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Lima Barreto

Triste fim de Policarpo Quaresma

Entre os meses de agosto e outubro de 1911, as páginas da seção de folhetins do Jornal do Commercio foram povoadas pelas desventuras do major Policarpo Quaresma, um patriota idealista nascido da pena do escritor Lima Barreto. Em 1915, Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado em livro e, com o passar do tempo, a crítica consagrou o romance como um dos textos literários brasileiros mais representativos do início do século XX. As peripécias de Policarpo Quaresma - funcionário do Arsenal de Guerra, dono de uma biblioteca repleta de volumes sobre o Brasil, defensor da pátria e dos valores genuinamente nacionais - foram comparadas às aventuras empreendidas por dom Quixote, o célebre cavaleiro andante criado pelo espanhol Miguel de Cervantes. A ingenuidade do major - incapaz de compreender os mecanismos de funcionamento das relações de poder no Brasil - é responsável por conduzir o leitor, ao longo dos capítulos, a diferentes situações e paisagens características dos primeiros anos da República. Passando de uma iniciativa frustrada a outra, as tentativas de Quaresma de intervir nos aspectos culturais, econômicos e políticos do país explicitam os diversos problemas do Brasil. Ao contrapor os sonhos de reforma do major à realidade brasileira do período, Lima Barreto questiona o nacionalismo romântico e denuncia desigualdades socioeconômicas. Situando-se em um momento posterior ao ápice da produção literária naturalista, o autor expôs em seus textos os contrastes característicos da sociedade brasileira de seu tempo e produziu uma obra que, ainda hoje, é capaz de iluminar as reflexões acerca da cultura nacional e da realidade do país.

1. Quais são as principais características do major Policarpo Quaresma?

Policarpo Quaresma é descrito inicialmente como um indivíduo solitário e sistemático, subsecretário exemplar do Arsenal de Guerra. Solteiro, não alimenta expectativas matrimoniais, vive em companhia da irmã Adelaide e tem pouco contato com outras pessoas além de seu compadre e sua afilhada. O major leva uma vida confortável e aparenta não possuir grandes ambições materiais: suas preocupações estão concentradas no amor idealizado pela pátria brasileira. Isolado pelo sonho de reforma nacional, alimenta uma ideia fixa em relação ao progresso e à liberdade do país. Ao longo do romance, o perfil inicial de Quaresma é confirmado:

trata-se de um homem ingênuo e sonhador, movido pelo ufanismo otimista e pela convicção no desenvolvimento da nação brasileira. Seu idealismo o coloca em conflito com a realidade, de modo que seus projetos são encarados como loucuras de um desajustado.

2. Quais são os primeiros indícios do patriotismo exacerbado de

Policarpo Quaresma? Todos os livros da biblioteca do major tratam do Brasil, todas as plantas de seu jardim são espécimes nacionais e o cardápio das refeições em sua casa valoriza os ingredientes da culinária brasileira. No trabalho, o major perturba os colegas com informações relativas à cultura nacional. (Primeira parte, cap. i )

3. Em que consiste o projeto de Policarpo Quaresma para reformar os

valores culturais brasileiros? De que modo esta tentativa é frustrada? Policarpo Quaresma decide abandonar seu isolamento e interferir

na realidade cultural brasileira. Seu grande projeto patriótico tem início com um requerimento enviado à Câmara propondo a adoção da língua tupi como idioma oficial do Brasil. O tupi, língua falada pelos antigos habitantes da costa do Brasil, seria a genuína forma de expressão da cultura nacional; o aprendizado dessa língua substituiria a cultura legada pelos colonizadores portugueses e representaria um afastamento em relação às matrizes culturais europeias. Assim, Quaresma visava defender as tradições brasileiras e preservar a memória do país. As sugestões do major não são levadas a sério e o protagonista, após ser ridicularizado em público, tem a sanidade mental questionada e é conduzido a um hospício. (Primeira parte)

4. De que modo Cavalcanti, Genelício e os militares convidados para a

comemoração do anúncio de casamento de Ismênia possibilitam que se

realize uma sátira aos valores e comportamentos das elites brasileiras? A festa na casa do general Albernaz reúne diversos representantes da sociedade carioca e permite o estabelecimento de críticas ao modo de vida das camadas mais favorecidas da população brasileira do período.

O noivo de Ismênia, Cavalcanti, representa a valorização conferida

pela sociedade aos indivíduos com formação acadêmica: o diploma

de advogado é responsável por elevar a consideração e o respeito com

que o personagem é tratado pelos convivas. Genelício, personagem que

aparece ao final do capítulo, representa, por sua vez, os indivíduos que almejam alcançar, por meio da adulação de seus superiores, um posto

de destaque na vida profissional. Os militares que circulam entre os

convidados da festa apresentam características semelhantes: ostentam patentes que funcionam como máscaras sociais, sem ter chegado a desempenhar qualquer feito relevante no decorrer de suas carreiras.

O capítulo possibilita reflexões acerca da valorização das instituições

e dos altos cargos, bem como da defesa de interesses particulares em detrimento da formação profissional sólida e de contribuições efetivas para a coletividade. (Primeira parte, cap. iii)

5. Qual o plano de Quaresma para transformar a realidade social

brasileira? Por que a iniciativa não alcançou sucesso? Depois que deixa o hospício, Policarpo Quaresma resolve investir na reforma da agricultura. A valorização dos elementos naturais do Brasil faz com que o protagonista se mude para o sítio do Sossego e compre máquinas sofisticadas para realizar experiências com o solo. Refugiado

no interior, Quaresma acaba derrotado pelas saúvas que atacam a

plantação e pelo egoísmo dos políticos da região. Diante do prejuízo,

o protagonista vê frustradas suas crenças na produtividade da terra

brasileira e nas possibilidades de transformação econômica por meio dos trabalhos no campo. (Segunda parte, cap. i )

6. O capítulo “Espinhos e flores” apresenta uma descrição dos

subúrbios cariocas. Quais são os elementos das regiões periféricas do Rio de Janeiro ressaltados pelo autor? Ao conceber a literatura como forma de intervenção social, Lima Barreto dedica-se ao retrato da vida dos segmentos marginalizados da população, com o objetivo de explicitar as desigualdades sociais de seu

tempo. Na descrição dos subúrbios cariocas, destacam-se aspectos ligados

à falta de planejamento das edificações e à irregularidade topográfica da cidade, repleta de ruas e de casas humildes amontoadas umas sobre as outras. Ressalta-se também a variedade dos materiais empregados nas

construções. O narrador assinala as diferenças das moradias brasileiras

e das residências europeias, e chama atenção para a dedicação desigual dos órgãos públicos em relação a certas localidades. A população dos subúrbios cariocas é descrita, sobretudo, em termos profissionais, mediante a enumeração dos diversos ofícios que desempenham, pouco prestigiados pela sociedade. (Segunda parte, cap. ii)

7. Na última parte do livro, qual é a tentativa de Policarpo Quaresma

de intervir na vida política nacional? Por que as crenças patrióticas do protagonista são definitivamente destruídas? Finalmente, Policarpo Quaresma resolve investir em um projeto de reforma político-administrativa. O patriota idealista ingressa no Exército e participa da Revolta da Armada, aderindo à tropa de Floriano Peixoto. Em seguida, assume o cargo de carcereiro na ilha para

a qual haviam sido enviados os marinheiros rebeldes. Quaresma, até

então iludido quanto às relações de poder, passa a compreender a crise do Exército nacional. Inconformado com o iminente fuzilamento dos presos, redige uma carta de crítica a Floriano Peixoto. A insubmissão do ingênuo major é responsável pelo seu triste fim: a condenação à morte. Neste romance, Lima Barreto trata ironicamente da criação do mito de Floriano Peixoto: à imagem idealizada do líder nacional, o

autor contrapõe a figura preguiçosa e negligente de um político egoísta

e pouco preocupado com os problemas sociais. (Terceira parte)

8.

Como Floriano Peixoto encarou sua conversa com Policarpo

Quaresma? Que críticas à política nacional estão implícitas nesse diálogo?

O presidente Floriano Peixoto ouve as propostas de Policarpo

Quaresma com desinteresse e descrédito. Ao final da entrevista, afirma que Quaresma é um visionário, um idealista fantasioso e sonhador. Por um lado, o entusiasmo pela pátria e os planos de solução dos problemas nacionais inflamam o discurso do protagonista; por outro lado, o presidente parece totalmente descomprometido com

as reais necessidades dos brasileiros. Após a conversa com Floriano

Peixoto, Policarpo Quaresma fica desapontado com a indolência do governante. O engajamento na vida militar frustra suas crenças em relação ao florianismo - uma vez mais, os interesses particulares aparecem sobrepostos aos interesses em favor da coletividade. (Terceira parte, cap. ii )

9. Reflita sobre os personagens femininos do romance. A partir dos

retratos das mulheres presentes na obra, como pode ser caracterizada a vida das brasileiras no fim do século XIX? Que mudanças podem ser verificadas no Brasil atual? As figuras femininas de Triste fim de Policarpo Quaresma refletem a condição social da mulher no Brasil de fins do século XIX. Suas preocupações e educação giram em torno da vida familiar e doméstica.

A preparação para o casamento e a importância atribuída a ele são

elementos característicos das imposições sociais que direcionavam a existência feminina a um único futuro possível.

A educação em casa e as expectativas do grupo social acerca da

imagem ideal da mulher respeitável que vivia em função do lar estão presentes, por exemplo, na caracterização da personagem Ismênia. Após ter seu casamento confirmado, a filha do general Albernaz abre caminho também para que suas irmãs possam encontrar pretendentes

que lhes propiciem uma vida futura considerada digna e confortável.

A própria Olga, afilhada de Quaresma, casa-se desmotivada, com a

finalidade única de cumprir um dever e assumir um papel social. Após as lutas empreendidas pelos movimentos feministas ao longo do século XX, as mulheres brasileiras passaram a ocupar lugares de destaque na sociedade, em funções e situações anteriormente restritas aos homens.

10. A cultura popular brasileira ocupa lugar de destaque ao longo do

romance. A partir do episódio das andanças de Quaresma e Albernaz e da descrição de Sinhá Chica, como pode ser caracterizado o tratamento conferido por Lima Barreto às camadas menos favorecidas da população brasileira? Os membros das camadas populares ocupam lugar de destaque na produção ficcional de Lima Barreto. No início de Triste fim de Policarpo Quaresma, o protagonista vai à casa da velha Maria Rita, acompanhado pelo coronel Albernaz. A antiga escrava é famosa por conhecer um repertório de canções populares e os dois amigos desejam tomar contato com tais composições. No entanto, Quaresma fica desapontado ao perceber que, com exceção de algumas cantigas de ninar e outras dos tempos do cativeiro, Maria Rita esquecera grande parte das músicas. Em um segundo momento, os dois amigos vão à casa de um velho poeta que coleciona informações sobre o folclore nacional. Animado pela conversa, Quaresma, dias depois, participa da brincadeira do “Tangolomango” na casa do general Albernaz. Os dois episódios possibilitam a reflexão em torno da preservação da cultura popular brasileira. No final do livro, a personagem Sinhá Chica detém conhecimentos de medicina popular e emprego medicinal das ervas curativas (contrapondo-se ao saber da medicina oficial). (Primeira parte, cap. ii , e Terceira parte, cap. iv )

11. Em que medida a visão de Lima Barreto sobre o nacionalismo se

diferencia de uma concepção romântica e idealizada acerca da pátria? Que críticas ao patriotismo ufanista estão presentes em Triste fim de Policarpo Quaresma? O movimento romântico apresentava um caráter programático que incluía a preocupação com a identidade nacional e com a produção de uma literatura genuinamente brasileira. Nesse processo, a cor local e elementos considerados tipicamente nacionais - tais como os índios e a natureza do Brasil - eram exaltados de forma idealizada. Desse modo, o patriotismo de Policarpo Quaresma identifica-se com os ideais preconizados pelos românticos e a valorização ufanista da pátria brasileira fundamenta seu discurso nacionalista. No entanto, em Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto problematiza a visão ufanista do Brasil e chama atenção, de modo crítico, para os problemas que caracterizam a realidade nacional.

12. De que modo os três grandes projetos de Policarpo Quaresma para transformar a realidade cultural, social e política do país acabaram por conduzir o protagonista à desilusão? Que imagem a respeito do Brasil pode ser depreendida dos fracassos do protagonista? O requerimento em defesa do tupi como língua nacional foi responsável pela ridicularização que conduziu Quaresma ao hospício; o plano de reforma agrícola, iniciado no sítio do Sossego, foi arruinado pelas saúvas e pelas injustiças políticas e sociais; a participação na Revolta da Armada tornou inevitável a desilusão do major sobre as antigas crenças ufanistas ao revelar o egoísmo dos políticos brasileiros. Na prisão, Policarpo Quaresma, definitivamente isolado de todos, entregue às incertezas quanto ao que está por vir, faz um retrospecto de suas ações em vida e verifica que todos seus projetos utópicos foram malsucedidos. Ao final, o protagonista é morto em função dos ideais por ele defendidos: seus apelos não foram ouvidos e seus sonhos foram destruídos pelo descaso das autoridades públicas. (Terceira parte, cap. v)

Leituras recomendadas

Barbosa , Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto. Rio de Janeiro:

Brasiliense, 2004.

Figueiredo , Carmen Lúcia Negreiros de. Lima Barreto e o fim do sonho republicano. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995.

Rezende, Beatriz. Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos. Rio de Janeiro: UFRJ/ Campinas: Unicamp, 1993.

Schwarcz , Lilia K. Moritz (org.). Contos completos de Lima Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.