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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo Nº. : 0003705-15.2014.8.05.0191


Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : FUNDACAO CHESF DE ASSISTENCIA E
SEGURIDADE SOCIAL FACHESF
Advogado(a) : GREICY CARPINA DE LIMA
Recorrido(s) : MARCIO JOSE REZENDE
Advogado(a) : ROMULO ALMEIDA VAZ LISBOA
Origem : 1ª VARA DO SISTEMA DOS JUIZADOS – PAULO
AFONSO
Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

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2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA
2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

EMENTA

RECURSO INOMINADO. PLANO DE SAÚDE COLETIVO.


AUTOGESTÃO. REAJUSTE POR MUDANÇA DE FAIXA
ETÁRIA DE 59 ANOS. PEDIDO DO AUTOR QUE SE
RESTRINGE AO AFASTAMENTO DO REAJUSTE POR
MUDANÇA DE FAIXA ETÁRIA SOB O FUNDAMENTO NO
ESTUTO DO IDOSO. SENTENÇA QUE ALÉM DE AFASTAR O
REAJUSTE POR MUDANÇA DE FAIXA ETÁRIA TAMBÉM
DETERMINOU VINCULAÇÃO DO AUMENTO ANUAL AO
QUANTO ESTIPULADO PELA ANS E NESSA PARTE HOUVE
DECISÃO EXTRA PETITA. PRELIMINARES DE
INCOMPETÊNCIA DO JUÍZO E ALEGAÇÃO DE PRESCRIÇÃO
AFASTADAS. ÍNDICE DE REAJUSTE ABUSIVO.
ONEROSIDADE EXCESSIVA. APURAÇÃO DE NOVO
PERCENTUAL COM BASE NA EQUIDADE. APLICAÇÃO DO
ÍNDICE DE 15% SOBRE A MENSALIDADE ANTES DOS
REAJUSTE POR FAIXA ETÁRIA DA TITULAR E SUA
DEPENDENTE. DEVOLUÇÃO SIMPLES. SENTENÇA
REFORMADA PARA EXCLUIR A VINCULAÇÃO DO REAJUSTE
ANUAL A ÍNDICE ESTABELECIDO PELA ANS PARA PLANOS
INDIVIDUAIS. SENTENÇA REFORMADA EM PARTE.

ACÓRDÃO
Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados
Especiais Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, GUSTAVO
DA SILVA MACHADO, ISABELA KRUSCHEWSKY PEDREIRA DA SILVA E
MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE – PRESIDENTE e RELATORA, em
proferir a seguinte decisão: RECURSO CONHECIDO E PROVIDO EM PARTE.
UNÂNIME, de acordo com a ata do julgamento. Sem condenação em honorários

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advocatícios, nos termos do Enunciado 11 das Turmas Recursais da Bahia.

Salvador, Sala das Sessões, 12 de fevereiro de 2015.

BEL. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE


Juíza Relatora

Processo Nº. : 0003705-15.2014.8.05.0191


Classe : RECURSO INOMINADO
Recorrente(s) : FUNDACAO CHESF DE ASSISTENCIA E
SEGURIDADE SOCIAL FACHESF
Advogado(a) : GREICY CARPINA DE LIMA
Recorrido(s) : MARCIO JOSE REZENDE
Advogado(a) : ROMULO ALMEIDA VAZ LISBOA
Origem : 1ª VARA DO SISTEMA DOS JUIZADOS – PAULO
AFONSO
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Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

EMENTA

RECURSO INOMINADO. PLANO DE SAÚDE COLETIVO.


AUTOGESTÃO. REAJUSTE POR MUDANÇA DE FAIXA
ETÁRIA DE 59 ANOS. PEDIDO DO AUTOR QUE SE
RESTRINGE AO AFASTAMENTO DO REAJUSTE POR
MUDANÇA DE FAIXA ETÁRIA SOB O FUNDAMENTO NO
ESTUTO DO IDOSO. SENTENÇA QUE ALÉM DE AFASTAR O
REAJUSTE POR MUDANÇA DE FAIXA ETÁRIA TAMBÉM
DETERMINOU VINCULAÇÃO DO AUMENTO ANUAL AO
QUANTO ESTIPULADO PELA ANS E NESSA PARTE HOUVE
DECISÃO EXTRA PETITA. PRELIMINARES DE
INCOMPETÊNCIA DO JUÍZO E ALEGAÇÃO DE PRESCRIÇÃO
AFASTADAS. ÍNDICE DE REAJUSTE ABUSIVO.
ONEROSIDADE EXCESSIVA. APURAÇÃO DE NOVO
PERCENTUAL COM BASE NA EQUIDADE. APLICAÇÃO DO
ÍNDICE DE 15% SOBRE A MENSALIDADE ANTES DOS
REAJUSTE POR FAIXA ETÁRIA DA TITULAR E SUA
DEPENDENTE. DEVOLUÇÃO SIMPLES. SENTENÇA
REFORMADA PARA EXCLUIR A VINCULAÇÃO DO REAJUSTE
ANUAL A ÍNDICE ESTABELECIDO PELA ANS PARA PLANOS
INDIVIDUAIS. SENTENÇA REFORMADA EM PARTE.

RELATÓRIO

A demanda persegue a declaração de nulidade das cláusulas


contratuais que autorizam reajustes dos valores da mensalidade, com base em
alteração da faixa etária do Autor e sua dependente, no percentual de 100, quando
completaram 59 anos de idade e a reparação dos danos materiais com a
devolução do indébito em dobro e os danos morais pelos reajustes abusivos.
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A recorrente FUNDACAO CHESF DE ASSISTENCIA E SEGURIDADE


SOCIAL FACHESF argumenta que o contrato da recorrida está dentro da
legalidade visto que “EXISTIA A PREVISÃO DE MUNDANÇA DE FAIXA ETÁRIA
NO SEU CONTRATO, de forma clara”. Ainda, sustenta a acionada que o “Recorrido
em nenhum momento postulou o reconhecimento da ilegalidade ou a anulação da forma
de cálculo do reajuste anual (reajuste do aniversario do plano) da mensalidade do plano
de assistência à saúde - FACHESF-SAÚDE, devendo, portanto, ser mantidos os reajustes
anuais nas formas como foram procedidos”.
O juízo a quo decidiu pela abusividade da conduta perpetrada pela ré,
bem como pela ilegalidade e abusividade das cláusulas contratuais aplicadas ao
aumento, pelo que fixou o reajuste por mudança de fazia etária no percentual de
15% e vinculou o reajuste anual ao estabelecido pela ANS.
A pretensão recursal visa a reforma total da sentença pela
improcedência do pedido, aduzindo que não houve reajuste por faixa etária do
titular aos 60 anos e que a decisão foi extra petita ao determinar à aplicação de
reajustes anuais de acordo com os índices da ANS para os plano individuais.
Presentes as condições de admissibilidade do recurso, conheço-o,
apresentando voto com a fundamentação aqui expressa, que submeto aos demais
membros desta Egrégia Turma.
VOTO

Preliminarmente, no tocante à competência do juizado de defesa do


consumidor, impende salientar que independentemente do tipo de contrato
entabulado, até no caso de autogestão, há relação de consumo. Ou seja, não
obstante a administradora de plano de saúde não possuir fins lucrativos, ainda
assim submete-se às normas consumeristas uma vez que ao exercer atividade de
prestação de serviços de assistência médica, amolda-se ao conceito de fornecedor
de produtos e serviços do art. 3° do Código de Defesa do Consumidor. A
jurisprudência dos nossos tribunais tem decidido nesse sentido:

PROCESSO CIVIL - PLANO DE SAÚDE - USO DE


ÓRTESE EM CIRURGIA - NEGATIVA DA

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COBERTURA - DANOS MORAIS NÃO


CARACTERIZADOS - INDENIZAÇÃO INDEVIDA -
"NÃO OBSTANTE A ADMINISTRADORA DE PLANOS
DE SAÚDE SE TRATAR DE FUNDAÇÃO E NÃO
POSSUIR FINS LUCRATIVOS, SUBMETE-SE ÀS
NORMAS CONSUMERISTAS, NA MEDIDA EM QUE,
AO EXERCER UMA ATIVIDADE QUE ENVOLVE A
PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE ASSISTÊNCIA
MÉDICA, AMOLDA-SE AO CONCEITO DE
FORNECEDOR DE PRODUTOS E SERVIÇOS
PREVISTO NO ARTIGO 3º DA LEI 8.078/90.
OUTROSSIM, OS ASSOCIADOS DA ASSEFAZ
ENQUADRAM-SE NO CONCEITO DE CONSUMIDOR
ESTABELECIDO NO ARTIGO 2º DO MESMO
DIPLOMA LEGAL, NA MEDIDA EM QUE ADQUIREM
E UTILIZAM O PLANO DE SAÚDE CONTRATADO
COMO DESTINATÁRIOS FINAIS."
(20070110780003APC, RELATOR ANA MARIA
DUARTE AMARANTE BRITO, 6ª TURMA CÍVEL,
JULGADO EM 11/03/2009, DJ 18/03/2009 P. 125)- É
NULA A CLÁUSULA CONTRATUAL DE PLANO DE
SAÚDE QUE EXCLUI DETERMINADA COBERTURA,
SE A MESMA FERE A FINALIDADE BÁSICA DO
CONTRATO, OU SEJA, LIMITA DIREITOS
ESSENCIAIS À GARANTIA DO BEM-ESTAR E À
VIDA DO USUÁRIO. - SE A OPERADORA DO PLANO
DE SAÚDE OPTOU POR AUTORIZAR A
INTERVENÇÃO CIRÚRGICA, DE CARÁTER
EMERGENCIAL, ASSUMIU O RISCO DE TER DE
COBRIR OS TRATAMENTOS E PROCEDIMENTOS
RECOMENDADOS AO PACIENTE, INCLUSIVE
ÓRTESES. - O INADIMPLEMENTO CONTRATUAL,
EMBORA SEJA CAUSA DE ABORRECIMENTOS
PARA O CONSUMIDOR QUE NÃO RECEBE A
PRESTAÇÃO DEVIDA, NÃO ENSEJA DANOS
MORAIS. - É PARTE LEGITIMA PARA O POLO
PASSIVO DA RELAÇÃO PROCESSUAL DE AÇÃO
INDENIZATÓRIA AQUELA A QUEM ATRIBUI A
RESPONSABILIDADE PELOS DANOS. - NÃO
CONFIGURA DANOS MORAIS A INCLUSÃO, PELO
HOSPITAL, DO NOME DO PACIENTE EM
CADASTRO DE INADIMPLENTES EM RAZÃO DE
SERVIÇOS EFETIVAMENTE PRESTADOS E NÃO
LIQUIDADOS PELO PLANO DE SAÚDE.
(Processo: APL 879194820068070001 DF , 0087919-
48.2006.807.0001, Relator(a):MARIA DE FÁTIMA

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RAFAEL DE AGUIAR
RAMOS, Julgamento: 03/06/2009, Órgão Julgador: 1ª
Turma Cível, Publicação: 22/06/2009, DJ-e Pág. 75).

Ainda, insta registrar que não é caso de prescrição com fulcro no art.
206, § 1º, do Código Civil Brasileiro, o qual dispõe ser de 01 (um) ano o prazo
prescricional para o exercício do direito de ação em tela ou de aplicação do prazo
de prescrição quinquenal do Código de Defesa do Consumidor.
Não há o que se falar em prescrição anual, nem muito menos
prescrição quinquenal, vez que se trata de contrato de plano saúde, cuja natureza
é distinta dos contratos de seguro em geral, portanto, a prescrição do art. 206, § 1º,
II, do CC, não se aplica ao caso. Igualmente não se pode falar em prescrição de 5
anos prevista no Código de Defesa do Consumidor, visto que a pretensão aqui
manejada não é indenizatória, senão buscar revisionar o contrato do plano de
saúde que impôs reajuste exorbitante na mensalidade.
Trata-se, portanto de ação revisional e, como tal, aplicam-se as
disposições do art. 205 do Código Civil que o prazo geral de 10 (dez) anos.
Portanto, considerando que a parte autora esta questionando
aumento na mensalidade do plano de saúde a partir dos anos em que ela e
sua dependente do plano de saúde completaram a idade de 59 anos, e que a
prescrição para revisão do contrato será de 10 (dez) anos contados do
aumento abusivo por mudança de faixa etária, não há prescrição a ser
reconhecida. Cabendo observar que a mesma completou 59 anos em 2008,
enquanto sua dependente adquiriu tal idade em 2013. Assim, não há o que se
falar em prescrição.
Quanto ao valor e alterações das contribuições mensais prestadas
pelo usuário do plano de saúde, como se sabe, existem três tipos de reajustes no
tocante aos contratos de prestação de assistência à saúde: reajuste por faixa
etária, reajuste financeiro (inflação dos custos médicos, hospitalares e
farmacêuticos) e, por fim, reajuste por sinistralidade. A matéria em discussão
cuida dos reajustes de faixa etária quando não só a autora como sua
dependente do plano de saúde completaram 59 anos e que segundo a inicial,

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ditos reajustes foram na ordem de 100%.

No que toca ao reajuste por faixa etária, este tem como fundamento
jurídico de validade a proporcionalidade direta entre a ocorrência de sinistros e a
idade do segurado. Ou seja, para que a viabilidade financeira das operadoras dos
planos de saúde seja mantida, os segurados em idade mais avançada precisam
pagar maiores mensalidades, em razão do maior índice estatístico de utilização dos
serviços médicos oferecidos pela operadora, ou seja, observados os critérios de
proporcionalidade entre as planilhas de custo de manutenção dos planos e o
percentual de reajuste aplicado aos segurados, por ocasião do incremento de
idade, ressalvadas as vedações legais, o aumento das mensalidades com base na
mudança de faixa etária do usuário é perfeitamente aplicável.

Como se verifica dos autos, a relação jurídica havida entre as partes


baseia-se em um contrato de seguro saúde, através do qual o segurador assume a
obrigação de garantir a outra parte, segurada, contra prejuízos resultantes de
riscos futuros, previstos na avença, mas de acontecimento incerto. É esse evento
futuro e incerto que o contrato garante que mostra a sua característica aleatória. Se
o segurador adquire o direito de se precaver, mediante aumento automático do
prêmio, contra a ocorrência do evento futuro e incerto, desaparece a aleatoriedade
do contrato. Ademais, trata-se de relação consumerista e nesse contexto o caso
deve ser examinado, conforme se deduz da análise do caso.

Com efeito, o CDC trabalha com cláusulas gerais, como a da conduta


segundo a boa-fé, do combate ao abuso e ao desequilíbrio contratual, logo é
possível ao juiz considerar que a nova lei consolidou o que é (e já era) abusivo
segundo o CDC e ofensivo, pois suas normas estão em vigor. O espírito do
intérprete deve aqui ser guiado pelo do art. 7º do CDC, que como uma interface
aberta do sistema tutelar dos consumidores (lex specialis ratione personae),
estabelece que a legislação tutelar incorpora todos os direitos assegurados aos
consumidores em legislação ordinária, tratados, etc. A ratio legis é, pois, de
incorporar os ‘direitos’ assegurados nas leis especiais e não os deveres, os ônus,

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ou o retroceder da interpretação judicial já alcançada apenas com a lista de direitos


já assegurados pelo CDC.

Destarte, em se tratando de relação de consumo, é essencial que os


reajustes praticados pelas seguradoras e operadoras de planos de saúde não
onerem o contrato de modo a colocar o consumidor em condição de desvantagem
excessiva, comprometendo o equilíbrio da relação a ponto de, por exemplo, forçar
a sua desistência do contrato.
Neste sentido, colhemos a lição de Maria Celina Bodin de Morais
(Revista de Direito Civil da RT, no. 65 – in A caminho de um direito civil
constitucional), segundo a qual:
“Assim é que qualquer norma ou cláusula negocial, por mais
insignificante que pareça, deve se coadunar e exprimir a
normativa constitucional. Sob essa ótica, as normas de direito
civil necessitam ser interpretadas como reflexos das normas
constitucionais. A regulamentação da atividade privada
(porque regulamentação da vida cotidiana) deve ser, em
todos os seus momentos, expressão da indubitável opção
constitucional de privilegiar a dignidade da pessoa humana.
Em conseqüência, transforma-se o direito civil: de
regulamentação da atividade econômica individual, entre
homens livres e iguais, para regulamentação da vida social,
na família, nas associações, nos grupos comunitários, onde
quer que a personalidade humana melhor se desenvolva e
sua dignidade seja mais amplamente tutelada”.
É neste contexto que germinou o dirigismo contratual ou a
intervenção do Estado nos contratos, qual seja a possibilidade de o Estado
assegurar, em atendimento ao princípio constitucional da igualdade, o equilíbrio
das relações contratuais, sobretudo porque “entre o forte e o fraco é a liberdade
que escraviza e a lei que liberta”. Conforme ensinamento de Nelson Nery Júnior, “O
dirigismo contratual não se dá em qualquer situação, mas apenas nas relações
jurídicas consideradas como merecedoras de controle estatal para que seja
mantido o desejado equilíbrio entre as partes contratantes”.

Pois bem, concebido o dirigismo através das premissas aqui


alinhadas, exsurge como parâmetro disciplinador dessa nova estrutura o princípio
da boa-fé objetiva, segundo o qual devem os parceiros contratuais agir com
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lealdade antes, durante e após a realização de um contrato, estabelecendo uma


regra de conduta, inclusive, e, sobretudo, às relações de consumo.
A criação dos deveres anexos, segundo a citada professora, ocorre
porque “o contrato não envolve só a obrigação de prestar, mas envolve também
uma obrigação de conduta”.
Portanto, tanto a boa-fé objetiva como o equilíbrio da relação
contratual balizam a aplicação do CDC, consoante se infere do seu artigo 4º, os
quais são definidos como princípios norteadores da relação consumerista.

A outro termo, muito embora a previsão contratual de reajuste das


mensalidades de plano de saúde seja um expediente admitido pela legislação
vigente, é imprescindível fiscalizar a proporcionalidade das contraprestações
exigidas pelas seguradoras e demais operadoras de planos de saúde.

Insta assinalar que em razão da ADIn. 1.931-DF, o STF quando do


exame do art. 35-E da Lei nº 9.656/98 em medida cautelar, suscitando violação ao
artigo 5º, XXXVI da Constituição, suspendeu a eficácia de tal dispositivo, que
dispõe sobre a autorização prévia da ANS para reajuste por alteração de faixa
etária.
Entretanto, de qualquer forma, há que analisar a alegação de
abusividade do aumento estipulado no contrato do autor e, pela análise dos autos
se afigura uma excessiva onerosidade ao consumidor, caracterizando infringência
aos arts. 6º, V, e 51, IV, do CDC.

Nesses termos, é imprescindível que a gradualidade e a


proporcionalidade dos reajustes se dê de modo tal a garantir “o acesso universal e
igualitário, em conjunto articulado e contínuo das ações e serviços, para a
prevenção, promoção, proteção e recuperação da saúde”.

Nesse diapasão, é flagrante a posição de extrema desvantagem


merecendo revisão de cláusulas que importe em onerosidade excessiva,
especificamente a que trata da Mudança de Faixa-Etária, cujo aumento implica

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igualmente no afastamento do autor do plano de saúde. Portanto decidiu


acertadamente o juízo a quo ao declarar abusivo o percentual usado pela acionada
para o reajuste de mudança de faixa etária quando a parte autora como sua
dependente completaram 59 anos de idade, sendo em 2008 o aniversário do
primeiro e 2013 do último.

Compulsando os autos, verifica-se que em que pese a ré afirmar que o


reajuste por mudança de faixa etária para os segurados acima de 58 anos era
previsto em contrato, não comprova que percentual aplicado não tenha sido
oneroso, pois de acordo com os próprios documentos acostados pela ré o reajuste
para o plano básico do autor aos 59 anos de idade foi de quase 100%, sendo, pois
elemento de desequilíbrio contratual, ensejador de revisão para o restabelecimento
do equilíbrio entre as partes contratantes.

Faz-se mister, deste modo, o alcance de um outro percentual, já que o


reajuste por faixa etária e aos 59 anos, última faixa de reajuste antes da vedação
de reajuste ao idoso, aquele é permitido, desde que previsto em contrato, e
adequado ao princípio da razoabilidade, a fim de evitar uma onerosidade excessiva
ao consumidor.

Nesse diapasão, é flagrante a posição de extrema desvantagem


merecendo revisão de cláusulas que importe em onerosidade excessiva,
especificamente a que trata da Mudança de Faixa-Etária, cujo aumento implica
igualmente no afastamento do autor do plano de saúde. Portanto decidiu
acertadamente o juízo a quo ao declarar abusivo o percentual usado pela acionada
para o reajuste de mudança de faixa etária e ao proceder à revisão da cláusula
para adequar a patamar razoável.

Consoante se verifica no caso presente, trata-se do último


reajuste a ocorrer por mudança de faixa antes do beneficiário do serviço de
saúde completar 60 anos de idade e, neste caso, apesar de previsão
contratual, tal reajuste foi vetado pelo Estatuto do Idoso, em razão da

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ocorrência de discriminação proibida pela referida lei e pela norma


Constitucional, nesses termos, entendo justo que ocorra a incidência de
reajuste por faixa etária aos 59 anos de idade, quando este está previsto
expressamente no contrato e, por outro lado, tratando-se de reajustes
distintos, o anual e de faixa etária não se pode adotar os mesmos índices,
razão pela qual necessário trazer ao caso um patamar que atenda ao
equilíbrio contratual, inclusive já há julgados que vem aplicando a média dos
reajustes anteriores, bem como existem também julgados, inclusive da lavra
dessa magistrada quando atuou em 1ª instância e igualmente perante à
Turma recursal, de fixar em 30% e finalmente a presente decisão e outros
precedentes em casos semelhantes vem aplicando o percentual de 15%.
Destarte, no caso em tela, esse último percentual parece o menos gravoso ao
consumidor.

Portanto, tenho que esse paradigma deve ser seguido, ou seja,


admitindo a irrazoabilidade de aumento da contribuição mensal do
contratante, em razão da mudança da faixa etária onde estatisticamente são
mais prováveis as intercorrências médicas e hospitalares, destarte, afigura-
se, como dito, excessivamente despropositado que tal aumento seja quase
100%, daí porque o percentual de 15% é muito mais razoável e proporcional
ao efetivo aumento dos riscos para a gestora do plano.
De outra banda, na situação dos autos por constituir uma relação de
consumo, também está abrangida pela regra do art. 5º, XXXII, da Constituição
Federal, nesses termos, da análise do caso em concreto se vislumbra uma situação
de abusividade gerada pela recorrente, situação, todavia que não alcança a seara
da lesão extrapatrimonial, daí porque não assiste direito à reparação de danos
morais.

Destarte, deve-se estabelecer um limite à majoração das


mensalidades ocorridas no caso concreto, visando encontrar uma perfeita sintonia
aos ditames do equilíbrio contratual, afastando a onerosidade excessiva e
cláusulas que imponham obrigações abusivas.

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Registre-se, outrossim, que no tocante a devolução dos valores pagos


em decorrência dos reajustes por mudança de faixa etária quanto a parte autora e
sua dependente completaram 59 anos, compreendo que dita quantia deve se dá na
forma simples com bem decidiu o juiz sentenciante e nessa parte também cumpre
à manutenção do julgado
Finalmente no tocante ao reajuste anual ocorrido em 2009
mister o afastamento do mesmo do teor da sentença condenatória, já que
referida pretensão não integra os pedidos contidos na exordial pelo que
configura sentença extra petita a apreciação desta questão, tendo em vista
que a exordial se limita a requerer a declaração de nulidade das cláusulas do
contrato que estipulam aumento da mensalidade do plano de saúde por
mudança de faixa etária aos 59 anos de idade do autor e seu dependente e
tão somente sobre dita matéria que ocorreu apreciação dessa relatora.

Ante o exposto, voto no sentido de CONHECER O PRESENTE RECURSO e


DAR-LHE PROVIMENTO PARCIAL para excluir do decisum a vinculação dos
percentuais de reajuste anual ao quanto estabelecido pela ANS, apenas afastando
os reajustes ocorrido aos 59 anos de idade da autora e sua dependente com a
consequente devolução simples dos valores pagos a esse título.. Sem condenação
em custas processuais e honorários advocatícios, nos termos do Enunciado 11 das
Turmas Recursais da Bahia.
Salvador, 12 de fevereiro de 2015.

Bela. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE


JUÍZA RELATORA

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