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Folha de S.Paulo - Rosely Sayão: Tapinha dói - 27/07/2010 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2707201011.

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São Paulo, terça-feira, 27 de julho de 2010

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ROSELY SAYÃO - roselysayao@uol.com.br

Tapinha dói

Educar é introduzir a criança ao


mundo do convívio civilizado. Bater,
portanto, não faz o menor sentido

MUITAS mães pensam que um tapinha dado no filho, com


amor e boa intenção, não dói. Dói sim, e como dói! E não
apenas no corpo. Claro, este padece nessa hora, mas a
criança fica principalmente magoada com aquele adulto de
quem espera proteção, amor e cuidado, e não agressão.
Resultado: o vínculo de confiança que deveria haver entre
eles pode ser afetado, prejudicado.
Por que ainda se bate em criança? Há quem acredite que o
ironicamente chamado "tapa pedagógico" tenha efeito
educativo. Não tem, e isso pode ser constatado no próprio
convívio com crianças que levam castigos físicos quando
cometem alguma transgressão. Crianças de todas as classes
sociais, desde bem pequenas, apanham porque não
conseguem ainda se controlar e fazem o que os adultos
esperam que já saibam que não poderiam ou deveriam fazer.
Mas voltam a cometer a mesma falta. E apanham novamente.
Precisariam de mais castigo, ou de castigos mais severos?
Elas precisam é de adultos que as ajudem e as socorram
quando se entregam a seus impulsos e caprichos, isso sim.
Acontece que, hoje, os adultos estão tão ocupados consigo
mesmos que têm dificuldade em ter esse trabalho com as
crianças: esperam que elas acatem as regras de primeira.
Esquecemos o que é ser criança.
Sempre é bom lembrar que educar uma criança é socializá-la,
ou seja, introduzi-la no mundo do convívio civilizado. Bater
em uma criança para ensinar a ela que é preciso saber
esperar, mostrar respeito ao outro, relacionar-se com boas
maneiras e aceitar alguns impedimentos na vida não faz o
menor sentido, portanto. É contraditório.
Sabemos muito bem que alguns pais batem em seus filhos
simplesmente porque se descontrolam, porque perdem ou
percebem que não têm a autoridade moral sobre a criança

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Folha de S.Paulo - Rosely Sayão: Tapinha dói - 27/07/2010 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2707201011.htm

para educá-la. Mas aí o problema é só do adulto. A criança, o


elo mais fraco dessa relação, não deveria ser o alvo desse
descontrole.
Isso posto, não há como defender o uso de castigos físicos
em nome de uma boa educação. É possível, quando
necessário, aplicar sanções à criança ou ao jovem que não
são humilhantes ou violentas, tanto sob o aspecto físico
quanto moral.
Hoje, a sociedade brasileira discute um projeto de lei contra
castigos físicos aplicados em crianças ou adolescentes. Dá
para entender o espírito dessa lei, tanto quanto o do Estatuto
da Criança e do Adolescente: proteger as gerações mais
novas.
A parte difícil nessa história é reconhecer que vivemos num
mundo e num país em que precisamos de leis para que os
adultos cuidem bem das crianças e dos adolescentes, não é
verdade? Tanto que o próprio estatuto já é execrado por
muita gente, inclusive e principalmente por pessoas que
trabalham com crianças.
É verdade que a infância e a adolescência vivem, na
atualidade, envoltas em práticas violentas. Sofrem violência e
a praticam também. Por isso, temos um importante
compromisso com os mais novos. Mas não temos levado
muito a sério essa responsabilidade já que, cada vez mais,
procuramos e aceitamos a intervenção do Estado para
legislar a vida privada.
Cuidar bem de nossas crianças significa educá-las com
autoridade firme e doçura, amar a vida, ter apreço pela
liberdade e defender a autonomia. Mas isso tem um custo, é
claro, com o qual parece que não queremos arcar.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?"


(ed. Publifolha) blogdaroselysayao.blog.uol.com.br

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