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A Psicologia no Brasil:
Um Ensaio Sobre suas
Contradições

Psychology in Brazil:
An Essay on its Contradictions

La Psicología En El Brasil:
Un Ensayo Sobre Sus Contradicciones

Mitsuko Aparecida
Makino Antunes

Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo
Artigo

PSICOLOGIA: CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2012, 32 (num. esp.), 44-65


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PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO,
2012, 32 (num. esp.), 44-65
Mitsuko Aparecida Makino Antunes

Resumo: Este artigo tem a finalidade de expor o percurso histórico da Psicologia no Brasil na perspectiva da
tridimensionalidade do tempo, entendendo que a apreensão de sua concreticidade implica a compreensão
do passado, que estrutura o presente e se projeta para o futuro. A compreensão da historicidade da Psicologia
no Brasil como construção social, neste texto, tem como foco a análise das contradições que estiveram
presentes nos diversos períodos, como condição para a compreensão das possibilidades de superação que
permitiram saltos de qualidade no desenvolvimento da Psicologia, quer como conhecimento, quer como
prática. Serão apresentadas, para cada período da história da Psicologia no Brasil, uma breve descrição de
suas características e a análise de algumas produções, sejam elas teóricas, sejam práticas, que revelam suas
contradições, sobretudo o confronto das concepções coexistentes em um mesmo tempo histórico, que
demonstram o processo constitutivo dos saberes psicológicos e da Psicologia no Brasil a partir de distintos
posicionamentos sociopolíticos e epistemológicos. Busca-se contribuir para a compreensão da constituição
da Psicologia no Brasil a partir da dinâmica engendrada pelas e nas contradições históricas dessa área do
saber, entendida como construção eminentemente social.
Palavras-chave: História da Psicologia- Brasil. Contradição. Construção do conhecimento. Memória

Abstract: This essay has the aim to explain the historical route of psychology in Brazil in the perspective of the
tridimensionality of time, assuming that this aprehension implies the understanding of the past, that structures
the present and projects itself into the future. The comprehension of psychology historicity in Brazil as a social
construction has as focus the analysis of the contradictions that were present in the various periods, as a condition
for the comprehension of the transcendence of the possibilities that permitted better quality in the development
Se as verdades
of psychology, be it knowledge, be it practice. A short description of the characteristics and the analysis of some
científicas fossem productions, theoretical or practical, will be presented, revealing the contradictions of each period of the history
definitivas, a ciência of psychology in Brazil, mainly the confrontation of the conceptons present in the same historical time, that
teria deixado de demonstrate the process that constitutes the psychological knowledge and psychology itself in Brazil from the
existir como tal, dynamic generated by the historical contradictions of this area, which is seen as a social construction.
como investigação,
como novas Keywords: History of psychology - Brazil. Contradiction. Knowledge construction. Memory.
experiências,
reduzindo-se a Resumen : Este artículo tiene la finalidad de exponer el recorrido histórico de la psicología en el Brasil en la
atividade científica perspectiva de la tridimensionalidad del tiempo, entendiendo que la aprensión de su carácter de concreto
à repetição do que implica la comprensión del pasado, que estructura el presente y se proyecta para el futuro. La compren-
já foi descoberto. O sión de la historicidad de la psicología en el Brasil como construcción social, en este texto, tiene como
que não é verdade,
foco el análisis de las contradicciones que estuvieron presentes en los diversos períodos, como condición
para felicidade da
ciência. Mas, se nem para la comprensión de las posibilidades de superación que permitieron saltos de calidad en el desarrollo
mesmo as verdades de la Psicología, ya sea como conocimiento, o como práctica. Serán presentadas, para cada período de
são definitivas la historia de la psicología en el Brasil, una breve descripción de sus características y el análisis de algunas
e peremptórias, producciones, sean ellas teóricas o prácticas, que revelan sus contradicciones, sobre todo el enfrentamiento
também a ciência de concepciones coexistentes en un mismo tiempo histórico, que demuestran el proceso constitutivo de
é uma categoria los saberes psicológicos y de la psicología en el Brasil a partir de distintos posicionamientos sociopolíticos y
histórica, um
epistemológicos. Se busca contribuir para la comprensión de la constitución de la psicología en el Brasil a
movimento em
contínua evolução partir de la dinámica engendrada por las y en las contradicciones históricas de esa área del saber, entendida
como construcción eminentemente social.
(Antonio Gramsci). Palabras clave: Historia de la psicología- Brasil. Historia de la contradicción. Construcción del conocimiento.
Memória

Neste ano, comemoram-se 50 anos da tende para o futuro com suas consequências e
regulamentação da profissão de psicólogo está radicada no presente pela sua estrutura”
no Brasil. As datas expressas em números
(Kosik, 1978, p. 217). Assim, aos 50 anos
redondos são objetos especiais de
da Lei 4119, de 27 de agosto de 1962, que
comemoração. Comemorar significa lembrar,
regulamentou a profissão de psicólogo e
trazer à memória, recordar, o que remete à
estabeleceu os cursos para sua formação no
reflexão sobre a constituição da Psicologia:
suas raízes, seu estado atual e seus anseios Brasil, muitas têm sido as iniciativas para se
e projetos para o futuro. Parte-se, assim, refletir sobre a psicologia em seus múltiplos
da ideia de que “a tridimensionalidade do aspectos: produção de conhecimento,
tempo se desenvolve em todas as épocas: atuação profissional, ensino, organização,
agarra-se ao passado com seus pressupostos, entre outros.”

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Se se entende o conhecimento como elementos da história da Psicologia no Brasil


construção histórica e social, engendrado nas e suas contradições, como alternativa a
relações que se estabelecem entre os homens, uma narrativa cronológica construída de
determinadas nas sociedades de classe por datas e nomes, na tradição da historiografia
interesses antagônicos, a compreensão da positivista, assim como uma leitura presentista,
Psicologia em sua historicidade implica tal como criticada por Schaff (1978) e
identificar e compreender as contradições cujas consequências vão da negação da
inerentes à sua produção no fluxo da possibilidade de se conhecer o passado à
História. Assim, este artigo tem como sua banalização, que interpreta o passado
finalidade apresentar um breve relato acerca a partir dos registros históricos e axiológicos
do percurso histórico da Psicologia no do presente.
Brasil, tendo como foco de análise algumas
das muitas contradições presentes em seu A produção de saberes
processo de constituição. Como suporte a psicológicos no período
essa ideia, pode-se recorrer, por analogia, à
colonial e no século xix
afirmação de Gramsci, ao defender que não
é possível um conhecimento crítico sobre a
Deve-se entender que o período colonial no
realidade que prescinda de sua compreensão
Brasil está articulado à expansão comercial
histórica; diz ele:
europeia, uma das condições para o
desenvolvimento do modo de produção
Não se pode separar a ‘filosofia’ da ‘história
da filosofia’, nem a ‘cultura’ da ‘história da capitalista. Mais especificamente, o Brasil,
cultura’. Não podemos ser filósofos (...) sem sob o domínio dos portugueses, constituiu-se
a consciência da nossa historicidade, da fase como colônia de exploração. A espoliação das
de desenvolvimento por ela representada
e do fato de que ela está em contradição
riquezas coloniais baseava-se no monopólio
com outras concepções ou com elementos da metrópole, que determinava o que
de outras concepções. A própria concepção deveria ser produzido, a maneira de fazê-lo
do mundo responde a determinados e a apropriação de seus produtos. A imensa
problemas colocados pela realidade, que
são bem determinadas e ‘originais’ em sua riqueza obtida pela força de trabalho escrava
atualidade. (1984, p. 13) na agricultura (baseada em latifúndios) ou na
mineração garantiu às classes dominantes das
Não se pretende, aqui, traçar um resumo da metrópoles uma vida de luxo e opulência.
história da Psicologia no Brasil, mas expor
algumas realizações, buscando mostrar A organização da empresa colonial exigia, de
como a contradição é inerente à realidade; um lado, um forte aparato repressivo (seja
conhecê-la é, portanto, um imperativo para a contenção de revoltas internas, seja
para aqueles que pretendem apreender a para a defesa do território contra a invasão
realidade concreta. No caso da Psicologia de outros países europeus) e, de outro lado,
no Brasil, faz-se necessário compreendê-la um sólido aparato de ordem ideológica,
como construção histórica e social, síntese com a finalidade de transmitir, impor e
de múltiplas determinações, orientada por manter ideologias que, em última instância,
determinadas concepções de homem e de justificavam e legitimavam a exploração
sociedade e comprometida com posições colonial.
de classe e, portanto, contraditória, sendo
que o embate entre esses elementos que No âmbito do aparato ideológico, a
se opõem produz movimento e possibilita Companhia de Jesus assumiu importante
superação. Para isso, serão expostos alguns função, mantendo sua influência mesmo após

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sua expulsão de Portugal e de suas colônias de profícua produção de conhecimento.


no quadro das reformas pombalinas. Muitos Segundo a autora,
jesuítas ocuparam-se de produzir e difundir
A educação é reconhecida pelos religiosos
conhecimentos que tinham como função
– imbuídos pelo espírito da pedagogia
organizar e manter a empresa colonial. A humanista – como instrumento privilegiado
mais conhecida tarefa jesuítica no Brasil, para criar um homem novo e uma nova
porém, relaciona-se com a educação, mais sociedade no Novo Mundo. Por isso, a
educação das crianças e a criação de escolas
precisamente, com a educação dos filhos se constituíram os objetivos prioritários
dos colonos portugueses, com base em seu do plano missionário da Companhia no
programa de estudos, o Ratio Studiorum, Brasil. Esse empreendimento acarretava a
que tinha a finalidade de prepará-los para o necessidade de formular conhecimentos e
práticas de caráter pedagógico e psicológico
seguimento dos estudos na metrópole, e a
(Massimi, 2004, p. 29)
educação elementar e a catequese para os
filhos dos nativos da terra.
Muitos jesuítas foram indubitavelmente
ideólogos privilegiados da metrópole
O processo catequético e a educação das
portuguesa. Destaca-se, nos estudos de
primeiras letras para os indígenas têm sido
Massimi (1997, 1990), a preocupação
vistos como expressão de uma pedagogia
com a disposição para o trabalho e com a
repressiva, baseada em castigos, com vistas
aculturação de indígenas, com o controle
à disciplinarização e controle, com base na
ou cura das emoções, que, em alguns casos,
psicologia moral da época. Em seus estudos
remetem à solução de problemas de ordem
sobre a história da criança no Brasil, afirma
moral enfrentados pela colonização, assim
Priore (1991, p. 13):
como, em especial, a educação, pela difusão
Fortemente arraigada na psicologia de da ideologia dominante, pela catequese de
fundamento moral e religioso comum da indígenas ou pelo empenho na formação de
época, e na capacidade impressionista quadros para a administração colonial.
que se desdobrou em autos sacramentais
alegóricos, ‘musicarias’ e sermões
recendendo a temor e estremecimento Como ilustração, os dados de Berenchtein
religioso, a fala dos jesuítas sobre educação Netto (2012), obtidos em seu estudo sobre
e disciplina tinha gosto de sangue” o suicídio na colônia, mostram que muitos
escritos, dentre eles vários de autoria de
Em outras palavras, tratava-se, para a autora,
jesuítas, tinham a finalidade de inibir o ato
de uma pedagogia do medo: (...) Junto à
da morte voluntária, com base na danação
pedagogia do novo saber ocidental cristão,
eterna como punição ao pecado, sobretudo
necessário era também impor-lhe uma
de indígenas, em um primeiro momento,
pedagogia do medo que inspirasse desapreço
mas principalmente de escravos africanos ou
pela carne e pelas necessidades físicas (...).
de seus descendentes, que encontravam na
A ‘disciplina’ tornou-se uma das cenas
morte voluntária a possibilidade de fuga das
recorrentes do grande espetáculo que foi a
condições desumanas de vida a eles impostas.
catequese” (1991, pp. 21-22).
Entretanto, alguns jesuítas assumiram e
Estudos específicos sobre os saberes
defenderam concepções políticas e teóricas,
psicológicos no período colonial foram
muitas das quais podem ser consideradas
realizados por Massimi (1997, 1990, 2004),
saberes psicológicos, que entraram em
nos quais os jesuítas comparecem, na
confronto com esses mesmos interesses.
condição de educadores, como protagonistas

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Massimi (1997, 1990) faz referência a várias estas considerações, de tal sorte, o fragil
entendimento, que confuso e aereo, muitas
obras produzidas no período colonial que
vezes succede, que abraçando o medo
contêm inegável caráter de originalidade, natural, se ausenta e foge da escola; e com
nas quais são encontrados elementos estes melhor he que o mestre se mostre
que se aproximam do que viria a ser a mais respectivo, que justiceiro, levando-
os com castigo moderado, e ás vezes
prática psicoterápica, estudos sobre a
fingindo, applicando-lhes a grandeza da
criança e sua educação, necessidade lição, segundo a capacidade dos talentos,
de se reconhecer a função do meio na até de lhes irem purificando os nervos da
aprendizagem e no desenvolvimento, rudeza e alcançarem, com o exercício, mais
clareza de engenho (Manoel de Andrade
reconhecimento da capacidade intelectual Figueiredo, 1722 como citado em Massimi,
da mulher e consequente defesa de criação 1997, p. 105)
de escolas femininas e, inclusive, concepções
(...) Assim como todos os acertos se atribuem
que articulavam a prática médica e o
aos mestres que ensinão, e não aos discipulos
conhecimento do psiquismo. Dentre que aprendem, assim tambem os erros
os autores, encontram-se Alexandre de que se achão nos mininos, são nodoas,
Gusmão (pedagogo, jesuíta) e Manoel de que se poem na fama dos mestres, que
não ensinarão bem (Manoel de Andrade
Andrade Figueiredo (calígrafo, de formação
Figueiredo, 1722 como citado em Massimi,
jesuítica), defensores da instrução feminina; 1997, p.105)
Feliciano de Souza Nunes (filósofo), que
nega a ideia corrente acerca da inferioridade As contradições podem ser verificadas de
mental da mulher; Azeredo Coutinho (bispo maneira mais clara nas posições políticas de
e economista), que propõe metodologia alguns autores que entraram em confronto
específica para a instrução feminina, com a metrópole, ainda que alguns deles
nos Estatutos do Recolhimento de Nossa tivessem relações diretas e amigáveis com a
Senhora da Glória, primeiro colégio feminino coroa portuguesa, como foi o caso de Padre
brasileiro, fundado em 1802 (fechado em Vieira, que não apenas defendeu judeus
seguida), e que custou a seu idealizador a convertidos e não convertidos (um dos
retirada compulsória para Portugal. A título motivos para sua intimação pelo Tribunal do
de ilustração, seguem abaixo alguns trechos Santo Ofício, o que lhe custou a detenção
das obras desses autores: e, posteriormente, a prisão domiciliar) mas
também se posicionou contra a escravização
(...) Não só têm as mulheres a mesma
de indígenas e de africanos, denunciando a
aptidão e capacidade de entendimento
e discurso, que nos homens se acham, barbárie das condições de trabalho e de vida
senão também que sem comparação impostas a eles no Brasil, destacando as sevícias
os excederiam se as aplicassem às artes impostas sobretudo aos escravos negros.
e ciências a que eles ordinariamente
se aplicam; e que ‘ex-vi’ disto, seriam
No Sermão da Epifania, diz Padre Vieira, em
tanto mais úteis e admiráveis, quanto nas defesa de suas ideias acerca do tratamento
operações do discurso melhor fossem dado aos indígenas pelos colonos portugueses:
instruídas (Feliciano de Souza Nunes,
1758 como citado em Massimi, 1997, pp. Toda a causa de nos perseguirem aqueles
109-110) chamados cristãos, é porque fazemos
pelos gentios o que Cristo fez pelos Magos
“Com este (o menino rude) deve o prudente (...) querem que tragamos os gentios à fé
mestre usar de menos rigor no castigo, pois e que os entreguemos à cobiça; querem
vemos que o demasiado mais lhe redunda que tragamos as ovelhas ao rebanho e
em ruina, do que em proveito; porque que as entreguemos ao cutelo; querem
afflicto de não poder perceber a lição e que tragamos os Magos a Cristo e que
temeroso ao mesmo tempo do castigo, os entreguemos a Herodes. E porque
que o intimida, e mortifica, lhe confundem encontramos esta sem-razão, nós somos

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os desarrazoados; porque resistimos a esta da história da Psicologia no Brasil a partir


injustiça, somos nós os injustos; porque de seus processos constituintes, isto é, do
contradizemos esta impiedade, nós somos
movimento que se produz a partir do embate
os ímpios (...) (Vieira, citado por Pais, 2010,
p. 67) de forças contrárias. Afirma Antunes:

Essas ideias são faces de uma mesma


No Sermão Vigésimo Sétimo, diz Padre
realidade, pois refletem as contradições da
Vieira, em defesa dos negros escravos: formação social em questão. Assim, é possível
compreender a originalidade de várias ideias
Outra razão é serem também homens os que psicológicas como tendo surgido do fato
são escravos. Se a fortuna os fez escravos, de que, em busca de soluções para alguns
a natureza fê-los homens; e por que há de problemas, a criatividade tornou-se um
poder mais a desigualdade de fortuna para o imperativo; as necessidades impostas pela
desprezo que a igualdade da natureza para realidade exigiram soluções que, ao mesmo
estimação? Quando o desprezo a eles, mais tempo que buscavam a manutenção da
me desprezo a mim; porque neles desprezo ordem estabelecida, também se constituíam
o que é por desgraça, e em mim o que sou em forças impulsionadoras do real em
por natureza. direção ao futuro, ou ainda, poderiam estar
articuladas às forças que colocavam em
A esta razão forçosa em toda parte se questão o próprio status quo, no sentido da
acrescenta outra no Brasil, que convence a busca de uma nova ordem, o que pode ser
injustiça e exagera a ingratidão. Quem vos confirmado pelo fato de que vários autores
sustenta no Brasil, senão vossos escravos? estudados por Massimi tiveram em uma
Pois se eles são os que vos dão de comer, ou outra ocasião problemas com o poder
porque lhe haveis de negar a mesa, que é metropolitano ou com a Inquisição (2007,
mais sua que vossa? Contudo a majestade,
p.22)
ou desumanidade da opinião contrária, é a
que prevalece, e não só não são admitidos
à mesa, mas nem às migalhas dela, sendo Com o fim da condição colonial, o Brasil
melhor a fortuna dos cães que a sua, posto sofreu, a partir do início do século XIX,
que sejam tratados com o mesmo nome (...)
profundas transformações econômicas,
(Vieira, citado por Pais, 2010, p. 63)
políticas e sociais com a instalação da
Corte no Rio de Janeiro, e, posteriormente,
Essas são somente algumas ilustrações
à guisa de independência em relação à
que mostram que os saberes psicológicos
coroa portuguesa, com a instauração da
na colônia não são homogêneos, mas
condição imperial. Com isso, houve a
internamente contraditórios, e expressam
necessidade de formação de quadros para
as relações de exploração da metrópole
o aparato repressivo e administrativo, este
sobre a colônia. Percebe-se que os saberes
último implicando maior preocupação
psicológicos compõem-se de ideias que
com a educação e o ensino. A criação de
dão sustentáculo à empresa colonial e de
cursos superiores, a impressão de livros e a
ideias a estas contrapostas, que também
instalação de várias instituições são exemplos
se manifestam em sua originalidade na
das mudanças ocorridas no Brasil, pelo
perspectiva do conhecimento sobre o
menos em seus núcleos urbanos.
fenômeno psicológico.

O século XIX foi profícuo na produção de


Pode-se dizer que o entendimento dessas
saberes psicológicos, mantendo muitas das
contradições do processo de colonização
preocupações do período colonial, porém,
é fundamental para a compreensão das
assumindo um caráter mais sistemático
contradições dos saberes psicológicos –
pela gradativa vinculação institucional e
instâncias que constituem uma totalidade – e
pela melhor elaboração dos conteúdos. As
que estas são fundamentais para a apreensão
questões sociais tornaram-se o principal foco

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de interesse médico ou pedagógico, fonte das investidas dos colonos portugueses. Diferente
preocupações com o fenômeno psicológico, foi, porém, a condição dos africanos e
o que não lhes conferiu um caráter de afrodescendentes, que, apartados de sua terra,
compromisso social com os interesses da cultura, língua, tribo, estavam fragilizados não
maioria da população, mas não livres de apenas pela força física mas, sobretudo, pela
contradições. força do impedimento de suas expressões
socioculturais. A solução do colonizador para
Há, nesse momento, um incremento do o indígena foi sua eliminação física. A solução
processo de urbanização, principalmente no dos escravos africanos para a escravidão foi
Rio de Janeiro e em Salvador, caracterizado construir lenta e gradativamente uma forte
pela precariedade das condições de base de resistência.
saneamento, o que produziu graves
problemas de saúde, uma das manifestações Em outras palavras, no século XIX, o indígena
dos profundos problemas de natureza social. já não mais representava um problema para
As elites letradas referiam-se às imundícies o colonizador. O problema era, então, o
físicas e morais, estas relacionadas às várias afrodescendente, que, livre ou sujeitado
personagens urbanas, como “leprosos, ainda à escravidão, já não mais correspondia
loucos, prostitutas, mendigos, vadios, crianças às necessidades de força de trabalho para
abandonadas, alcoólatras”. Foi nessa situação o novo ciclo econômico, agora deslocado
que surgiu, segundo Machado, Loureiro, Luz para o sudeste do País, para a cafeicultura.
e Muricy (1978), a Medicina social, mais A isso somam-se as ideias racistas, cada
preocupada com a saúde do que com a vez mais fortes e elaboradas, preocupadas
doença, com a prevenção do que com a cura, em garantir não só a supremacia étnica de
pautando-se nos ideais de normalização e base europeia mas também em segregar ou
higienização social, com vistas à eliminação eliminar a presença de outras origens étnicas
da desordem e dos desvios, sendo proposta, e raciais na formação social brasileira. Coube
nesse sentido, a higienização de hospitais, ao pensamento científico, representado
cemitérios, quartéis, bordéis, prisões, fábricas principalmente pelo poder médico, construir
e escolas. o discurso que sustentava tais ideias, dentre
estas, muitas relacionadas ao fenômeno
Deve-se sublinhar que uma diferença psicológico.
em relação ao período anterior está no
fato de que os indígenas, antes um dos É preciso considerar que os problemas
mais importantes focos dos autores da enfrentados pelo Império eram diversos e
época, deixam de certa forma o cenário das profundos. Leite, com base em memórias
preocupações, dando lugar, no século XIX, e livros de viagem, faz um estudo sobre as
à preocupação com os afrodescendentes. condições vistas e registradas nessas obras;
Uma das possíveis explicações para isso afirma ela:
é o fato de que, no período colonial, o
indígena constituía um problema para o Quanto às memórias, elas são fontes
colonizador, uma vez que aquele não se preciosas de conhecimento das relações
interpessoais e das variedades de contatos
dobrava às condições necessárias impostas étnicos e de camadas sociais. Três questões
pela empresa colonial, particularmente atravessavam essas relações: o sistema
a submissão ao trabalho escravo. Nativo escravista de trabalho, a educação informal
e a fragilidade da vida humana no período,
desta terra, tendo sobre ela o domínio e
ou seja, o alto índice de morbidade e
não podendo ser apartado de sua cultura, mortalidade (2009, pp. 24-25)
o indígena podia resistir mais fortemente às

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Diz ainda a autora que “as memórias exploração de uma classe por outra. Faz-
mostram aspectos internos e às vezes marcas se necessário também lembrar que uma
psicológicas deixadas por essa presença de sociedade alicerçada na divisão social do
morte no cotidiano das famílias” (2009, trabalho e no avanço técnico caminhava
p.25). para a especialização do conhecimento.
Estavam dadas, assim, as condições para que
Percebe-se, pois, que o Brasil do século a Psicologia pudesse delimitar-se como área
XIX, embora tivesse deixado a condição específica de conhecimento, conquistando,
colonial, seguia imerso em profundos dessa forma, o estatuto de ciência autônoma.
e graves problemas de diversas ordens,
particularmente de caráter social. Por Essas condições próprias da Psicologia, os
outro lado, nesse momento, o Brasil, agora problemas internos brasileiros e o acesso
nação formalmente considerada autônoma, às ideias produzidas na Europa foram
adquiria maior facilidade de contato com fundamentais para ampliar a produção dos
outros países, o que facilitava a penetração saberes psicológicos no Brasil no século XIX,
de ideias correntes na Europa, especialmente sustentados principalmente na Medicina e
na França, indiscutível centro intelectual na educação.
da época. Por isso, o desenvolvimento
do pensamento psicológico no Brasil, no As Faculdades de Medicina do Rio de Janeiro
século XIX, deve ser visto também a partir e da Bahia, criadas originalmente como
dos intercâmbios intelectuais com países cadeiras em 1808 e que passaram à condição
estrangeiros. de faculdades em 1832, foram algumas das
muitas instituições que contribuíram para a
Na Europa, no século XIX, os progressos produção dos saberes psicológicos no Brasil.
da Filosofia e da Fisiologia começaram a A defesa de uma tese inaugural ao final do
caminhar em direção a uma possível síntese, curso era obrigatória, e essas teses foram
conformando o que seria mais propriamente uma das mais profícuas fontes de estudo
focado no fenômeno psicológico. Nesse dos fenômenos psicológicos no interior da
momento, as mudanças ocorridas na Europa, Medicina no século XIX.
decorrentes do avanço do modo de produção
capitalista, criaram desafios e necessidades Como já foi dito, muitos dos representantes
que precisavam ser respondidas. Necessitava- da Medicina assumiram, nesse momento,
se de conhecimentos efetivos para melhor uma função de controle social, com vistas à
compreender tais problemas e sobre normalização e à higienização da sociedade,
eles intervir, em busca de seu controle, defendendo posições explícitas a favor da
especialmente sobre a conduta humana. exclusão social, e até mesmo prescrevendo a
Deve-se lembrar que a ideologia burguesa reclusão daqueles considerados socialmente
tinha no indivíduo o fundamento de uma indesejáveis para as camadas dominantes e
sociedade baseada na propriedade privada, seus interesses. Assim foi também com muitas
impondo a necessidade de se compreender teses produzidas nesse período, das quais
o homem nessa perspectiva. Mais do que muitas relacionadas às questões psicológicas.
isso, as condições de exploração da classe Além das teses, encontram-se outros escritos
trabalhadora precisavam ser justificadas e produzidos por médicos, como livros,
legitimadas por uma sociedade que afirmava artigos em revistas e jornais e transcrição de
a igualdade de direitos e a mobilidade social, conferências, nos quais é também recorrente
que encontrava nas diferenças individuais a presença de temas de natureza psicológica,
a explicação para a desigualdade e para a muitos dos quais apresentavam e defendiam

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ideias semelhantes. alunos e a eliminação dos castigos físicos


na escola, mas, incompreendido, exonera-
Fraga Filho, por exemplo, ao tratar das se e funda o Gymnasio Bahiano; foi um
condições sociais na Bahia do século XIX, dos primeiros intelectuais a se preocupar
com foco nos “mendigos, moleques e vadios”, com a educação de alunos com deficiência
salienta o discurso médico cujo caráter é intelectual e a defender a instalação de
moralizante, higienizador e normalizador. O uma cadeira de Linguagem Articulada para
autor faz referência à tese do médico Antônio educandos surdos. Afirma a autora sobre o
Ribeiro Gonçalves, defendida em 1902 (mas médico Abílio Cesar Borges:
relativa às condições próprias ainda do século
XIX), sobre a qual afirma: Dr. Abílio não somente remodelou os
métodos e os processos de ensino e
transformou o tirocínio escolar, mas
Aqui o saber especializado e científico
também modificou os compêndios
do médico apontava os aspectos
então adotados. Imaginou um
nocivos da exposição desses menores à
processo de leitura que apelidou
vida de rua. Foi o discurso médico que
‘leitura universal’, para demonstrar a
atribuiu a esses meninos maior grau de
eficiência e quanto merecia cuidados
periculosidade. Inspirado em Lombroso,
o problema do analfabetismo em sua
sustentava Ribeiro Gonçalves que eles
pátria (2004, p. 101)
eram de caráter ‘profundamente viciado’,
familiarizados com as ‘depravações mais
baixas’ e potencialmente inclinados para Outras produções certamente poderiam
a criminalidade. Inquietava as autoridades ilustrar as contradições desse período,
e os bem pensantes o fato de que a rua
os estivesse amestrando na vadiagem, o mostrando que havia embate de ideias e
que não era nada alentador para quem práticas articuladas a interesses diversos e
se empenhava pela ordem pública e a muitas vezes antagônicos, que provocavam
moralização dos costumes (1996, p.115) movimentos que, certamente, concretizaram
transformações no seio da sociedade em
Entretanto, em meio a essas publicações que geral e dos saberes psicológicos em particular.
expressavam um posicionamento a favor de Muitos movimentos sociais ocorreram no
ideias e práticas excludentes, encontram- Brasil no século XIX, o que mostra movimento
se, ainda que em expressa minoria e em busca de superação das condições
contraditoriamente, trabalhos que assumiram sociopolíticas dadas e que certamente tiveram
outras perspectivas. reflexos na produção intelectual; o estudo
dessas ideias poderá contribuir para ampliar
Rocha faz referência à produção de alguns a compreensão dos saberes psicológicos no
médicos baianos, dentre os quais Abílio Cesar século XIX e suas condições de produção e
Borges, o Barão de Macahubas, cujas ideias afiliação ideológica.
se contrapõem àquilo que era dominante na
época, em particular, nos círculos médicos
O processo de autonomização
e, sobretudo, educacionais. Segundo a
autora, esse médico destacou-se como um
da psicologia
dos grandes educadores de sua época, “(...)
Esse período, que vai do final do século
tinha uma forma peculiar e diferenciada com
XIX ao início dos anos 30, deve ser visto
relação à educação, advogando a abolição
do castigo físico e a valorização dos corpos necessariamente como processo que vai
docente e discente” (2004, pp. 99-100). gradativamente se engendrando ao longo do
Como Diretor Geral da Instrução na Bahia, tempo, iniciando com ideias e práticas que se
pretendia a valorização de professores e dão no interior de outras áreas do conhecimento

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e que, aos poucos, vão se conformando como de transformação da ordem social. Os


uma área autônoma, a Psicologia, tal como movimentos populares foram enfrentados
considerada na Europa e nos Estados Unidos. por forte esquema repressivo, o que não
Antes disso, pode-se falar em saberes impediu a penetração de ideias como o
psicológicos, mas não se pode afirmar que anarquismo, o anarcossindicalismo e o
se trate propriamente de Psicologia. Esta socialismo, assim como a constituição de
gradativamente conquista a condição de um significativo movimento organizado
área específica de conhecimento e, mais pelas classes trabalhadoras, do campo e das
tarde e como consequência, a de campo cidades. Entretanto, no âmbito das ideias
de intervenção prática. Esse processo foi que se articulam com o desenvolvimento da
determinado por fatores de ordem interna, Psicologia, foram os movimentos dos setores
como a necessidade de mais conhecimento intelectuais, portanto, das camadas médias,
acerca do fenômeno psicológico ainda no que formaram um substrato que permitiu
interior de outras áreas de saber ou campos a gradativa conformação da Psicologia
de natureza prática (como a Medicina e a como área específica de conhecimento,
Educação) e, por outro lado, pela conquista base necessária para as intervenções sociais
do estatuto da Psicologia como ciência articuladas a seus projetos.
autônoma na Europa e nos Estados Unidos,
assim como fatores de ordem externa, como A crítica ao Brasil agrário e ao atraso
as transformações da sociedade brasileira econômico formou a base para o projeto de
e seus velhos e novos problemas, que um Brasil moderno e à altura do século, tendo
demandavam, por sua vez, o aprofundamento a industrialização como meta. Almejava-se
e a produção de novos conhecimentos, assim um novo país, o que demandaria a construção
como novas modalidades e possibilidades de um novo homem, adequado aos novos
de ação. tempos. À educação caberia forjar esse
novo homem, educação essa que deveria
Nesse período, já era profícua a produção ser também moderna e à altura do século. É
da ciência psicológica. França, Alemanha, nessa condição que o escolanovismo ganhou
Rússia e Estados Unidos, entre outros maior sistematização e se tornou a proposta
países, produziam relevantes pesquisas educacional alinhada ao projeto de um novo
em Psicologia, assim como surgiam várias Brasil, do que decorre a adoção de uma nova
perspectivas teóricas e ampliavam-se as Pedagogia, a Pedagogia nova, que se pretende
possibilidades de intervenção. Muitas fundamentalmente Pedagogia científica.
dessas ideias foram trazidas para o Brasil por Essa Pedagogia tem na Psicologia sua mais
brasileiros que iam estudar e se aperfeiçoar importante fundamentação científica. Foi
principalmente na Europa ou por estrangeiros nesse quadro que a área ganhou condições
que vieram ministrar cursos, dar conferências não apenas para se afirmar como ciência
ou prestar assessoria, alguns dos quais aqui autônoma, não mais produzida no interior
se radicaram. de outras disciplinas, mas, sobretudo, para
se desenvolver e se ampliar, fundamentada
Nessa época, dominada política e no que se produzia na Europa e nos Estados
economicamente pelos interesses dos Unidos. Essa condição se revela em várias
produtores de café, movimentos sociais instâncias, sobretudo nas Escolas Normais,
oriundos das camadas populares, de um que estabelecem a cátedra denominada
lado, e das camadas médias, de outro, Pedagogia e Psicologia, para a qual são
revelam o descontentamento e a necessidade criados laboratórios de Psicologia, produzidos
compêndios e outras publicações, traduzidas

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obras de autores estrangeiros e expandidos os trazem referências a questões da Psicologia


conhecimentos da área como fundamentos e a obras na área. Estudos documentais são
para a prática pedagógica e a base teórica necessários para se conhecer melhor como
necessária a todo educador. a Psicologia era vista, que autores eram
Muitas são as instituições que incorporaram considerados e a que situações ela era chamada
a Psicologia como uma das áreas de estudo a contribuir como conhecimento específico.
e de intervenção, entre elas, o Pedagogium, No entanto, a Psicologia que se estabeleceu e
onde, em 1906, foi criado o primeiro se institucionalizou foi a que teve origem em
laboratório de Psicologia no Brasil, planejado instituições educacionais e médicas, campos
por Binet, em Paris, com a colaboração de dominados por representantes das camadas
Manoel Bomfim, que o dirigiu por cerca de médias, principalmente intelectuais.
quinze anos.
Dessas instituições, as Escolas Normais
Os hospícios criados no século XIX se foram os mais importantes substratos para
expandem no século seguinte, e muitos deles o desenvolvimento da Psicologia. Nos anos
fundam laboratórios de Psicologia, que terão 20, principalmente no bojo das reformas
importante participação no desenvolvimento estaduais de ensino, essas escolas adotaram
e no processo de autonomização da a Psicologia como uma das mais importantes
Psicologia. bases científicas para reformar a educação.
Nessa mesma época, são publicados os
Muitas foram as realizações desenvolvidas primeiros livros sobre testes, sendo que
tanto no interior da Educação como da alguns desses autores estiveram ligados a essas
Medicina, que foram sustentáculos para que reformas, como Isaías Alves e Lourenço Filho.
a Psicologia conquistasse o estatuto de ciência De qualquer maneira, foi nessa época que
autônoma no Brasil. Demandas desses se iniciou o movimento dos testes no Brasil,
campos e possibilidades de respostas trazidas utilizados essencialmente como instrumentos
pela nova ciência foram fundamentais para de racionalização da prática educativa (a par
esse processo. com o movimento geral de racionalização,
defendido principalmente como condição
Entretanto, é necessário compreender a para a implementação e o desenvolvimento
que interesses serviam essas demandas e industrial), e que perdurou por décadas,
as respostas buscadas na Psicologia. No apesar das críticas ao modo como foram
confronto com a ordem política estabelecida utilizados.
pelos interesses agrários, o ideário liberal
constituiu a mais importante base teórica Três obras1 tratam especificamente dos testes
dos intelectuais e de outros membros das de inteligência na terceira década do século
camadas médias descontentes com seu passado. Embora o foco principal seja a
alijamento do poder e de suas benesses. Foi aplicação desses testes à situação escolar,
nessa condição e articulada a esses interesses defende-se sua aplicação a outras situações
que a Psicologia teve condições para se da vida social, particularmente à indústria
desenvolver. Ou ainda, pode-se dizer que e ao comércio. Essa defesa ocorre em um
a Psicologia que aqui se desenvolveu esteve momento em que a busca de racionalidade
articulada a esses interesses e a um projeto na gestão de escolas e de outras instituições
específico de modernização do País. encontra sua legitimação na objetividade e na
superioridade dos produtos da ciência e das
Jornais vinculados aos movimentos operários, técnicas dela derivadas. Diz Alves:
de cunho anarcossindicalista ou socialista,

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há onze annos (1930, p. 43)


As vantagens práticas estão, entretanto, de
tal modo reconhecidas, que o problema já
Medeiros e Albuquerque explicita a função
passou, entre os povos de cultura adiantada,
para o escriptorio do commerciante (...) dos testes na seleção dos candidatos às
para a direcção das fabricas (...) para o Forças Armadas norte-americanas na Primeira
alistamento do exercito, que não pode levar Guerra Mundial, antecipando a maneira como
às trincheiras de guerra homens apoucados
os testes foram incorporados e utilizados
de intelligencia, que se tornem peso morto,
nessa terrível actividade onde o movimento no Brasil, principalmente no campo da
intelligente é poderoso factor de Victoria, educação; segundo ele,
e até para a capacidade legal de cidadão,
visto como no Estado de Nova York, os Precisava-se achar um criterio que
candidatos a eleitor são submettidos a teste descobrisse quaes os de intelligencia
de intelligencia, não podendo votar todo superior, para indical-os afim de
aquele que tenha idade mental inferior a occuparem postos de commando;
10, isto é, Q.I. inferior a 62 (1928, p. 122) descobrir tambem os que eram de
intelligencia tão inferior, que só
podiam servir a misteres inferiores;
Medeiros e Albuquerque (1925) e Isaias Alves
formar batalhões com uma certa
(1930), entre outras linhas de argumentação, uniformidade intellectual, onde isso
recorrem à situação de guerra para demonstrar fosse necessário; formar batalhões
como foram desenvolvidos os testes de de intellectualidade superior, onde
isso fosse exigido pela natureza dos
aplicação coletiva de inteligência, referindo- serviços a executar; discriminar os
se à entrada dos EUA na Primeira Guerra que podiam servir para determinados
Mundial como um dos marcos para a misteres ou para receber ensino
expansão da utilização dos testes. Alves technico especial; indicar quaes os
de intelligencia tão tarda, que, nas
também refere-se a esse episódio, citando fileiras, pareceriam teimosos ou
a criação dos Army Tests, especialmente desobedientes, quando eram apenas
elaborados para a seleção de soldados para estupidos, e finalmente excluir
completamente os sub-normaes
a Primeira Guerra Mundial, nos EUA. Ambos
tão abaixo da normalidade que não
os autores consideram que a Primeira Guerra tinham em que ser aproveitados
Mundial constituiu um fator impulsionador (1925, p. 114)
para o desenvolvimento da Psicologia e,
particularmente, dos testes. Para Isaias Alves: No âmbito da Medicina, alguns hospícios
também produziram conhecimentos
A guerra foi sempre um grande impulsionador em Psicologia, principalmente em seus
do progresso humano, por isso que, nesse
laboratórios. Um deles foi o da Colônia de
terrível estado de necessidade, todas
as forças da intelligencia cooperam na Psicopatas do Engenho de Dentro, criado
1 Tests: Introdução defeza dos grupos nacionaes, cada qual em 1923, dirigido pelo psicólogo polonês
ao estudo dos meios tentando superar o outro. Todas as sciencias Waclaw Radecki, que produziu pesquisas
scientificos de julgar progridem ao adejar da morte, como se o
a intelligencia e a convalescer do povo devesse logo seguir às sobre várias questões psicológicas, como
applicação dos alumnos, grandes chagas abertas pelos obuses, que fadiga em crianças e jovens trabalhadores
de 1925 (4a. ed.; não a mechanica, a metallurgia, a geometria e
há referência à data da
e seleção de aviadores e psicometria, entre
a óptica, servindo-se de todas as outras,
1a. ed., embora o autor outros assuntos. A Liga Brasileira de Higiene
aliaram-se aos gazes, que a chimica elevou
se refira ao ano anterior, Mental, fundada em 1923, também criou
1924), de Medeiros à mais culminante influencia na estratégia
e Albuquerque; moderna. um laboratório de Psicologia, considerando
Teste individual de Por menos que pareça, não fugiu a sciencia ser essa uma ciência afim à psiquiatria; mais
intelligencia, 1928, e Os psychologica a essa regra e assim é que
tarde, essa liga articulou-se a um pensamento
testes e a reorganização se abriu um novo capitulo à psychologia
escolar, de 1930, ambas pedagogica, ao estrugirem os clarins bastante reacionário, defendendo posições
de Isaías Alves. americanos do exercito que se mobilizou xenófobas e racistas.

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As ideias acima expostas são apenas manifestariam décadas depois. Assumindo


uma pequena ilustração das articulações o cargo de diretor do Hospital de Doenças
que se estabeleceram entre Psicologia e Nervosas e Mentais do Recife e participando
sociedade. Entretanto, houve produções cujo da Assistência a Psicopatas de Pernambuco,
caráter divergia radicalmente da tendência aboliu as camisas de força e os calabouços
hegemônica da época. e implantou ambulatórios e hospital aberto,
dentre inúmeras outras realizações. Fundou a
Manoel Bomfim, criador e diretor do Liga de Higiene Mental de Recife, porém em
primeiro laboratório de Psicologia no País, uma direção bastante diferente das demais;
instalado no Pedagogium, e catedrático de aí criou ele a primeira Escola para Anormaes
Psicologia e pedagogia na Escola Normal no Brasil, que deve ser entendida como uma
do Rio de Janeiro, apresentava pensamento iniciativa pioneira e progressista, uma vez que
distinto. Além de ser crítico contundente da criança com deficiência passava a ser vista
sociedade brasileira a partir de uma análise como sujeito da educação, e não mais como
que identificava os problemas do Brasil na paciente de hospício a quem apenas restava
história de espoliação e exploração colonial, a exclusão social pela reclusão. A prática de
de combater as ideias do racismo científico Ulysses Pernambucano revela que, para ele,
e de posicionar-se politicamente contra o não havia uma dicotomia entre Psicologia e
pensamento liberal vigente, produziu ele uma psiquiatria, pois a atuação nesse campo, que
concepção psicológica original e avançada hoje poderia ser denominado saúde mental,
para a época. Bomfim criticava as pesquisas deveria ser fruto da colaboração de diferentes
sobre os fenômenos psicológicos superiores profissionais, o que também só muitas décadas
realizadas em laboratório, pois, para ele, depois viria a ser defendido. Concebia
as condições restritas e artificiais deste não Pernambucano a doença mental como
permitiam a apreensão da complexidade e situação existencial, expressão da dinâmica
das múltiplas determinações do psiquismo, psicológica do indivíduo, compreendido
especialmente do pensamento, por ele como sujeito ativo e constituído nas relações
considerado função psíquica superior. O sociais.
psiquismo era, para ele, um fenômeno
de natureza histórico-social, e devia ser Bomfim e Pernambucano representam o
estudado a partir do método interpretativo, pensamento divergente, aquele que se
que deveria basear-se no estudo de suas contrapõe ao que é hegemônico em um dado
múltiplas manifestações e apreendê-lo como momento. Ao se colocarem nessa perspectiva,
parte da obra humana forjada ao longo da não apenas mostram a natureza contraditória
História. Bomfim deve ser considerado, por da realidade histórica e, por essa via, a
sua obra em geral, um intelectual que não se dinâmica da constituição da Psicologia como
alinhava ao que era hegemônico na época ciência no Brasil, mas também oferecem
e que antecipou muitas formulações – em concepções e possibilidades de compreensão
Psicologia, Educação, Pedagogia, Sociologia, do fenômeno psicológico que só mais tarde
História, entre outras áreas de conhecimento seriam consideradas pela Psicologia. Pode-
– que só mais tarde viriam a ser desenvolvidas se dizer que, no embate com forças sociais
por outros autores e reconhecidas por antagônicas, eles puderam superar o estado
intelectuais mais progressistas e críticos. em que se encontrava a Psicologia naquele
momento. Esse processo não é pontual e
Sob a liderança de Ulysses Pernambucano, o nem fruto de um feliz acaso, mas expressão
Movimento Psiquiátrico de Recife antecipou de concepções de homem e de sociedade
as ideias da antipsiquiatria, que só se que determinam as formas de se conceber

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a Psicologia. A coerência de suas ideias e da qual se encontravam aqueles que haviam


a posição de embate com o pensamento acumulado capital com a produção de café.
hegemônico se confirmam no fato de que Esse período pautou-se pela implantação
Bomfim foi alvo de duras críticas durante sua do processo de industrialização no Brasil. A
vida, pelas posições políticas e pelo combate construção de uma sociedade baseada em
às ideias do racismo científico então em voga novas relações sociais de produção exigia
entre a intelectualidade brasileira, tendo sua novos conhecimentos e práticas, sendo
obra sido reconhecida só no final do século a educação um dos instrumentos para a
XX. Ulysses Pernambucano foi também um conformação do novo trabalhador, afeito
homem cuja coerência o levou à prisão mais às necessidades do processo industrial, e a
de uma vez, ao tomar partido e defender Psicologia um de seus principais fundamentos
trabalhadores canavieiros de Pernambuco. científicos. Esse momento histórico, por
suas necessidades, tornou-se terreno fértil
Esse período é extremamente rico em para o desenvolvimento da área e para a
produção e em contradições. Expressão do consolidação de sua prática.
movimento da História, movido pelo embate
de elementos que se contrapõem, mostra Esse período caracteriza-se pela expansão
também que há um polo que vence o outro, do ensino de Psicologia, das Escolas Normais
mas como algumas contradições permanecem para o ensino superior, especialmente
e outras são gestadas, o movimento persiste e nos cursos de Filosofia e pedagogia, pelo
transformações se processam. Não há dúvida aumento da publicação de livros e periódicos,
de que houve uma visão hegemônica, mas expansão das atividades de pesquisa, criação
não uma visão única. Também não há dúvida de associações de Psicologia, realização de
de que o pensamento contra-hegemônico congressos e, especialmente, pelo aumento
foi profícuo e original, expressão também do dos campos de atuação da Psicologia que, da
momento histórico do qual fez parte. educação, estende-se para a organização do
trabalho e para a prática clínica. Destaque
O processo de consolidação da deve ser dado ao fato de que muitas instâncias
governamentais tiveram, na Psicologia, uma
psicologia
das bases científicas para a intervenção social,
com especial ênfase nas questões relacionadas
Os movimentos gestados nas primeiras
ao trabalho e a sua racionalização. Esses
décadas do século XX culminaram com o
fatores condicionam o que se pode considerar
golpe de outubro de 1930, constituindo-
como o processo de consolidação da
se em marco para uma série de mudanças
Psicologia no Brasil, que, por sua vez, gerou
de ordem econômica, política e social. A
as condições para que, em 1962, a profissão
política econômica atrelada aos interesses
de psicólogo fosse reconhecida. Em outras
dos setores agrários, sobretudo aqueles
palavras, foi nesse período que a Psicologia,
relacionados à produção e à exportação de
respondendo a demandas impostas pelo
café, geraram um amplo descontentamento
modelo desenvolvimentista de economia e
na sociedade brasileira, culminando com a
de uma política de intervenção do Estado
já referida Revolução de 30. Esse movimento
no processo produtivo, se estabelece como
que se sagrou vitorioso excluiu, de certa
ciência reconhecida e se consolidam as
maneira, as camadas populares, já que foi
modalidades de atuação prática que, pode-
conduzido por representantes das camadas
se dizer, gestaram as condições para sua
médias, como intelectuais e militares, e
consolidação como ciência e profissão, sendo
por setores da classe dominante, como a
burguesia industrial emergente, no interior

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essa última a que se oficializaria a partir da o trabalho realizado com base na ciência
Lei nº 4119 (Lourenço Filho, 1971a,b). psicológica se consolidasse como modalidade
específica de atuação profissional e que desse
Entre as instituições públicas que sustentação para a reivindicação de seu
incorporaram a Psicologia e que contribuíram reconhecimento legal.
para seu desenvolvimento e difusão,
encontra-se o Instituto Nacional de Estudos Houve, nessa época, um rápido
Pedagógicos – INEP, sediado na capital do desenvolvimento da Psicologia, relacionado,
País, Rio de Janeiro, e que estendeu sua sobretudo, às demandas oriundas de uma
ação para os demais Estados da Federação sociedade que se transformava na direção da
e até para países próximos. Sua atuação industrialização e cujas contradições exigiam
incluiu a oferta de estágios e de cursos ações que poderiam ter na ciência psicológica
de aperfeiçoamento para professores de um poderoso substrato de natureza científica
Psicologia e chefes de serviços educacionais, e técnica (representada especialmente pelos
incluindo serviços de Psicologia aplicada e de instrumentos de medidas psicológicas). Assim,
medidas educacionais, além da publicação a Psicologia se desenvolve, se fortalece e
da Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, se consolida, como ciência e profissão, na
profícua fonte de difusão de pesquisas medida de sua capacidade de responder às
e de estudos relacionados à Psicologia necessidades geradas por um projeto político,
educacional. econômico e social dirigido pela nova classe
dominante, a emergente burguesia industrial,
O Instituto de Seleção e Orientação que tem na modernização a base para suas
Profissional – ISOP, criado na década de realizações no campo das ideias e da gestão
40 por Getúlio Vargas, foi outra importante de seus negócios e da sociedade.
instituição que, com a finalidade de formar
técnicos para a indústria e o comércio, foi Entretanto, não se pode dizer que esse
base para o desenvolvimento de pesquisas, período tenha sido homogêneo e não tenha
de diversas modalidades de intervenção apresentado contradições; ideias e ações
psicológica e de formação de profissionais divergentes ou contrapostas ao que era
especialistas nas questões psicológicas corrente foram produzidas e difundidas.
relacionadas à organização do trabalho.
Nesse momento em que os testes eram
Uma das mais importantes bases para o considerados a técnica por excelência da
desenvolvimento da modalidade clínica de Psicologia, pois eram calcados na objetividade
atuação deve-se aos Serviços de Orientação e, portanto, tidos como produtos inegáveis da
Infantil, criados no Rio de Janeiro e em São ciência (de uma dada concepção de ciência),
Paulo, na década de 40, nas Diretorias de ocorreram também críticas e utilização
Ensino, para atendimento de crianças com distinta do que era corrente na época. Helena
queixas escolares. A estas junta-se a Clínica Antipoff realizou uma pesquisa em Belo
do Instituto Sedes Sapientiae, fundada e Horizonte, no início dos anos 30, em que
dirigida por Madre Cristina Sodré Dória, conclui que os testes mediam não apenas o
com a mesma finalidade de atendimento a que se supunha ser a inteligência mas também
escolares. as condições materiais e sociais de existência
da criança. Com isso, a ideia do teste como
É possível afirmar que estas, entre outras um instrumento absolutamente objetivo,
muitas realizações no campo da Psicologia, como o consideravam seus defensores, é
foram as condições fundamentais para que questionada. Antipoff, por outro lado, não
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negou a importância dos testes, chegando de Psicologia Aplicada, a Sociedade de


mesmo a criar o teste Minhas Mãos, mas Psicologia de São Paulo e a Associação
utilizou-os de maneira distinta, com a Brasileira de Psicólogos analisam, em 1961,
finalidade de melhor conhecer o educando o substitutivo do projeto em tramitação na
e sobre ele poder intervir, oferecendo Câmara dos Deputados. Em 27 de agosto
condições adequadas para a aprendizagem. de 1962, é aprovada a Lei nº 4119, que
Foi ela também pioneira, junto com Ulysses regulamenta a profissão de psicólogo e
Pernambucano, na educação de crianças com estabelece o currículo mínimo para sua
deficiência intelectual, além da educação dos formação. No ano seguinte, o Ministério
chamados superdotados e da educação rural. da Educação publica uma portaria sobre a
atuação da Comissão Especial de Registro de
Muitas outras ações empreendidas nesse Psicólogos. Em 1964, o Decreto n° 53.464,
de 21/01/64, regulamenta a Lei nº 4119/62
período caracterizam-se pela contraposição
(Lourenço Filho, 1971a,b).
às práticas hegemônicas. Além disso, vários
personagens dessa época, como Mira y
Lopez, diretor do referido ISOP, foram A psicologia como profissão
considerados adeptos do pensamento de regulamentada, ampliação
esquerda, e, por esse motivo, perseguidos dos campos de atuação e
e limitados em suas possibilidades de ação compromisso social
e de expressão de ideias. Vale dizer que, na
década de 40, Henri Wallon esteve no Brasil, Há 50 anos, portanto, foi aprovada a Lei nº
a convite do Partido Comunista, fato esse não 4119, que reconheceu a profissão de psicólogo,
referido ou apenas pontualmente citado na com uma emenda sobre os cursos de formação
historiografia da área no Brasil. desse profissional e de seu currículo mínimo.
Esse foi o ponto de culminância de uma
As realizações da Psicologia, nesse período, dura e longa luta, principalmente em relação
seja como área de saber, seja como campo à oposição de um grupo de médicos, que
de práticas, submetidas aos interesses exigia o veto ao exercício da psicoterapia por
dominantes ou a eles opostas, deram grande profissionais que não tivessem formação em
impulso a seu desenvolvimento, engendrando Medicina. Mais tarde, essa questão retornou
as condições para seu reconhecimento como nos projetos dos Deputados Kassab e Julianelli,
profissão. sendo que atualmente está em cena de novo
no projeto de lei do Ato Médico.
Segundo Lourenço Filho (1971a,b), em
1953, professores de Faculdades de Filosofia Menos de dois anos depois da regulamentação
solicitaram uma seção especializada de da profissão de psicólogo, um golpe militar
Psicologia em Faculdades de Filosofia, instaura uma ditadura que perdurou até
Ciências e Letras. A Associação Brasileira de os anos 80. Nesse estado de exceção,
Psicotécnica encaminha, nesse mesmo ano, entre tantas desventuras e retrocessos, foi
ao Ministério da Educação, um anteprojeto promulgada a Lei n° 5540 (Saviani, 1987),
de lei para a regulamentação da profissão de mais conhecida como Reforma Universitária
psicologista e de sua formação, que recebe, de 1968, produto dos acordos MEC-USAID.
em 1957, parecer favorável do Conselho Essa lei, aprovada à revelia dos grupos
Nacional de Educação. No ano seguinte, diretamente interessados na questão da
o Executivo envia ao Congresso mensagem expansão de vagas no ensino superior,
sobre a referida lei. A Associação Brasileira promoveu a abertura do ensino superior

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para a iniciativa privada e estabeleceu porque atraía maior número de alunos,


mecanismos para reprimir e impedir os tornando-se privilegiado nos currículos,
movimentos estudantis e docentes, que se mas não garantindo ao psicólogo meios
constituíam, naquele momento, em um das de subsistência, pela demanda restrita e
mais organizados movimentos de oposição pelo número de profissionais disponíveis.
ao regime militar. Condição parecida verificou-se no campo
do trabalho, que restringiu seu acesso aos
A proliferação de instituições privadas de psicólogos se comparado ao período anterior,
ensino superior foi uma das consequências ficando o profissional muitas vezes reduzido
dessa reforma, muitas das quais criadas à condição de mero aplicador de testes em
em condições acadêmicas precárias, e tarefas de seleção de pessoal. Críticas foram
que ofereciam cursos de baixo custo e alta feitas ao caráter elitista e restrito da Psicologia
rentabilidade, sem garantia de formação clínica e ao comprometimento da Psicologia
adequada de seus alunos. A maioria do trabalho muito mais com os interesses do
dessas instituições foi criada com vocação capital do que com os do trabalhador.
meramente mercantilista. Muitos cursos
particulares foram criados nos anos 70, Em relação à Psicologia na educação, as
respondendo a uma demanda cada vez críticas foram muitas, e vieram tanto da
maior pelo ensino superior e a um interesse Psicologia como da educação. De um
crescente pela Psicologia. lado, havia uma hipertrofia da Psicologia
na educação, incorporada à Pedagogia e à
Nessa época, foram criados muitos cursos de prática educativa, e, por outro lado, a atuação
Psicologia que, para garantir a lucratividade, do psicólogo na escola baseava-se em uma
reduziam o número de disciplinas ao perspectiva clínica, no atendimento individual
currículo mínimo, com docentes submetidos de crianças consideradas portadoras de
a baixos salários e com número elevado problemas fora da sala de aula ou na
de alunos por sala de aula. Um grande realização de psicodiagnósticos para emitir
contingente de alunos oriundos das camadas laudos a fim de encaminhar alunos para
menos privilegiadas economicamente, que classes especiais.
necessitavam estudar no período noturno
para, com seu trabalho, pagar os custos de um Entretanto, essa condição gerou muitas
curso superior muitas vezes de futuro incerto, críticas, tanto de educadores como de
formavam o corpo discente de muitas dessas psicólogos. Criticava-se o uso abusivo dos
instituições. A falta de docentes qualificados, testes e apontavam-se as consequências para
a precariedade das suas condições de o aluno, pois os resultados eram interpretados
trabalho, as atividades restritas apenas ao como atribuições próprias do sujeito,
ensino, desvinculadas da extensão e da responsabilizando-o pelos ditos problemas de
pesquisa, contribuíram para uma crescente aprendizagem, entre outros. As decorrências
perda de qualidade do ensino da Psicologia. dessa prática foram nefastas para muitas
A isso deve-se acrescentar que o número crianças, condenando-as muitas vezes a uma
de psicólogos formados era muito maior do classe especial que as relegava a um ensino
que o mercado de trabalho demandava, incipiente, o que confirmava o diagnóstico e
em franco retraimento para a atuação do produzia de fato uma deficiência intelectual
psicólogo se comparado ao período anterior com todos os seus estigmas. Essa prática
ao da regulamentação da profissão. acabava por culpabilizar a criança e a família,
e obscurecia os determinantes intraescolares
O campo da clínica expandiu-se, sobretudo da maioria dos problemas.

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Outro conjunto de críticas referia-se à adoção Também contraditória era a relação com o
do modelo médico, base da atuação de conhecimento produzido pela Psicologia,
muitos psicólogos escolares, cuja ação era reproduzido nos cursos de formação e
fundamentalmente clínica, em detrimento confrontados com a realidade. A formação
de ações mais propriamente pedagógicas do psicólogo nos primeiros tempos da
e coletivas, como a contribuição para o Psicologia reconhecida como profissão
processo de formação de professores. era, em geral, baseada na reprodução de
Foram poucos os trabalhos que assumiram teorias e pesquisas estrangeiras, vindas
um modelo mais educacional, procurando principalmente dos Estados Unidos e da
intervir na escola de maneira mais ampla. Europa e transplantadas mecanicamente para
Foram esses os trabalhos que negaram a a nossa realidade, quando não aligeiradas
Psicologia escolar clínica e individualizante e a e difundidas precariamente por obras de
superaram, firmando-se, ainda que de forma comentadores e não dos autores originais,
minoritária, por longo tempo, e permitiram obedecendo a uma lógica de mercado
que se chegasse ao desenvolvimento atual editorial precária e limitada. Assim, a crítica
desse campo de atuação. à prática profissional do psicólogo fez-se
acompanhar também da crítica teórica e do
Percebe-se, assim, que esse período constituiu questionamento da maneira como tais teorias
um campo rico de contradições na Psicologia, eram aqui difundidas.
expressão do momento vivido pela sociedade
brasileira como um todo, que, sob o jugo de A produção de conhecimento em Psicologia
uma ditadura militar, enfrentava o estado de expandiu-se e deu um salto de qualidade, em
exceção criando formas de resistência que se grande parte com a implantação de alguns
expressavam por uma cada vez mais ampla cursos de pós-graduação que, embora com
luta pela democratização do País. recursos escassos, conseguiram produzir
críticas fundamentadas e articuladas aos
Foi nessa condição que a Psicologia logrou, problemas sociais, produzindo um significativo
nesse período, um desenvolvimento sem acervo de conhecimento original e criativo.
precedentes, ampliando gradativamente seu A carência de investimentos em pesquisa no
espectro de atuação e buscando respostas para Brasil, associada à complexidade de nossa
os problemas sociais, inicialmente no interior realidade e a seus múltiplos problemas,
dos campos tradicionais: educação, trabalho constituíram-se em condições relevantes
e clínica, e, posteriormente, ensaiando para que a originalidade e a criatividade
e implantando novas modalidades de se tornassem marcas da produção de
intervenção, como a Psicologia comunitária, conhecimento psicológico, relacionadas à
a Psicologia hospitalar (que mais tarde multiplicidade de aspectos de seu objeto de
se expande para a saúde) e a Psicologia estudo e à adoção de diferentes perspectivas
jurídica, entre outras, que se consolidariam metodológicas.
e ampliariam sua capacidade de responder
às demandas antes não atendidas e a outras A expansão da pós-graduação produziu
acarretadas por problemas sociais então melhorias na qualidade da formação
emergentes. Em outras palavras, a Psicologia do psicólogo, embora ainda de forma
passou a se preocupar com a maioria da desigual, pois a articulação entre ensino
população e seus problemas, com um e pesquisa não se efetivou para todos os
claro compromisso social, tendo em vista a cursos, ficando limitada às instituições
transformação da sociedade. que garantiam as condições de trabalho

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necessárias para a concretização do princípio construção e o acompanhamento dessas


de indissociabilidade entre ensino, pesquisa políticas.
e extensão.
A organização da categoria de psicólogos Entretanto, há muitas oposições, muitas delas
foi um fator de grande relevância para ainda não identificadas, outras pouco claras
esse processo de transformação. Muitas e algumas já antigas e em pleno processo de
das entidades representativas da Psicologia acirramento. Apenas a título de ilustração,
assumiram papéis de grande relevância destacar-se-á uma delas, que não apenas
na transformação da Psicologia no Brasil, demonstra esse fato mas também o caráter
fomentando a crítica e proporcionando contraditório da realidade histórica em geral.
condições para o debate e para a busca Trata-se da coexistência de uma Psicologia
de soluções e possibilidades de superação que avançou para uma ampliação em
daquela Psicologia limitada e elitista, em seu espectro de ação e que se consolidou
direção à constituição de uma ciência e de como instância social comprometida com
uma profissão radicada em sua realidade e a construção de uma sociedade mais justa
com ela comprometida. e igualitária e uma psicologia que ainda
se submete a concepções tradicionais e
Pode-se afirmar, assim, que a Psicologia no ultrapassadas, que não se atualiza e que
Brasil passou por significativas transformações atua com base em modelos que já foram
nesse período que se seguiu à regulamentação analisados, criticados e superados há décadas.
da profissão. Das limitações teóricas e O movimento histórico é, pois, heterogêneo,
da escassez de mercado de trabalho, da e há segmentos que tomam a dianteira
precariedade de formação de grande do processo, outros que respondem mais
contingente de formandos, das limitações dos tardiamente e outros que resistem.
campos de atuação, do comprometimento
com interesses dominantes à crítica que Considerações finais
identificava as contradições e buscava
a superação tanto de suas teorias como Ao passar pelos diferentes períodos da
de suas modalidades práticas, buscando história da Psicologia no Brasil, este texto não
comprometer-se com os interesses e pretendeu apresentar um quadro histórico
necessidades da maioria da população, a da constituição dessa ciência em nosso país
Psicologia caminhou para um novo patamar nem tampouco abordar todas as contradições
de produção e para um salto qualitativo em nele presentes. Pretendeu-se tão somente
sua atuação profissional. mostrar, a partir de algumas situações
ou produções, o movimento histórico
Esse processo é confirmado, entre muitas produzido pela coexistência e pelo embate
outras possibilidades, pela presença do de elementos antagônicos que produzem as
psicólogo nos serviços públicos, assumindo transformações, gerando o novo e superando
cargos efetivos e desempenhando funções as condições precedentes.
legalmente prescritas. Nessa condição, o
mais relevante é que, em geral, a inserção É possível perceber que ideias e práticas
desse profissional ocorre no âmbito da foram hegemônicas em determinados
concretização de políticas públicas voltadas momentos históricos, mas nunca constituíram
para as necessidades e para a promoção blocos monolíticos, estáticos e homogêneos.
dos indivíduos das camadas populares, e Posições e concepções diferentes, divergentes
muitas vezes atua em coletivos intersetoriais e opostas coexistiram e foram elas que, na
e contribui também para a elaboração, a

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contraposição, provocaram mudanças e realidade que já não mais está disponível


saltos de qualidade. empiricamente em sua integralidade e cujo
conhecimento é necessário para que se possa
Esse processo, aqui pontualmente compreender a gênese e o movimento como
exemplificado por alguns fatos na história processos constitutivos de nosso objeto de
da Psicologia no Brasil, é inerente à realidade estudo, a Psicologia no Brasil, com a certeza
em geral. Por esse motivo, insiste-se na busca de que muitos estudos e pesquisas são
de estudos históricos que sejam capazes de necessários para que essa compreensão se
identificar e de entender essas contradições aprofunde e se amplie.
como forma de aproximação com uma

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Doutorado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora titular do Departamento de
Fundamentos da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo – SP – Brasil.
E-mail: miantunes@pucsp.br

Endereço para envio de correspondência:


Rua Artur de Azevedo 166, ap.11-E. São Paulo – SP - Brasil. CEP: 05404-000

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