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Importância da Constitucionalização

do Direito ao Ambiente

Branca Martins da Cruz1

Sumário: I — Introdução: Direito a um ambiente sadio e eco-


logicamente equilibrado. II — O ambiente como bem jurídico au-
tónomo eticamente comprometido. III — Natureza jurídica do di-
reito ao ambiente. 1. O direito ao ambiente não é um direito da
personalidade. 2. O direito ao ambiente como direito-funcional ou
poder-dever. IV — A importância da consagração constitucional
do direito ao ambiente. V — Conclusão

I — Introdução: Direito a um ambiente sadio e ecologicamente


equilibrado

Pesem embora as dificuldades que o Direito do ambiente atra-


vessa2, continuando à procura das suas técnicas próprias, não tendo
atingido ainda o seu desenvolvimento pleno ou tão pouco o seu ponto

1 Directora do ILDA — Instituto Lusíada para o Direito do Ambiente. Subdi-


rectora da Faculdade de Direito da Universidade Lusíada do Porto. Professora
das Universidades Lusíada. Licenciada e Mestre em Direito pela Faculdade de
Direito de Lisboa. Doutora em Direito do Ambiente pela Universidade de
Nice-Sophia-Antipolis (França). Investigadora e Coordenadora de Grupo do
Centro de Estudos Jurídicos, Económicos e Ambientais. Directora e Coordena-
dora Científica da Revista Direito e Ambiente.
2 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, Desenvolvimento Sustentável e Responsa-
bilidade Ambiental, in, Direito e Ambiente, Revista do ILDA — Instituto Lusía-
da para o Direito do Ambiente, Ano I, nº 1, Jul.-Set. 08, Univ. Lusíada Ed., em
publicação.

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de equilíbrio3 e prosseguindo na busca das suas raízes4, este Direi-
to de carácter horizontal, recobrindo diferentes ramos clássicos do
Direito (..) e um Direito de interacções que tende a penetrar em to-
dos os sectores do Direito5 ou, no dizer de SOUSA FRANCO, en-
tendido como um conjunto, horizontal e materialmente determina-
do, de tópicos, princípios, regras e situações jurídicas pertencentes a
diversos ramos do Direito6, dispõe todavia de instrumentos norma-
tivos cuja importância deve merecer-nos uma atenção especial.
Ora, um desses utensílios consiste na consagração constitucional e
legal de um direito ao ambiente reconhecido a todos os cidadãos e,
apesar da sua idade balzaquiana (32 anos), este direito de todos a
um ambiente de vida humana, sadio e ecologicamente equilibrado e
o dever de o defender que o art. 66º da Constituição da República
Portuguesa (CRP) consagra como direito-dever fundamental, não
tem obtido da doutrina a atenção que merece nem o reconheci-
mento que lhe é devido pela comunidade. Mal amado, fora de
moda7, ou acusado de antropocêntrico, este direito fundamental ao
ambiente vem sendo ignorado, negado e abandonado, sendo-lhe
preferidas fórmulas estritamente publicistas como a de uma espe-
cífica tarefa fundamental do Estado8.

3 No original, em francês, à la recherche de ses techniques propres et (...) n’a


pas (...) encore atteint son plein épanouissement, non plus que son point d’équili-
bre. Cfr. Michel DESPAX, Droit de l’environnement, LITEC, Paris, 1980, pp.
819.
4 No original, em francês, cherche ses racines. Cfr. Martine RÈMOND-
GOUILLOUD, Du droit de détruire, essai sur le droit de l’environnement,
P.U.F., Paris, 1989, pp. 19.
5 No original, em francês, un droit de caractère horizontal, recouvrant différen-
tes branches classiques du droit (...) et un droit d’interactions qui tend à pénétrer
dans tous les secteurs du droit. Cfr. Michel PRIEUR, Droit de l’environnement,
4ª ed., Précis Dalloz, Paris, 2001, pp. 6.
6 Cfr. António SOUSA FRANCO, Ambiente e Desenvolvimento — Enquadra-
mento e Fundamentos do Direito do Ambiente, in, Direito do Ambiente, I.N.A.,
Oeiras, 1994, pp. 35-81. Cfr. pp. 36.
7 José Joaquim GOMES CANOTILHO chega mesmo a interrogar-se se O
direito ao ambiente como direito subjectivo? é uma pergunta fora de moda? Cfr.,
deste autor, O Direito ao Ambiente como Direito Subjectivo, in Tutela Jurídica
do Meio Ambiente: Presente e Futuro, Boletim da Faculdade de Direito de
Coimbra, Coimbra Ed., 2005, pp. 47-57.
8 Cfr. Maria da Glória GARCIA, O Lugar do Direito na Protecção do Ambien-
te, Almedina, 2007, pp. 481.

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Na verdade, esta aparente antinomia entre direito subjectivo
fundamental ao ambiente e protecção estatal não nos parece encer-
rar qualquer contradição. Bem pelo contrário, a afirmação daquele
direito reconhecido a todos e a imposição ao Estado de deveres
normativo-constitucionais de protecção ambiental afiguram-se-nos
mesmo complementares, não só de jure condendo, mas, sobretudo,
de jure constituto. Se, no nº 1 do art. 66º, o legislador português
consigna o direito-dever dos cidadãos a um ambiente são e ecologi-
camente equilibrado, no nº 2 impõe ao Estado que assegure este
direito, afirmando a protecção do ambiente como tarefa funda-
mental do Estado, no quadro de um desenvolvimento sustentável9.
O fim prosseguido é o mesmo (protecção ambiental com vista ao
desenvolvimento sustentável) e só os meios jurídicos para atingir
este fim são distintos e titulados por sujeitos também diversos: os
cidadãos (todos e cada um de nós) e o Estado investido do seu po-
der político, como garante dos valores sociais e dos direitos dos ci-
dadãos, como é próprio num Estado de Direito.
Já quanto à acusação de antropocentrismo, ela afigura-se-nos
fundada, mas deve ser contextualizada e analisada sem os comple-
xos que têm vindo a tolher o discurso jus-ambiental em torno deste
direito-dever. Pensamos ser hoje indiscutível que qualquer filoso-
fia que insista em ver o ser humano como centro do Universo, es-
pécie de mandatário de um qualquer deus perverso que, tendo fei-
to o homem à sua imagem e semelhança ainda o dotara de poderes
de domínio sobre a Natureza e todos os outros seres vivos, já não
colhe adeptos, tal a evidência dos estragos que esta visão distorcida
do Mundo e dos desígnios divinos tem vindo a causar10. Mas, sobre-

9 No art. 66º da CRP diz-se: Para assegurar o direito ao ambiente, no quadro


de um desenvolvimento sustentável, incumbe ao Estado, por meio de organismos
próprios e com o envolvimento e participação dos cidadãos, seguindo-se depois 8
alíneas onde o legislador constituinte enumera algumas daquelas tarefas especí-
ficas do Estado.
10 Neste sentido, cfr. Edgar MORIN, La pensée écologisée, in, Introduction à
une politique de l’homme, Éd. le Seuil, Paris, 1999. A pp. 136/137, o autor afirma
que é necessário deixar de ver o homem como um ser sobrenatural. É preciso
abandonar o projecto formulado por Descartes e Marx de conquista e de posse da
natureza. Este projecto tornou-se ridículo a partir do momento em que nos aperce-
bemos que o imenso cosmos continua fora do nosso alcance. Ele tornou-se delirante
a partir do momento em que nos apercebemos que é o devir prometeico da tecno-
ciência que conduz à ruína da biosfera e daí ao suicídio da humanidade. (...)sa-

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tudo, tendo bem presente que somos nós, os seres humanos, as
principais vítimas da aplicação prática dessa crença irracional no
nosso poder infinito sobre a Natureza11.
Todavia, e apesar de nos parecer inegável alguma influência
desta visão antropocêntrica sobre o legislador constitucional, a ver-
dade é que o Direito tem uma natureza antropogénica. Ele define-
se como ordenamento normativo da sociedade humana, ou seja,
nele se estabelecem as regras que regulam as relações entre os ho-
mens, incluindo as instâncias e instituições por eles criadas para a
sua auto-organização.
Esta, a missão em que o Direito se esgota e qualquer utilização
que dele se pretenda fazer para regular instâncias não humanas,
será sempre marcada pela vontade humana, reflectindo os interes-
ses humanos e a consequente visão que os homens têm do Mundo
e das referidas instâncias. As regras e as premissas em que tais re-
gras assentem serão inexoravelmente determinadas pelos humanos

bemos hoje que não podemos valorizar verdadeiramente o homem se não valori-
zarmos também a vida, e que o respeito profundo pelo homem passa pelo
respeito profundo pela vida. A religião do homem insular é uma religião inuma-
na. (...) a pressão da complexidade dos acontecimentos, a urgência e a amplitude
do problema ecológico impelem-nos a mudar os nossos pensamentos. No origi-
nal, em francês, Il faut cesser de voir l’homme comme un être sur-naturel. Il faut
abandonner le projet formulé à la fois par Descartes et Marx de conquête et de
possession de la nature. Ce projet est devenu ridicule à partie du moment où on
s’est rendu compte que l’immense cosmos reste hors de notre atteinte. Il est devenu
délirant à partir du moment où l’on s’est rendu compte que c’est le devenir
prométhéen de la technoscience qui conduit à la ruine de la biosphère et par là au
suicide de l’humanité. (...) nous savons aujourd’hui que nous ne pouvons valoriser
véritablement l’homme que si nous valorisons aussi la vie, et que le respect
profond de l’homme passe par le respect profond de la vie. La religion de l’homme
insulaire est une religion inhumaine. (...) la pression de complexité des événe-
ments, l’urgence et l’ampleur du problème écologique nous poussent à changer nos
pensées.
11 Cfr. Hans JONAS, Le principe responsabilité — une éthique pour la civilisa-
tion technologique, CERF, 3e ed., 1993, tradução francesa do original alemão,
onde, a pp. 188, o autor escreve que a solidariedade de destino entre o homem e
a natureza, solidariedade de novo descoberta através do perigo, faz-nos igual-
mente descobrir a dignidade autónoma da natureza e manda-nos respeitar a sua
integridade para lá dos aspectos utilitários. No original, em francês, la solidarité
de destin entre l’homme et la nature, solidarité nouvellement découverte à travers
le danger, nous fait également redécouvrir la dignité autonome de la nature et
nous commande de respecter son intégrité par-delà l’aspect utilitaire.

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que as concebem, interpretam, aplicam e que constituem simulta-
neamente os destinatários dessa aplicação. Por isso, recusamos a
personalização da Natureza ou dos entes que a compõem12, consi-
derando-a hipócrita e sobretudo inútil, preferindo-lhe claramente
a consagração de um quadro de direitos e de deveres, que são afinal
a matéria-prima de que é tecido o Direito. Os actores somos sem-
pre nós, os seres humanos13, e ao Direito cabe proibir, impor, en-
corajar, desencorajar, premiar ou reprimir os nossos comporta-
mentos, elegendo objectos de protecção erigidos em bens jurídicos
e estabelecendo os níveis dessa protecção através do manejo eficaz
dos direitos e dos deveres facultados ou impostos e das sanções es-
tabelecidas em caso de violação das normas.
É nossa sincera convicção que a eficiência das normas ambien-
tais e a eficácia do Direito do ambiente, que o mesmo é dizer a
protecção eficaz do ambiente com vista à sustentabilidade, depen-
dem essencialmente da aceitação por todos de que o ambiente
constitui um bem maior, cuja preservação se mostra imprescindí-
vel para a nossa própria sobrevivência que dela depende. Qualificar
esta atitude perante a Natureza de ecocentrismo ou de antropo-
centrismo, na prática, redunda indiferente. Na verdade, será as
duas coisas: ecocêntrica porque parte da Natureza para o homem,
reconhecendo a dependência deste relativamente àquela, mas tam-
bém antropocêntrica ou pelo menos antropogénica, se atentarmos
no facto de que a razão da protecção devida ao ambiente parte de
nós, da necessidade da nossa própria protecção. Mas, é assim mes-
mo, o ser humano é egoísta e pensa sempre primeiro em si próprio
e nos seus interesses e quaisquer que sejam os mecanismos que ele-

12 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, De la réparation du dommage écologique


pur — Étude à la lumière du Droit portugais, tese, ANRT, Paris, 2007, pp.37 e
ss.
13 Ou, como nota Hans JONAS, Enquanto que o último pólo de referência, que
faz do interesse pela conservação da natureza um interesse ‘moral’, é o destino do
homem, na medida em que este depende do estado da natureza, a orientação
antropocêntrica clássica será ainda aqui mantida. No original, em francês, Pour
autant que l’ultime pôle de référence qui fait de l’intérêt pour la conservation de
la nature un intérêt ‘moral’ est le destin de ‘l’homme’ en tant qu’il dépend de l’état
de la nature, l’orientation anthropocentrique de l’éthique classique est encore
conservée ici. Cfr. Le principe responsabilité — une éthique pour la civilisation
technologique, op. cit., pp. 25.

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jamos para melhor defender o ambiente, não poderemos ignorar
esta cruel realidade.

II — O ambiente como bem jurídico autónomo eticamente


comprometido

Por isso, mister é que o bem ambiente seja eticamente incorpo-


rado. Queremos com isto dizer que já é tempo de erigirmos o am-
biente em valor ético fundamental da humanidade, acolhendo-o no
Direito como bem jurídico fundamental, ao lado de outros bens
jurídicos com elevado grau de comprometimento ético, como a
vida ou a dignidade humanas e deixando de lado os complexos de
antropocentrismo porque a protecção do ambiente não pode espe-
rar. No dia em que isso realmente acontecer, estamos convencida
de que deixaremos de ouvir as vozes que ainda hoje reclamam con-
tra o Direito penal do ambiente, asseverando que a existência da-
quilo que designam por Direito Penal secundário ou Direito admi-
nistrativo de contra-ordenação é suficiente para punir as infracções
(em vez de crimes) ambientais. Passaremos a ter um bem jurídico
com dignidade plena e poderemos esperar que sejam abandonadas
as soluções jurídicas de cariz exclusivamente utilitarista, que pug-
nam pela subversão do Direito em nome das pretensas particulari-
dades do bem jurídico ambiente, sustentando que tais especificida-
des não permitem a sua subsunção nos quadros e institutos jurídi-
cos tradicionais e que tem servido para arrastar indefinidamente a
inaplicabilidade de grande parte do ordenamento jurídico ao con-
tencioso ambiental, consentindo que a irresponsabilidade e a im-
punidade continuem a reinar e apontando como única saída a porta
da estatização do ambiente e da administrativização da justiça que
exclui aqueles que são os primeiros interessados num Direito am-
biental eficaz: os cidadãos.
Ora, a afirmação de um direito subjectivo ao ambiente, facili-
tando o reenquadramento das situações jurídicas ambientais, per-
mite recortar o ambiente como ‘bem jurídico autónomo’ não dissol-
vido na protecção de outros bens constitucionalmente relevantes14 e,

14 Cfr. JJ GOMES CANOTILHO, O Direito ao Ambiente como Direito Subjec-


tivo, op. cit., pp. 54.

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dest’arte, contribui também para a elevação do ambiente a valor
ético fundamental de toda a comunidade e respectiva inte-
riorização pelo seus membros15. O envolvimento e a participação
dos cidadãos na defesa do ambiente assume nos tempos que cor-
rem uma importância acrescida, assinalando-se o nascimento de
uma nova relação entre o Estado e o indivíduo, o cidadão, na socie-
dade actual16.
Ao declínio do Estado-providência, no qual a defesa dos inte-
resses sociais constituía uma das tarefas prioritárias do Estado, en-
quanto representante político da sociedade, sucede um Estado
com uma estrutura complexa, cujo intervencionismo, sempre pre-
sente, leva-o frequentemente a invadir a esfera dos interesses indi-
viduais e colectivos17, actuando como qualquer cidadão, membro
da sociedade civil, actuaria. Esta promiscuidade cria uma espécie
de conflito sob a forma de concorrência entre o Estado e a socieda-
de civil, interferindo com o cumprimento dos deveres estaduais e
impedindo o Estado de satisfazer plenamente a sua função, garan-
tindo, com total neutralidade, a protecção dos interesses dos cida-
dãos. Tratando-se de interesses ambientais, e a título de exemplo,
basta pensarmos em situações nas quais o próprio Estado é o polui-
dor.
Neste cenário, o conceito e a função do direito subjectivo
vêem-se forçados a mudar, assistindo-se então à respectiva evolu-
ção para um direito mais desprendido da pessoa, do seu interesse
individual, exclusivo e egoísta18. A sua função torna-se mais social

15 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, The constitutional right to an ecologically


balanced environment in Portugal, in Constitutional rights to an ecologically
balanced environment, V.V.O.R.-Report 2007/2, Report of the international
conference organised by the Flemish Environmental Law Association, in collabo-
ration with the European Environmental Law Association on 28 September
2007, Isabelle Larmuseau editor, Gent, 2007, pp. 44-57. V. pp. 56/57.
16 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, De la réparation du dommage écologique
, op. cit., pp. 155/156..
17 Cfr. Vasco PEREIRA DA SILVA, Verde Cor de Direito — Lições de Direito
do Ambiente, ALMEDINA, 2002, pp. 23/24, onde se pode ler que em causa está
(...) o retorno à ideia de protecção do indivíduo contra o poder, acentuando a
ideia de defesa das pessoas contra novas ameaças provenientes tanto de entidades
públicas como privadas, sem que isso signifique pôr em causa a necessidade de
garantia dos direitos também através da acção estadual.
18 Cfr. José Manuel PUREZA, in, Tribunais, Natureza e Sociedade, op. cit.,,

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e a necessidade de participar na defesa dos interesses colectivos
cujo titular originário, o Estado, já não está em condições de asse-
gurar sem o envolvimento da sociedade civil, torna-se mais nítida.
Trata-se de uma evolução que teve o seu início no século XIX19,
em França20, e que deu luz ao aparecimento dos direitos sociais, na
Europa21, que emergem do Welfare-State enquanto direitos sub-
jectivos a prestações do Estado, similares a direitos de crédito.
Mais tarde, o seu âmbito foi sendo alargado, permitindo o respec-
tivo exercício não só contra o Estado, mas igualmente contra ou-
tros cidadãos, colectividades públicas ou privadas. A natureza des-
tes direitos não é todavia pacífica, permanecendo objecto de dis-
cussão. Podendo distinguir-se diferentes espécies de direitos so-
ciais, cumprindo diferentes funções e apresentando naturezas22 e
objectos também diversos (estritamente sociais, como a saúde, a
educação ou a habitação, económicos, culturais, ecológicos, etc.)23,
ora se lhes atribui o carácter de direitos públicos, ora o de direitos

pp. 23, que fala da supremacia do interesse da comunidade sobre uma configura-
ção egocêntrica e proprietarista dos direitos individuais.
19 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, De la réparation du dommage écologique
, op. cit., pp. 157/158.
20 Cfr. Louis JOSSERAND, De l’esprit des droits et de leur relativité — Théorie
de l’abus des droits, Paris, 1927 e De l’esprit des droits et de leur relativité —
Évolutions et actualité (Conférences de droit civil), Paris, 1936.
21 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, The constitutional right to an ecologically
balanced environment, op. cit., pp. 46.
22 Cfr. José Carlos VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na
constituição Portuguesa de 1976, Almedina, Coimbra, 1987, pp. 50 e ss..
23 Ibidem, op. e loc. cit.. V. igualmente Robert ALEXY, Teoria de los Derechos
Fundamentales (versão castelhana do original alemão), Centro de Estudios Cons-
titucionales, Madrid, 1993; João CAUPERS, Os Direitos Fundamentais dos
Trabalhadores e a Constituição, Almedina, Coimbra, 1985; J. J. GOMES CA-
NOTILHO, Tomemos a sério os Direitos Económicos, Sociais e Culturais, Coim-
bra, 1988; Jorge MIRANDA, Manual de Direito Constitucional — Direitos
Fundamentais, IV, 2ª ed., Coimbra Ed., 1993, Introduction à l’étude des droits
fondamentaux, in, La justice constitutionnelle au Portugal, Paris, 1989 e Direitos
Fundamentais, in, Dicionário Jurídico da Administração Pública, IV, Lisboa,
1991; Vasco PEREIRA DA SILVA, Verde Cor de Direito ..., op. cit., pp. 21 e ss.;
M. A. LOPES ROCHA, Direito do Ambiente e Direitos do Homem, in Revista de
Direito do Ambiente e Ordenamento do Território, nº 1, Set. 1995, pp. 9-28,
especialmente pp. 10/11; Ignacio ARA PINILLA, Los derechos humanos de
tercera generación en la dinámica de la legitimidad democrática, in, El Funda-
mento de los Derechos Humanos, Madrid, 1989, pp. 57-65.

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subjectivos privados ou, ainda, reconhecesse-lhes uma natureza
mista a ser precisada caso a caso, em cada situação jurídica. Dentro
destas categorias, a nossa atenção deve centrar-se nos interesses di-
fusos subjacentes ao direito ao ambiente, cujo objecto, o próprio
ambiente, deve ser olhado como um bem jurídico autónomo e in-
divisível, nem público nem privado, mas apenas comum (res com-
munis omnium), impassível de ser constituído objecto de direitos
individuais e exclusivos como o direito de propriedade.
Deste ponto de vista, o ambiente deve ser considerado um bem
ético-jurídico altamente colocado na hierarquia dos bens jurídicos
mais importantes, acima de outros, como a propriedade, pública
ou privada. À imagem de qualquer outro direito subjectivo, o direi-
to ao ambiente tem de se conformar à natureza e às características
do bem que lhe serve de objecto: o próprio ambiente24. Isto signi-
fica que as referidas autonomia, indivisibilidade e insusceptibilida-
de de apropriação que caracterizam o bem jurídico ambiente, en-
quanto res communis omnium, induzem a natureza e as caracterís-
ticas do direito concebido para a sua protecção. Simultaneamente,
a natureza ética de grau elevado que assinalámos ao ambiente re-
sulta grandemente facilitada pela consagração constitucional do di-
reito ao ambiente como direito fundamental, entre os mais impor-
tantes direitos, liberdades e garantias.

III — Natureza jurídica do direito ao ambiente

Esta qualificação do direito constitucional ao ambiente como


direito fundamental, consignado no Título II (Direitos, Liberdades
e Garantias), da Parte I, dedicada aos Direitos e Deveres Funda-
mentais, é hoje pacificamente aceite pela doutrina jus-constitucio-
nal portuguesa, merecendo o acordo expresso de alguns dos mais
consagrados constitucionalistas nacionais, como GOMES CANO-
TILHO25, Jorge MIRANDA26 ou VIEIRA DE ANDRADE27, per-

24 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, The constitutional right to an ecologically


balanced environment, op. cit., pp. 47.
25 Cfr. J. J. GOMES CANOTILHO, Actos Autorizativos Jurídico-Públicos e
Responsabilidade por Danos Ambientais, in, Boletim da Faculdade de Direito,
vol. LXIX, 1993, Universidade de Coimbra, pp. 1-69. V. pp. 59.
26 Cfr. Jorge MIRANDA, Manual de Direito Constitucional — Direitos Funda-
mentais, op. cit.. V. tb. do autor, A Constituição e o Direito do Ambiente, in,

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mitindo colocar o direito subjectivo ao ambiente acima de outros
direitos subjectivos que com ele concorrem, tais como o direito de
propriedade ou outros direitos individuais, exclusivos, de conteú-
do egoísta, como este último.
O direito ao ambiente destaca-se pela sua universalidade, per-
tencendo a todos e não sendo exclusivamente de ninguém. Por
isso, algumas classificações que lhe têm vindo a ser atribuídas pela
doutrina e/ou pela jurisprudência não lhe assentam bem. Dentre
estas destacam-se os atributos de direito subjectivo público ou de
direito da personalidade.
Relativamente à sua consideração enquanto direito subjectivo
público, basta lembrar que se trata de um direito que pode ser
exercido pelo Estado, mas igualmente por qualquer cidadão, con-
tra outro cidadão ou instituição privada e contra o próprio Estado
ou qualquer organismo público que atente contra o ambiente. Do
ponto de vista dos seus titulares e daqueles que se encontram obri-
gados a respeitá-lo, apresenta assim um carácter misto, ora públi-
co, ora privado, que não pode, por isso, ser decisivo para a sua qua-
lificação, prevalecendo a sua natureza social, nem pública, nem pri-
vada, antes universal, porque a todos pertence, encerrando um de-
ver de respeitar e defender o ambiente que também a todos obriga,
nos termos que explicitámos supra. A qualificação de público des-
loca este direito de todos para a esfera privilegiada do Estado, favo-
recendo, desta sorte, posições defensoras da estatização do Direito
do ambiente, através da administrativização das suas normas e pro-
cedimentos e relegando para um plano menos que secundário o pa-
pel dos cidadãos e o princípio da participação da sociedade civil na
defesa do ambiente, acabando por negar o próprio direito funda-
mental a um ambiente são e ecologicamente equilibrado que a CRP
reconhece a todos28.

Direito do Ambiente, I.N.A., 1994, pp. 353-365.


27 Cfr. J. C. VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos Fundamentais na Constitui-
ção Portuguesa de 1976, op. cit..
28 Neste sentido, cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, Avanços e Retrocessos do
Direito do Ambiente na Europa Comunitária: Análise Crítica da Directiva
2004/35/CE Relativa à Responsabilidade Ambiental, Lusíada — Revista de
Ciência e Cultura, Série de Direito, n.º 1 e 2 de 2004. V. tb. da autora,
Contaminação Inevitável dos Direitos Empresarial e Societário pelo Direito do
Ambiente. A Responsabilidade Ambiental enquanto Princípio Conformador da
Actividade Empresarial, in Nos 20 Anos do Código das Sociedades Comerciais.

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Por sua vez, o rótulo de direito da personalidade tem concitado
a adesão da doutrina e da jurisprudência e merece-nos, por isso,
especial atenção.

1.O direito ao ambiente não é um direito da personalidade

Na verdade, desta feliz qualificação constitucional do direito ao


ambiente como direito fundamental, não nos parece decorrer qual-
quer inerência ao catálogo dos direitos da personalidade29, apesar
de esta consideração colher inúmeros adeptos na doutrina e na ju-
risprudência portuguesas30. E isto, mesmo se devemos conceder
que esta tese se tem mostrado de inegável utilidade em sede de
conflitos de vizinhança. Ela teve o mérito de permitir a extrapola-
ção do direito de propriedade, domínio tradicional destes confli-
tos, passando tais situações a ser consideradas como manifestações
da protecção devida à personalidade do proprietário, estabelecen-
do assim a ponte necessária entre o campo estrito do Direito das
coisas (direitos reais) para o do Direito das pessoas (direitos da
personalidade)31.

Homenagem aos Profs. Doutores A. Ferrer Correia, Orlando de Carvalho e


Vasco Lobo Xavier, Coimbra Ed., 2007, II Vol., pp. 439-491, publicado igual-
mente na Revista de Direito Ambiental, nº 50, Abr.-Jun. 2008, pp.
29 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, De la réparation du dommage écologique
, op. cit., pp. 175 e ss.
30 Na doutrina, cfr., v.g. Mário RAPOSO, O Direito ao Ambiente como Direito
Fundamental, in, Textos — Ambiente, C.E.J., Lisboa, 1994, p. 115/130; Ma-
nuela FLORES, Responsabilidade Civil Ambiental em Portugal: Legislação e
Jurisprudência, in Textos —, II Vol., C.E.J, Lisboa, 1996, pp. 371-395; Manuel
TOMÉ, A Responsabilidade Civil na Tutela do Ambiente — Panorâmica do
Direito Português, in, Textos — Ambiente e Consumo, II Vol., p. 397-413.
Contra, Mário TORRES, Ambiente — Bem Jurídico — Legitimidade, in, Textos
— Ambiente, p. 447-460. Quanto à jurisprudência, são muitas as decisões
judiciais que acolhem esta qualificação. Mas, só a título exemplificativo, em 12
de Outubro de 1984, na sentença proferida numa acção opondo os moradores de
um apartamento situado por cima de uma sala de jogo do bingo e um bar, que
funcionavam até altas horas da noite, o 3º Juízo Cível da Comarca do Porto,
referia-se a (...) direitos à protecção da saúde (...) e ambiente de vida humana
e sadia (...) de cuja íntima ligação à personalidade não se pode duvidar
(...). Sublinhados nossos.
31 Trata-se, aliás, de uma velha querela doutrinária em torno do art. 1346º
(Livro II, Direito das Coisas) do Código Civil, que, designadamente, opõe OLI-
VEIRA ASCENSÃO e VAZ SERRA. — Revista de Legislação e Jurisprudência,

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Além deste mérito, a qualificação do direito ao ambiente como
direito da personalidade ainda colhe a vantagem de integrar aquele
direito no catálogo dos direitos absolutos, comparável aos direitos
reais e até superior, atenta a sua natureza estritamente pessoal, li-
gada à dignidade humana32. Apesar disto, cabe contudo perguntar:

1. Para beneficiar de um regime que lhe permita colocar-se acima


de outros direitos subjectivos, nomeadamente, do direito de pro-
priedade, o direito ao ambiente necessita desta ligação à persona-
lidade humana?
2. É esta a qualificação que assenta melhor a este direito, de cada
um e pertença de todos, a um ambiente são e ecologicamente
equilibrado?
3. Enfim, de um ponto de vista estritamente dogmático, poderá
ou deverá o direito subjectivo ao ambiente ser considerado como
um verdadeiro direito da personalidade?

Responder a estas perguntas implica ter presentes as razões que


subjazem à dita qualificação do direito ao ambiente como direito
da personalidade e a mais evidente de todas afigura-se decorrer da
descrita evolução jurisprudencial que derivou o direito ao ambien-
te das relações de vizinhança e da protecção legal dispensada ao
proprietário. Direitos como o direito ao repouso33, o direito à saú-

ano 103º, pp. 378. Este último, defendendo que os danos derivados da vizinhan-
ça podem também atingir quem não é proprietário de um imóvel vizinho, e podem
ofender, não só os direitos de propriedade, mas ainda outros direitos, designada-
mente os direitos de personalidade e O Prof. OLIVEIRA ASCENSÃO — Direito
Civil — Reais, Coimbra Ed., 5e éd., 2000, pp. 252/253 — sustentando que o
prejuízo referido no art. 1346º reporta-se tão só às ralações jurídicas reais e não
aos direitos da personalidade.
32 Gilles MARTIN, Le droit à l’environnement. De la responsabilité civile pour
faits de pollution, tese, P.P.S., Lyon, 1978, pp. 140, sustenta o carácter absoluto
do direito ao ambiente, visto que ele se impõe ao respeito de todas as outras
pessoas. O autor associa igualmente este direito com os direitos da personalidade
e, mais ainda, com os direitos reais, uma vez que, tal como estes, ele consiste num
certo poder exercido sobre uma coisa. No original, em francês, il partage ce
caractère avec les droits de la personnalité, et, plus encore, avec les droits réels
puisque, comme ces derniers, il consiste en un certain pouvoir exercé sur une
«chose». Cfr. tb. Branca MARTINS DA CRUZ, De la réparation du dommage
écologique , op. cit., pp. 175.
33 Cfr., v.g., decisão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ), de 28 de Abril de
1977, no Processo nº 66.606.

212

1847.08-1
cesar-ro
de34, o direito a uma certa qualidade de vida, etc., etc.. surgiram
como verdadeiras criações jurisprudenciais, fundadas ora no art.
70º do Código Civil (direitos da personalidade) ora nos arts. 64º
(saúde), 65º (habitação) e 66º (ambiente e qualidade de vida), da
CRP, ora em ambos os instrumentos normativos basilares do orde-
namento jurídico português35. E, isto, de forma sistemática, sendo
raras as decisões dos tribunais portugueses que, em matéria de con-
flitos de vizinhança, não se lhes refira.
Porém, isto revela tão só as dificuldades sentidas pela jurispru-
dência, perante a protecção insuficiente concedida pelo art. 1346º
do Código Civil aos conflitos de vizinhança, sobretudo nos meios
urbanos. Mas, igualmente, devido à proximidade destes conflitos
com a danosidade ambiental, principalmente se tivermos em conta
a, ainda praticamente inexistente, autonomização do bem jurídico
ambiente. Tudo isto, traduzindo a dificuldade em emancipar as
questões ambientais da sua conexão com os direitos de propriedade
e de personalidade36, apesar de que, também para nós, a leitura
conjugada das normas constitucionais e legais pertinentes, permite
concluir que: o direito ao ambiente não se caracteriza como um
simples momento do direito de personalidade; (...) antes im-
põe considerar o direito ao ambiente como (...) um direito au-
tónomo e distinto de outros direitos também constitucional-
mente protegidos, tais como a saúde, a vida, a personalidade e
a propriedade (...)37.
A estas razões não será certamente equívoco acrescentar algum
antropocentrismo excessivo, ainda muito presente na doutrina e na
jurisprudência portuguesas. É claro que certos direitos da persona-
lidade, como o direito à saúde ou o direito ao repouso, implicam a
existência de um ambiente propício ao seu desenvolvimento e à
respectiva protecção, pressupondo sempre a ideia de um ambiente

34 Ibidem. V. tb. sentença do Tribunal da Relação do Porto, de 25 de Maio de


1982, no Porcesso nº 15.896.
35 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, De la réparation du dommage écologique
, op. cit., pp. 175 e ss..
36 Cfr. José Manuel ARAÚJO BARROS, Aplicação Judiciária do Direito do
Ambiente — Contencioso Cível, in, Textos, Ambiente e Consumo, II Vol., op. cit.,
pp. 195-204. V. pp. 198.
37 Cfr. Mário TORRES, Ambiente — Bem Jurídico/Legitimidade, in, Textos,
Ambiente, 1994, op. cit., pp. 451. Sublinhados nossos.

213

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equilibrado e sadio. No entanto, conceber que o direito ao ambien-
te nada mais é do que um direito da personalidade, conduz-nos a
negar (ou pelo menos a ignorar) a autonomia do bem jurídico am-
biente, que deve ser considerado um bem exterior à pessoa huma-
na (a qualquer pessoa), bem como nos leva a esquecer que o direito
ao ambiente não tem um conteúdo exclusivamente positivo, com-
portando igualmente um lado passivo (os deveres de preservação e
de defesa do ambiente), de importância pelo menos igual, senão
superior (atenta a natureza social do bem e do direito), à da seu
conteúdo activo38.
É evidente que a personalidade e o cortejo de bens que a for-
mam resultam mediatamente protegidos, trata-se, porém, disso
mesmo, de uma protecção mediata, indirecta, reflexa. Viver num
ambiente saudável, equilibrado, acresce indiscutivelmente a quali-
dade de vida, é bom para a saúde e, portanto, para a pessoa e para
o desenvolvimento da sua personalidade, contribuindo para o equi-
líbrio físico, psíquico e social e colaborando, desta sorte, na protec-
ção dos direitos da personalidade. Assim é, aliás, com tudo aquilo
que nos facilita a vida ou nos torna a existência mais feliz, sendo o
contrário igualmente verdade: tudo o que prejudica o nosso bem-
estar, a nossa qualidade de vida ou a nossa felicidade, se mostra
também nocivo para os nossos direitos da personalidade. Contudo,
se o meu devedor não paga o que me deve e isso me afecta moral-
mente, me torna infeliz, esta dor moral, por pior que seja, não me
autoriza a qualificar o direito de crédito violado como direito da
personalidade. A sua função imediata não é a de proteger a minha
personalidade, mas sim a de organizar convenientemente o comér-
cio jurídico na sociedade, obrigando cada um a respeitar os com-
promissos assumidos e a pagar as suas dívidas. Se ao dano patrimo-
nial vier acrescer um dano moral, este será naturalmente indemni-
zado em concomitância com aquele39.
De quanto precede se inferem as respostas, necessariamente
negativas, às três questões colocadas. A qualificação do direito ao

38 A este propósito, António HERMAN BENJAMIN, Constitucionalização do


Ambiente e Ecologização da Constituição Brasileira, in, Direito Constitucional
Ambiental Brasileiro, Ed. Saraiva, São Paulo, 2007, pp. 57-130, fala de um
direito com estrutura bifronte. V. pp. 103.
39 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, De la réparation du dommage écologique
, op. cit., pp. 180.

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ambiente como direito da personalidade não só não se mostra a
mais adequada, quer do ponto de vista utilitário, quer no plano es-
tritamente dogmático, como também não é necessária para que
aquele direito beneficie de um regime que permita colocá-lo acima
de outros direitos, mormente do direito de propriedade, pois que
se trata igualmente de um direito absoluto, oponível erga omnes, a
todos e a cada um de nós. Por outro lado, tendo por objecto um
bem jurídico autónomo e exterior à pessoa (do seu titular, desde
logo, mas também qualquer outra), indivisível e inapropriável, o di-
reito ao ambiente não pode ser considerado um direito exclusivo
nem um direito egoísta e, sendo um direito social, difuso e altruís-
ta, em caso de confronto com outros direitos absolutos, tenderá
sempre a prevalecer, especialmente, quando do outro lado se en-
contre um direito de propriedade. Este, como, aliás, também os
direitos da personalidade, são direitos estritamente individuais, de
conteúdo egoísta e exclusivos, devendo ceder perante um direito
de natureza e extensão sociais, de conteúdo altruísta e constitucio-
nalmente elencado entre os direitos fundamentais40.
A estas evidências acresce porém uma outra decisiva: a qualifi-
cação do direito ao ambiente como direito da personalidade encer-
ra em si mesma uma carga antropocêntrica que vai ao arrepio das
necessidades e das características que lhe são próprias e convenien-
tes, induzindo uma concepção do bem ambiente que não atende à
sua natureza autónoma e exterior ao ser humano. Se o Direito, en-
quanto ciência social, o acolhe como objecto de direitos, isto não
tolhe as características que lhe são próprias, mormente, a sua auto-
nomia relativamente à pessoa, reforçando mesmo a interdição de
usar, dispor e abusar a bel-prazer. Ao tratar-se de um bem cuja pre-
servação, tornada essencial para a pessoa humana, há-de ditar o res-
pectivo regime jurídico, reconhecer a sua autonomia face às pes-
soas constitui paradoxalmente a única (ou pelo menos a melhor)
maneira de o Direito alcançar o seu objectivo. Assim, a autonomia
do bem jurídico relativamente às pessoas faz parte integrante das
respectivas qualidades jurídicas e comanda a função social do direi-
to subjectivo que o protege41.

40 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, De la réparation du dommage écologique


, op. cit., pp. 180/181.
41 Ibidem, op. e loc. cit..

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Afastada a qualificação do direito ao ambiente como direito da
personalidade, resta-nos ainda aquilatar da sua natureza jurídica,
dando nota da posição adoptada, embora quase tudo já tenha sido
dito.

2. O Direito ao Ambiente como um Direito-Funcional ou um


Poder-Dever

Atenta a sua dupla natureza, de direito e dever, simultanea-


mente, só nos resta dar o nosso acordo à qualificação proposta por
François OST42 que vê nele um direito funcional ou um poder-de-
ver. Nos direitos funcionais ou poderes-deveres é notória a conju-
gação de momentos activos e passivos, quase sempre com uma pre-
dominância destes últimos, e isto, porque se trata de situações nas
quais se verifica uma dissociação entre o titular do poder (as prer-
rogativas que formam a posição activa) e o titular do interesse que
a lei reconhece, legitimando-o com a atribuição do dito poder e
que, nos casos de um direito subjectivo tout court, clássico, se con-
centram na mesma pessoa que é simultaneamente o titular do po-
der e do interesse que o justifica. O exemplo tradicional de poder
funcional ou poder-dever é o poder paternal, em que os progenito-
res de um menor se vêem investidos de certas prerrogativas (pode-
res, faculdades) que deverão exercer no estrito interesse dos fi-
lhos.
Ora, com o direito ao ambiente é exactamente isto que sucede:
aos cidadãos são reconhecidos certos poderes para agirem em defe-
sa (no interesse) do ambiente. É certo que aqui o titular do interes-
se não é uma outra pessoa, mas o paralelo é evidente, pois que se
trata de um interesse autónomo, a se, que não pertence ao titular
do direito, nem a qualquer outra pessoa. Trata-se de um bem indi-
visível e impassível de apropriação, que exprime um valor ético su-
perior da sociedade.
Dest’arte, quando um cidadão (ou uma ONG) actua o seu di-
reito ao ambiente deve fazê-lo no interesse do próprio ambiente,
isto é, em nome dos valores ambientais, com vista à sua preserva-
ção e à sustentabilidade. Fá-lo ainda no interesse de todos os seus

42 Cfr. François OST, La responsabilité, fil d’ariane du droit de l’environne-


ment, in, Droit et Société nº 30/31-1995, pp. 281-322. V. pp. 315.

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concidadãos, incluindo as gerações futuras, pois que estamos pe-
rante um interesse altruísta e difuso que dá lugar a um direito tam-
bém ele altruísta e difuso. É por isso que o ‘meu’ direito não é ex-
clusivo, nem sequer é individual. Ele é tão só uma parcela, uma
fracção do todo que é o direito de todos a um ambiente sadio e
ecologicamente equilibrado. Esta dimensão social, comunitária, e o
carácter difuso explicam, e por outro lado reforçam, o carácter al-
truísta do direito, explicando da mesma sorte que o dever de res-
peito e de preservação do ambiente contenha em si mesmo, e sirva
para justificar, o direito de o defender. Direito e dever, sempre que
um dano atinja o ambiente, surgem-nos praticamente indissociá-
veis, confundindo-se num único instrumento jurídico concebido
para a protecção do bem jurídico ofendido: o poder-dever a um
ambiente sadio e ecologicamente equilibrado.
Esta simbiose entre direito e dever mostra-se crucial para evitar
interpretações equívocas, de conteúdo estritamente antropocên-
trico, como sucedeu num caso que opôs uma Associação ambien-
tal, FAPAS — Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens, à ad-
ministração do Tribunal de Niza (pequena cidade do Alto Alente-
jo), há alguns anos atrás, em 2000. A FAPAS, no caso que ficou
conhecido por Andorinhas no Supremo, processou o Estado portu-
guês, acusando o Ministério da Justiça de destruir os 400 ninhos de
andorinha que existiam nos beirais e nas paredes frontais do Palá-
cio de Justiça de Niza. Como o edifício do Tribunal não era repara-
do, limpo ou pintado há oito anos, a administração do Tribunal or-
denou a remoção dos ninhos e subsequentes limpeza e restauro do
edifício, tendo igualmente mandado colocar redes e outros artefac-
tos nas paredes do Palácio, de modo a impedir que as andorinhas
pudessem aí nidificar no futuro. Para sustentar a sua decisão, a ad-
ministração do Tribunal arguiu que os referidos ninhos prejudica-
vam o direito a um ambiente sadio e ecologicamente equilibrado dos
trabalhadores e utentes do Tribunal, devido às poeiras, dejectos,
parasitas e outras imundices, causadoras de doenças do foro alérgi-
co, do foro respiratório e demais incómodos, alegando, por isso, em
sua defesa o art. 66º da CRP.
Tendo conseguido ganho de causa nas 1ª43 e 2ª instâncias judi-
ciais, esta argumentação, assente numa leitura estritamente antro-

43 O Tribunal de 1ª Instância considerou que havia uma manifesta desproporção

217

1847.08-1
cesar-ro
pocêntrica do referido art. 66º da CRP, acabou por decair no recur-
so interposto pela FAPAS para o STJ44. A última instância judicial
portuguesa, considerando que tinha sido violado o art. 66º da CRP,
além da violação de outras normas legais, ordenou a retirada de to-
dos os artefactos colocados na fachada do imóvel, permitindo as-
sim o regresso das andorinhas às paredes do Palácio de Justiça de
Niza45. O STJ fundamentou o seu Acórdão essencialmente numa
correcta, porque ecológica, interpretação do art. 66º da CRP e do
direito-dever ao ambiente que o seu nº1 consagra, considerando
que o ambiente surge (...) como um bem merecedor de tutela jurídi-
ca, um bem jurídico que é tutelado em si e por si mesmo e que o
direito ao ambiente, direito subjectivo autónomo e distinto de outros
direitos igualmente protegidos pela Constituição (...) é um direito
subjectivo pertencente a qualquer pessoa46.
A principal lição que deve ser retirada deste processo consiste
na constatação de que uma leitura deturpada do direito de todos e
de cada um de nós a um ambiente sadio e ecologicamente equili-
brado pode, pura e simplesmente, redundar numa inversão dos ob-
jectivos de respeito pela natureza e de preservação do ambiente

entre o direito das andorinhas nidificarem e a necessidade de proceder à limpeza


do edifício, tanto mais que 400 ninhos de andorinha colocam em causa os direitos
dos trabalhadores e utentes do Tribunal, designadamente, o direito à saúde, uma
vez que os dejectos, o pó e os parasitas aparecem ligados à nidificação. Como
muito bem concluiu o STJ da leitura desta sentença, segundo o Tribunal de 1ª
Instância, o direito a um ambiente sadio passaria assim por afastar a colónia das
andorinhas.
44 V. Acórdão do STJ de 27.06.2000, Proc. Nº 413/00, que considerou que o
Estado Português não pode consagrar constitucionalmente o direito ao am-
biente, defender uma política de ambiente, subscrever tratados internacio-
nais que o vinculam, elaborar Leis e Decs-Lei de defesa da vida selvagem e
depois com a sua actuação concreta negar tudo isso. Nem dentro de princí-
pios éticos a que o Estado está obrigado se pode defender que se as andori-
nhas não nidificarem nas paredes do Palácio da Justiça nidificarão noutros
locais. Se as populações seguissem o exemplo dado pelo requerido, nenhuma
parede restaria para as andorinhas-dos-beirais, que ele Estado se vinculou
a proteger, nidificarem. Sublinhado nosso.
45 Citando o próprio STJ, no referido Acordão: Decide-se por isso que o reque-
rido deve retirar das paredes do Palácio da Justiça de Nisa todo e qualquer
instrumento (nomeadamente redes e espigões de arame) que impeça a nidificação
nas paredes desse Palácio da Justiça das andorinhas e ainda que não impeça, seja
por que meio for, a nidificação nas paredes desse edifício das andorinhas.
46 Sublinhado nosso.

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1847.08-1
cesar-ro
que a norma visa prosseguir e coloca bem a nu os perigos inerentes
à sua qualificação como direito da personalidade, esquecendo a in-
dispensável autonomia do bem jurídico que lhe serve de objecto, o
ambiente.
O direito ao ambiente apresenta-se ao Direito como uma reali-
dade jurídica complexa e multiforme e dele terá de fazer-se sem-
pre uma leitura valorativa, baseada numa ética social ambiental que
faça prevalecer os valores ecológicos sobre os bens ou valores hu-
manos individuais, pois, como já dissemos, ele mais não é do que
uma parcela do vasto direito social pertença de toda a comunidade.
Uma fracção do interesse unitário em preservar o ambiente, prote-
gendo-o de ofensas ou intervenções ilícitas ou ilegais, que não lhe
retira o carácter indivisível, enquanto bem autónomo, a se. Em úl-
tima instância, estão em causa, afinal, os propósitos gerais de pre-
servação que são próprios da Lei e do Direito, cuja principal missão
consiste em garantir a preservação dos valores éticos da sociedade,
assegurando que sejam respeitados. Ora, o ambiente é hoje um
destes valores e também um dos mais importantes dentre eles.

IV — A importância da consagração constitucional do direito


ao ambiente

Para lá de quanto já foi dito sobre a consagração constitucional


do direito ao ambiente, deixando bem vincada a sua importância,
existem ainda dois efeitos essenciais aos quais é mister conferir
uma especial relevância. Por um lado, resulta evidente a valoriza-
ção do princípio da participação dos cidadãos na defesa do ambien-
te47 e, por outro, e como sua decorrência directa, destaca-se o ins-
trumento que lhe dá eficácia, o inerente direito de acesso à justiça,
traduzido na legitimidade processual para as acções em defesa do
ambiente, mormente, a acção popular civil prevista no art. 52º, nº
3, da CRP e regulada na Lei nº 83/95, de 31 de Agosto48.

47 GOMES CANOTILHO, Direito Constitucional Ambiental Português: Ten-


tativa De Compreensão De 30 Anos Das Gerações Ambientais No Direito Cons-
titucional Português, in, Direito constitucional Ambiental Brasileiro, Ed. Saraiva,
São Paulo, 2007, pp. 1-11, fala, a este propósito, de uma dimensão jurídico-par-
ticipativa do direito ao ambiente.
48 Sobre a Lei da Acção Popular, cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, De la

219

1847.08-1
cesar-ro
É certo que o princípio da participação, ele também constitu-
cionalmente consagrado, não deriva directamente do direito ao
ambiente; afigura-se contudo óbvio que a afirmação constitucional
deste direito o reforça, dando-lhe maior consistência. Na verdade,
ambos beneficiam reciprocamente, pois que uma correcta imple-
mentação daquele princípio exige sempre o reconhecimento deste
direito. A concretização do direito ao ambiente implica a aplicação
do princípio da participação e uma das formas juridicamente mais
significativas pelas quais o cidadão (individual ou colectivamente
através das ONG’s) pode participar na defesa do ambiente é agin-
do judicialmente contra quem o agride, cidadão, pessoa colectiva
(jurídica) ou o próprio Estado.
A parca aplicação do princípio da participação e o deficiente
acesso à justiça em matéria de ambiente, que pode ser observado
em elevado número de países, constituem, quanto a nós, obstácu-
los de monta ao desenvolvimento sustentável a que urge dar execu-
ção49. Sem a participação dos cidadãos e dos seus representantes na
sociedade civil, os Estados, sempre dominados pela necessidade de
cumprir metas económicas e politicamente permeáveis a todo o
tipo de pressões, acabam cedendo ao poder económico, adiando in-
definidamente a realização dos desígnios da sustentabilidade. Só o
envolvimento dos cidadãos, imbuídos de uma elevada consciência
ético-ambiental, e a concomitante existência de organizações não
governamentais empenhadas e apoiadas na sociedade civil, pode-
rão inverter esta tendência, levando os Estados a agirem em confor-
midade com os interesses da protecção ambiental e da sua preser-
vação para as futuras gerações. Ora, para que este envolvimento e
esta participação sejam possíveis, torna-se indispensável apetre-
char o ordenamento jurídico com os instrumentos necessários e,
dentre estes, não nos restam quaisquer dúvidas de que o direito
subjectivo ao ambiente e os inerentes mecanismos de acesso à jus-
tiça se afiguram fundamentais.

réparation du dommage écologique , op. cit., pp. 188 e ss.. V. tb. Branca MAR-
TINS DA CRUZ, Responsabilidade Civil pelo Dano Ecológico — Alguns Proble-
mas, in, Actas do I Congresso Internacional de Direito do Ambiente da Universi-
dade Lusíada — Porto, Lusíada, Revista de Ciência e Cultura, Número Especial,
Porto, 1996, pp. 187-227.
49 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, The constitutional right to an ecologically
balanced environment, op. cit., pp. 56.

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Dele decorrem igualmente outros direitos menores, mas nem
por isso menos importantes, como o direito à informação, por
exemplo, e dele é também incindível a própria ideia de responsabi-
lidade ambiental, sendo certo que, sem esta última, não podere-
mos dar consecução a um desenvolvimento sustentável50.

V — Conclusão

Quisemos aqui esclarecer alguns equívocos que têm vindo a


toldar a importância do reconhecimento constitucional de um di-
reito ao ambiente, salientando o papel fundamental que a sua con-
sagração assume no ordenamento jurídico português e, particular-
mente, na preservação e na defesa do ambiente.
Começámos por acentuar a dimensão ética do bem jurídico que
lhe serve de objecto, o próprio ambiente, bem como o posiciona-
mento deste no topo da hierarquia dos bens jurídicos, enquanto
bem eticamente comprometido.
Afastámos a, actualmente tão em voga, publicização deste bem
jurídico fundamental, bem como do direito que o protege, que não
podem ser considerados pertença exclusiva do Estado (ou de qual-
quer outro ente), não podendo o ambiente ser apropriado por
quem quer que seja, ente público ou privado. Tratando-se de um
bem autónomo, a se, que a todos incumbe defender e respeitar, a
sua natureza condiciona e conforma a própria natureza jurídica do
direito concebido para as suas defesa e protecção, também este não
devendo ser qualificado de público ou de privado, salientando-se o
seu carácter social.
Visto na sua natureza bifronte, de direito e, sobretudo, de de-
ver, o direito ao ambiente, à imagem de outros direitos funcionais
ou poderes-deveres com os quais partilha as características, desdo-
bra-se essencialmente em posições passivas, podendo o seu lado
activo ser igualmente olhado sob aquela perspectiva, acabando por
se traduzir no dever de o defender, referido no nº 1 do art. 66º da
CRP. Isto é, ao afirmar o seu direito ao ambiente, o cidadão ou o
Estado mais não fazem do que agir em defesa deste bem jurídico,

50 Cfr. Branca MARTINS DA CRUZ, Desenvolvimento Sustentável e Responsa-


bilidade Ambiental, op. cit., em publicação.

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contra qualquer agressão juridicamente relevante de que seja alvo
e cumprindo afinal aquele dever constitucional. Isto, é claro, para
além do dever geral de respeitar o ambiente, que decorre daquela
mesma norma constitucional e que também a todos obriga.
Este é, sem dúvida, um dos instrumentos mais valiosos de que
dispõe o Direito do ambiente, ao qual, distraída com a incessante
novidade dos desafios, a doutrina se esquece muitas vezes de con-
ceder o devido relevo, negligenciando, da mesma sorte, a riqueza
dogmática que ele encerra. Fizemos, por isso, questão de lhe con-
ferir um lugar de destaque nesta nossa reflexão e podemos agora
concluir encontrarmo-nos perante um dos esteios do nosso ordena-
mento jurídico-ambiental, verdadeiro ponto de partida e de chega-
da do aludido escoramento ético-valorativo de que este novo ramo
do Direito tanto carece, e que o legislador constitucional, em
1976, teve a clarividência de não descurar.

VI — Bibliografia citada

Adriano VAZ SERRA, Revista de Legislação e Jurisprudência, ano


103º.
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