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FENÓMENOS DE TRANSPORTE I

(Apontamentos)

Cursos: Engª Química, Engª Mecânica

Departamento de Engenharias e Tecnologias

Professor Responsável: Sílvia Santos


Fenómenos de transporte I - Apontamentos

Nota Prévia:

Estes apontamentos servem de base ao estudo da Disciplina de Fenómenos de


Transporte I. Não dispensam a consulta da Bibliografia Recomendada.

Estes apontamentos podem conter erros.

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

7. Balanços Diferenciais à Quantidade de Movimento

No tratamento feito aqui, tem-se apenas considerado o ponto de vista macroscópico,


ou seja, a preocupação tem residido apenas nas quantidades de massa, movimento e
energia que atravessam as fronteiras do volume de controlo e as alterações totais que
se observam nessas quantidades. As alterações que ocorrem dentro do volume de
controlo, por cada elemento diferencial de fluido não podem desta forma ser
contabilizadas sem uma análise mais cuidada.

O objectivo deste capítulo reside em estimar e descrever o comportamento de um


fluido de um ponto de vista diferencial, obtendo-se desta forma equações diferenciais.
A solução destas equações diferenciais permite obter informações de natureza
diferente daquelas que foram obtidas com o tratamento macroscópico.

Convém salientar que a solução completa destas equações diferenciais apenas será
possível para fluido a circular em regime laminar. Um tratamento diferencial mais
generalizado irá ser apresentado no Capítulo 9

Vamos ver dois casos de fluxo laminar para os quais é possível obter os perfis de fluxo de
q.d.m. e de velocidade a elementos diferenciais de fluido.

7.1. Fluxo laminar entre duas placas paralelas (Massey, 2006)

Esta situação foi introduzida anteriormente para apresentação da Lei de Newton da


Viscosidade (Capítulo 6).

Imaginemos então duas placas planas, paralelas e infinitas, estando uma delas parada
e a outra em movimento segundo a direcção x, como resultado de uma força aplicada
(Figura 24).

O espaço que separa as duas placas está totalmente preenchido pelo fluido que se
move como consequência da tensão de corte. Vamos assumir que a placa de baixo se
encontra parada e a que é submetida a uma tensão de corte é a placa de cima que
se move com uma velocidade V. Vamos assumir também que a deslocação do fluido
ocorre da esquerda para a direita.

Vamos escolher um volume de controlo com uma espessura diferencial segundo a


direcção y. Vide Figura 30.

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Figura 30: Volume de controlo.

O nosso volume de controlo terá então as dimensões z, L e W, segundo as direcções z,


x e y. Este volume de controlo está afastado dos extremos das placas para evitar efeitos
terminais.

Para a direcção x, as forças que se exercem são as forças de pressão, i.e.,

𝑃. 𝑊. ∆𝑧|𝑥=0 − 𝑃. 𝑊. ∆𝑧|𝑥=𝐿

O fluxo de q.d.m. dá-se por dois mecanismos, convectivo e molecular, respectivamente:

𝜕 0
Convectivo: ∬ 𝑣⃗𝜌(𝑣⃗, 𝑛
⃗⃗)𝑑𝐴 ≡ 𝑣𝑥 𝜌𝑣𝑥 𝑊∆𝑧|𝑥=𝐿 + 𝑣𝑥 𝜌(−𝑣𝑥 )𝑊∆𝑧|𝑥=0 e ∭𝑉𝐶 𝜌𝑣𝑥 𝑑𝑉 =0
𝜕𝑡

Molecular: 𝜏𝑧𝑥 𝐿𝑊|𝑧+∆𝑧 − 𝜏𝑧𝑥 𝐿𝑊|𝑧

O balanço ao elemento de volume fica então:

Resultante
( ) = (saída de Q.D.M) − (entrada de Q.D.M) + (acumulação)
das forças

Ou seja, em termos matemáticos:

0 0
𝜕
∑ 𝐹𝑥 = ∬ 𝑣𝑥 𝜌(𝑣⃗. 𝑛⃗⃗)𝑑𝐴 + ∭ 𝜌𝑣𝑥 𝑑𝑉
𝑆𝐶 𝜕𝑡 𝑉𝐶

𝑃. 𝑊. ∆𝑧|𝑥=0 − 𝑃. 𝑊. ∆𝑧|𝑥=𝐿 = 𝑣𝑥2 𝜌𝑊∆𝑧|𝑥=𝐿 − 𝑣𝑥2 𝜌𝑊∆𝑧|𝑥=0 + 𝜏𝑧𝑥 𝐿𝑊|𝑧+∆𝑧 − 𝜏𝑧𝑥 𝐿𝑊|𝑧

Para a situação em que não há variação da pressão ao longo de x, 𝑃|𝑥=0 = 𝑃|𝑥=𝐿 , fluido
incompressível (=cte) e a distância entre as placas é constante, 𝑣|𝑥=0 = 𝑣|𝑥=𝐿 , ficamos
apenas com:

𝜏𝑧𝑥 𝐿𝑊|𝑧+∆𝑧 − 𝜏𝑧𝑥 𝐿𝑊|𝑧 = 0

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Dividindo a equação pelo volume de controlo (LWz), ficará:

𝜏𝑧𝑥 |𝑧+∆𝑧 − 𝜏𝑧𝑥 |𝑧


=0
∆𝑧

Se fizermos tender o comprimento diferencial z para um ponto, obtemos a


derivada de 𝜏𝑧𝑥 :

𝜏𝑧𝑥 |𝑧+∆𝑧 − 𝜏𝑧𝑥 |𝑧 𝑑𝜏𝑧𝑥


lim =
∆𝑧→0 ∆𝑧 𝑑𝑧

Obtemos assim a lei da variação da tensão de corte, 𝜏𝑧𝑥 :

𝑑𝜏𝑧𝑥
= 0 ⇒ 𝜏𝑧𝑥 = 𝐶1 (constante)
𝑑𝑧

Na realidade, esta lei é válida para qualquer tipo de fluido, seja ele Newtoniano ou não.
Se o fluido for Newtoniano, a lei que descreve o fluxo é escrita na forma:

𝑑𝑣𝑥
𝜏𝑧𝑥 = −𝜇
𝑑𝑧

O que, igualando as expressões resulta em:

𝑑𝑣𝑥
−𝜇 = 𝐶1
𝑑𝑧

Separando as variáveis, e integrando:

𝐶1 𝐶1
∫ 𝑑𝑣𝑥 = ∫ − 𝑑𝑧 ⇒ 𝑣𝑥 = − 𝑧 + 𝐶2
𝜇 𝜇

Temos então duas variáveis de integração. Para as determinarmos, teremos que arranjar
duas condições-fronteira. Nota: as condições-fronteira deverão ser tantas quanto o
número de variáveis a determinar!!!!

1ª condição fronteira: para z=0, 𝑣𝑥 = 0(condição de não escorregamento)

2ª condição fronteira: para z=Z, 𝑣𝑥 = 𝑉

Substituindo, determinam-se os valores das constantes:

𝑉𝜇
𝐶1 = ;𝐶 = 0
𝑍 2

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A lei da distribuição da velocidade toma então a forma:

𝑧
𝑣𝑥 = 𝑉
𝑍

E a Lei da distribuição da q.d.m.:

𝑉𝜇
𝜏𝑧𝑥 =
𝑍

Os perfis de 𝜏𝑧𝑥 e de 𝑣𝑥 podem ser observados na Figura seguinte.

Figura 31: Perfis de 𝜏𝑧𝑥 e de 𝑣𝑥 .

De facto, o fluxo de q.d.m., não varia de ponto para ponto, sendo igual à força
aplicada na placa. A condição fronteira aplicada foi a condição de não
escorregamento que corresponde a dizer que a camada de fluido adjacente a uma
superfície sólida está parada em relação à superfície.

Já o perfil de velocidade nesta situação é recto, i.e., corresponde a uma relação linear
entre a velocidade e a direcção da variação. Este fluxo designa-se por “FLUXO
COUETTE”.

Convém salientar que, no caso de o fluido em estudo não ser Newtoniano, o mesmo
tratamento pode ser efectuado desde que se tenha em atenção qual a lei que
descreve o seu comportamento.

7.2. Fluxo laminar em condutas circulares de secção constante (Welty et al., 2008)

Os Engenheiros são frequentemente confrontadas com a situação de fluidos a circular


no interior de condutas ou tubagens. Vamos agora analisar esta situação para o caso
de um fluido incompressível em escoamento laminar.

Na Figura seguinte temos uma representação esquemática de uma secção de um tubo


onde circula um fluido em regime laminar com um perfil de velocidades

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completamente desenvolvido (ou seja, não varia ao longo da direcção do


escoamento, x).

Figura 32: Volume de controlo para um escoamento dentro de uma conduta. (Welty
et al., 2008)

O balanço vai ser feito em coordenadas cilíndricas, considerando que o volume de


controlo será uma coroa cilíndrica com uma espessura r e um comprimento x.

Aplicando um tratamento semelhante ao que foi efectuado para as placas paralelas:

Resultante
( ) = (saída de Q.D.M) − (entrada de Q.D.M) + (acumulação)
das forças

Ou seja, em termos matemáticos:

0 0
𝜕
∑ 𝐹𝑥 = ∬ 𝑣𝑥 𝜌(𝑣⃗. 𝑛⃗⃗)𝑑𝐴 + ∭ 𝜌𝑣𝑥 𝑑𝑉
𝑆𝐶 𝜕𝑡 𝑉𝐶

As forças que se exercem são as forças de pressão, i.e.,

∑ 𝐹𝑥 = 𝑃(2𝜋𝑟∆𝑟)|𝑥 − 𝑃(2𝜋𝑟∆𝑟)|𝑥+∆𝑥

O fluxo de q.d.m. dá-se por dois mecanismos, convectivo e molecular, respectivamente.

Convectivo:

0
∬ 𝑣𝑥 𝜌(𝑣⃗. 𝑛⃗⃗)𝑑𝐴 = (𝜌𝑣𝑥 )(2𝜋𝑟∆𝑟𝑣𝑥 )|𝑥+∆𝑥 − (𝜌𝑣𝑥 )(2𝜋𝑟∆𝑟𝑣𝑥 )|𝑥
𝑆𝐶

𝜕 0
e 𝜕𝑡
∭𝑉𝐶 𝜌𝑣𝑥 𝑑𝑉 =0

(𝜌𝑣𝑥 )(2𝜋𝑟∆𝑟𝑣𝑥 )|𝑥+∆𝑥 − (𝜌𝑣𝑥 )(2𝜋𝑟∆𝑟𝑣𝑥 )|𝑥

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Molecular:

𝜏𝑟𝑥 (2𝜋𝑟∆𝑥)|𝑟+∆𝑟 − 𝜏𝑟𝑥 (2𝜋𝑟∆𝑥)|𝑟

Novamente o fluxo convectivo é igual a zero, pelo que, os restantes termos dão origem
à seguinte equação:

−[𝑃(2𝜋𝑟∆𝑟)|𝑥+∆𝑥 − 𝑃(2𝜋𝑟∆𝑟)|𝑥 ] + 𝜏𝑟𝑥 (2𝜋𝑟∆𝑥)|𝑟+∆𝑟 − 𝜏𝑟𝑥 (2𝜋𝑟∆𝑥)|𝑟 = 0

Rearranjando a expressão e dividindo pelo volume de controlo (2𝜋∆𝑟∆𝑥)

𝑃|𝑥+∆𝑥 − 𝑃|𝑥 (𝑟𝜏𝑟𝑥 )|𝑟+∆𝑟 − (𝑟𝜏𝑟𝑥 )|𝑟


−𝑟 + =0
∆𝑥 ∆𝑟

Aplicando os limites quando x e r tendem para zero, temos:

𝑑𝑃 𝑑
−𝑟 + (𝑟𝜏𝑟𝑥 ) = 0
𝑑𝑥 𝑑𝑟

𝑑 𝑟∆𝑃
(𝑟𝜏𝑟𝑥 ) =
𝑑𝑟 ∆𝑥

Note que a pressão e a tensão de corte são funções apenas de x e r, respectivamente,


pelo que as derivadas são totais e não parciais. Na região de fluxo completamente
−∆𝑃
desenvolvido, o gradiente de pressão é constante, pelo que pode ser escrito como ,
𝐿

i.e., perda de pressão por unidade de comprimento de tubo:

𝑑 −∆𝑃
(𝑟𝜏𝑟𝑥 ) = ( )𝑟
𝑑𝑟 𝐿

Separando as variáveis e integrando:

−∆𝑃 𝑟 2 −∆𝑃 𝑟 𝐶1
𝑟𝜏𝑟𝑥 = ( ) + 𝐶1 ⇔ 𝜏𝑟𝑥 = ( ) +
𝐿 2 𝐿 2 𝑟

1ª condição fronteira: o fluxo 𝜏𝑟𝑥 não pode ser infinito, pelo que 𝐶1 =0, e

−∆𝑃 𝑟
𝜏𝑟𝑥 = ( )
𝐿 2

Se o fluido é Newtoniano,
𝑑𝑣𝑥
𝜏𝑧𝑥 = −𝜇
𝑑𝑟

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∆𝑃 𝑟 𝑑𝑣𝑥
( ) =𝜇
𝐿 2 𝑑𝑟

Separando as variáveis e integrando:

∆𝑃 1
∫( ) 𝑟𝑑𝑟 = ∫ 𝑑𝑣𝑥
𝐿 2𝜇

∆𝑃 ∆𝑃 𝑟 2
=( ) + 𝐶2
2𝐿𝜇 2𝐿𝜇 2

2ª condição fronteira: r=R⇒ 𝑣𝑥 = 0

−∆𝑃 2
𝐶2 = 𝑅
4𝐿𝜇

−∆𝑃 2 𝑟 2
𝑣𝑥 = 𝑅 [1 − ( ) ]
4𝐿𝜇 𝑅

A velocidade é então descrita por uma parábola, sendo máxima no eixo. Já o fluxo de
q.d.m. é máximo na parede e zero no eixo.

A velocidade média da secção, <v> é dada por:

2𝜋 𝑅
∫ ∫ 𝑣𝑥 𝑟𝑑𝑟𝑑𝜃 1 2𝜋 𝑅 −∆𝑃 2 𝑟 2
〈𝑣〉 = 0 0 2 = 2∫ ∫ 𝑅 [1 − ( ) ] 𝑟𝑑𝑟𝑑𝜃 =
𝜋𝑟 𝜋𝑟 0 0 4𝐿𝜇 𝑅

𝑅 𝑅
−∆𝑃 𝑟3 −∆𝑃 𝑟 2 𝑟4 −∆𝑃 𝑅 2 𝑅 2 −∆𝑃 𝑅 2
= 2𝜋 ∫ [𝑟 − 3 ] 𝑑𝑟 = [ − 3] = ( − )=
4𝐿𝜇𝜋 0 𝑅 2𝐿𝜇 2 4𝑅 0 2𝐿𝜇 2 4 2𝐿𝜇 4

(−∆𝑃)𝑅2
〈𝑣〉 =
8𝜇𝐿

Esta equação é conhecida como a equação de Hagen-Poiseuille, em homenagem aos


dois homens que a desenvolveram, e relaciona a velocidade média de escoamento
com a queda da pressão devida ao atrito, para escoamento laminar em tubos de
secção circular.

A velocidade máxima é dada por:

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(−∆𝑃)𝑅 2
𝑣𝑚𝑎𝑥 =
4𝜇𝐿

𝑣𝑚𝑎𝑥
Pelo que: 〈𝑣〉 =
2

Se o que se pretende é determinar o caudal volumétrico, sabendo que Qv=v×A, obtem-


se:

𝜋𝑅4 (−∆𝑃)
𝑄𝑣 =
8𝜇𝐿

Ou seja, o Qv é directamente proporcional a P.

Não esquecer que a obtenção das equações anteriores apresentam os seguintes


pressupostos:

1. O fluido é contínuo, incompressível e Newtoniano;

2. O escoamento é laminar, em estado estacionário e completamente


desenvolvido.

No caso de se estar em escoamento turbulento, as equações anteriores perdem a sua


validade. Para estes casos há necessidade de se utilizarem equações semi-empíricas
que se baseiam na distância à parede da tubagem e que relacionam uma velocidade
adimensional com um Nº de Reynolds local.

Existem 3 regiões com padrões de escoamento totalmente diferentes. De facto, junto


às paredes (subcamada laminar) predomina o transporte molecular, enquanto no seio
do fluido (núcleo turbulento) predomina o fluxo turbulento. Entre estes dois extremos,
existe uma região de transição.

Assim, enquanto para fluxo laminar é possível obter uma relação matemática do tipo
v(r) para a distribuição de velocidade de um fluido Newtoniano a escoar dentro de uma
conduta, para fluxo turbulento não é possível obter uma correlação com o mesmo grau
de simplicidade. Assim, para fluxo turbulento dentro de condutas é frequente usar um
modelo de correlações semi-empíricas como é o caso das Equações de Nikuradse.

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Figura 33: Regiões de escoamento – fluxo turbulento.

Subcamada laminar: 𝑦 + < 5 ⟹ 𝑣 + = 𝑦 +

Região de transição: 5 < 𝑦 + < 30 ⟹ 𝑣 + = −3,05 + 5𝑙𝑛𝑦 +

Núcleo turbulento: 𝑦 + > 30 ⟹ 𝑣 + = 5,5 + 2,5𝑙𝑛𝑦 +

Onde a distância adimensional à parede, 𝑦 + , é dada por:

𝑣 ∗ 𝜌𝑦
𝑦+ =
𝜇

E 𝑣 ∗ é a velocidade característica (também designada por velocidade de atrito) dada


por:

𝜏
𝑣∗ = √
𝜌

𝑣
Sendo a velocidade adimensional, 𝑣 + , dada por: 𝑣 + =
𝑣∗

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

7.3. Exercícios propostos

1. Imagine duas placas planas e paralelas estando uma delas fixa e outra em movimento
segundo a direcção x, como resultado de uma força constante aplicada segundo
aquela direcção. O espaço que separa as duas placas está totalmente preenchido por
um fluido contínuo e viscoso, que se move apenas como consequência da tensão de
corte. O fluido é incompressível e Newtoniano e o sistema encontra-se em estado
estacionário. Esta situação é vulgarmente designada por Fluxo Coette.

a) Faça o balanço e apresente a expressão que descreve a lei da distribuição da


velocidade.
b) Em que condições se aplica a equação de Hagen-Poiseuille?

2. Um filme de líquido contínuo e newtoniano, com espessura L, escoa por acção do seu
peso, em estado estacionário e fluxo desenvolvido, ao longo de uma placa inclinada,
fazendo um ângulo q com a horizontal (ver Figura). O campo de velocidades é descrito
por:
𝜌𝑔𝐿2 𝑠𝑒𝑛𝜃 𝑦 1 𝑦 2
𝑣𝑥 = [ − ( ) ]
𝜇 𝐿 2 𝐿

Admitindo que a placa está orientada a 45º da horizontal, que o filme de líquido tem 2
mm de espessura e o líquido tem 1070 cP de viscosidade e 900 kg/m3 de densidade,
qual será a velocidade média da corrente?

R: <v>=0,78 cm/s

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8. Escoamento em Condutas Fechadas

Já foram apresentadas nos Capítulos anteriores algumas relações teóricas que podem
ser utilizadas em determinadas situações de regime laminar. Também, para o caso do
regime ser turbulento, existem algumas relações empíricas que podem ser aplicadas
para geometrias simples. Agora, irão ser apresentadas aplicações dos conteúdos
descritos anteriormente, nomeadamente no que diz respeito ao escoamento de fluidos,
em regime laminar e turbulento, em condutas fechadas.

Como foi analisado anteriormente, o fluxo de q.d.m. ocorre sempre que existe um
gradiente de velocidade através de um fluido contínuo. Se o escoamento ocorre no
interior de uma conduta fechada, esse fluxo (𝜏) é máximo junto à parede.

Um problema de grande interesse em engenharia passa por determinar a perda de


pressão que um fluido sofre durante o seu transporte através de uma conduta, e
relacioná-la com o caudal volumétrico (P vs. Caudal volumétrico).

8.1. Equação da energia

Para um fluido em escoamento, de um ponto 1 para um ponto 2, ao longo de uma linha


de corrente, já vimos anteriormente que a equação da pode ser escrita:

𝑃1 𝑣12 𝑃2 𝑣22
𝑈1 + 𝑞 − 𝑊𝑠 + + + 𝑧1 = 𝑈2 + + + 𝑧2 + 𝑊𝜇
𝜌𝑔 2𝛼𝑔 𝜌𝑔 2𝛼𝑔

Sendo 𝑊𝜇 correspondente à perda irreversível de energia devido ao atrito. Se o


escoamento ocorrer a pressão constante (Como é o caso do fluxo Couette estudado
anteriormente), sem variação de velocidade ( 𝑣1 = 𝑣2 ), sem variação de energia
potencial (𝑧1 = 𝑧2 ) e sem trabalho mecânico, (𝑊𝑠 = 0), então:

∆𝑈 = 𝑈2 − 𝑈1 = 𝑞 − 𝑊𝜇

Nestes casos, o atrito vai-se traduzir por uma dissipação térmica com variação da
energia interna do fluido.

Noutros casos, se não houver trocas de calor entre o sistema, (q=0), nem realização de
trabalho mecânico (𝑊𝑠 = 0), para um fluido incompressível, temos:

𝑃1 𝑃2
𝑈1 + = 𝑈2 + + 𝑊𝜇
𝜌𝑔 𝜌𝑔

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Sendo o escoamento isotérmico:

𝑃1 − 𝑃2
𝑈1 ≅ 𝑈2 ⟹ 𝑊𝜇 = (> 0)
𝜌𝑔

Ou seja, o fluido perde pressão (carga) devido ao atrito na parede. A perda de pressão
é então representada por:

−∆𝑃𝑓
ℎ𝑓 (𝑜𝑢 ∆ℎ𝑓 ) =
𝜌𝑔

A equação de Bernoulli surge então modificada:

𝑃1 𝑣12 𝑃2 𝑣22
+ + 𝑧1 = + + 𝑧2 + ℎ𝑓
𝜌𝑔 2𝛼𝑔 𝜌𝑔 2𝛼𝑔

8.2. Factor de atrito

O cálculo das perdas de pressão por atrito, para um escoamento dentro de uma
conduta é facilitado pelo uso do parâmetro adimensional designado por factor de
atrito.

A sua equação de definição é:

𝐹𝜏
𝑓=
𝐴𝐾

Onde A corresponde à área de contacto (área molhada), e K corresponde à energia


1
cinética por unidade de volume (𝐾 = 𝜌〈𝑣〉2 )
2

Por outro lado, se considerarmos um tubo de secção circular, colocado na horizontal, e


fazendo um balanço de forças ao fluido:

𝐹𝜏 = (𝑃0 − 𝑃𝐿 )𝜋𝑅 2

Igualando as duas expressões e resolvendo em ordem a 𝑓, obtemos:

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1 𝐷 𝑃0 − 𝑃𝐿
𝑓=
4 𝐿 1 𝜌〈𝑣〉2
2

Nas condições do sistema, 𝑃0 − 𝑃𝐿 = −∆𝑃𝑓 , logo:

1 𝐷 −∆𝑃𝑓
𝑓=
4 𝐿 1 𝜌〈𝑣〉2
2

Esta definição corresponde ao factor de atrito de Fanning e relaciona 𝑓 com a perda


de pressão por atrito para escoamento em tubos de secção circular. (Welty et al., 2008)

A expressão aparece muitas vezes na literatura da seguinte forma (Campos, 2013):

1 𝐿 𝑣2
ℎ𝑓 = 𝑓 ∗
2 𝐷 𝑔

𝐿 𝑣2
ℎ𝑓 = 2𝑓
𝐷 𝑔

Em que 𝑓 e 𝑓 ∗ são designados por factor de Fanning e por factor de atrito,


𝜀
respectivamente e são função do número de Reynolds e da rugosidade relativa, .
𝐷

𝜀
𝑓(𝑜𝑢 𝑓 ∗ ) = Φ (𝑅𝑒, )
𝐷

De facto, os factores de atrito e de Fanning relacionam-se da seguinte forma:

𝑓 ∗ = 4𝑓

Nestes apontamentos será apenas utilizado o factor de Fanning, no entanto, na


bibliografia de referência poderão ser encontradas as duas possibilidades.

O factor de atrito de Fanning relaciona-se com o nº de Re, o que é fundamental para


projectos de tubagens e selecção de bombas.

Em regime laminar, é conhecida a relação existente entre a perda de pressão por atrito,
∆𝑃𝑓 e o caudal volumétrico:

𝜋𝑅 4 (−∆𝑃)
𝑄𝑣 =
8𝜇𝐿

Que é conhecida como a equação de Hagen Poiseuille.

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Sabendo que: 𝑄𝑣 = 〈𝑣〉𝜋𝑅 2 :

(−∆𝑃)𝑅2 (−∆𝑃)𝐷2
〈𝑣〉 = =
8𝜇𝐿 32𝜇𝐿

Substituindo na expressão do factor de atrito de Fanning, e rearranjando (Welty et al.,


2008):

16𝜇 16
𝑓= =
𝜌𝑣𝐷 𝑅𝑒

Na realidade, usando o factor de atrito (𝑓 ∗ ) em vez do factor de atrito de Fanning obter-


se-á: (Campos, 2013)

64𝜇 64
𝑓∗ = =
𝜌𝑣𝐷 𝑅𝑒

Em regime de escoamento turbulento em condutas fechadas, ou tubagens, a relação


para o factro de atrito de Fanning (ou factor de atrito), não é obtida de forma tão
simples como é o caso do regime de escoamento laminar (com a aplicação da
equação de Hagen Poiseuille). Para esta situação há necessidade de se considerar os
perfis de velocidade para fluxo turbulento. No entano, existe uma grandeza que tem
que ser obrigatoriamente contabilizada, a rugosidade.

O escoamento em tubagens é diferente se for efectuado num tubo liso ou num tubo
rugoso. A rugosidade está relacionada com o material de que o tubo é constituído.
Define-se rugosidade absoluta como sendo a profundidade média da irregularidade de
uma superfície – neste caso, a superfície interior do tubo, expressa como um
comprimento. Por outro lado, a rugosidade relativa é um parâmetro de maior
relevância para o escoamento, e é definida como a razão entre a rugosidade absoluta
(característica do material) e o diâmetro interno do tubo.

𝜀
𝜀𝑟 =
𝐷

As Tabelas seguintes mostram a relação entre o diâmetro nominal e o diâmetro interno


efectivo e valores típicos de rugosidade para alguns materiais mais comuns usados no
fabrico de tubagens. Estes valores devem ser encarados como meros indicativos, já que
dependem muito dos processos de fabrico e acabamento de cada material. A
rugosidade de um tubo deve ser medida quando se pretende elevado rigor no
conhecimento das perdas de carga em tubagens.

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

Tabela 7: Diâmetros nominais para tubos normalizados. Tubos de aço inox, carbono e
ligas de aço. (Campos, 2013 )

Tabela 8: Rugosidade típica de alguns materiais. (Campos, 2013 )

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

No caso de tubos lisos, e com nº de Reynolds na gama 2100<Re<105, é válida a equação


de Blasius:

𝑓 = 0,0791𝑅𝑒 −0,25

Para outras situações, opta-se, normalmente, por usar o diagrama de Moody. Este
diagrama representa graficamente o factor de atrito de Fanning em função do nº de
Reynolds para uma gama alargada de valores de rugosidades relativas.

Figura 34: Diagrama de Moody (Welty et al., 2008).

Assim, o dimensionamento das tubagens passa por:

- Determinação do nº de Reynolds;

- Determinação da rugosidade relativa;

- Determinação de f;

- Cálculo do hf que pode entrar na Equação de Bernoulli modificada.

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

8.3. Perdas de carga localizadas em tubagens

Na realidade, a perda de carga mencionada anteriormente é apenas uma parte da


perda de carga total que ocorre durante o escoamento numa conduta fechada.
Outras perdas podem ocorrer devido à existência de válvulas, cotovelos, ou quaisquer
outros acessórios que induzam uma mudança na direcção do fluido ou no caudal de
passagem.

8.3.1. Acessórios na linha

Na maioria das vezes, sendo o escoamento perfeitamente turbulento, essas perdas são
consideradas independentes do número de Reynolds e podem ser representadas por:
(Welty et al., 2008)

∆𝑃 𝑣2
ℎ𝐿 = =𝐾
𝜌𝑔 2𝑔

Onde K é um coeficiente que depende do tipo de acessório.

Um método equivalente passa pela introdução de um comprimento equivalente (L eq),


de tal forma que:

𝐿𝑒𝑞 𝑣 2
ℎ𝐿 = 2𝑓
𝐷 2𝑔

Onde Leq corresponde ao comprimento de tubo que origina uma perda de carga
equivalente à perda de carga no referido acessório. Desta forma, a perda de carga
total na tubagem pode ser vista como a adição dos comprimentos equivalentes dos
acessórios ao comprimento da tubagem.

A relação existente entre o comprimento equivalente e o coeficiente K pode ser


facilmente obtida através de:

𝐿𝑒𝑞
𝐾 = 4𝑓
𝐷

𝐿𝑒𝑞
Valores típicos para K e podem ser observados na Tabela seguinte.
𝐷

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

Tabela 9: Perdas de carga em vários acessórios. (Welty et al., 2008 )

Nas Figuras seguintes estão representados alguns tipos de acessórios frequentemente


usados em instalações de transporte de fluidos.

a) b) c)

Figura 35: Acessórios para transporte de fluido – cotovelos (elbow). a) Cotovelo de 45º,
b) cotovelo de 90º de raio curto (short-radius elbow), c) cotovelo de 90 º de raio longo
(long-radius elbow). (Campos, 2013)

Outra peça muito utilizada em instalações de transporte de fluidos e que promove


perda de carga que tem de ser contabilizada são as derivações em T.

Figura 36: Acessórios para transporte de fluido – derivação em T


(Tee). Escoamento na derivação (Tee, through side outlet). (Campos, 2013)

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

Existem diversos tipos de válvulas, quer para controlo do caudal, quer para a abertura
e fecho do escoamento que também devem ser contabilizadas.

A válvula de globo (globe valve) é normalmente usada sempre que é necessário um


controlo fino do caudal de escoamento. Por haver alteração da direcção de
escoamento, quando totalmente aberta, promove uma perda de carga significativa.
(Campos, 2013)

Já as válvulas de guilhotina ou gaveta (gate valve), não alteram a direcção do


escoamento quando totalmente abertas, o que implica uma perda de carga mínima
nesta posição. Normalmente são usadas em processos onde não há necessidade de
operações frequentes de abertura e fecho, pois o seu manuseio é mais lento quando
comparado com o de outro tipo de válvulas. (Campos, 2013)

Figura 38: Acessórios para transporte de fluido – válvula de globo (Globe valve).
(Campos, 2013)

Figura 37: Acessórios para transporte de fluido – válvula de guilhotina ou gaveta (Gate
valve). (Campos, 2013)

83
Fenómenos de transporte I - Apontamentos

Um tratamento mais exaustivo de outros tipos de acessórios e respectivas perdas de


carga pode ser obtido através da consulta da bibliografia recomendada.

8.3.2. Expansões e contracções súbitas

As perdas de carga numa expansão súbita ou numa contracção, são exemplos em que
valores para os coeficientes de perdas podem ser obtidos analiticamente.

A perda de carga que ocorre num alargamento súbito é ilustrada na Figura seguinte:

Figura 39: Alargamento súbito. (Massey, 2006)

A equação da continuidade determina que a velocidade na secção 2, 𝑣2 (na Figura


representada por u2) seja menor que a velocidade na secção 1, 𝑣1 e a correspondente
variação da quantidade de movimento implica a existência de uma força global sobre
o fluido situado entre as secções 1 e 2. A força global no sentido do escoamento sobre
o fluido no interior do volume de referência BCDEFG é: (Massey, 2006)

𝑃1 𝐴1 + 𝑃′ (𝐴2 − 𝐴1 ) − 𝑃2 𝐴2

Em que 𝑃′ representa a pressão média do fluido sobre a coroa circular GD. Uma vez que
as acelerações radiais, junto à coroa circular GD, são muito pequenas, admite-se que
𝑃′ é sensivelmente igual a 𝑃1 .

Assim, de acordo com a equação da quantidade de movimento, se pode dizer que:

(𝑃1 − 𝑃2 )𝐴2 = 𝜌𝑄(𝑣2 − 𝑣1 )

Em que 𝜌 representa a massa volúmica do fluido e 𝑄 o caudal volumétrico. Então,

𝑄
𝑃1 − 𝑃2 = 𝜌 (𝑣 − 𝑣1 ) = 𝜌𝑣2 (𝑣2 − 𝑣1 )
𝐴2 2

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

Da equação da energia para fluidos incompressíveis, obtém-se:

𝑃1 𝑣12 𝑃2 𝑣22
+ + 𝑧1 = + + 𝑧2 + ℎ𝐿
𝜌𝑔 2𝑔 𝜌𝑔 2𝑔

Onde ℎ𝐿 representa a perda de carga total entre as secções 1 e 2. Então:

𝑃1 − 𝑃2 𝑣12 − 𝑣22
ℎ𝐿 = +
𝜌𝑔 2𝑔

O que, substituindo na equação 𝑃1 − 𝑃2 = 𝜌𝑣2 (𝑣2 − 𝑣1 ):

𝑣2 (𝑣2 − 𝑣1 ) 𝑣12 − 𝑣22 (𝑣1 − 𝑣2 )2


ℎ𝐿 = + =
𝑔 2𝑔 2𝑔

Pela equação da continuidade sabe-se que:

𝐴1 𝑣1 = 𝐴2 𝑣2

Logo:

2
𝑣12 𝐴2
ℎ𝐿 = ( − 1)
2𝑔 𝐴1

Por outro lado, tratando-se de uma contracção (ou estreitamento) brusco, esta
situação pode ser observada na Figura seguinte:

Figura 40: Estreitamento súbito. (Massey, 2006)

Neste caso, imediatamente a jusante da contracção na tubagem, há formação de


uma vena contracta, a seguir à qual a corrente de fluido alarga de novo, até atingir a
parede do tubo.

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

Procedendo de forma semelhante ao apresentado anteriormente para a situação de


alargamento súbito, obtém-se que:

2 2
𝑣22 𝐴2 𝑣22 1
ℎ𝐿 = ( − 1) = ( − 1)
2𝑔 𝐴𝐶 2𝑔 𝐶𝐶

Em que 𝐴𝐶 representa a área de secção da vena contracta e o coeficiente de


𝐴𝐶
contracção é 𝐶𝐶 =
𝐴2
.

Embora a área 𝐴1 não figure explicitamente na expressão, o valor de 𝐶𝐶 depende da


𝐴2
razão
𝐴1
. A perda de carga é bem representada pela expressão:

𝑘𝑣22
ℎ𝐿 =
2𝑔

𝑑2
Os valores representativos de k para diferentes valores de a números de Reynolds
𝑑1

elevados são apresentados na Tabela seguinte:

Tabela 10: Determinação do coeficiente k para contracções súbitas. (Massey, 2006)

8.4. Tubos de secção não circular

De entre as condutas fechadas utilizadas em engenharia, o tubo cilíndrico é, de longe,


o mais corrente. Existem no entanto inúmeras situações em que há necessidade de se
calcular a perda de carga por atrito em condutas não circulares.

A determinação da perda de carga através do diagrama de Moody é neste caso feita


recorrendo à noção de diâmetro equivalente dada por:

𝑆
𝐷𝑒𝑞 = 4 ×
𝑍

Sendo S a área de secção disponível para o fluxo e Z o perímetro molhado.

𝑆
A razão (área/perímetro) designa-se por raio hidráulico médio e representa-se por RH.
𝑍

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

De facto, experiências realizadas demonstraram que o conceito de diâmetro


equivalente só pode ser aplicado em regime turbulento, não sendo aplicado em
situações de regime laminar. Também, quando parte da secção recta é muito estreita,
pode haver escoamento laminar nessa zona, embora o escoamento principal seja
turbulento. Para estes casos, a noção de diâmetro equivalente atrás definida não dá
aproximações válidas. (Massey, 2006)

Em caso de regime turbulento puro, a perda de carga pode ser calculada através das
expressões que nos são familiares, i.e., o número de Reynolds e o factor de atrito de
Fanning, agora expressos da seguinte forma:

𝜌𝑣𝐷𝑒𝑞
𝑅𝑒 =
𝜇

1 𝐷𝑒𝑞 (−∆𝑃𝑓 )
𝑓=
4 𝐿 1 𝜌𝑣 2
2

A perda de pressão devida ao atrito pode então ser aplicada na equação de Bernoulli,
da mesma forma que nas condutas cilíndricas.

8.5. Bombagem de líquidos

Já foi mencionado o facto de na equação de Bernoulli poder ser contabilizado o termo


referente ao trabalho mecânico, 𝑊𝑠 :

𝑃1 𝑣12 𝑃2 𝑣22
𝑈1 + 𝑞 − 𝑊𝑠 + + + 𝑧1 = 𝑈2 + + + 𝑧2 + 𝑊𝜇
𝜌𝑔 2𝛼𝑔 𝜌𝑔 2𝛼𝑔

Este é um trabalho realizado em interfaces com superfícies sólidas, como é o caso das
pás de uma turbina.

Pode ser definida uma grandeza, ∆𝐻𝐵 que corresponde ao ganho energético quando
um fluido passa numa bomba , que se traduz num aumento de pressão.

−𝑊𝑠
∆𝐻𝐵 =
𝑔

Sendo 𝑊𝑠 negativo, há necessidade de se adicionar o sinal -, uma vez que o ∆𝐻𝐵 é


positivo.

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

Apliquemos então a equação de Bernoulli (agora incluindo o ∆𝐻𝐵 ) entre dois pontos
situados à entrada e à saída da bomba:

Se o fluxo for isotérmico:

𝑃1 𝑣12 𝑃2 𝑣22
+ + 𝑧1 + ∆𝐻𝐵 = + + 𝑧2 + ℎ𝑓 + ℎ𝐿
𝜌𝑔 2𝑔 𝜌𝑔 2𝑔

Se o tubo tiver o mesmo diâmetro à entrada e à saída, e dado que não há termo de
geração da bomba (i.e., os caudais volumétricos são iguais), então 𝑣1 = 𝑣2 . Se não

houver desnível, 𝑧1 = 𝑧2 . Desprezando o atrito na linha e acessórios:

𝑃2 − 𝑃1
∆𝐻𝐵 =
𝜌𝑔

Sendo 𝑃2 − 𝑃1 , o ganho de pressão na bomba.

∆𝑃𝐵
∆𝑃𝐵 = 𝑃2 − 𝑃1 ⟹ ∆𝐻𝐵 =
𝜌𝑔

De onde se pode aferir que:

∆𝑃𝐵
−𝑊𝑠 =
𝜌

Por outro lado, a potência hidráulica, i.e., que a bomba transmite ao fluido, Pb será:

∆𝑃𝐵
𝑃𝐵 = −𝑊𝑠 × 𝑚̇ = × 𝑄𝑣 𝜌 ⟹ 𝑃𝐵 = ∆𝑃𝐵 × 𝑄𝑣
𝜌

A razão entre a potência hidráulica e a potência consumida pela bomba, Pcons


corresponde à eficiência da bomba, 𝜂.

𝑃𝑏
𝜂=
𝑃𝑐𝑜𝑛𝑠

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

8.6. Exercícios

1. Benzeno a 20 ºC flui de um tanque de armazenagem para um camião-cisterna, por efeito da


gravidade, de acordo com o esquema da Figura. A mangueira entre o tanque e o camião tem
60 m de comprimento, 2,5 cm de diâmetro e 0,03 mm de rugosidade. Tanque e camião
encontram-se abertos para a atmosfera, sendo o desnível de 8 m. Qual será o caudal de
benzeno, admitindo nº de Re = 1,55×104 e desprezando os efeitos de perda de carga nos
acessórios de tubagem e admitindo que as variações temporais no desnível são desprezáveis?
(Dados: g=9,8 m/s2)

8m

R: Q=0,75 L/s

2. Pretende-se transportar combustível a partir de um camião cisterna para um depósito


subterrâneo, de acordo com a Figura apresentada. A pressão relativa no interior do depósito
subterrâneo é mantida a 1,57 bar e o camião encontra-se aberto à atmosfera. A conduta de
abastecimento tem 76 mm de diâmetro, 0,05 mm de rugosidade e um comprimento total de 100
m. Admitindo que o transporte ocorre por gravidade e desprezando os acessórios no percurso,
calcule:

a) As perdas de carga devidas ao atrito.


b) Se o transporte ocorrer com um nº de Re=4×105, qual o caudal volumétrico do
combustível transportado.
Dados: ρ (combustivel)=850 kg/m3; g=9,8 m/s2, 1 bar=105 Pa

R: a) hf=12,8 m; b) 15L/s

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

3. Considere o escoamento de ar frio (=1,25 kg/m3 e =0,0177 mPa.s) numa conduta de


ar condicionado. A secção da conduta é rectangular com 15 cm de altura e 40 cm de
largura. Para uma velocidade média do ar de 2 m/s determine:
a) O diâmetro equivalente.
b) O regime de escoamento do fluido.

R: a) Deq=21,8 cm; b)turbulento

4. A trasfega de um líquido entre dois tanques é feita, de acordo com o esquema abaixo.
A tubagem é de polietileno (diâmetro = 5 cm, rugosidade = 0,025 mm) e tem um
comprimento total de 150 m. A linha tem dois cotovelos padrão a 90º, dois cotovelos a
45º, uma válvula de gaveta e uma válvula em globo, totalmente abertas.
a) Se o transporte ocorrer com um nº de Re de 4×10 5. Qual o caudal volumétrico da água
transportada?
b) Admitindo que o fluido a ser transportado é água (=1g/cm3, =1mPa.s) e que é colocada
na linha uma bomba de modo a aumentar o Qv em 3 vezes o seu valor. Determine o
ganho da bomba em metros.

g=9,8 m/s2

R: a) Qv=3L/s; b)68 m

5. Um fabricante de válvulas pretende caracterizar um novo modelo recorrendo a um


manómetro diferencial em U, de acordo com o esquema:

a) Determine a equação do coeficiente de resistência da válvula, Kc, com a leitura no


manómetro, para uma dada velocidade de escoamento.)
b) Nos testes efectuados com um tubo de 3 cm de diâmetro e usando mercúrio como
líquido manométrico (densidade relativa do mercúrio = 13,6), verificou-se que um

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

caudal de 1,42 L/s de água a 20 ºC provocava um desnível nos meniscos de 33 cm.


Qual o valor do Kc nestas condições?
c) Compare o valor obtido com a Tabela fornecida em anexo e sugira o tipo de válvula
que está a ser testada.
(𝜌𝐻𝑔 −𝜌)ℎ2𝑔
R: a)𝐾𝐶 = ; b)Kc~20,4
𝜌𝑣 2

6. Pretende-se transferir água a 20 ºC desde uma albufeira até um depósito situado numa
fábrica, de acordo com o esquema em anexo (as distâncias não estão à escala). A
tubagem tem diâmetro de 3 polegadas e rugosidade de 0,6 mm e compreende 4
cotovelos padrão a 90º, dois cotovelos a 45º, uma válvula de gaveta 1/2 aberta e uma
outra válvula do mesmo tipo, totalmente aberta.

9m

1m 2m

10 m
2m

10 m 18m

a) Se a altura manométrica fornecida pela bomba for de 40 m, qual será o caudal


volumétrico esperado? Considere apenas 2 iterações

b) Qual a potência consumida pela bomba, admitindo uma eficiência de bombagem


de 70%?

Dados: ρ (água) = 1000 kg/m3; μ (água) = 0,001 Pa.s; g=9,8 m/s2, 1 in = 25,4 mm

R: a) Q=21 L/s; b) potência = 12 KW

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Fenómenos de transporte I - Apontamentos

Bibliografia

Azevedo, E.G., Termodinâmica Aplicada, 3ª Ed., Escolar Editora, 2011.

Bird, R., Stewart, W., Lightfoot, E.,Transport Phenomena, John Wiley & sons, 2006.

Campos, J.M., Notas Para o Estudo da Mecânica do Fluidos, FEUP edições, 2013.

Coulson, J.M. and Richardson, J. F., Chemical Engineering, Fluid Flow, Heat Transfer and
Mass Transfer – Vol 1, 6th Edition, Butterworth –Heinemann, 1999.

Geankoplis, C.J., Transport Processes and Unit Operations, 3rd Edition, Prentice Hall
International Editions, 1993.

Massey, B.S., Mechanics of Fluids, 8th Edition, Taylor & Francis, 2006.

Welty, J.R., Wicks, C. E., Wilson, R. E., Rorrer, G. L. Fundamentals of Momentum, Heat and
Mass Transfer, 5th Edition, John Wiley & Sons, Inc., 2008.

Páginas de Internet

commons.wikimedia.org, última consulta em Abril de 2016

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