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MÍDIA

Interação social
e novas mídias:
elementos para
uma análise da
interação
mediada 1 Introdução

A Exposição Mundial 2000 (Expo 2000)


RESUMO em Hannover, Alemanha, teve como tema
Diante do uso crescente de novas mídias, em especial da “Seres humanos, natureza e tecnologia”.
internet, estamos con fron ta dos com algumas questões Os pavilhões temáticos e dos países foram
que merecem uma atenção mais acurada: de que forma organizados com o objetivo de explorar
as novas mídias são encaradas como parte da interação o tema, tentando apresentar o estado
humana? Quais as conseqüências de interfaces interativas da arte, bem como identificar algumas
para a interação social? Este artigo faz uma reflexão teórica características futuras da vida humana.
preliminar em torno dessas questões, investigando a hipótese Pelo menos dois aspectos comuns
de as novas mídias fornecerem novos elementos para a puderam ser identificados na maioria dos
interação social. A abordagem do interacionismo simbólico, pavilhões: a estrutura dos pavilhões e,
embora se limitando à análise da interação face a face, servirá relacionado a isso, a maneira como as
como ponto de partida para essa discussão. mensagens eram transmitidas.
Com pouquíssimas exceções, a
ABSTRACT maioria dos pavilhões estava estruturada
In face of the ubiquity of new media nowadays, especially the de forma a que os visitantes não pudessem
Internet, we are confronted with some questions that deserve escolher qual caminho eles gostariam de
a more accurate attention: how are new media regarded in seguir: uma entrada e uma saída estavam
relation to human interactions? Which are the consequences claramente demarcadas. Ninguém tinha
of interactive interfaces for social interaction? This article a permissão de quebrar esta estrutura,
develops a preliminary theoretical reflection upon these porque assim era a maneira como os
issues, investigating the hypothesis that new media provide indivíduos deveriam receber a “mensagem”
new elements for social interaction. The approach of symbolic do pavilhão. Havia, supostamente, uma
interactionism, although limited to face-to-face interaction, is mensagem a ser comunicada e a forma
the starting point of this discussion. como essa comunicação deveria se dar
estava definida ex ante. Nesse sentido, o
PALAVRAS-CHAVE (KEY WORDS) conteúdo era permanente e não poderia
- Interação social (Social interaction) ser modificado de acordo com o desejo
- Novas mídias (New media) do observador. De fato, estruturados
- Interacionismo simbólico (symbolic interactionism) desta forma, os pavilhões não tinham a
disposição de se comunicar com indivíduos,
mas com uma massa de indivíduos, sem
considerar seus pontos de vista, sua
história, experiência e desejo.
Hermílio Santos 1 Uma outra característica comum a
Professor do IFCH / PUCRS
muitos pavilhões da Expo 2000 era o uso

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de mídias eletrônicas como suporte para a face, apesar das nuanças que marcam
as mensagens. Vídeos eram responsáveis cada forma interativa. Um ou tro vício
por trans mi tir as mensagens para um comum – este mais freqüente em estudos
grande público. A postura individual não sobre tecnologias – é descrever as funções
raramente era de passividade diante de que futuros aparelhos de alta tecnologia
imagens coloridas, e, possivelmente, talvez possam ter em nossas vidas. Indivíduos são
fosse essa a postura esperada. O tipo de vistos apenas como “usuários” ou “clientes”
mídia era, de alguma forma, coerente com de tecnologias e não tanto como sujeitos
a organização física dos pavilhões. Assim envolvidos acima de tudo em relações
como os pavilhões, as mídias selecionadas interativas. O principal problema neste caso
permitiam unicamente uma comunicação de é pensar a interação tendo como ponto de
mão única, com muito pouco espaço para partida máquinas e tecnologias.
aquilo que denominamos interatividade. O surgimento de mídias mais
Isso não equivale a fazer coro com aqueles interativas, ou ao menos com um potencial
que vêem as pessoas como “receptáculos in te ra ti vo mais evidenciado, apresenta
passivos de manipulação ide o ló gi ca” novas e importantes questões, sobretudo
quando expostas às mídias de massa. no que diz respeito às particularidades da
Com essa breve descrição sobre a interação mediada e, por conseguinte, das
aplicação social das mídias durante a Expo suas possíveis conseqüências. Entretanto,
2000, pre ten de-se tão-somente ilustrar no Brasil, estudos teóricos das ciências
como ocorre grande parte da comunicação sociais sobre tais questões ainda são
no mundo con tem po râ neo, apesar da bastante in ci pi en tes. São sobretudo os
existência de meios de comunicação mais teóricos da co mu ni ca ção que vêm, no
interativos. A questão, portanto, não é tanto Brasil, se de bru çan do so bre questões
quanto à escolha da tecnologia “correta”, similares, com uma agenda de pesquisas e
mas muito mais de atitude em relação à preocupações teóricas próprias. As mídias
interação social. Neste contexto estamos interativas têm des per ta do igual men te
con fron ta dos com algumas questões a atenção de psi có lo gos, in te res sa dos
em re la ção ao uso de tecnologias de nas particularidades cog ni ti vas des sas
comunicação no dia-a-dia: de que forma novas tecnologias, além de fazerem parte
as novas mí di as são en ca ra das como da estratégia de administradores, tanto
parte da interação humana? Quais as públicos quanto privados.
conseqüências de in ter fa ces in te ra ti vas Será investigada a hipótese de as
para a interação social? E, finalmente, mí di as eletrônicas fornecerem novos
de que forma as mídias são capazes de elementos para a interação social e que,
reforçar a habilidade dos indivíduos de por esta razão, caberia investigar quais
interagirem socialmente? seriam pre ci sa men te esses fatores a
Explorando tais questões, pelo influenciar a interação e sua relação com
menos dois vícios devem ser evitados. Um eventuais trans for ma ções no processo
deles é a tendência de encarar os novos interativo. Mais pre ci sa men te, nossa
ins tru men tos de comunicação somente discussão procurará investigar se, e de que
com nossas melhores expectativas, que forma, as novas mídias representam um
infelizmente ain da não puderam ser instrumento capaz de otimizar a interação
preenchidas. O pro ble ma aqui é que, social, tornando a comunicação mais ágil
mesmo que tais instrumentos passem a e flexível, mas acima de tudo preservando
ser utilizados com maior freqüência, suas a singularidade da comunicação daqueles
possibilidades e limitações para a interação envolvidos no pro ces so de interação
dificilmente podem ser concebidas sem mediada. Nesse contexto, singularidade
levar em consideração a interação face é entendida como a pos si bi li da de que

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cada indivíduo envolvido em um processo coisas?
de interação possui para mo di fi car o A resposta a tal questão devemos
conteúdo do processo comunicativo, no en con trar na segunda premissa do
sentido de que é possível a qualquer um interacionismo simbólico. Essa abordagem
“a transmissão de sua própria substância” oferece uma resposta distinta tanto daquela
(Simmel, 1971:44), o que, segundo Simmel, do realismo filosófico, para o qual o sentido
constitui a natureza mesma da interação. é in trín se co aos próprios elementos,
Este intercâmbio significa que a soma dos quanto do sub je ti vis mo, que assume o
valores é maior ao final do que antes de ter sentido como sendo expressão de fatores
sido estabelecida uma relação interativa, o psicológicos. A resposta do interacionismo
que implica que cada parte dá à outra mais simbólico é que o sentido é produzido
do que cada uma possuía anteriormente através do processo de interação social.
(Simmel, id.: 43-44). A abordagem Um sistema social é caracterizado
sociológica do interacionismo simbólico – pela in te ra ção do ego (I) com o alter
que será apresentado brevemente a seguir (me), mu tu a men te orientados. A
– irá nos fornecer a principal base teórica com ple men ta ri da de ou reciprocidade é
para a presente discussão. possível em razão das condições prévias
da existência de uma comunicação através
de um “sistema co mum de símbolos”
2 Em torno da interação social ou “cultura comum” (Par sons, 1962:
105). O sistema de símbolos possui um
Herbert Blumer identifica duas formas de sentido normativo, de forma tal capaz de
interação social, a chamada “interação criar, por parte do ego e do alter, ações
não-simbólica” e a outra precisamente correspondentes e possíveis. De acordo
“interação simbólica” (Blumer, 1969:8). A com George Herbert Mead (1972), o ego
in te ra ção não-simbólica ocorre quando é a resposta, incerta, que um indivíduo
se reage diretamente à ação de um dá às atitudes de outros em relação a
outro sem que se interprete tal ação; por ele quan do este assume uma atitude
exemplo através de reflexos do corpo. Ao em relação aos outros. O alter é o grupo
contrário, a interação simbólica implica organizado de atitudes das respostas dos
interpretação dos atos. Este segundo tipo outros que o indivíduo assume enquanto
de interação é bastante mais complexo e suas. A fusão de ambos, ego e alter,
constitui o fundamento para a abordagem articula a constituição do self, o sujeito de
do interacionismo simbólico. ações em um sistema social. De acordo
O interacionismo simbólico está com Mead, o processo no qual surge o
fundado em três premissas (Blumer, 1969: self é um processo social, que envolve a
2-5). A primeira delas é que seres humanos interação de indivíduos do grupo e envolve
agem em relação ao mundo baseados no a preexistência do grupo (Mead, 1972:
sentido de elementos tais como objetos 164). O self é algo distinto do organismo
físicos (árvore ou cadeira), outras pessoas fisiológico de um in di ví duo, não está
(mãe ou mo to ris ta de táxi), categorias presente desde seu nas ci men to, mas
de seres humanos (amigos e inimigos), surge acima de tudo através do processo
ins ti tui ções (escola ou governo), ideais de atividades sociais, ou seja, através da
(independência individual e honestidade) relação com outros indivíduos.
e assim por diante. Para se proceder a É impossível conceber a constituição do
análise do processo de interação não se self fora da experiência social, apartada da
pode negligenciar o sentido fornecido por interação entre indivíduos. Isso equivale a
tais elementos. Entretanto, de onde vem dizer que o self apenas pode surgir quando
o sentido que as pessoas conferem às em comunicação com outras pes so as

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atra vés de símbolos. Neste sentido, o entre indivíduos? Eles reproduzem os
assumir papéis é um processo fundamental mecanismos de interação face a face ou,
na constituição do self, e marcado por três ao contrário, são capazes de recriar a
fases: a) a fase preparatória, a fase da interação humana? Se for o caso, sob
repetição; b) a fase do brincar (play), na quais condições ocorrem as novas formas
qual o indivíduo aprende como assumir de interação?
papéis e c) a fase do jogo (game), quando Tais questões norteiam a discussão a
o in di ví duo é confrontado com o outro seguir, contudo sua exploração será feita
generalizado, ou seja, quando o indivíduo de maneira experimental e preliminar.
atua de acordo com as expectativas das 3 Em torno da interação mediada
ações dos outros que tomam parte no jogo
(conf. Mead, 1972, Parte III). Aqui, “outros” Em uma passagem de Mind, Self and
re fe re-se à organização das atitudes Society, Mead afirma que “…if the social
daqueles envolvidos no mesmo processo. relation can be carried on further and further
A interação ocorre quando se dá a adoção then you can conceivably be a neighbor to
recíproca de papéis, ou seja, quando everybody in your block, in your community,
dois ou mais indivíduos fazem inferências in the world,…What is essential is the
sobre seus próprios papéis e assumem development of the whole mechanism of
simbolicamente – não fisicamente – o papel social relationship which brings us together,
do outro, utilizando este processo enquanto so that we can take the attitude of the
orientação para suas ações (Berlo, 1999: other in our various life-processes” (Mead,
131). 1972:272). Com tal afirmação, Mead não
A terceira premissa deixa ainda mais preconiza a existência da internet e de
clara a abordagem do interacionismo novas mídias interativas, mas antecipa,
simbólico, o qual sustenta que tais sentidos de certa forma, a preocupação com os
mencionados acima são manipulados e mecanismos da interação social, qualquer
modificados por um processo interpretativo que seja seu contexto. Isso parece legitimar
adotado pela pessoa em relação aos a hipótese de que, embora a mediação da
elementos com os quais a pessoa entra interação social por veículos eletrônicos de
em con ta to. O pro ces so interpretativo comunicação possa apresentar relevantes
com pre en de duas fases distintas: na e profundas particularidades em relação à
primeira, a pessoa que age estabelece a interação face a face, seu ponto de partida
si mesma os elementos com os quais tem analítico ainda é a interação não-mediada.
relação, isto é, a pessoa deve especificar O que se quer dizer com isso é que ao
os elementos que gozam de sentido. menos parte considerável dos problemas
A segunda fase, após o processo de presentes na interação face a face parece
autocomunicação, a interpretação implica estar igualmente presente na interação
uma manipulação de sentidos, na qual o mediada. Com isso, exploramos a seguir
agente seleciona, reagrupa e transforma os alguns as pec tos da interação mediada
sentidos de acordo com o ponto de vista da que merecem ser investigados mais
situação na qual ele está confrontado e que detidamente.
está relacionado com suas ações (Blumer, Antes de prosseguirmos, entretanto,
1969:5). con vém chamar a atenção para uma
Até aqui discutimos unicamente o dis tin ção fundamental entre interação
processo de interação face a face. Mas quase me di a da e interação mediada,
como analisar a interação mediada? Qual levada a cabo por Thompson (1998). O
é exa ta men te o papel exercido pelos objeto de estudo de Thompson é a mídia
novos meios eletrônicos mediadores de do ponto de vista sociológico, no qual seu
comunicação no que concerne à interação olhar está di re ci o na do para as formas

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de interação proporcionadas pela mídia. parece ser a investigação da singularidade
Sua preocupação está fundamentada na na interação criada por mídias capazes
hipótese dos novos meios de comunicação de reduzir o cons tran gi men to temporal
criarem “novas formas de ação e de nas relações interpessoais, ao mesmo
interação e novos tipos de relacionamentos tempo que as remetem para um novo
sociais ...” (Thompson, 1998: 77). tipo de espaço, onde tais relações ainda
Interação quase mediada, de encontram condições de se concretizarem.
acordo com a definição de Thompson, é A singularidade se deve ao fato de permitir
aquela rea li za da através dos meios de respostas e interpretações simultâneas,
comunicação de mas sa (livros, jornais, mesmo que provocando uma redução no
rádio, televisão, etc.). Nes te caso, a fluxo de “deixas simbólicas” (Thompson,
interação se dissemina através do espaço id.:79). Essas deixas simbólicas são
e do tempo, com as formas simbólicas com ple men tos gestuais ou sonoros à
sendo produzidas para um número não comunicação, como sorrisos, mudanças na
definido de receptores (Thompson, id.: 79). entonação da voz, gestos, etc. Evidente que
Embora possa ser considerada uma forma a possibilidade de comunicação em tempo
possível de interação, com intercâmbio de real, ou sincrônico, não é suficiente para
formas simbólicas, seu caráter monológico colocar esse tipo de interação mediada no
e de baixa reciprocidade não representa o mesmo nível da interação face a face, na
surgimento de novas formas interativas nem qual os referenciais de tempo e espaço
tampouco novas formas de relacionamento dos atores envolvidos são simétricos,
social, ou pelo menos formas que já não ex ce tu an do situações particulares, por
tenham sido objeto de amplas e profundas exemplo quando se interage com pessoas
investigações, sobretudo pelos teóricos da que sofrem de autismo.
comunicação. Parte considerável da comunicação
De acordo com Thompson, mediada tem se consumado por intermédio
interações mediadas “implicam o uso de do computador, via internet. Segundo
um meio téc ni co (papel, fios elétricos, Lévy, o computador se tornou “...um
ondas ele tro mag né ti cas, etc.) que desses dispositivos técnicos pelos quais
possibilita a transmissão de informação percebemos o mundo, e isto não apenas
e conteúdo simbólico para indivíduos em um plano empírico....mas também em
situados remotamente no es pa ço, no um plano transcendental ...., pois ... cada
tempo, ou em ambos” (Thompson, id.:78). vez mais concebemos o social, os seres
Diferentemente, portanto, da in te ra ção vivos ou os processos cognitivos através
face a face, que implica um con tex to de uma matriz de leitura informática” (Lévy,
de co-presença, aqueles envolvidos 1999: 15). Tal afirmação parece corroborar
em in te ra ções mediadas podem estar a conhecida afirmação de McLuhan de que
situados em tempos e espaços distintos. O “o meio é a mensagem” no sentido de que
desenvolvimento de novas mídias procura “..as conseqüências sociais e pessoais de
precisamente permitir que a interação se qualquer meio ... constituem o resultado do
dê em tempo real, ainda que em espaços novo estalão introduzido em nossas vidas
distintos, de forma sincrônica. Na verdade, por uma nova tecnologia ou extensão de
as no vas mídias permitem melhor a nós mesmos” (McLuhan, 1996: 21). De
criação de outros espaços paralelos maneira simplificada, devemos entender
ao espaço físico. No espaço digital nós tais afir ma ções como postulando a
nos movimentamos sem que a distância idéia de que cada nova introdução de
cumpra um papel fundamental (Sandbothe, profundas mudanças tec no ló gi cas, em
1997: 65). Trata-se dos espaços virtuais especial das tecnologias de comunicação,
ou ciberespaço. Aqui, a questão central corresponderia ao de sen vol vi men to

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de novas maneiras de pen sa men to e formação da iden ti da de dos envolvidos
convivência. Entretanto, as tec no lo gi as na interação me di a da, encarada como
não trazem já embutidas nelas as novas um elemento fun da men tal também na
formas de comportamento, sendo estas constituição das co mu ni da des virtuais.
o desdobramento incessante e dinâmico O cuidado com sua própria identidade,
da interação tanto dos indivíduos com as sua própria reputação, é um importante
tecnologias e máquinas quanto da interação elemento na formação de qualquer
entre os próprios indivíduos mediada pelas comunidade, já que exerce entre outras
tecnologias. Com isso se quer apenas funções o papel de elemento motivador
salientar o fato de que não apenas as ao pertencimento à determinada
tecnologias são historicamente distintas, comunidade (Donath, 2000: 29-31). Esses
pro vo can do reações e combinações pon tos nos conduzem inevitavelmente
diferentes de comportamento, mas que a uma outra ordem de questões, ou
são igualmente diversos os contextos seja, à própria existência do que se
socioculturais em que tecnologias similares denomina “ciberespaço”, já mencionado
são introduzidas, o que tende a suscitar anteriormente. Para Graham, a internet não
novas e diferenciadas formas de interação oferece simplesmente uma grande janela
social, de acordo com o meio ambiente. de onde é possível observar o mundo,
O ambiente da comunicação mas nesse espaço é possível existir e agir
via in ter net pa re ce introduzir novos (Graham, 2000: 24). Isso significa que
elementos ao processo de definição de o ciberespaço possibilitaria a criação de
pertencimento à co le ti vi da de, uma vez uma maneira de ser, não necessariamente
que paralelamente à associação a uma coerente com a existência não-cibernética.
coletividade marcada por interações face
a face, aqueles que fazem uso das novas
mídias passam igualmente a compor uma 4 Conclusão
coletividade virtual ou cibernética. Para
além de suas características tecnológicas, O resultado dessa nossa reflexão
devemos estar preocupados com os inicial pode ser resumido da seguinte
efeitos das novas mídias interativas sobre maneira: primeiro, parece imprescindível
o mecanismo de interação social. De a ela bo ra ção de uma análise mais
interesse aqui parece ser a investigação consistente da interação social mediada
das particularidades da interação social por novas mídias in te ra ti vas, teórica e
me di a da por interfaces interativas e empiricamente mais fundamentada, para
se – e de que forma – tais interfaces que aqueles envolvidos no processo de
reforçariam as ha bi li da des interativas interação mediada, assim como aqueles
dos indivíduos ou, ao contrário, de que que propiciam tal me di a ção, estejam
maneira tais habilidades estariam sendo mais aptos a superar parte des ses
inibidas, e quais seriam as razões para impasses. Em segundo lugar, é preciso
uma ou outra tendência. É fundamental, decifrar as condições de possibilidade
portanto, descrever o processo interativo para a existência da interação social no
mediado e buscar possíveis explicações ciberespaço. Ademais, o estabelecimento
para o modus interativo próprio das novas dessas condições nos permitirá identificar
mídias interativas. Um tal empreendimento empiricamente os elementos comuns
apenas pode ser realizado a partir de uma e di ver gen tes entre a interação quase-
investigação empírica. mediada e interação mediada .
Uma outra importante questão
suscitada pelo uso intensivo de mídias
interativas é precisamente o processo de

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Nota MEAD, Georg H. Mind, self and society. Chicago: University of
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1 Doutor pela Freie Universität Berlin e professor da PUCRS
(hermilio@pucrs.br). McLUHAN, Marschall. Os meios de comunicação como
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