo da Constituigáo Sacrosanctom Concilíom pro
mulgada pelo Concilio do Vaticano II em 1963. Tal Instrucáo
pos fim ao período de experiencias e incertezas que se seguiu
ao Concilio; baixou normas definidas, prevendo, porém, flexi-
bilidade nos casos que o próprio documento aponía.

Eis o texto em foco, ao qual se seguiráo breves comen-


tários.

I. O TEXTO

TERCEIRA INSTRUCÁO SOBRE A LITURGIA

«As reformas até agora atuadas para a aplicacáo da Constituicáo


do II Concilio do Vaticano, sobre a Sagrada Liturgia, referíam-se,
principalmente, á celebracao do misterio eucarístico. Com efeito, a
Santíssima Eucaristía contém todo o bem espiritual da Igreja, ou se¡a,
o próprio Cristo, nossa Páscoa e pao vivo, que dá vida aos homens
através da sua carne vivificada e vivificante pelo Espirito Santo. Desta
forma os homens sao convidados e levados a oferecerem-se a si pró-
prios, os seus trabalhos e todas as coisas criadas, ¡unto com Ele (PO 5).

O renova mentó da celebracao do Sacrificio da Missa nas


assembléias litúrgicas declara que ele é, de fafo, o centro de toda
a vida da Igreja, para o qual atendem todas as outras obras, e que
o objetivo da reforma dos ritos é promover urna acao pastoral que
tenha como centro o misterio pasca I de Cristo 1.

Os seis anos, empregados neste trabalho de renovacao gradual,


prepararam a passagem da liturgia anterior para a liturgia que agora
se aprésenla de maneira mais orgánica e completa com a publicacao
do Missal Romano, do Ordo Missae e da 'Institutio Generalis' que o
acompanham, com os quais bem se pode dizer que inicia um novo
caminho, com grandes prospectivas para a pastoral litúrgica. Além
disso, o Lecionário da Missa, recentemente editado, e a abundancia
das fórmulas introduzidas no Missal Romano, oferecem ampias e di
versas possibilidades de escolha na celebracao da Eucaristia.

1 Cf. S. Congr. Rituum, Instr. ínter Oecumenlcl, 26 de setembro da 1964,


nn. 5-6, em AAS 56, 1964, p. 878.

— 179 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

A multiplicidade das fórmulas e a flexibilidade das rubricas, real


mente, permitem urna celebragáo viva, sugestiva e espiritualmente
eficaz, porque sao adaptadas á variedade das situagoes, das mentali
dades e da preparacao dos fiéis, sem que se tome necessário recorrer
a iniciativas e opcóes pessoais, algumas vezes arbitrarias, que fariam
diminuir o tom da celebracáo.

A passqgem gradual para as recentes formas, que teve em consi-


deracao o plano geral dos trabalhos de reforma e a grande diversidade
de sifuacoes do mundo, foi acolhida favoravelmente pela maior parte
do clero e dos fiéis 2, embora tenha encontrado, nalguns lados, qual-
quer resistencia e manifestacóes de impaciencia. Algumas pessoas,
ancoradas ao passado, aceitaram de má vontade a reforma. Outras,
ao invés, sob a pressao de necessidades pastorais, ¡ulgaram que nao
podiam esperar a publicacao definitiva das reformas e comecaram a
realizar iniciativas pessoais, solucoes apressadas e, algumas vezes,
temerarias antecipac5es, criacoes e acréscimos ou simplificacoes do rito,
muitas vezes em contraste com as normas fundamentáis da Liturgia.
Este fato desorientou a consciéncia dos fiéis e prejudicou, ou tornou
mais difícil, urna verdadeira renovacao.

Por estes motivos, muitos bispos, sacerdotes e leigos pediram


repetidamente á Santa Sé que interviesse a fim de, finalmente, poder
reflorescer, no setor da Liturgia, aquela harmonía, tao fecunda e'dese-
¡ada, .que se manifestó no encontró da 'familia' crista com Deus.

O que nao pareceu oportuno fazer, quando o Concilium traba-


Ihava, com entusiasmo, na obra da restauracao litúrgica, tornou-se
agora possível, tendo por base o que foi estabelecido como seguro
e definido.

Apela-se, antes de ludo, para o responsabilidade de cada um


dos bispos, que o Espirito Santo constituiu pastores da Igreja de Deus
(cf. At 20,28). Eles sao 'os principáis dispensadores dos misterios de
Deus e, ao mesmo tempo, os moderadores, os promotores e os guardiaes
de toda a vida litúrgica na l,gre¡a que Ihes foi confiada' (CD 15;
SC 22). Compete-lhes moderar, dirigir, incentivar e, as vezes, admoes-
tar, mas, em todos os casos, esclarecer a atuacao de um reto renova-
mento, fazendo com que todo o corpo eclesiat proceda compacto, na
unidade, no plano diocesano, nacional e universal.

Cf. Paulo VI, Alocucáo na audiencia geral de 20 de agosto de 1989.

— 180 —
TERCEIRA INSTRUCAO SOBRE A LITURGIA 5

Este trabalho dos bispos é tanto mais necessário e urgente neste


setor, quanto mais íntimas sao as relagóes entre a Liturgia e a Fé, de
modo que aquilo que for feito em favor de urna redunde em beneficio
da outra.

Os bispos, portanto, com a cooperacao das Comissóes litúrgicas,


devem ser cuidadosamente informados sobre a situacáo religiosa e
social dos fiéis confiados aos seus cuidados, sobre as suas exigencias
religiosas e sobre o modo mais idóneo para os ajudar, usufruindo das
possibilidades que Ihes sao oferecidas pelos nossos ritos. Deste modo,
poderao discernir os valores auténticos do renovamento ou as ambigüi-
dades e promover urna ogao sabia e prudente de persuasao e de
orientacao, para canalizar as exigencias, que forem razoáveís, e, se
for necessário, para determinar um retorno á normalidade, no caminho
trocado pela nova legislando litúrgica.

Um conhecimento apropriado deste assunto, por parte dos bispos,


serve de grande ojuda para os sacerdotes no seu ministerio, que deve
ser exercido em comunhao com a Hierarquia (PO 15), torna mais
fácil a obediencia, exigida em ordem a urna expressao mais perfeita
do culto e á santificacao das almas.

Portanto, para facilitar aos bispos a tarefa de aplicar com exati-


dao as normas litúrgicas, especialmente as que se referem á Institutio
General¡5 do Missal Romano, e de restituir a ordem e a disciplina á
celebracao eucarística, centro da vida eclesial, sinal de unidade e
vínculo de caridade (SC 47), ficam estabelecidas as seguintes normas:

1. As novas normas simplificaran! as fórmulas, os gestos e os


atos litúrgicos, segundo o principio da Constituicao sobre a Sagrada
Liturgia: As cerimónias resplandecam de nobre simplicidade, sejam
transparentes pela sua brevidade e evitem repelieres inúteis, sejam
adaptadas á compreensao dos fiéis e, em geral, nao carecam de multas
explicacoes (ib. 34). Nao se deve ir além daquilo que foi estabelecido.
Seria despojar a Liturgia dos seus sinais sagrados e da sua beleza,
elementos necessários para que o misterio da salvacáo se possa atuar
,na comunidade crista e esta o possa compreender sob o véu das reali
dades visíveis, por meio de urna catequese apropriada.

A reforma litúrgica nao é, de falo, sinónimo de dessacraliza$aa>


nem quer dar ocasiáo a chamada secularizacao do mundo. £ preciso,
porém, conservar a dignidade, a forca e a sacralidade dos ritos.

— 181 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

A eficacia das acoes litúrgicas nao consiste na continua procura


de novos ritos ou de ulteriores simplificacóes, mas no aprofundamento
da Palavra de Deus e do misterio celebrado, cuja presenca é assegurada
pela observancia dos ritos da Igreja e nao pelos que sao impostos
segundo o gosto do sacerdote.

Tenha-se presente, além disso, que a imposicao de reelaboragoes


pessoais dos ritos sagrados, da parte do sacerdote, ofende a dignidade
dos fiéis e abre o caminho para o individualismo e para o personalismo,
na celebracao de acoes que, diretamente, pertencem a toda a Igreja.

O ministerio do sacerdote é ministerio da Igreja universal e só


pode ser exercido em dependencia e comunhao com a Hierarquia e ao
servico de Deus e dos ¡rmaos.

O caráter hierárquico da Liturgia, o seu valor sacramental e o


respeito devido á comunidade dos fiéis, exigem, sem dúvida, que o
sacerdote realize o seu servico cultual, como fiel ministro e dispensa
dor dos misterios de Deus (cf. ICor 4,1), sem ¡ntroduzir qual.quer rito
que nao seja previsto e autorizado pelos livros litúrgicos.

2. Entre os textos sagrados que forem proclamados na


assembléia litúrgica, a Sagrada Escritura possui particular dignidade:
é Deus que, por meio deles, fala ao seu povo e é Cristo, presente na
sua palavra, que anuncia o Evangelho (cf. SC 7,33). Por conseguirte:

a) Atribua-se á Liturgia da Palavra a maior importancia. Nunca


se pode admitir a sua substituicao por outras leituras, tiradas de obras
de escritores sagrados ou profanos, da antigüidade ou dos lempos
mais recentes. A homilia tem por finalidade tornar mais compreensível
aos fiéis a palavra de Deus, que eles ouvem, adaptando-a á sensibili-
dade da nossa época. £ o sacerdote que a deve fazer. Os fiéis nao
devem intervir com o diálogo, reflexoes, etc. Também nao é licito
proclamar urna só leitura.

b) A Liturgia da Palavra prepara e leva os fiéis para a Liturgia


Eucarística, com a qual forma um só ato de culto (ib. 56). Nao é
lícito separar urna parte da outra, celebrando-as em lempos e lugares
diferentes.

Normas especiáis, dadas nos respectivos livros litúrgicos, proverño


á uniáo orgánica de qual.quer acao litúrgica ou de parte do Oficio
Divino, que precedem a missa, com a Liturgia da Palavra, quando for
necessário.

— 182 —
TERCEIRA INSTRUCAO SOBRE A LITURGIA 7

3. Deve-se ter igualmente grande respeito pelos textos litúr


gicos, compostos pela Igreja. Ninguém, pois, de própria iniciativa, é
autorizado a modificar-1hes, a substituir-lhes, a tirar-lhes ou a acres-
centar-lhes qualquer coisa (cf. ib 22,3).

a) Respeite-se, de modo particular, o Ordinario da Missa. As


fórmulas nele contidas, ñas versees oficiáis, nao podem ser absoluta
mente alteradas, nem sequer com a desculpa de se tratar da missa
in cantu. Para algumas partes, como: o ato penitencial, as anáforas,
as aclamacoes e a béncáo final, existe a possibilidade de escolher
entre varias fórmulas, segundo é indicado oportunamente em cada um
dos ritos.

b) As antífonas do introito e da comunhao podem ser tiradas


do Gradual Romano, do Gradúale simplex, do Missa I Romano e das
colecóes aprovadas pelas Conferencias Episcopais. Estas, ao escolherem
os cantos para a celebracao da missa, tenham presente que eles devem
estar de harmonio com os tempos, com o momento da acao litúrgica
e, também, com as pessoas que os usam.

c) O canto litúrgico do povo deve ser promovido com todos os


meios, mesmo quando sao usadas as novas formas musicais, .que cor
responden) á mentalidade dos varios povos e ao gosto atual.

As Conferencias Episcopais podem estabelecer um repertorio de


cantos destinados as missas para grupos particulares, por exemplo, de
¡ovens e de criancas, de modo que nao só as palavras, mas também
as melodías, o ritmo e o uso dos instrumentos, sejam conformes com
a dignidade e a santidade do lugar sagrado e do culto divino.

Embora a Igreja nao exclua da Liturgia qualquer género de música


sacra", contudo, nem todos os géneros de música, de canto ou de
instrumentos musicais podem ser considerados igualmente apropriados
para alimentar a oracao e exprimir o misterio de Cristo. Estas formas
musicais estao subordinadas á celebracao do culto divino e, portanto,
é necessário que possuam santidade e belezo 4, que estejam em sin
tonía com o espirito da acao litúrgica e sejam conformes com a natureza
de cada um dos momentos desta mesma acao, sem dificultaren! a
participacao ativa de toda a comunidade (cf. SC 119-120), e dirijam,
para a acao sagrada, a atengao da mente e o fervor do espirito.

3 Cf. S. Congr. Rituum, Instr. de Música Sacra Musicam Sacrani de 5 de


margo de 1967, n? 9; AAS 59, 1967, p. 303; SC 116.

* Cf. S. Congr Rituum, Instr. de Música Sacra, Muslcam Sacram n? 4; AAS 59,
1967, p. 301.

— 183 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

Mas a determinacao prática deve ser feita pelas Conferencias


Episcopais e, quando faltarem normas gerais, pelos bispos, dentro dos
limites das suas dioceses 6. Escolham-se, com cuidado, os instrumentos
musicais: se¡am em número limitado, adequados ao lugar e á índole
da assembléia, favorecam a piedade e nao sejam demasiado rumorosos.

d) £ dada urna grande possibilidade para escolher as oracóes.


Em particular, nos días feriáis, podem ser tiradas de qualquer domingo
per annum, das Missas ad diversa °, ou das Missas votivas.

Além disso, na fraducao dos textos, as Conferencias Episcopais


podem servir-se das normas especiáis, dadas a este respeito pela Ins-
trucao sobre a traducao dos textos litúrgicos em língua vernácula, para
a celebracáo com o povo, emanada pelo Consüium, no día 25 de
¡aneiro de 1969, n? 34 7.

e) Para as leituras, além das indicadas para cada domingo,


festa ou día ferial, existem outras preparadas para a celebrando dos
sacramentos ou para determinadas circunstancias. Na missa para gru
pos particulares, também é lícito escolher as que mais se adaptam as
circunstancias, desde que a escolha seja feita em lecionários
aprovados8.

f) O celebrante pode intervir brevemente durante a celebracáo:


no inicio, antes das leituras, antes do prefacio e antes da despedida °.
Excetuados estes momentos e, de modo particular, durante a Liturgia
Eucarística, nao é lícito ¡ntroduzir explicacóes. Estas explicacóes devem
ser breves, incisivas e preparadas com antecedencia, para nao tornar
pesada a celebracáo.

Se forem necessárias outras intervencoes, sejam confiadas á pessoa


que dirige a assembléia, tendo-se o cuidado de nao cair em exageras
e de se limitar ao ¡ndispensável.

g) Na ora cao dos fiéis é oportuno acrescentar algumas inten-


coes particulares, relativas á comunidade local, as ¡ntencoes gerais
pela Igreja, pelo mundo e pelos necessitados. Evíte-se, por isso, intro-

» Ibldem, n? 9; AAS 59, 1967, p. 303.

6 Cf. liutltutto Generalte Missalls Romani n? 323.

» Cf. NotlUae 5, 1969, pp. 9-10; cf. também nn. 21-24, Ibld., pp. 7-8.

s Cf. S. Congr. Pro Culto Divino, Instr. de Missis pro Coetlbus particularibus,
Acllo Pastoralls, de 15 de margo de 1969, n. 6 e AAS 61,1969, p. S09.

9 Cf. Inetllutlo Generalls Missalis Romani n. 11.

— 184 —
TERCEIRA INSTRUCAO SOBRE A LITURGIA 9

duzir outras intencoes no memento dos vivos e dos mortos, no Canon


romano. Estas intencoes devem ser preparadas e escritas antes da missa
e devem estar de acordó com o estilo da oracáo dos fiéis 10. A sua
proclamacao pode ser confiada a membros diversos da assembléia.

Estas possíbilidades, conhecidas e usadas inteligentemente, dao


urna flexibilidade táo vasta ao rito sagrado, que nao é necessário re
correr a criacóes pessoais. Os sacerdotes devem habituar-se a preparar
a celebracao, tendo em conta a realidade e as necessidades espirituais
dos fiéis, agindo com seguranca dentro dos limites consentidos pela
InsHtutio.

4. Compete, exclusivamente, ao sacerdote, em virtude do seu


múnus, dizer, de preferencia, a oracao eucaristica, em vez de qualqver
outra oracao n. Nao é permitido, de modo algum, deixar que outro
ministro inferior, a assembléia ou algum fiel, recite urna parte déla.
Isto seria contra a natureza hierárquica da Liturgia, na qual cada um
deve fazer todo e só aquilo que Ihe compete (cf. SC 29). A Oracao
Eucaristica deve ser proclamada exclusivamente e integralmente pelo
sacerdote.

5. O pao para a celebracao da Eucaristía, segundo o uso secular


da Igreja Latina, é o pao ázimo de trigo 12.

Embora a verdade do sinal exija que este se aprésente, realmente,


como alimento, que seja repartido e dividido entre os irmaos, contudo
deve ser preparado sempre segundo a forma tradicional prescrita pela
Institutio GsneraJis do Missal Romano 13, tanto no caso das hostias
pequeñas para a comunhao dos fiéis, como no caso das hostias gran
des, que, depois, sao divididas em diversas partes.

A maior exigencia de verdade deve estar ligada á cor, ao gosto


e a consistencia do pao, inais do que á sua forma. A sua preparacáo,
porém, re.quer muito cuidado e atencáo, para que a sua confeccáo nao
redunde em detrimento da dignidade devida ao pao eucarístico, torne
possível urna decorosa fracao e nao fira a sensibilidade dos fiéis ao
receberem-no. E necessário evitar que o pao tenha gosto de massa
mal cozida, ou que endurega muito depressa, de modo a nao poder
ser comido.

"> Cf. Ibld. nn. 44-46.

" Cf. Ibld n. 10.

12 ct. Ibld. n. 282.

13 Cf. Ibld. n. 283.

— 185 —
W «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

Além disso, efetue-se com todo o respeito que o Sacramento


merece, tanto a fracao do pao, como a consumacao do pao e do vinho,
quando se distribuí a comunhao e quando se toma o que sobrou, no
fim da distribuicao da comunhao M.

6. Por causa do sinal, a mais perfeita participacao dos fiéis


realiza-se na comunhao sob as duas especies1B.

Este modo de receber a comunhao é permitido somente dentro dos


limites estabelecidos pela Institutio Generalis do Missal Romano
(n. 242) e segundo a Instrucao da Sagrada Congregacao para o Culto
Divino, sob as duas especies, Sacramentan Communione, de 29 de
¡unho de 1970.

Portanto:

a) Os Ordinarios nao concedam esta faculdade de modo geral,


mas estabelecam, com precisao, os casos e a celebragao, dentro dos
limites estabelecidos pela Conferencia Episcopal.

Evitem-se as ocasioes em que há grande número de comungantes.


Os grupos devem ser bem determinados, ordenados e homogéneos.

b) Instruam-se diligentemente os fiéis, antes de, serem admitidos


á comunhao sob as duas especies, para compreenderem mais profunda
mente o seu significado.

c) Quando a comunhao for feita diretamente do cálice, este


deve ser apresentado aos comungantes por sacerdotes, diáconos ou
acólitos constituidos na ordem do acolitado. Se nao houver estes
ministros, o celebrante observe o rito descrito na IrrtKfutio Generalis do
Missal Romano, n. 245.

Os comungantes nao devem passar o cálice uns aos outros, nem


devem pegar diretamente no cálice para comungar o preciosíssimo
Sangue. Neste caso, prefira-se a comunhao por intincao.

d) O oficio de distribuir a comunhao compete, antes de tudo,


ao sacerdote celebrante, depois, ao diácono e, nalguns casos, ao
acólito. A Santa Sé pode permitir que se¡am designadas, para este

i* Cf. S. Congr. RItuum, Instr. de Cultu Mysterll Eucharlstlcl, Eucharlatlcum


Mystorlum, 25 de malo de 1967, n. 48, AAS 59, 1967, p. 566.

»» Cl. Institutio (Generalis Mlwalls Romanl n. 240.

— 186 —
TERCEIRA INSTRUCAO SOBRE A LITURGIA 11

fim, também outras pessoas dignas, que, para tanto, tenham recebido
o mandato. Quem nao recebeu este mandato nao pode distribuir a
sagrada comunháo ou levar os vasos sagrados com o Santíssimo
Sacramento.

Sobre o modo de distribuir a sagrada comunháo,* deve ser obser


vada a 'InstHutio Generalis' do Missal Romano, nn. 244-252, e a citada
Instrucao de 29 de junho de 1970, publicada por esta Sagrada
Congregacáo.

Se, porém, for concedido um modo de distribuir a sagrada


comunháo diferente do tradicional, observem-se as condicoes estabe-
lecidas pela Sé Apostólica.

e) Quando, na falta de sacerdotes, forem designadas pelo


bispo, por concessao da Sé Apostólica, outras pessoas, como, por
exemplo, os catequistas, especialmente ñas missoes, para celebrar a
Liturgia da Palavra e para distribuir a comunháo, estes nao devem,
absolutamente, recitar a Prece Eucarística. Se, porém, ¡ulgarem opor
tuno ler a narracao da Instituicáo da Eucaristía, usem-na como leitura,
na Liturgia da Palavra. Portanto, nestas assembléias de fiéis, depois
da celebracao da Liturgia da Palavra, diga-se o Pai-Nosso e distribua-se
a sagrada comunháo, segundo o rito prescrito.

f) Qualquer que seja o modo escolhido, procure-se distribuir a


sagrada comunhao, com dignidade, piedade e decoro; evitem-se os
penaos de urna diminuicáo do respeito, tendo-se em consideracao a
índole de cada assembléia litúrgica, a idade, as condicoes e a pre-
paracao de quem a recebe 10.

7. Segundo as normas litúrgicas da Igreja Latina, nao é permi


tido as mulheres (jovens, casadas e religiosas) servir ao altar, quer se
trate de ¡greja, casas, conventos, colegios ou institutos femininos.

Segundo as normas dadas nesta materia, as mulheres é lícito:

a) Proclamar as leituras, exceto o Evangelho. Desempenhem


este oficio servindo-se dos instrumentos técnicos modernos, para que
sejam ouvidas por todos. As Conferencias Episcopais podem deter
minar melhor o lugar conveniente para as mulheres anunciarem a Pa
lavra de Deus na assembléia litúrgica.

18 Cf. S. Congr. Pro Cultu Divino, Instr. de ampllore facúltate Sacrae


Communlonis sub utraquo specie admlnistrandae, Sacramental! Com-
munlono, de 29 de junho de 1970 (L'Osservatore Romano, ed. port. de 13
de setembro de 1970).

—• 187 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

b) Propor as intencóes da oracao universal.

c) Dirigir o canto da assembléia e tocar o órgao ou outros ins


trumentos permitidos.

d) Ler as admoestacoes ou explicacoes para introduztr os fiéis


numa compreensao do rito.

e) Desempenhar, ao servico da assembléia dos fiéis, algumas


tarefas que, geralmente, sao confiadas a mulheres: por exemplo, rece-
ber os fiéis á porta da Igreja, conduzi-los aos lugares que Ihes estiverem
reservados, organizar as procissoes e recolher as esmolas na igreja ".

8. Devem-se particular respeito e cuidcdo aos vasos sagrados,


aos paramentos e as alfaias sagradas. Se, atualmente, se concede
liberdade maior no que se refere ao material e á forma de que sao
feitos, é para permitir que os diversos povos e artistas tenham maior
possibilidade de dedicar ao culto sagrado as suas melhores energias.

Contudo, tenham-se presentes as seguintes normas:

a) Os objetos destinados ao culto devem ser sempre nobres,


duradouros e multo apropriados ao uso sagrado ls. Nao é licito, por-
tanto, usar alfaias destinadas ao uso profano.

b) Os cálices e as patenas, antes de serem usados, devem ser


consagrados pelo bispo, que julgará se sao aptos ao uso para o qual
sao destinados.

c) A veste comum a todos os ministros, qualquer que seja o seu


grau, é a alva 1D. Está reprovado o uso de celebrar ou, até, concelebrar,
só com a estola em cima da cogula monástica, em cima da batiría, ou
do traje civil. Também nao é lícito realizar as outras acóes sagradas,
como impor as maos durante as ordenacSes, administrar os outros
sacramentos e dar as béncáos, só com a estola em cima do traje civil.

d) Compete as Conferencias Episcopais estabelecer se é oportuno


escolher, para as alfaias sagradas, outras materias, além daquelas que
sao tradicionalmente usadas. Deve-se informar a Santa Sé sobre estas
deliberacóes (cf. SC 128).

" Cf. In8tjtut!o General!» Mlesalis Romani n. 68.

" Cf. Ibld. n. 288.

» Cf. SC 128.

— 188 —
TERCEIRA INSTRUCAO SOBRE A LITURGIA 13

No que se refere á forma das vestes sagradas, as Conferencias


Episcopais podem determinar, e propor á Sé Apostólica, as adapracdes
que corresponderem as necessidades e aos costumes de cada regiao 20.

9. A Eucaristia deve ser celebrada, normalmente, num lugar


sagrado31. Sem verdadeira necessidade, .que deve ser julgada pelo
Ordinario, na sua ¡urisdicáo, nao é permitido celebrar fora da Igreja.
E, quando o Ordinario o permitir, tenha-se o cuidado de escolher lugar
digno e de realizar a acao sagrada em cima de mesa conveniente.
Possivelmente nao se celebre em refeitórios, ou em mesas onde se
tomam refeicoes.

10. Na aplicacao da reforma da Liturgia, os bispos tenham o


cuidado especial de dar ao lugar sagrado, principalmente ao presbite
rio, urna disposicao estável e digna, segundo as normas da 'Instítutio
Generalis' do Missal RomanoM e da Instrucáo 'Eucharisticum
Mysterium'2:).

Algumas solucóes adotadas nestes últimos anos, provisoriamente,


tendem, muilas vezes, a assumir urna forma estável. Algumas délas,
¡á reprovadas pelo 'Concilium', continuam a ser empregadas, embora
nao condi.gam com o sentido litúrgico, com a estética e, também, com
um fácil e decoroso andamento das celebracóes sagradas24.

Com a ajuda das Comissoes diocesanas de Liturgia e de Arte


Sacra e, também, com o parecer, se for necessário, dos peritos e das
competentes Autoridades Públicas, faca-se um atento exame dos pro-
jetos de novas construcoes e urna revisao das instalacoes provisorias,
a fim de se chegar, em todas as igrejas, a urna disposicao definitiva,
que respeite os monumentos de arte do passado, quando existirem, e,
na medida do possível, condiga com as novas exigencias.

11. A compreensáo da Liturgia restaurada ainda exige que seja


envidado um grande esforco para urna decorosa traducao e publicacSo
dos livros litúrgicos reformados. Devem ser traduzidos integralmente
e substituir os outros livros rituais particulares, que eram usados
precedentemente.

» Cf. Instltutlo Generalis Missalis Rotnani n. 304.

21 Cf. Ibidem, n. 260.

22 Cf. Ibidem, nn. 253-280.

83 Cf. S. Congr. Rituum, Instr. de Cultu Mysteril Eucharistlci, Eucharislicurn


Myaterlum nn. 52-57; AAS 59, 1967, pp. 567-569.

24 Cf. Epístola em. mi Card. I. Lercaro, Praesidis "Consilü ad exequendam


Constitutionem de Sacra Liturgia" ad Praesides Conferentiarum Episco-
pallum, de 30 de junho de 1965 (Notltiae I, 1965, pp. 261-262).

— 189 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

Se a Conferencia Episcopal julgar necessário e oportuno acres-


centar outras fórmulas ou introduzir algumas adaptacoes, estas devem
ser aprovadas pela Santa Sé e apresentadas com particulares sinais
tipográficos, para se distinguirem do texto típico latino.

Neste campo é necessário proceder sem pressa, pedindo a colabo-


racao de diversas pessoas, nao só de teólogos e liturgistas, mas
também de literatos e estilistas, para que as traducoes sejam documen
tos de reconhecida beleza, que desafien! a acáo do tempo, pela sua
propriedade, harmonio, elegancia e riqueza de estilo, em plena cor
respondencia com a profundidade do conteúdo ss.

Na preparacao dos livros litúrgicos em língua vernácula, obser


ve-se a norma tradicional de publicar os textos sem a indicagao do
nome dos autores e dos tradutores. Os livros litúrgicos sao destinados
á comunidade crista e devem ser preparados e difundidos somente por
mandato da Hierarquía e com a sua autoridade.

Estas normas nao sao dependentes do consenso de qualquer


pessoa privada, pois, se o estivessem, seria urna ofensa á liberdade
da autoridade e á dignidade da Liturgia.

12. As experiencias em materia litúrgica, quando forem necessá-


rias e parecerem oportunas, deverao ser concedidas somente por esta
Sagrada Congregando, por escrito, com regras precisas e determinadas,
sob a responsabilidade da autoridade local competente.

No que se refere á missa, cessam todas as faculdades de fazer


experiencias que tinham sido concedidas, em vista da reforma do rito.
Com a publicagao do novo Missal, as normas e a forma da celebracao
eucarística sao as que foram dadas pela 'Institutío Generalis' e pelo
Ordo Missae.

As Conferencias Episcopais deverao definir com clareza as adap


tacoes já previstas nos livros litúrgicos e submeté-las á aprovagao da
Santa Sé.

Quando for-em necessárias adaptacoes maiores, segundo o que


foi estabelecido pela Constituicao Sacrosandum Concílium, n. 40, a
Conferencia Episcopal estude atentamente o assunto, considerando as
tradicóes, a índole dos diversos povos e as exigencias pastorais par
ticulares. Se parecer oportuno fazer alguma experiencia, sejam atenta
mente determinados os seus limites: realizem-se estas experiencias em
grupos preparados para isso, sob a responsabilidade de pessoas
prudentes, designadas para esta tarefa com mandato especial. Nao

Paulo VI, alocucSo ás Comissóes Litúrgicas da Italia, do dia 7 de fevereiro


de 1969 (L'Ouervatore Romano, ed. quotidiana de 8 de fevereiro de 1969).

— 190 —
TERCEIRA INSTRUCAO SOBRE A LITURGIA 15

devem ser realizadas na altura de grandes celebracóes, nem com publi-


cidade. Sejam limitadas no número e nao ultrapassem o período de
um ano. Depois, ¡nforme-se a Santa Sé sobre as conclusoes. Enquanto
se espera a resposta da Santa Sé, nao é lícito iniciar a aplicacao das
adaptacoes pedidas.

Quando se trata de mudar a estrutura dos ritos ou a disposicáo


das partes previstas pelos livros litúrgicos, ou de introduzir textos, e,
até, outras partes inteiramente novas, antes de iniciar qualquer expe
riencia, é necessário apresentar o plano completo da mesma á Santa Sé.

Esta é a praxe requerida pela Constituicao Sacrosanctum


Concilium (SC 40) e exigida pela seriedade do assunto.

13. Ten ha-se, por fim, presente que na renovacao litúrgica, re


querida pelo Concilio, está interessada toda a Igreja. Mas esta reno-
va cao requer um estudo teórico e prático de toda a materia, ñas
reunides pastarais, tendo-se em vista a educacáo do povo cristáo, para
que a Liturgia se torne viva, capaz de tocar os sentimentos da alma
e seja adaptada a eles.

A reforma atual procurou apresentar a oracao litúrgica do modo


como ela brotou da tradicao viva de muitos séculos de espiritualidade.
Na sua aplicagao, também deve apresentar-se como urna obra de todo
o Povo de Deus, estruturado ñas suas diversas ordens e ministerios.

Só nesta unidade de todo o corpo eclesial reside a garantía da


sua eficacia e da sua autenticidade. Os pastores, de modo particular,
na fidelidade generosa as normas e as diretrizes da Igreja, em espirito
de fé, abandonando as próprias preferencias e os particularismos, sai-
bam ser 'servidores da Liturgia' comum, preparando com o seu exemplo,
com um estudo profundo e com urna obra inteligente e paciente de
catequese, a florescente primavera que se espera do renovamento
litúrgico, que refuta as exigencias hodiernas e fuja do secularismo e da
arbitrariedade, que o comprometeriam seriamente.

Essa Instrucao, preparada por mandato do Sumo Pontífice, pela


Sagrada Congregacao para o Culto Divino, foi aprovada no dia 3 de
setembro deste ano pelo Santo Padre Paulo VI, que, confirmando-a
com a sua autoridade, ordenou que fosse publicada e observada por
todos.

Roma, 5 de setembro de 1970.


Benno Cardeal Gut
Prefeito

Annibale Bugntni
Secretario»

— 191 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

II. COMENTANDO...

Eis alguns dos pontos que, ñas atuais circunstancias,


parecem mais atencáo merecer.

1. Encerrada a fase das experiencias

O texto diz explícitamente em scu n» 12 que cessou a


fase de experiencias na celebragáo da Liturgia Eucarística.
Sao obrigatórios os ritos e as rubricas coñudos no Missal Ro
mano. Isto quer dizer, entre outras coisas, que é preciso que
o celebrante esteja devidamente paramentado com túnica ou
casula; a materia do sacramento seja pao de trigo puro e
vinho de uvas; a estrutura e as palavras da celebrasáo sejam
as que o Ordinario da Missa prescreve... Cf. n» 5. Se.

A Igreja reconhece a conveniencia de, em certos casos,


se fazer alguma adaptagáo do rito eucarístico para torná-lo
mais acessível a determinados grupos. Todavía exige que as
experiencias de adaptagáo «sejam concedidas únicamente pela
S. Congregagáo para o Culto Divino, por escrito, com regras
precisas de aplicagáo e sob a responsabilidade da autoridade
local competente» (n' 12). Mais: quando se trata de mudar
os ritos ou introduzir textos novos na celebrasáo, «ó neces-
sário apresentar o plano completo do novo rito á Santa Sé
antes de se iniciar qualquer experiencia» (n» 12).

Por conseguinte, a Missa do Vaqueiro e outras semelhan-


tes só poderiam ser legítimamente executadas após aprovadas
pela Santa Sé. A Missa das Criangas foi cuidadosamente estu-
dada por peritos do Brasil e da S. Congregagáo para o Culto
Divino antes de ser autorizada.

Notem-se bem os dizeres: «Respeite-sa, de modo parti


cular, o Ordinario da Missa. As fórmulas nele contidas, ñas
versees oficiáis, nao podem ser absolutamente alteradas, nem
sequer com a desculpa de se tratar da Missa in cantu» (n* 3a)
ou cantada.

Fica certa margem para que o celebrante recorra a fór


mulas próprias em alguns momentos da celebragáo eucarística:
tais seriam a saudagáo inicial, o ato penitencial, os comenta
rios das leituras bíblicas, a introdugáo ao Pai Nosso...

— 192 —
TERCEIRA INSTRUgAO SOBRE A LITURGIA 17

2. Orajées e leituras

As oragóes (coletas, secretas e preces após a Comunháo)


nao podem ser compostas pelo celebrante em vista de tal ou
tal Missa; muito menos será lícito improvisá-las «na hora»...
Quem deseja adaptagóes, escolha urna das muitas oragóes que
o Missal oferece nos formularios de Missas votivas e em outros.
Cf. n' 3d.

As leituras háo de ser tiradas táo somente da Biblia, que


por nenhum outro livro de piedade ou de erudigáo é lícito
substituir; cf. n° 2a. Existem lecionários nos quais diversos
textos bíblicos sao indicados para diversas ocasióes votivas,
podendo-se fazer livre escolha entre eles. Cf. n* 3e.

3. A Anáfora

A Anáfora ou Oragáo Euoarística parte central da


Missa — deve ser recitada ou cantada exclusivamente pelo(s)
celebrante (s). Nem mesmo a doxologia final, anterior ao Pai
Nosso, seja recitada ou cantada pela assembléia. Esta respon
derá Amém. A razáo desta estrita proibigáo está no fato de
que a Anáfora (considerada como um todo) é a prece conse
cratória do pao e do vinho, que só o sacerdote pode consagrar;
cf. n' 4. Nao se deveria apelar para atitudes «democratizantes»
ou para a «renuncia a direitos» como se fossem razóes para
que o celebrante convide os fiéis a dizer com ele a doxologia:
«Por Cristo, com Cristo...». Em tal caso trata-se do exercício
do sacerdocio de Cristo, do qual o ministro humano nao pode
dispor, mas é mero instrumento habilitado por Cristo.

Por isto também nao devem os ministros extraordinarios


da Comunháo Eucarística, ao celebraren! urna paraliturgia
com a distribuigáo da Comunháo Eucarística, recitar a Aná
fora ou Oragáo Eucarística. Cf. n« 6e.

4. Comunháo

As especies eucarísticas háo de ser tratadas com o má


ximo respeito, visto que Cristo continua realmente presente
sob os sinais do páq e do vinho, mesmo depois de terminada
a Missa. Recolham-se os fragmentos que ainda possam ser
tidos como migalhas de pao e nao se menosprezem. as gotas
do vinho consagrado (sangue do Senhor). Cf. tí> 5.

— 193 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 274/1984

O celebrante fica sendo o ministro ordinario da distribui-


cáo da Comunháo Eucarística. Isto quer dizer que

1) nao lhe é lícito entregar esta fungió a ministros


extraordinarios, se ele mesmo a pode desempenhar;

2) menos ainda lhe é licito sentar-se (ou ficar em pé)


depois de haver comungado e deixar que os fiéis comunguem
cada qual servindo-se das especies sagradas por suas próprias
máos. O sacramento da Eucaristía tem seu ministro; o cele
brante nao pode renunciar a esta fungáo. Cf. n» 6d.

Quando a Comunháo é distribuida sob as duas especies,


os fiéis comungantes nao devem segurar diretamente o cálice
nem passá-lo uns aos outros. O cálice há de lhes ser apre-
sentado por sacerdote, diáconos ou acólitos constituidos no
acolitado. Cf. n* 6c.

5. Cantos pastarais

É lícito cantar em vernáculo os cantos de procissáo ou


meditacáo da Liturgia Eucarística: o canto de entrada, os que
separam as leituras entre si, o de Ofertorio, o de Comunháo,
o de despedida.

Todavía, na composicáo de tais cantos, convém notar que


«devem estar de harmonía com os tempos, com o momento
da acáo litúrgica e também com as pessoas que os usam»
(tí> 3bef; n« 3c).

Por outras palavras: nao é qualquer canto piedoso ou


belo que se deve utilizar na Uturgia. Mas cada época do ano
(Advento, Natal, Quaresma, Páscoa, Pentecostés, tempo co-
mum) exige pecas correspondentes aos misterios do Senhor
celebrados em tal ocasiáo. Semelhantemente, cada parte da
Missa requer cantos que exprimam o significado da acáo que
o celebrante realiza no altar em tal momento: assim, na
entrada, um canto que explicite a idéia de aceder á casa de
Deus; após as leituras, um canto que ajude a revolver men
talmente as verdades transmitidas pela Palavra do Senhor;
no Ofertorio, urna peca que signifique oferecer; durante a Co
munháo, algo que indique a uniáo com o Senhor; após a Missa,
um texto que exprima envío, missáo ou acáo de gragas.

— 194 —
TERCEIRA INSTRUCAO SOBRE A LITURGIA 19

Verifica-se entáo como estáo fora de propósito os cantos


cuja letra deixa de acompanhar o momento litúrgico. Mais
fora de propósito aínda estáo os que, confessada ou sublimi-
narmente, acirram os ánimos ou provocam a luta social ou
analisam como que em comicio as mazelas da vida sócio-eco-
nómico-politica... Tais cantos se tornam, nao raro, veículos
de ideología ou instrumentos de doutrinacáo política partida
ria; em vez de elevar a Deus, agucam nos fiéis a tendencia ao
odio e a revolta.

Para que a luta em prol da justica social seja crista, ela


deve abastecer-se em íntima uniáo com Deus e profundo mer-
gulho ñas verdades da fé, e nao apenas no raciocinio de urna
ideología ou de um partido.

Faz-se mister também excluir da Liturgia todo tipo de


melodía que tenha conotacóes de música profana ou que sus
cite nos fiéis a associagáo de idéias com festividades munda
nas. Os instrumentos musicais da Liturgia tenham a sobriedade
e a dignidade que convém ao valor hierárquico (cultual) da
mesma.

Quanto á aculturacáo (também dita «inculturacáo>) ou


a adopgáo de elementos das diversas culturas para configurar
o culto divino, é legitima e desejável. Seja feita, porém, de
modo a se conservarem o caráter sagrado da celebracáo e o
respeito para com o Transcendental. Nao sejam as celebra-
góes litúrgicas reduzidas preponderantemente a ocasioes para
exibicáo de arte folclórica; tal foi o caso, por exemplo, da cha
mada «Missa Nagó», promovida em 1983 pela Secretaria de
Turismo de Sao Paulo, na qual ritos de candomblé foram enxer-
tados sorrateiramente na estrutura de celebracáo da Eucaris
tía Católica.

Nao é desejável que no rito eucarístico da Igreja Latina


se facam insergóes para dar-lhe tragos africanizantes. Nao;
deve-se pleitear a preservacáo do rito romano como tal na
sua identidade típica. Para atender a populagóes de origem
africana, tem-se apregoado a introdueáo, no Brasil, de urna
Liturgia eucaristica oriunda da África, isto é, da Etiopia; tal
ritual é expressáo genuína da alma africana crista píedosa e
reverente a Deus. Cf. J. E. Martins Térra, O Negro e a Igreja,
ed. Layóla, Sao Paulo 1983, p. 295, obra na qual se encontram
excelentes consideracóes sob a inculturagáo da Liturgia.

— 195 —
20 *PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

Sao estes alguns reparos que nos oeorrem quando em


nossos dias velemos a última Instrueáo da Igreja sobre a S. Li
turgia. É para desejar que o dissabor de tantas experiencias e
iniciativas arbitrarias faga germinar de novo no coracáo de
todos os interessados o amor por uma Liturgia que seja explicita
e diretamente adoragáo, louvor e acáo de gragas, estímulo de
contemplacáo em vista de uma agáo mais profundamente crista!

15? COLOQUIO FILOSÓFICO INTERNACIONAL

ORGANIZADO PELO CONJUNTO DE PESQUISA FILOSÓ


FICA (CONPEFIL) E PELA ASSOCIAC.ÁO CATÓLICA
INTERAMERICANA DE FILOSOFÍA (ACIF), SOB O PA
TROCINIO DA PONTIFICIA UNIVERSIDADE CATÓLICA
DO RIO DE JANEIRO (PUC/RJ):

DIALOGO ENTRE A FÍSICA ATÜAL


E A FILOSOFÍA CRISTA

23 a 29 de JULHO DE 1984
LOCAL: CAMPUS DA PUC/RJ
RÚA MARQUES DE SAO VICENTE, 225, GÁVEA,
RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL
O Coloquio tem por objetivo;

Contribuir através de um diálogo aberto e programado


entre os filósofos e os físicos, na forma de uma pesquisa cientí
fica, para conhecer melhor, atualizar e revigorar a filosofía
crista, estimulando o seu servigo positivo-construtivo na pro-
mogáo da cultura em todas as suas dimensóes e na solugáo dos
grandes problemas humanos da atualidade, ,bem como ressal-
tando a exigencia de uma critica objetiva das ideologías.
Inscrigóes:
Poderáo ser feitas, antes do día 22 de julho de 1984 com o
Pe. Stanislavs Ladusans, S. J. nos dias úteis, das 16 as 19 horas,
na sede do CONPEFIL, situado á Rúa Marqués de Sao
Vicente, 293, Gávea, Rio de Janeiro (telefone: 021-274-4596).
No dia 22 de julho e nos dias subsequentes as inscrigóes deveráo
ser feitas na Secretaria do Coloquio, na ante-sala do auditorio
RDC da PUC/RJ.
Ao mesmo enderego poderáo ser solicitadas a programagáo
e demais informagóes sobre o Coloquio.

— 196 —
Problema candente:

Divorciados e Comunháo Eucarística

Em síntese: A recusa 'da Comunháo Eucarlstica aos divorciados unidos


em novo enlace nao se deve a urna disposicáo meramente disciplinar da
Igreja, mas é conseqüéncia do conceito de matrimonio instituido por Cristo
e, por isto, intocável aos homens (inclusive á hierarquia da Igreja): o sacra
mento do matrimonio participa da uniao de Cristo com a Igreja, que é única
e definitiva: diz q Apostólo que no lar católico o esposo é figura de Cristo
e a esposa figura da Igreja (cf. Ef 5,31). Recusa da Eucaristía nao quer
dizer excomunháo (pena de fora externo, que exclui de toda forma de parti-
cipacáo na vida da Igreja). Por isto a Igreja exorta os divorciados unidos
em novo enlace a que nao se afastem de Oeus, da Missa (á qual devem
assistir sem comungar), da oracüo..., eduquem os filhos na fé católica
após levá-los á pia batismal; e participem, quanto possivel, da dlfusfio do
Reino de Deus. O Senhor há de levar em conta a angustia dos coracSes
de muitas dessas pessoas e dar-lhes-á urna resposta adequada.

Como se vé, a atitude da Igreja, no caso, é de benevolencia, que «fio


pode estar desvinculada da doutrina e da verdade; solapar a verdade revelada
por Cristo seria trair nao somente a Deus, mas também o próprio homem.

Nao há dúvida, a situagáo dos divorciados unidos em


segundo enlace é, na Igreja, profundamente dolorosa. A pri-
meira vista, parecem excluidos por «intransigencia» da Igreja.
Em conseqüéncia, alguns se julgam desligados de todo vinculo
com a comunidade eclesial e se tornam indiferentes a esta.
Outros contornam a norma da Igreja e chegam a participar
da Comunháo Eucarística, como se a Igreja nao a pudesse
proibir ou como se a Igreja estivesse para modificar a sua
legislapáo e fosse em breve conceder a Eucaristía a todos os
divorciados «re-casados».

Para alimentar a esperanca de que o acesso aos sacra


mentos se abrirá a estes (se já nao se abriu), tem-se ouvido
a voz de estudiosos católicos abalizados que, mediante publica-
cóes, disseminam perplexidade no povo de Deus. De modo
especial, referimo-nos aos artigos do Pe. Eugéne Charbonneau

— 197 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

publicados no jornal «A Folha de Sao Paulo» aos 7 e 8 de


dezembro de 1983. Urna das alegagóes que mais fortes pare-
cem em favor da distribuicáo da Eucaristia a tais cristáos, é
a de que vivem sua vida conjugal em perfeita harmonia ou em
doagáo mutua tal como freqüentemente nao existe dentro de
auténticos casáis; ademáis nao querem separar-se da Igreja,
mas desejam permanecer filhos déla.

É diante de tais fatos que, a seguir, proporemos o autén


tico pensamento da Igreja, acompanhado de breves comen
tarios.

1. Doutrína ou disciplina?

1. A posigáo clássica e oficial da Igreja nao se deve a


principios de disciplina ou legislagáo mutáveis. Se se tratasse
de questáo meramente disciplinar, a Igreja poderia pensar em
conceder a comunháo aos divorciados unidos em novo enlace,
como adotou o vernáculo em sua Liturgia... As raizes, po-
rém, da atitude da Igreja sao muito mais profundas; deri-
vam-se do seu conceito mesmo de matrimonio, ... conceito
transmitido pelo Senhor Jesús e, por isto, intocável.

Com efeito. O sacramento do matrimonio participa da


uniáo de Deus com a humanidade, plenamente realizada em
Jesús Cristo. Sim, já o Antigo Testamento apresentava o Se
nhor Deus como o Esposo da Filha de Jerusalém (= povo de
Israel); a revelagáo e a doagáo de Deus a Sion eram tais que
só a uniáo matrimonial a podia simbolizar. Na plenitude dos
tempos, o Filho de Deus assumiu a natureza humana em María
Virgem; o Verbo se fez carne em Jesús Cristo, ... dois mima
só carne. Essa alianca é selada de modo definitivo e indisso-
lúvel pelo sangue e pela agua que jorram do lado de Cristo
pendente da cruz (cf. Jo 19,34). Ora o casamento cristáo repro-
duz essa uniáo, no sentido de que é a realizagáo-miniatura
(em dois individuos) dessa uniáo de Cristo com toda a Igreja.
Diz Sao Paulo que no matrimonio o esposo faz as vezes de
Cristo, ao passo que a esposa faz as vezes da Igreja: «Deixará
o homem o seu pai e a sua máe e se ligará á sua mulher, e
seráo dois numa só carne. É grande este misterio: refiro-me
á relafiáo entre Cristo e a sua Igreja» (Ef 5,31s); ora, como a
uniáo de Cristo com a Igreja é inquebrantável, assim também
a do esposo com a esposa unidos pelo sacramento. A insergáo

— 198 —
DIVORCIADOS E COMUNHAO EUCARiSTICA 23

do matrimonio sacramental na uniáo de Cristo com a Igreja


comunica ao casamento humano urna nobreza singular,...
nobreza que, como se compreende, vem a ser fonte de exigen
cias novas, entre as quais a da indissolubilidade: «O que Deus
uniu, o homem nao o separe» (Mt 19,6). Donde se vé que á
Igreja nao é licito retocar a doutrina da indissolubilidade sem
trair ou contradizer realidades transcender!tais: a do Cristo
Esposo e a da Igreja Esposa, renovada e santificada pelo
Cristo «mediante imersáo na agua acompanhada da palavra»
(Ef 5,25). Novas nupcias após um casamento sacramental
válido nao podem ter lugar nem sentido no contexto da única
uniáo de Cristo com a Igreja.

É isto que explica a recusa da Eucaristia aos divorciados


unidos em novo enlace. Este é urna ofensa á alianga de Cristo
com a Igreja; gera um estado de pecado mortal, incompatível
com a recepcáo da Eucaristia.

Ademáis nao adianta ou nao tem sentido, para um cris-


táo, procurar a uniáo com Cristo na Eucaristia se está incom-
patibilizado com a Igreja ou com a doutrina da Igreja, que,
no caso, é a do próprio Cristo (cf. Me 10,5-9; Le 16,18; Mt
19,3-9; ICor 7,10s.39). Bem pode a Igreja dizer o que Cristo
dizia: «A minha doutrina nao é minha, mas é do Pai que me
enviou» (Jo 16,3); Cristo e a Igreja sao inseparáveis entre si
como Cabega e Corpo o sao, de modo que quem diz Nao a
Igreja em materia essencial, está dizendo NSIo a Cristo.

2. OS. Padre Joáo Paulo n advertía explícitamente na


Exortagáo Familiaris Consortío:

«O matrimonio entre duas pessoas batizadas é o símbolo real da


uniao de Cristo com a Igreja, urna uniSo nao temporaria ou 'por expe
riencia', mas eternamente fiel; entre dois balizados, portanto, nao
pode existir tenao um matrimonio índissolúvel» (n9 80).

A seguir, referindo-se aos divorciados, escreve o S. Padre:

«Juntamente com o Sínodo exorto vivamente os pastores e a


inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com
carídade solícita .que eles nao se considerem separados da Igreja,
podendo, e melhor devendo, enquanto balizados, participar na sua
vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a freqüentar o
Sacrificio da Missa, e perseverar na oracao, a incrementar as obras
de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justica, a

— 199 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

educar os filhos na fé crista, a cultivar o espirito e as obras de peniten


cia para assim implorarem, dia a dia, a graca de Deus. Reze por eles
a Igreja, encora¡e-os, mostre-se mae misericordiosa e sustente-os na fé
e na espera nca».

A estas palavras de estímulo acrescenta o S. Padre:

«A Igreja, con ludo, reafirma a sua praxis, fundada na Sagrada


Escritura, de nao admitir á comunhao eucarística os divorciados que
contrairam nova uniao. Nao podem ser admitidos, do momento em
que o seu estado e as suas condicóes de vida contradizem objetiva
mente aqueta unido de amor entre Cristo e a Igreja, significada e
realizada na Eucaristía. Há, além disto, outro peculiar motivo pastoral:
se se admitissem estas pessoas á Eucaristia, os fiéis seriara induzidos
em erro e confusao acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubi
lidade do matrimonio» (n° 84).

Eis novo aspecto do problema:

«O respeito devido tanto <ao sacramento do matrimonio quanto


aos próprios cdnjuges e aos seus familiares, e aínda á comunidade dos
fiéis proibe os pastores, por qualquer motivo ou pretexto mesmo pas
toral, de fazer em favor dos divorciados que contraem urna nova uniáo,
cerimónías de .qualquer género. Estas danam a ¡mpressao de celebrando
de novas nupcias sacramentáis válidas, e conseqüentemente induziriam
em erro sobre a indissolubilidade do matrimonio contraído validamente»
(n« 84).

Em outro inciso do mesmo n» 84, insinúa o S. Padre a


possibilidade de se dar a Eucaristia a pessoas cuja uniáo con
jugal nao seja legítima, mas que vivam sob o mesmo teto
como irmáo e irmá. Em tais casos, para que comunguem,
requer-se que evitem o possível escándalo, procurando os
sacramentos em igreja de regiáo onde nao sejam conhecidas
tais pessoas.

Pergunta-se, poréni: a Igreja só tem recusas aos católicos


que vivam conjugalmente fora do sacramento do matrimonio?
— Nao, como veremos abaixo.

2. Lindas pastarais

O problema dos divorciados unidos de novo é cada vez


mais freqüente e doloroso. A Igreja nao Ihe pode ser insen-
sivel; eis que Ela tem desenvolvido a pastoral dos divorciados.
Para entendé-la devidamente, notemos o seguinte:

— 200 —
DIVORCIADOS E COMUNHÁO EUCARÍSTICA 25

Estar impedido de freqüentar a comunháo eucaristica nao


é o mesmo que estar excomungado. — A excomunháo é urna
censura de foro externo, que priva o fiel católico da partici-
pacáo dos sacramentos e da vida da Igreja; sendo de foro
externo, ela supóe pecado ou culpa de foro interno, mas nao
define necessariamente a situagáo de foro interno do sujeito
excomungado. — Ao contrario, o estado de vida conjugal ilí
cita constitui pecado ou culpa de fora interno — o que é sufi
ciente para excluir da Comunháo Eucarística; todavía a Igreja
nao impóe a pena de excomunháo (no foro externo) a quem
vive com consorcio marital ilegítimo — o que quer dizer que
aos divorciados é licito assistir 'á S. Missa e conviver dentro
da Igreja.

Em conseqiiéncia a Igreja tem tomado todas as disposi-


góes de animagáo compatíveis com a doutrina do Evangelho
em favor dos divorciados; convida tais filhos a participarem
da vida eclesial, freqüentando a S. Missa (sem comungar, dado
que isto ultrapassa as possibilidades da Igreja), colaborando
para a difusáo do Reino de Deus, especialmente pela educacáo
religiosa dos filhos, entregando-se assiduamente á oracjio con
fiante (pois Deus tem recursos para resolver tais impasses e
solucionar os casos difíceis...)... Assim a Igreja nao esquece
a misericordia para com os que foram infelizes no casamento,
mas só pode exercer misericordia dentro da verdade. A Igreja
nao é lícito proceder como se a situagáo em que se acham os
divorciados «re-casados», fosse conciliável com o misterio do
casamento cristáo (cf. Ef 5,31). O verdadeiro bem da comu-
nidade crista e da humanidade — como também o dos espo
sos — pede á Igreja essa fidelidade onerosa. Se a Igreja
esquecesse a componente social e comunitaria da sexualidade,
ela trairia a sociedade; estaña solapando ou minando a célula
germinal da comunidade humana, reduzindo o amor e a sexua
lidade apenas as suas dimensóes individuáis ou interpessoais.
Pelo mesmo motivo comunitario, á Igreja nao é lícito esque-
cer a dimensáo eclesial do sacramento do matrimonio. Vé-se,
pois, que a posigáo da Igreja nao é arbitraria nem depende de
«boa vontade» ou de «mais compreensáo», mas é ditada por
valores que, por sua grandeza, ultrapassam os limites deste
ou daquele homem. A Igreja, para ser fiel a Deus e aos
homens, toca assumir funcóes que, a primeira vista, nao sao
compreendidas, mas que, em última instancia, sao generosos
servigos prestados á humanidade. Certa vez um repórter de
París-Match disse ao bispo Mons. Jacques Jullien, presidente

— 201 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

da Comissáo Pro-Familia da Franca: «Urna quarta parte dos


casamentos religiosos acaba no divorcio; é mais do que tempo
de tirar disto as conseqüéncias!» Ao que respondeu o prelado:

«Num mundo que jó nao acredita na perseveranca, na fidelidade,


no perdáo, no amor, se nos, os aislaos, pobres cristaos, mas sal da
térra por vocacao, ¡á nao formos testemunhas da fidelidade, da pa-
lavra dada e mantida até a morte,. . . quem o será? E, se ninguém
o for, o mundo morreras (París Match, 17/10/1980).

A firmeza de posicáo da Igreja nao exclui a separagáo


judicial de cónjuges cuja vida comum se torne um tormento.
Há casos em que realmente é melhor deixar de coabitar do
que permanecer em constante desgaste sob o mesmo teto,
dando péssimo testemunho aos filhos. O que a Igreja fiel a
Cristo nao pode aceitar é urna nova uniáo conjugal, pois esta
estaría em antítese com o sacramento da alianga (entre Cristo
e a Igreja), que é indissolúvel.

Quer isto dizer que os divorciados «re-casados» estáo


entregues «á ira de Deus» (cf. Rm 5,9) ? — De modo nenhum.
Oferecam ao Senhor seus anseios, suas expectativas, sua con-
fianga... O Pai do céu nao pode deixar de considerar o drama
em que vivera tantas pessoas desejosas de uniáo com Deus
dentro de urna vida a dois nao legitimada pelo sacramento.
A Igreja nao é licito ir além das facilidades que Cristo lhe
outorgou na dispensagáo das gragas da salvagáo, mas Ela
acompanha com oragóes, votos e solicitude ou seus filhos afas-
tados da Comunháo Eucarística; Ela continua sendo Máe,...
Máe cuja permanente aspiragáo é levar todos os homens a
Deus.

Neste mundo em que a familia está em crise, com detri


mento para toda a sociedade, a Igreja é chamada a ser o sal
da térra. Ela só o poderá ser se for fiel á verdade e á mise
ricordia. Ela deve viver a alianga «na justiga e no direito, na
ternura, na misericordia... e na fidelidade» (Os 2,21s). Com-
pete-lhe proclamar os dois valores simultáneamente: a miseri
cordia e a justiga ou o direito; a misericordia sem a justiga
trairia a verdade das coisas e levaria a urna cumplicidade
amorfa e desfibrada; a justiga sem a misericordia induziria ao
farisaísmo. O amor de Deus é misericordioso e também justo.
Ao lado de compreensáo profunda da situagáo dos pecadores
(cf. Le 7,36-51; Jo 7,53-8,11; 5,14...), Jesús deu provas de

— 202 —
DIVORCIADOS E COMUNHAO EUCARISTICA 27

exigencias para com os discípulos, exortando-os a urna radica-


lidade sadia, contraria a toda moleza ou covardia (cf. Mt 26,
24-26); no tocante ao matrimonio, propós um programa de
vida coerente e elevado a tal ponto que os discípulos exclama-
ram: «Se tal é a condigno do homem em relagáo á mulher,
nao vale a pena casar» (Mt 19,10).

A praxe pastoral desligada da doutrina nao seria autén


tica pastoral, pois, em vez de servir ao homem, o prejudicaria,
subtraindo-lhe a verdade do homem e a verdade de Deus.

As dificuldades do problema pastoral dos divorciados «re-


-casados» nao decorre de dureza disciplinar da Igreja. É, antes,
a contra-parte da grandeza do designio de Deus sobre o casa
mento. Por isto importa nao considerar o matrimonio cristáo
apenas em seus casos de fracasso; estes pedem atengáo espe
cial, sem dúvida, mas, mais aínda, solicitam dos pastores em-
penho ainda maior para revelar aos cristáos — noivos e casa
dos — quanto «este misterio é grande em vista de Cristo e da
Igreja» (Ef 5,32). Apregoem a uns e outros a dignidade da
vida conjugal e de seus apelos, a fim de evitar que se multi
pliquen! os casos de fracasso.

3. Urna ob¡e;ao

Nao raro se ouve dizer que a Igreja aplica dois pesos e


duas medidas, nao permitindo aos divorciados novas nupcias,
mas abengoando o casamento de sacerdotes que Ela dispensa
do celibato. — Que pensar a respeito?

— É preciso lembrar que o sacramento do matrimonio é,


por sua própria Índole, indissolúvel; a indissolubilidade nao
depende de um estatuto da Igreja, mas de urna disposigáo do
próprio Cristo, que é certamente intocável (cf. Mt 5,32; 19,4-9;
Me 10,5-12; Le 16,18; ICor 7,10s.39). Ao invés, o celibato
sacerdotal decorre de urna determinagáo da Igreja, determi-
nacáo da qual a Igreja pode dispensar desde que haja razóes
muito ponderosas para tanto. Por si o sacramento da Ordem
nao excluí o do matrimonio; em conseqüéncia, na Igreja Orien
tal os sacerdotes sao casados (casados antes de receber a orde-
nagáo; nunca se podem casar depois de ordenados); no Oriente
cristáo a Tradigáo do celibato sacerdotal nao chegou a ser
transformada em lei da Igrpeja, como foi no Ocidente. Por
isto a Igreja julga estar em seu poder desvincular do celibato
sacerdotes infelizes em sua vocagáo, ao passo que nao lhe toca

— 203 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

a faculdade de dissolver nupcias válidas contraídas em Cristo.


Note-se, alias, que, se na década de 70 houve número cons
picuo de dispensas do celibato sacerdotal, estas, sob Joáo
Paulo n, se tém rarefeito ao extremo.

Dónde se vé nao ser fundamentada a afirmacjio de que


a Igreja é arbitraria na concessáo de suas dispensas, favore-
cendo aos clérigos e exigindo mais dos leigos casados.
A propósito ver CHRISTUS n<? 120, octobre 1983: "Les Divorcés
Remariés".

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QUER ÉPOCA DO ANO. O CURSISTA RECEBERÁ LI
CÓES ACOMPANHADAS DE QUESTIONARIO ATINENTE
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QUESTOES E ENVIARÁ AS RESPOSTAS A ESCOLA. ESTA
AS DEVOLVERÁ CORRIGIDAS, COM NOVO BLOCO DE
LICÓES. SE, AO FIM DAS TRES PRIMEIRAS ETAPAS,
OBTIVER 75% DE ACERTOS, RECEBERÁ O CERTIFICADO
DA ESCOLA «MATER ECCLESIAE».
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INDICACÁO DO NOME E DO ENDERECO DO CURSISTA
E O PAGAMENTO DE CR$ 1.000,00 PELA PRIMEIRA
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DWULGACÁO DESTA INICIATIVA PASTORAL.

— 204 _
Dois livros em voga:

"Aborto..."

Em síntese: Dois Mvros sobre o aborto, oriundos de grupos feministas,


sao levados em consideragáo. Apregoam o direito da mulher sobre o seu
corpo, de tal modo que Ihe seja facultado abortar quando ela o julgue
oportuno. A mulher é tida como vítima da sociedade machista e dominadora,
estimulada pelas normas da Igreja.

Observa-se que á mulher compete realmente o direito sobre o seu


corpo em conformídade com as leis da natureza. Acontece, porém, que o
feto nao é "minúsculo pedazo de tecido do útero"; nSo é parte do corpo da
gestante, mas é um novo ser humano em formagSo; desde a fecundacSo do
óvulo pelo espermatozoide, tem-se urna realidade que tende por si a evoluir
no sentido de urna crianca. Por conseguinte, a eliminacáo do feto é
homicidio.

A Igreja nSo é antlfeminisla; ao contrario, o estudo da documentado


deixada pelos medievais póe em relevo o papel importante desempenhado
pela mulher na vida civil e religiosa da Idade Media; a restauracáo do Direito
Romano no século XVI, Direito do paterfamilias, contribuiu para que a mulher
perdesse muito do relevo que a fé crista Ihe havia anteriormente
comunicado.

O argumento segundo o qual o aborto deve ser legalizado para que


a mulher nSo seja tfio maltratada pelas vías clandestinas do abortamento,
é ineficiente. O llvro "Bebés para queimar" de Litchfield e Kentish evi
dencia como a "industria do aborto oficializado" na Inglaterra é capaz de
vilipendiar e degradar a mulher e seu filho; exploradas pelos médicos e
pelas clínicas, nao poucas mulheres, ao abortar, estao contrlbuindo para
alimentar o fabrico de sabonetes e cosméticos, pois há médicos que tem
contrato com fábricas inglesas para aproveitar a gordura animal das crlancas
extraídas. Ademáis nao é a freqüéncia de um comportamento que Ihe con-
fere legitimidade; a verdade e o bem nao dependen) do número de seus
adeptos.

Os males do abortamento contemporáneo so encontrarfio o adequado


remedio se a sociedade se livrar da onda de hedonismo que a domina, e se
dispuser a estimar os valores da autodisciplina e da renuncia para que
possa haver continencia periódica e respeito á natureza.

— 205 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

O aborto continua na ordem do día, pois se verifica no


Brasil um movimento forte que visa á sua ampia legalizagáo.
Em conseqüéncia, a bibliografía sobre o assunto tem-se avo-
lumado, podendo-se encontrar em discussáo a variedade dos
argumentos aduzidos em prol ou em contrario do abortamento.
Dessa produgáo bibliográfica salientaremos, a seguir, dois li
vros, procedentes de grupos feministas favoráveis á liberaliza-
gáo da lei: o primeiro deve-se a Elizabeth Marie, Claire Mo-
riarty, Caroline Lund, Evelyn Reed, Linda Jenness e Nancy
Brown, tendo por título «Aborto. Um Direito da Mulher sobre
seu Próprio Coa-po», Proposta Editorial Ltda. (Sao Paulo,
SP);1; o segundo se deve a Frente de Mulheres Feministas,
com o título «O que é o Aborto», Cortez Editora (Sao Paulo,
SP) 2. O primeiro destes livros resulta, em parte, da tradugáo
de artigos escritos em inglés nos Estados Unidos, ao passo que
o outro é de origem estritamente brasileira.

Ambas estas obras reconhecem que a Igreja Católica é


a mais fiel defensora da vida inocente, de modo a se opor a
qualquer tipo de abortamento. Infelizmente, porém, atribuem
á Igreja posicóes que Ela mesma nao propugna; sao posicdes
deformadas, que fácilmente podem ser reduzidas ao ridículo,
e que ficam longe do modo de pensar da Igreja, como se verá
adiante. Ademáis nota-se que os dois livros afirmam sem com-
provar; as teses tidas como próprias da Igreja sao apresenta-
das sem documentagáo ou sem citagáo de fontes, ou de ma-
neira superficial. Este procedimento Ihes tira muito do seu
valor científico. Verdade é que Aborto n, as pp. 71s, cita
alguma bibliografía, na qual, porém, nenhum documentado
católico se encontra. Além disto, lamentamos os erros de sin-
taxe e de composigáo gráfica que frequentemente ocorrem em
ambos os livros, especialmente em Aborto I.

As duas obras sugerem comentarios, que seráo tecidos a


seguir, com serenidade e objetividade.

1. O direito da mulher

1. Nao há dúvida de que a gestacáo e o parto pesam


sobre a mulher, déla exigindo sacrificio e renuncia; o belo
titulo de mate tem profundas conseqüéncias para o comporta-

1 140 X 210 mm, 78 pp. — CHagfio abreviada: Aborto I.


3 140 x 210 mm, 72 pp. — CltafSo abreviada: Aborto II.

— 206 —
ABORTO 31

mentó da mulher. — Este fato leva nao poucas mulheres a


afirmar que a matemidade há de ser uma opgáo livre, e nao
se pode tornar uma imposigáo,... imposigáo dos homens e da
sociedade á mulher. Daí o direito de eliminar o feto indese-
jado que se encontré no seio de sua máe; é direito da mulher
sobre o seu próprio corpo.

2. A propósito observamos:

— É certo que a maternidade deve ser abragada com


espontaneidade pela mulher; nao pode ser imposta. É certo
também que a mulher tem o direito de dispor do seu próprio
corpo de acordó com as leis da natureza.

— Todavia esses direitos da mulher nao incluem o de


extirpar o feto ainda inviável. Este nao é parte do corpo da
mulher; nao é «minúsculo pedago de tecido do útero» (Aborto I,
p. 50), nem é um tumor ou tima verruga indesejável, mas é
um novo ser humano, que resulta da fusáo de duas sementes
vitáis. O feto supóe o espermatozoide e o óvulo, mas nao é
paste do pai ou da máe; é, sim, um terceiro ser, que tem seu
desenvolvimento próprio, merecedor de respeito, de mais a
mais que só veio 'á existencia mediante a colaboragáo de sua
genitora.

Por conseguinte, faz-se mister considerar nao apenas os


interesses da mulher, que se vé molestada por uma gravidez
indesejada, mas também os da crianga. Tais direitos sao táo
respeitáveis quanto os de qualquer ser humano. Se nao se
acata o direito de viver que toca á crianga inocente, nao haverá
por que respeitar o de outros seres tidos nao raro como inde-
sejáveis, quais sao os doentes crónicos, os paralíticos, os an-
ciáos, ou mesmo... os representantes de outra raga ou nagáo.
O principio que permite matar uma crianga porque incomoda,
é o mesmo exatamente que há de autorizar a morte de qual
quer outro ser humano considerado indesejável. Em todos
esses casos é a pessoa humana como tal que está em jogo.

Dirá alguém: mas há quem afirme que o feto só é pessoa


humana depois que nasce e entra em relagáo com o mundo
ambiente ou... só depois que tem consciéncia de si. Quem
pode garantir que, logo depois da concepgáo no seio materno,
já se tem um verdadeiro ser humano? — É nesta dúvida que
geralmente os autores se apoiam para tentar legitimar a prá-
tica do aborto.

— 207 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

— Na realidade, é impossível precisar o momento em que


o feto comee,a a ser pessoa; os antigos e medievais julgavam
que, só quarenta dias depois de concebido, comec.ava a existir
a alma intelectiva no feto masculino; para o feminino, postu-
lavam oitenta dias1. Hoje tal teoría aristotélico-tomista está
posta de lado. Verifica-se, porém, que nao é necessário chegar
a grande precisáo para se avaliar a imoralidade do aborto.
Pode-se afirmar que o feto, em qualquer hipótese, é sempre
um ser humano em formacjío; nele se eneontra tudo que cons
tituirá a futura personalidade; basta deixar que se desenvolva
para que o potencial do feto atinja a sua plena maturidade;
por conseguinte, quem elimina um feto, mata um ser humano
em desabrochamento.

A obra Aborto n, pp. 24s, menciona a propósito a teoría


do hilemorfismo (hyle = materia; morphé = forma, em grego).
Esta, própria da escola de Aristóteles e da Filosofía Escolás
tica2, ensina que em todo ser corpóreo há sempre duas par
tes: materia (pura potencia) e forma (ato, que especifica tal
potencia). A materia existe para a forma, e vice-versa. Ora
no ser humano a materia é a sementé vital que procede dos
genitores; a forma é a alma humana espiritual, intelectiva, que
«informa» ou especifica tal materia, dando-lhe as suas notas
pessoais. Pois bem; a Filosofía Escolástica ensina que, logo que
naja a fecundagáo do óvulo pelo espermatozoide, Deus cria e
infunde uma alma espiritual (formal) que há de ser o principio
vital próprio desse novo ser.

4. A propósito, porém, há quem observe: a crianga, no


seio materno, é um «ilustre desconhecido», ao passo que a
máe é pessoa portadora de missáo e responsabilidades neste
mundo. Por conseguinte, sempre que haja conflito entre a
sobrevivencia da máe e a do filho, é a crianza que deve ceder
para que o lar nao fique sem esposa e máe. Ora a Igreja diz
o contrario; Ela prefere salvar a crianga e perder a máe!

Esta objecáo exige consideragáo mais detida; donde um


novo subtitulo:

1 No livro Aborto I, p. 47. reglstra-se um equívoco: em vez de quarenta e


oitenta, lé-se 14 e 18 (fourteen e eighteen, em lugar de fourthy e elghty).

2 Filosofía Escolástica é a dos grandes pensadores medievais, como


S. Alberto Magno, S. Tomás de Aqulno, Duns Scoto. Tem seus represen
tantes em nosso século na figura de Jacques Maritain, na de Régis
Jollvet, na de Etienne Gilson, na de Martín Qrabmann...

— 208 —
ABORTO 33

2. A Igreja é contra a mae. . . ?

Os dois livros em pauta, como, alias, outros escritos, afir-


mam insistentemente que a Igreja é antifeminista; por isto
ela propugna a morte da máe para preservar a vida do filho.
Cf. Aborto I, pp. 20. 26.36.52.77.

O livro Aborto II julga explicar essa pretensa posigáo da


Igreja mediante a seguinte alegagáo: para dar preferencia á
vida da crianga, «a Igreja se baseia em conceitos teológicos,
dos quais o mais importante é o pecado original, que consi
dera a falta de Adáo e Eva como urna mácula hereditaria,
que só pode ser resgatada através do batismo. A máe bati-
zada teria condig5es de ser salva, mas isso jamáis poderla
ocorrer com um feto e, desse ponto de vista, o aborto seria
ainda pior do que o assassinato, porque privaría urna alma da
salvagáo eterna» (p. 21s).

A proposito duas observagóes sejam formuladas:

1) A Igreja nao é mais favorável á vida da crianga do


que a vida da máe. Nem a Igreja é antifeminista, como se
dirá mais explícitamente adiante. A posigáo da Igreja, diante
do perigo de vida para a máe e o filho, é simplesmente a da
medicina: nao é lícito matar. O médico emite o juramento de
salvar a vida, e nao de destruir. Por isto, o médico atenderá
primeiramente a quem mais precise de ajuda (máe ou crianga);
fará tudo para salvar urna e outra comegando por quem mais
necessite; se vier a falecer alguma das duas, seja independen-
temente da vontade do médico.

2) A razáo aduzida, segundo a qual a necessidade de


batizar a crianga leva a preferir o filho, é falsa. A crianga
pode atingir a salvagáo eterna mesmo sem o batismo; Deus
tem recursos que ultrapassam o ámbito dos sacramentos que
Ele entregou aos homens. Aos cristáos compete, sim, zelar
pelo batismo dos pequeninos, nao, porém, a ponto de provocar
a morte da máe inocente. Cf. PR 140/1971, pp. 347-356, onde
é estudada a temática do limbo.

— 209 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

3. A. Igreja é antifeminista?

A Igreja foi, dentro dos limites da cultura de cada época,


arauto da dignidade da mulher. Já o Evangelho segundo S. Lu
cas atribui a mulher um papel de relevo que excede os hábitos
da cultura greco-romana: tenham-se em vista as figuras de
María SS., Isabel, Ana profetiza, Maria Madalena, Marta e
María, as mulheres que acompanhavam Jesús em suas viagens
apostólicas (cf. Le 8,1-3).

A consciéncia do valor da mulher, dignificada pelo Cris


tianismo, se refletiu em traeos da civilizaeáo medieval, que
infelizmente é mal conhecida ou é desfigurada por preconcei-
tos. A escritora Régine Pernoud publicou o livro «Idade Me
dia: o que nao nos ensinaram», em que apresenta tragos do
respeito e do apreco que na Idade Media eram tributados á
mulher. Assim, por exemplo, a historiadora menciona os votos
das mulheres:

«Quando os textos permitem diferenciar a origem dos votos,


percebe-se que, em certas regioes, táo diferentes como as comunas
nearnenses, certas cidades de Champagne ou algumas do Leste como
Pont-á-Mousson, ou aínda na Touraine, por ocasiao dos Estados-Gerais
de 1308, as mulheres sao explícitamente citadas entre os votantes, sem
que isto seja «presentado como uso particular ou local» (p. 87).

Outros tópicos da projegáo da mulher na Idade Media sao


assim registrados por R. Pernoud:

«Ñas atas de notarios é muito freqüente ver urna mulher casada


agir por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou urna venda, e isto
sem ser obrigada a «presentar uma autorizacáo do marido. Enfim,
os registros de imposto*.. . desde que foram conservados, como é o
caso de Paris no fim do século XIII, mostram multidao de mulheres
exercendo funcoes: professora, médica, boticaria, estucadora, tintureira,
copista, miniaturista, encadernadora, etc.» (p. 87s).

No século XVI a restauragáo do Direito Romano, que era


prevalentemente o do paterfamilias ou do pai de familia, con-
tribuiu poderosamente para afastar a mulher de muitas fun-
góes públicas e confiná-la aos cuidados domésticos e á educa-
gáo dos filhos. Se os séculos modernos se ressentiram da ausen
cia da mulher em público, isto se deve, em grande parte, a
influencia do Direito Romano, que era pré-cristáo. Na obra

— 210 —
ABORTO 35

citada de Régine Pernoud, pp. 77-89, encontram-se outros


exemplos do relevo atribuido á muiher na Idade Media, apesar
dos slogans disseminados em contrario.

O feminismo que em nossos dias ocorre, tem suas razóes


e sua oportunidade. Todavía é de notar que ele corre o risco
de levar a muiher a nova forma de subordinacáo ao homem;
com efeito, a muiher, esquecendo o que lhe é próprio, tem
muitas vezes por ideal imitar o homem ou seguir indiscrimi
nadamente o modelo masculino — o que equivale, sem dúvida,
á deterioracáo e ao apagamento da dignidade específica da
muiher.

Precisamente a dignidade da muiher, segundo o movi-


mento feminista, parece exigir hoje em día a ampia legalizagáo
do aborto, pois este é praticado em larga escala e de maneira
clandestina, maneira esta que sujeita a muiher a graves humi-
lhacóes e ao risco de vida. — Consideremos tal argumento.

4. Legalizar o fato real?

1. As autoras dos livros em foco citam o elevado número


de casos de aborto ocorrentes no Brasil: mais de tres por mi
nuto, em 1970; 3,4 milhóes em 1979! Cf. Aborto I, p. 17. As
condicdes pouco higiénicas e, por vezes, multo dolorosas em
que ocorrem tais intervencóes, parecem exigir a oficializacáo e
os subsidios do Governo para o abortamento.

— Em tal caso, porém, as leis estariam dando cobertura


a atitudes que, por si mesmas, sao más. O aborto é sempre
um homicidio, e... homicidio cometido contra um inocente
indefeso. O fato de que a crianga é desconhecida, nao lhe tira
o direito a vida.

Quem quisesse legalizar o aborto em vista da freqüéncia


com que ocorre, estaría colocando o fundamento para se lega-
lizarem outrossim os roubos, assaltos e homicidios, porque tam-
bém estes sao muito freqüentes. Talvez a hediondez do aborto
espante menos porque é cometido sem resistencia da parte da
vítima. Reconheca-se, porém, que nao é a freqüéncia nem o
número de adeptos que confere veracidade a determinado com-
portamento. A verdade e o bem subsistem independentemente
de quantos os professam.

— 211 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

Alias, deve-se acrescentar que, mesmo nos países em que o


aborto é legalizado, a mulher e a crianga sofrem duros vexa-
mes e humilhagóes em virtude da «industria do aborto», que
entáo se pode instalar. Tenha-se em vista o livro dos dois jor-
nalistas Michael Litchfield e Suzan Kentish intitulado «Bebés
para queimar» (Ed. Paulinas, 1977). Apresentando-se como
casal de noivos ou esposos em diversas clínicas da Inglaterra,
os dois jornalistas puderam experimentar o funcionamento efi
ciente dessa industria- entre outras experiencias, citam o fato
de que, tendo ele dado sua urina para exame de gravidez, o
laudo do laboratorio o considerou «grávido» (!); os mesmos
foram postes em contato com médicos e fábricas da Inglaterra
que tinham contrato entre si, a fim de aproveitar as crianzas
abortadas no fabrico de sabonetes e cosméticos sob a alega-
gáo de que a gordura animal é mais apropriada a tal obje
tivo do que a gordura vegetal. Outros muitos episodios do
livro somam-se a urna serie de fatos comprovados para evi
denciar que nao é a legalizacáo do aborto que «emancipa» a
mulher e lhe permite ser mais digna e senhora. Se a mulher
nao se interessa pela dignidade do seu procedimento de cada
dia, ela será sempre vitima da exploragáo alheia (alias, diga-se
o mesmo com relagáo ao homem).

2. O que se deve propor como remedio á prática do


aborto clandestino e aos males físicos e moráis daí decorrentes,
nao é a legalizacáo do erro, mas é a procura das causas que
geram tal situagáo: a essas causas dar-se-á o remedio conve
niente, a fim de que nao levem a efeitos degenerescentes.

Ora entre tais causas sobressai, sem dúvida, a prática


indiscriminada e abusiva do sexo, incitada pelo erotismo e o
hedonismo que nao raro inspiram a sociedade contemporánea.
A obsessáo sexual faz que muitas pessoas, nao casadas e casa
das, já nao compreendam o sentido do autodominio e da con
tinencia periódica; pelo fato de nao o compreenderem, nao se
véem em condigóes de abster-se da genitalidade, mas, ao con
trario, identificam amor e vida sexual. Freqüentemente, os
meios de comunicacáo social criam a obsessiva necessidade do
sexo; o grande público, destituido de senso crítico, absorve os
modelos que lhe sao assim oferecidos como se fossem as últi
mas expressóes da civilizagáo moderna (quando, na verdade,
sao sugeridos únicamente pela ansia de captar EBOPE e ga-
nhar dinheiro para a empresa produtora).

— 212 —
ABORTO 37

A Igreja nao é contraria ao prazer, nem é infensa ao


corpo humano, como se valorizasse apenas a alma. Todavía a
Igreja eré que o prazer nao pode ser o criterio supremo do
agir humano; o prazer, especialmente na vida sexual, é o con
comitante de urna fungáo cuja finalidade é a íntima doa§áo
do homem e da mulher; esta mutua doacáo tende, por sua
Índole natural, a se concretizar no fruto do amor, que é a
crianga,... crianga esta que, urna vez concebida, exige urna
familia e um lar para que se possa desabrochar devidamente
e atingir o grau de personalidade que lhe é peculiar.

A abstinencia voluntaria, longe de exprimir masoquismo


ou dualismo, é garantía de que o ser humano faz uso inteli
gente da sua sexualidade, á diferenga dos animáis que se dáo
ao sexo instintivamente e sem ideal.

A Igreja também nao é «natalista» ou obcecadamente


favorável a familias de prole numerosa. Ao contrario, a Mo
ral Católica apregoa a «paternidade responsável» ou o plane-
jamento familiar, a ser executado com respeito á natureza ou
mediante a observancia dos ciclos naturais da mulher. A pro
pósito causa estranheza que os dois livros em foco só men-
cionem o método «da tabelinha» ou de Ogino-Knaus, que é
falho; silenciam, por completo, o método Billings, cuja efica
cia é quase integral e que neste particular se equipara á pilula,
sem as contra-indicagóes e as despesas financeiras que acom-
panham o uso da pilula.

Em conclusáo, o remedio aos males do engravidamento


nao desejado nao é a eliminacáo do fruto da sexualidade, mas,
em grande parte, será a moderacáo no uso da genitalidade,
de tal modo que nao haja tantas indevidas decorréncias da
mesma. Esta proposta poderá parecer utópica ou defasada,
mas, na verdade, é a única que atende aos verdadeiros inte-
resses da pessoa humana, evitando o seu aviltamento.

5. Quancío o aborto se faz desecado?

Segundo os deprimentes apresentados pelos livros em


pauta, o aborto é indicado todas as vezes que a mulher se
considere prejudicada física.psíquica ou profissionalmente pela
gravidez; ela estaña habilitada a usar do «direito sobre o seu
corpo» de acordó com seus criterios. Há, porém, dois casos

— 213 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

mais prementes, que a própria legislaeáo brasileira reconhece


como ocasióes de aborto legitimo; o de indicagóes terapéuticas
e o de estupro.

1. Sobre o chamado «aborto terapéutico», pode-se citar


o livro «Aborto. O Direáto á Vida» dos Drs. Joáo Evangelista
dos Santos Alves, Dernival da Silva Brandáo, Carlos Tortelli
Rodrigues Costa e Waldenir de Braganga. Estes médicos con-
sultaram colegas especialistas ñas diversas molestias tidas
geralmente como exigitivas de aborto e publicaram os respec
tivos depoimentos, que incutem nao haver indicagóes terapéu
ticas para o aborto na atual fase de avango da medicina. Nem
mesmo a rubéola, que é freqüentemente considerada como fatí
dica para a saúde do nascituro, pode ser tida como ocasiáo
de aborto obrigatório para o médico. Eis os testemunhos de
dois médicos consultados:

Dr. Pierre Maroteaux: «Quando a rubéola alaca a mae no


segundo mes de gravidez, no caso mais vulnerável para a crianca,
somente 20% dos fetos sao portadores de má formacao. O risco
diminuí gradativamente, tornondo-se nulo depois do quarto mes»
<p. 1121.

Dr Rendu: «No caso de maes que tiveram rubéola, será necesiá-


rio matar todas as enancas quando urna boa parte délas é normal?
Urna pesquisa prospectiva, conduzida desde 1955 no Laboratorio de
Seroprofilaxia no Hospital das Criancas de París, sobre as mulheres
grávidas com rubéola tendo nessa ocasiSo tomado urna dose superior
a 10 mi de gamaglobulinas plasmáticas humanas 'standard' (a 16,5%),
foram os seguintes os resultados globais:

— abortos espontáneos: 12ó (4,7%);


— ttatimortos e mortos ao nascen 47 (1,8%);
— anormais: 35 (1,3%);
— normáis: 2.453 (92,2%).

Sería necessário matar 2.488 criancas para evitar o nascimento


de 35 anormais?» (p. 112s).

2. Quanto ao aborto em caso de estupro, também é ile


gítimo, pois a crianga inocente no seio materno nao está obri-
gada a sofrer as conseqüéncias da violencia sofrida por sua
genitora.

O14
ABORTO 39

Desenvolvendo tal argumentagáo, diríamos: um mal (o


aborto) nao corrige outro mal (a violencia e a desonra pade
cidas pela gestante). Será, preciso, antes, responder ao mal
com o bem, ou seja, procurando avivar na sociedade a cons-
ciéncia de que a raáe solteira tem o direito de dar á luz seu
filho, sem se ver obrigada ao traumatismo físico e psicológico
do abortamento. É para desejar que se criem instituicóes de
amparo á gestante solteira, em vez de induzi-Ia por pressáo
moral a expelir seu filho. Como se vé, requer-se profunda mu-
danca de mentalidade por parte das familias onde ocorra o
caso de urna máe solteira, a fim de que assumam as sortes da
gestante e de seu filho, em vez de rechacar a infeliz vitima
da violencia humana.

6. O principio da causa com duplo efeifo

1. Neste contexto, as obras em foco aluderh ao chamado


«aborto indireto», que, apesar da sua posigáo muito firme, a
Igreja Católica aceita (cf. Aborto n, pp. 50-52). Consiste em
extirpar, por exemplo, o útero grávido canceroso pelo fato de
estar canceroso (o cáncer exige a histerectomia), nao pe.lo
fato de estar grávido. A paciente nao aceitaría intervencáo
cirúrgica para extirpar o feto, se o útero nao estivesse afe-
tado por cáncer. Todavía, visto que á gravidez se associa o
cáncer, a paciente dispóe-se a tratar do cáncer mediante a
habitual intervengáo cirúrgica, tolerando que, em conseqüén-
cia, a crianga seja eliminada.

A aceitagáo deste procedimento baseia-se num principio


da Teología Moral que é dito «o principio da causa com duplo
efeito». Tal principio foi concebido independentemente dos
casos de gravidez e tem valor universal. Eis como pode ser
formulado:

É lícito colocar unía acao que tenha dois efeitos — um moral-


mente bom, e outro moralmenle mau — contanto .que

1) o efeito bom decorra diretamente dessa acao e seja como


tal intencionado pelo agente;

— 215 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

2} o efeito mau seja posterior ao efeito bom, e nao seja direta-


mente intencionado, mas apenas previsto e tolerado. Nao é lícito
cometer o mal para atingir o bem; o fim bom nao justifica os
meios maus;

3) o efeito bom se¡a mais vultoso do que o mau e compense


o mal tolerado;

4) nao haja outra via para obter o efeito bom intencionado.

Eis algumas aplicagóes de tal principio:

Uma senhora deseja participar da S. Missa em domingo.


Sabe, porém, que seu marido, por causa disto blasfemará con
tra Deus. É-lhe licito ir á Missa em tais circunstancias? — Sim,
porque o que ela tem em mira diretamente é louvável (a Eu
caristía); as blasfemias do marido nao sao por ela intencio
nadas, mas apenas toleradas.

Um médico é chamado a prestar seus servigos a uma pes-


soa realmente doente e impossibilitada de recorrer a outrem.
Sabe, porém, que a sua presenga junto a tal paciente, acarre-
tará o risco de adulterio. Ser-lhe-á lícito atender? — Sim;
contanto que tenha a intengáo de táo sdmente servir á paciente
e se acautele para nao permitir o desvio dessa reta intengáo.

Uma mulher grávida sofre de mal benigno e resolve tomar,


para combaté-lo, um remedio que pode provocar a interrupgáo
da gravidez. Ser-lhe-á lícito? — Nao, pois o efeito bom inten
cionado nao tem proporgáo (é exiguo demais) com a gravi-
dade do risco de abortar. Procure outro remedio, isento de
risco.

Suponha-se que tal mulher grávida corre perigo de vida


pelo fato mesmo de estar grávida. É-lhe lícito abortar? — Nao;
nao é licito recorrer a um mal para obter um bem.

Admita-se, porém, que tal mulher grávida corre perigo de


vida nao por estar grávida, mas por sofrer de cáncer locali
zado no útero. É-lhe lícito extirpar o útero? — Sim; porque,
assim como ela extirpa o útero, ela extirparía qualquer outro

— 216 —
ABORTO 41

órgáo canceroso; o que ela quer, nao é eliminar o feto, mas


curar-se do cáncer. A perda do feto é apenas a conseqüéncia
tolerada de urna agáo boa.

2. O principio da causa com duplo efeito explica tam-


bém por que é lícito extrair a trompa nos casos de gravidez
tubária ou ectópica. Em tais circunstancias, as vilosidades da
placenta, em vista de captar o sangue necessário á existencia
do feto, váo corroendo as paredes da trompa, tendendo a pro
vocar graves hemorragias e a ruptura da trompa, fatais para
a vida materna.

Diante dessa situagáo, a Moral católica recomenda o


seguinte:

Quando o médico verifica um caso de gravidez tubária,


tal que nao se preveja perigo próximo para a gestante, propor
cione a essa pessoa vigilancia médica sem intervengáo cirúr-
gica imediata, a fim de tentar, de um lado, salvar o feto e,
de outro lado, poder intervir imediatamente em caso de rup
tura da trompa, garantindo assim a preservagáo da gestante.

Caso, porém, o feto nao se aprésente viável, ou nao haja


possibilidade de colocar a máe sob inspegáo médica, é licita
a intervengáo cirúrgica: o operador poderá extrair a trompa
como extrai um órgáo doente, a fim de salvar a vida da pa
ciente. A intervengáo em tais casos nao visa diretamente á
eliminagáo do feto (como nos casos de aborto), mas visa a
remover um órgáo que, por estar mórbido, se tornou perni
cioso ou fatal. Nao há dúvida, tal órgáo é portador de um
feto que, em conseqüéncia da intervengáo, perecerá; a morte
do pequenino, porém, nao é o objetivo intencionado pelo cirur-
giáo, mas apenas efeito permitido ou tolerado. Equipara-se
assim o caso ao de um útero canceroso.

7. Reflexoes fináis

As ponderacóes até aqui propostas evidenciam que a Igreja,


ao defender a vida da crianga inocente no seio materno, nao
o faz por motivos apenas religiosos ou teológicos, nem está

— 217 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

sendo inspirada por mentalidade misógina ou prepotente1, mas


procede como porta-voz da própria dignidade humana e da leí
natural. Ela presta um ser-vigo á humanidade e, de modo espe
cial, á mulher, tocando francamente na raíz do problema, que
muitos hoje querem resolver suscitando outro problema ou legi
timando o infanticidio: para aliviar as tensóes e os fardos da
vida contemporánea, o aborto nao tem eficiencia alguma, mas
o que se requer é um novo escalonamento dos valores, de modo
que o prazer nao seja criterio supremo; substituam-se-lhe a dis
ciplina e.a renuncia na medida em que sejam necessárias para
que a pessoa conserve sua dignidade. Esta conversáo íntima é
talvez difícil, mas nao menos gratificante; é ela que propicia a
verdadeira emancipagáo interior e, conseqüentemente, favo
rece o respeito á pessoa humana. — Tal conversáo impóe-se
tanto ao homem quanto á mulher; aquele nao deve gozar de
«regalías» sexuais que a esta sejam recusadas, mas ambos háo
de procurar harmonizar seus instintos espontáneos com os mais
nobres ideáis concebidos pela inteligencia humana.

* É realmente estranha a afirmacao de Aborto I, p. 54:

"A proiblcSo do adulterio — sexo entre urna mulher casada e alguém


que nao seja seu marido, ou sexo entre um homem casado e alguém que
nSo seja sua mulher — comegou a existir com o desenvolvimiento da socie-
dade baseada na propriedade. As mulheres foram transformadas em esposas,
bem como em urna propriedade do homem, igual que a sua térra. A térra
produz comida; mulheres produzem filhos — herdeiros masculinos para a
propriedade ou mais fémeas reprodutoras. A familia, tal como a conhecemos,
corneja aqui — e nao no Paraíso.

A instituicüo da familia investki os homens para dar continuidade á


'sua' propriedade, reconhecendo herdeiros que Irte pertencem" (pp. 54s).

Na verdade, a familia é urna instltuicSo independente de qualquer tipo


de civilizacao. A escola antropológica de Viena, chefiada por Willhelm
Schmidt, Martín Gusinde, Koppers, Schebesta..., averigüou que, quanto
mais primitiva é a cultura de urna tribo, tanto mais ela tende a apresentar
o modelo do casamento monogámico. Cf. PR 19/1959, pp. 4s.

— 218 —
Intuicáo corajosa:

"A Pobreza, Riqueza dos Poyos"


por Albert Tévoédjré

Em sintese: O Prof. Albert Tévoédjré propSe aos individuos, aos res-


ponsáveis por cada Governo e á coletlvidade dos povos um ideal, que é
fruto da Intulcao e da coragem, a saber: nem miseria, nem opulencia, mas
a pobreza, entendida no sentido de frugalidade ou de posse do necessário
com exclusáo do supérfluo. O autor aponta numerosos males decorrentes da
corrida ao dinheiro e ao poder: o homem é sacrificado a estes (dolos; os
armamentos sobrepujam a educagfio; a coblca e a corrupcáo dos governantes
é excitada, e excita a ganancia dos cldadáos.

Em vista disto, o autor propSe "reinventar a economía", tornando-a mais


voitada para a agricultura; preconiza a pobreza (slmplicldade e sobrledade)
no poder ou nos governantes, como também apregoa a solldarledade entre
os povos, a flm de que Juntos possam desenvolver o mesmo ideal de econo
mía e adminlstracáo.

A tese do autor é digna de toda consideracSo; bem corresponde aos


principios do Evangelho (cf. Mt 5,3; Le 6,20). Pergunta-se, porém: é
exeqüivel? Os motivos para duvidar derivam-se da consciéncla de que o
pecado (egoísmo, soberba, vaidade, cobica desordenada...) até o flm dos
tempos ameacará os mals nobres projetos do ser humano. — É mals fácil
um individuo ou urna pequeña comunldade realizar o ideal da frugalidade do
que urna nacSo inteira ou a colelivldade dos povos.

Como quer que seja, é para desejar que a proposta do Prof. Tévoédjré
encontré ampia ressonancla em cada leltor e em cada país, a fim de que,
após o devldo entendimento, os cldadSos, os Governos e as naedes se dls-
ponham a renunciar & opulencia e a socorrer eficazmente aos mals
necessltados.

Oomentárlo: Já em segunda edicáo foi publicado o li-


vro do professor Albert Tévoédjré com o titulo desafiador:
«A pobreza, riqueza das nacoes» \

1 Editora Cldade Nova (Sfio Paulo, SP) em co-edlefio com a Editora


Vozea, Petrópolto, 1982, 136 x 210 mm, 205 pp.

— 219 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

O autor nasceu em 1929, na República do Bénin (África),


de lingua francesa. Estudou em Dakar e ñas Universidades de
Tolosa e Friburgo. Ensinou no Senegal, na Franga e no Bénin.
Conhece pessoalmente a maioria dos países do Terceiro Mundo.
Entre as suas fungóes mais recentes estáo as de Diretor do
Instituto Internacional de Estudos Sociais e Diretor Geral do
Bureau Internacional do Trabalho em Genebra.

O livro é realmente interessante e interpelados Escrito


de maneira agradável, referindo muitos exemplos e citando
numerosos testemunhos, merece a atengáo dos estudiosos. Eis
por que Ihe abrimos lugar em nossas páginas.

1. «Pobrera, riqueza...»

O livro consta de cinco capítulos, harmoniosamente con


catenados entre si. Os dois primeiros capítulos («Desonrar o
dinheiro» e «De cabega para baixo ou o absurdo do mime
tismo») expóem o problema em foco, ao passo que os tres últi
mos abrem pistas de solugáo («Reinventar a economía?», « 'Go-
vernador do orvalho' ou a pobreza no poder», «Por um con
trato de solidariedade»).

1.1. O problema

O problema é vivamente esbogado pelo autor.

Este mostra que a grandeza e a felicidade do homem nao


consistem na posse de vultosas riquezas materiais. Ao contra
rio, «quanto mais a riqueza de um país parece aumentar, tanto
mais a sua miseria humana adquire realidade... Porque é a
qualidade de vida de cada um e de todos juntos que tende a
desaparecer» (p. 31).

Com efeito, «numerosos estudos mostram com clareza que,


se as sociedades industriáis ocidentais dispóem ilimitadamente
de cosméticos, de fantasiosos artefatos de materia plástica, de
elegantes automóveis, em contraposicáo os custos ecológicos,
sociais e humanos conseqüentes confundem a inteligencia, quer
se trate da poluigáo do ar e da agua, da degradagáo das cida-
des e da superpopulagáo urbana, quer se trate do esfacela-
mento das estruturas sociais, da toxicomanía ou da violencia»
(p. 29).

— 220 _
«POBREZA, RIQUEZA...» 15

A grande producáo industrial gera novas o novas necessida


des ñas populagóes dos países desenvolvidos, necessidades supér-
fluas, que vém a ser preenchidas mediante recursos também
supérfluos. Tenha-se em vista a seguinte observagáo:

«A industria farmacéutica jamáis esteve too próspera. Um livro


bastante inocuo que indicava a composicao dos remedios e a sua
utilizacáo, provocou um escándalo entre os farmacéuticos de certo país
europeu, porque o autor afirmava que a maior parte dos produtos
eram 'substituíveís' e de escassa utilidade. O cientificismo da instituicao
médica nao exerce menos influencia sobre o espirito do que sobre o
corpo dos doentes: urna péssima pesquisa demonstrou que, entre 100
pessoas que se curavam por tratamento baseado em remedios, setenta
haviam tomado, sem saber, 'placebos'1. Estas substancias, sem o
menor valor curativo, tiveram todavía urna eficacia surpreendente.
Novo exemplo de disperdício e de fraude, como observa com muita
exatidáo Orío Giarini» {p. 32).

A corrida á riqueza gera a violencia, a guerra ou o menos-


prezo da pessoa humana, em favor da possc de dinheiro.
«As sociedades ricas sao assim levadas a erigir-se em sociedades
de poderoso poder policial. Elas condividem este destino com aquelas
sociedades que deificaram o poder e temem perdé-lo» (p. 36).
«Justamente após ter voltado da América, Myriam Makeba dedicou
urna cancáo áquela viúva que continuava a doñear entre os bracos
de seo amante, malgrado o anuncio do falecimento de seu desgrasado
esposo. Ela só se acorda de seus 'sonhos' quando vem a saber que
o testamento do defunto estova para ser aberto» (p. 38).

0 autor nota ainda o seguinte:

«Nño nos honra absolutamente o fato de que, segundo urna


denuncia de Sembéne Usman, milhares de homens nao possam sequer
dispor de um recipiente com filtro para agua de beber, enquanto
alguns enchem de agua mineral, importada da Europa, o radiador de
seu automóvel, com o falso pretexto de monté-lo limpo. O dinheiro,
que se tornou nosso Patr5o, nos dita todas as nossas extravagancias,
todas as nossas fraquezas, todos os nossos abusos» (p. 41).

1 Placebo, forma verbal latina substantivada que quer dizer "agradare!",


é a substancia Inerte dada a um enfermo ou pretensamente e"'%m° *°ame" °
Dará Ihe agradar. — Embora tal substancia nao possa por si curar, ela
tem efectos terapéuticos benéficos, pols sugestiona positivamente o ánimo
do paciente. (Nota da Redafáo).

— 221 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

2. Além de registrar os desmandos do consumismo, o


autor chama a atengáo para o espirito de mimetismo que se
apodera dos pequeños desejosos de reproduzir o estilo de vida
dos magnatas. Assim é convencional que mesmo nos países
jovens em desenvolvimento os respectivos governantes devem
levar um tipo de vida europeu ou norte-americano.

«Todos aqueles que desempenham missoes oficiáis em nome de


algum Governo, ... sabem como é .generoso o acolhimento na maioria
dos países em vías de desenvolvimento que eles visitam. Naturalmente
também eu fico admirado com tanta generosidade. Todavía ás vezes
sinto-me realmente embarazado e confuso quando a generosidade do
acolhimento assume o aspecto de urna ostentacao e de um esnobismo
fora de lugar. Assim ¡á nos acostumamos a ver em certos países trapi
cáis nao apenas pessoas afortunadas, mas também outras de condicóes
apenas medias, oferecerem champanhe gelado, importado especial
mente da Etiopia em aviao, enquanto urna xícara de café, um copo de
suco de laranja ou de abacaxi satisfaría muito bem o visitante» (p. 42).

Referindo-se aos povos recém-emancipados do colonia


lismo, acrescenta o Prof. Albert Tévoédjré: ,

«Esta é a armadilha em que caímos. Ficamos impressionados por


aqueles que nos governaram. As comodidades que eles se permitiam
em todos os campos, acabaram por nos seduzir... Além do mais, é
formalmente por 'transferencia de competencias' que foram proclama
das certas independencias. Transferencia de competencias ou, mais
precisamente, transferencia de formas de poder, leva a pensar em
'transferencia de atítudes e de comportamentos'. O mimetismo esten-
deu-se assim ás estruturas e aos esquemas da organizacáo política
e social» (p. 43). ,

Muitos outros exemplos de cupidez de poder e de mime


tismo sao mencionadas pelo autor... Interessa-nos agora
considerar as

1.2. Pistas de solucóo

Urna vez exposto o problema, o Prof. Tévoédjré passa a


estudar as linhas de solugáo.

1.2.1. Pobreza, sinr; miseria, nao

Os males provocados pela opulencia e a corrida ao dinheiro


levam o Prof. Tévoédjré a preconizar a pobreza como padráo
de vida tanto para os individuos quanto para as nac.5es.

— 222 —
«POBREZA, RIQUEZA...» 47

Pobreza, no caso, nao é miseria ou condigáo infra-humana


de vida; esta também acarreta graves males para a humani-
dade e há de ser combatida. Positivamente a pobreza é um
valor, assim caracterizado pela própria Biblia:

«Nao me des nem indigencia nem riqueza; dá-me de comer o


alimento necessário, por medo de que, saciado, nao te renegué e diga:
'Quem é Javé?' Ou entao na miseria nao roube e profane o nome de
Deus» (Pr 30,8s; cf. p. 29).

Tévoédjré ainda explícita o seu pensamento citando


Proudhon:

«A pobreza é decente — as suas roupas nao estao cheias de


buracos como o manto do cínico, a sua casa é limpa, salubre e
segura... Nao é pálida, nem faminta. Como os companheíros de
Daniel, ela irradia saúde corriendo legumes; tem o pao cotidiano, é
feliz. A pobreza é boa e devemos considerá-lo como o principio da
nossa alegría» (p. 21).

O autor ainda descortina o conceito, recorrendo a J. Stuart


Mili;

«O melhor estado para a natureza humana é aquele em que


ninguém é rico, nin.guém aspira a se tornar mais rico e nao teme ser
forcado a regredir pelos esforcos que os outros fazem para se preci
pita rem na frente» (p. 68).

O mestre cita outrossim palavras do Pe. Lebret:

«O estado de riqueza, e sobretudo de urna riqueza que visa ao


máximo conforto, nao é o estado preferível para a humanidade...
Se a miseria, isto é, a condicao de quem se encontró aqtiém do nivel
da sobrevivencia e da dignidade, é um mal a ser combatido, a frugali-
dade, isto é, a tiecessidade satisfeita com base ñas exigencias de urna
vida digna, é o valor que pode dar aos povos menos ricos urna superio-
ridade sobre os povos preocupados com a comodidade e o conforto.

A frugalidade permite, além disso, á medida que aumenta a


producao por habitante, empregar mais recursos na utilizacáo de
equipamentos e subsidios coletivos de promocáo, tanto cultural quanto
espiritual» (Pour une civilisation solidaire. París 1963, p. 46). Citado
á p. 138 nota 20 do livro em foco.

— 223 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

Urna tal pobreza exige naturalmente reformulagóes da


política económica das nacóes. Será preciso trabalhar da ma-
neira mais parcimoniosa possível, fazer mais coisas com me
nos dinheiro, lutar contra o desperdicio em todos os setores
da vida do país. «É urna política simples e coerente. E, justa
mente porque simples e coerente, torna-se difícil, urna vez que
se adquiriram certos costumes: o de nao saber viver com
pouco,... de delapidar, de nao conseguir imaginar outros mo
delos e outras práticas» (p. 80).

Entre as características de tal política, estará a promogáo


da agricultura, a fim de que esta possa sustentar a populagáo
do país, isentando-a, quanto possível, do encargo de importar
alimentos; tal populagáo procurará, de modo geral, explorar
os recursos próprios em vez de comprar no estrangeiro os
artigos que ela possa produzir. Assaz interessante é o trecho
do Prof. Josué de Castro, transcrito por Tévoédjré á p. 82:
«Se um día vocé for chamado a elaborar um diagnóstico do grau
de desenvolvimento de um país nao industrializado — dizia-me —,
tome a liberdade de examinar o regime alimentar do Primeiro Ministro
ou do Chefe de Estado. Se, no Palacio do governo, o chefe da cozinha
é um estrangeiro — e, aínda por cima, europeu —, vocé pode jó
tirar urna primeira conclusao sobre o grau de confianca depositado nos
talentos culinarios das mulheres daquele país ou nos talentos de todos
aqueles que podem garantir corretamente um papel tao importante
quanto significativo... Se, além disso, o menú é elaborado conforme
a moda: caviar Molosso, Toast Melba, velouté Victor Hugo, eglefim ao
molho de alcaparra, filé de novilho Wellington, enquanto os pratos
locáis sao colocados apenas para variar, como um capricho de fim-de-
-semana, entao vocé pode recear por sua rnissáo. De fato, terá razáo
em temer que aquele país tenha assumido um modelo de desenvolvi
mento que nao favorece nem os recursos locáis, nem as necessidades
essenciais da populacáo. Porque, desde a mesa do presidente até a
de seus domésticos, e destes as próprias familias e a seus amigos,
todos tenderao a procurar um regime alimentar nobre. Cada um, no
mercado, desecará fazer, de vez em .quando, tal como o boy do presi
dente. E haverá um dia em que se acotovelaráo diante das podarías
para pegar um pouco de pao de trigo...»

«Se, ao contrario — continuava Josué de Castro — na mesa do


presidente, mesmo quando recebe personalidades estrangeiras, pre-
fere-se o ¡nhame á batata, honra-se o mais, o milho, a mandioca, o
feijáo, entao, sim, os recursos locáis certamente sao valorizados e o
compones tem também esperance de participar de um desenvolvimento
que o envolva realmente» (p. 82).

DOA
«POBREZA, RIQUEZA...» 49

1.2.2. A pobreza no poder

O autor chama a atencáo para a sedugáo que o poder


exerce sobre os homens, especialmente sobre aqueles que che-
gam a uma funcáo de chefia. Fácilmente cria-se o poder dos
ricos, ao qual Tévoédjré opóe o poder dos pobres. Este im
plica renuncia a todo aparato governamental supérfluo e o
recurso a todos os valores que de fato possam contribuir para
o bem comum da nacáo.

Entre os meios supérfluos, estáo por vezes certos tipos de


armamento:

«Ingenuo seria pensar que se deve eliminar uma defesa nacional


responsável. E, com certeza, nao existe outra opcao, além das armas,
para povos que se véem obrigados a isso, como os fatos nos demons-
tram, cada dia, em toda a África meridional. Mas todo o mundo sabe
que nao é este o problema. O problema está, exatamente, no eres-
cimento exponencial dos instrumentos e dos produtos de destruicao,
que ocorre muito amiúde em países que ninguém, talvez, jamaíi
atacará. Em muifas regióes, tais armamentos insensatos destinam-se a
dominar, a controlar os cidadáos, a condicionó-los» (p. 111).

Entre os bens que certamente corresponden! aos genuínos


interesses da comunidade, está a educaeáo; esta é que habi
lita os cidadáos a construir uma sociedade devidamente estru-
turada. Verifica-se, porém, que «os gastos com a educagáo
sao muito inferiores, em todas as regióes do mundo, ao volume
das despesas militares; algumas excegóes, em alguns países,
simplesmente confirmam a regra geral, segundo a qual o poder
está na torga e na violencia» (p. 111).

Tévoédjré insiste neste principio:

«Nenhuma adesao total a um projeto de sociedade, nenhum


diálogo pode existir quando um povo é mantido na ignorancia. O
poder dos pobres está, antes de tudo, em seu saber. Muitas vezes
justifica-se a opressSo alegando-se a ignorancia do povo. Sem dúvida,
é difícil conseguir a participacáo, quando nao se faz nenhum trabalho
educacional.

O direito á educacao, o formaeáo, é tao fundamental quanto o


de viver uma vida material decente» (p. 122).

— 225 —
50 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

«Em 1924, urna pesquisa realizada por Gossplan, na Uniao


Soviética, revelava que um ano de aprendizagem na fábrica elevava
a producáo de um trabalhador analfabeto apenas de 12 para 16%,
enquanto um ano de estudos primarios a elevava para 30% e qvatro
anos de estudos primarios para 79%» (p. 122).

Dentre as tarefas do ensino, a mais importante é a de


ensinar como aprender ou como adquirir os métodos que per-
mitem enfrentar as mudangas.

Outro elemento indispensável á prosperidade da populagáo


de um país é a honestidade dos seus governantes. Esta excluí
o desvio de fundos, os acordos secretos com os fornecedores
com os chefes de empresas e os diretores de Companhias, as
porcentagens ocultas, os subornos por informagóes fornecidas
aos servigos secretos estrangeiros. «Nao se pode construir urna
sociedade com base na corrupgáo dos dirigentes, na prostitui-
gáo dos jovens estudantes, no roubo dos bens do Estado na
profanagáo das consciéncias» (p. 111).

«Se os responsáveis políticos viven» de maneira simples, sem se


¡solar em palacios luxuosos, em manter urna corte de dignitários, entfio
o seu exemplo tero, para as pessoas do povo, um ¡menso valor. Os
cidadaos perceberao que nao sao os únicos a fazer esforcos, economia,
e que, realmente, a pobreza é vivida em conjunto e condividida por
todos.

A propósito o pequeño Estado de Papuásia, ex-Nova Guiñé, nos


deu recentemente um exemplo de proibidade, recusando a criacao de
outras embaixadas em seu territorio, por causa das despesas muito
elevadas que isso tería acarretado ao país.

O Governo da Papuásia, nao dispondo de recursos para 'estar á


altura* de novas missoes diplomáticas, recusou á URSS, á China, á
Franca « á República da Coréia a permissáo para abrir embaixadas
na sua capital, Port Moresby, porque as dimensoes do Ministerio do
Exterior deveriam ser duplicadas para comportar esse aumento de
efetivos e de despesas» (p. 115).

A corrupcáo das autoridades provoca revoltas do povo e


golpes de Estado:

«Em um país onde as necessidades sao prementes, ... a osten-


tacao de urna corrupcao que se exprime nao apenas pelo confisco do
poder, mas com o seu corolario, a posse dos bens destinados á coleti-

— 226 —
«POBREZA, RIQUEZA...» 51

vidade, nao pode deixar de criar um profundo divorcio com o povo.


Isto se da principalmente quando alguns exacerbam a loucura ao ponto
de oferecer as suas 'amigas' o que se costuma chamar os tres V (Villa,
Voifure, Virements, ou se¡a, casa decampo, automóvel, conta bancária).
Urna das conseqüéncias de tudo isto é a instabilidade dos Govemos,
mantida e nao cuestionada por varios e sucessivos golpes de Estado»
(p. 132).

Um novo dado acrescenta-se agora aos anteriores:

1.2.3. Solidaríedade

A pobreza só será eficaz no sentido almejado se as nagóes


e os individuos pobres forem solidarios entre si.

«Manuel, o herói de Gouverneurs de la Rosee, tinha descoberto


a fonte que devolvería a vida á sua comunidade. Foi sacrificado por
causa da inveja e do odio. Mas deixou este testamento: '... a re-
conciliacao para que a vida recomece, para que o día surja sobre o
orvalho! E, de falo, um ¡menso 'mutirao1 de todos os días e de todos
os homens fez jorrar a agua... A solidaríedade tinsa vencido.

Esta é também ho¡e a nossa riqueza e a nossa esperanca. A soli-


dariedade permite a uniao dos pobres em funcao de um enriquecimento
coletivo» (p. 139).

Há, porém, dois tipos de solidaríedade:

«— a mecánica, baseada ñas semelhancas, que é a adesao


gregaria do individuo ao grupo, e

— a solidaríedade orgánica, baseada ñas diferencas, resposta


para as aspiracoes criativas de cada um e para as verdadeiras neces-
sidades de todos, objeto justamente de nossa procura» (p. 144).

A solidariedade orgánica dará origem a urna nova ordem


internacional, oposta á que atualmente reina com as seguintes
características:

— «ordem» sem diálogo, universo cujos dirigentes se


abandonam a um soliloquio, que costumamos escutar passiva-
mente há séculos;

— urna «ordem» baseada em privilegios, cujas estruturas


permitem a urna minoría ditar leis e regras de comportamento
á maioria;

— 227 —
52 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

— «ordem» em que, na maioria dos casos, os principios de


justiga, de eqüidade e de solidariedade cedem lugar ao desejo
de poder e de lucro (cf. p. 141).

A instauragáo da solidariedade orgánica no mundo é ur


gente, «pois a fome se espalha, as armas fazem montanhas de
cadáveres e o ar nao é mais respirável» (p. 183). A solida
riedade manifestará, mediante a nossa pobreza vivida, a riqueza
de todos os valores e de todas as nossas esperanzas (cf. p. 183).

É nestes termos que termina a proposta do Prof. Albert


Tévoédjré, certamente respeitável e digna de consideragáo. Ela
nao pode deixar de suscitar

2. Urna reflexáo

1. Antes do mais, convém reconhecer que a tese do


Prof. Tévoédjré, em suas linhas gerais, é excelente. Baseada
no bom senso e em sólidos principios de ética, ela condiz fiel
mente com o que o Cristianismo apregoa- nem a miseria nem
a opulencia fazem a felicidade e a nobreza do homem, mas,
sim, a frugalidade que sabe observar disciplina e certa auste-
ridade de vida. Multas das passagens do livro vém a ser eco
de quanto os Sumos Pontífices, desde Leáo XIII até Joáo
Paulo II, tém ensinado através de suas encíclicas sociais.
Alias, o autor é um fiel católico de sólida formagáo.

2. Eis, porém, que urna pergunta aflora á mente do estu


dioso: nao seria a tese do Prof. Tévoédjré um tanto utópica
ou inexeqüível? Para que haja despojamento do supérfluo e
solidariedade orgánica entre os povos ou mesmo no interior
de urna nacáo, requer-se alto nivel de eduoacáo moral tanto
por parte dos individuos como por parte das sociedades inte-
ressadas. Requer-se, com efeito, vitória sobre o egoísmo, a
soberba, a cobiga... que costumam habitar no coragáo de
todo homem e que, por isto, impregnam as sociedades. Ora
isto nao é fácil. Em perspectiva crista, sabe-se que o pecado
só estará por completo debelado no fim dos tempos, quando
Cristo vier consumar a historia; enquanto esta vai correndo,
o bem e o mal se defrontaráo constantemente, disputando entre
si a hegemonía — o que tornará sempre utópico qualquer ideal
de harmonía e paz perfeitas. Se o despojamento do supérfluo
e a frugalidade nao forem abracados por todos os interessados

— 228 —
«POBREZA, RIQUEZA...» 53

em concordia e simultaneidade, poderá ocorrer que a pobreza


de uns se torne precisamente, para outros, a ocasiáo de enri-
quecimento ganancioso e explorador.

Mais exeqüível é a frugalidade voluntaria no teor de vida


de um individuo ou de pequeña comunidade do que no ámbito
de urna nagáo inteira ou no da coletividade dos povos.

Apesar destas verificagóes, eremos que o ideal apontado


por Tévoédjré pode e deve, sem mais, ser considerado como
programa de cada individuo; corresponde á mensagem do
Evangelho (cf. Le 6,20; Mt 5,3). Seja também abracado por
cada Governo como orientagáo para o seu regime, depois do
devido e sincero entendimento entre responsáveis pelos desti
nos das nagóes, a fim de que a boa fé de uns nao seja explo
rada pela má fé de outros. Em suma, Tévoédjré fala sabia
mente de «um contrato de solidariedade» (p. 139)! Nao seja-
mos derrotistas, mas, antes, fagamos um voto de confianga nos
homens, preconizando as atitudes mais dignas e nobres para
os cidadáos e as sociedades. Todo esforgo realizado no sentido
de obter o ideal é válido; há de ter seus resultados felizes,
embora nem sempre isentos de contestagóes e incoeréncias.

Fazemos votos, pois, para que o livro de Tévoédjré atinja


ampio círculo de leitores no mundo inteiro e se torne objeto
de intensos estudos, movidos pelo interesse de descobrir os
meios de executar o ideal proposto pelo mestre africano:
renuncia á opulencia, á ostentagáo, aos gastos supérfluos, e
atendimento eficaz aos semelhantes mais carentes (individuos
e povos).

— 229 —
Uma técnica chinesa:

I CHING

Em sin tese: O I Ching é uma técnica chinesa muito antiga que


promete revelar aos homens os modelos de comportamiento reto e bem
sucedido. — Os oráculos sao transmitidos mediante hexagramas (ou figu
ras de seis linhas, urnas continuas, outras quebradas); cada um dos ses-
senta e quatro hexagramas assim obtidos é portador de uma mensagem
que o consulente deve saber interpretar e aplicar á sua vida. Seguindo
tais oráculos, poderá comportar-se como um "Homem Superior". '

Ora o I CHING tem por premissa a filosofía monista, a qual julga


que todos os seres reais (inclusive o homem) sao manifestacóes de urna
realidade ou energía básica; por isto importa ao homem descobrlr, por
vías geométricas e mecanicistas, qual a posicao ou qual a conduta que
deve assumir para estar na devida sintonia com as demals partes do uni
verso. Assumindo tal posicáo, indicada pelos oráculos ou os hexagramas
do I CHING, o individuo se torna feliz ou bem sucedido na vida.

Ora o monismo é sistema filosófico que nao resiste a uma critica,


pols nSo distingue entre a materia e o espirito. Os acertos atribuidos ao
I CHING podem explicar-se ou por pré-cognicáo, percepcao extra-sensorial
ou outra atividade parapsicología do consulente ou ainda pelo cálculo
das probabilidades (que sempre deixa margem para acertos).

Tem se difundido no Brasil a técnica chinesa dita I CHING.


Um dos veículos de propagagáo da mesma é o livro intitulado
«I CHING. O Livro das Mutacoes», traduzido do chinés para
o inglés por James Legge e do inglés para o portugués por E.
Peixoto de Souza e María Judith Martins1. Visto que tal obra
é de difícil leitura, o psirologo Osvaldo Gilson F. Costa escreveu
uma introdugáo ao I CHING em linguagem mais fácil e didática,
com o título «I CHING. Uma Interpretagáo do Livro das
Mutacóes» 2.

iHemus, Livraria Editora, Sfio Paulo 1972, 135 x 210 mm, 520 pp.

» Editorial Nórdica, Rio de Janeiro 1960, 138 x 210 mm, 320 pp.

— 230 —
I CHING 55

A técnica do I CHING pretende oferecer aos homens un


«guia que ensina como agir ante tudo, desde sua vida amo
rosa até as suas obrigacóes profissionais» (4o capa da primeira
obra citada ácima). «I CHING é o conselheiro que revela
qual a melhor atitude a tomar em todas as decisóes e fatos
da vida, e pode ser usado diariamente para adivinhacáo e para
o oonhecimento de si próprio útil e prático e ao alcance de
todos» (ib.).

Em vista destes títulos do I CHING, dedicaremos as pági


nas seguintes a urna análise dessa técnica, seguida de breve
comentario.

1. Que é o I CHING?

1. A técnica I CHING tem suas origens na China de


milenios atrás, quando o rei Wen em 1143 a.C. e seu filho
Tan, o Duque de Chou, o conceberam e organizaram. Mais
recentemente Confúcio (t 479 a.C.) teceu comentarios á obra
dos dois fundadores, comentarios que foram incorporados
aos escritos de Wen e Chou; donde se originou o atual livro
I CHING, também dito «O Livro das Mutacóes».

A obra propóe técnicas que pretendem orientar o compor-


tamento do consulente. Os oráculos resultantes dessas técni
cas sao transmitidos por hexagramas ou figuras de seis linhas;
estas podem ser continuas (ou sólidas) ou quebradas (parti
das ao meio). A linha continua representa o principio Yang;
é chamada «forte» ou «ativa» ou «masculina», ao passo que
a linha partida ao meio representa o principio Yin, tido como
«fraco» ou «passivo» ou «feminino».

Sao 64 ou 2a as possiveis combinacóes dessas linhas reu


nidas em hexagramas. É de notar aínda que em cada hexa-
grama se devem distinguir dois trigramas (ou dois grupos de
tres linhas). O sentido de cada hexagrama se deriva dos atri
butos dos seus trigramas componentes. Sao 8 ou 2a os possi
veis trigramas; cada um destes tem seu simbolismo ou seus
significados próprios, de acordó com a relacáo seguinte:

— 231 —
56 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 27-5/1081

NOMES NOTACOES ATRIBUTOS

Céu, o criador
Ch'ien
masculino, ativo

Térra, o receptivo,
K'un
feminino, passivo

Trováo, o excitante,
Chen
movimento, perigo

Agua, um abismo,
K'an
perigo

Montanha, a
Ken tranqüilidade, pro-
gresso interrompido

Vento, suavidade,
Sun
madeira, penetragáo

Fogo, claridade,
Li
beleza

Um pantano, lago,
Tui
compensacáo feliz

— 232
I CHING 57

Para cada gual das linhas de todos os hexagramas existe


um texto escrito pelo Duque de Chou; Confúcio redighi comen
tarios sobre esses textos; sao ao todo 334 comentarios, seis
para cada um dos 64 hexagramas (donde: 6 x 64 = 384).

Os oráculos ou as sentencas obtidas através das técnicas


do I CHING jamáis afirmam que algum evento deverá forco-
samente acontecer. Tém em vista principalmente o compor-
tamento do homem e o seu relacionamento eom os demais
homens e com a natureza. Apenas chamam a atengáo para
as alternativas que se propóem ao consulente e as prováveis
conseqüéncias decorrentes de cada opc.áo. Os oráculos indi-
cam como, diante dessas alternativas, se comportaría um
Homem Superior; o livre arbitrio do consulente nao é supresso;
ele poderá nao agir á semelhanga do Homem Superior, fazendo
a opgáo que julgar melhor.

2. Pergunta-se agora: como obter os oráculos do

I CHING?

Há varias maneiras de consultá-lo sendo a mais prática e


usual o método das tres moedas. Eis como o expóe Osvaldo
Gilson A. da Costa:

«Tomem-se tres moedas idénticas. Primeiramente decidamos que


lado da moeda considerar cara, e qual lado será coroa. Pessoal-
mente costumo considerar como cara o lado em que fica inscrito o
valor áa moeda. Urna vez estabelecida urna convencao, nao a mu
demos mais (pois poderíamos atrapalhar-nos). As moedas sao pos
tas ñas máos unidas em forma de concha, sacudidas por um mo
mento e entáo jogadas simultáneamente. O resultado dessa primeira
jo,gada irá corresponder á linha inferior do hexagrama resposta, o da
segunda permitirá conhecer a segunda linha de baixo para cima, o
da terceira nos dará a terceira linha, e assim por diante. Devemos
¡ogar um total de seis vezes as moedas, com o que obferemos a
figura de um hexagrama. £ imprescindível nao esquecer que as linhas
desse hexagrama, á medida que vfio sendo obtidas, devem ser mar
cadas no papel de baixo para cima; o principiante está sujeito a
esquecer esse detalhe, o que invalidaría a resposta. Os resultados de
urna jogada totalizam quatro eventos, que sao os seus resultados
possíveis. Usando a notacao C para cara, e K para coroa, os eventos
posstveis sao [C, C, Cl, tK, K, K], [C, K, K] e [C, C,K1» (ob. dr.f
P. 38).

— 233 —
58 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

As configuragóes das duas partes ou dos dois trigramas


(o inferior e o superior) do hexagrama constituem urna deter
minada cifra ou um símbolo, que é interpretado á luz de urna
tabela oficial, tabela que o livro de Osvaldo Gilson propde á
p. 49 e que vai reproduzida á p. 235 deste fascículo. Os ma-
nuais de I CHING esmeram-se por analisar cada um dos ses-
senta e quatro hexagramas que podem decorrer dos lances de
moedas; cada linha é explicada: significa ou relacionamento
difícil de alguém com o parceiro (p. 127) ou conveniencia de
recuar por nobreza de caráter (p. 174) ou necessidade de nao
se preocupar com éxito ou derrota (p. 184) ou conselho de
esperar ocasiáo mais favorável para agir (p. 200) ou ainda
sugestáo de eliminar falsos amigos de sua convivencia (p. 205)
ou encorajamento para prosseguir (p. 228) ou promessa de
boa sorte no avango (p. 266).

Osvaldo Gilson aconselha o leitor a repetir varias vezes a


mesma sonsulta ao I CHING, pois através da multiplicagáo se
esclarece e corrobora a resposta do oráculo. Cf. p. 46.

Nao nos deteremos na exposigáo do método de consulta,


visto que as nogóes até aqui transmitidas sao suficientes para
oferecer ao estudioso um esbogo do assunto em pauta.

Procuremos agora formular

2. Urna avaliasao

Dois pontos mereceráo a nossa atengáo.

2.1. Monismo

1. Os adeptos do I CHING atribuem pleno éxito as res


pectivas técnicas: «Pude algumas vezes consultar o I CHING
cerca de vinte ou trinta vezes, com real proveito e, o que é
muito importante, meu entendimento do. oráculo aumentou
muito com essas seqüéncias de consultas> (Osvaldo Gilson,
ob. cit, p. 46).

E qual seria a explicagáo de tal éxito?

— 234 —
CHAVE PARA OS HEXAGRAMAS

Trlgrama
Ch'ien Chen K'an Ken K'un Sun Ll Tui
Superior

Trlgrama
Inferior
+
Ch'len Ch'len Ta Chuang Hsü Ta Ch'u Tai Hsiao Ch'u Ta Yu Kuai
1 34 5 26 11 9 14 43

Chen Wu Wang Chen Chun I Fu I Shlh Ho Sui


25 51 3 27 24 42 21 17

K'an Sung Chleh K'an Meng Shih Huan Wei Chl K'un
6 40 29 4 7 59 64 47

Ken Tun Hsiao Kuo Chlen Ken Ch'len Chien LO Hsien


33 62 39 52 15 53 56 31

K'un P'i Yü Pl Po K'un Kuan Chin Ts'u.


12 16 8 23 2 20 35 45
Sun Kou Heng Ching Ku Sheng Sun Tlng Ta Kuo
44 32 48 18 46 57 50 28
Ll Vung Jen Feng Chi Chl Pl Míng I Chía Jen Li Ko
13 55 63 22 36 37 30 49
Tul LO Kuei Mel Chleh Sun Un Chung Fu K'uei Tui
10 54 60 41 19 61 38 55
60 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

— Deduzamo-la das obras dos mestres da escola:*

«A bose do I CHING, nos palavras de Richard Willhelm, é a


crenca de que o futuro se desenvolve de acordó com leis prefixas,
de acordó com números calculáveís. Se estes números sao conhec'i-
dos, futuros acontecimentos podem ser calculados com precisSo per-
feita» (I CHING, ob. cit., p. 27).

Mais explícitamente:

«Em termos ocidentais, podía ser conveniente supor yin e yang


como forma de energia, similar em manifestacao aos polos negativo
e positivo de um magneto, cada qua! em oposicao ao outro, embora
coexistindo e ¡nterdependentes dentro de uma peca de metal. A vida
seria uma partícula presa entre a atracáo e a repulsao dos dois extre
mos, bataneando alternadamente para um lado e depois para o outro.
É através da interacao destas duas tarcas primordial que os fenó
menos do universo sao produzidos» (p. 23).

Mais adiante continua o texto:

«O tema do I CHING é o avanco e o recuo do dragdo o sím


bolo das tarcas benéficas da natureza e o Supremo ou Grande Ho-
mem. Esta premissa é básica para a filosofía do I CHING e tai
desenvolvida durante os primeiros sáculos do nascimento da cultura
chinesa. A eficiencia do homem e a libertagao fundamental de suas
limitacoes e de todas as suas dificuldades é para ser encontrada no
exemplo da uniao de tarcas da natureza e o Ser Superior. O I Ching
ensina que a vida adequada e boa é alcancada pelo Chuntzu ou
Ser Superior, quando sua vida está em harmonía com o fluxo de
yin e yang. O Ser Superior, o qual é freqüentemente conservado
como um ideal no I Ching, trabalha para desenvolver sua percepcao
consciente destes principios do fluxo e seu discernimento eventual-
mente se torna tao perspicaz e penetrante que ele se move entre o
progresso e o regresso continuos das tarcas vitáis da natureza, nunca
em oposicao a elas, pois ele compreende que isto é fútil e destru-
tivo. Ele é sabio e segué o fluxo das tarcas na natureza. Ele se
torna como a agua que gentilmente enche na primavera a cabeceíra
do rio seco. Tudo isto implica numa 'inteligencia progressiva' — o
amadurecimento do homem normal dentro do Ser Superior, através

. 1 A seguir, transcrevemos trechos das obras da escola, que o leitor


n§o precisaré de ler por Intelro. Poderá, ao menos, tomar conscléncla de
quanto é obscura a llnguagem de I CHING.

— 235 _
I CHING 61

da experiencia — com a qual podemos encontrar um paralelo do


misticismo ocidental e a ídéia oculta da percepcao em expansao em
direcao do espirito universal» (pp. 23s).

Osvaldo Gilson, o comentador, por excelencia, do I CHING


no Brasil, observa; v^ounvj

«Para o espirito chinés, os acontecimenfos que se suceden» no


universo se acham intimamente interligados, numa harmonía que se
expressa em ciclos e tendencias. Como descreve R. G. H Siu
em seu livro 'O Hornero de Varias Qualidades: Um Legado do
I Ching/, o chinés acredita profundamente que 'se eu movo ainda mi-
nha mao para a direita, tudo no universo também se rnove*. E,
assim sendo, 'é somente natural, Siu declara, que 'quando urna per-
gunta é formalmente proposta, o universo responde... Num dado
momento tudo se ajusta ao padrao particular do momento» (p. 29).

O mesmo estudioso aínda reflete nos seguintes termos:

«Se algum conceito geral se tornou evidente desde que o homem


comegou a busca de si mesmo sobre esta térra, ele é que, quanto
roais profundo penetramos nos abismos da existencia, qualquer que
se¡a a esfera, mais descubrimos um padrao básico, urna estrutura uni
ficada, urna organizacáo e equilibrio de forcas. Nao é, por conse-
guinte, irracional supor que a mente, como se manifestó em estado
consciente, é também governada por padroes. Enqvanto somos tao
ignorantes acerca do mecanismo da 'mente' ou consciéncia para apre
ciar tais padroes, seria tolice supor que, entre todas as manifestacoes
de vida, faltaría esta característica básica» (ob. cit., p. 19).

Ora verifica-se que tais afirmagóes, em última instancia,


supdem e professam urna mentalidade monista: para os adep
tos do I CHING, existe urna grande e única energía que se ma-
nifesta, em graus diversos, no universo e no homem. Por
causa disto é que se faz necessário ao homem entrar em sin
tonía com o universo, procurando fora de si ou ñas leis do
universo (interpretadas pelas técnicas do I CHING) as nor
mas do seu comportamento pessoal; note-se que os mestres
insistan em dizer que o I CHING propde modelos de relacio-
namento do homem com os outros e com o universo. A sabe-
doria consiste em descobrir a simetría e a harmonía do indi
viduo com o grande todo e desenvolver, na vida prática, tal
harmonía. É o que se depreende dos textos atrás transcritos,
onde realcamos as expressóes:

— 237 —
(£ «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

«Descobrimos um padráo básico, urna estrutura unificada, urna


organizacao e equilibrio de forcas» (Osvaldo Gilson, p. 19).

«Os ocontecimentos se ocham intimamente interligados numa


harmonía que se expressa em ciclos e tendencias» (ídem, ob. cit.,
p. 29).

O próprio livro fundamental «I CHING. O Livro das Mu-


tagóes» nos diz á p. 23:

«É através da ¡nteragao destas duas forcas primordiais (o Yin e


0 Yang) que os fenómenos do universo sao produzidos».

É de notar, alias, que o I CHING nao fala de Deus ou da


Divindade. A sua filosofía é, pois, um monismo. Sim, para o
1 CHING a realidade é como urna grande rede: quem toca um
dos seus pontos, está indiretamente tocando e influenciando os
demais pontos dessa rede. As comunicagóes se fazem, por isso,
de modo quase mecánico; daí a necessidade de que se captu-
rem, quase com antenas, as ondas que perpassam a grande
rede. — Ora tal tipo de filosofía é ilógico. Com efeito, quem
admite o monismo nao admite distingáo real entre materia e
espirito, mas reconhece apenas urna energía básica que se ma-
nifesta ora como materia, ora como espirito. Na verdade,
porém, a materia é urna realidade extensa, dimensional, dotada
de peso..., ao passo que o espirito é um ser que nao tem
quantidade, nem extensáo, mas é dotado de inteligencia e von-
tade. Entre materia e espirito nao há transigáo; a materia
nunca se torna espirito nem o espirito materia. De resto, a
distingáo entre materia e espirito, assim como a existencia
real do espirito, já foram amplamente abordadas em PR
226/1978, pp. 423-434; 227/1978, pp. 475-481.

2. Esse monismo básico nao se concilia, em absoluto,


com a mensagem crista. Esta é monoteísta, ou seja, professa
a existencia de um só Deus distinto do mundo, Criador dos
seres visíveis e invisíveis. Deus é o primeiro Amor ou o Pai,
que desenvolve a$áo providencial sobre as criaturas. Sobre
ele o homem nao pode exercer coagáo alguma; nao dispóe de
forcas mágicas nem de receitas para obrigar Deus a revelar
segredos ou a transmitir oráculos ou respostas; o homem nao
pode entrar em sintonía com Deus mediante recursos físicos,
mas, sim, mediante a grasa, a oragáo e a fidelidade aos desíg-

— 238.—
I CHING 63

nios do Senhor; Ele nao se deixa vencer em generosidade, mas


dá-se a quem Lhe abre o coragáo, oferecendo aos seus fiéis
o antegozo da vida eterna já neste mundo; cf. Ap 3,20.

2.2. E os acertos do I CHING?

Osvaldo Gilson Costa refere o éxito ou os oráculos verí


dicos obtidos através da prática do I CHING... Menciona
também Cari Gustav Jung, o grande estudioso do psiquismo
humano, como interessado pelo I CHING; cf. ob. cit., p. 17.

Ora que dizer dos acertos atribuidos ao I CHING?

— Em primeiro lugar, observamos que nao se devem a


efeitos de sincronismo de Física ondulatoria, como ensina a
filosofía monista. Mas podem ser explicados por duas vias:

a) a Parapsicología, ciencia nova e cada vez mais sólida


em virtude de suas multiplicadas experiencias, explica fenó
menos de pré-cognicáo, percepgáo extra-sensorial, cardiogno-
sia, em suma, de adivinhacáo do presente e do futuro, me
diante faculdades da própria psfvdié humana. Esta, além do
seu funcionamento normal (psicológico), tem um funciona-
mento para-normal, mais ampio ou dilatado do que o normal,
que é dito «para-psicológico». Este funcionamento é respon-
sável por intuicóes verídicas ou acertadas, que nao nos sao
mágicamente comunicadas mediante receitas, mas que o nosso
subconsciente captadesde que sugestionado, motivado ou con
dicionado para agir...

b) Além do funcionamento parapsicológico, deve-se lem-


brar que o cálculo das probabilidades sempre prevé urna margem
de acertos para qualquer experiencia adivinhatória.

Eis quanto nos compete dizer a respeito do I CHING, que


pode suscitar interesse ou curiosidade por parte do público,
visto que muitas pessoas hoje em dia sao sequiosas de revela-
cóes e resultados mágicos; diante de propostas deste tipo dei-
xam-se levar pela emotividade mais do que pela razáo, incor-
rendo em percalcos que urna reflexáo serena e objetiva pode
evitar, com grande proveito intelectual e mental do individuo.

— 239 —
Um livro destemido:

"0 Negro e a Igreja"


por J. E. Martins Térra, S.J.

Em sintese: O Pe. Térra, S.J. publica urna obra em duas partes: na


primeira, quatorze capitulos versam sobre a atitude da Igreja em relacBo aos
escravos; na segunda, analisa 79 obras brasileiras que tratam do assunto.
O llvro do Pe. Térra é importante porque mostra, com recurso ás fontes
(que muitos historiadores nao chegam a pesquisar), que houve, e há, pre-
conceltos anticientíficos por parte de muitos autores dedicados a esta
temática. A historiografía é freqüentemente Influenciada por premissas
filosóficas e ideológicas, que contribuem para desfigurar a verdadelra face
da historia. Especialmente os jesuítas, contra os quais a época pomballna
armou vasto arsenal de calúnias, sSo vitlmas de tais preconceitos.

O leltor encontrará nessa obra farta documentando e rico noticiarlo,


assim como o comentario sad¡amenté critico das obras que últimamente se
tém publicado sobre o assunto.

O Pe. Joáo Evangelista Martins Térra S.J., tendo que


lecionar nos EE.UU., estudou em 1983 o tema «Comunidades
Eclesiais de Base e as raízes do sincretismo afro-brasileiro»;
em conseqüéncia, leu vasta bibliografía sobre o negro no Bra
sil. As suas anotagóes e reflexóes, enriquecidas pela pesquisa
de fontes, redundaram no presente livro1, em que se distin-
guem duas partes. Na primeira, o autor apresenta quatorze
capítulos sobre a escravidáo e a Igreja no mundo, e especial
mente no Brasil; na segunda, analisa setenta e nove obras
brasileiras referentes aos negros e á esclavatura no Brasil.
Urna introducáo e urna conclusáo emolduram a obra.

O livro é assaz interessante. Prima por oferecer ao leitor


grande quantidade de informacóes numa área que é pouco
conhecida através de suas fontes auténticas (poucos estudio
sos váo realmente ao ámago da historia da escravidáo), mas
é objeto de comentarios numerosos, as vezes preconcebidos,
como mostram nao só os capítulos 7-15, mas também a estensa
resenha bibliográfica que o autor apresenta.

O Negro e a Igreja. Ed. Loyola 1983, 136 x 207 mm, 311 pp.

— 240 —
«O NEGRO E A IGREJA» 65

Deste livro poremos em destaque alguns tragos que no


momento mais atengáo nos parecem merecer.

1. O Cristianismo e a escravidao

O Pe. Térra nao hesita em chamar a escravidao «o maior


crime da historia» (p. 33). Pergunta entáo: como pode o Cris
tianismo conviver com ela e até mesmo praticá-la durante
tantos séculos?

Em resposta, observa:

1) A escravatura era amplamente difundida no Ocidente,


no Oriente e no Egito, como sustentáculo da civilizagáo vigente:
na falta de industria a vapor e mecanicizada, era o braco do
homem que tinha de realizar as tarefas que no século XlX
comegaram a ser confiadas á máquina. Nao haveria a civiliza
gáo antiga sem escravatura'.

Ora diante desta situagáo quase universal nao se pode


dizer que a Igreja se tenha calado e simplesmente tenha acei
tado a escravidao. Desde os seus inicios Ela fez ouvir a sua voz
no sentido de que os escravos nao fossem tratados como escra
vos: tal é o caso, por exemplo, de S. Paulo, que pede a Filemon
receba o escravo Onésimo como seu irmáo em Cristo (cf. Fm).
Os Imperadores romanos cristáos «multiplicaran! leis restriti-
vas do comercio de escravos e dos direitos discricionários
dos senhores... Surgem também varias modalidades de alfor-
ria...» (p. 39). Na Idade Media, houve «progressos no sen
tido de mitigar cada vez mais ou de favorecer ao máximo a
alforria dos escravos» (p. 40). Os Papas fizeram ouvir sua
voz contra os traficantes de escravos; assim, por exemplo, Ino
cencio IV (1243-54), Joáo XXII (1316-34), Martinho V (1417-
-31) em relagáo aos venezianos e genoveses, que «obtiveram
escravos do Oriente Medio, dos centros do Mar Negro e das
costas africanas, bem como das Vitorias sobre os corsarios»
(p. 41). Bento XIV langou a excomunháo sobre todos os que
«detivessem, vendessem, comprassem, maltratassem escravos
ou reduzissem africanos a escravidao» (Bula Immensa Pasto-
rum de 1740); cf. p. 33 da obra em foco. Pió II, aos 7/10/1462,
denunciava a escravidao como «crime enorme» e ordenava aos

i é claro que Isto nio justifica nem legitima a escravatura, mas explica
por que os antlgo9 a tlnham como algo de tío natural e freqüente.

— 241 —
66 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

bispos que castigassem com a excomunháo aqueles que a pra-


ticavam; cf. p. 34 da obra em foco. Bispos e sacerdotes tam-
bém perceberam e denunciaran! o mal da escravidáo.

2) Acontece, porém, que os ditames da consciéncia crista


nao afloraram com a devida prontidáo e eficiencia, em razáo
de um fenómeno que a sociologia chama «o principio da cons
ciéncia possíveb. Este afirma que «todo pensamento é social-
mente condicionado e limitado. Devido aos condicionamentos
que limitam a visáo da realidade, há um limite máximo que o
conhecimento ou a compreensáo de um individuo, um grupo,
urna classe social ou toda urna época podem atingir» (p. 19).
Com outras palavras: as condigóes de vida económica, social e
cultural dos sáculos passados nao permitiam aos homens
— cristáos e nao cristáos — conceber urna sociedade sem escra-
vos; de modo especial, nao lhes era possível entender a
vida nos países descobertos no sáculo XVI sem o concurso de
escravos. Essa impossibilidade de compreender explica que
muitos e muitos dos que praticavam a escravatura se acha-
vam de boa fé. Sem dúvida, houve numerosos cristáos até
mesmo eclesiásticos — que agiram de maneira perversa e
cruel; mas houve também os que, nao se podendo emancipar
dos limites impostas pela consciéncia da época, náó obstante
procuravam mitigar ou mesmo extinguir a desgragada sorte
dos escravos; cf. pp. 19. 36 da obra em foco.

3) É de notar outrossim que, em decorréncia da menta-


lidade dos sáculos XVI-XIX, os reis e Imperadores, usando das
regalías do Padroado, nao promulgavam nos territorios da
América as bulas dos Papas que condenavam a escravidáo.
Ora, visto que as leis da Igreja deviam ser leis do Estado,
quando o Estado nao dava a sua cháncela a alguma determi-
nagáo da Igreja, esta parecia nao ter valor ou aplicagáo para
o seu territorio; cf. p. 34 da obra em foco.

4) É de observar também que a escravatura era urna


¡nstituigáo muito anterior ao Cristianismo, vigente na China,
na India, na Mesopotámia, no Egito, na Grecia, em Israel.
Tinha, nao raro, origem ñas guerras: os prisioneiros que nao
fossem condenados á morte, eram vendidos como escravos;
quem os comprasse, podía (segundo as categorías da época)
julgar estar pratícando obra boa pelo fato de os salvar da
morte.

— 242 —
«O NEGRO E A IGREJA» 67

Eis como o Pe. Térra S.J. explica — embora nao justifi


que — o surto e a persistencia da escravidáo em térras cris
tas. No decorrer do livro, o autor se empenha, com f arta
documentado, por mostrar como a Igreja se interessou sempre
pela sorte dos escravos e como a historiografía, movida por
preconceitos, nem sempre foi fiel — e ainda hoje é falha —
ao apresentar esse papel da Igreja.

2. Falsif¡ca$6es na historiografía

O autor escreveu um capítulo introdutório intitulado


«Falsificagóes e fraudes na historia da escravatura» (cap. 2,
pp. 26-36). Alguns tópicos destas páginas chamam a atengáo.

Tal capitulo tem sua especial razáo de ser no fato de que


hoje em dia «se ouvem denuncias proféticas, por parte de
representantes da Igreja, contra a violagáo dos direitos dos
negros, realizada com o consentimento ou o silencio oficial da
Igreja no tempo da escravidáo» (p. 24).

Essas denuncias resultam, por vezes, de posig5es precon


cebidas, repetigáo de slogans, pesquisas precipitadas e superfi-
ciais... Sendo jesuíta, o Pe. Térra se detém em trazer exem-
plos de como a Companhia de Jesús e, com ela, a Igreja tém
sido assim maltradas: os Mónita Secreta de 1612 sao disto um
espécimen muito significativo (cf. PR 204/1976, pp. 546-553).

Outro exemplo é a obra de J. M. de Paiva (Sao Paulo


1982) intitulada «Colonizagáo e Catequese»: «A conclusáo de
sua tese antecede á sua pesquisa», isto é: o autor pesquisou
com idéias preconcebidas, que ele incutiu as suas fontes, e nao
deduziu das mesmas. Tal conclusáo soa; «A catequizado
desempenhou um papel colonial», «As verdades da fé servi-
ram de código que tinha como objetivos táo somente as metas
colonizadoras», «Reconstituir a historia implica identificar obje
tivos mercantis e objetivos religiosos». Ora nao há quem nao
veja nessas frases sumarias e generalizantes a expressáo de
preconceitos fanáticos, anticientíficos.

Outro espécimen de falsificagáo historiográfica sao os dois


volumes de «Historia da Igreja no Brasil» publicados pela
CEHILA (Comissáo de Estudos de Historia da Igreja na Amé
rica Latina): «privilegia acontecimentos políticos aos quais se

— 243 —
68 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

subordina o essencial da vida crista»; «apresenta freqüentes


juizos críticos sobre o passado, feitos ñas perspectivas cultu
ráis do presente, juizos aparentemente brilhantes, mas histó
ricamente injustos porque nao levam em consideracáo o con-
dicionamento histórico da 'consciéncia possível'» (p. 32).

Mais um exemplar de crítica preconcebida ou ideológica


é a obra de Joáo Manoel Lima Mira intitulada «A Evangeli-
zacáo do Negro no período colonial brasileiro» (Ed. Loyola,
Sao Paulo 1983). O livro é apresentado no prefacio como
«fruto da descoberta de fontes ainda pouco exploradas» (p. 9
da obra de Lima Mira). Observa, porém, Joáo E. M. Térra:

«A tese do Pe. Mira se restringe praticamente a dois autores,


E. Hoornaert e R. Bastide. Através da óptica desses dois autores, sao
visualizadas as demais fontes. Sem insistir em precisao matemática,
direi <que oitenta por cento deste livro consiste em citacoes literais, na
maioria das vezes entre aspas, destes dois autores ou de autores
diretamente correlacionados com eles» (p. 221 s).

Na época de Pombal, que preparava a extingáo da Com-


panhia de Jesús, esta foi especialmente caluniada sob o título
de traficante de escravos. Daí um capítulo especial do Pe. Térra
sobre «o tráfico negreiro dos jesuítas» (cap. 12), capítulo em
que retoma minuciosamente as acusagóes de Hoornaert e Mira
Lima aos jesuítas, mostrando, com recurso as fontes mais anti
gás e auténticas, que carecem de fundamento.

3. Papas, Bíspos e a escravxrtura

Já em PR 267/1983, pp. 106-132 foram citados documen


tos de Papas, Bispos e sacerdotes que ousaram manifestar-se
contra a escravatura no período colonial do Brasil. Para que
nao haja repeticáo, aquí seráo extraídos do volume de J. E. M.
Térra apenas alguns dados novos.

Em 1686, o arcebispo da Bahia D. Fr. Joáo da Madre de


Deus, vendo a situacáo desumana dos escravos, enviou a Roma
o negro forro (= liberto) Paschoal Dias, para defender diante
do Papa os direitos humanos dos escravos. Tal é o documento
que registra o fato:

— 244 —
«O NEGRO E A IGREJA» 69

«Francisco da Fonseca, Escrivao do Juízo (= Tribunal eclesiás


tico) do Sr. Arcebispo da Santa Sé desta cidade da Bahía do Reino
do Brasil na América e Notario público ñas causas desta cidade, por
provacáo de sua Alteza, que Deus guarde.

Certifico e dou minha fé como parte desfa dita cidade Paschoal


Dias, negro forro, com procuracao da Mesa dos negros de N. Senhora
do Rosario da Confraria de N. Sa. do Desterro; com procuracao da
Confraria de N. Sa. do Rosario, que está em S. Pedro dos Pretos; com
procuracao da Confraria de N. Sa. do Rosario da Igreja de N. Sa. da
Conceicao; com procuracao de duas Confrarias que estao em S. Bene-
dito; com procuracao da Confraria de N. Sa. do Rosario, que está
na Catedral, as quais por todas sao seis, vi e l¡ por despacho de urna
peticao que todas estas Confrarias tiveram do Sr. Arcebispo Dom Joao
(da Madre de Deus, O.F.M., 1683-1689), o qual mandou passar esta
certídao, dando as sobreditas Confrarias poder e autoridade a Paschoal
Dias, negro forro, para que vá á Curia Romana, em nome de todos os
escravos, botar-se aos pés de S. Santidade com urna peticao dizendo-
-Ihe o miserável estado em que se encontram todos os negros cristaos
desta e de todas as mais cidades desfe Reino da América, e os grandes
frabalhos_que passam, sendo filhos da Igreja, como constará de todas
as provisóes das Confrarias, a que me reporto em tudo. Feifa e
assinada por mim escrivao e selada com o selo deste ¡uízo.
Bahia, 2 de julho de 1686.
Francisco da Fonseca»

(archivio di Propaganda Fide, SRC, Ameri. Merid., vol. I, 309).

Um dos primeiros sacerdotes a denunciar a escravatura


foi o sacerdote portugués Pe. Fernando Oliveira, tutor dos
filhos do cronista Joáo de Barros. Em 1555 publicou o livro
«Arte da Guerra do Mar», no qual se encontra um capítulo
que denuncia o tráfico portugués de escravos na África Oci-
dental. Deste escrito seja citada a passagem seguinte:

^ existiu urna guerra ¡usta contra muculmanos, ¡udeus ou


pagaos que nunca tinham sido cristaos batizados e que eslavam
prontos a comerciar pacificamente com os portugueses. Atacar as suas
térras e escravizá-los era urna manifestó tiranía e nao servia de des
culpa dizer que eles se entregavam ao comercio de escravos entre si.
Um homem que compra urna coisa que foi vendida indevidamente, é
culpado de pecado; e, se nao houvesse compradores europeus, nao
existiriam vendedores africanos. Fomos os inventores de tao vil
comercio, até entao nunca praticado ou conhecido entre seres
humanos» (p. 145 do livro de J. E. M. Térra).

— 245 —
70 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

Expóe o Pe. Térra:

«O Pe. Fernando Oliveira rejeitava com desprezo os mercadores


que alegavam que, ao comprarem escravos, salvavam almas, retor-
quindo que os negociantes de escravos se dedicavam a esta sórdida
atividade apenas pelo seu ¡mundo lucro. Nao só os escravos africanos
eram comprados, ¡untos em manadas e tratados como gado, como seus
filhos nasciam e cresciam nessa servitude degradante, mesmo quando
os pais eram cristaos balizados, coisa para a qual nao havia justifi-
cacao moral (A Arte da Guerra, do Mar. Coimbra 1555. Reedicáo
feita em Lisboa, 1937, pp. 23-25, apud C. R. Boxer, A Igreja e a
Expansao Ibérica, pp. 47-48)».

O primeiro prelado que condenou calorosamente a escra-


vatura na América e o comercio de escravos africanos, foi
D. Alonso Montufar, arcebispo do México. Em junho de 1560
escreveu ao rei de Espanha, observando que os argumentos
apresentados contra a escravidáo de indios da América eram
igualmente válidos para os negros africanos; ademáis fazia
notar que o tráfico portugués de escravos estava particular
mente manchado de abusos clamorosos e anticristáos. Por
isto, nao sem ironía, pedia ao monarca que o esclarecesse sobre
tal problema e o informasse sobre o modo de justificar a escra
vidáo de negros africanos. — Sabe-se que D. Alonso Montufar
nunca recebeu resposta a essa carta. Cf. J. E. M. Térra, p. 145.

Em 1871, o bispo D. Pedro Maria de Lacerda, do Rio de


Janeiro, escreveu urna Carta Pastoral, por ocasiáo da «liber-
tacáo de filhos de escravos e sua criacáo». Em tal documento
lé-se a seguinte passagem:

«£ coisa estupenda! De seio escravo háo de nascer homens


livres... Nos bracos da cruz foi rasgado o quirógrafo que condenava
a nascer no cativeiro tantas geracoes de homens; e foi parada e
recuada até o abismo por peitos brasileiros essa entumecida e arreba
tada correnteza que há 371 anos arrastava e aínda ameacava rolar
em suas negras ondas a milhares de homens que devio m um dia nascer
na térra americana do Imperio de Santa Cruz de Jesús Cristo».

Nessa mesma Carta Pastoral, o bispo, que nao tinha pes-


soalmente escravo algum, deixou escapar urna queixa pelo cer-
ceamento da liberdade da Igreja, á qual nao era reconhecido
o direito de denunciar a escravatura:

— 246 —
«O NEGRO E A IGREJA> 71

«Oh! E se a Igreja fosse mais livre para desembaracadamente


exerdtar o seu amor de Mae terníssima!». Cf. p. 147s da obra de
J. E. M. Térra.

O Bispo de Diamantina, D. Joáo Antonio dos Santos, em


1846, na Selecta Catholica de Mariana e em 1862 no jornal
Jesuitinhonha de Diamantina, apregoava abertamente a abolicáo.
Em suma, muitos outros testemunhos se poderiam extrair
da obra do Pe. Térra para comprovar a acáo benfeitora da
Igreja em prol dos escravos, dissipando-se assim as alegac.5es
tendenciosas e falsas que a respeito da Igreja tém sido feitas
nos últimos anos.

Agradecemos ao Pe. Térra mais esta rica documentaqáo,


que supóe estudo meticuloso. E fazemos votos para que tal
livro seja devidamente lido e estudado.

(continuacao da p. 261)

tiva para cá. .., também a seu pedido direto . . . Quanto á Ordem,
tem outro nome, também tudo determinado por Nossa Senhora e o
Menino Jesús.

5°) Quanio á índole fantasiosa e aberrante das aparicoes da


Montanha Santa, nada posso dizer. Mas das aparicoes de Nossa
Senhora na Santa Montanha há dezoito anos (nao é um día), o
tempo se encarregará de provar a veracidade dos verdadeiros fatos
ocorridos, urna vez que desde o inicio das aparicoes em 1966 Nossa
Senhora manda que tudo seja comunicado ao Vigário, ao Bispo, ao
Nuncio, ao Santo Padre, conforme o Direito Canónico, e isto é o que
vem sendo feito minuciosamente...
6*) Igreja Católica Apostólica Romana.
a) Dia 15/06/78 — Nossa Senhora diz: «Eu vim ao
mundo para ensínar o caminho do bem e da Religiño Católica. Se
guir sempre a Santa Igreja Católica Apostólica Romana».

b) Dia 30/03/79 — Nossa Senhora diz: «Perguntaram


se aqui é a Igreja Brasileira. Respondam com poucas palavras: V5o
pedir aos padres os documentos e veráo que aqui é a Igreja Cató
lica Apostólica e Romana».

c) Dia 03/06/79 — Nossa Senhora está dizendo: «Aqui


na Santa Montanha seguimos a Igreja Católica Apostólica Romana,
como foi no inicio».

(continua á p. 254)

— 247 —
No sáculo V:

E o caso da Filósofa Hipada


Trucidada por um Santo?

£m síntese: A filósofa neoplatónica Hipácia foi linchada e morta a


pedradas por um grupo de cristáos em Alexandria (Egito) no ano de 41b.

As versSes mais antigás do fato referem que o povo cristáo asslm


procedeu, porque julgava que Hipácia tramava com o prefeito Orestes de
Alexandria contra o bispo Cirilo. Este nao terá tido parte no sinistro
acontecimento.

Todavía o historiador Damásclo, de flns do século V, refere que fol


S. Cirilo quem mandou explícitamente matar Hipácia. — Esta versáo é sin
gular e tem contra si as outras narracdes antigás, como, por exemplo, a do
historiador Sócrates.

No século XIX o episodio de Hipácia foi multo explorado por córranles


de pensamento racionalistas e anticlerical. Veriflca-se, porém, que no
século XX a critica mais abalizada tem por totalmente inverossfmll e ten
denciosa a versao de Damáscio, preferlndo a de Sócrates.

Como se sabe, a historia é o terreno que mais se presta a


interpretagSes e «re-leituras». Entre muitos episodios contro
vertidos, cita-se o da filósofa Alexandrina Hipácia, que terá
sido trucidada por ordem de S. Cirilo, bispo de Alexandria.
em 415.

O caso assim narrado é escandaloso. Veja-se, por exem


plo, a versáo no volume Cosmos de Cari Sagan (edigáo bra-
sileira de 1982), pp. 335s:

«O último dentista c trabalhar na Biblioteca de Alexandria foi unía


astrónomo, matemática, física e a líder da escola neoplatónica de filo
sofía — urna gama extraordinaria de instrucSo para um individuo em
qualquer idade. Seu nome era Hipácia. Nasceu em Alexandria em 370.
Em urna época em que as mulheres possuiam poucas opgóes e eram tra-

— 248 —
A FILÓSOFA HIPÁCIA 73

todas como propriedade, Hipácia movia-se livre e desinteressadamente


pelos dominios masculinos tradicional. Segundo a opiniao corrente, ela
era muito bela. Teve varios pretendentes, mas rejeitou as ofertas de
casamento. A Alexandria da época de Hipácia, entáo sob o dominio
romano, era urna cidade sob grande tensao. A escravidáo tinha minado
a civilizacáo clássica na sua vitalidade. A Igreja Crista em expansáo
consolidava seu poder e tentava erradicar a influencia e a cultura paga.
Hipácia permaneceu no epicentro destas poderosas forcas sociais.
Cirilo, patriarca de Alexandria, desprezou-a pela cua amizade íntima
com o governador romano e por ser ela um símbolo do saber e da
ciencia, que eram identificados no inicio da Igreja com o paganismo.
Com grande perigo pessoal, ela continuou a ensinar e a publicar, até
que no ano de 415 foi atacada por urna turba fanática de paroquianos
de Cirilo. Tiraram-na de sua chorrete, rasgaram suas roupas e, arma
dos com conchas, esfolaram-na até os ossos. Seus pertences foram
queimados, seus trabalhos obliterados, seu nome esquecido. Cirilo foi
canonizado».

A fim de permitir urna avaliagáo objetiva dos fatos, pro-


poremos, a seguir, o contexto e os dados contidos ñas fontes
da historiografía referente ao assunto.

1. Contexto e fatos

1. A cidade de Alexandria (Egito), fundada em 331 a.C.


por Alexandre Magno, sempre foi um centro cultural de pri-
meira importancia na antigüidade, ilustrado por nomes famo
sos como os de Filón, Aristóbulo, Aristéias (entre os judeus),
Clemente, Orígenes, Dionisio, Dídimo, Atanásk), Cirilo... (en
tre os cristáos), e Platáo, Jamblico, Proclo, Olimpiodoro o
Anciáo, Teofrasto, Hipácia... (entre os pagaos). Principal
mente a biblioteca de Alexandria era famosa, fundada e enri
quecida pela dinastía dos Ptolomeus Lágidas, que assumiram
o governo do Egito após a morte de Alexandre Magno
(323 a.C).

Em 380, o Imperador Teodósio I (379-395) fez do Cato


licismo a religiáo do Imperio Romano, mediante o edito «De
Fide Catholica». Doravante, segundo a mentalidade da época,
todo cidadáo do Imperio deveria professar o Credo do Concilio
de Nicéia (325). Em conseqüéncia, foram tomadas medidas
de combate á mitología, á idolatría e as crengas pagas aínda
existentes no Imperio. Em Alexandria foram destruidos diver-

— 249 —
74 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

sos templos antigos e, em particular, o famoso Serapeion (391);


os templos pagaos nao destruidos eram nao raro convertidos
em igrejas. Quando os oficiáis do Imperio nao procediam a
essa tarefa, o povo e os monges se encarregavam da mesma.

Em 392 urna lei de Teodósio equiparava a alta traigáo


os sacrificios cruentos de animáis e o auspicio (adivinhagáo
mediante o exame das visceras de animáis).

A cultura paga procurou resistir a esses choques. Em 388


o velho retórico Libánio dirigiu-se ao Imperador Teodósio com
a sua «Oratio pro Templis». Sem resultado, porém.

No Ocidente, os esforgos do paganismo obtiveram algum


éxito sob o usurpador do trono Eugenio (392-394), que assas-
sinara Vespasiano II, encarregado da administragáo imperial no
Ocidente. Em Roma foram de novo autorizados os cultos pagaos
e a «Ara Victoriae» (altar da Vitoria) foi recolocada no
antigo Senado. Todavía a vitória de Teodósio, que governava
o Oriente do Imperio, em Isonzo (Aquiléia), pos fim ao res-
surgimento do paganismo.

2. É neste contexto que se há de considerar o episodio


concernente a Hipácia (370-415), filha do matemático Teáo de
Alexandria. — Nativa de Alexandria, Hipácia cultivou a ma
temática e a astronomía (sabe-se que escreveu tres obras a
respeito das quais só nos ficaram os títulos). Dedicou-se prin
cipalmente á filosofía, fortemente propensa á teurgia, tal como
era freqüente na escola de Alexandria. — Teurgia é a crenga
na possibilidade de que os deuses e demonios influam sobre os
fenómenos naturais; é também o conjunto de práticas desti
nadas a fazer que tal influencia se exerga em sentido favorável
á pessoa que a elas recorra. A teurgia se distinguía da teo
logía pelo fato de que esta fala de Deus, ao passo que aquela
atua sobre os deuses.

Entre os discípulos de Hipácia, refere-se Sinésio, que se


tornou cristáo antes da morte de Hipácia e foi nomeado bispo
de Ptolemaida em 409; Sinésio redigiu em suas obras caloroso
elogio á sua estimada mestra.

— 250 —
A FILÓSOFA HIPACIA 75

Nada mais se pode dizer a respeito de Hipácia a nao ser


que morreu numa celeuma popular em Alexandria.

As fontes historiográficas antigás (a Historia da Igreja


de Sócrates, 450, as obras de Suidas, Damáscio, Malalas) x con-
cordam entre si ao referir o episodio: ao voltar de urna via-
gem, Hipácia foi, por um grupo de pessoas, puxada para fora
de sua carreta, arrastada para uma igreja, despojada de suas
vestes e assassinada com pedras e cacos; o seu cadáver terá
sido esquartejado e espalhado pelos arredores. Uma das fontes
(Malalas), porém, refere que os restos moríais foram imedia-
tamente queimados.

Sobre a causa deste atentado, refere a fonte mais minu


ciosa, que é Sócrates (Historia Eclesiástica VII 13-15) o se-
guinte: a comunidade crista de Alexandria julgava que Hipá
cia tramava com o Prefeito Orestes de Alexandria contra o
bispo S. Cirilo; ora, no ambiente de tensóes entáo vigente, o
leitor Pedro terá chefiado um punhado de gente acalorada
para cometer o morticinio. Sao Cirilo nao haverá tomado
parte na faganha.

Decenios depois do acontecimento, o filósofo Damáscio


atribuia a responsabilidade do delito a Sao Cirilo: ao escrever
a «Vida de Isidoro, o filósofo», Damáscio, que era da escola
neoplatdnica como Hipácia, narra que certa vez, em margo de
415, o bispo Sao Cirilo passou ao largo de uma casa, diante da
qual viu uma multidáo de pessoas da alta sociedade que se
reuniam e esperavam; perguntou o que aquilo significava; res-
ponderam-lhe entáo que Hipácia realizava naquela casa seus
círculos de estudos. Tal resposta terá irritado Cirilo a tal ponto
que ele resolveu mandar matar Hipácia.

i A Identificado de tais fontes é apresentada com precisSo e erudi;fio


critica por K. Praechter na obra de Pauly-Wissowa citada na bibliografía
deste artigo. — Nño é propósito nosso descer a pormenores e á Indlcac'So
de manuscritos e comentarios de manuscritos, que supSe alta especlalizacfio
historlográfica.

— 251 —
76 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

Esta segunda explicagáo é tida pelo historiador K. Praech-


ter (ver bibliografía deste artigo) como inverossímil: é, sim,
improvável que Cirilo, bispo ardoroso como era, só no quarto
ano do seu ministerio episcopal em Alexandria, tenha tomado
conhecimento de Hipada e das suas atividades filosóficas; ape
nas um aeontecimento casual teria levado Cirilo a conhecer
a influencia de Hipácia e a resolver ¡mediatamente tirar-lhe a
vida! — Além do mais, é de notar que a explicagáo de Da-
máscio é tardía e ¡solada, tendo contra si o teor de narragóes
de fontes diferentes.

O mesmo historiador K. Praechter nota que, por ocasiáo


do Kulturkampfl alemáo, a responsabilidade de Cirilo no mor
ticinio de Hipácia foi muito discutida; interesses preconcebida
mente anticlericais teráo levado a acentuar a tese de Damás-
cio. A propósito, porém, observa Praechter: «Toda essa dis-
cussáo é ociosa, visto que a documentado é insuficiente para
esclarecer a participagáo de Cirilo no assassínio de Hipácia»
(ob. citada, col. 248).

A este testemunho faz eco, mais decidido e claro, o


de Johannes Geffcken (obra citada na bibliografía, p. 313,
nota 55):

«Nao padece dúvida que o relato do escritor cristao Sócrates,


que de resto, e com razao, se mostrava muito favorável a Hipácia, é
muito mais objetivo e útil para o compreensao do processo do mortici
nio do que o relato do helenista Damáscio, ornamentado com váo
palavrório sofistico».

Estes dados, colhidos em fontes históricas antigás e recen


tes, exigem da parte do estudioso urna reflexáo.

2. Que dizer?

1) É condenável o procedimento da populagáo crista de


Alexandria, que resolveu «fazer justica com as próprias máos»
contra Hipácia. Tais procedimentos sao geralmente passionais
e, muitas vezes, geram novas injustigas.

i Kulturkampf quer dizer literalmente: luta em prol da cultura. Significa


a luta movida pelo racionalismo do fim do século XIX contra a mentalidade
religiosa e as proposigoes de fé da Igreja Católica, especialmente apregoadas
pelo Concilio Vaticano I (1869-70). Tal luta redundou em confiscaclo e
secularlzagio de muitos bens da Igreja.

— 252 —
A FILÓSOFA HIPÁCIA 77

De resto, naquele ambiente de animosidade, nao somente


os cristáos se atiravam contra os pagaos; também estes se
langavam contra os cristáos. Referem as fontes, entre outros
casos, o linchamento de um estudante cristáo por volta
de 485-7.

Pode-se crer que no clima do século V d.C. tais fatos


pareciam menos graves do que hoje, quando se tem nogáo mais
clara da dignidade da pessoa humana e da liberdade de cons-
ciéncia que Ihe toca. Antigamente, de modo especial no con
texto dos séculos IV/V, talvez julgassem alguns que Ihes
incumbía, em consciéncia, o dever de exterminar violentamente
os adeptos e as propriedades de outras correntes de pensa-
mento. Em última análise, só Deus penetra e julga as cons-
ciéncias.

2) Quanto á autoría do morticinio de Hipácia, verifica-se


que nao é de bom criterio atribui-lo a Sao Cirilo; tal hipótese
carece de fundamento na respectiva documentagáo. É, antes,
o preconceito anticatólico que leva a propor ou sustentar essa
hipótese. Sao Cirilo de Alexandria foi eertamente um homem
de temperamento forte, batalhador, astuto e perspicaz, como o
prova a historia do Nestorianismo e do Concilio de Éfeso (431);
todo santo é feito da argila dos demais homens e traz em si
tendencias desregradas, que a graca de Deus aos poucos vai
amainando e burilando, para que possam condizer com a san-
tidade de Cristo; o retrato final, que a posteridade guardou
de Cirilo de Alexandria, é o de um santo, mas... um santo
que comegou a caminhar para a perfeigáo a partir da mesma
estaca que os demais homens; alguns santos chegam mais cedo,
outros chegam mais tarde ao auge da perfeigáo crista.

3) Nao há dúvida, havia certo antagonismo entre o Cris


tianismo e a cultura (letras, pintura, música, jogos, ciencia,
filosofía...) existente no Imperio. Isto se deve ao fato de
que toda a cultura greco-romana estava impregnada de men-
talidade paga; a própria filosofía, em Alexandria, nao era ape
nas o cultivo da inteligencia, mas estava associada a práticas
teúrgicas ou mágicas. Era preciso separar mitología e cultura
para que o Cristianismo pudesse assumir a cultura clássica.
Esta tarefa foi executada com muito zelo e proveito pelos mos-
teiros dos séculos VI-X: os monges «copistas» transcreveram
as obras dos autores romanos e utilizaram-nas para elaborar
urna nova cultura — a medieval —, que recorría copiosamente
aos grandes sistemas filosóficos da antigüidade, especialmente
os de Platáo e Aristóteles.

— 253 —
78 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

4) A versáo de Cari Sagan sobre a historia de Hipada


induz o estudioso a tomar, mais urna vez, consciéncia de quanto
é necessário usar de senso crítico quando se léem obras de his
toria. É oportuno que o leitor exija do seu informante a indi-
cacto das fontes donde tira suas noticias, pois muita coisa se
repete de boca em boca ou de livro em livro sem que os repe
tidores saibam justificar ou comprovar o que dizem!
Bibliografía:

BIHLMEYER-TUECHLE, Historia da tgreja, vol. I. Sao Paulo 1964.


DANIELOU-MARROU, Nova Historia da Igreja, vol. I. Petrópoiis 1966.
FAGQIN, G., Ipazia, em Enciclopedia Filosófica, vol. II. Roma 1957.
PERRATER MORA, J., Diccionario de Filosofía. Madrid 1980, verbetes
Alejandría (escuela de), Hipatia.
GEFFCKEN, J-, Der Ausgang des griectíisch-roemlschen Heidentunts.
Heidelberg 1929.
PRAECHTER, K., Hypalia, em Paufy-Wissowa Real-Encyclopadie der
clauischen Altertumswissenschaft, vol. IX, cois. 242-249.

(continuacao da P- 247)
d) Día 06/04/82 — A vidente vé o Papa Joño Paulo H
vestido de roxo, paramentado e de maos postas durante a Santa
Missa que eslava sendo celebrada.

e) 02/06/82 — Nossa Senhora diz: «Sou a Máe da


Igreja, e quero ,que todos obedegam. O representante de Deus no
mundo é o Papa Joao Paulo II». Nossa Senhora pede insistente
mente oracoes pelo Santo Padre, Cardeais, Bispos e Padres do
mundo todo...»

O Catecismo de Aldemar Ferrari está, portante, desauto-


rado pela comunidade da Santa Montanha: «seu conteúdo é
totalmente destituido de fundamento».
Somos gratos á informante por estas noticias. O conteúdo
de PR 273/1984 pp. 144-146 foi, em parte, retirado do Cate-
cismo de Ferrari. Como quer que seja, a Santa Montanha é,
no dizer dos seus adeptos, um lugar onde «o Menino Jesús
mesmo manda», de modo que os membros da comunidade «se
sentem obrigados em consciéncia a seguir orientacóes e avisos
do Menino Jesús e de Nossa Senhora». O Menino Jesús e Nossa
Senhora continuam a aparecer e faiar ali desde 1978.
Ressaltamos que se trata de visóes particulares, as quais
nao se impóem á fé dos fiéis católicos.
E.B.

— 254 —
Um filme de "suspense'

"O Dia Seguinte

Em síntese: O filme "O Dia Seguinte" descreve, em termos brandos,


as seqüelas de urna guerra nuclear entre a Rússia e os Estados Unidos da
América. Aprésenla casos de pánico, danos materiais infligidos ás cidades,
danos físicos e moráis causados ás pessoas. O autor do filme teve em
mira nao apenas descrever a catástrofe, mas propor reflexóes a respeito da
mesma: 1) a leviandade e a futilidade de vida dos homens contemporáneos
contrasta com as exigencias de seriedade do momento presente; repensem
sua escala de valores; 2) o mundo em que os homens se digladiam e
destroem, é mundo no qual se dissipa a esperanca das enancas e dos
Jovens; procuram-se motivos de esperanca em meio a tal desagregado dos
valores moráis; 3) "nao podemos estar altaneiros diante de Deus", exclama
no filme o Presidente dos Estados Unidos; requer-se, pois, urna sincera
conversao ao Senhor Deus; somonte a consciéncia de que há um Pal no
céu permite aos homens viver como irmáos na térra.

O filme é muito válido como advertencia aos homens que ignoram as


ameacas de mortal catástrofe que paira sobre o mundo, e como convite a
que pensem em impedir o desencadeamento de tal desgrasa.

O mundo tem sido impresionado pelo filme «The Day


After» (O Dia Seguinte) de Nicholas Meyer, que apresenta
um bombardeio atómico e as suas terriveis conseqüéncias para
a humanidade. O espetáculo é impressionante porque chama
a atengáo, com muita finura, para pontos da historia do sé-
culo XX que talvez nao sejam suficientemente considerados
pelo grande público.

Nosso intuito é resumir em poucas linhas o conteúdo do


filme e tecer alguns comentarios á problemática em foco.

1. O conteúdo do filme

O cenário é o da cidade de Lawrence, em Kansas, USA,


onde vive tranquila a respectiva populagáo, entregando-se a
futilidades, sem dar importancia ás ameacas de guerra ató-

— 255 —
80 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

mica que o noticiario do radio e da televisáo vai transmitindo.


«Nada acontecerá! As pessoas nao sao táo loucas! Hiroshima
nada foi!»

Entrementes preparativos de guerra se aceleram e a grande


catástrofe explode: véem-se os foguetes nucleares subir no
espago... Desencadeiam-se entáo na regiáo de Lawrence
incendios, desmoronamentos, destrocamentos,... densas nuvens
de poeira se levantam e obscurecem a atmosfera. As pessoas
procuram refugio em abrigos subterráneos, pois o ar está
poluído por efeito da radioatividade. Além dos mortos, há mui-
tas pessoas feridas, queimadas, abobalhadas, enlouquecidas,
desmemoriadas, cegas pelo fulgor das radiagóes. Os cadáveres
sao tantos que se torna iminente o perigo de doengas infeccio
sas. Em suma, a populacáo entra em pánico. Faltam alimen
tos e agua; por isto há roubos e crimes. Os campos estáo reco-
bertos por animáis mortos. Ainda há médicos e um hospital
na regiáo de Lawrence que tentam atender á multidáo de
necessitados. Os únicos seres vivos que atravessam incólumes
a catástrofe, sao os insetos! Tanto o territorio dos Estados
Unidos como o da Rússia sao atingidos pela guerra. Esta nao
dura muito tempo em virtude dos estragos ocorridos.

Pouco depois de assinado o cessar-fogo, o Presidente dos


Estados Unidos anuncia projetos de reconstrugáo e recupera-
gáo da vida no país. Todavía a populagáo se lamenta de sua
improvidencia e leviandade... «Sabíamos das bombas já qua-
renta anos atrás!» Perguntam os sobreviventes: «Quem come-
gou? Quem deu o primeiro disparo?» Verificam, porém, que
é inútil tal indagagáo, pois a reconstrugáo entre as vítimas é
urgente e é preciso suscitar focos de esperanca entre as víti
mas. Já um grande dentista predissera que a terceira guerra
mundial poderia ser efetuada com armas atómicas, mas que,
no caso, a quarta guerra se faria com pedras e paus!

Procuremos agora refletir sobre a película.

2. Ponderando...

Abstraindo do ponto de vista artístico e cinematográfico,


realcaremos tres aspectos da mensagem do filme.

— 256 _
«O DÍA SEGUINTE» 81

2.1. Advertencia

Antes do mais, verifica-se que o filme foi concebido como


alerta para o mundo de hoje, que, de um lado, é cada vez
mais ameacado por tremendas catástrofes e, de outro lado,
leva existencia fútil e leviana, como se o momento nao fosse
extremamente serio para todos os habitantes do globo. Alias,
o filme termina com a observagáo de que os produtores tenta-
ram apresentar urna imagem branda do que poderáo ser as
conseqüéncias de urna guerra atómica, «a fim de que nos mobi-
lizemos e evitemos tal catástrofe».

Nao vale a pena viver num mundo táo marcado pelo odio,
o egoísmo, a violencia e a maldade. É o que insinúa a cena de
urna máe que está para dar á luz, mas tem seu parto adiado:
ela pede que lhe digam palavras de esperanca para que possa
dar á luz com alegría, pois «nao sei se é melhor estarmos em
vida num mundo como este». O próprio Presidente dos Esta
dos Unidos, falando por urna cadeia de radio, afirma: «Pode
mos estar altaneiros diante dos homens, nao, porém, diante
de Deus».

2.2. Imagem branda

Os comentaristas do filme chamam a atencáo para o fato


de que urna guerra atómica terá conseqüéncias muito mais
graves do que aquelas que a película lhe atribuí. Na verdade,
teria sido difícil ou impossível esbogar mais nítidamente as
seqüelas de urna catástrofe atómica, pois esta seria total ou
radical. Em conseqüéncia, é utopia conceber o recomeco da
normalidade após o uso de armas nucleares. E isto, por diver
sos motivos:

1) difícilmente os países ditos «do Terceiro Mundo»


(entre os quais, o Brasil) escaparáo aos bombardeios. Com
efeito; tanto a Rússia como os Estados Unidos contam com
esses países (especialmente com os que gozam de certa indus-
trializagáo, como o Brasil) para refazer suas industrias e
reconstruir suas cidades após a guerra nuclear. Ciente disto,
cada qual dos dois adversarios visará também a tais países;

2) após a explosáo das armas nucleares, as cinzas e a


poeira provocadas cobriráo o sol durante mais de um ano,
impedindo a chegada dos raios solares á térra. Isto causará o

— 257 —
82 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

«invernó nuclear» com temperaturas inferiores a 30° negativos.


Ora este prolongado período de invernó deverá ser mortífero
para os habitantes da térra que sobreviverem á catástrofe;

3) a carnada de ozónio que protege a pele das pessoas


contra as radiacSes ultravioletas do sol, ficaria reduzida — o
que provocaría enorme aumento de casos de cáncer da pele;

4) seria inconcebivel o funcionamento eficiente de hos-


pitais para recuperar as vítimas da catástrofe; mesmo que nao
fossem todos atingidos pelos bombardeios, a falta de recursos
humanos e materiais tornaría inertes esses estabelecimentos.

Donde se vé que nao seria possível a algum dos belige


rantes vencer urna guerra nuclear, apesar do que insinúa o
filme e possam crer comentaristas imperitos no assunto. É,
alias, esta verificagáo que poderá deter os governantes das
nagóes na corrida armamentista. Isto, porém, nao impede que
por um engaño fatídico ou por um gesto de loucura o botáo
da morte seja apertado, deflagrando, mesmo contra a vontade
dos chefes dos povos, a catástrofe mundial.

2.3. Canto conceber nova esperanza?

O filme langa esta indagagáo, deixando-a em aberto, de


modo que cabe aos pensadores, principalmente aos que temem
a Deus, procurar-lhe urna resposta.

Cremos que pode haver esperanca de escaparmos ao fla


gelo de urna guerra nuclear, contanto que se prencham algu-
mas condigóes:

1) antes do mais, que o mundo se converta para Deus.


É impossível haver sentimentos fraternos entre os homens se
nao tém consciéncia de que possuem um Pai no céu. É utó
pico falar de paz enquanto nao há motivagáo transcendental
para a uniáo entre os homens. Observa sabiamente o Presi
dente dos Estados Unidos no filme: «Nao podemos estar alta-
neiros diante de Deus».

2) A solidariedade deve tomar o lugar do egoísmo. É


necessário que as exigencias do bem comum prevalegam sobre
interesses particulares.

— 258 —
«O DÍA SEGUINTE» 83

3) Saibam os povos e os individuos refazer a sua escala


de valores. A futilidade desvia a mente dos homens, dos gran
des temas que deveriam polarizar a atencáo de todos: a mise
ria, a fome, a falta de higiene, de escolarizagáo, etc. A situa-
gáo atual lembra espontáneamente as palavras de Jesús ao
comentar a época do diluvio bíblico:

«Como aconfeceu nos tempos de Noé, assim também acontecerá


quando vier o Filho do Homem. Com efeito, como naqueles días que
precederam o diluvio, homens e mulheres comiam, bebiatn e se casavam
até o día em que Noé entrou na arca, e nada perceberam até que
veio o diluvio e os levou o todos, assim acontecerá por ocosiño da
vinda do Filho do Homem... Vigiai, portanto...» (Mt 24,37.39.42).

Citando estas palavras, nao queremos insinuar que o fim


do mundo esteja próximo; seria temerario querer indicar a
sua data, visto que o próprio Jesús se furtou a isto (cf. At 1,7).
Cremos, porém, que a leviandade de muitos destoa da serie-
dade exigida pela hora presente. O próprio filme enfatiza
— e é esta urna de suas notas muito positivas — o contraste
entre a despreocupagáo dos habitantes de Lawrence antes da
catástrofe e a amarga decepgáo dos mesmos após a ocorrén-
cia: «Temos que nos acostumar a muita coisa», diz um dos
cidadáos a outro que reclama da falta de alimentos e agua.

3. Conclusao

A grande mensagem do filme está em langar um brado


de alarme a toda a humanidade a respeito do uso de armas
nucleares. Este brado se dirige nao somente aos estadistas e
responsáveis pelo destino das nacóes, mas também aos demais
cidadáos; a conversáo do mundo para a fraternidade e o mu
tuo entendimiento depende das conversóes individuáis; cada
pessoa humana é responsável pelo ambiente em que vive.
Quanto as passeatas e manifestagóes públicas em favor da paz,
tem caráter ambiguo. É certo que sao movidas por numerosas
pessoas sinceras que repudiam toda e qualquer guerra, princi
palmente a atómica; mas também parece nao haver dúvida de
que sao estimuladas por grupos de esquerda, que desejam pro
mover o desarmamento do Ocidente em favor das potencias

— 259 —
84 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 274/1984

da Cortina de Ferro. Do outro lado desta, nao se tém noticias


de tais manifestares, as quais, alias, seriam reprimidas pela
policía. O desarmamento há de ser bilateral ou universal, de
tal modo que o enfraquecimento unilateral de urna das duas
superpoténcias nao provoque os instintos de cobiga e agressáo
da outra parte contendente. «A renuncia unilateral á resis
tencia contra a injustiga provoca o que ela tenciona impedir:
a opressáo dos inocentes. Em nome da ética, o Estado tem o
direito de garantir a seguranca dos cidadáos, e isto mediante
a forca utilizada em caráter defensivo», lembrava o episco
pado alemáo em Carta de 27/04/83.

Ñas atuais circunstancias, enquanto nao se chega a um


acordó sobre desarmamento no mundo, é licito a urna nagáo
munir-se de armas atómicas na medida em que estas sao o
único recurso para intimidar oadvers ario e conter os seus
avancos. Esta deve ser urna situagáo provisoria; as armas ató
micas nao háo de ser construidas para fins de ataque, mas
táo somente com o objetivo de defender urna nagáo que se
julgue ameagada. Tal é a posigáo da Moral católica diante do
problema da liceidade de tais armamentos. Cf. PR 270/1983,
pp. 354-370.

Estcvao Bettencourt, O.S.B.

Correspondencia Miúda
Duas retificagóes se impóem:

1) Huberto Ronden: O Pe. Balduíno Kipper S.J. e o


Pe. Ney Brasil Pereira escreveram a esta redagáo, fornecendo
dados biográficos de Huberto Rohden, que corrigem os ele
mentos publicados em PR 273/84, p. 108:

H. R. nasceu em S. Ludgero (SC). Estudou filosofía e


teologia no Seminario Provincial dos Jesuítas em S. Leopoldo
(RS). Foi ordenado sacerdote diocesano na catedral de Flo-
rianópolis em iyOl/1920, juntamente com quatro colegas,
entre os quais o entáo Pe. Jaime de Barros Cámara. Seu pri-
meiro livro, lancado nesse ano, versava sobre a Divindade de
Jesús.

— 260 —
CORRESPONDENCIA MIÚDA 85

Depois de exercer o ministerio na arquidiocese de Floria-


nópolis, ingressou na Companhia de Jesús a 1V03/1924, onde
permaneceu até 1931 aproximadamente. Deixando a Compa
nhia, voltou para o clero diaocesano na diocese de Santa Ma
ría (RS); fundou entáo o Centro da Boa Imprensa. Era muito
apreciado como pregador e escritor; destaca-se como obra dessa
época o livro «Esplendores Eucarísticos», elogiado pelo Car-
deal Dom Sebastiáo Leme.

Aos poucos foi-se afaslando da Igreja — o que depreende


das suas obras: «Paulo de Tarso», «MJyriam» e «Agostinho».
Nao se deteve em escola alguma. mas foi profesando teorías
filosóficas-religiosas que guardavam parte da nomenclatura
crista, mas propunham conceitos do hinduísmo e do panteísmo.

Agradecemos aos dois ilustres informantes as noticias


ácima.

2) Santa Montanha: Deste santuario escreve-nos urna


pessoa integrante da comunidade, pedindo retificagóes á noti
cia publicada em PR 273/84, pp. 144-146. Transcrevemos os
pontos principáis da carta;

«1°) Urna coisa é Palmar de Troya; outra é a Santa Montanha.


Nao há dependencia nenhuma da Santa Montanha a Palmar.

2?) Alguns sacerdotes, urna comunidade de religiosas e alguns


leigos que freqüentavam a Santa Montanha e estavam ligados a
Palmar, foram desde 1979/1980 por Nossa Senhora mesma afasta-
dos da Santa Montanha, inclusive o Pe. Aldemar Ferrari (D. Matías
M. Ferrari...), que nunca mais aqui apareceu.

3') O Santuario que desde o inicio da década de 70 Nossa


Senhora vinha anunciando existiría aqui com o nome de Santuario da
Divino Misericordia, foro e está sendo concretizado na década de 80,
a pedido de Nossa Senhora, diretamente a um casal de Sao Paulo,
¡á falecido, mas que levara a serio tal pedido. Sonriente depois, foi
organizada aqui, com Estatutos próprios e registrada em cartório a
Obra da Divina Misericordia, que recebera a doacao da Santa Mon
tanha, propriedade particular, estando incluido o Santuario.
4«) O Convento aqui existente também foi anunciado no inicio
da década de 70; foi concretizada a construcao em 1979, também
a pedido de Nossa Senhora diretamente, com a minha vinda defini-

(Continua á p. 247)

— 261 —
Irnos em estante
O Deus de Jesús Cristo, por varios autores. Curso de Teologia/2.
Traducáo e adaptadlo de Olivo Cesca. — Ed. Cidade Nova, Sao Paulo
1984, 140 x 210 mm, 327 pp. 327 pp.

é este o segundo volume de valioso Curso de Teologia para Leigos


(e também para Religiosos e Clérigos) traduzido do italiano pela Editora
Cidade Nova. Os colaboradores constituem urna equipe internacional: Giu-
seppe M. Zanghi, Albert Dreston, Joan Back, Gérard Rossé, Hanspeter
Heinz, Judith Povilus, Jesús Cartel laño Cervera, Vera Araújo, Enrique Cam-
bón, Gaspar Mura, Piero Coda, Wilfried Hagemann, Marisa Corini, Antón
Weber, Silvano Cola, Giovanni d'Alessandro, Maria Magnolfi.

O plano da obra é ampio: comeca com citacáo de toxtos do hin-


duísmo e do Isla que atestam a busca de Deus por parte dos nao cristáos;
estes textos revelam a aspiragáo congénita de todo homem ao Ser Infinito
(cap. I). A seguir, vem o estudo de Deus revelado através do Antigo Tes
tamento (cap. II) e do Novo Testamento (cap. III); o cap. IV apresenta o
desenvolvimento da compreensáo, na Igreja, do Deus revelado por Jesús
Cristo: aborda os pronunciamentos dos Concilios de Nicéia (325) e Cons-
tantinopla I (381) e, de modo especial, a doutrina de Sao Boaventura
(t 1274) como representante da Alta Escolástica; iáo falta a exposicáo de
como procede a refiexSo sobre Deus ñas comunidades cismáticas do
Oriente, ñas da Reforma protestante e na Comunhio Anglicana. No cap. V
sao colacionados testemunhos de místicos e de cristáos que faiam de Deus
a partir da sua experiencia pessoal. Finalmente, o cap. VI aborda o pro
blema do ateísmo contemporáneo em suas diversas formas, assim como
a temática "Deus, descrenca e Trindade na América Latina".

O livro é de certo nivel intelectual; abre largos horizontes ao per-


correr a historia do Cristianismo e um pouco de historia das Religióes;
em tudo conserva-se fiel ao pensamento da Igreja. É muito valorizado
pelas numerosas citaedes que faz de escritores antigos e contemporáneos,
cristáos e nao cristáos. Os autores souberam por em relevo os aspectos
vivenciais e as aplicacSes á espiritualidade dos diversos temas abordados.
Muito interessantes, entre outros, sao o estudo dos textos do Novo Testa
mento (pp. 89-147), o do pensamento de S. Boaventura (pp. 176-197), o
da teologia oriental (pp. 198-213)...

O prlmelro volume da Colecáo tratava de Jesús Cristo como sendo o


Grande Revelador do Pal e do misterio de Deus. Já foi apresentado em
PR 271/1983, p. 521.

Fazemos votos para que venham sem demora os volumes subse-


qüenles da Colecáo, cujo uso beneficiará grandemente os estudiosos de
Teologia no Brasil.

Operarios da PrUnelra Hora. Perfis dos Padres da Igreja, por Silvano


Jola. Traducfio e adaptagáo de Enrico Pepe. — Ed. Cidade Nova, Sao
Paulo, 145 x 210 mm, 135 pp.

Sao chamados «Padres (País) da Igreja" os escritores (Bispos, pres


bíteros, diáconos e leigos) que, com sua pena, contribuirán para a formu
lado auténtica e fiel das verdades da fó nos primelros sáculos, quando

— 262 —
LIVROS EM ESTANTE 87

diversas heresias arr.eacavam perverter o significado das mesmas. No Oci-


dente, o período dos Padres se encerra com Sao Gregorio Magno (t 604),
ao passo que no Oriente vai até Sao Joáo Damasceno (t 749).

As obras desses Mestres sao pouco conhecidas no Brasil, em parte


porque vasadas em estilo próprio e enquadradas em contextos de historia,
cujo conhecimento escapa, nao raro, ao público. SSo, porém, escritos ricos
de teología e espiritualidade.

A Silvano Cola toca o mérito de tiaver preparado urna antología de


textos de dezesseis escritores antigos, recolocados na moldura da vida
do respectivo autor. Os textos assim tomam significado eloqüente e inte-
ressam ao teólogo, ao historiador como também ao cristáo que procura
o pao de sadia espiritualidade. A colegáo comeca com S. Inácio de Antio-
quia (t 107) e termina em S. Máximo o Confessor (t 652). Silvano Cola
apresentou cada escrito com um subtitulo que bem caracteriza o respec
tivo pensamento: "A Unidade da Igreja", "Um Coracáo de Pastor", "Aus-
teridade e Disciplina"...

O livro revela ao leitor o vulto heroico de grandes homens da Tra-


dicáo crista e lembra-lhe a necessidade de estar á altura de táo dignos
antepassados, dando claro testemunho da doutrina de Cristo em tneio as
contradicóes dos nossos tempos.

A oracáo: eu a reencontrei, por Pierre Guilbert. Traducáo de Blan-


che Torres. — Ed. Cidade Nova, Sao Paulo 1984, 140 x 210 mm, 104 pp.

Este livro se deve a um sacerdote francés, o qual narra urna expe


riencia de vida que o marcou profundamente. "Eu já nem rezava mais.
Nunca ou quase nunca. Se urna vez ou outra as circunstancias me obri-
gavam a orar, o tempo consagrado á prece parecia-me longo, interminá-
vel... Havia sempre outra coisa a fazer, mais urgente, mais importante,
mais útil. NSo me sobrava tempo para rezar... Um certo arrependimento
vinha perturbar-me, ás vezes. Outrora eu havia rezado; eu já sentirá o
gosto da oracao..." (p. 7). Finalmente certo dia aceitou um convite
para fazer um retiro espiritual com um pregador famoso; aceitou um tanto
hesitante; e nesses dias de recolhimento descobriu o valor e a prática da
oracSo... A resistencia da natureza ao recolhimento fez-se sentir repeti
damente... Mas P.G. perseverou nos seus propósitos. Alias, ele frisa
mais de urna vez que Deus nao abandona a quem O procura: "Se te velo
o desejo de rezar, é porque Deus anlmou esse desejo em teu coracao.
NSo foste tu que o encontraste sozinho. Foi Ele quem, em primeiro lugar,
desejou a oracáo por ti. Logo de entrada, essa cónviccáo se sitúa em ter
reno firme. Poderes hesitar, vacilar, recuar, adiar... sempre. Mas
Deus nunca deixará de desejar a prece por ti.. Encontra-Lo-ás a cada
passo, pronto a munir-te do necessárlo para que tu a alcances — a come-
car pela afirmacSo do teu desejo" (p. 27).

Em suma, o livro é o eco de profunda vivencia na escola do Se-


nhor, vivencia cujos resultados positivos o Pe. Guilbert quer comunicar
aos seus leitores.

A Biblia nos une... A interpretacao nos separa, por Joao Ubaldo


da Silva. Ed. própria, Carangola 1984, 155 x 223 mm, 63 pp. — Pedidos
ao autor: Rúa Cel. Manoel de Souza 179, 36800 Carangola (MG).

— 263 —
88 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS » 274/19S4

O autor analisa doze pontos em que os protestantes divergem dos


católicos (imagens, purgatorio, culto dos santos, só a Biblia, conflssáo
sacramental, o Papa, virgindade de María, oracSo pelos mortos, celibato,
Eucaristia, só a fé, Igreja e política). Mostra que a doutrina católica está
plenamente baseada sobre as Escrituras; por conseguinte, o que faz diver
gir entre si católicos e protestantes é a tradicao que acompanha e inter
preta a Biblia; os protestantes nao seguem apenas a Biblia como dizem,
mas seguem também urna tradic&o, que Ihes fornece a InterpretacSo da
Biblia na sua respectiva denominacao (presbiteriana, metodista, batista,
adventista, etc.). Resta saber qual a tradicao mais autorizada: aquela que
comeca com Jesús Cristo e os Apostólos ou a que comeca com Martlnho
Lutero, Joao Calvino, John Knox, Wesley, Joseph Smith... ?

O Iivro é milito oportuno no diálogo com os irmfios separados, pois


fornece aos católicos as respostas de que necessitam para nao se deixar
arrastar pelas propostas protestantes.

A historia, o filme e vocé ou O olho mágico, por Irene Tavares de Sá.


Colegio "Juventude e Libertacao", Ed. Paulinas, Sao Paulo 1984, 130 x 200,
232 pp.

Irene Tavares de Sá é educadora e cultora da arte; de modo parti


cular, tem-se aplicado á critica de cinema.

Neste livro a autora traz para o conhecimento e a reflexáo dos jovens


"nomes que a historia guardou, historias que o cinema contou", o que
quer dlzer: descreve a vida e a obra de grandes personalidades (Gallleo,
Copérnico, Buffon, Bugainville, Charles de Foucauld, John Ford...) como
também o enredo de filmes notáveis dos últimos tempos ("A Biblia", "Os
doze Mandamentos", Ester e o Rei", "Pocote", "O homem de Mármore"...).
A Prof? Irene Tavares de Sá procura sempre por em relevo a mensagem
educativa de cada qual dos nomes que analisa, ajudando assim os jovens
a refletir. O seu método biográfico e áudio-visual é adequado á psicología
do público contemporáneo, que através do cinema e da televisSo se acos-
tumou a aprender por vías concretas e sensfveis. Só podemos elogiar a
autora por mais esta obra de valor pedagógico.

Palavras de Cristo na Cruz, por Ralfy Mendes de Oliveira. — Ed. Sale-


siana Dom Bosco, Sao Paulo 1984, 140 x 210 mm, 88 pp.

O Pe. Ralfy M. de Oliveira é conhecido promotor de Catequese, que


agora brinda o público com um livro de reflexoes e preces inspiradas pelas
sete palavras de Jesús na cruz: Le 23,34.43.46; Jo 19.26s.28.30; Mt 27,46.
Antes de analisar os sete dizeres de Jesús, o autor reconstituí a historia
do carregamento da cruz, propde um quadro sinótlco da cruciiixao e
morte de Jesús segundo os quatro Evangelistas assim como a lista de pro
fecías citadas nos relatos da Paixio do Senhor.

O teor do livro é de piedade sólida, que pode levar o leitor a cultivar


a meditacSo e o coloquio com Deus.

E.B.

— 264 —
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