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A aporia na construção do sujeito gauche drummondiano.

O ser gauche é um dos temas recorrentes na poesia de Carlos Drummond de


Andrade no arco compreendido entre os livros Alguma poesia (1930) e Claro Enigma
(1951). Essa figura que não se enquadra em nenhum padrão, que sempre está acuado,
torto e só, possui com o meio social uma relação conturbada, como nos diz Antonio
Candido: “a sociedade oferece obstáculos que impedem a plenitude dos atos e dos
sentimos” 1. Partindo desse pensamento o ser gauche seria reflexo de vivência em um
mundo caduco, cito mais uma vez Candido: “A noção de que o eu estrangulado é em
parte consequência, produto das circunstâncias; se assim for, o eu torto do poeta é
igualmente uma espécie de subjetividade de todos, ou de muitos, no mundo torto.” 2. O
gauche então é aquele que exacerba a condição aporética do homem perante a uma
modernidade desumanizadora.

Deslocando nossa visada das questões sociais para que se possa vislumbrar
temas estruturais que contribuem na construção da figura do gauche, faço um recorte da
primeira referência usada “a sociedade oferece obstáculos”. Betina Bischof, em Razão
da Recusa, nos mostra como esse entrave social se torna parte da estrutura poética do
poeta: “Esse obstáculo é então central, para a poesia de Drummond – poesia que afasta,
como não pertence à sua estrutura […] a excessiva luz a expressão fluida e melodiosa, a
positividade sem interrupções e cortes.”3. Esses obstáculos são produzidos por uma
escrita que tende, em muitos poemas, à aporia –

“Em Drummond a expressão toma forma não na possibilidade de alcançar o


objeto ou instância procurados, mas no próprio itinerário da buscam marcado
desde sempre pela inquietação e pela aporia. E quando […] o caminho
parece mais livre e a facilidade de expressão, mais próxima, a aporia reverte-
se para os impasses do eu-lírico, comumente traduzidos na figura truncada e
brusca da recusa.”.4

1
CANDIDO, Antonio: Inquietudes na poesia de Drummond, IN: Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre
azul, 2011. P. 78.
2
CANDIDO, Antonio: Op. Cit. P. 83.
3
BISCHOF, Betina: Razão da recusa: um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade. São Paulo:
Nankin, 2005. P. 47.
4
BISCHOF, Betina: Op. Cit. P. 15.
O obstáculo que, na visão de Candido, é a força que entorta o “eu todo retorcido”, é um
modus operandi da poética drummondiana. É preciso chegar a aporia, muitas vezes
produzi-la, para que o poema possa nascer, e muitos desses impasses são também as
gêneses do gauche e de suas inquietudes, como veremos em “A bruxa” de José (1942),
“O mito” de A rosa do povo (1945).

Comecemos por “A bruxa”.

A bruxa5

Nesta cidade do Rio,


de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?


Ainda há pouco um ruído
anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!


E nem precisava tanto…
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?

E nem precisava tanto.


Precisava de mulher
que entrasse neste minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,


quantas mulheres prováveis
5
ANDRADE, Carlos Drummond de: Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2008. P. 28
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e clama.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!


Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

Em sua primeira estrofe o poema nos apresenta a aporia de onde irá se desenvolver o
eu-lírico. Em uma cidade, ou de forma mais ampla e dramática, em um continente e
seus milhões de habitantes, o eu-lírico está só em seu quarto, cômodo esse que se
assemelha a um claustro, pois em nenhum momento é concebido um movimento de
saída do mesmo.

A partir da estrofe seguinte a solidão deste ser é momentaneamente resolvida


com a presença de uma bruxa (mariposa) em seu quarto. Porém essa bruxa não
representa uma companhia, mas um desdobramento dos sentimentos do eu-lírico, tal
movimentação é recorrente em poemas de Drummond, como mapeia Bischof ao
analisar o poema áporo – “[…] um inseto que busca saída – e aquilo que mesclando-se à
ação que ali toma corpo, algo da interioridade do sujeito, central à expressão lírica.” 6.
Ambos presos em uma prisão sem grades, o quarto e a zona de luz, o inseto e o eu-
poético se misturam a ponto de, na última estrofe, esse desdobramento ser exaltado pela
voz do próprio sujeito.

Aprofundando o sentimento aporético de solidão que corrobora com o


gauchismo desse eu-lírico, a terceira e quinta estrofes começam por exacerbar a
6
BISCHOF, Betina: Op. Cit. P. 51.
condição geográfica da população, há dois milhões de habitantes na cidade, frente o que
seria a solução para a solidão desse ser angustiado, é preciso apenas uma pessoa, um
amigo, uma mulher. Mas ao descrever as pessoas que poderiam o tirar dar solidão
somos mais uma vez jogados no impasse, o amigo é sujeito recluso, calado e distante; a
mulher que poderia receber seus carinhos e beijos interroga a si mesmo no espelho em
um movimento alienante.

Na sexta estrofe ao tentar construir uma imagem lúdica para o seu ser ao dizer
que imita animais, possui bons beijos, o sujeito acaba por confessar o obstáculo inerente
ao ser que o joga na solidão, ele próprio não consegue se comunicar, o mesmo diz que
se encontra cercado de olhos, mãos, afetos e procuras, porém a comunicação é ainda
inviável. A última estrofe soa como uma apologia a seu estado de claustro, onde o eu-
lírico confessa sua condição gauche e negativa perante a sociedade que se
metamorfoseia na figura de mau agouro da bruxa.

Completamente aposto a esse eu-lírico angustiado, é a “personagem” Fulana


construída no poema “O mito”. Fulana se comunica:

Mas fulana vai se rindo...


Vejam fulana dançando
No esporte ele está sozinha
No bar, quão acompanhada.7

Fulana se movimenta:

E são onze horas da noite,


são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana

talvez dance no cassino


ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;

talvez se pinte no espelho


do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;

Fulana é uma “personagem” que não encontra nenhum obstáculo, ela flui
perante a narrativa do eu-lírico, e é esse que encontra os obstáculos e é jogado a todo
tempo em aporias, como a de amar fulana, que é a pedra de toque do poema. A
aproximação dos problemas sofridos pelos sujeitos de “A bruxa” e “O mito” pode ser
feita a partir das estrofes 27 e 28 do poema de A rosa do povo:

7
ANDRADE, Carlos Drummond de: Op. Cit. P. 198
Quero morrer sufocado,
quero das mortes a hedionda,
quero voltar repelido
pela salsugem do largo,

já sem cabeça e sem perna,


à porta do apartamento,
para feder: de propósito,
somente para Fulana.

A impossibilidade de se comunicar se torna tão aguda que o eu-lírico pensa em se


sacrificar, não como resignação a sua condição, mas como única forma de vincular uma
comunicação com Fulana, pois ao menos o odor de seu corpo em decomposição
conseguirá gerar algum tipo de contato e despertar a atenção da mesma.

Depois de um longo percurso de 40 estrofes o poema se abre para a


possibilidade de contato entre Fulana e o eu-lírico, mas para que isso aconteça é preciso
que Fulana seja também gauche como o sujeito, e para isso é preciso incutir a ela
aporias que irão entorta-la:

Mudo-lhe o nome; recorto-lhe


um traje de transparência;
já perde a carência humana;
e bato-a; de tirar sangue.

O eu-lírico agindo diretamente sobre Fulana a desfigura tanto socialmente quanto


fisicamente, arranca-lhe a identidade e a traz a sua invisibilidade social com o traje
transparente que lhe empresta. A transfiguração física, Fulana é espancada, a insere no
mundo de dor tão familiar ao modo de vida gauche. Fulana agora é tão estática quanto o
sujeito do poema, ambos abolem a convivência movimentada do meio urbano e elegem
a lua, e sua característica inóspita, como o marco de uma nova comunidade por vir:

E lhe dou todas as faces


de meu sonho que especula;
e abolimos a cidade
já sem peso e nitidez.

E vadeamos a ciência,
mar de hipóteses. A lua
fica sendo nosso esquema
de um território mais justo.

E colocamos os dados
de um mundo sem classes e imposto;
e nesse mundo instalamos
os nossos irmãos vingados.
Há após a conversão de Fulana certa superação do gauchismo, pois não existem
mais obstáculos a serem superados. As contradições são extintas e é possível o contato,
a comunicação que enfim sanam o sofrimento do eu-lírico.

E nessa fase gloriosa,


de contradições extintas,
eu e Fulana, abrasados,
queremos... que mais queremos?

E digo a Fulana: Amiga,


afinal nos compreedemos.
Já não sofro, já não brilhas,
mas somos a mesma coisa.

(Uma coisa tão diversa


da que pensava que fôssemos.)

BIBLIOGRAFIA:

ANDRADE, Carlos Drummond de: Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2008.

BISCHOF, Betina: Razão da recusa: um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade. São
Paulo: Nankin, 2005.

CANDIDO, Antonio: Inquietudes na poesia de Drummond, IN: Vários Escritos. Rio de Janeiro:
Ouro sobre azul, 2011.

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