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Da Ética Contextualista à Moral Universal

Aluno: Caius César de Castro Brandão (caiusbrandao@globo.com) Orientadora: Profª Drª Helena Esser Reis (helenaesser@uol.com.br) Universidade Federal de Goiás, 74001-970, Brasil

PALAVRAS-CHAVE: Justiça, moralidade, poder, classes sociais.

1

INTRODUÇÃO

Através desta Pesquisa de Iniciação Científica, nos propomos a relacionar o resultado de uma investigação sobre a justiça em Foucault com a primeira hipótese proposta no Projeto de Pesquisa CIDADANIA E JUSTIÇA: Exigências Ético-Políticas do Estado Democrático Tocquevilliano, coordenado pela Profª. Drª. Helena Esser dos Reis, a saber:

“Que a idéia de justiça compartilhada pelo gênero humano cumpre o papel de norma moral universal (a qual, embora inscrita na necessidade histórico providencial, não é exterior à vontade, à razão e à ação humana) que confere aos cidadãos um critério último para julgar a própria ação e a ação coletiva.”

A biografia de Michel Foucault nos revela um pensador que não se manteve

alheio às questões políticas e sociais que tecem a história da humanidade

marcada por lutas e dominações entre diferentes estratos de nossas sociedades. Para Foucault, não seria suficiente denunciar que por trás de um aparelho estatal existe uma classe dominante. Crítico da suposta centralidade do poder estatal, ele reconhece que o poder político é exercido mediante uma pluralidade de centros e pontos de apoio invisíveis e desconhecidos. Desta forma, a tarefa que ele assume como intelectual é a de localizar e expor os diferentes pontos de atividades do poder; os lugares e as formas nas quais a dominação é exercida. Antes de mergulhar nos textos de Foucault, tomamos o cuidado de identificar um parâmetro de investigação acerca do conceito e funcionamento da justiça. Adotamos a estratégia de não tratar neste trabalho das questões epistemológicas e da hermenêutica

uma história

do sujeito, constitutivas da ética foucaultiana, para colocarmos o foco na abordagem que o filósofo faz da justiça enquanto instrumento de poder entre classes sociais. Em seguida, abordaremos a questão do poder e a sua relação com os processos de elaboração do discurso, com referência à palestra proferida por Foucault em sua aula inaugural no Collège de France, em 1970, intitulada “A ordem do discurso”. Também utilizaremos como fonte argumentativa a transcrição de um debate, de 1971, entre Michel Foucault e Noam Chomsky, facilitado pelo filósofo holandês Fons Elders. Intitulado Human Nature: Justice versus Power (Natureza Humana: Justiça versus Poder), este debate traz à baila uma antiga questão filosófica sobre a existência de uma natureza humana inata, independente de nossas experiências e de influências externas. No centro da discussão, subjaz a veemente objeção foucaultiana à noção de justiça enquanto um princípio inato e absoluto. Neste debate com Chomsky, Foucault afirma que a justiça é uma idéia constituída para servir como instrumento de certo poder político e econômico ou de resistência contra ele. Nosso próximo passo será uma breve análise de seu livro Vigiar e Punir, de 1975, pela qual pretendemos demonstrar que o estudo foucaultiano do sistema judicial penal europeu enfatiza a utilização da justiça em termos de lutas sociais. No capítulo Sobre a Justiça Popular, em Microfísica do Poder, Foucault reconhece que a justiça popular é um instrumento de resistência importante e autêntico, das classes oprimidas. A pergunta central do debate é se o tribunal popular pode ser uma expressão da justiça popular. Na resposta de Foucault a esta questão, buscamos uma possível definição para o conceito de justiça popular e a compreensão de quais circunstâncias políticas, econômicas e sociais ela se faz necessária.

2

DISCUSSÃO

2.1

O Conceito de Justiça

Desde a antiguidade, a filosofia ocidental vem se ocupando com temas relacionados à política e aos costumes. A questão da justiça, por exemplo, sempre recebeu de distintas correntes filosóficas um papel de destaque em seus esforços de elucidação conceitual. Aqui, no entanto, não nos interessa realizar um inventário das diferentes conceituações de justiça ao longo da história da filosofia, mas apenas estabelecer um parâmetro para classificar as tendências mais clássicas em duas formas

distintas de falar sobre justiça. Na primeira, justiça se refere ao sujeito ou ao seu comportamento em relação à norma. Na outra, a justiça é tomada como meio para um bem maior. Esta análise nos deu critérios para reduzir a amplitude do campo de investigação filosófica sobre a justiça nas obras de Foucault. Portanto, não foi trivial a nossa escolha de desprezar toda a hermenêutica do sujeito e a analítica da relação entre verdade e poder. Subtraímos da nossa abordagem os estudos epistemológicos e as questões sobre a justiça no âmbito da subjetividade para voltar a nossa atenção ao funcionamento da justiça enquanto instrumento de poder. De acordo com Nicola Abbagnano, justiça é “em geral, a ordem das relações humanas ou a conduta de quem se ajusta a essa ordem.” 1 A partir desta definição, Abbagnano realça duas abordagens distintas, a saber: por um lado, temos o critério de julgamento da pessoa ou do seu comportamento em relação à norma e, por outro, o critério de julgamento da norma que regula o comportamento das pessoas. No primeiro caso, o foco é a pessoa ou o seu comportamento, no segundo, temos a própria norma como dado a ser avaliado quanto à sua eficácia, ou seja, “sua capacidade de possibilitar as relações humanas.” 2 Sob este ponto de vista da justiça como condição de possibilidades para se garantir um fim benéfico ao homem e às relações entre os homens (a convivência, a

felicidade, a utilidade, a liberdade ou a paz) se desenvolveram diferentes correntes consideradas clássicas na história da filosofia ocidental. A novidade, em Michel Foucault,

é que ele toma a justiça como instrumento de poder, sob a ótica das lutas sociais. Essa é

a abordagem que agora passamos a analisar.

2.2 O Intelectual e a Microfísica do Poder

Sob a perspectiva do compromisso político de Foucault reside uma possibilidade de compreensão da palestra proferida por ele em sua aula inaugural no Collège de France, em 1970, intitulada “A ordem do discurso”. Apenas um ano após assumir a prestigiosa cadeira que antes pertencia ao já falecido Jean Hyppolite, Foucault participou de um debate com Noam Chomsky, Human Nature: Justice versus Power (Natureza Humana: Justiça versus Poder), facilitado pelo filósofo holandês Fons Elders. Quando questionado por Elders acerca do seu interesse pela política, Foucault responde que “a essência de nossas vidas consiste, afinal, no funcionamento político da sociedade na qual

1 ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. 1ª edição brasileira. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

2 Idem.

nos encontramos” 3 [tradução nossa]. Oportunamente, salientamos que democracia, para Foucault, é o efetivo exercício de poder por uma população que não é dividida, nem hierarquicamente ordenada em classes sociais. Foucault prossegue:

“É óbvio que estamos vivendo sob um regime ditatorial de classes, sob um poder de classe que se impõem pela violência, até mesmo quando os

instrumentos de tal poder são institucionais e constitucionais. (

admito não ser capaz de definir, nem mesmo por razões ainda mais fortes de propor, um modelo ideal de funcionamento de nossa sociedade

científica e tecnológica. (

imediata e urgente, acima de qualquer outra coisa, é essa: Deveríamos indicar e demonstrar, até mesmo quando estiverem escondidas, todas as

relações de poder político que controlam, oprimem e reprimem o corpo social.” 4 [tradução nossa]

) Eu

)

Por outro lado, uma tarefa que me parece

A princípio, algumas instituições, diferentemente da polícia, do exército e do tribunal judiciário, não demonstram nenhuma relação com o poder político. Por exemplo, a Universidade ou o sistema educacional como um todo podem parecer fazer nada mais do que simplesmente disseminar conhecimento. Mas, na visão de Foucault, “elas são feitas para manter certa classe social no poder; e para excluir os instrumentos de poder de outra classe.” 5 No capítulo IV da “Microfísica do poder” – Os intelectuais e o poder - Conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze, Foucault nos deixa clara a sua posição política, conforme podemos observar no seguinte trecho:

“Ora, o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. Os próprios intelectuais fazem parte deste sistema de poder, a idéia de que eles são agentes da "consciência" e do discurso também faz parte desse sistema. O papel do intelectual não é mais o de se colocar "um pouco na frente ou um pouco de lado" para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da "verdade", da "consciência", do discurso.” 6

3 FOUCAULT, M. e CHOMSKY, N. Human nature: justice versus power. Disponível em http://www.chomsky.info/debates/1971xxxx.htm

. 20/05/2010

4 Idem.

5 Idem.

6 FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. São Paulo: Ed. Graal, 1979. (p. 71)

Portanto, não é trivial a tese de que Foucault tenha feito exatamente isto – lutar contra uma forma de poder, ao colocar em pauta a ‘ordem do discurso’ em sua aula inaugural no Collège de France. Se o papel da Universidade é manter certa classe social no poder; e se é verdade que a instituição deva ser atacada em seu âmago para ser destruída, então, cogitar a subversão da ordem do discurso parece ter sido mesmo a melhor estratégia para questionar o papel do sistema educacional numa sociedade dividida em classes. A Universidade, o manicômio e a prisão são instituições que foram alvo da genealogia do poder desenvolvida por Foucault ao longo da sua vida de trabalho. Vejamos o que Foucault tem a dizer sobre o poder, enquanto discute o papel do intelectual em seu debate com Deleuze:

“Existe atualmente um grande desconhecido: quem exerce o poder? Onde o exerce? Atualmente se sabe, mais ou menos, quem explora, para onde vai o lucro, por que mãos ele passa e onde ele se reinveste, mas o poder Sabe-se muito bem que não são os governantes que o detêm. Mas a noção de "classe dirigente" nem é muito clara nem muito elaborada.

"Dominar", "dirigir", "governar", "grupo no poder", "aparelho de Estado",

etc

necessário saber até onde se exerce o poder, através de que revezamentos e até que instâncias, freqüentemente ínfimas, de controle, de vigilância, de proibições, de coerções. Onde há poder, ele se exerce. Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros do outro;

não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui.” 7

é todo um conjunto de noções que exige análise. Além disso, seria

Em “A ordem do discurso”, Foucault nos fala deste mesmo poder e o relaciona com aquilo que seria um processo ordenado de produção de discursos em nossas sociedades. Os discursos cotidianos são mais efêmeros do que os “discursos sérios” da instituição, tais como o da medicina, da psiquiatria e da política. Para Foucault, “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo pelo que se luta, o poder que queremos nos apoderar.” 8 Ele então abandona a hermenêutica e toma o discurso como prática social. Foucault se coloca acima do nível da proposição de um texto para analisar o discurso enquanto um ‘acontecimento’ que se dá mediante condições de possibilidades e regras pré-estabelecidas. Em “A ordem do discurso”, Foucault coloca a seguinte hipótese:

“Suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que tem por função conjurar seus poderes e

7 Idem.

8 FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso Aula inaugural no College de France. Pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo. Ed. Loyola: 1996. (p. 10)

perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.” 9

2.2 Crítica ao Ideal de Justiça

A antropologia filosófica se propõe a explicar a idéia de justiça a partir de reflexões acerca da natureza humana, ou seja, a partir de certas estruturas fundamentais do homem. Noam Chomsky – filósofo, lingüista e militante político contemporâneo – por sua vez, realiza estudos lingüísticos empíricos para identificar certos “conhecimentos instintivos” ou “princípios organizadores” 10 inatos ao ser humano, os quais orientam nossos comportamentos sociais e individuais. Em suma, tais princípios seriam um dos componentes fundamentais daquilo que ele chama de natureza humana. Chomsky afirma que o conhecimento de princípios inatos, mesmo que parcial, deve ser posto a serviço da elaboração de uma teoria social humanista com o objetivo visionário de construir uma sociedade justa. Tendo Foucault como seu interlocutor em um debate 11 facilitado por Fons Elders, Chomsky faz a seguinte ponderação:

“Acredito que seria uma grande pena deixar inteiramente de lado a tarefa filosófica, e de certa forma mais abstrata, de tentar estabelecer conexões entre um conceito de natureza humana – que permite total alcance à liberdade, dignidade, criatividade e outras características humanas fundamentais – e a noção de uma estrutura social na qual tais

propriedades poderiam ser concretizadas

(

)”

12 [tradução nossa].

Foucault, ao contrário de Chomsky, não atribui à noção de natureza humana um valor científico. Ele argumenta que não foi através do estudo da natureza humana que Freud descobriu os princípios de análise dos sonhos, ou antropologistas culturais as estruturas dos mitos. Em seguida, Foucault afirma:

“Na história do conhecimento, a noção de natureza humana me parece ter desempenhado, principalmente, o papel de referência epistemológica para designar certos tipos de discursos, em relação ou em oposição à teologia, biologia ou história. Eu dificilmente veria nisto um conceito científico.” 13 [tradução nossa].

9 Idem. (p. 8)

10 CHOMSKY, N.; FOUCAULT, M. Human Nature: Justice versus Power. Disponível em http://www.chomsky.info/debates/1971xxxx.htm . 20/05/2010

11 Idem.

12 Idem.

13 Idem.

Reconhecendo a inexistência de qualquer fundamento absoluto e universal, como alguns pensadores atribuem à idéia de natureza humana, Foucault não se compromete em propor um modelo de justiça para a sociedade. Ele chega a questionar a validade da utilização da noção de justiça ideal como fundamento de uma crítica do funcionamento da justiça instuticional. Para ele, é a utilidade para as lutas de classe que justifica o conhecimento sobre a justiça, sobre como ela é disseminada nos discursos e práticas das instituições, e sobre os objetivos de quem a instituiu e controla. Foucault reconhece que a questão da justiça está sempre presente em todas as lutas sociais, mas adverte, “ao invés de pensar a luta social em termos de ‘justiça’, deve-se enfatizar a justiça em termos de luta social.” 14 [tradução nossa] A classe oprimida não inicia uma guerra contra a classe opressora porque considera tal guerra justa, mas porque ela quer, finalmente, tomar o poder. Por outro lado, no seio de uma sociedade divida em classes, a noção de justiça pode funcionar como uma demanda dos oprimidos ou como uma justificativa para tal demanda. Ao invés de tratar a idéia de justiça como um princípio absoluto e inerente à natureza do homem, Foucault a coloca no plano da historicidade das relações de poder. A história da justiça demonstra que ela nada mais é do que algo inventado para servir como instrumento de certo poder político e econômico ou de resistência contra este poder. Esta civilização que constrói muros para separar classes sociais possui um tipo de conhecimento e uma forma de filosofia que possibilitam a formação de certos conceitos, tais como o de natureza humana, de essência do homem, e de justiça. Para Foucault, seria infrutífera a tentativa de utilizar uma noção de justiça ideal para definir ou justificar a luta das classes oprimidas contra seus opressores, porque esta luta deveria, em princípio, modificar os fundamentos do nosso modelo civilizatório. Quiçá teríamos uma noção diferente de justiça numa sociedade sem divisão de classes. Como veremos a seguir, o estudo arqueológico que Foucault faz do sistema judicial penal europeu enfatiza a noção de justiça como instrumento de poder e dominação.

2.3 O Poder de Fazer Justiça

Em 1975, Michel Foucault publica Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. Nesta obra, a aurora do homem moderno aparece relacionada ao desenvolvimento da

14 Idem.

tecnologia disciplinar e de uma ciência social normativa. Entre os séculos XVIII e XIX, a

Europa sofreu significativas transformações políticas e econômicas que nutriram o

surgimento do Estado moderno e, com ele, um novo poder de julgar e punir.

Nos antigos regimes monárquicos, o poder de fazer justiça estava inscrito na

pessoa do soberano, mesmo tendo ele conferido aos tribunais a tarefa de exercer tal

poder. Isto, no entanto, não é uma alienação do seu direito de julgar, já que ele resguarda

pra si o direito de suspender ou confirmar as decisões dos tribunais. O príncipe

personifica a justiça de tal forma que sempre quando um crime é cometido, o poder

soberano é diretamente atacado. Para Foucault, “a intervenção do soberano não é ( )

uma arbitragem entre dois adversários; (

O castigo do condenado servirá para demonstrar a força quase infinita do príncipe, de

onde provém o direito de fazer justiça. O aparelho de justiça deixa claro que tal direito não

pertence aos súditos. “Diante da justiça do soberano, todas as vozes devem-se calar.” 16

Talvez o castigo não funcione como reparação do dano causado à vítima, mas como

vingança pessoal do príncipe.

Até meados do século XVIII, o suplício dos condenados era uma prática comum

em toda a Europa. De acordo com Foucault, em Vigiar e Punir:

é uma réplica direta àquele que o ofendeu.” 15

)

“A morte-suplício é a arte de reter a vida no sofrimento, subdividindo-a em ‘mil mortes’ e obtendo, antes de cessar a existência, the most exquisite agonies. O suplício repousa na arte quantitativa do sofrimento.”

Gradativamente, a eficácia dos suplícios começa a ser questionada pelos

operadores da justiça. Os espetáculos de crueldade por vezes causavam tumulto social.

Outro problema são os casos em que condenados passam a ser considerados heróis

populares pelas massas, porque ousaram desafiar o poder do soberano. Foucault faz a

seguinte ponderação:

“No abandono da liturgia dos suplícios, que papel tiveram os sentimentos de humanidade para com os condenados? Houve de todo modo, de parte do poder, um medo político diante do efeito desses rituais ambíguos.” 17

Para Foucault, seria um exagero atribuir como causa da mitigação das penas na reforma do sistema penal o aumento de sensibilidade da sociedade européia ou os esforços de reformadores humanistas:

15 FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987.

16 Idem.

17 Idem.

“Não foram os mais esclarecidos dos expostos à ação da justiça, nem os filósofos inimigos do despotismo e amigos da humanidade, não foram nem os grupos sociais opostos aos parlamentares que suscitaram a

reforma. (

contra todos os seus representantes; foi preparada, e no essencial, de dentro, por um grande número de magistrados e a partir de objetivos que lhes eram comuns e dos conflitos de poder que os opunham uns aos

outros.” 18

)

A reforma não foi preparada fora do aparato judiciário e

A reforma do sistema judicial penal não visava estabelecer uma nova justiça com base em princípios humanitários, mas instituir o que Foucault chama de “uma nova ‘economia’ do poder de castigar” 19, garantindo, assim, a sua melhor distribuição. De acordo com Dreyfus e Rabinow (1995), com a reforma, o crime deixa de ser visto como ataque direto ao corpo do soberano para ser tratado como quebra do contrato social que vitima a sociedade como um todo. Antes de princípios democráticos, o que determina essa mudança é uma necessidade estratégica de distribuir o poder de julgar e punir. A punição, então, deixa de ser um direito do soberano para se consolidar como uma obrigação da sociedade. O objetivo da reforma não é punir menos, mas punir com maior eficácia. Com a dissolução dos governos monárquicos e o surgimento do estado burguês, o poder de fazer justiça passa a se fundamentar e obter suas justificativas e regras a partir do desenvolvimento de um ‘complexo científico-judiciário’, até então inexistente. Foucault demonstra como os novos saberes produzidos pelas chamadas ciências do espírito, tais como a psicologia, a psiquiatria e a psicopedagogia, foram postos a serviço do aparato jurídico do Estado. Chegamos à era dos ‘castigos incorpóreos’. O alvo agora não é mais o corpo do condenado, mas a sua alma. O objetivo não é mais punir o autor de um crime,

mas estudar, classificar, qualificar, prender e recuperar o sujeito delinquente. No lugar do crime, temos agora a criminalidade como objeto da intervenção da justiça penal. De acordo com Dreyfus e Rabinow, “em Vigiar e Punir, Foucault apresenta a genealogia do

indivíduo moderno como um corpo dócil e mudo (

)”

20.

2.4 Sobre a Justiça Popular

No fim do século XVIII, motivados por ideais democráticos, líderes da Revolução Francesa implantaram o tribunal popular. Seria o Tribunal do Povo, idealizado

18 Idem.

19 Idem.

20 DREYFUS, H. e RABINOW, P. Michel Foucault: Uma Trajetória Filosófica – Para Além do Estruturalismo e da Hermenêutica. Tradução de Vera Porto Carrero. 1ª edição brasileira. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

por Danton, um dos principais líderes da Revolução, uma expressão genuína da justiça popular? Deixaremos que Foucault responda com suas próprias palavras:

“No caso que eu cito, o Tribunal Popular, tal como funcionou durante a Revolução Francesa, tendia a ser uma terceira instância, aliás bem determinada socialmente; representava uma linha intermediária entre a burguesia no poder e a plebe parisiense, uma pequena burguesia composta de pequenos proprietários, pequenos comerciantes, artesãos. Colocaram-se como intermediários, fizeram funcionar um tribunal

mediador e, para fazê-lo funcionar referiram-se a uma ideologia que era até certo ponto a ideologia da classe dominante, ao que era "bom" e "não

bom" fazer ou ser. (

"mediano" da instância judiciária tal como ela tinha funcionado no Antigo Regime. Eles substituíram o revide das massas àqueles que eram os seus inimigos pelo funcionamento de um tribunal e boa parte de sua

ideologia.” 21

)

Vê-se bem então que eles retomaram o lugar

Por ironia do destino, quando Danton deixou de representar os interesses da classe dominante, ele foi julgado e condenado à guilhotina pelo mesmo tribunal que ele criou.

Quando a decisão sobre o que é justo ou injusto em uma sociedade de classes é tomada por uma instância supostamente neutra (o tribunal judiciário), o conceito de justiça sobre o qual ela se fundamenta corresponde aos interesses da classe que a instituiu e controla. Foucault é categórico ao afirmar que o tribunal, enquanto aparato do Estado, tem a função de dividir as massas. Ele entende que o tribunal popular (enquanto elemento de intermediação entre as partes em litígio) pode escamotear a justiça popular. Por exemplo: a disposição espacial das pessoas que com compõem um tribunal revela a ideologia que ele representa. Separando as partes em litígio, é posta uma mesa composta por juízes. A posição deles representa uma neutralidade entre as partes. O julgamento do mérito só é proferido após a defesa e a acusação terem se pronunciado. As decisões dos juízes tomam como fundamento uma ideologia composta de “certa norma de verdade e de um certo número de idéias sobre o justo e o injusto.” A posição dos juízes implica autoridade, já que a sua decisão deverá ser cumprida. Entretanto, a idéia de uma autoridade neutra que decide a disputa entre duas partes com base numa justiça com valor absoluto é totalmente contrária à idéia de justiça popular. Na justiça popular existem apenas as massas e seus inimigos. Aqui inexiste um elemento neutro que decide com autoridade. Tão pouco, os oprimidos se valem de uma noção de justiça abstrata e universal, quando decidem punir ou re-educar seus inimigos. Sua decisão tem como base a experiência concreta. Isto é, os danos que sofreram e a forma como foram prejudicados.

21 FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. São Paulo: Ed. Graal, 1979.

Foucault enxerga a subversão do poder judiciário pelas classes oprimidas como atos de justiça popular em resistência e superação da opressão exercida pela classe

dominadora. Por exemplo, no início de julho de 1789, o rei da França, Luis XVI, ordenou o cerco de Paris por 30 mil homens das tropas reais. Seu objetivo era sufocar o ânimo revoltoso da população. No entanto, com intuito de se defender contra a opressão do soberano, o povo formou a Guarda Nacional e, em 14 de julho, se insurgiu contra um

a Revolução

Francesa era uma revolta anti-judiciária. A primeira coisa que ela explodiu foi o aparelho judiciário.” 22

Foucault reconhece que o ato de justiça popular “não poder ser confiado a uma espécie de espontaneidade instantânea, não refletida, não integrada a uma luta de conjunto”. 23 Ao contrário, a justiça popular deve promover a elucidação política e a eliminação da alienação e da divisão ideológica entre diferentes camadas das classes populares. O conceito de justiça popular, em Foucault, é formulado através de uma abordagem analítica da historicidade da justiça e das relações de poder. A história da justiça narrada por Foucault cumpre a tarefa de denunciar as instâncias de controle, vigilância e coerção da classe opressora sobre a massa popular. Face ao exposto, concluímos que, para Michel Foucault, a justiça popular é um instrumento de subversão importante e autêntico das classes oprimidas contra seus inimigos e contra o aparato de justiça dos seus opressores.

ícone do poder do rei: a prisão da Bastilha. De acordo com Foucault, “(

)

3 Considerações Finais

podemos apenas falar de uma ética não-

cognitivista, não-universalizável e contextualista em Foucault, onde as práticas de resistência e as lutas pela liberdade desautorizam qualquer pretensão humanista.” 24 A primeira hipótese proposta no Projeto de Pesquisa CIDADANIA E JUSTIÇA:

Exigências Ético-Políticas do Estado Democrático Tocquevilliano, fala sobre uma “idéia de justiça” que desempenha “o papel de norma moral universal”. Foucault, por outro lado, não toma uma idéia de justiça como fundamento absoluto e universal para “julgar a

De acordo com Nithamar Oliveira, “(

)

22 Idem.

23 Idem.

24 OLIVEIRA, N. Tractatus Ethico-Politicus – Genealogia do Ethos Moderno. Porto Alegre: Edipucrs, 1999.

própria ação e a ação coletiva”. O que está em foco na analítica foucaultiana da justiça

enquanto instrumento de poder é a norma como dado a ser avaliado quanto à sua

eficácia, como dizia Abbagnano, “sua capacidade de possibilitar as relações humanas.”

Por outro lado, a busca por critérios últimos para discernir o justo do injusto aponta para a

necessidade de direcionar a continuação desta pesquisa para a compreensão dos

processos de constituição do ‘sujeito de justiça’, a partir da hermenêutica de Michel

Foucault.

4

Resultados

4.1 Apresentações de Trabalhos com Publicações de Resumos

Os Caminhos Percorridos pelo Homem Natural até a Constituição do Corpo Moral e Coletivo - I Jornada de Estudos J.J. Rousseau. USP, Departamento de Filosofia, Março de 2010.

A Justiça Popular em Michel Foucault. XVII Semana de Filosofia da UFG, Departamento de Filosofia, Maio de 2010.

REFERÊNCIAS

Livros

DREYFUS, H. e RABINOW, P. Michel Foucault: uma trajetória filosófica – para além do

estruturalismo e da hermenêutica. Tradução de Vera Porto Carrero. 1ª edição brasileira.

Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

FOUCAULT, M. A Ordem do Discurso – Aula inaugural no College de France.

Pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo. Ed. Loyola: 1996.

Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete.

Petrópolis: Vozes, 1987.

Microfísica do poder. São Paulo: Ed. Graal, 1979.

OLIVEIRA, N. Tractatus ethico-politicus – genealogia do ethos moderno. Porto Alegre:

Edipucrs, 1999.

Dicionário

ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 1ª edição brasileira. São Paulo: Martins Fontes,

2000.

Transcrição de Debate

FOUCAULT, M. e CHOMSKY, N. Human nature: justice versus power. Disponível em http://www.chomsky.info/debates/1971xxxx.htm . 20/05/2010