Você está na página 1de 7

Ellen Wood

A busca pela origem do capitalismo gera diversos impasses entre muitos pesquisadores. Ellen

Wood em seu livro, A Origem do Capitalismo, realiza um trabalho de crítica e reflexão no intuito de

reavaliar algumas, das mais diversas, teorias sobre a formulação do capitalismo na história. Para tanto, ela demonstra, na introdução, a intenção de questionar o capitalismo como algo natural e identificá-lo como uma forma social historicamente específica. Wood, apesar de seu interessante trabalho, generaliza o modelo de muitos pesquisadores, levando-os a uma incoerência forçada. Fazer a análise geral do livro de Wood, e conseqüentemente, sobre a origem do capitalismo, exige a exposição de algumas das diversas inferências feitas aos vários modelos existentes e, uma conseqüente análise. Primeiramente, antes de iniciar o processo de análise, é necessário expor a definição dada ao capitalismo por Wood. O uso dessa, como primordial, não desqualifica o processo de análise. De acordo com ela, “o capitalismo é um sistema em que os bens e serviços, inclusive as necessidades mais básicas da vida, são produzidos para fins de troca lucrativa; em que até a capacidade humana de trabalho é uma mercadoria à venda no mercado; e em que, como todos os agentes econômicos dependem do mercado, os requisitos de competição e da maximização do lucro são as regras fundamentais da vida.” Essa é uma definição coerente da qual sou conivente. E, se faz necessária, pois é preciso defini-lo antes de analisar a possível origem.

O modelo primeiramente exposto é o “modelo mercantil”, que juntamente com o “modelo

demográfico”, forma uma base teórica que converge para o mesmo princípio, o da oferta e da procura. Diferenciam-se apenas na forma que acreditam que o capitalismo se “desenvolveu”, sendo que, respectivamente, um se formula através do amadurecimento de práticas comerciais antiqüíssimas, e o outro, através de ciclos autônomos de crescimento e declínio populacional. O uso de “desenvolvimento”, quando se analisa esses modelos, se mostra incoerente, pois ambos teorizam a inclinação natural do homem a aproveitar as oportunidades do mercado de maximização do lucro. Tais afirmações tornam, ambos os modelos incoerentes, pois não ditam uma origem, e sim, ditam movimentos cíclicos, nos quais o capitalismo sempre será a premissa dominante. Karl Polanyi, ganha um espaço, no livro de Wood, encarecido por um título que prenuncia a entrada de novos conceitos dignos de exposição. Polanyi, por ser um antropólogo, teve contato, nos estudos, com outras sociedades primitivas, e portanto, estaria apto a fazer colocações das formas econômicas, políticas e sociais de organização delas, aproximando-as ou diferenciando-as de uma sociedade capitalista. A principal contribuição de Polanyi foi a exposição de que nas sociedades primitivas haviam outros meios de motivação econômicos, tais como o status e prestígio, que se diferenciavam da motivação da sociedade capitalista da qual a motivação é puramente econômica. Tal

contribuição, desqualifica os dois modelos apresentados anteriormente, pois retira a idéia de inclinação natural do homem ao capitalismo, inserindo dois novos conceitos que são as “sociedades com mercado” e “sociedade de mercado”. Maurice Dobb, historiador econômico, publicou estudos sobre o desenvolvimento do capitalismo em 1946. Havia, nele, um profundo interesse de desarticulação do antigo modelo dominante. Para tanto, ele desviou o foco de suas pesquisas, das cidades, do comércio e do burguês, para a dinâmica interna do feudalismo, concluindo que, o que o havia desarticulado era a luta de classes. Apesar dessa argumentação, Dobb não desarticulou totalmente a influência do comércio e das cidades no processo de transição, apenas os deixou em segundo plano. Tal modelo excitou Paul Sweezy, economista, a formular uma crítica a esse modelo, por acreditar que o sistema feudal apesar de todas as divergências, possuía resistência a mudança. Portanto, acreditava que era preciso de um fator externo a aquela dinâmica para a sua desarticulação. Para tanto, qualificou a produção feudal como destinada a troca, e com o crescimento do comércio a longa distância, articulou que houve uma mudança no regime de produção que iniciava a ser destinado ao uso. Contudo, ele cometeu um grave erro ao negar que o feudalismo apresentava leis próprias de desenvolvimento. As divulgações dos estudos de Dobb e Sweezy, formularam um debate em 1950, que foi importante para o entendimento do processo de transição, e na elaboração de novas pesquisas. Robert Brenner, historiador, em 1976 reativou o debate sobre o processo de transição, publicando um estudo, que claramente influenciado pelo de Maurice Dobb, propunha a luta de classes como um fator primordial na dissolução do feudalismo. Ele demonstrou o processo, da própria dinâmica interna, que acabou por culminar na luta de classes e, no conseqüente processo de transição. Brenner iniciou demonstrando que a dinâmica interna do sistema feudal propunha imperativos de mercado, e não, oportunidades a serem aproveitadas de forma racional sempre que possível. Na demonstração da dinâmica, expôs a existência de diferentes “estruturas de classe” que, se organizavam para a formação da dinâmica interna, qualificando os produtores diretos como detentores dos meios de subsistência e a classe dominante dependente da capacidade de extorsão dos excedentes da classe produtora. E, também, julgou ser o desenvolvimento do modo de produção feudal apenas extensivo, ou seja, somente através da anexação de novas terras cultiváveis. Definida a lógica da dinâmica, Brenner concluiu serem limitadas as formas de desenvolvimento, colocando-as como uma forma de redistribuição, e não, de criação de novas riquezas. Com as transformações quantitativas e qualitativas da classe dominante, e conseqüente enrijecimento dos meios de extorsão do excedente, a classe produtora acabou não suportando as transformações quantitativas e qualitativas e, se mostrou incapaz de se manter naquela dinâmica. Como a maioria dos recursos extorquidos eram gastos na manutenção

do sistema, e com a incapacidade de manter as relações de extorsão, a ordem feudal se mostrou abalada, e culminou no processo de transição, no qual, a servidão se mostrou insustentável e o processo de arrendamento se tornou o único processo viável a classe dominante, configurando, aos poucos, uma estrutura de classe entre senhor, grande arrendatário e trabalhador, principalmente na Inglaterra. O modelo de Brenner demonstra ser um desenvolvimento do de Dobb pois, compartilha dos mesmos princípios, demonstrando uma influência marxista, e uma tendência a focar no campo e na dinâmica interna do feudalismo, o principal motor para o processo de transição para o capitalismo. Wood realiza um processo de análise assim como propôs na introdução. Entretanto, assim como já foi dito, força um equívoco em estudos de alguns pesquisadores. Quando há a exposição do modelo de Dobb, ela deixa claro ser conivente com as idéias, pois expõe que, principalmente a Parte II do livro, é influenciada por ele. Contudo, ela desarticula o modelo, aproximando-o das principais idéias do modelo mercantil. Portanto, a sua tentativa de desarticular o capitalismo, como algo natural, é totalmente plausível. No entanto, a busca pelo modelo mais coerente que levasse em consideração as relações entre as classes, fez com que ela desconsiderasse o papel da evolução das idéias no decorrer da história. Dobb representa uma quebra significativa com o modelo mercantil, e mesmo assim, ela o desarticula. Brenner utilizou o modelo de Dobb para suas pesquisas, significando o desenvolvimento de uma nova linha de pensamento, que ao meu ponto de vista, culminou em estudos e modelos mais plausíveis com relação a origem do capitalismo, pois levam em consideração a dinâmica da vida daquelas pessoas.

->O capitalismo é um sistema em que os bens e serviços, inclusive as necessidades mais básicas da vida, são produzidos para fins de troca lucrativa; em que até a capacidade humana de trabalho é uma mercadoria à venda no mercado; e em que, como todos os agentes econômicos dependem do mercado, os requisitos de competição e da maximização do lucro são as regras fundamentais da vida. Esse modo de produção supõe parcelamento da terra e dispersão dos demais meios de produção. Exclui, além da concentração desses meios, a cooperação, a divisão do trabalho dentro do mesmo processo de produção, o domínio social e o controle da natureza, o livre desenvolvimento das forças produtivas da sociedade. -> Os modelo mercantil e demográfico: nessas versões sempre aproveitam a chance de maximiza os lucros através de atos de troca e, para concretizar essa inclinação natural, sempre encontram meios de aprimorar a organização e os instrumentos de trabalho, a fim de aumentar a produtividade do trabalho. Sendo definido como uma “oportunidade” a se aproveitada, onde e sempre que possível.

-> Modelo mercantil: aparece na economia política clássica, indivíduos racionalmente voltados para

seus próprios interesses têm-se empenhado em atos de troca desde o alvorecer da história. Os aumentos

da produtividade podem ter sido o objetivo primordial da divisão do trabalho cada vez mais

especializada, donde a tendência a haver uma estreita ligação entre essas explicações do

desenvolvimento mercantil e uma espécie de determinismo tecnológico. O capitalismo ou sociedade

mercantil, representa o amadurecimento de práticas comerciais antiqüíssimas (juntamente com avanços

técnicos) e sua libertação das restrições políticas e culturais. De acordo com esse modelo, não havia

nenhuma necessidade de explicar o surgimento do capitalismo. Ele presumiu que o capitalismo existiu,

pelo menos sob forma embrionária, desde o alvorecer da história, se não no próprio cerne da natureza

humana e da racionalidade humana. Dada a oportunidade, as pessoas sempre se portaram de acordo

com as regras da racionalidade capitalista, visando lucro e, nessa busca, procurando meios de melhorar

a produtividade do trabalho. Apenas identificou barreiras que se ergueram no caminho do

desenvolvimento natural e como foram superadas.

-> Modelo demográfico: atribui o desenvolvimento econômico europeu a certos ciclos autônomos d

crescimento e declínio populacional. A premissa subjacente ao modelo demográfico, afinal, é que a

transição para o capitalismo foi determinada pelas leis da oferta e da procura.

-> Karl Polanyi: afirmou que a motivação do lucro individual, associada às trocas no mercado, nunca

foi, até a era moderna, o princípio dominante da vida economia. Diferenciação entre “SOCIEDADES

COM MERCADOS” e “SOCIEDADES DE MERCADO”. Em todas as sociedades anteriores, as

relações e práticas econômicas estavam inseridas ou imersas em relações não econômicas. Havia outras

motivações impulsionando a atividade econômica, além das motivações puramente econômicas do

lucro e do ganho material, tais como a conquista de status e prestígio ou a manutenção da solidariedade

comunitária. A economia de mercado só pode existir numa sociedade de mercado, isto é, numa

sociedade em que, em vez de uma economia inserida nas relações sociais, as relações sociais é que se

inserem na economia. Ellen considera essa explicação com muito determinismo tecnológico, por

considerar de suma importância o papel que as máquinas assumem nas relações sociais novas. Os

imperativos específicos do mercado capitalista, as pressões da acumulação e da produtividade crescente

do trabalho, são tratados não como produto de relações sociais específicas, mas como resultado de

aperfeiçoamentos tecnológicos que parecem mais ou menos inevitáveis, pelo menos na Europa.

-> Dobb: o comércio e as cidades não eram totalmente antagônicos ao regime feudal. Em

certas circunstâncias históricas, o desenvolvimento do comércio serviu para reforçar as

relações feudais e não para dissolvê-las.Ao contrário, este foi dissolvido e o capitalismo se materializou por fatores intrínsecos às relações primárias do próprio feudalismo, nas lutas de classe entre senhores e

camponeses. Dinheiro, o comércio, as cidades, esses fatores contribuíram para a transição, mas não podem ser encarados como o que havia desarticulado o feudalismo. Sugeriu que a dissolução do feudalismo e a ascensão do capitalismo haviam resultado da libertação da pequena produção mercantil, de sua liberação do jugo do feudalismo, sobretudo por meio da luta de classes entre senhores e camponeses. Percebeu o efeito contraditório que a intensificação do comércio exerceu sobre o feudalismo: provocou, em regiões diferentes, tanto o enrijecimento quanto o abrandamento da servidão. Junção de determinações internas (a dinâmica do feudalismo) com “externas” (sobretudo o comércio de longa distância) e seu impacto sobre a estrutura de poder e de transferência de excedente. Neste sentido, o comércio e a emergência das cidades não foram os fatores decisivos no declínio do feudalismo, pois estão restritos aos limites do modo de produção feudal; o comércio ocorre enquanto troca de excedente, e não como ocorre no modo de produção capitalista, enquanto realização da mais-valia. O dinheiro, na economia feudal, configura-se apenas como intermediário da troca, não se transformando em capital.

-> Sweezy: insistiu em que o feudalismo, apesar de todos os seus traços de ineficiência e instabilidade,

era intrinsecamente tenaz e resistente a mudança, e em que a principal força propulsora de sua

dissolução tinha que vir de fora. O sistema feudal precisava de uma certa dose de comércio, mas a

criação de centros de comércio, estimulou o crescimento da produção para troca, que se opunha ao

princípio feudal da produção. Em oposição a Dobb de que o declínio do feudalismo resultou da

exploração excessiva dos camponeses e dos conflitos de classe gerados por ela, Sweezy propôs que

seria “mais exato dizer que o declínio do feudalismo europeu ocidental deveu-se à impossibilidade de a

classe dominante manter o controle sobre a capacidade de trabalho da sociedade e, portanto, explorá-

la.”

-> Perry Anderson:o absolutismo rompeu a união entre economia e política que havia caracterizado o

feudalismo.

-> Brenner: tomou como ponto de partida a tenacidade do feudalismo, criticando outras descrições da

transição por negligenciarem “a lógica e a solidez internas” das economias pré-capitalistas, e por

funcionarem como se os agentes econômicos viessem a adotar estratégias capitalistas toda vez que lhes

fosse dada essa oportunidade. Buscou uma dinâmica interna do feudalismo que não pressupusesse uma

lógica capitalista já existente. Não a oportunidade de produzirem para o mercado e passarem de

pequenos produtores a capitalistas, mas à necessidade de se especializarem para o mercado e

produzirem de forma competitiva, simplesmente para garantirem o acesso aos meios de subsistência.

Procurou explicar o surgimento de novas “regras de reprodução”. Mostrou que a dinâmica do

crescimento auto-sustentado e a necessidade constante de aumento da produtividade do trabalho

pressupuseram transformações das relações de propriedade que criaram a necessidade desse aumento,

simplesmente para permitir que os principais agentes econômicos, os grandes proprietários e os

camponeses, se reproduzissem. Diferentes “estruturas de classe” fundadas em relações de

propriedade particulares, uma vez consolidadas, tendem a impor possibilidades e limites aos padrões de desenvolvimento econômico de longo prazo. Portanto, por transição do feudalismo ao capitalismo devemos entender a dissolução da ordem feudal e a consolidação de uma nova estrutura social, sustentada por novas relações de propriedade e articulada em torno de uma nova forma de antagonismo de classe. As diversas formas de desenvolvimento deste sistema de extração do excedente por compulsão extra-econômica, em conexão ou em conflito com o desenvolvimento das forças produtivas (conduzidas dominantemente pelos produtores diretos que tinham acesso livre aos meios produção), que comandavam a evolução da economia feudal européia. A servidão só poderia acabar a partir de uma quebra nos equilíbrios das forças de classes. O modo de produção feudal sempre tendeu a desenvolver-se de forma extensiva, anexando novas terras cultiváveis e reproduzindo sobre o novo território sua estrutura e suas relações de produção. Dadas as possibilidades limitadas de investimentos e melhorias na produção, o feudalismo inclinou-se mais a criar formas de redistribuição do que propriamente de criação de riquezas. A acumulação política (não somente quantitativa, mas também qualitativa) intensificou consideravelmente as necessidades da classe dominante. As forças produtivas rapidamente tornaram-se incapazes de suportar a população. As crises feudais, portanto, derivam do modelo peculiar de desenvolvimento apresentado por este modo de produção: crescimento extensivo baseado na exploração extra-econômica dos produtores diretos, onde o grosso dos recursos são consumidos na manutenção dos dispositivos de coerção sobre a classe produtora. O efeito mais favorável do fim das relações servis consistiu no esfacelamento do controle sobre a mobilidade da mão-de-obra, que passou a responder de forma mais imediata às exigências do mercado. ( Nobres) Impedidos de recolocar as antigas relações de extração do excedente. A melhor opção, era arrendar as terras aos grandes arrendatários. Pouco a pouco, a estrutura senhor /grande arrendatário /trabalhador ficou dominante na Inglaterra. Fez comparação entre França e Inglaterra. Com base nesta comparação, o desenvolvimento inglês assentou-se no crescimento da produtividade no campo como resultado da transformação da estrutura de classes agrária. -> Thompson: o que criou o impulso de intensificar a exploração não foi o surgimento das máquinas a vapor ou do sistema fabril, mas a necessidade intrínseca das relações de propriedade capitalistas de aumentar a produtividade e o lucro. Imperativos capitalistas. Esses imperativos estavam fadados a transformar a organização da produção e a natureza da classe trabalhadora, mas o sistema fabril foi mais resultado do que causa. -> Marx: o processo que cria o sistema capitalista consiste apenas no processo que retira ao trabalhado a propriedade de seus meios de trabalho, um processo que transforma em capital os meios sociais de subsistência e os de produção e converte em assalariados os produtores diretos. A estrutura econômica

da sociedade capitalista nasceu da estrutura econômica da sociedade feudal. A decomposição desta liberou elementos para formação daquela. O poder do senhor feudal, como o dos soberanos, não depende da magnitude de suas rendas, mas do número de seus súditos, ou melhor do número de camponeses estabelecidos em seus domínios. O roubo dos bens da Igreja, a alienação fraudulenta dos domínios do estado, a ladroeira das terras comuns e a transformação de propriedade feudal e do clã em propriedade privada moderna, levada a cabo com terrorismo implacável, figuram entre os métodos idílicos da acumulação primitiva. Conquistaram o campo para a agricultura capitalista, incorporaram as terras ao capital e proporcionaram à indústria das cidades a oferta necessária de proletários sem direitos. Ao progredir a produção capitalista, desenvolve-se uma classe trabalhadora que por educação, tradição e costume aceita as exigências daquele modo de produção como leis naturais evidentes. A expropriação da população rural cria imediatamente apenas grandes proprietários de terras. Os acontecimentos que transformam os pequenos lavradores em assalariados e seus meios de subsistência e meios de trabalho em elementos materiais do capital, criam ao mesmo tempo para este o mercado interno. O capital dinheiro formado por meio da usura e do comércio era impedido de se transformar em capital industrial pelo sistema feudal no campo e pela organização corporativa na cidade. Esses entraves caíram com a dissolução das vassalagens feudais, com a expropriação e a expulsão parcial das populações rurais.